Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quarta-feira, julho 20, 2005
segunda-feira, julho 11, 2005
sexta-feira, julho 01, 2005
Quem tem medo do McCarthy? (28 Junho 2005)
Se juntarmos a esta insistência na saída do McCarthy, o desejo mal escondido de igualmente ver o Liedson fora do Sporting, o que julgam que ficarão a pensar os leitores mais atentos? A quem é que a saída do Liedson e do McCarthy daria imenso jeito?
1- Benni McCarthy veio para o FC Porto em definitivo há dois anos, a pedido insistente de Mourinho, que achava que ele era essencial, como se provou, para uma carreira europeia triunfante. Custou cerca de um milhão de contos, um investimento imenso para o FC Porto, na altura. Veio, obviamente, porque quis vir, porque melhorou a sua situação salarial e profissional. No FCPorto foi campeão de Portugal, da Europa e do mundo; se tivesse ficado no Celta de Vigo teria provavelmente continuado a suplente e teria jogado a época que terminou na segunda divisão espanhola. Hoje estaria a chorar desesperadamente para que o Celta o deixasse vir para o FCPorto, evitando ter de continuar no limbo da segunda divisão de Espanha. Aliás, há dois anos, tanto ele como o seu empresário, que agora reclamam o direito de deixar o FC Porto por qualquer preço, reclamavam o mesmo do Celta: que o deixasse vir para o Porto.
Manifestamente, Benni McCarthy e o seu empresário não parecem ligar grande importância aos contratos que assinam nem ter grande respeito pelos clubes que lhe pagam. No seu entender, não há nada mais normal e mais justo que os clubes os libertarem quando eles querem, porque querem e pelo preço que querem, e não pelo das cláusulas de rescisão que assinaram.A estratégia é demasiadamente conhecida, não há clube que não tenha de a enfrentar, com um ou outro jogador.E,manifestamente, só há uma forma de o fazer: é os clubes não cederem à chantagem dos empresários e jogadores, sob pena de os contratos de nada valerem e qualquer jogador aliciado directamente por outro clube aparecer ao clube que com ele tem contrato a dizer que se se sente mal, quer-se ir embora e que, se ficar, será contrariado e sem vontade de jogar.
Com a maior das naturalidades, noticia-se, por exemplo, que o Benfica «já tem tudo contratado, salários e prémios», como brasileiro Dedé, que, por azar, tem contrato válido com o Borussia Dortmund. Mas,como próprio Borussia, o Benfica não tem nada contratado,nem acordado, nem sequer falado - porque o Benfica está longe de querer e poder pagar o que os alemães pedem para deixar sair o Dedé. Então, recorre-se à estratégia alternativa, que consiste em aliciar primeiro o jogador e depois contar que ele faça a rábula de chegar ao pé dos dirigentes do Borussia e pedinchar que o vendam pelo preço que o Benfica quer, sob pena de ele permanecer «contrariado».Parece que há quem ache que esta «estratégia», a que o Benfica recorre bastas vezes, é muito «inteligente», como inteligente foi a forma como em tempos «sacou» o Paulo Madeira ao Belenenses ou como recentemente «sacou » dois juniores ao Salgueiros, aproveitando-se das dificuldades económicas do histórico clube do Porto, ao ponto de levar a direcção salgueirista a constatar em comunicado que «a grandeza dos clubes mede-se pelas atitudes que têm». Gostaria de saber o que diria a direcção benfiquista, os seus adeptos e os seus promotores se um Borussia Dortmund ou um Chelsea ou um Real Madrid se lembrasse de atacar directamente o Manuel Fernandes, dar-lhe a volta à cabeça— o que não seria difícil — e pô-lo a pedir publicamente à direcção benfiquista que «não lhe cortasse as pernas » e não o deixasse cá «contrariado »...
Uma coisa eu tenho a certeza: é que o Manuel Fernandes não encontraria, seguramente, um acolhimento da imprensa tão entusiástico para com as suas pretensões, quanto o que McCarthy e o seu empresário têm encontrado nas páginas de A BOLA.
É verdadeiramente excepcional e nunca visto o esforço que aqui tem sido conduzido para dar eco e satisfazer a ambição de fuga de McCarthy—seja ela genuína ou induzida, como mais adiante melhor se verá.Mesmo de um ponto de vista estritamente jornalístico,não me lembro de alguma vez ter presenciado uma situação em que, no curto espaço de dez ou doze dias, o mesmo jornal «repete» seis ou sete vezes a mesma entrevista—em que o entrevistado, directamente ou através de um seu representante, se limita a dizer sempre a mesma coisa: «quero-me ir embora!» Dá vontade de responder: «Já ouvimos, já sabemos! Se se quer ir embora, não é preciso estar a dizer todos os dias a mesma coisa. Ele que arranje quem pague os nove milhões de euros da cláusula de rescisão que quis assinar, e que se vá embora!»
Na edição de sexta-feira passada de ABOLA, julguei que se tinha enfim, chegado ao limite da insistência: pela quinta vez o McCarthy «abria o coração» e o seu repetido apelo para que o deixem sair em saldos merecia até honras de manchete de 1.ª página — um acontecimento tão raro neste jornal relativamente ao FC Porto, que nem quando ganharam a Taça Intercontinental emTóquio o tinham conseguido...
A coisa tornou-se tão absurda e inédita para, julgo eu, o comum dos leitores, que no dia seguinte o director, Vítor Serpa, sentiu-se obrigado a justificar a insistência do jornal no assunto,mas em termos que, salvo melhor opinião, nada justificavam. Tanto mais que ele próprio reconhecia que, neste caso, nenhuma razão assistia ao jogador.É caso para pensar porquê que, reconhecendo- se que ele não tem razão, todos os dias se insiste em estender- lhe o microfone para ele repetir as suas razões.
E, quando se imaginaria que o editorial do director matara, enfim, tarde e a más horas, a Operação Sai McCarthy, eis que, logo na segunda- feira, a coisa retoma o seu caminho, com nova entrevista «McCarthy abre o seu coração», ocupando quatro páginas do jornal — a totalidade do espaço reservado a notícias sobre o FCPorto, não sobrando uma linha que fosse para mais nada!
Ora, francamente, que comentário se pode fazer a isto? Já percebemos que, aqui em A BOLA se quer desesperadamente que o McCarthy se vá embora do Porto. Não é o Postiga, nem o Hugo Almeida, nemo Sokota: é o McCarthy. Mas deverá ele sair só porque alguém na «Bola» quer que ele saia e não se calará enquanto o F.C.Porto não o mandar embora? E não acharão que a coisa já começa a parecer mal? Se juntarmos a esta insistência na saída do McCarthy, o desejo mal escondido de igualmente ver o Liedson fora do Sporting, o que julgam que ficarão a pensar os leitores mais atentos?A quem é que a saída do Liedson e doMcCarthy daria imenso jeito?
2- Sua Excelência o presidente do Benfica foi de visita «oficial » a Cabo Verde. Em dois dias consecutivos, a cobertura dessa viagem mereceu aqui (nos outros desportivos não reparei) oito páginas de relato e vinte e três fotografias do senhor, incluindo até o seu sono na praia do Sal. De passagem, denunciou-se até o Embaixador de Portugal em Cabo Verde, que não terá dado o devido destaque à «visita oficial» do Querido Líder.
E ele, Luís Filipe Vieira, que todos os dias, desde que se levanta até que se deita, tem um batalhão de jornalistas a registar os seus mínimos passos, palavras, suspiros, estados de alma e a beber cada um dos seus discursos, desde Fornos de Algodres até ao Luxemburgo, não resistiu a fazer mais uma declaração para a História -a «declaração da Cidade da Praia». Ei-la: «Digo desde já que, nas próximas eleições, estarei na primeira linha de combate aos oportunistas e aos vaidosos. Se forem aqueles que gostam muito de falar nos jornais também lá estarei. Ficam avisados...»
3- Sim, o sorteio dos árbitros é uma medida completamente estúpida.Tenho sobre outros a vantagem de me ter logo pronunciado contra ela quando, há uns anos atrás, o F.C.Porto era contra mas a maioria dos clubes e dos comentadores eram a favor.Na altura, não sei se se recordam, escrevia- se e dizia-se que o F.C.Porto era a favor porque controlava as nomeações. Hoje, não sei se sabem, o que se diz é que quem controla as nomeações é o Benfica e por isso - e pelos resultados práticos desta época- todos os clubes querem regressar ao sorteio e só o Benfica quer manter as nomeações.
