terça-feira, dezembro 06, 2005

De cima para baixo (08 Novembro 2005)

Fica mal aos responsáveis do Benfica o recurso à eterna desculpa da arbitragem para justificar um resultado que, pelo futebol visto, acabou até por ser lisonjeiro


1- Vi o Braga jogar logo no início do campeonato, em casa contra o FC Porto, e o que vi foi a equipa defender, defender, defender, até sair como nulo que unicamente ambicionou. Este fim-de-semana, voltei a ver o Braga, em novo teste difícil, contra o Marítimo. E a história repetiu-se: defendeu, defendeu, defendeu, com dois fogachos inconsequentes apenas na segunda parte. Mas, desta vez, encaixou a primeira derrota do campeonato e sem que tivesse a menor razão para ashabituais queixas nestas circunstâncias de forças estranhas que não nos deixam ir mais longe — antes pelo contrário, deve à benevolência de Lucílio Baptista, o pior árbitro português em actividade, o facto de não ter tido de jogar 80 minutos com 10 jogadores. No final, ouvi Jesualdo Ferreira a queixar-se de ter perdido um jogo em que o adversário não fora superior e a jurar que o Braga tinha dominado toda a segunda parte e criado suficientes oportunidades para empatar ou ganhar. Concluí que vimos jogos diferentes, mas também que os restantes jogos do Braga, que eu não vi, não terão sido muito diferentes...

2- Ex aequo com o Sensacional da Madeira, na segunda posição, está o FC Porto, graças à vitória obtida em Paços de Ferreira, à custa de um bom quarto de hora inicial, mais um rasgo de inspiração de Quaresma, e depois mais de uma hora de futebol soporífero (e em que, diga-se em abono da verdade, o adversário conseguiu fazer ainda pior, não tendo criado uma única oportunidade de golo em todo o jogo). Com essa desmaiada vitória, Co Adriaanse saiu vivo, depois da inacreditável barracada que fez em Milão, onde não houve asneira que não tenha ensaiado, arrastando a equipa uma vezmais para a derrota e desmentindo todas as suas teses sobre o futebol de ataque. A grande verdade é que hoje ninguém é capaz de prever o que vai fazer o FC Porto, jogo a jogo. Ninguém é capaz de prever, sequer, qual vai ser o sistema de jogo, a estratégia, a equipa. Manifestamente, Adriaanse está à toa, com tiques de ditador desnorteado e perdido — como aliás vai sendo bem visível na própria expressão da sua cara, durante os jogos. Jogadores que eram indiscutíveis desaparecem de repente, como se excomungados no acto: já calhou a vez a Postiga, Ricardo Meireles, Paulo Assunção, Ricardo Quaresma, César Peixoto, Ibson, Lizandro López, Ricardo Costa, Bruno Alves, e agora, McCarthy e Diego. Em contrapartida, outros que acumulam desastre sobre desastre, como Bosingwa e Jorginho,mantêm-se de pedra e cal... até que ele acorde um dia maldisposto ou com um ataque de lucidez e os varra de imediato para a equipa B ou arredores. Nesta completa roleta-russa em que se transformou a definição de um onze-base (?), ninguém consegue entender os critérios das entradas e saídas, se o homem prefere jogar com dois pontas-de-lança ou só um, com dois extremos, um ou nenhum, com dois, três, quatro ou cinco médios, com dois ou com três centrais. A única coisa segura é que joga só com um guarda-redes, porque isso não pode evitar. Aos poucos, Adriaanse está a tornar-se no factor de perturbação da equipa. E eu que tanta esperança tinha nele...

