Domingo, Maio 19, 2013

DOIS DIAS NA MINHA CIDADE (18 SETEMBRO 2012)

1- Num fim-de-semana estranhamente sem futebol, aproveitei para ir visitar a minha cidade do Porto. Na companhia de um amigo, também portuense mas actualmente a viver no estrangeiro por razões de trabalho, seguimos o meu roteiro infalível nas idas ao norte, o qual passa obrigatoriamente por uma paragem na Mealhada, para o leitão. Estava divino, a crise ainda não chegou ao leitão! Retomado o caminho para cima, fui deixá-lo a Francelos, aproveitanto para uma breve visita à terra dos meus primeiros Verões de infância: a Granja. Continua a haver casas esventradas e abandonadas, mas há muitas mais recuperadas ou bem conservadas. Surgiram novas construções, umas feias e pretensiosas, outras aceitáveis, mas a praia recuperou a areia e o hotel foi reabilitado. Intacto, imenso, carregado de nostalgia, estava o mar bravo de sempre, a espuma da ressaca suspensa no ar e o sublime cheiro a maresia, como em nenhum outro lado que eu conheça. Dali até Francelos, tudo melhorou, em termos de obras públicas: os passeios pedonais e a ciclovia até Gaia, os jardins, a sinalização, as estradas. Estamos nos domínios de Luis Filipe Menezes, que conseguiu transformar, para melhor, um dos maiores e outrora mais degradados concelhos do país. Mas, como não há bela sem senão, vai deixar Gaia endividada até ao osso, quando, na Primavera próxima, se candidatar ao Porto. As seis ou sete auto-estradas que convergem para o Porto, de norte, sul ou leste, são também elas, nas suas expostas mordomias, uma explicação eloquente para a ruína do país. Inconformadas com o fim das SCUT, as populações locais querem-nas de volta grátis - isto é, a juntar à dívida do Estado, para mais tarde ser paga pelos contribuintes e gerações futuras. Assim chegámos onde estamos.

A multidão que à minha frente vi desfilar depois na Avenida dos Aliados, gritando «basta!», tinha, porém toda a razão para se indignar com a cura a que agora nos sujeitam: não se recuperam trinta anos de irresponsabilidade em três anos de sufoco absoluto; não se recuperam as finanças públicas destruíndo a economia de um país e as vidas dos seus homens e mulheres. No Porto, como em Lisboa, Coimbra e tantos outros lados, sob um calor tropical que só convidava à praia, marchou-se contra a loucura insane e insensível de uns robots da economia, que de economia nada entendem e do resto não querem saber. E, quando a multidão debandou ao cair da tarde e o festival D'Bandada se iniciou em vários pontos ao ar livre da cidade, muitos continuaram, ao som da música, a passar a mesma mensagem: o País pode estar moribundo, mas o Porto continua vivo. Mui nobre, leal e sempre invicta cidade.

É sem desejo algum de ofensa que o digo: há no Porto uma dignidade cívica e uma identidade, que é mais do que apenas cultural, e que Lisboa há muito perdeu. Muito do que é a alma e o espirito do Porto serve para explicar as décadas de sucesso do FC Porto, a sobrevivência de sectores como os têxteis e o calçado, em concorrência feroz contra o dumping social do Extremo Oriente, a persistência da fileira dos vinhos, a existência de algumas das melhores empresas do país (seguramente, a maioria), a melhor arquitectura portuguesa, a melhor literatura (Agustina, Mário Cláudio), etc. Não é uma mentira feita dizer que o Porto trabalha e Lisboa discute, o Porto triunfa e Lisboa inveja, o Porto melhora e Lisboa retrocede. A maledicência permanente de Lisboa contra o FC Porto é apenas um eloquente exemplo de como a mediocridade reage perante o sucesso alheio.

Em termos de cidade, é absolutamente impressionante o que o Porto tem melhorado de há vinte anos para cá, e continuadamente, de vereação em vereação, desde Fernando Gomes. As boas e velhas virtudes burguesas, que sempre caracterizaram o Porto - o trabalho, o comercio sério, a importância da arte e da criatividade, a integração social, a vida republicana, no bom sentido (os bairros, as colectividades, as relações de vizinhança, o respeito pelas tradições populares) - têm feito o Porto evoluir para melhor sistemáticamente, em contraste com Lisboa, uma cidade cada vez mais desagradável, mais degradada, com menos árvores, menos jardins, menos espaços públicos, mais horrores arquitectónicos e vereações cuja maior preocupação parece ser a de brincar às revoluções do trânsito, como agora sucede no Marquês e Avenida da Liberdade. Não fosse o Tejo, e Lisboa não valia nada, como cidade. E mesmo o Tejo não está ainda tapado porque alguns cidadãos o não deixaram.