Eu continuo a defender as nomeações -mas de maneira que não levante dúvidas, e não, por exemplo, como Lucílio Baptista a ser nomeado para quatro Porto-Sporting consecutivos, em todos prejudicando seriamente os portistas. O que acho graça é ver os que antes defendiam o sorteio para «acabar com as suspeições», hoje oporem-se ferozmente ao sorteio.Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades.
1- Benni McCarthy veio para o FC Porto em definitivo há dois anos, a pedido insistente de Mourinho, que achava que ele era essencial, como se provou, para uma carreira europeia triunfante. Custou cerca de um milhão de contos, um investimento imenso para o FC Porto, na altura. Veio, obviamente, porque quis vir, porque melhorou a sua situação salarial e profissional. No FCPorto foi campeão de Portugal, da Europa e do mundo; se tivesse ficado no Celta de Vigo teria provavelmente continuado a suplente e teria jogado a época que terminou na segunda divisão espanhola. Hoje estaria a chorar desesperadamente para que o Celta o deixasse vir para o FCPorto, evitando ter de continuar no limbo da segunda divisão de Espanha. Aliás, há dois anos, tanto ele como o seu empresário, que agora reclamam o direito de deixar o FC Porto por qualquer preço, reclamavam o mesmo do Celta: que o deixasse vir para o Porto.
Manifestamente, Benni McCarthy e o seu empresário não parecem ligar grande importância aos contratos que assinam nem ter grande respeito pelos clubes que lhe pagam. No seu entender, não há nada mais normal e mais justo que os clubes os libertarem quando eles querem, porque querem e pelo preço que querem, e não pelo das cláusulas de rescisão que assinaram.A estratégia é demasiadamente conhecida, não há clube que não tenha de a enfrentar, com um ou outro jogador.E,manifestamente, só há uma forma de o fazer: é os clubes não cederem à chantagem dos empresários e jogadores, sob pena de os contratos de nada valerem e qualquer jogador aliciado directamente por outro clube aparecer ao clube que com ele tem contrato a dizer que se se sente mal, quer-se ir embora e que, se ficar, será contrariado e sem vontade de jogar.
Com a maior das naturalidades, noticia-se, por exemplo, que o Benfica «já tem tudo contratado, salários e prémios», como brasileiro Dedé, que, por azar, tem contrato válido com o Borussia Dortmund. Mas,como próprio Borussia, o Benfica não tem nada contratado,nem acordado, nem sequer falado - porque o Benfica está longe de querer e poder pagar o que os alemães pedem para deixar sair o Dedé. Então, recorre-se à estratégia alternativa, que consiste em aliciar primeiro o jogador e depois contar que ele faça a rábula de chegar ao pé dos dirigentes do Borussia e pedinchar que o vendam pelo preço que o Benfica quer, sob pena de ele permanecer «contrariado».Parece que há quem ache que esta «estratégia», a que o Benfica recorre bastas vezes, é muito «inteligente», como inteligente foi a forma como em tempos «sacou» o Paulo Madeira ao Belenenses ou como recentemente «sacou » dois juniores ao Salgueiros, aproveitando-se das dificuldades económicas do histórico clube do Porto, ao ponto de levar a direcção salgueirista a constatar em comunicado que «a grandeza dos clubes mede-se pelas atitudes que têm». Gostaria de saber o que diria a direcção benfiquista, os seus adeptos e os seus promotores se um Borussia Dortmund ou um Chelsea ou um Real Madrid se lembrasse de atacar directamente o Manuel Fernandes, dar-lhe a volta à cabeça— o que não seria difícil — e pô-lo a pedir publicamente à direcção benfiquista que «não lhe cortasse as pernas » e não o deixasse cá «contrariado »...
Uma coisa eu tenho a certeza: é que o Manuel Fernandes não encontraria, seguramente, um acolhimento da imprensa tão entusiástico para com as suas pretensões, quanto o que McCarthy e o seu empresário têm encontrado nas páginas de A BOLA.
É verdadeiramente excepcional e nunca visto o esforço que aqui tem sido conduzido para dar eco e satisfazer a ambição de fuga de McCarthy—seja ela genuína ou induzida, como mais adiante melhor se verá.Mesmo de um ponto de vista estritamente jornalístico,não me lembro de alguma vez ter presenciado uma situação em que, no curto espaço de dez ou doze dias, o mesmo jornal «repete» seis ou sete vezes a mesma entrevista—em que o entrevistado, directamente ou através de um seu representante, se limita a dizer sempre a mesma coisa: «quero-me ir embora!» Dá vontade de responder: «Já ouvimos, já sabemos! Se se quer ir embora, não é preciso estar a dizer todos os dias a mesma coisa. Ele que arranje quem pague os nove milhões de euros da cláusula de rescisão que quis assinar, e que se vá embora!»
Na edição de sexta-feira passada de ABOLA, julguei que se tinha enfim, chegado ao limite da insistência: pela quinta vez o McCarthy «abria o coração» e o seu repetido apelo para que o deixem sair em saldos merecia até honras de manchete de 1.ª página — um acontecimento tão raro neste jornal relativamente ao FC Porto, que nem quando ganharam a Taça Intercontinental emTóquio o tinham conseguido...
A coisa tornou-se tão absurda e inédita para, julgo eu, o comum dos leitores, que no dia seguinte o director, Vítor Serpa, sentiu-se obrigado a justificar a insistência do jornal no assunto,mas em termos que, salvo melhor opinião, nada justificavam. Tanto mais que ele próprio reconhecia que, neste caso, nenhuma razão assistia ao jogador.É caso para pensar porquê que, reconhecendo- se que ele não tem razão, todos os dias se insiste em estender- lhe o microfone para ele repetir as suas razões.
E, quando se imaginaria que o editorial do director matara, enfim, tarde e a más horas, a Operação Sai McCarthy, eis que, logo na segunda- feira, a coisa retoma o seu caminho, com nova entrevista «McCarthy abre o seu coração», ocupando quatro páginas do jornal — a totalidade do espaço reservado a notícias sobre o FCPorto, não sobrando uma linha que fosse para mais nada!
Ora, francamente, que comentário se pode fazer a isto? Já percebemos que, aqui em A BOLA se quer desesperadamente que o McCarthy se vá embora do Porto. Não é o Postiga, nem o Hugo Almeida, nemo Sokota: é o McCarthy. Mas deverá ele sair só porque alguém na «Bola» quer que ele saia e não se calará enquanto o F.C.Porto não o mandar embora? E não acharão que a coisa já começa a parecer mal? Se juntarmos a esta insistência na saída do McCarthy, o desejo mal escondido de igualmente ver o Liedson fora do Sporting, o que julgam que ficarão a pensar os leitores mais atentos?A quem é que a saída do Liedson e doMcCarthy daria imenso jeito?
2- Sua Excelência o presidente do Benfica foi de visita «oficial » a Cabo Verde. Em dois dias consecutivos, a cobertura dessa viagem mereceu aqui (nos outros desportivos não reparei) oito páginas de relato e vinte e três fotografias do senhor, incluindo até o seu sono na praia do Sal. De passagem, denunciou-se até o Embaixador de Portugal em Cabo Verde, que não terá dado o devido destaque à «visita oficial» do Querido Líder.
E ele, Luís Filipe Vieira, que todos os dias, desde que se levanta até que se deita, tem um batalhão de jornalistas a registar os seus mínimos passos, palavras, suspiros, estados de alma e a beber cada um dos seus discursos, desde Fornos de Algodres até ao Luxemburgo, não resistiu a fazer mais uma declaração para a História -a «declaração da Cidade da Praia». Ei-la: «Digo desde já que, nas próximas eleições, estarei na primeira linha de combate aos oportunistas e aos vaidosos. Se forem aqueles que gostam muito de falar nos jornais também lá estarei. Ficam avisados...»
