A «marca-Adriaanse» tem características absolutamente originais e que vão à revelia do futebol das equipas montadas com base num meio-campo superpovoado, mostrando um tipo de jogo ofensivo, destemido e espectacular.
PESSOALMENTE, aproveitei bem o «defeso» de quatro semanas que me atribuí. Andei por aí, espreitei algum futebol de outras paragens ou os primeiros jogos dos nossos grandes, segui atentamente a eterna saga dos jogadores que mudam daqui para ali, a roda-viva dos chamados «empresários », voando sem parar entre capitais europeias, brasis e offshores, novos-ricos do futebol, tão atarefados, tão atarefados que às vezes até se «esquecem» que têm de pagar impostos e depois descobre- se que todo o luxuoso património que exibem afinal não lhes pertence, mas está sim registado em nome da mulher, do tio, do sobrinho e do canário. Uns cavalheiros do desporto!
Como seria inevitável, segui mais de perto e mais interessadamente tudo o que respeita ao meu FC Porto. E do que segui, neste primeiro mês de preparação, posso dizer que cada vez confirmo mais a convicção de que, após um ano de erros sucessivos, o FC Porto acertou em cheio este ano, com a escolha do treinador. Co Adriaanse vai-me impressionando cada vezmais, como já me havia impressionado no ano passado, quando vi o seu semiamador AZ Alkmaar dar duas lições de bola ao Sporting, só por infelicidade não tendo chegado eles à final da UEFA. Entre as suas evidentes qualidades está a inteligência e a eficácia que revela em tudo o que diz, não falando de mais nem de menos e evitando os lugares-comuns vazios de sentido, tão característicos dos nossos treinadores. Depois, aprecio a disciplina de que já deu provas (há quem diga que tem fama de, por vezes, exagerar, o que é, de facto, um perigo).Mas ele acha-se no direito de exigir dos jogadores tudo e em todos os momentos e não apenas de vez em quando, e eu acho que ele está certo.
Nem tudo o que tem feito merece a minha concordância, mas isso é natural e inevitável—é impossível agradar a todos, emtudo. Discordo, por exemplo, da dispensa de Leandro do Bomfim, queme parecemal explicada e incompreensível, como julgo que o futuro mostrará. Discordo que não tenha ido avante com a sua «firme» ideia de ficar apenas com 25 jogadores no plantel (consta que recuou porque um dos que queria dispensar era Sokota e isso seria desfeita a Pinto da Costa). Discordo da aparente subalternização a que tem votado Ricardo Quaresma (ou será só estratégia para com o jogador?) e espero que ele tenha a paciência e a clarividência de perceber que está ali em potência um dos melhores jogadores do Mundo, que apenas precisa que o ajudem a crescer de forma inteligente. E, embora seja indiscutível que o Postiga rende muito mais naquela posição de falso dez do que como ponta-de-lança—o que não é difícil — parece-me que essa função seria bem melhor desempenhada pelo Jorginho nas costas do McCarthy ou pelo próprio McCarthy com o Hugo Almeida na frente. Mas, fora esses detalhes, o essencial é que Adriaanse mudou de alto a baixo o futebol da equipa, deu-lhe um sentido e uma orientação táctica e estratégica que há muito andava dali arredada e vai confirmando à vista de todos a justeza daquela frase que disse há tempos e que, de tão óbvia, quase soou a arrogante: que a função de um treinador é dar uma «assinatura» ao futebol da equipa, dar-lhe a sua imagem de marca. E, nesse aspecto, devo dizer que há muito que não via um treinadormarcar de tal modo o futebol de uma equipa e fazê-lo de forma tão original. De facto, a «marca- Adriaanse» tem características absolutamente originais e que vão à revelia do futebol das equipas montadas com base num meio-campo superpovoado, desenvolvendo um tipo de jogo onde essencialmente nada acontece e a maior parte dos golos e das oportunidades só aparecem de bola parada. O tipo de jogo que Adriaanse temmostrado através do FC Porto é destemido, ofensivo e espectacular, assentando nas seguintes características identificadoras:
— no modelo 4x3x3, laterais capazes de subir por todo o corredor, de forma constante, na boa tradição do futebol holandês;
— médios jogando de forma vertical no terreno, fazendo todos eles o vaivém dos 60 metros decisivos entre as duas áreas; — avançados em constante movimentação e troca de posições, todos podendo fazer de extremo ou de ponta-de-lança, todos obrigados a recuar para defender, sem momentos de descanso parados lá à frente, à espera da bola;
—pressão alta a defender, com os jogadores muito juntos entre si, possibilitando «dobras» sucessivas de uns aos outros;
—intensa circulação de bola, em um ou dois toques, com desmarcações, aberturas e progressão «assistida», em que a equipa se vai desdobrando, dando a sensação de que tem mais jogadores em campo;
— alternância súbita de passes em profundidade para as costas da defesa, pelo centro ou pelas alas, aproveitando o adiantamento esporádico do adversário.