Mas não sou daqueles que manda as culpas todas para cima de eles os políticos. Muito do mal que existe na cidade de Lisboa resulta de um déficite de cidadania, do amorfismo cultural dos seus habitantes, de uma atitude cívica que consiste apenas em ficar sentado nos cafés a dizer mal de tudo. Basta, aliás, comparar os cafés de Lisboa com as confeitarias do Porto, para se perceber isto: lá em cima, desde o próprio café até à pastelaria, desde as cadeiras até às mesas, passando pelo serviço e pela simpatia, faz-se um comércio de restauração sério e digno. Cá em baixo, ainda estamos no tempo das cadeiras de plástico da Olá, da máquina das «bicas» que faz um barulho infernal e incomoda toda gente, dos empregados especializados em jamais cruzar o olhar do cliente, não vá ele querer qualquer coisa. Não há brio, não há profissionalismo, não há vontade de inovar ou melhorar, e as únicas medidas contra a crise que os empresários de restauração conhecem é subir o preço aos clientes e baixar o ordenado aos empregados. Sem surpresa alguma, o Porto tem incomparavelmente mais e melhores cafés, restaurantes, galerias de arte, jardins e espaços públicos, árvores nas ruas, passeios tratados.

Sem surpresa alguma, nos últimos anos e em números crescentes de ano para ano, o Porto começou a conviver com uma espécie antes desconhecida: os turistas. Tudo aquilo que Lisboa tinha por inércia, devido à sua fama de cidade (outrora) branca, devido à localização do seu porto, ideal para cruzeiros (e que lá em cima não há), o Porto começou a ter também. Mas graças ao seu mérito, graças à sua qualidade de vida e a uma superior preservação dos edifícios e zonas históricas. Graças às Low cost e ao aeroporto de Pedras Rubras - que este incompetente governo quer agora privatizar num bolo conjunto com todos os aeroportos nacionais, fazendo o mesmo ao caso de sucesso que é o Porto de Leixões. E graças — ó sim, invejosos e maledicentes graças ao FC Porto, o clube - bandeira da cidade, que conseguiu o que nem o vinho do Porto, nem a Casa da Música, nem o Rui Rio conseguiriam por si só jamais: levar o nome da cidade ao mundo inteiro. A partir do momento em que o clube que tem o nome da cidade se tornou presença habitual ao mais alto nível do futebol mundial, em que chegou a campeão europeu e campeão do mundo, a imprensa internacional e o público começaram a descobrir que, por detrás do clube, havia também uma cidade que valia a pena. Nunca em Portugal, e raras vezes em qualquer outro lugar, uma cidade deveu tanto a um clube. Esse é o grande orgulho do FC Porto e não o ter compreendido e ter feito do clube um inimigo é a grande nódoa nos mandatos de Rui Rio.

Em termos de futebol, no Porto comenta-se agora que, sem a venda de Hulk, o clube teria de fechar também o andebol e o hóquei, como fez com o basquete, porque não havia dinheiro para pagar salários aos atletas. Comenta-se que o Benfica não terá recebido mais de 20 milhões pela venda do Witsell, e que só Jorge Mendes, à sua conta, recebeu 4 milhões de intermediação. O mesmo Jorge Mendes que se declarou solidário com a tristeza de Ronaldo, deprimido por não poder aumentar o seu parco salário de 900.000 euros por mês sem ter de pagar impostos, coitadinho. (Mas mais tristes ainda devem andar os adeptos do Real, a oito pontos do Barcelona ao fim de quatro jornadas, com tantos milionários tristes e sem equipa, como disse Mourinho). E comenta-se também a casa/hotel que Souto Moura desenhou, entre a Boavista e a Foz, para o mesmo Jorge Mendes, e em cuja garagem cabem 35 carros! Nem todos estão arruinados no futebol. Aliás, a ruína de uns (os clubes) é a fortuna de outros. Não faltarão ocasiões para falar disso.

Sábado, Maio 18, 2013

A VENDA DE HULK: DÚVIDAS E CERTEZAS (11 SETEMBRO 2012)

A VENDA DE HULK: DÚVIDAS E CERTEZAS


I- Na bancada do Dragão, durante o FC Porto-V. Guimarães, o primeiro jogo oficial da temporada disputado em casa, antes de Hulk arrumar de vez com o Vitória, através de um daqueles golos tão geniais quanto simples de que ele detém o segredo, alguns espectadores portistas deram-se ao luxo de o invectivarem, dizendo coisas como «queres ir embora? Queres mais dinheiro, é ? Pois, então, vai!» Pensei para comigo que aqueles generosos adeptos ainda acreditavam na propaganda oficial e não percebiam que era a SAD que queria à força vender Hulk, e não este que se queria ir embora. E queria vendê-lo porque, como aqui o escrevi, era isso ou o pânico na tesouraria — sobretudo, depois de, por incompetência administrativa, se ter falhado a venda de Moutinho ao Tottenham. Agora, preparem-se para sofrer, porque jogadores como Hulk não são substituíveis!

Sabendo-se que a venda se tornara inevitável, ela levanta, todavia, algumas reflexões e dúvidas não esclarecidas, que aqui queria partilhar com os leitores portistas — daqueles que se dão luxo de pensar pela própria cabeça.

1- Com as vendas de Hulk, Álvaro Pereira, Belluschi, Guarín e outros mais, o FC Porto foi este ano, e mais uma vez, o campeão de receitas de venda de jogadores, à escala planetária. Desde que o século XX começou, não há nenhum clube no mundo que tenha facturado mais a vender jogadores do que o FC Porto. E, se este facto revela uma notável capacidade de scouting, de valorização dos jogadores e de presença constante no mercado de top, não deixa também de levantar uma dúvida óbvia: o que faz o clube a tanto dinheiro?