3- Sim, o sorteio dos árbitros é uma medida completamente estúpida.Tenho sobre outros a vantagem de me ter logo pronunciado contra ela quando, há uns anos atrás, o F.C.Porto era contra mas a maioria dos clubes e dos comentadores eram a favor.Na altura, não sei se se recordam, escrevia- se e dizia-se que o F.C.Porto era a favor porque controlava as nomeações. Hoje, não sei se sabem, o que se diz é que quem controla as nomeações é o Benfica e por isso - e pelos resultados práticos desta época- todos os clubes querem regressar ao sorteio e só o Benfica quer manter as nomeações.
Eu continuo a defender as nomeações -mas de maneira que não levante dúvidas, e não, por exemplo, como Lucílio Baptista a ser nomeado para quatro Porto-Sporting consecutivos, em todos prejudicando seriamente os portistas. O que acho graça é ver os que antes defendiam o sorteio para «acabar com as suspeições», hoje oporem-se ferozmente ao sorteio.Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades.
quinta-feira, junho 23, 2005
Via Brasil (21 Junho 2005)
Não há presidente que se preze que, nesta altura do ano, não faça as malas e rume ao Brasil para tratar dos interesses do clube. E nem precisam de ir com o treinador, porque de jogadores percebem eles. Se vão sempre ao Brasil é porque, como não se cansam de nos explicar, lá o mercado é abundante e barato. E podiam acrescentar que é provavelmente o único país onde percebem a língua e é bem mais agradável ir em trabalho ao Brasil que à Costa do Marfim, aos Camarões ou à Lituânia
1- Um leitor habitual de jornais desportivos, rotinado em destrinçar aquilo que são verdadeiras notícias daquilo que são mensagens passadas sob a forma de notícias, diverte-se muito nesta época chamada de defeso. Há de tudo: jogadores que querem melhorar o seu contrato com o clube e fazem constar que «têm muito mercado» à espera deles, quando não têm ninguém; jogadores estrangeiros que aparecem com alvo potencial de clubes portugueses mas cujo valor é desconhecido ou duvidoso e que logo são descritos como estando também debaixo da mira de algum grande europeu; clubes, chamados grandes, e de que toda a gente sabe que não têm dinheiro para grandes compras, mas que todos os dias deixam saber que «estão muito atentos ao mercado » e vão lançando nomes sonantes para o ar, para ver se enganam tolos. Enfim, há de tudo, num permanente jogo de bluff e piedosas mentiras que, acima de tudo, se destina a dar dinheiro aos empresários e encher de emoção a época dos presidentes. Uma das notícias mais clássicas nesta época e que a mim me faz sempre sorrir é precisamente a das constantes idas ao Brasil, «para compras», dos desconhecidos presidentes dos clubes pequenos e mais que pequenos. Não há presidente que se preze que, nesta altura do ano, não faça as malas e rume ao Brasil para tratar dos interesses do clube. E nem precisam de ir com o treinador, porque de jogadores percebem eles. Se vão sempre ao Brasil é porque, como não se cansam de nos explicar, lá o mercado é abundante e barato. E podiam acrescentar que é provavelmente o único país onde percebem a língua e é bem mais agradável irem trabalho ao Brasil que à Costa do Marfim, aos Camarões ou à Lituânia. Com tanta atracção pelo Brasil, não admira que haja centenas de jogadores brasileiros a actuar em Portugal, em todas as divisões profissionais. E, como os exemplos vêm de cima, temos desde logo o caso exemplar do FC Porto, que na última década, e com a contenção relativa dos anos Mourinho, tem sido o maior importador de brasileiros para o futebol português de que há memória. Confirmando-se a compra da última descoberta, Anderson de seu nome, o FC Porto tem actualmente, e só para o meio-campo, nada menos que oito brasileiros! Este Anderson é, aliás, um caso exemplar de como as coisas funcionam. Até há uns 10 dias atrás ninguém sabia quem era, ninguém tinha ouvido falar dele, ninguém jamais o vira jogar. Mas bastou que Jorge Mendes comprasse 70 por cento do seu passe por um milhão de contos para que o miúdo de 17 anos se transformasse automaticamente no «novo Ronaldinho Gaúcho» e que tenha, supostamente, despertado a cobiça desenfreada de Sporting, Benfica e FC Porto. Parece que assinava ontem pelos dragões, juntando-se aos compatriotas também centro-campistas Jorginho e Paulo Assunção, chegados agora ao plantel, e a Leo Lima, Ibson e Leandro do Bomfim, chegados em Janeiro: seis brasileiros para o meio-campo em apenas seis meses! Mas o mais engraçado é que «o novo Ronaldinho Gaúcho» joga na mesma posição que «o novo Pelé branco», — o Diego—contratado por uma fortuna na época passada com a missão de tentar fazer esquecer o verdadeiro Anderson, aquele que, de facto, fazia a diferença: Anderson Luiz de Souza, vulgo Deco. Como se sabe, foi um sucesso.
2- Como o tenho dito repetidamente, sou um adversário dos imensos plantéis que caracterizam as equipas portuguesas, pequenas e grandes, em comparação com as boas equipas europeias, onde o plantel principal não vai além de 20 jogadores, reforçados, quando necessário, pelos jovens das equipas B ou dos juniores. Não só os grandes plantéis impedem o aparecimento e a formação dos jogadores formados nas escolas e preparados nas equipas B como, além disso, contribuem para uma gestão impossível da equipa, geram insatisfações, frustrações e mau ambiente de balneário e, obviamente, arruínam qualquer orçamento. Mas, por mais que isto seja sabido e demonstrado, por mais que os treinadores estrangeiros que cá chegam de novo repitam que não querem trabalhar com mais de 23, 24 jogadores, os presidentes insistem em dar-lhes 33 ou mais, como se com isso mostrassem que trabalharam bem, fizeram excelentes negócios e «deram ao treinador todas as condições». Não deram; apenas complicaram a sua tarefa. O pobre Co Adriaanse, novo treinador portista, habituado a uma equipa modesta, onde cada jogador é um investimento que tem de dar rendimento, já estragou as suas férias a ver intermináveis vídeos para poder decidir, com um mínimo de justiça, como é que dos 36 que tem à sua espera vai eliminar sumariamente 11 ou 12, para ficar só com o número máximo que consegue treinar. Como é que, pensará ele, se fez um plantel que conta com cinco centrais, três laterais-esquerdos, sete pontas-de-lança e treze médios mas onde, por exemplo, não existe um único lateral-direito? O que fazer com jogadores como o Jankauskas e o Postiga, que custaram à volta de um milhão de contos cada um e valem um máximo de três golos por época? Para quê três guarda-redes, quando existem outros três na equipa B? O que fazer com jogadores que foram contratados esta época por quatro ou cinco anos e não jogaram mais de uma hora, casos de Raul Meireles, Areias, Pittbull, Leo Lima, Hugo Leal, Leandro do Bomfim?
3- Quem, como eu, apanhasse a meio o noticiário das televisões, domingo à noite, teria caído de espanto com a notícia de que Tiago Monteiro tinha subido ao pódio no Grande Prémio dos Estados Unidos, em Indianápolis. Desde o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa aos parabéns logo enviados por José Sócrates, à notícia repetida exaustivamente durante a transmissão do Brasil-México de que pela primeira vez um português tinha subido ao pódio na Fórmula 1, tudo me levou a crer que, de facto, se tratava de um dia histórico para o desporto português e até já visualizava Jorge Sampaio, de lágrima ao canto do olho, a condecorar Tiago Monteiro com a ordem de qualquer coisa. E até eu, que gosto de automobilismo mas acho a Fórmula 1 a competição mais chata do mundo, logo a seguir ao halterofilismo, dispus-me a assistir ao resumo alargado da prova, na RTP, para viver devidamente o momento de orgulho nacional. E foi só então que percebi a dimensão do embuste: o Tiago Monteiro não tinha subido ao pódio numa corrida normal, com todos a competir, mas apenas com seis, e depois de uma jogada antidesportiva patrocinada pela Ferrari e pela Jordan — a equipa de Monteiro. Não está em causa, obviamente, o comportamento de Tiago Monteiro, que é pago para correr e nada tem que ver com as jogadas de bastidores. Nem está em causa o mérito de, uma vez mais e pela nona consecutiva, ter levado o carro até ao fim. Mas aquilo em que ele participou não foi uma corrida mas sim, como lhe chamou a imprensa europeia, uma «farsa» e «a corrida da vergonha». Foi como se a Selecção Nacional tivesse vencido um Brasil com apenas seis jogadores de início. Eu até compreendo a alegria do Tiago Monteiro no pódio mas, para dizer a verdade, as suas comemorações, no meio dos apupos da multidão e perante a vergonha calada dos vencedores da Ferrari, até foi um bocado constrangente. A pior maneira de tirar valor a quem o tem é inventar-lhe proezas não alcançadas. Lá virá o dia, espero, em que o Tiago Monteiro chegue ao pódio após uma corrida verdadeira e uma luta leal entre todos. Mas, anteontem, aquele pódio não honrava ninguém.