O que mais impressiona é a rapidez com que a equipa parece ter compreendido e sido capaz de executar um tipo de jogo que não é fácil de explanar sem se cair em momentos de total anarquia táctica. O FC Porto das primeiras partes contra grandes equipas, como o Club Brugge, o Boca ou o Arsenal, foi uma equipa desconcertante, descarada, amomentos explosiva e revolucionária. Inevitavelmente, terminou sempre as primeiras partes a ganhar. O problema são as segundas partes, que reflectem a fraqueza do sistema: a sua tremenda exigência física. Quando um ponta-de-lança, como o McCarthy, é obrigado a dar assistência junto da sua área cada vez que o adversário ataca, participar na construção de jogo a meio-campo e ainda estar lá na frente, nas laterais ou na área ofensiva, quando a equipa ataca, é inevitável que estoire ao fim de uma hora de jogo, por melhor que seja a preparação física (e McCarthys não há muitos, só há este, e daí a tentativa descarada de o destabilizar ou roubá-lo a preços de saldo, a que felizmente não cederam nem Adriaanse nem Pinto da Costa...). Num sistema de jogo onde não existe aquilo a que Mourinho chama «o descanso com bola», vai ser muito difícil gerir o esforço físico dos jogadores. Felizmente que Adriaanse dispõe de um trunfo muito importante, que é um banco de luxo, a que fatalmente terá de recorrer sempre ou quase sempre.
Outro ponto fraco deste sistema é, volto a dizer, a capacidade de desempenho do papel de um número dez muito peculiar e que me parece que dificilmente será levado a cabo, de forma regularmente satisfatória, por Hélder Postiga (ou por Diego). Outro ponto fraco é que este tipo de jogo exige bons rematadores de meiadistância e eles tardam em aparecer—Jorginho seria a aposta mais provável se jogasse na posição de Postiga e se não estivesse tão perdulário que perdeu por um palmo o Torneio de Amesterdão, falhando de forma inacreditável um golo nos últimos segundos.
Finalmente, o centro da defesa, apesar do apoio de Raul Meireles (este sim, grande descoberta de Adriaanse!), está longe de dar garantias de velocidade, sincronização e segurança. Ricardo Costa e Pedro Emanuel têm-se mostrado altamente vulneráveis, valendo-lhes, nas suas costas, a presença superior de dois grandes guarda-redes, entre os quais Adriaanse terá de escolher um... talvez por moeda ao ar.
Mas, tudo visto e revisto, este FC Porto pós-traumático parece crescer a olhos vistos em direcção a um campeonato e a uma Champions League onde de novo se abre espaço para todos os sonhos.
PS — Vi 20 minutos do Guimarães- Benfica e desisti de ver mais porque estava a ficar incomodado por aquele festival de violência, antidesportivismo e falta de respeito pelo futebol proporcionado pela equipa de Jaime Pacheco. O Vitória de Guimarães é um grande clube, com uma grande massa associativa e uma história de prestígio. Não merece ser enxovalhado por um tipo de jogo defendido por um treinador que já deu mostras mais do que suficientes de não gostar de futebol e não querer entender que hoje não há espectadores para o futebol-terrorista. Eu avisei, quando o Boavista foi campeão a jogar assim, mas, como tinha sido campeão contra o FC Porto, toda a gente achou lindo...
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
terça-feira, setembro 06, 2005
quarta-feira, julho 20, 2005
segunda-feira, julho 11, 2005
sexta-feira, julho 01, 2005
Quem tem medo do McCarthy? (28 Junho 2005)
Se juntarmos a esta insistência na saída do McCarthy, o desejo mal escondido de igualmente ver o Liedson fora do Sporting, o que julgam que ficarão a pensar os leitores mais atentos? A quem é que a saída do Liedson e do McCarthy daria imenso jeito?
1- Benni McCarthy veio para o FC Porto em definitivo há dois anos, a pedido insistente de Mourinho, que achava que ele era essencial, como se provou, para uma carreira europeia triunfante. Custou cerca de um milhão de contos, um investimento imenso para o FC Porto, na altura. Veio, obviamente, porque quis vir, porque melhorou a sua situação salarial e profissional. No FCPorto foi campeão de Portugal, da Europa e do mundo; se tivesse ficado no Celta de Vigo teria provavelmente continuado a suplente e teria jogado a época que terminou na segunda divisão espanhola. Hoje estaria a chorar desesperadamente para que o Celta o deixasse vir para o FCPorto, evitando ter de continuar no limbo da segunda divisão de Espanha. Aliás, há dois anos, tanto ele como o seu empresário, que agora reclamam o direito de deixar o FC Porto por qualquer preço, reclamavam o mesmo do Celta: que o deixasse vir para o Porto.
Manifestamente, Benni McCarthy e o seu empresário não parecem ligar grande importância aos contratos que assinam nem ter grande respeito pelos clubes que lhe pagam. No seu entender, não há nada mais normal e mais justo que os clubes os libertarem quando eles querem, porque querem e pelo preço que querem, e não pelo das cláusulas de rescisão que assinaram.A estratégia é demasiadamente conhecida, não há clube que não tenha de a enfrentar, com um ou outro jogador.E,manifestamente, só há uma forma de o fazer: é os clubes não cederem à chantagem dos empresários e jogadores, sob pena de os contratos de nada valerem e qualquer jogador aliciado directamente por outro clube aparecer ao clube que com ele tem contrato a dizer que se se sente mal, quer-se ir embora e que, se ficar, será contrariado e sem vontade de jogar.
