terça-feira, julho 24, 2007

ÓPÁ ( 19 Junho 2007)

É eloquente do estado de alma do «clube do povo» que a simples notícia de uma OPA tão pouco clara lançada pelo comendador Berardo tenha suscitado tamanho entusiasmo entre as «forças vivas» da nação benfiquista. Mas cada um sabe de si.


O Benfica foi opado. Assim mesmo, sem mais nem menos, como qualquer banco ou fábrica de salsichas. É uma OPA amigável, já que o opante diz nada querer para si, apenas ajudar, e todos os notáveis da opada se mostram entusiasmados com a ideia. O entusiasmo é tanto que, apesar de a oferta ser claramente baixa, os «accionistas do coração» são incentivados a desfazerem-se das suas acções a favor do opante. Cada um sabe de si.

Eu, pessoalmente, não veria com bons olhos a chegada de um raider ao FC Porto, portista ou não portista, que quisesse fazer seu um clube que é de todos os de coração azul. Bem sei que os novos tempos, o mercado, a necessidade de concorrência internacional, etc. e tal… Sei tudo isso, mas um clube de futebol é um clube de futebol, não é um banco nem uma fábrica de salsichas. Haveria duas coisas que eu pensaria: se o coração portista do raider fosse assim tão grande como a sua carteira, não perceberia que não tivesse comprado acções logo no início, ao preço de subscrição, e só se tivesse lembrado de comprar quando elas estavam cá em baixo. E eu que, como portista, tinha ido à subscrição por razões do coração, era agora convidado a desfazer-me delas a preço de saldo porque chegara alguém como maior coração e maior carteira que eu?

As razões do coração, invocadas pelos notáveis benfiquistas, resumem-se à esperança de que Berardo esteja disposto a avançar com dinheiro para o Benfica comprar bons jogadores. As suas vagas referências a um «fundo de investimentos» fizeram soar campainhas de esperança em muitos corações benfiquistas — os quais, todavia e como temos visto em tempos recentes, raramente acompanham de perto a razão. Mas talvez alguma prudência fosse de aconselhar: Berardo terá muitas qualidades e uma argúcia fina para o negócio, mas nunca foi conhecido por dar ou acrescentar valor. Para já, as únicas coisas que ele prometeu dar aos benfiquistas foram uma águia de pedra que comprou na China e entradas a preços especiais para ver a sua Colecção Berardo no seu CCB (estará isto previsto também no fantástico acordo assinado com o Governo?). E, por esse pouco que promete dar, já recebeu muito em troca, aquilo que ele mais gosta: notoriedade e popularidade.

Joe Berardo move-se com inteligência e à vontade num mercado bolsista que tem tudo à sua medida: é um mercado puramente especulativo e de dimensão tão pequena que basta um movimento seu ou umas frases deixadas cair no momento certo para fazer evoluir os preços como ele deseja. Foi notável a forma como ele aproveitou a recente Assembleia Geral do BCP, onde se discutia uma proposta de alteração aos estatutos. Tendo comprado as suas acções baratas, anunciou que, se a proposta fosse recusada, no dia seguinte estaria a comprar mais acções do BCP. Resultado: as acções começaram a subir a toda a velocidade («compro hoje por 10 e amanhã vendo ao Berardo por 12»). Só que, no dia seguinte, Berardo não comprou (se calhar até vendeu), porque as acções já não estavam baratas. E ficou sentado em cima de mais uns milhões de mais-valias realizados com uma simples boca produzida a tempo.

Joe Berardo é a ilustração viva da velha frase de Marx de que o dinheiro faz dinheiro. Ele não compra empresas nem as gere. Ele não cria postos de trabalho nem acrescenta riqueza à economia. Limita-se a comprar barato bocados de empresas criadas por outros e a vender caro, quando o trabalho ou o mérito dos outros as valorizaram ou quando os seus movimentos especulativos na bolsa as fizeram subir artificialmente de preço. E, quando o Zé Povinho vai atrás, na ânsia de o imitar e também fazer fortuna da noite para o dia, já ele e o negócio sumiram para outras paragens.
É eloquente do estado de alma do «clube do povo» que a simples notícia de uma OPA tão pouco clara lançada pelo comendador Berardo tenha suscitado tamanho entusiasmo entre as «forças vivas» da nação benfiquista. Mas cada um sabe de si.

