domingo, maio 05, 2013

EM NOME DO ÓDIO (29 MAIO 2012)

FELIZMENTE, escrevo cinco dias depois dos acontecimentos no final do jogo de basquete no Dragão que decidiu o título nacional a favor do Benfica. Assim, posso escrever com um conhecimento maior de todos os factos, e não apenas daqueles que inicialmente nos quiseram vender como versão oficial. E, sobretudo, posso escrever de cabeça fria.

Gostaria de começar por dizer que o futebol, o desporto, em geral, praticado pelos outros e a paixão clubística, não são, nunca foram e jamais serão parte importante ou decisiva da minha vida. Conforme os casos, sempre tive a maior pena ou desdém por aqueles que fazem da paixão clubística o alfa e o ómega das suas vidas. Que são capazes de perder dias inteiros a espreitar os treinos dos seus clubes ou apenas a admirar as bombas automobilísticas dos seus ídolos, de perder horas de discussão à mesa dos cafés por causa do penalty assim ou do off-side assado, de irem descarregar ódios e frustrações outras para os infectos blogues da net, e que, no limite, confundem os pobres valores do desporto profissional com os seus valores de vida. Sempre entendi que este mundo não é o mundo de gente com outros interesses, com valor e com valores, e dou graças à minha lucidez por nunca me ter sentido tentado a experimentar o chamado dirigismo desportivo ou a integrar aqueles deprimentes painéis futebolísticos da televisão, onde jamais se fala de futebol e apenas de arbitragens ( e para os quais, em verdade, apenas fui convidado uma vez, mas sumptuosamente pago, se tivesse aceite). Vejo com alguma curiosidade e preocupação a participação, por exemplo, de um Eduardo Barroso em ambas as actividades e, se não for demasiada presunção da minha parte, julgo detectar-lhe por vezes um mal-estar que ele próprio sentirá. Até porque aquilo está formatado para incentivar os discursos de cabeça quente, as afirmações sem reflexão e até o ódio. Acontece que o Eduardo Barroso é alguém a quem o país deve, alguém que pôs de pé um serviço clínico pioneiro e de vanguarda, aqui e no mundo inteiro, que salva vidas e faz coisas bem mais importantes do que dar chutos numa bola. E, sobre isso ainda, pelo pouco que dele conheço, é um homem livre, culto, inteligente, apaixonado pela vida. Compreendo que ele e outros se sintam um dia tentados a saltar para o outro lado, desejando ajudar o seu clube do coração. Mas há um preço e todos o sabemos: quando se passa da bancada para o camarote presidencial é forçoso ter de passar a conviver com gente que não convidaríamos para jantar em nossa casa e a quem tudo o que nos une é um acidente: a partilha do mesmo amor clubístico. Eu sei que ele sabe em quem eu estou agora a pensar. Mas, seja no Sporting, no Benfica ou no FC Porto, os camarotes presidenciais estão cheios de gente que não se recomenda.

Tudo isto a propósito da final do basquete, cuja apreciação vou dividir em três partes: Sport, Lisboa e Benfica.

SPORT

Depois de uma época em que o FC Porto ganhou folgadamente o campeonato nacional em todas as modalidades profissionais que o clube pratica (futebol, basquete, andebol e hóquei), esta época era decisiva para o Benfica conseguir estancar o massacre. Perdeu o futebol e o andebol, está à frente por um ponto no hóquei e, depois de uma fase regular em que se viu batido pelo FC Porto, chegou à situação de ter de ir ganhar a negra do play-off em pleno Dragão. Infelizmente, outros afazeres mais importantes (aí está...) impediram-me de ver o jogo, mas confio na justiça do triunfo benfiquista nesse jogo. E digo apenas nesse jogo, porque acho que o FC Porto teve algum azar na fase final e decisiva do campeonato. Primeiro, porque tendo ultrapassado com autoridade os quartos de final, viu-se subitamente sem adversário nas meias, devido à insólita desistência do CAB, arrastado pela falência estrondosa do governo modelo de Alberto João Jardim na Madeira. Assim, na fase em que as equipas são preparadas para atingirem o máximo da competitividade, o FC Porto ficou uns quinze dias sem jogar, à espera do adversário para a final. Depois, porque, tendo ganho sem sobressalto dois jogos do play-off, viu-se batido noutros dois pela diferença de um ponto e dois pontos e, no quinto e decisivo jogo, por três pontos. Mas, como disse, nem eu contesto o título do Benfica, nem ninguém do Porto o contestou. Parabéns aos novos campeões.