Com a maior das naturalidades, noticia-se, por exemplo, que o Benfica «já tem tudo contratado, salários e prémios», como brasileiro Dedé, que, por azar, tem contrato válido com o Borussia Dortmund. Mas,como próprio Borussia, o Benfica não tem nada contratado,nem acordado, nem sequer falado - porque o Benfica está longe de querer e poder pagar o que os alemães pedem para deixar sair o Dedé. Então, recorre-se à estratégia alternativa, que consiste em aliciar primeiro o jogador e depois contar que ele faça a rábula de chegar ao pé dos dirigentes do Borussia e pedinchar que o vendam pelo preço que o Benfica quer, sob pena de ele permanecer «contrariado».Parece que há quem ache que esta «estratégia», a que o Benfica recorre bastas vezes, é muito «inteligente», como inteligente foi a forma como em tempos «sacou» o Paulo Madeira ao Belenenses ou como recentemente «sacou » dois juniores ao Salgueiros, aproveitando-se das dificuldades económicas do histórico clube do Porto, ao ponto de levar a direcção salgueirista a constatar em comunicado que «a grandeza dos clubes mede-se pelas atitudes que têm». Gostaria de saber o que diria a direcção benfiquista, os seus adeptos e os seus promotores se um Borussia Dortmund ou um Chelsea ou um Real Madrid se lembrasse de atacar directamente o Manuel Fernandes, dar-lhe a volta à cabeça— o que não seria difícil — e pô-lo a pedir publicamente à direcção benfiquista que «não lhe cortasse as pernas » e não o deixasse cá «contrariado »...
Uma coisa eu tenho a certeza: é que o Manuel Fernandes não encontraria, seguramente, um acolhimento da imprensa tão entusiástico para com as suas pretensões, quanto o que McCarthy e o seu empresário têm encontrado nas páginas de A BOLA.
É verdadeiramente excepcional e nunca visto o esforço que aqui tem sido conduzido para dar eco e satisfazer a ambição de fuga de McCarthy—seja ela genuína ou induzida, como mais adiante melhor se verá.Mesmo de um ponto de vista estritamente jornalístico,não me lembro de alguma vez ter presenciado uma situação em que, no curto espaço de dez ou doze dias, o mesmo jornal «repete» seis ou sete vezes a mesma entrevista—em que o entrevistado, directamente ou através de um seu representante, se limita a dizer sempre a mesma coisa: «quero-me ir embora!» Dá vontade de responder: «Já ouvimos, já sabemos! Se se quer ir embora, não é preciso estar a dizer todos os dias a mesma coisa. Ele que arranje quem pague os nove milhões de euros da cláusula de rescisão que quis assinar, e que se vá embora!»
Na edição de sexta-feira passada de ABOLA, julguei que se tinha enfim, chegado ao limite da insistência: pela quinta vez o McCarthy «abria o coração» e o seu repetido apelo para que o deixem sair em saldos merecia até honras de manchete de 1.ª página — um acontecimento tão raro neste jornal relativamente ao FC Porto, que nem quando ganharam a Taça Intercontinental emTóquio o tinham conseguido...
A coisa tornou-se tão absurda e inédita para, julgo eu, o comum dos leitores, que no dia seguinte o director, Vítor Serpa, sentiu-se obrigado a justificar a insistência do jornal no assunto,mas em termos que, salvo melhor opinião, nada justificavam. Tanto mais que ele próprio reconhecia que, neste caso, nenhuma razão assistia ao jogador.É caso para pensar porquê que, reconhecendo- se que ele não tem razão, todos os dias se insiste em estender- lhe o microfone para ele repetir as suas razões.
E, quando se imaginaria que o editorial do director matara, enfim, tarde e a más horas, a Operação Sai McCarthy, eis que, logo na segunda- feira, a coisa retoma o seu caminho, com nova entrevista «McCarthy abre o seu coração», ocupando quatro páginas do jornal — a totalidade do espaço reservado a notícias sobre o FCPorto, não sobrando uma linha que fosse para mais nada!
Ora, francamente, que comentário se pode fazer a isto? Já percebemos que, aqui em A BOLA se quer desesperadamente que o McCarthy se vá embora do Porto. Não é o Postiga, nem o Hugo Almeida, nemo Sokota: é o McCarthy. Mas deverá ele sair só porque alguém na «Bola» quer que ele saia e não se calará enquanto o F.C.Porto não o mandar embora? E não acharão que a coisa já começa a parecer mal? Se juntarmos a esta insistência na saída do McCarthy, o desejo mal escondido de igualmente ver o Liedson fora do Sporting, o que julgam que ficarão a pensar os leitores mais atentos?A quem é que a saída do Liedson e doMcCarthy daria imenso jeito?
2- Sua Excelência o presidente do Benfica foi de visita «oficial » a Cabo Verde. Em dois dias consecutivos, a cobertura dessa viagem mereceu aqui (nos outros desportivos não reparei) oito páginas de relato e vinte e três fotografias do senhor, incluindo até o seu sono na praia do Sal. De passagem, denunciou-se até o Embaixador de Portugal em Cabo Verde, que não terá dado o devido destaque à «visita oficial» do Querido Líder.