1- Um leitor habitual de jornais desportivos, rotinado em destrinçar aquilo que são verdadeiras notícias daquilo que são mensagens passadas sob a forma de notícias, diverte-se muito nesta época chamada de defeso. Há de tudo: jogadores que querem melhorar o seu contrato com o clube e fazem constar que «têm muito mercado» à espera deles, quando não têm ninguém; jogadores estrangeiros que aparecem com alvo potencial de clubes portugueses mas cujo valor é desconhecido ou duvidoso e que logo são descritos como estando também debaixo da mira de algum grande europeu; clubes, chamados grandes, e de que toda a gente sabe que não têm dinheiro para grandes compras, mas que todos os dias deixam saber que «estão muito atentos ao mercado » e vão lançando nomes sonantes para o ar, para ver se enganam tolos. Enfim, há de tudo, num permanente jogo de bluff e piedosas mentiras que, acima de tudo, se destina a dar dinheiro aos empresários e encher de emoção a época dos presidentes. Uma das notícias mais clássicas nesta época e que a mim me faz sempre sorrir é precisamente a das constantes idas ao Brasil, «para compras», dos desconhecidos presidentes dos clubes pequenos e mais que pequenos. Não há presidente que se preze que, nesta altura do ano, não faça as malas e rume ao Brasil para tratar dos interesses do clube. E nem precisam de ir com o treinador, porque de jogadores percebem eles. Se vão sempre ao Brasil é porque, como não se cansam de nos explicar, lá o mercado é abundante e barato. E podiam acrescentar que é provavelmente o único país onde percebem a língua e é bem mais agradável irem trabalho ao Brasil que à Costa do Marfim, aos Camarões ou à Lituânia. Com tanta atracção pelo Brasil, não admira que haja centenas de jogadores brasileiros a actuar em Portugal, em todas as divisões profissionais. E, como os exemplos vêm de cima, temos desde logo o caso exemplar do FC Porto, que na última década, e com a contenção relativa dos anos Mourinho, tem sido o maior importador de brasileiros para o futebol português de que há memória. Confirmando-se a compra da última descoberta, Anderson de seu nome, o FC Porto tem actualmente, e só para o meio-campo, nada menos que oito brasileiros! Este Anderson é, aliás, um caso exemplar de como as coisas funcionam. Até há uns 10 dias atrás ninguém sabia quem era, ninguém tinha ouvido falar dele, ninguém jamais o vira jogar. Mas bastou que Jorge Mendes comprasse 70 por cento do seu passe por um milhão de contos para que o miúdo de 17 anos se transformasse automaticamente no «novo Ronaldinho Gaúcho» e que tenha, supostamente, despertado a cobiça desenfreada de Sporting, Benfica e FC Porto. Parece que assinava ontem pelos dragões, juntando-se aos compatriotas também centro-campistas Jorginho e Paulo Assunção, chegados agora ao plantel, e a Leo Lima, Ibson e Leandro do Bomfim, chegados em Janeiro: seis brasileiros para o meio-campo em apenas seis meses! Mas o mais engraçado é que «o novo Ronaldinho Gaúcho» joga na mesma posição que «o novo Pelé branco», — o Diego—contratado por uma fortuna na época passada com a missão de tentar fazer esquecer o verdadeiro Anderson, aquele que, de facto, fazia a diferença: Anderson Luiz de Souza, vulgo Deco. Como se sabe, foi um sucesso.
2- Como o tenho dito repetidamente, sou um adversário dos imensos plantéis que caracterizam as equipas portuguesas, pequenas e grandes, em comparação com as boas equipas europeias, onde o plantel principal não vai além de 20 jogadores, reforçados, quando necessário, pelos jovens das equipas B ou dos juniores. Não só os grandes plantéis impedem o aparecimento e a formação dos jogadores formados nas escolas e preparados nas equipas B como, além disso, contribuem para uma gestão impossível da equipa, geram insatisfações, frustrações e mau ambiente de balneário e, obviamente, arruínam qualquer orçamento. Mas, por mais que isto seja sabido e demonstrado, por mais que os treinadores estrangeiros que cá chegam de novo repitam que não querem trabalhar com mais de 23, 24 jogadores, os presidentes insistem em dar-lhes 33 ou mais, como se com isso mostrassem que trabalharam bem, fizeram excelentes negócios e «deram ao treinador todas as condições». Não deram; apenas complicaram a sua tarefa. O pobre Co Adriaanse, novo treinador portista, habituado a uma equipa modesta, onde cada jogador é um investimento que tem de dar rendimento, já estragou as suas férias a ver intermináveis vídeos para poder decidir, com um mínimo de justiça, como é que dos 36 que tem à sua espera vai eliminar sumariamente 11 ou 12, para ficar só com o número máximo que consegue treinar. Como é que, pensará ele, se fez um plantel que conta com cinco centrais, três laterais-esquerdos, sete pontas-de-lança e treze médios mas onde, por exemplo, não existe um único lateral-direito? O que fazer com jogadores como o Jankauskas e o Postiga, que custaram à volta de um milhão de contos cada um e valem um máximo de três golos por época? Para quê três guarda-redes, quando existem outros três na equipa B? O que fazer com jogadores que foram contratados esta época por quatro ou cinco anos e não jogaram mais de uma hora, casos de Raul Meireles, Areias, Pittbull, Leo Lima, Hugo Leal, Leandro do Bomfim?
3- Quem, como eu, apanhasse a meio o noticiário das televisões, domingo à noite, teria caído de espanto com a notícia de que Tiago Monteiro tinha subido ao pódio no Grande Prémio dos Estados Unidos, em Indianápolis. Desde o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa aos parabéns logo enviados por José Sócrates, à notícia repetida exaustivamente durante a transmissão do Brasil-México de que pela primeira vez um português tinha subido ao pódio na Fórmula 1, tudo me levou a crer que, de facto, se tratava de um dia histórico para o desporto português e até já visualizava Jorge Sampaio, de lágrima ao canto do olho, a condecorar Tiago Monteiro com a ordem de qualquer coisa. E até eu, que gosto de automobilismo mas acho a Fórmula 1 a competição mais chata do mundo, logo a seguir ao halterofilismo, dispus-me a assistir ao resumo alargado da prova, na RTP, para viver devidamente o momento de orgulho nacional. E foi só então que percebi a dimensão do embuste: o Tiago Monteiro não tinha subido ao pódio numa corrida normal, com todos a competir, mas apenas com seis, e depois de uma jogada antidesportiva patrocinada pela Ferrari e pela Jordan — a equipa de Monteiro. Não está em causa, obviamente, o comportamento de Tiago Monteiro, que é pago para correr e nada tem que ver com as jogadas de bastidores. Nem está em causa o mérito de, uma vez mais e pela nona consecutiva, ter levado o carro até ao fim. Mas aquilo em que ele participou não foi uma corrida mas sim, como lhe chamou a imprensa europeia, uma «farsa» e «a corrida da vergonha». Foi como se a Selecção Nacional tivesse vencido um Brasil com apenas seis jogadores de início. Eu até compreendo a alegria do Tiago Monteiro no pódio mas, para dizer a verdade, as suas comemorações, no meio dos apupos da multidão e perante a vergonha calada dos vencedores da Ferrari, até foi um bocado constrangente. A pior maneira de tirar valor a quem o tem é inventar-lhe proezas não alcançadas. Lá virá o dia, espero, em que o Tiago Monteiro chegue ao pódio após uma corrida verdadeira e uma luta leal entre todos. Mas, anteontem, aquele pódio não honrava ninguém.
quinta-feira, junho 16, 2005
Transferências (15 Junho 2005)
Por alguma razão Mourinho fez do McCarthy a sua única exigência para ser campeão europeu, por alguma razão Sir Alex Ferguson disse que nunca tinha visto um golo como o que ele marcou ao Manchester no Dragão, por alguma razão a Comissão Disciplinar da Liga gastou uma época inteira assanhada contra ele, colocando-o de fora em catorze jogos.
