sábado, agosto 13, 2011

O TESTE DO DILÚVIO TAMBÉM JÁ ESTÁ (02 NOVEMBRO 2010)

1- É absolutamente inacreditável como é que Duarte Gomes deixou que se disputasse o Académica-FCPorto naquelas condições dantescas do Municipal de Coimbra. Tanto quanto conheço das regras (e gostaria de as ver confirmadas ou não pelos especialistas), no Cidade de Coimbra estavam reunidas em simultâneo as duas condições que a lei prevê para que o árbitro não dê início ao jogo ou não o deixe prosseguir: as marcações não eram visíveis (bem tentaram reforçá-las ao intervalo...) e a bola não deslizava em nenhuma parte do campo. Ao deixar que o jogo se disputasse assim, Duarte Gomes sabia que não podia acontecer nenhum jogo de futebol; sabia que o público, que tinha pago bilhete e arrostado com aquele dilúvio, ia ser frustrado na sua esperança de assistir a um jogo de futebol entre os dois primeiros classificados do campeonato; e sabia também, obviamente, que, naquele terreno, o resultado do jogo seria uma lotaria e que era o FC Porto, a equipa mais técnica, quem tinha mais a arriscar e a perder. Em última análise, um não-jogo poderia vir a assumir uma importância quem sabe se decisiva para as contas finais do título: bastaria que a Académica, num golpe de sorte, um ressalto, uma bola presa no charco e aproveitada, conseguisse marcar um golo e não sofrer nenhum, e o FC Porto sairia dali com a primeira derrota da época ou com um empate, muito estimulante para o Benfica, a uma semana do jogo do Dragão.

É impossível que o árbitro não tenha pensado em tudo isso e, mesmo assim, resolveu levar o jogo até ao fim. Durante os noventa minutos de pesadelo surreal que se seguiram, Duarte Gomes teve, aliás, várias outras decisões que todas igualmente prejudicaram o FC Porto: perdoou um penalty à Académica com 0-0, anulou um golo a Falcão, pretextando falta de Hulk antes do passe para golo e porque um jogador dos estudantes tinha feito um pião à frente do brasileiro, tentando assim tirar-lhe a bola, sem o conseguir; inventou dois livres à entrada da área do Porto, já depois dos 90 minutos — o primeiro dos quais ia proporcionando o empate e o segundo, originado numa falta descarada cometida por um jogador de Coimbra sobre o Guarin e transformada em falta contra o Porto, originou uma confusão extrema que deu para os da casa reclamarem um penalty que ninguém viu e acabarem... a queixar-se da arbitragem!

Durante 90 minutos eu senti que ali o FC Porto estava a jogar contra todos os factores e que iria precisar de muita sorte para escapar sem danos. Teve sorte, de facto, em não sair de Coimbra com nenhum lesionado grave. Mas, no resto, teve grande mérito na forma como se adaptou às condições impossíveis do terreno, como chegou ao golo num pontapé espectacular de Varela, e como teve ainda forças para dominar toda a segunda parte — apenas pecando nas quatro oportunidades flagrantes de golo desperdiçadas. Obrigado a jogar sem poder mostrar o seu futebol, a equipa mostrou a fibra e a vontade de vencer, contra tudo e todos, que são a imagem de marca dos campeões. O empate de Guimarães, cedido por sobranceria e desleixo, parece ter sido um mal que veio por bem: de então para cá, a equipa absorveu a lição: não basta ser melhor, não basta jogar melhor. Há muitos outros factores, como a arbitragem de Istambul ou o futebol de praia (à beira-mar) imposto por Duarte Gomes em Coimbra, que também entram em jogo quando não se espera. A forma como o incrível obstáculo de Coimbra foi ultrapassado foi simplesmente brilhante.

2- Tenho uma profunda irritação pela obsessão dos repórteres de serviço aos flash interview em tentar sempre encontrar casos de arbitragem onde eles não existiram, pondo na boca dos entrevistados aquilo que mais não são do que desejos ou opiniões dos próprios entrevistadores. Em Coimbra, o repórter Pedro Neves de Sousa, a pretexto do tal lance de confusão em que nada se conseguiu ver ou perceber, acontecido na área do FC Porto aos 90+3 minutos e resultante de uma falta marcada ao contrário, conseguiu pôr na boca de um jogador da Académica e do seu treinador reclamações sobre uma pretensa mão e invisível penalty e queixas da arbitragem absolutamente ridículas e até intelectualmente desonestas. Achei graça que não lhe ocorresse também perguntar a Villas Boas pelo penalty não marcado a favor do Porto, pelo golo mal anulado ou por esse livre inventado três minutos depois da hora. Ou perguntar-lhe se ele não achava que a decisão de fazer o jogo naquele relvado tinha sido objectivamente uma decisão que prejudicava gravemente e logo à partida o FC Porto. Ou perguntar a Jorge Costa como é que ele podia considerar o resultado injusto se, a perder por 0-1 desde os 43 minutos, a sua equipa só voltara a fazer um ataque e um remate abaliza, de livre, aos 90 minutos, enquanto o FC Porto, nesse intervalo de tempo, desperdiçara três remates de baliza aberta e um penalty. São critérios — jornalísticos, certamente.