Sendo quem melhor vende, porque tem o FC Porto de vender tanto, ano após ano desfazendo-se dos seus melhores valores? Parte de explicação deriva de uma fatalidade, que já aqui esmiucei diversas vezes: é preciso manter um exército de 60 a 70 profissionais sob contrato (dos quais apenas 20 ou 25 são aproveitados ao longo da época). Ou seja, vende-se muito porque se compra muito mais e isso obriga a vender os melhores para manter a multidão dos piores.

2- Com as vendas efectuadas este ano, o FC Porto ultrapassou o montante de 60 milhões de euros supostamente encaixados — tal como já sucedera no ano passado, quando nos desfizemos de Falcão, entre outros. Ora, 60 milhões é, sensivelmente, o orçamento anual da SAD. Mesmo contando que um terço dele prevê receitas com a venda de jogadores, sobram dois terços de receitas outras — o suficiente para criar um saldo positivo transitado que dispensaria o clube de todos os anos ter de facturar na casa dos 60 milhões. Sabendo-se que o hipotético saldo positivo não tem servido para amortizar dívida, a questão que se coloca é a de saber para onde vai o excedente das vendas. Ou para onde vai o restante das receitas — lugares anuais, bilheteira, publicidade, patrocínio, merchandising, prémios europeus? Uma excelente pergunta para o Conselho Fiscal (de cuja existência tenho algumas dúvidas) esclarecer.

3- Outra excelente questão é a do próprio valor da venda de Hulk. Quanto recebeu o FC Porto: 40 milhões, conforme declarou à CMVM, ou menos do que isso, conforme resulta das declarações dos responsáveis do Zenit? Teremos de esperar pelo Relatório e Contas da SAD para o saber?

4- O Zenit diz que, no total, gastou 40 milhões; o FC Porto diz que eles gastaram 60 — incluindo 10%, ou seja 6 milhões, de comissões empresariais. Comissões empresariais? Mas era preciso um empresário para vender o Hulk, para encontrar um comprador para ele? Não bastava a venda ser tratada, como foi, clube a clube? E qual é o negócio em que se paga 10% de comissão?

A questão é importante porque, sem essa comissão, o FC Porto teria recebido mais 6 milhões pela venda, de alguma forma atenuando a sensação de que o Hulk foi vendido a preço de saldo. É mais uma matéria para o Conselho Fiscal (se entretanto tiver ressuscitado) tentar esclarecer: quem, quanto e porquê recebeu as ditas comissões? Julgo que não levarão a mal se eu lembrar que estamos a falar de uma sociedade anónima, que tem accionistas que nela investiram dinheiro e a quem são devidas explicações.

5- Mesmo que tenham sido os 40 milhões que efectivamente a SAD do FC Porto facturou, trata-se de um mau negócio. Muito abaixo dos 100 milhões da cláusula de rescisão para adepto ver, mas também claramente abaixo dos 50 milhões que Pinto da Costa jurara ter recusado antes e voltar a recusar, se o Zenit insistisse. Gabou-se ele de que o Zenit não tinha capacidade financeira para comprar o Hulk, porque não ia além dos 50 milhões. Afinal vendeu por 40. De que vale a palavra do presidente, de ora em diante?

6- Para azar de Pinto da Costa, Hulk foi vendido no mesmo dia, pelo mesmo preço e para o mesmo clube que Witsel. Ora, não há qualquer comparação possível: Witsel é um excelente jogador, que ajuda a ganhar jogos; Hulk é um fora-de-série, capaz de ganhar jogos sozinho. Witsel custou 6,5 milhões ao Benfica e saiu um ano depois, gerando um lucro de 33,5 milhões; Hulk custou 19 milhões ao FC Porto (o jogador mais caro de sempre) e saiu quatro anos depois, gerando um lucro de 21 milhões.

E, para que o azar fosse maior, soube-se que o Witsel é a pagar a pronto ou em dois anos, e o Hulk em três. E soube-se que Luís Filipe Viera só assinou a venda de Witsel depois de lhe terem mostrado o contrato da venda de Hlk, assinado por Pinto da Costa. Para os adeptos benfiquistas sobra a consolação de saber que a sua Direcção fez um excelente negócio e, em matéria negocial, deu uma abada ao Porto. Para os adeptos portistas, não sobra nada.

7- Só mais um ponto: ao contrário dos administradores da SAD do Benfica, com excepção de dois, todos os administradores da SAD do FC Porto são remunerados — e muitíssimo bem remunerados. Não tenho objecções a isso, a partir do momento em que me habituei à ideia de que idealistas no futebol só os adeptos comuns. Mas o que me custa a compreender é que os administradores, além do vencimento, tenham direito a prémios em função dos resultados desportivos — e de critério tão amplo, que até um terceiro lugar no campeonato dá direito a prémio. E aceito ainda mais dificilmente que também tenham direito a prémios em função dos lucros de gestão anuais — porque não há castigo correspondente nos anos de prejuízo e porque não conheço empresas que distribuam lucros pelos administradores com a empresa endividada. Uma das consequências é esta: mesmo sendo a venda de Hulk má para o clube, desportiva e financeiramente, é boa para os seus administradores porque vai permitir fechar o ano com lucros, que lhes darão direito a prémios de gestão. Daí até à tentação de vender em benefício próprio vai apenas um pequeno passo que, se não é lícito presumir, também não é óbvio excluir.