E ele, Luís Filipe Vieira, que todos os dias, desde que se levanta até que se deita, tem um batalhão de jornalistas a registar os seus mínimos passos, palavras, suspiros, estados de alma e a beber cada um dos seus discursos, desde Fornos de Algodres até ao Luxemburgo, não resistiu a fazer mais uma declaração para a História -a «declaração da Cidade da Praia». Ei-la: «Digo desde já que, nas próximas eleições, estarei na primeira linha de combate aos oportunistas e aos vaidosos. Se forem aqueles que gostam muito de falar nos jornais também lá estarei. Ficam avisados...»
3- Sim, o sorteio dos árbitros é uma medida completamente estúpida.Tenho sobre outros a vantagem de me ter logo pronunciado contra ela quando, há uns anos atrás, o F.C.Porto era contra mas a maioria dos clubes e dos comentadores eram a favor.Na altura, não sei se se recordam, escrevia- se e dizia-se que o F.C.Porto era a favor porque controlava as nomeações. Hoje, não sei se sabem, o que se diz é que quem controla as nomeações é o Benfica e por isso - e pelos resultados práticos desta época- todos os clubes querem regressar ao sorteio e só o Benfica quer manter as nomeações.
Eu continuo a defender as nomeações -mas de maneira que não levante dúvidas, e não, por exemplo, como Lucílio Baptista a ser nomeado para quatro Porto-Sporting consecutivos, em todos prejudicando seriamente os portistas. O que acho graça é ver os que antes defendiam o sorteio para «acabar com as suspeições», hoje oporem-se ferozmente ao sorteio.Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades.
1- Benni McCarthy veio para o FC Porto em definitivo há dois anos, a pedido insistente de Mourinho, que achava que ele era essencial, como se provou, para uma carreira europeia triunfante. Custou cerca de um milhão de contos, um investimento imenso para o FC Porto, na altura. Veio, obviamente, porque quis vir, porque melhorou a sua situação salarial e profissional. No FCPorto foi campeão de Portugal, da Europa e do mundo; se tivesse ficado no Celta de Vigo teria provavelmente continuado a suplente e teria jogado a época que terminou na segunda divisão espanhola. Hoje estaria a chorar desesperadamente para que o Celta o deixasse vir para o FCPorto, evitando ter de continuar no limbo da segunda divisão de Espanha. Aliás, há dois anos, tanto ele como o seu empresário, que agora reclamam o direito de deixar o FC Porto por qualquer preço, reclamavam o mesmo do Celta: que o deixasse vir para o Porto.
Manifestamente, Benni McCarthy e o seu empresário não parecem ligar grande importância aos contratos que assinam nem ter grande respeito pelos clubes que lhe pagam. No seu entender, não há nada mais normal e mais justo que os clubes os libertarem quando eles querem, porque querem e pelo preço que querem, e não pelo das cláusulas de rescisão que assinaram.A estratégia é demasiadamente conhecida, não há clube que não tenha de a enfrentar, com um ou outro jogador.E,manifestamente, só há uma forma de o fazer: é os clubes não cederem à chantagem dos empresários e jogadores, sob pena de os contratos de nada valerem e qualquer jogador aliciado directamente por outro clube aparecer ao clube que com ele tem contrato a dizer que se se sente mal, quer-se ir embora e que, se ficar, será contrariado e sem vontade de jogar.
Com a maior das naturalidades, noticia-se, por exemplo, que o Benfica «já tem tudo contratado, salários e prémios», como brasileiro Dedé, que, por azar, tem contrato válido com o Borussia Dortmund. Mas,como próprio Borussia, o Benfica não tem nada contratado,nem acordado, nem sequer falado - porque o Benfica está longe de querer e poder pagar o que os alemães pedem para deixar sair o Dedé. Então, recorre-se à estratégia alternativa, que consiste em aliciar primeiro o jogador e depois contar que ele faça a rábula de chegar ao pé dos dirigentes do Borussia e pedinchar que o vendam pelo preço que o Benfica quer, sob pena de ele permanecer «contrariado».Parece que há quem ache que esta «estratégia», a que o Benfica recorre bastas vezes, é muito «inteligente», como inteligente foi a forma como em tempos «sacou» o Paulo Madeira ao Belenenses ou como recentemente «sacou » dois juniores ao Salgueiros, aproveitando-se das dificuldades económicas do histórico clube do Porto, ao ponto de levar a direcção salgueirista a constatar em comunicado que «a grandeza dos clubes mede-se pelas atitudes que têm». Gostaria de saber o que diria a direcção benfiquista, os seus adeptos e os seus promotores se um Borussia Dortmund ou um Chelsea ou um Real Madrid se lembrasse de atacar directamente o Manuel Fernandes, dar-lhe a volta à cabeça— o que não seria difícil — e pô-lo a pedir publicamente à direcção benfiquista que «não lhe cortasse as pernas » e não o deixasse cá «contrariado »...
Uma coisa eu tenho a certeza: é que o Manuel Fernandes não encontraria, seguramente, um acolhimento da imprensa tão entusiástico para com as suas pretensões, quanto o que McCarthy e o seu empresário têm encontrado nas páginas de A BOLA.