3- Em quarto lugar, temos o Benfica, que escapou com danos graves de uma semana igualmente complicada. Depois do empate na Figueira e do balde de água gelada servido pelo Villarreal, teve o azar de apanhar um falso jogo fácil em casa, contra uma das equipas mais bem treinadas e que melhor futebol jogam. O Rio Ave dominou, de facto, o jogo da Luz, sem recorrer à táctica do autocarro, sem jogo faltoso, sem simulações de lesões nem perdas de tempo, antes ocupando o campo todo e nunca desistindo de atacar. Se o empate contra a Naval tinha sido injusto para o Benfica, o empate contra o Rio Ave foi feliz. Por isso, fica mal aos responsáveis do Benfica o recurso à eterna desculpa da arbitragem para justificar um resultado que, pelo futebol visto, acabou até por ser lisonjeiro. Mas o jogo da Luz suscitou-me, de facto, várias questões técnicas ao nível da arbitragem, de que desconheço a resposta e gostaria de ver esclarecidas. A primeira questão tem que ver com o segundo golo do Rio Ave, julgado offside pela generalidade da crítica, pois que, quando a bola é cruzada para a área do Benfica, Gaúcho, que estava deslocado, vai passá-la a Chidi, que faz o golo. Se o lance se tem passado assim, não há dúvida de que há offside. Mas, se bem vi e julgo que sim, há uma diferença, que faz toda a diferença: quando a bola é cruzada, Chidi está em jogo e Gaúcho está, de facto, adiantado. Mas a bola não vai para Gaúcho e sim para Chidi, que depois a passa àquele, que entretanto já estava em posição correcta. Gaúcho devolve a seguir a Chidi, que faz o golo. Ou seja: enquanto está deslocado, Gaúcho não tem interferência alguma na jogada, e quando a tem, já está em posição correcta. Deve ou não considerar-se que tirou vantagem da posição inicial? A segunda questão tem que ver com o primeiro golo do Benfica, resultante de um livre directo sobre o limite da área. Ficaram dúvidas na altura se a falta teria sido sobre a linha da área ou fora dela, e um dos comentadores da TVI afirmou que tinha sido sobre a linha e logo era penalty. A minha pergunta é simples: a linha limite da área faz parte da área ou é fora dela? A terceira dúvida tem que ver com o segundo golo do Benfica, igualmente resultante de um livre directo sobre o limite da área. Mas esse livre é ocasionado por uma emergência defensiva (ficou ainda a dúvida se com falta ou sem ela), motivada pela cobrança imediatamente anterior de um outro livre, quatro metros atrás, e que os jogadores do Benfica marcaram sem dar tempo à formação de barreira defensiva, sem apito do árbitro e até, pelo que me pareceu, sem a bola estar parada. Foi assim recordo, que há cinco anos, o Boavista venceu o FC Porto no Bessa e, com essa vitória, veio a ser campeão com um ponto de avanço sobre os portistas. Pergunto-me se nos livres frontais à baliza e próximos da área os árbitros devem ou não esperar que a barreira se forme e só consentir a cobrança após o seu apito? É que uns fazem uma coisa e outros fazem outra e até já vi, como nesse Boavista-Porto, o mesmo árbitro seguir critérios diferentes no mesmo jogo...

4- E em quinto lugar está o periclitante Sporting, que lá ganhou ao Leiria, sem que desta vez se tenham ouvido queixas contra a arbitragem... Mas querer comparar aquele golo não assinalado ao Leiria e em que todas as imagens mostram que a bola é sacada pelo menos uns 70 centímetros de dentro da baliza, com aquele suposto golo consentido pelo Baía na Luz no ano passado e que nenhuma imagem até hoje conseguiu comprovar, é, no mínimo, querer confundir as coisas deliberadamente.

5- As dúvidas levantadas por Alexandre Magalhães às contas divulgadas pela SAD do FC Porto são legítimas, pertinentes e demasiado sérias para serem tratadas nos termos displicentes em que o fez a comissão de vencimentos da SAD. Não defendo que os administradores das sociedades desportivas não devam ser remunerados, como os de quaisquer outras sociedades. Mas os números divulgados por Alexandre Magalhães são impressionantes e para mais acrescidos de participação nos lucros relativos ao exercício de 2003/04. Aqui cabe perguntar como é que um só exercício positivo, entre tantos negativos, confere direito a gratificação e como é que uma sociedade que jamais distribuiu ou distribuirá dividendos pelos seus accionistas e cujas acções valem metade do preço de subscrição, se permite distribuir gratificações pelos seus administradores— sobretudo quando tem um passivo acumulado de 122 milhões de euros. E também é legitimo perguntar como é que, após dois anos plenos de receitas extraordinárias, o passivo, em lugar de diminuir, aumentou. Esperam-se esclarecimentos.

Elogio dos «Grandes» ( 1 Novembro 2005)

Elogio dos «Grandes»

Quer o FC Porto-Vitória de Setúbal quer o Naval-Benfica mostraram à exuberância a pobreza em que o jogo pode cair quando uma das equipas luta apenas pelo «pontinho» e não pelos três pontos (e já nem digo pelo espectáculo...)

1- Dois jogos, vistos televisivamente este fim-de-semana, serviram para reforçar a ideia que há muitos, muitos anos, defendo, antes de ter virado quase consensual: a necessidade e enorme vantagem competitiva que resultaria de reduzir a I Liga a 12 clubes.

Quer o FC Porto-Vitória de Setúbal quer o Naval-Benfica mostraram à exuberância a pobreza em que o jogo pode cair, quando uma das equipas luta apenas pelo pontinho e não pelos três pontos (e já nem digo pelo espectáculo...). É claro que, do ponto de vista das equipas pequenas, a atitude é legítima e compreensível: quando não se tem armas para atacar, defende-se. Mas, apesar de tudo, há uma diferença entre uma equipa se ver, no decurso do jogo, forçada a recuar e apenas defender por pressão do adversário, ou entrar já em campo deliberadamente disposta a renunciar a qualquer veleidade de vitória e se limitar à táctica que José Mourinho baptizou de «autocarro estacionado em frente da baliza».