II- O dr. Herculano Lima, juiz cujo contribuição para o futebol ou para a justiça (que desconheço em absoluto) , lhe valeu o cargo de presidente do Conselho de Disciplina da FPF, produziu um voto de vencido na decisão condenatória do treinador do Benfica que é todo um tratado sobre disciplina e justiça. Segundo ele, um treinador (ou jogador, ou dirigente) que, afirme que determinada decisão de um árbitro, que entendeu prejudicial à sua equipa, foi tomada deliberadamente, não ofende ninguém nem está a presumir coisa alguma. Na linha de uma longa tradição de protecção aos interesses do Benfica, que é a do CD, Sua Excelência mostra assim ao que vem e que inestimável contributo veio dar à disciplina desportiva. Por três votos contra dois, Jorge Jesus lá foi condenado, mas, repetindo cenas de capítulos anteriores, o CD, após seis meses a ponderar na decisão, aplicou-lhe quinze dias de suspensão — judiciosamente agendados para estes quinze dias em que o Benfica não joga. Não sei se é anedota, se é provocação, mas tem pelo menos a virtude de tornar tudo cristalino.

Sexta-feira, Maio 17, 2013

PERDOA-LHE, JAMES: ELE NÃO FAZ POR MAL (4 SETEMBRO 2012)

1- Repito-me: fracos treinadores têm medo de grandes jogadorcs. Tem medo dos jogadores sem medo, jogadores capazes de arriscar e perder cinco vezes a bola, embora na sexta vez possam resolver um jogo. Preferem-lhes os jogadores «tacticamente disciplinados», aqueles que, antes de entrarem, prestam atenção às explicações dadas no quadrozinho onde os fracos treinadores imaginam que um jogo se explica. Preferem-lhes os jogadores que nunca perdem a bola porque não arriscam: só fazem passes curtos, para o lado ou para trás. Treinadores destes, como Vítor Pereira, preferem mil vezes um Deffour, que não ata nem desata mas obedece as instruções, do que um James Rodriguez, cujo génio, como todos os génios, não pode brilhar sempre, mas, quando brilha, qua se ofusca a lua cheia sobre o Estádio do Algarve, no sábado passado.

Uma vez mais, o jovem talento colombiano do FC Porto resolveu um jogo que o seu treinador tinha amarrado e armadilhado. Sucedeu assim inúmeras vezes na época passada, em que Vítor Pereira precisou de seis meses para perceber o desperdício que tinha sentado no banco. Acho mesmo que só o percebeu quando, contornando a jogada da Liga de Clubes (que marcou o Benfica-Porto, decisivo para o campeonato, para o dia seguinte a um jogo FIFA da Colômbia), o FC Porto foi buscar James a Miami, depois do jogo da sua selecção, embarcou-o num voo nocturno para Lisboa, fê-lo dormir seis horas à chegada, e depois soltou-o à noite, a meio do jogo da Luz, e a tempo de James virar o resultado de 1-2 para 3-2, resolvendo o assunto. Contrariado, Vítor Pereira teve de dar a mão à palmatória, mas logo, à primeira oportunidade — uma má exibição no jogo inaugural deste campeonato, em Barcelos, onde todos falharam, a começar pelo próprio Vítor Pereira - aproveitou para o tirar da equipe. Vítor Pereira deve ser a única pessoa que ainda não entendeu que James tanto é um 10 como um 11, e, por isso, não consegue compatibilizá-lo na mesma equipa com Atsu — nem sequer, como se viu, quando está a perder. Aliás, também se vai já encarregando de amarrar e disciplinar o talento de Atsu, que agora foge das jogadas de um para um, que é o seu forte, em benefício dos passes laterais e para trás, obcecado em não perder a bola para não perder o lugar no onze. Vítor Pereira tudo tem feito para dar cabo do talento de James, está a fazer o mesmo ao de Atsu, e vai liquidar Iturbe e Kelvin. Os treinadores fracos são assim: tem horror ao que não conseguem prever ou esquematizar, sentem-se humilhados pelos momentos de génio que não podem ser explicados pelas suas tácticas, execram os jogadores que fogem da pauta e das instruções e rebentam com o esquema que eles tão brilhantemente prepararam. É um azar para James Rodriguez que o seu jovem talento esteja confiado à guarda do único treinador do mundo incapaz de o reconhecer, quanto mais ajudá-lo a evoluir. Com os jogadores que tem ao seu dispor, as únicas coisas que se pediam a Vítor Pereira é que fosse rodando o plantel, de forma a não deixar de fora talento algum, e que desse à equipa aquilo que ela ainda não mostrou nesta meia-dúzia de jogos que já contam: um módico de esquema de jogo e algumas coisas já treinadas e ensaiadas, tais como livres, cantos, saídas da defesa para o ataque, construção de jogo para o ponta-de-lança e uma atitude de conquista desde o pontapé inicial. Mas nada disso o FC Porto mostrou até aqui, apenas rasgos dos talentos individuais que por ali abundam.