É verdadeiramente excepcional e nunca visto o esforço que aqui tem sido conduzido para dar eco e satisfazer a ambição de fuga de McCarthy—seja ela genuína ou induzida, como mais adiante melhor se verá.Mesmo de um ponto de vista estritamente jornalístico,não me lembro de alguma vez ter presenciado uma situação em que, no curto espaço de dez ou doze dias, o mesmo jornal «repete» seis ou sete vezes a mesma entrevista—em que o entrevistado, directamente ou através de um seu representante, se limita a dizer sempre a mesma coisa: «quero-me ir embora!» Dá vontade de responder: «Já ouvimos, já sabemos! Se se quer ir embora, não é preciso estar a dizer todos os dias a mesma coisa. Ele que arranje quem pague os nove milhões de euros da cláusula de rescisão que quis assinar, e que se vá embora!»
Na edição de sexta-feira passada de ABOLA, julguei que se tinha enfim, chegado ao limite da insistência: pela quinta vez o McCarthy «abria o coração» e o seu repetido apelo para que o deixem sair em saldos merecia até honras de manchete de 1.ª página — um acontecimento tão raro neste jornal relativamente ao FC Porto, que nem quando ganharam a Taça Intercontinental emTóquio o tinham conseguido...
A coisa tornou-se tão absurda e inédita para, julgo eu, o comum dos leitores, que no dia seguinte o director, Vítor Serpa, sentiu-se obrigado a justificar a insistência do jornal no assunto,mas em termos que, salvo melhor opinião, nada justificavam. Tanto mais que ele próprio reconhecia que, neste caso, nenhuma razão assistia ao jogador.É caso para pensar porquê que, reconhecendo- se que ele não tem razão, todos os dias se insiste em estender- lhe o microfone para ele repetir as suas razões.
E, quando se imaginaria que o editorial do director matara, enfim, tarde e a más horas, a Operação Sai McCarthy, eis que, logo na segunda- feira, a coisa retoma o seu caminho, com nova entrevista «McCarthy abre o seu coração», ocupando quatro páginas do jornal — a totalidade do espaço reservado a notícias sobre o FCPorto, não sobrando uma linha que fosse para mais nada!
Ora, francamente, que comentário se pode fazer a isto? Já percebemos que, aqui em A BOLA se quer desesperadamente que o McCarthy se vá embora do Porto. Não é o Postiga, nem o Hugo Almeida, nemo Sokota: é o McCarthy. Mas deverá ele sair só porque alguém na «Bola» quer que ele saia e não se calará enquanto o F.C.Porto não o mandar embora? E não acharão que a coisa já começa a parecer mal? Se juntarmos a esta insistência na saída do McCarthy, o desejo mal escondido de igualmente ver o Liedson fora do Sporting, o que julgam que ficarão a pensar os leitores mais atentos?A quem é que a saída do Liedson e doMcCarthy daria imenso jeito?
2- Sua Excelência o presidente do Benfica foi de visita «oficial » a Cabo Verde. Em dois dias consecutivos, a cobertura dessa viagem mereceu aqui (nos outros desportivos não reparei) oito páginas de relato e vinte e três fotografias do senhor, incluindo até o seu sono na praia do Sal. De passagem, denunciou-se até o Embaixador de Portugal em Cabo Verde, que não terá dado o devido destaque à «visita oficial» do Querido Líder.
E ele, Luís Filipe Vieira, que todos os dias, desde que se levanta até que se deita, tem um batalhão de jornalistas a registar os seus mínimos passos, palavras, suspiros, estados de alma e a beber cada um dos seus discursos, desde Fornos de Algodres até ao Luxemburgo, não resistiu a fazer mais uma declaração para a História -a «declaração da Cidade da Praia». Ei-la: «Digo desde já que, nas próximas eleições, estarei na primeira linha de combate aos oportunistas e aos vaidosos. Se forem aqueles que gostam muito de falar nos jornais também lá estarei. Ficam avisados...»
3- Sim, o sorteio dos árbitros é uma medida completamente estúpida.Tenho sobre outros a vantagem de me ter logo pronunciado contra ela quando, há uns anos atrás, o F.C.Porto era contra mas a maioria dos clubes e dos comentadores eram a favor.Na altura, não sei se se recordam, escrevia- se e dizia-se que o F.C.Porto era a favor porque controlava as nomeações. Hoje, não sei se sabem, o que se diz é que quem controla as nomeações é o Benfica e por isso - e pelos resultados práticos desta época- todos os clubes querem regressar ao sorteio e só o Benfica quer manter as nomeações.