A época de caça,também conhecida como «defeso », vai animada, como sempre. Os três grandes vão mexendo as suas peças no tabuleiro de xadrez em que grande parte da futura época se decide. Conforme a capacidade financeira e o talento de prospecção e negociação, eles optam por se reforçar, por se renovar, ou por conservar ou mesmo enfraquecer os respectivos plantéis. Os clubes de media dimensão ou pequenos esperam pelas grandes decisões dos três tubarões para depois irem às «sobras». Frequentemente, porém, são eles que fazem os melhores negócios do «defeso», comprando barato e despercebidamente jogadores que para o ano já estarão a ser cobiçados pelos «grandes», a preços quatro ou cinco vezes superiores. Mas, como de costume, as atenções estão todas viradas para os três do topo. E aí, este ano, as atitudes são diferentes: há quem se contenha, quem espere para atacar e quem não espere para começar já gastar «à grande». Respectivamente, Sporting, Benfica e FC Porto.
No Sporting e pela segunda ou terceira época consecutiva, a ordem é de conter despesas, sair a ganhar do saldo entre compras e vendas e reduzir a massa salarial fixa. Pedro Barbosa e Rui Jorge foram sumariamente dispensados; Sá Pinto ganhou um ano de sobrevivência, em contrapartida de descer substancialmente o seu vencimento; Douala e Enakarhire, duas proveitosas contratações da última época, parecem de malas aviadas para esse estranho Dínamo de Moscovo, entreposto e salvação dos clubes portugueses. E a manutenção do decisivo Liedson, sem o qual nada salvará o Sporting na próxima época, está pendente de o Corinthians, outro dos novos-ricos planetários, aceitar o preço de 9 milhões que a SAD pede por ele. Só Ricardo, mal estimado pelos adeptos e com vontade de sair, não parece encontrar as tais fabulosas propostas que nos juram existirem em permanência para ele. De facto, a imprensa desportiva passa a vida a escrever que o Ricardo tem muito mercado... em Inglaterra, devido ao Portugal- Inglaterra para o Euro, em que defendeu um de seis penalties e converteu outro. Mas, não obstante o próprio Ricardo insistir com a SAD para ser vendido, a verdade é que não aparece ninguém a chegar-se à frente. E realmente, eu não vejo muito bem os ingleses a contratarem um guarda- redes só porque ele marca penalties, mas, em contrapartida, é um permanente calafrio no jogo aéreo... que é justamente o futebol- tipo inglês.
Portanto, no Sporting, a notícia são as saídas e não as entradas. Estas, a menos que Liedson seja vendido, não passam de meras intenções, que logo esbarram na falta de poder financeiro negocial dos leões — como no caso da hipotética compra do promissor central da Académica, José Castro. Vale ao Sporting ter como ponto de partida uma excelente equipe, a partir da qual, e mesmo com as saídas, dispõe de uma base sólida para a época que aí vem.
No Benfica, espera-se. A situação financeira e negocial é idêntica à do Sporting, isto é, não há dinheiro para consumar nada em matéria de aquisições fortes e sonantes. Mas tem um capital de esperança e de expectativa, composto pelo entusiasmo do título e da participação garantida na Liga dos Campeões, de que o Sporting não dispõe. Luís Filipe Vieira espera que o negócio do novo cartão ou os putativos negócios que José Veiga consiga fazer com esses igualmente misteriosos fundos de investimento multinacionais se concretizem em dinheiro fresco ou em jogadores a custo zero ou próximo disso. Por ora, limitaram-se a comprar o central Anderson, já anunciado em Janeiro, e o aveirense Beto. Depois de ter visto uns quantos vídeos, Ronald Koeman deve ter chegado à conclusão de que não poderia contar com outra época em que os golos só apa......... definiu a sua prioridade número um: um ponta-de-lança capaz de marcar golos, coisa que não é manifestamente, o caso de Nuno Gomes. Se eu mandasse no Benfica, ia buscar o Liedson ou o McCarthy, que Sporting e Porto estão obstinados a mandarem embora. No caso do McCarthy até haveria o desafio adicional de ver como ele, de camisola do Benfica, deixaria imediatamente de ser perseguido pelos árbitros e pelos disciplinadores da Liga. Entretanto, e enquanto espera para ver se o dinheiro aparece ou não, Vieira vai-se louvando de conseguir manter a «espinha dorsal » da equipe, para o que conta, de resto e como para tudo o resto, com a habitual caixa de ressonância da imprensa, também ela esforçando-se para nos fazer crer que aquele plantel tem muitos interessados por esse mundo fora. Olhem, eu, como portista, o que mais desejo é que o Benfica mantenha todos os seus jogadores actuais e o Sporting o José Peseiro a treinador. E isto não é maldade: é sentido prático.
Pois, lá no FC Porto, e tal como no ano passado, a regra parece ser a de vender tudo o que dá dinheiro e comprar tudo o que mexe. Já vão em quatro vendas e oito aquisições, a somar aí a uns quinze «regressos » de empréstimos. O habitual: um plantel de uns quarenta jogadores para começar a época e pôr logo a cabeça em água ao novo treinador.
Se, quanto às vendas, incluindo as da época passada, eu tenho estado sempre em acordo (excepto quanto à venda do Carlos Alberto, que tanto jeito teria dado para o final do campeonato...), já quanto às compras, não consigo conformar-me com a enxurrada de brasileiros, a leva de jogadores de terceiro plano que não se entende para que servem ou as tentativas, sempre falhadas, de transformar jogadores medíocres do Benfica embons jogadores no FC Porto. Dez Leo Limas não valem um Carlos Alberto, assim como dez Sokotas não valem um McCarthy — cuja venda parece iminente e é insistentemente «pedida » pela imprensa desportiva de Lisboa (como já antes pedia a do Jardel, ano após ano...). Por alguma razão Mourinho fez do McCarthy a sua única exigência para ser campeão europeu, por alguma razão Sir Alex Ferguson disse que nunca tinha visto um golo como o que ele marcou ao Manchester noDragão, por alguma razão a Comissão Disciplinar da Liga gastou uma época inteira assanhada contra ele, colocando-o de fora em catorze jogos. A saída do McCarthy deixará o ataque do FC Porto (que este ano foi o 8º do campeonato!) sem ninguém capaz de marcar golos de forma regular. É um tiro no pé, incompreensível da parte de quem, ao contrário dos rivais, não tem necessidade imperiosa de realizar dinheiro. E que, aliás, e para fingir que compensa depois, irá gastar o dinheiro da venda do McCarthy em três ou quatro inúteis só para fazer número e acrescentar as despesas fixas. Enfim, provavelmente, quando isto vir a luz do dia, já é inútil, mas, pelo menos, que haja alguém a ter avisado.
PS: O jovem Amoreirinha protagonizou, há dois anos e no Torneio de Toulon, a mais selvática, feia e inexplicável agressão a um adversário que eu alguma vez vi num campo de futebol. Na altura, impressionado com o que tinha visto, escrevi aqui que ele não poderia de forma alguma passar impune -visto que o árbitro do jogo nada havia visto. Mas, neste nosso futebol que é capaz de expulsar e suspender por quatro jogos o McCarthy porque ele se tentou libertar com o braço e o cotovelo de um adversário sentado em cima da sua cabeça, o Amoreirinha beneficiou de absoluta impunidade: continuou a representar o seu clube e a Selecção de sub-20, como se nada fosse. Agora, na meia-final de Toulon, ele reincidiu, atingindo um adversário a soco e deixando a equipe de Portugal reduzida a dez durantemais demeio jogo. Mas obviamente que a culpa não é dele: a culpa só pode ser de quem, tendo por obrigação formá-lo como jogador, permite que ele continue assim e a representar Portugal.