2- Se o futebol é «muita ciência e muito trabalho», como catedraticamente e com a humildade que o caracteriza, explicou Jorge Jesus, nada disso se viu da sua parte, durante o Nacional-Benfica. Pelo contrário, se houve ciência e trabalho à vista, foi da parte de Pedro Caixinha. O jogo do Nacional foi claramente superior ao do Benfica, e não apenas na primeira parte, mas em 70% do encontro. E o que marcou o desfecho foi que, na hora das decisões, o Nacional não se atreveu a forçar o destino, enquanto que o Benfica se limitou a aplicar a lei do mais forte. Por alguma razão o Mateus não ganha o mesmo que o Cardozo e o Candeias não ganha o mesmo que o Salvio. Na hora das decisões, mesmo quando se fazem de pequenos, os grandes raramente falham; enquanto que os pequenos, mesmo quando se agigantam, não têm coragem para atacar a fera - falta-lhes sempre o killer instinct que é capaz de inverter o destino traçado.

3- No limbo, entre um e outro mundo, vive o Sporting de Braga. Terça-feira foi um gigante em Udine, fez uma segunda parte de quem quer contrariar o destino e que eu, sinceramente, não esperava. Foi premiado com o sorteio de quarta-feira (onde Braga e Porto foram felizes e o Benfica, ao contrário da tradição, o foi menos). Mas no domingo, desceu à terra e foi naturalmente ultrapassado em Paços de Ferreira. Qual é o verdadeiro Braga? Ambos.

Sem desfazer em todos os méritos que toda a gente lhe reconhece, o Sporting de Braga não tem (e, se calhar não pode ter ainda), estrutura para se equivaler a um dos nossos grandes. Grandes, que são apenas dois: FC Porto e Benfica. O Braga luta para ser o primeiro dos médios, contra o outro candidato, que é o Sporting. Ser grande, como o Braga percebeu da outra única vez que chegou à fase de grupos da Champions, envolve uma concentração e uma motivação permanentes. Não há folgas nem dias de descompressão: sai se de um óptimo resultado europeu, mas logo é necessário ir ganhar a Paços de Ferreira e não facilitar no jogo da Taça, a seguir.
Julgo que seria bastante especulativo considerar a derrota em Paços como primeira e imediata consequência da venda de Lima ao Benfica — sem prejuízo de não se entender bem esta venda, garantida que estava já a cobertura orçamental de toda a época, com a qualificação para a fase de grupos da Champions. António Salvador (a quem se deve perdoar a imodéstia de ter saído em primeiro lugar do aeroporto para se fazer transportar em ombros, à frente de todos), poderá, melhor que ninguém explicar porque razão, garantida a entrada no clube de luxo europeu e os respectivos milhões, a primeira coisa que fez foi desfalcar a equipa, a favor de um suposto rival interno. A venda de Lima sem necessidade urgente de fazer dinheiro, é uma mensagem que Salvador passa a toda a estrutura do clube: o que já se conseguiu, chega.

4- Saúdo a venda ao estrangeiro de Javi Garcia. Com a sua saída, e a do João Pereira, o futebol indígena ficou liberto de dois dos seus maiores caceteiros. Vou ficar muito curioso para ver se, lá pela Inglaterra, pátria do fairplay, Javi Garcia muda de hábitos ou se vai esperar dos árbitros ingleses a mesma compreensão e quase carinho que os nossos árbitros tinham pelo seu infatigável jogo de cotovelos na cara dos adversários.

5- E pausa para as selecções: uma chatice. A única curiosidade é ver se o Cristiano Ronaldo recupera da tristeza de jogar no melhor clube do mundo (ele o disse), treinado pelo melhor treinador do mundo (ele o disse) e pago apenas a um milhão de euros por mês. Tudo coisas que, de facto, dão vontade de chorar.

P.S.- Em cima da hora chega-me uma notícia que me faz triste: a venda de Hulk. Para já, parece-me o melhor negócio do Benfica, neste defeso. Melhor, ainda, do que a venda de Witsel. Tudo isto, a acrescentará preocupante notícia do 'Financial Times' de que a ida de Moutinho para o Tottenham acabou por abortar à última da hora por incompetência administrativa da SAD do Porto.

Quinta-feira, Maio 16, 2013

O REGRESSO DO FILHO PRÓDIGO (28 AGOSTO 2012)

1- Há já uns anitos, escrevi aqui um texto intitulado De pequenino se torce o destino, e em que reclamava uma punição exemplar, podendo ir mesmo até à irradiação, para um jogador do Benfica que tinha visto actuar pela Selecção Nacional de juniores e que cometera um acto de brutalidade como nunca antes nem depois voltei a ver no futebol: com um adversário caído no chão e o jogo a decorrer, ele passara pelo adversário e, sem os árbitros estarem a ver, pisou-o, deliberadamente e com violência, na cabeça. Os árbitros não viram, mas a televisão viu e, por isso mesmo, eu escrevi que aquele jovem, em princípio de carreira profissional, devia ser imediatamente ensinado de que o futebol não era aquilo. Mas não aconteceu nada e esse jovem, chamado Amoreirinha, seguiu a sua carreira, primeiro no Benfica, depois noutros clubes que aceitaram o seu tipo de serviços - porque ele não mudou, nem de estilo, nem de natureza.