Eu continuo a defender as nomeações -mas de maneira que não levante dúvidas, e não, por exemplo, como Lucílio Baptista a ser nomeado para quatro Porto-Sporting consecutivos, em todos prejudicando seriamente os portistas. O que acho graça é ver os que antes defendiam o sorteio para «acabar com as suspeições», hoje oporem-se ferozmente ao sorteio.Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades.
quinta-feira, junho 23, 2005
Via Brasil (21 Junho 2005)
Não há presidente que se preze que, nesta altura do ano, não faça as malas e rume ao Brasil para tratar dos interesses do clube. E nem precisam de ir com o treinador, porque de jogadores percebem eles. Se vão sempre ao Brasil é porque, como não se cansam de nos explicar, lá o mercado é abundante e barato. E podiam acrescentar que é provavelmente o único país onde percebem a língua e é bem mais agradável ir em trabalho ao Brasil que à Costa do Marfim, aos Camarões ou à Lituânia
1- Um leitor habitual de jornais desportivos, rotinado em destrinçar aquilo que são verdadeiras notícias daquilo que são mensagens passadas sob a forma de notícias, diverte-se muito nesta época chamada de defeso. Há de tudo: jogadores que querem melhorar o seu contrato com o clube e fazem constar que «têm muito mercado» à espera deles, quando não têm ninguém; jogadores estrangeiros que aparecem com alvo potencial de clubes portugueses mas cujo valor é desconhecido ou duvidoso e que logo são descritos como estando também debaixo da mira de algum grande europeu; clubes, chamados grandes, e de que toda a gente sabe que não têm dinheiro para grandes compras, mas que todos os dias deixam saber que «estão muito atentos ao mercado » e vão lançando nomes sonantes para o ar, para ver se enganam tolos. Enfim, há de tudo, num permanente jogo de bluff e piedosas mentiras que, acima de tudo, se destina a dar dinheiro aos empresários e encher de emoção a época dos presidentes. Uma das notícias mais clássicas nesta época e que a mim me faz sempre sorrir é precisamente a das constantes idas ao Brasil, «para compras», dos desconhecidos presidentes dos clubes pequenos e mais que pequenos. Não há presidente que se preze que, nesta altura do ano, não faça as malas e rume ao Brasil para tratar dos interesses do clube. E nem precisam de ir com o treinador, porque de jogadores percebem eles. Se vão sempre ao Brasil é porque, como não se cansam de nos explicar, lá o mercado é abundante e barato. E podiam acrescentar que é provavelmente o único país onde percebem a língua e é bem mais agradável irem trabalho ao Brasil que à Costa do Marfim, aos Camarões ou à Lituânia. Com tanta atracção pelo Brasil, não admira que haja centenas de jogadores brasileiros a actuar em Portugal, em todas as divisões profissionais. E, como os exemplos vêm de cima, temos desde logo o caso exemplar do FC Porto, que na última década, e com a contenção relativa dos anos Mourinho, tem sido o maior importador de brasileiros para o futebol português de que há memória. Confirmando-se a compra da última descoberta, Anderson de seu nome, o FC Porto tem actualmente, e só para o meio-campo, nada menos que oito brasileiros! Este Anderson é, aliás, um caso exemplar de como as coisas funcionam. Até há uns 10 dias atrás ninguém sabia quem era, ninguém tinha ouvido falar dele, ninguém jamais o vira jogar. Mas bastou que Jorge Mendes comprasse 70 por cento do seu passe por um milhão de contos para que o miúdo de 17 anos se transformasse automaticamente no «novo Ronaldinho Gaúcho» e que tenha, supostamente, despertado a cobiça desenfreada de Sporting, Benfica e FC Porto. Parece que assinava ontem pelos dragões, juntando-se aos compatriotas também centro-campistas Jorginho e Paulo Assunção, chegados agora ao plantel, e a Leo Lima, Ibson e Leandro do Bomfim, chegados em Janeiro: seis brasileiros para o meio-campo em apenas seis meses! Mas o mais engraçado é que «o novo Ronaldinho Gaúcho» joga na mesma posição que «o novo Pelé branco», — o Diego—contratado por uma fortuna na época passada com a missão de tentar fazer esquecer o verdadeiro Anderson, aquele que, de facto, fazia a diferença: Anderson Luiz de Souza, vulgo Deco. Como se sabe, foi um sucesso.
2- Como o tenho dito repetidamente, sou um adversário dos imensos plantéis que caracterizam as equipas portuguesas, pequenas e grandes, em comparação com as boas equipas europeias, onde o plantel principal não vai além de 20 jogadores, reforçados, quando necessário, pelos jovens das equipas B ou dos juniores. Não só os grandes plantéis impedem o aparecimento e a formação dos jogadores formados nas escolas e preparados nas equipas B como, além disso, contribuem para uma gestão impossível da equipa, geram insatisfações, frustrações e mau ambiente de balneário e, obviamente, arruínam qualquer orçamento. Mas, por mais que isto seja sabido e demonstrado, por mais que os treinadores estrangeiros que cá chegam de novo repitam que não querem trabalhar com mais de 23, 24 jogadores, os presidentes insistem em dar-lhes 33 ou mais, como se com isso mostrassem que trabalharam bem, fizeram excelentes negócios e «deram ao treinador todas as condições». Não deram; apenas complicaram a sua tarefa. O pobre Co Adriaanse, novo treinador portista, habituado a uma equipa modesta, onde cada jogador é um investimento que tem de dar rendimento, já estragou as suas férias a ver intermináveis vídeos para poder decidir, com um mínimo de justiça, como é que dos 36 que tem à sua espera vai eliminar sumariamente 11 ou 12, para ficar só com o número máximo que consegue treinar. Como é que, pensará ele, se fez um plantel que conta com cinco centrais, três laterais-esquerdos, sete pontas-de-lança e treze médios mas onde, por exemplo, não existe um único lateral-direito? O que fazer com jogadores como o Jankauskas e o Postiga, que custaram à volta de um milhão de contos cada um e valem um máximo de três golos por época? Para quê três guarda-redes, quando existem outros três na equipa B? O que fazer com jogadores que foram contratados esta época por quatro ou cinco anos e não jogaram mais de uma hora, casos de Raul Meireles, Areias, Pittbull, Leo Lima, Hugo Leal, Leandro do Bomfim?