A época de caça,também conhecida como «defeso », vai animada, como sempre. Os três grandes vão mexendo as suas peças no tabuleiro de xadrez em que grande parte da futura época se decide. Conforme a capacidade financeira e o talento de prospecção e negociação, eles optam por se reforçar, por se renovar, ou por conservar ou mesmo enfraquecer os respectivos plantéis. Os clubes de media dimensão ou pequenos esperam pelas grandes decisões dos três tubarões para depois irem às «sobras». Frequentemente, porém, são eles que fazem os melhores negócios do «defeso», comprando barato e despercebidamente jogadores que para o ano já estarão a ser cobiçados pelos «grandes», a preços quatro ou cinco vezes superiores. Mas, como de costume, as atenções estão todas viradas para os três do topo. E aí, este ano, as atitudes são diferentes: há quem se contenha, quem espere para atacar e quem não espere para começar já gastar «à grande». Respectivamente, Sporting, Benfica e FC Porto.
No Sporting e pela segunda ou terceira época consecutiva, a ordem é de conter despesas, sair a ganhar do saldo entre compras e vendas e reduzir a massa salarial fixa. Pedro Barbosa e Rui Jorge foram sumariamente dispensados; Sá Pinto ganhou um ano de sobrevivência, em contrapartida de descer substancialmente o seu vencimento; Douala e Enakarhire, duas proveitosas contratações da última época, parecem de malas aviadas para esse estranho Dínamo de Moscovo, entreposto e salvação dos clubes portugueses. E a manutenção do decisivo Liedson, sem o qual nada salvará o Sporting na próxima época, está pendente de o Corinthians, outro dos novos-ricos planetários, aceitar o preço de 9 milhões que a SAD pede por ele. Só Ricardo, mal estimado pelos adeptos e com vontade de sair, não parece encontrar as tais fabulosas propostas que nos juram existirem em permanência para ele. De facto, a imprensa desportiva passa a vida a escrever que o Ricardo tem muito mercado... em Inglaterra, devido ao Portugal- Inglaterra para o Euro, em que defendeu um de seis penalties e converteu outro. Mas, não obstante o próprio Ricardo insistir com a SAD para ser vendido, a verdade é que não aparece ninguém a chegar-se à frente. E realmente, eu não vejo muito bem os ingleses a contratarem um guarda- redes só porque ele marca penalties, mas, em contrapartida, é um permanente calafrio no jogo aéreo... que é justamente o futebol- tipo inglês.
Portanto, no Sporting, a notícia são as saídas e não as entradas. Estas, a menos que Liedson seja vendido, não passam de meras intenções, que logo esbarram na falta de poder financeiro negocial dos leões — como no caso da hipotética compra do promissor central da Académica, José Castro. Vale ao Sporting ter como ponto de partida uma excelente equipe, a partir da qual, e mesmo com as saídas, dispõe de uma base sólida para a época que aí vem.
No Benfica, espera-se. A situação financeira e negocial é idêntica à do Sporting, isto é, não há dinheiro para consumar nada em matéria de aquisições fortes e sonantes. Mas tem um capital de esperança e de expectativa, composto pelo entusiasmo do título e da participação garantida na Liga dos Campeões, de que o Sporting não dispõe. Luís Filipe Vieira espera que o negócio do novo cartão ou os putativos negócios que José Veiga consiga fazer com esses igualmente misteriosos fundos de investimento multinacionais se concretizem em dinheiro fresco ou em jogadores a custo zero ou próximo disso. Por ora, limitaram-se a comprar o central Anderson, já anunciado em Janeiro, e o aveirense Beto. Depois de ter visto uns quantos vídeos, Ronald Koeman deve ter chegado à conclusão de que não poderia contar com outra época em que os golos só apa......... definiu a sua prioridade número um: um ponta-de-lança capaz de marcar golos, coisa que não é manifestamente, o caso de Nuno Gomes. Se eu mandasse no Benfica, ia buscar o Liedson ou o McCarthy, que Sporting e Porto estão obstinados a mandarem embora. No caso do McCarthy até haveria o desafio adicional de ver como ele, de camisola do Benfica, deixaria imediatamente de ser perseguido pelos árbitros e pelos disciplinadores da Liga. Entretanto, e enquanto espera para ver se o dinheiro aparece ou não, Vieira vai-se louvando de conseguir manter a «espinha dorsal » da equipe, para o que conta, de resto e como para tudo o resto, com a habitual caixa de ressonância da imprensa, também ela esforçando-se para nos fazer crer que aquele plantel tem muitos interessados por esse mundo fora. Olhem, eu, como portista, o que mais desejo é que o Benfica mantenha todos os seus jogadores actuais e o Sporting o José Peseiro a treinador. E isto não é maldade: é sentido prático.
Pois, lá no FC Porto, e tal como no ano passado, a regra parece ser a de vender tudo o que dá dinheiro e comprar tudo o que mexe. Já vão em quatro vendas e oito aquisições, a somar aí a uns quinze «regressos » de empréstimos. O habitual: um plantel de uns quarenta jogadores para começar a época e pôr logo a cabeça em água ao novo treinador.
Se, quanto às vendas, incluindo as da época passada, eu tenho estado sempre em acordo (excepto quanto à venda do Carlos Alberto, que tanto jeito teria dado para o final do campeonato...), já quanto às compras, não consigo conformar-me com a enxurrada de brasileiros, a leva de jogadores de terceiro plano que não se entende para que servem ou as tentativas, sempre falhadas, de transformar jogadores medíocres do Benfica embons jogadores no FC Porto. Dez Leo Limas não valem um Carlos Alberto, assim como dez Sokotas não valem um McCarthy — cuja venda parece iminente e é insistentemente «pedida » pela imprensa desportiva de Lisboa (como já antes pedia a do Jardel, ano após ano...). Por alguma razão Mourinho fez do McCarthy a sua única exigência para ser campeão europeu, por alguma razão Sir Alex Ferguson disse que nunca tinha visto um golo como o que ele marcou ao Manchester noDragão, por alguma razão a Comissão Disciplinar da Liga gastou uma época inteira assanhada contra ele, colocando-o de fora em catorze jogos. A saída do McCarthy deixará o ataque do FC Porto (que este ano foi o 8º do campeonato!) sem ninguém capaz de marcar golos de forma regular. É um tiro no pé, incompreensível da parte de quem, ao contrário dos rivais, não tem necessidade imperiosa de realizar dinheiro. E que, aliás, e para fingir que compensa depois, irá gastar o dinheiro da venda do McCarthy em três ou quatro inúteis só para fazer número e acrescentar as despesas fixas. Enfim, provavelmente, quando isto vir a luz do dia, já é inútil, mas, pelo menos, que haja alguém a ter avisado.
PS: O jovem Amoreirinha protagonizou, há dois anos e no Torneio de Toulon, a mais selvática, feia e inexplicável agressão a um adversário que eu alguma vez vi num campo de futebol. Na altura, impressionado com o que tinha visto, escrevi aqui que ele não poderia de forma alguma passar impune -visto que o árbitro do jogo nada havia visto. Mas, neste nosso futebol que é capaz de expulsar e suspender por quatro jogos o McCarthy porque ele se tentou libertar com o braço e o cotovelo de um adversário sentado em cima da sua cabeça, o Amoreirinha beneficiou de absoluta impunidade: continuou a representar o seu clube e a Selecção de sub-20, como se nada fosse. Agora, na meia-final de Toulon, ele reincidiu, atingindo um adversário a soco e deixando a equipe de Portugal reduzida a dez durantemais demeio jogo. Mas obviamente que a culpa não é dele: a culpa só pode ser de quem, tendo por obrigação formá-lo como jogador, permite que ele continue assim e a representar Portugal.
quarta-feira, junho 08, 2005
A mania das grandezas (7 Junho 2005)
Luís Filipe Vieira não tardará a perceber que, afinal, é preciso muito trabalho, muita organização, muito planeamento e muito talento para conseguir chegar onde o FC Porto chegou
1 Uma das coisas que, desde o início, mais me impressionaram na época futebolística que agora chegou ao fim foi a determinação surda, obstinada, de serem campeões, transmitida pelos responsáveis do Benfica. Não, não foi apenas a vontade, que todos têm, de o ser; não foi apenas a ambição, mais do que legítima, de pôr fim a uma década de jejum; ou o discurso mobilizador para produzir efeitos internos. Foi muito mais do que isso, qualquer coisa de palpávelmas dificilmente explicável, que se traduziu numa espécie de desespero, de pura e simples rejeição de qualquer outra hipótese que não fosse essa, em termos de levar o presidente doBenfica, Luís Filipe Vieira, a afirmar, a abrir a época, que este ano, doesse a quem doesse, seriam campeões. A forma como o disse e as sequências práticas dessa afirmação ao longo do campeonato, deixaram-me a clara impressão de que, mais do que a conquista de um título, tratava-se da sobrevivência do próprio clube.