Anteontem, revi o dito Amoreirinha e constatei que continua igual a si mesmo. Aos 8 minutos de jogo, qual filho pródigo em dívida, ofereceu o jogo de Setúbal ao seu antigo clube, fazendo-se expulsar graças a uma entrada de uma selvajaria absoluta. Nada a dizer sobre a decisão do árbitro: ele está lá para proteger o futebol e os jogadores de futebol, não os caceteiros e o antijogo. Mas espero, obviamente, que a decisão de Jorge de Sousa faça escola em todos os jogos e para todos os árbitros e, nomeadamente, quanto ao tempo de amostragem dos cartões, acabando-se com o absurdo critério de que os cartões não devem ser usados antes de decorrido um período de graça, que funciona como uma espécie de salvo conduto para os profissionais da cacetada e da intimidação.

Em sete minutos apenas, o Benfica resolveu o jogo de Setúbal, tirando partido de trés erros alheios consecutivos: aos 8, Amoreirinha fez-se expulsar; aos 15, aproveitando a demora do banco do Setúbal em pro- ceder à substituição que se impunha e recompor a sua defesa, Melgarejo percorreu todo um flanco aberto como uma avenida e cruzou para o golo inaugural, beneficiando ainda de o fiscal-de-linha não ter visto o offside tangencial de Melgarejo e, na dúvida, ter deixado seguir. Mais uma vez digo que aceito o critério do árbitro e só espero que faça doutrina para outros jogos (ao contrário do que se viu, por exemplo, em offsides caramente inexistentes assinalados ao ataque do Porto no jogo da véspera contra o Guimarães).

Não saberemos nunca se, sem a colaboração de Amoreirinha, o Benfica não conseguiria repetir o seu tradicional passeio em Setúbal, que já acontece há uma dúzia de anos. Que ele foi determinante para a arrancada, foi (e sabe-se como a arrancada é o mais importante e difícil nestes jogos), mas não é licito estabelecer uma relação de causa a efeito.

2- Contra o Vitória de Guimarães, e apesar de também ter marcado cedo, o FC Porto viveu 66 minutos de incerteza, ao abrigo de um contragolpe de sorte de um adversário, mais do que inofensivo, inexistente. E foi preciso mais um daqueles golos de Hulk, rematando cruzado e rasteiro do lado direito da área para o lado oposto, para enfim resolver o jogo, acordar o público da imensa chatice que estava a ver e trepar no resultado. Não sei se terá sido a última contribuição de Hulk para o alívio geral da equipa e, particularmente, do seu treinador. Sei que, se o tiver sido, vamos sentir desesperadamente a falta da simplicidade genial destas jogadas do brasileiro, que até fazem parecer fácil o que para outros é tão difícil. Raramente todos deveram tanto a um só.

A avaliar pelas informações de A BOLA, esta será a última semana de Hulk no FC Porto. Pode ser até que tudo se tenha já consumado quando este texto vir a luz da manhã desta terça-feira. Sem grande esperança (pois sei quanto a SAD desespera para o vender), quero ainda acreditar que os golos, as arrancadas e as jogadas de génio de seu Givanildo não passarão a ser, desde já, apenas uma recordação dolorosa nos corações portistas... e um motivo de imenso júbilo e alivio nas almas benfiquistas. E espero que, dos candidatos que A BOLA elenca para o seu lugar, a opção não recaia em Lima: é razoavelmente bom jogador, mas não tem sequer lugar no onze titular do FC Porto. E, por mais amigos que sejam os dois clubes e as duas direções, negócios entre ambos em que o FC Porto sai sempre a perder e o Braga a ganhar já tivemos quanto baste. E exactamente por passarmos a vida a oferecer e emprestar de borla aos outros clubes um exército de jogadores que pagámos, que os Hulk, os Falcão, os Quaresma, os Anderson, são vendidos todos os anos.

3- A saída de Hulk só terá uma vantagem operacional: é menos um jogador que o FC Porto e o seu treinador têm de gerir a meias com o Brasil e Mano Menezes. De facto, a notícia de que, depois dos Jogos Olímpicos, depois do particular com a Suécia, Mano Menezes voltou já a convocar Hulk e Danilo (Alex Sandro ficou de fora, desta vez) para dois novos jogos particulares no Brasil, é um abuso sem limites. É preciso pensar se valerá a pena voltar a comprar jogadores brasileiros que tenham potencial para chegar à selecção do seu país, sabendo-se que a CBF não tem qualquer pudor em chamá-los, não apenas para os jogos que a FIFA impõe, o que é lógico, mas para todos os outros jogos particulares em que os jogadores são exibidos mundialmente como se fizessem parte de um circo, enquanto os clubes que lhes pagam o ordenado ficam à espera das sobras, vendo a CBF cobrar fortunas à sua custa (e que muitas vezes, como se viu já, vão parar ao bolso dos seus dirigentes). Até porque a moda está a pegar noutras paragens e ainda recentemente o FC Porto viu Christian Atsu ter de viajar até à China para disputar um jogo particular pelo Gana. Imagine-se a importância do jogo...