3- Quem, como eu, apanhasse a meio o noticiário das televisões, domingo à noite, teria caído de espanto com a notícia de que Tiago Monteiro tinha subido ao pódio no Grande Prémio dos Estados Unidos, em Indianápolis. Desde o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa aos parabéns logo enviados por José Sócrates, à notícia repetida exaustivamente durante a transmissão do Brasil-México de que pela primeira vez um português tinha subido ao pódio na Fórmula 1, tudo me levou a crer que, de facto, se tratava de um dia histórico para o desporto português e até já visualizava Jorge Sampaio, de lágrima ao canto do olho, a condecorar Tiago Monteiro com a ordem de qualquer coisa. E até eu, que gosto de automobilismo mas acho a Fórmula 1 a competição mais chata do mundo, logo a seguir ao halterofilismo, dispus-me a assistir ao resumo alargado da prova, na RTP, para viver devidamente o momento de orgulho nacional. E foi só então que percebi a dimensão do embuste: o Tiago Monteiro não tinha subido ao pódio numa corrida normal, com todos a competir, mas apenas com seis, e depois de uma jogada antidesportiva patrocinada pela Ferrari e pela Jordan — a equipa de Monteiro. Não está em causa, obviamente, o comportamento de Tiago Monteiro, que é pago para correr e nada tem que ver com as jogadas de bastidores. Nem está em causa o mérito de, uma vez mais e pela nona consecutiva, ter levado o carro até ao fim. Mas aquilo em que ele participou não foi uma corrida mas sim, como lhe chamou a imprensa europeia, uma «farsa» e «a corrida da vergonha». Foi como se a Selecção Nacional tivesse vencido um Brasil com apenas seis jogadores de início. Eu até compreendo a alegria do Tiago Monteiro no pódio mas, para dizer a verdade, as suas comemorações, no meio dos apupos da multidão e perante a vergonha calada dos vencedores da Ferrari, até foi um bocado constrangente. A pior maneira de tirar valor a quem o tem é inventar-lhe proezas não alcançadas. Lá virá o dia, espero, em que o Tiago Monteiro chegue ao pódio após uma corrida verdadeira e uma luta leal entre todos. Mas, anteontem, aquele pódio não honrava ninguém.
1- Um leitor habitual de jornais desportivos, rotinado em destrinçar aquilo que são verdadeiras notícias daquilo que são mensagens passadas sob a forma de notícias, diverte-se muito nesta época chamada de defeso. Há de tudo: jogadores que querem melhorar o seu contrato com o clube e fazem constar que «têm muito mercado» à espera deles, quando não têm ninguém; jogadores estrangeiros que aparecem com alvo potencial de clubes portugueses mas cujo valor é desconhecido ou duvidoso e que logo são descritos como estando também debaixo da mira de algum grande europeu; clubes, chamados grandes, e de que toda a gente sabe que não têm dinheiro para grandes compras, mas que todos os dias deixam saber que «estão muito atentos ao mercado » e vão lançando nomes sonantes para o ar, para ver se enganam tolos. Enfim, há de tudo, num permanente jogo de bluff e piedosas mentiras que, acima de tudo, se destina a dar dinheiro aos empresários e encher de emoção a época dos presidentes. Uma das notícias mais clássicas nesta época e que a mim me faz sempre sorrir é precisamente a das constantes idas ao Brasil, «para compras», dos desconhecidos presidentes dos clubes pequenos e mais que pequenos. Não há presidente que se preze que, nesta altura do ano, não faça as malas e rume ao Brasil para tratar dos interesses do clube. E nem precisam de ir com o treinador, porque de jogadores percebem eles. Se vão sempre ao Brasil é porque, como não se cansam de nos explicar, lá o mercado é abundante e barato. E podiam acrescentar que é provavelmente o único país onde percebem a língua e é bem mais agradável irem trabalho ao Brasil que à Costa do Marfim, aos Camarões ou à Lituânia. Com tanta atracção pelo Brasil, não admira que haja centenas de jogadores brasileiros a actuar em Portugal, em todas as divisões profissionais. E, como os exemplos vêm de cima, temos desde logo o caso exemplar do FC Porto, que na última década, e com a contenção relativa dos anos Mourinho, tem sido o maior importador de brasileiros para o futebol português de que há memória. Confirmando-se a compra da última descoberta, Anderson de seu nome, o FC Porto tem actualmente, e só para o meio-campo, nada menos que oito brasileiros! Este Anderson é, aliás, um caso exemplar de como as coisas funcionam. Até há uns 10 dias atrás ninguém sabia quem era, ninguém tinha ouvido falar dele, ninguém jamais o vira jogar. Mas bastou que Jorge Mendes comprasse 70 por cento do seu passe por um milhão de contos para que o miúdo de 17 anos se transformasse automaticamente no «novo Ronaldinho Gaúcho» e que tenha, supostamente, despertado a cobiça desenfreada de Sporting, Benfica e FC Porto. Parece que assinava ontem pelos dragões, juntando-se aos compatriotas também centro-campistas Jorginho e Paulo Assunção, chegados agora ao plantel, e a Leo Lima, Ibson e Leandro do Bomfim, chegados em Janeiro: seis brasileiros para o meio-campo em apenas seis meses! Mas o mais engraçado é que «o novo Ronaldinho Gaúcho» joga na mesma posição que «o novo Pelé branco», — o Diego—contratado por uma fortuna na época passada com a missão de tentar fazer esquecer o verdadeiro Anderson, aquele que, de facto, fazia a diferença: Anderson Luiz de Souza, vulgo Deco. Como se sabe, foi um sucesso.