3- Durante esta semana vamos escutar vários recados dos benfiquistas com destino à arbitragem do jogo do Dragão. Já começaram, aliás, e na perspectiva de haver greve dos árbitros, a dizer que, para eles, até era melhor vir um árbitro da bancada. Pergunto: são capazes de recordar quando foi a última vez que o Benfica teve queixas de arbitragem de um jogo no Dragão ou nas Antas? E quando foi a última vez que o FC Porto teve queixas?



P.S - A Declaração de Independência dos Estados Unidos é parte integrante da Constituição americana, escrita oito anos depois, e funciona como texto interpretativo e remissivo desta. A Declaração contém os princípios fundamentais da democracia americana (que os tribunais aplicam em caso de conflito de interpretação constitucional), e a Constituição contém as regras de organização do sistema político da União.

Julgo que o ex-árbitro Calheiros já tinha saído do activo quando da sua célebre viagem num avião do FC Porto ao Brasil. Mas não o posso jurar, nem isso interessa: interessaria era provar que essa viagem, foi o preço pago pelo FC Porto em troca de um favor de arbitragem concreto—e isso ninguém o fez.

Sim, é possível que, escrevendo sobre futebol — o que não é propriamente nem uma ciência exacta nem uma escrita determinante — me escapem pormenores de facto ou acontecimentos passados irrelevantes. Não tenho tempo de, ao contrário do que fazem o Quintela e o Ricardo Araújo Pereira, passar a vida a vasculhar arquivos de inutilidades. Quando vejo alguém a citar uma arbitragem que terá prejudicado o seu clube em 1989, um penalty que ficou por marcar em 2003 ou coisa semelhante, fico sempre a pensar se não terão nada de mais útil de que se ocuparem. É claro que há árbitros que também não esqueci, de tal forma as suas arbitragens ao longo dos anos foram sempre em prejuízo do meu clube: Lucílio Baptista, Bruno Paixão, Jorge Coroado ou o inesquecível Carlos Valente, a quem o Benfica tanto deve. Mas nem sequer fixei o nome do árbitro que este fim-de-semana perdoou um penalty ao Benfica contra o Paços de Ferreira, numa altura em que havia 1-0 e o Paços dominava por completo o Benfica. Mas sei, com toda a certeza, que esse facto não entrará no próximo relatório benfiquista sobre as malfeitorias dos árbitros. Sei que os que citam o que lhes interessa, convictos que os outros já não se lembram, também se esquecem de citar o que não lhes interessa — o que torna a sua suposta sabedoria enciclopédica numa ciência desonesta.

Mas, de facto, não tenho tempo nem vocação ou paciência para manter actualizado um arquivo de casos do nosso futebol. Acontece que trabalho bem e tenho coisas bem mais interessantes para fazer. E, como é sabido, não ganho dinheiro fácil a fazer publicidade e menos ainda em papéis de espermatozóide do espaço em anúncios publicitários que são um atentado à inteligência de qualquer um.

O que agora me interessa é isto: começo a ficar farto de viver aqui neste jornal com dois rafeiros atiçados permanentemente às canelas, dois censores encartados do que escrevo, obcecados em fazer a exegese completa dos milhares de páginas que em todo o lado escrevi nos últimos anos, para depois, citarem coisas truncadas, descontextualizadas e sobre assuntos totalmente diferentes, a fim de tentarem provar nem sei bem o quê. Embora haja que distinguir (reconheço que o RAP é um tipo com talento e piada, enquanto o Quintela não se lhe conhece dom algum que não o de fazer de Sancho Pança dele), ambos funcionam em matilha Benfica/Sporting, organizada apenas para tentar que eu e o Rui Moreira um dia enchamos o saco e nos vamos embora. Sei que é isso que eles querem, mas também não é isso que me impedirá de um dia me fartar de vez de os aturar. Se todas as semanas há dois colaboradores do jornal onde eu também escrevo cuja única função é a actividade pidesca de vasculhar tudo o que eu escrevi ou escrevo, a fim de me tentarem intimidar ou silenciar, talvez não faça sentido algum coincidirmos aqui.

Há cerca de ano e meio atrás, antes da dupla Quintela/RAP ter feito de mim o objecto principal das suas esforçadas tentativas de aliviarem as desilusões futebolísticas dos seus clubes de estimação, tive a honra de ser por eles convidado para ir aos Gatos Fedorentos e tive o desplante de ser, juntamente com o actual Presidente da República (e este por dever de função) o único de todos os convidados a recusar o convite. Verdadeira contradição é terem convidado um tipo a quem depois transformaram num alvo a abater. Verdadeira não-contradição foi o facto de eu já então ter optado por recusar um convite tão honroso que, do primeiro-ministro à líder da oposição, não houve Zé Careca neste país que se recusasse a ir lá a correr. Hoje, eles dirão que foi um erro terem-me convidado e não sabem porque o fizeram. Mas eu sei bem porque recusei.

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