4- Dois pormenores a propósito do FC Porto-Guimarães, que, para mim todavia, são importantes. Primeiro, a confirmação de que esta versão do equipamento principal do Porto é a coisa mais feia que se poderia imaginar. Para mim, que lá atrás, na infância, me tornei portista fascinado pelo seu equipamento, mais do que pelo meu lugar de nascimento, isto é quase um crime contra a própria identidade portista. Eu não quero saber de merchandising, aliás indigente: não percebo e não aceito que alguém pegue num equipamento tão bonito e tão feliz, que o mundo inteiro já conhece de cor, e o transforme numa imitação de um mau gosto total, descaracterizado, irreconhecível, que me custa a crer que alguém queira comprar. Com cores tão apelativas como o azul e o branco, qualquer designer competente e qualquer comercial inteligente pouparia o equipamento principal e inovaria sim no alternativo e na criação de toda uma linha de roupa desportiva e casual que os portistas se orgulhariam de usar. Agora, desvirtuar as cores e o desenho fundadores da imagem do clube, apenas para obedecer à imbecil regra de que é preciso mudar todos os anos, nada mais sendo preciso fazer, é de uma incompetência assustadora. Aqui fica o meu repúdio, o meu grito de revolta contra os autores deste atentado à alma portista.

O segundo detalhe é apenas for the record e só porque li um comentário de um benfiquista que teve o supremo desplante de afirmar que o único clube prejudicado na primeira jornada foi o Benfica, porque o árbitro lhes anulou um golo em que o Cardozo elevou o pé à altura da cara do guarda-redes do Braga numa disputa de bola, sem que se saiba se lhe tocou ou não - e, para ele, só haveria jogo perigoso confirmando-se um pontapé do Cardozo na cara do Beto. Pois o pormenor que quero registar é este: vão disputados dois jogos do campeonato e, segundo todas as opiniões, excepto as de benfiquistas, já vão também três penalties favoráveis ao FC Porto que não foram assinalados e dois deles teriam evitado a perda de dois pontos em Barcelos. O último, contra o Guimarães, foi de anedota: um defesa atira-se em voo, com os dois braços estendidos e corta assim um remate do Hulk na direcção da baliza, e o árbitro, ali ao lado, julgou que foi apenas um acidente de percurso...da bola. Anotem.

Quarta-feira, Maio 15, 2013

REGRESSO AO TRABALHO (21 AGOSTO 2012)

1- Acabou a estação estúpida do futebol, os jogos a feijões, os jogadores-revelação da pré-época que raramente se confirmam depois, as notícias, esforçadas e vazias, dos estágios em França e Alemanha, na Holanda ou na Suíça, que, nunca percebi por que razão, são um must dos nossos clubes supostamente ricos. É certo, infelizmente, que, sendo eles afinal pobres em termos europeus, a estação de compra e vendas prolonga-se mais 11 dias, durante os quais os treinadores dos grandes vivem na angústia que venham os tubarões europeus roubar-lhes alguma jóia da coroa, enquanto os presidentes vivem a angústia exactamente oposta: que ninguém apareça a comprar-lhes a preços milionários algum jogador, de forma a permitir-lhes saldar provisoriamente os déficites crónicos que as suas estranhas gestões mantêm sempre em aberto. Mas esta época, como já deu para bem perceber, as angústias dos presidentes ameaçam ser maiores que nunca. Como aqui escrevi na minha última crónica antes de entrar também de férias, Benfica e Porto vivem um drama silencioso de, contra todas as notícias auspiciosas, não terem ainda conseguido vender nada. Os tempos mudaram, mas eles vão ser os últimos a perceber.

2- O campeonato começou justamente com um Benfica-Porto, disputado fora do relvado e a nível de presidentes. Um clássico do insulto e da ofensa mútua, sem o qual supõem que não há rivalidade nem adeptos mobilizados. Desta vez, a iniciativa partiu de Pinto da Costa, indo meter-se onde não era chamado, a propósito do encosto de Luisão ao árbitro Fischer, no jogo particular contra o Fortuna Dusseldorf. É verdade que a forma como o Benfica e a sua imprensa têm tentado limpar o acontecimento, quase fazendo crer que o árbitro agrediu Luisão, é de um ridículo e de um despudor absolutos. Mas não é assunto que preocupe os portistas e que deva mobilizar o seu Presidente. Seguiu-se Luís Filipe Vieira, com as ofensas do costume e a mentira, eternamente repetida, de que o Porto e Pinto da Costa teriam sido condenados na «justiça desportiva» como se não soubesse que a única «justiça desportiva» que o condenou foi esse tristemente célebre Conselho de Disciplina que era apenas uma extensão de um órgão social do Benfica, e cuja condenação foi anulada pelo Conselho de Justiça da Federação e descartada e ridicularizada em todas as instâncias da justiça civil onde o Ministério Público, atacado de benfiquite aguda, quis prolongar essa fantochada conhecida como Apito Dourado. E às ofensas de Vieira, respondeu Pinto da Costa, desenterrando, uma vez mais, o passado do presidente benfiquista. Enfim, um diálogo edificante, cheio de imaginação e matéria nova, a calhar para lançar o tom do campeonato que se deseja e propício a estimular aquele ambiente saudável que se vive entre os adeptos dos clubes.