LISBOA

Na quinta-feira, ao almoço, tendo como única fonte os jornais desportivos da capital, dei os parabéns a um amigo benfiquista e acrescentei: «Parece que, ainda por cima, perdemos mal, perdemos à Benfica!». Mas, ao fim do dia, tudo tinha mudado: só nos haviam contado uma parte da verdade, a verdade que lhes é conveniente.

Meus caros amigos: dêem as voltas ao texto que quiserem, as imagens que vimos não são como as do túnel da Luz, onde só os juízes do Benfica conseguiram enxergar graves agressões. Estas são claras e nítidas e não têm duas interpretações: mal o árbitro acabou o jogo, os jogadores do Benfica juntaram-se no centro a festejar com o seu treinador - o que era mais do que legítimo. Mas, entretanto, o roupeiro do Benfica atirava uma toalha aos adeptos do Porto (e não era uma camisola autografada nem um cumprimento) e o treinador do Benfica fazia, varias vezes, um gesto que, não sendo motivado por uma súbita comichão na zona dos fundilhos das calças, só podia significar aquilo que todos percebemos: «Vão levar no c...». A frio, cinco dias depois, digo que, em cinquenta anos a ver desporto e transmissões televisivas no mundo inteiro, nunca tinha visto coisa tão rasca, tão ordinária, tão reles, vinda de um treinador. Se fosse na NBA, Carlos Lisboa acabava já aqui a sua curta carreira de treinador. Aliás, e para quem acha que graves foram os incidentes causados pelos adeptos portistas, digo-vos que foi uma sorte que o público de um pavilhão onde os espectadores estão praticamente em cima do terreno de jogo tenha reagido tão brandamente a provocações daquelas. Dizem que houve cadeiras pelo ar, mas eu não as vi — pelo menos enquanto a equipa do Benfica ali estava. E li, sim, o capitão do Benfica dizer que o que tinha sido arremessado foram «moedas e garrafas de plástico» e que nunca se apercebeu que alguém tivesse tentado forçar a entrada na cabina do Benfica.

Depois, entrou em cena a policia de choque, mas eu também não vi as imagens. Li comentários a dizer muito mal de Pinto da Costa, por estar de dedo em riste para os polícias, e ouvi o presidente do Benfica apoiar implicitamente a actuação da polícia, enquanto a Direcção do FC Porto falava em agressões gratuitas sobre espectadores indefesos, incluindo crianças. Não sei quem fala verdade, mas a experiência histórica diz-me que se há coisa que não mudou com a democracia foi a irresistível apetência da polícia de choque para carregar à bastonada sobre quem não a ameaça como vários exemplos recentes o testemunham e que, quando atingiram jornalistas, muito indignou a respectiva classe.

E há outra coisa que sei: se um presidente de um clube acha que está a assistir a agressões gratuitas e desnecessárias da polícia sobre os adeptos do seu clube, compete-lhe fazer o que fez Pinto da Costa e a sua Direcção: saltar lá para dentro e tentar parar com a acção policial. Ou preferem jogos sem espectadores e só com polícias?

E BENFICA

Nesse mesmo dia à noite, assisti, estarrecido, a um depoimento escrito(?) e lido pelo presidente do Benfica — já depois de serem conhecidas as esclarecedoras imagens do comportamento de Carlos Lisboa no Dragão Caixa e sem que nenhum ataque ao seu clube tivesse vindo da parte do FC Porto. Quero apenas dizer que jamais, também, tinha escutado uma tamanha declaração de injúrias, insultos e incitamento público ao ódio por parte de um dirigente desportivo. E é sintomático que, até hoje, não tenha lido um único comentário sobre isso na im- prensa desportiva da capital. E gostaria de acrescentar outra coisa: o Luís Filipe Vieira, que eu conheço e aprecio, não é aquele senhor que leu aquele comentário. E por isso, volto ao princípio deste texto: não há campeonato, nem jogo, nem paixão clubística, nem eleição no horizonte que justifique que se perca a cabeça ao ponto de esquecer os valores de vida em sociedade que são os nossos. Até porque tudo passa, até o que é importante: Luís Filipe Vieira e Pinto da Costa hão-de passar ambos, como eu e qualquer um de nós. E o Benfica e o Porto hão de continuar e os seus adeptos hão-de continuar a querer ir aos jogos entre eles, celebrar as vitórias ou encaixar as derrotas, sem este clima de intimidação, ameaça e ódio à flor da pele, que não tem nada a ver com desporto, nem com a sua caricatura. Imaginem, como dizia o John Lennon, imaginem por um momento que, findo o jogo no Dragão, a equipa do Benfica, comandada pelo seu treinador e depois dos abraços de vitória, se voltava para o público e o aplaudia? Imaginem que dia bonito que teria sido para a história do Benfica e do desporto em Portugal!

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