2- Como o tenho dito repetidamente, sou um adversário dos imensos plantéis que caracterizam as equipas portuguesas, pequenas e grandes, em comparação com as boas equipas europeias, onde o plantel principal não vai além de 20 jogadores, reforçados, quando necessário, pelos jovens das equipas B ou dos juniores. Não só os grandes plantéis impedem o aparecimento e a formação dos jogadores formados nas escolas e preparados nas equipas B como, além disso, contribuem para uma gestão impossível da equipa, geram insatisfações, frustrações e mau ambiente de balneário e, obviamente, arruínam qualquer orçamento. Mas, por mais que isto seja sabido e demonstrado, por mais que os treinadores estrangeiros que cá chegam de novo repitam que não querem trabalhar com mais de 23, 24 jogadores, os presidentes insistem em dar-lhes 33 ou mais, como se com isso mostrassem que trabalharam bem, fizeram excelentes negócios e «deram ao treinador todas as condições». Não deram; apenas complicaram a sua tarefa. O pobre Co Adriaanse, novo treinador portista, habituado a uma equipa modesta, onde cada jogador é um investimento que tem de dar rendimento, já estragou as suas férias a ver intermináveis vídeos para poder decidir, com um mínimo de justiça, como é que dos 36 que tem à sua espera vai eliminar sumariamente 11 ou 12, para ficar só com o número máximo que consegue treinar. Como é que, pensará ele, se fez um plantel que conta com cinco centrais, três laterais-esquerdos, sete pontas-de-lança e treze médios mas onde, por exemplo, não existe um único lateral-direito? O que fazer com jogadores como o Jankauskas e o Postiga, que custaram à volta de um milhão de contos cada um e valem um máximo de três golos por época? Para quê três guarda-redes, quando existem outros três na equipa B? O que fazer com jogadores que foram contratados esta época por quatro ou cinco anos e não jogaram mais de uma hora, casos de Raul Meireles, Areias, Pittbull, Leo Lima, Hugo Leal, Leandro do Bomfim?
3- Quem, como eu, apanhasse a meio o noticiário das televisões, domingo à noite, teria caído de espanto com a notícia de que Tiago Monteiro tinha subido ao pódio no Grande Prémio dos Estados Unidos, em Indianápolis. Desde o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa aos parabéns logo enviados por José Sócrates, à notícia repetida exaustivamente durante a transmissão do Brasil-México de que pela primeira vez um português tinha subido ao pódio na Fórmula 1, tudo me levou a crer que, de facto, se tratava de um dia histórico para o desporto português e até já visualizava Jorge Sampaio, de lágrima ao canto do olho, a condecorar Tiago Monteiro com a ordem de qualquer coisa. E até eu, que gosto de automobilismo mas acho a Fórmula 1 a competição mais chata do mundo, logo a seguir ao halterofilismo, dispus-me a assistir ao resumo alargado da prova, na RTP, para viver devidamente o momento de orgulho nacional. E foi só então que percebi a dimensão do embuste: o Tiago Monteiro não tinha subido ao pódio numa corrida normal, com todos a competir, mas apenas com seis, e depois de uma jogada antidesportiva patrocinada pela Ferrari e pela Jordan — a equipa de Monteiro. Não está em causa, obviamente, o comportamento de Tiago Monteiro, que é pago para correr e nada tem que ver com as jogadas de bastidores. Nem está em causa o mérito de, uma vez mais e pela nona consecutiva, ter levado o carro até ao fim. Mas aquilo em que ele participou não foi uma corrida mas sim, como lhe chamou a imprensa europeia, uma «farsa» e «a corrida da vergonha». Foi como se a Selecção Nacional tivesse vencido um Brasil com apenas seis jogadores de início. Eu até compreendo a alegria do Tiago Monteiro no pódio mas, para dizer a verdade, as suas comemorações, no meio dos apupos da multidão e perante a vergonha calada dos vencedores da Ferrari, até foi um bocado constrangente. A pior maneira de tirar valor a quem o tem é inventar-lhe proezas não alcançadas. Lá virá o dia, espero, em que o Tiago Monteiro chegue ao pódio após uma corrida verdadeira e uma luta leal entre todos. Mas, anteontem, aquele pódio não honrava ninguém.