3- Nos relvados, o campeonato começou muito fraquinho para os quatro grandes (onde passei a incluir o Braga). Nada que não fosse de esperar, atendendo às prestações de pré-época de cada um deles. Em Guimarães, contra um Vitória em contenção radical de despesas e de reforços, o Sporting não aproveitou a oportunidade de jogar em último lugar e isolar-se de todos os seus rivais directos, logo na primeira jornada. Safou-se com um empatezinho, à medida do que jogou e do que, para já, vale. Na Luz, perante um Braga com a sua imutável estratégia de apostar no erro alheio, o Benfica demonstrou uma confusão total de ideias, além de um plantel desequilibrado. O empate acabou também por ser o resultado mais justo e lógico, muito embora isso tenha vindo confirmar a «vergonha» de o Benfica não ganhar nunca na primeira jornada, por culpa de um campeonato que «não é limpo e está armadilhado desde o início», como aqui escreveu profeticamente o dirigente comentador benfiquista Sílvio Cervan. Na verdade, o Benfica safou-se da derrota graças a um daqueles clássicos penalties de bola na mão - um critério que, a ser aplicado com o mesmo rigor, teria ditado a anulação do primeiro golo do Benfica, acontecido após assistência involuntária com a mão de Cardozo para o Salvio. Valeu ao Benfica que, apesar de terem confundido a mão de um preto com a mão de um branco, os árbitros não vacilaram na intenção criminosa daquela mãozinha caída do céu. Não foi possível, como escreveu Sílvio Cervan, «refazer o destino que nos traçam», mas, enfim, podia ter sido pior...

4- Em Barcelos, a história foi outra e não quero saber dos penalties, que até existiram e até poderiam ter mudado o destino traçado ao FC Porto, mas a verdade é que ele estava traçado desde o início. Estranhamente, uma equipa com um ataque de luxo, não consegue marcar golos nem sequer exibir uma filosofia atacante que estabeleça uma diferença clara contra equipas mais fracas. Estranhamente, um plantel (por enquanto) recheado de estrelas como há muito não se via, não consegue, ao fim de mês e meio de preparação, mostrar futebol que valha a pena ver. Tenho pena dos emigrantes nortistas que encheram o Dragão para ver a apresentação contra o Lyon e não viram nada; que acorreram em massa a Aveiro e tiveram de esperar até ao minuto 90 para verem um golo e uma Supertaça ganha contra a modestíssima Académica; que voltaram a comparecer em força Barcelos, já com Hulk e tudo, e tiveram de esperar até vinte minutos do fim para verem o seu clube finalmente a incomodar-se com o nulo, mas tarde de mais. É uma vergonha que, jogando contra uma equipa que, de tantas baixas, só tinha 17 jogadores convocados, em que todo o plantel deve ganhar o mesmo que o Hulk sozinho, o FC Porto, campeão nacional , não seja capaz de vencer o jogo. A relva era alta, o campo é curto, não marcaram dois penalties, tudo o que se quiser, mas a vergonha mantém-se. É uma vergonha que, depois de uma primeira parte jogada a passo, a equipa tenha regressado das cabinas e de supostamente quinze minutos de palestra, de puxar de orelhas e de motivação do treinador, na mesma atitude de leão indolente, à espera que lhe tragam a comidinha à boca. Houve momentos do jogo e jogadores da equipa que roçaram a diletância e o desinteresse total. Houve uma atitude que não se pode aceitar, que passou do banco para o campo e vice versa.

Para esta época, eu gostaria de ter visto o FC Porto reforçado com mais um médio de ataque, até porque acharam que o Belluschii já não presta e o Deffour, Deus me valha, é tão banal como a chuva de Novembro; gostaria de ter visto um novo central, porque não só o Rolando mostrou estar em fim de ciclo, como também o Otamendi acumula asneiras, precipitações e falta de classe. Mas, infelizmente, o que eu mais gostaria de ter visto não vi: um novo treinador. Em Barcelos, os dois pontos entregues são obra de Vítor Pereira. Quem, com aquele plantel de luxo, não é capaz de vencer o Gil Vicente, não é capaz de mostrar um fio de jogo, uma jogada estudada, não é capaz de motivar a equipa, deixando-a a pasmaçar sem reagir, não vai ser capaz de tudo o mais. Aqui fica, e já desde início, a minha opinião.

5- É sempre bonito ver um pai reconciliar-se com um filho. Só não percebo é o que tem o FC Porto a ver com isso. O regresso de Alexandre Pinto da Costa à qualidade de «empresário» e a negociar com o FC Porto (aparentemente o seu único cliente da vida empresarial) é uma notícia estranha. Por muito menos que isso lixou-se a mulher de César. Pior ainda é lembrar-me que o seu mais célebre negócio de antanho com o FC Porto foi vender-lhe um astro chamado exactamente Paulinho César - o cujo se revelaria o mais inacreditavelmente mau jogador que alguma vez vestiu aquela camisola.