Esta semana, ao lançar o seu ultimatum aos sócios do clube, L. F. Vieira, confirmou a minha impressão e mostrou que não foi preciso esperar muito para que ele comecasse a tirar rendimentos internos do título. O Benfica, diz ele, «tem condições para ser o maior clube do Mundo ao nível de sócios», pelo que não se contenta com menos de 300.000 sócios daqui até Outubro e 100 milhões de euros a médio prazo, vindos dos novos sócios. Ou então vai-se embora. Está tudo, pois, nas mãos dos adeptos: ou aderem ao novo cartão e fazem do Benfica um clube «imparável na Europa», ou então mudam de presidente.
O que dizer desta jogada de tudo ou nada? Primeiro, que as contas não parecem encaixar bem: 300.000 novos sócios a 55 euros não dá 100 milhões de euros, mas apenas 15,5 milhões. Para chegar aos 100 milhões seriam necessários mais de... um milhão e oitocentos mil sócios! Segundo, que parece bem pouco aliciante a proposta do Benfica aos sócios: 55 euros em troca de ficarem pagas as quatro primeiras quotas, ter uns descontozinhos na Telepizza, na Papelaria Fernandes, na compra da Nova gente e da Maria, no kartódromo de Campera a seguir às vitórias do Benfica e do direito a ver dois jogos da SuperLiga em toda a época. Ao menos a Operação Coração e a Operação Fica Amaral! eram mais óbvias.
Esquecendo o delírio do «maior clube do Mundo» (saberá Vieira que o Manchester United tem cinco milhões de adeptos na Ásia e o Real Madrid três milhões?), mesmo o projecto da ressurreição do Benfica europeu não me parece que vá lá por este caminho, tipo magia instantânea. Compreendo o desespero de quem dirige o maior clube português em número de adeptos, e mais não faz, ano após ano, do que negociar em situação de desespero com os credores e tentar evitar a bancarrota sempre ao virar da esquina, sabendo que, mesmo para manter uma equipa tão fraquinha quanto a deste ano, os resultados de exploração são sistematicamente negativos. São-no em todos os clubes portugueses, de resto, só que o Sporting e, sobretudo, o FC Porto têm mostrado capacidade de realizar receitas extraordinárias com vendas de jogadores, enquanto, olhando para o plantel do Benfica, o mais que se arranja é algumas almas caridosas a jurar que o Luisão é disputado pelos grandes da Europa.
Não me parece, de facto, que seja pelo caminho da angariação utópica de centenas de milhar de sócios que o Benfica, ou quem quer que seja, possa dar a volta à situação. Ao lançarem-se na construção dos novos estádios, os clubes sabiam que teria de ser pela via da venda de lugares cativos a sócios e empresas (que tão mal correu no Benfica...) que se geraria o grosso das receitas de manutenção. Não pela via da angariação de novos sócios, para os quais, aliás, deixou de haver lugar garantido nos estádios. E, se não há lugar garantido, para que serve ser sócio?
Já várias vezes me debruçei aqui sobre este tema, defendendo o que julgo poderia ser o caminho do futuro: transformar os clubes de futebol emqualquer coisa mais do que simples produtores de espectáculos futebolísticos. Transformá-los, por exemplo, em clubes prestadores de serviços aos sócios. O Automóvel Clube de Portugal é o maior clube português porque nasceu para fazer isso. Começou por desempanar carros e ensinar a conduzir e hoje em dia presta um sem-número de outros serviços que atraem os sócios (e isto não é publicidade, eu nem sequer sou sócio...). Não há razão para que um clube de futebol não tenha para propor aos seus sócios serviços na área do desporto e manutenção física, saúde, seguros, viagens, hotelaria, restauração, acompanhamento jurídico e fiscal, rent-a-car, baby sitting e campos de férias de miúdos, eu sei lá — é escolher, quer directamente, quer em outsourcing. Esse é um caminho, no qual o F C Porto, por exemplo, já deu os primeiros passos e o Benfica está a zero ou quase. Outro é o do merchandising, onde o Benfica está também, atrás do Porto, o que é incompreensível. Outro, obviamente, é o da formação, onde o Benfica está a anos-luz de um Sporting e mesmo de vários outros clubes de dimensão francamente menor.
Depois, há outro aspecto a considerar, que é o da dimensão internacional do clube. É um aspecto decisivo para proporcionar os bons negócios, seja na venda de jogadores ou na contratação de jogos de prestígio e bom retorno financeiro no estrangeiro. Para isso é preciso que o clube esteja na ribalta internacional, que seja visto, falado e objecto de notícia. Ora, neste aspecto, o Benfica actual, pese toda a prosápia de muitos benfiquistas, dava tudo para poder estar no patamar do F C Porto. Não há como viajar pelo Mundo para o perceber. E isso não é tarefa que se consume com êxito a curto ou a médio prazo.
Mesmo os 300.000 novos sócios não fariam do Benfica «um clube imparável na Europa» enquanto o diabo esfrega um olho. Luís Filipe Vieira quer, e só pode querer, ver o Benfica de regresso ao topo da cena europeia.Mas não é assim tão rápido, tão linear e tão fácil. Não só a Lei Bosman tornou bem mais difícil os pequenos e médios enfrentarem os grandes, como também era infinitamente mais fácil vencer a Taça dos Campeões da década de 60 ou 70 do que vencer a Liga dos Campeões actual. Mesmo o F C Porto não chegou lá, ao contrário do que muita gente pretende fazer crer, apenas porque Mourinho chegou ao Porto um ano e meio antes. Sem tirar qualquer mérito aMourinho, é necessário não esquecer que, para trás, estava uma década de campeonatos nacionais e presenças constantes na Liga dos Campeões, que fizeram do F C Porto a segunda equipa mais assídua da prova. Quando conquistou o seu título da Champions, o F C Porto já era a equipa portuguesa com mais títulos internacionais, já contava quatro ou cinco ultrapassagens da fase de grupos da prova, já integrava há anos o G-14, já habituara a Europa a bater-se em pé de igualdade ou quase contra os tubarões do continente. Mesmo este ano, onde a equipa só somou equívocos e frustrações, ultrapassou a fase de grupos da Champions e só foi definitivamente afastada pelo Inter a dez minutos do fim do jogo da segunda mão dos oitavos-de-final.
Não se chega aqui de repente ou por simples vontade. A inveja e a maledicência nacionais inventaram a lenda de que os triunfos do F C Porto da era moderna eram todos conseguidos em jogadas subterrâneas. Mas agora, que se acham capazes de o imitar, é que eu quero ver o que valem, lá, onde o valor das grandes equipas e dos grandes clubes se mede a sério: na Europa. Luís Filipe Vieira não tardará a perceber que, afinal, é preciso muito trabalho, muita organização, muito planeamento e muito talento.
2 Ao menos, o presidente do Sporting não tem preocupações destas. Ele é o presidente do melhor clube português, os aristocratas da bola, os gestores de topo, os senhores do futebol português. Se não ganham nem convencem é porque o sistema e as arbitragens os perseguem, ano após ano. Não é porque o Ricardo seja notoriamente incompetente em todas as bolas aéreas sobre a pequena área, como se viu contra o Benfica, em Alkmaar, na final da UEFA ou na final do Euro. É porque é sempre carregado e os árbitros nunca vêem.
Já ninguém presta vassalagem ao velho senhor. Mas quando será que regressa a monarquia?