A notícia mais do que previsível da acusação deduzida por Maria José Morgado contra Pinto da Costa e o FC Porto, suscitou uma tamanha onda de euforia entre os inimigos indefectíveis do FCP que levou alguns, até com responsabilidade e capacidade de distinguir as coisas, a saltar entusiasticamente várias etapas, não só dando já a condenação judicial como consumada, como até acrescentando-lhe a pena. Aqui, neste mesmo jornal, houve quem anunciasse «o polvo finalmente cercado», escrevendo que o que mais interessava agora era a condenação desportiva, mais do que a criminal, e incidindo, claro ou sobre títulos ganhos no passado ou «visando os campeonatos a seguir». Não se pode ser mais claro nem mais descarado. Nem mais impaciente.

A acusação da Dr.ª Morgado reporta-se, por enquanto, ao célebre FC Porto-Estrela da Amadora de 2004 e assenta em três provas: uma escuta telefónica, cujo conteúdo foi explicado e contraditado em termos que levaram ao anterior arquivamento dos autos; a opinião de peritos em arbitragem, alguns contradizendo o que na altura haviam dito; e as declarações da testemunha Carolina Salgado. Como já aqui escrevi, nada melhor do que a Sport TV repetir, com aviso prévio, a transmissão desse jogo para que todos possam avaliar o que é um «jogo suspeito» na opinião da magistrada. Não sei porque não se faz uma coisa tão simples como isso…

Quanto ao testemunho da D. Carolina Salgado, esperem até vê-la a depor sem ser no segredo dos deuses, com a protecção do Ministério Público e de alguns civis benfiquistas voluntários da investigação… Esperem até ver a co-autora do livro (a quem a senhora se esqueceu de pagar), a explicar o que foram «as falsidades e invenções» que a forçaram a meter no texto… Esperem até ver um advogado minimamente capaz reconstituir o que foram os seus passos desde que viu desabar a sociedade conjugal que mantinha com o presidente do FC Porto…


A boa notícia é que Vítor Baía vai continuar ligado ao FC Porto. A má notícia é que abandonou o futebol, quando, em minha opinião, ainda é o melhor de todos os guarda-redes que por lá estão. Foi, juntamente com Américo, um símbolo eterno da baliza portista. Para sempre me hei-de lembrar da sensação de tranquilidade absoluta que era ver os adversários a cruzarem bolas sobre a baliza do Porto: ainda a bola não tinha partido e eu já podia distrair-me a olhar para outro lado, porque sabia que ela acabaria nas mãos de Baía, com aquele estilo inimitável e aquela calma a recolher a bola no alto que chegava a ser frustrante para os adversários. Dentro e fora do futebol dentro e fora do FC Porto, Baía foi sempre um senhor. Foi um senhor na forma como encaixou a proscrição de Scolari e a falta de solidariedade de muitos dos seus pares. Foi um senhor na criação da Fundação com o seu nome e que, ao contrário de tantas outras, não serve para chamar as atenções nem para fugir aos impostos. Foi um senhor na forma como, remetido a suplente, continuou a ser o jogador determinante do FC Porto no último ano e meio.

Nesta hora de despedida, gostaria de escrever um texto inteiro sobre ele, mas não há necessidade: quem sabe distinguir jogadores de mercenários, cavalheiros de deslumbrados, sabe o quanto Baía significou para o futebol português. E limito-me, assim, a reproduzir o que Lorca escreveu sobre o toureiro António Sanchéz Mejia: «Tardará mucho tiempo en nácer, si és que nace, un andaluz tan claro, tan rico de ventura…»

Há dois casais mediáticos que estão no topo da minha embirração planetária: o casal Tom Cruise e quem quer que o ature e o intragável casal Victória-David Beckham. David Beckham é um jogador banal, cujo único talento é cruzar bolas e cuja grande contribuição para o futebol foi a criação da moda dos penteados diferentes e tatuagens novas todas as semanas, que qualquer jogador de terceira hoje imita, na esperança de chamar as atenções de um grande. Ela é conhecida apenas pela sua futilidade e capacidade de esbanjar milhares de contos em jóias e roupas em menos tempo do que dura um jogo de futebol, além do orgulho com que declarou nunca ter lido um livro na vida…por falta de tempo! Ver a patética Victória e o imbecil do Cruise a torcerem pelo Real nas bancadas de Chamartin, como se percebessem alguma coisa de futebol, fez-me desejar ainda mais que o Barça fosse campeão. Mas a sorte e uma escandalosa arbitragem a favor do Real não tornaram possível o milagre. «Qué lástima!»

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