1 Uma das coisas que, desde o início, mais me impressionaram na época futebolística que agora chegou ao fim foi a determinação surda, obstinada, de serem campeões, transmitida pelos responsáveis do Benfica. Não, não foi apenas a vontade, que todos têm, de o ser; não foi apenas a ambição, mais do que legítima, de pôr fim a uma década de jejum; ou o discurso mobilizador para produzir efeitos internos. Foi muito mais do que isso, qualquer coisa de palpávelmas dificilmente explicável, que se traduziu numa espécie de desespero, de pura e simples rejeição de qualquer outra hipótese que não fosse essa, em termos de levar o presidente doBenfica, Luís Filipe Vieira, a afirmar, a abrir a época, que este ano, doesse a quem doesse, seriam campeões. A forma como o disse e as sequências práticas dessa afirmação ao longo do campeonato, deixaram-me a clara impressão de que, mais do que a conquista de um título, tratava-se da sobrevivência do próprio clube.
Esta semana, ao lançar o seu ultimatum aos sócios do clube, L. F. Vieira, confirmou a minha impressão e mostrou que não foi preciso esperar muito para que ele comecasse a tirar rendimentos internos do título. O Benfica, diz ele, «tem condições para ser o maior clube do Mundo ao nível de sócios», pelo que não se contenta com menos de 300.000 sócios daqui até Outubro e 100 milhões de euros a médio prazo, vindos dos novos sócios. Ou então vai-se embora. Está tudo, pois, nas mãos dos adeptos: ou aderem ao novo cartão e fazem do Benfica um clube «imparável na Europa», ou então mudam de presidente.
O que dizer desta jogada de tudo ou nada? Primeiro, que as contas não parecem encaixar bem: 300.000 novos sócios a 55 euros não dá 100 milhões de euros, mas apenas 15,5 milhões. Para chegar aos 100 milhões seriam necessários mais de... um milhão e oitocentos mil sócios! Segundo, que parece bem pouco aliciante a proposta do Benfica aos sócios: 55 euros em troca de ficarem pagas as quatro primeiras quotas, ter uns descontozinhos na Telepizza, na Papelaria Fernandes, na compra da Nova gente e da Maria, no kartódromo de Campera a seguir às vitórias do Benfica e do direito a ver dois jogos da SuperLiga em toda a época. Ao menos a Operação Coração e a Operação Fica Amaral! eram mais óbvias.
Esquecendo o delírio do «maior clube do Mundo» (saberá Vieira que o Manchester United tem cinco milhões de adeptos na Ásia e o Real Madrid três milhões?), mesmo o projecto da ressurreição do Benfica europeu não me parece que vá lá por este caminho, tipo magia instantânea. Compreendo o desespero de quem dirige o maior clube português em número de adeptos, e mais não faz, ano após ano, do que negociar em situação de desespero com os credores e tentar evitar a bancarrota sempre ao virar da esquina, sabendo que, mesmo para manter uma equipa tão fraquinha quanto a deste ano, os resultados de exploração são sistematicamente negativos. São-no em todos os clubes portugueses, de resto, só que o Sporting e, sobretudo, o FC Porto têm mostrado capacidade de realizar receitas extraordinárias com vendas de jogadores, enquanto, olhando para o plantel do Benfica, o mais que se arranja é algumas almas caridosas a jurar que o Luisão é disputado pelos grandes da Europa.
Não me parece, de facto, que seja pelo caminho da angariação utópica de centenas de milhar de sócios que o Benfica, ou quem quer que seja, possa dar a volta à situação. Ao lançarem-se na construção dos novos estádios, os clubes sabiam que teria de ser pela via da venda de lugares cativos a sócios e empresas (que tão mal correu no Benfica...) que se geraria o grosso das receitas de manutenção. Não pela via da angariação de novos sócios, para os quais, aliás, deixou de haver lugar garantido nos estádios. E, se não há lugar garantido, para que serve ser sócio?
Já várias vezes me debruçei aqui sobre este tema, defendendo o que julgo poderia ser o caminho do futuro: transformar os clubes de futebol emqualquer coisa mais do que simples produtores de espectáculos futebolísticos. Transformá-los, por exemplo, em clubes prestadores de serviços aos sócios. O Automóvel Clube de Portugal é o maior clube português porque nasceu para fazer isso. Começou por desempanar carros e ensinar a conduzir e hoje em dia presta um sem-número de outros serviços que atraem os sócios (e isto não é publicidade, eu nem sequer sou sócio...). Não há razão para que um clube de futebol não tenha para propor aos seus sócios serviços na área do desporto e manutenção física, saúde, seguros, viagens, hotelaria, restauração, acompanhamento jurídico e fiscal, rent-a-car, baby sitting e campos de férias de miúdos, eu sei lá — é escolher, quer directamente, quer em outsourcing. Esse é um caminho, no qual o F C Porto, por exemplo, já deu os primeiros passos e o Benfica está a zero ou quase. Outro é o do merchandising, onde o Benfica está também, atrás do Porto, o que é incompreensível. Outro, obviamente, é o da formação, onde o Benfica está a anos-luz de um Sporting e mesmo de vários outros clubes de dimensão francamente menor.
Depois, há outro aspecto a considerar, que é o da dimensão internacional do clube. É um aspecto decisivo para proporcionar os bons negócios, seja na venda de jogadores ou na contratação de jogos de prestígio e bom retorno financeiro no estrangeiro. Para isso é preciso que o clube esteja na ribalta internacional, que seja visto, falado e objecto de notícia. Ora, neste aspecto, o Benfica actual, pese toda a prosápia de muitos benfiquistas, dava tudo para poder estar no patamar do F C Porto. Não há como viajar pelo Mundo para o perceber. E isso não é tarefa que se consume com êxito a curto ou a médio prazo.
Mesmo os 300.000 novos sócios não fariam do Benfica «um clube imparável na Europa» enquanto o diabo esfrega um olho. Luís Filipe Vieira quer, e só pode querer, ver o Benfica de regresso ao topo da cena europeia.Mas não é assim tão rápido, tão linear e tão fácil. Não só a Lei Bosman tornou bem mais difícil os pequenos e médios enfrentarem os grandes, como também era infinitamente mais fácil vencer a Taça dos Campeões da década de 60 ou 70 do que vencer a Liga dos Campeões actual. Mesmo o F C Porto não chegou lá, ao contrário do que muita gente pretende fazer crer, apenas porque Mourinho chegou ao Porto um ano e meio antes. Sem tirar qualquer mérito aMourinho, é necessário não esquecer que, para trás, estava uma década de campeonatos nacionais e presenças constantes na Liga dos Campeões, que fizeram do F C Porto a segunda equipa mais assídua da prova. Quando conquistou o seu título da Champions, o F C Porto já era a equipa portuguesa com mais títulos internacionais, já contava quatro ou cinco ultrapassagens da fase de grupos da prova, já integrava há anos o G-14, já habituara a Europa a bater-se em pé de igualdade ou quase contra os tubarões do continente. Mesmo este ano, onde a equipa só somou equívocos e frustrações, ultrapassou a fase de grupos da Champions e só foi definitivamente afastada pelo Inter a dez minutos do fim do jogo da segunda mão dos oitavos-de-final.
Não se chega aqui de repente ou por simples vontade. A inveja e a maledicência nacionais inventaram a lenda de que os triunfos do F C Porto da era moderna eram todos conseguidos em jogadas subterrâneas. Mas agora, que se acham capazes de o imitar, é que eu quero ver o que valem, lá, onde o valor das grandes equipas e dos grandes clubes se mede a sério: na Europa. Luís Filipe Vieira não tardará a perceber que, afinal, é preciso muito trabalho, muita organização, muito planeamento e muito talento.
2 Ao menos, o presidente do Sporting não tem preocupações destas. Ele é o presidente do melhor clube português, os aristocratas da bola, os gestores de topo, os senhores do futebol português. Se não ganham nem convencem é porque o sistema e as arbitragens os perseguem, ano após ano. Não é porque o Ricardo seja notoriamente incompetente em todas as bolas aéreas sobre a pequena área, como se viu contra o Benfica, em Alkmaar, na final da UEFA ou na final do Euro. É porque é sempre carregado e os árbitros nunca vêem.
Já ninguém presta vassalagem ao velho senhor. Mas quando será que regressa a monarquia?