No Dragão, embora Norton de Matos tenha dito que o que sucedeu é que o FC Porto empurrou o Vitória para trás durante o jogo inteiro, a mim o que me pareceu é que os seus jogadores não se importaram nada de ser empurrados para trás e não foi, seguramente, por força do vento ou do adversário que o Vitória disputou o jogo com nove, e às vezes, dez jogadores, sempre à espera da bola e do adversário na zona da sua grande área. E a prova que poderiam ter feito diferente é que, nos cinco minutos finais e como forma inteligente de aliviar uma pressão insuportável, escolheram finalmente abrir-se um pouco em todo o campo, tendo conseguido até o seu único remate à baliza... ao minuto 93!

É evidente que, mesmo assim, o FC Porto poderia ter ganho o encontro: bastaria que o árbitro tivesse visto um de dois penalties a favor não assinalados (ó contabilistas selectivos: anotem estes dois pontos...), ou que um dos 17 cantos ou dos 16 remates tivesse dado golo. Ou, melhor ainda: que o F C Porto não voltasse a mostrar quão distante anda daquele futebol feito de técnica em velocidade permanente, aquele carrossel ofensivo do princípio da época que tanto me empolgou. Nenhuma dúvida que esse futebol que gerou tanta admiração e tanta controvérsia, parece, pelo menos momentaneamente, perdido pelas sucessivas traições defensivas, que obrigaram a tudo rever e tudo acautelar. Mas também há que ser justo e reconhecer que é bastante mais difícil atacar um jogo inteiro contra o autocarro do que defender um jogo inteiro instalado dentro do autocarro. Para resultar em golos o futebol precisa de espaços e, paradoxalmente, com a táctica do autocarro a única equipa que dispõe sempre de espaço para atacar... é a dona da viatura.

Na Figueira da Foz, o enredo foi o mesmo, com a agravante de o Benfica ter de fazer as despesas todas do jogo num campo de dimensões reduzidas e transformado em qualquer coisa de intermédio entre um prado e um batatal. E, por aqui justamente, se começa a ver os malefícios de haver demasiadas equipas na I Liga e de o seu critério de selecção ser apenas o da classificação. A Naval não tem um campo com condições para a I Liga. Daí não vem mal ao mundo: ninguém deve ter vergonha por ser pobre. Só que também não é possível defender o futebol, o espectáculo e a presença de público nas bancadas quando se tem para oferecer um campo de dimensões reduzidas, com um relvado onde é impossível jogar bem e que, por vezes, chega a parecer que é maltratado de propósito para defender o mau futebol contra o bom (há dias, um treinador de uma equipa pequena que recebeu um grande dizia que nem sequer tinha estragado deliberadamente o relvado durante a semana: registe-se o seu desportivismo e a confissão de que há tácticas ocultas para além daquelas que se vêem em jogo...).

Tanto a Federação como a Liga sempre foram avessas à diminuição do número de clubes no escalão superior e dito profissional. Porque cada clube é um voto e, quanto mais clubes pequenos houver a votar, maior a possibilidade de aliciar o seu voto. Por isso é que há clubes a disputar a I Liga sem dinheiro para pagar salários, por isso é que há clubes que não cumprem sistematicamente as suas obrigações fiscais, com a íntima colaboração da Liga, por isso é que há campos sem condições para jogar futebol de primeira, por isso é que se permite escandalosamente que o preço de um bilhete para uma bancada coberta na Luz ou no Dragão custe o mesmo que para uma bancada onde chove, no campo da Naval. E por isso é que, mesmo um clube como a Naval, em ano de estreia na I Liga, e mesmo contra Benfica e FCPorto, não consegue encher nem metade das bancadas.

Para a história fica o sagrado pontinho sacado por Setúbal e Naval ao F C Porto e Benfica e dois empates injustos que estes tiveram de encaixar. Mas fica também a certeza de que, à vista de todos, quem deveria estar atento e colher as lições de casos como a da irresponsável gestão do Vitória de Setúbal, vai assistindo, tranquilamente, à programada liquidação do futebol profissional como espectáculo de massas.

2- Ainda sobre a Naval- Benfica, há outro tema que dá que pensar: como se justifica que a Naval, que nem sequer tinha jogado para a Taça a meio da semana, tenha dado o estoiro a vinte minutos do fim, e o Benfica, que tem a Taça e a Liga dos Campeões, não? Quando Jaime Pacheco explica a derrota caseira do Guimarães às mãos do Paços de Ferreira como cansaço do jogo europeu de dez dias atrás, fica por explicar porquê o cansaço não é igual para todos. Porquê equipas como o Benfica e o FC Porto, que estão a jogar ao mais alto nível europeu, que têm sistematicamente os seus jogadores mais influentes a jogar nas Selecções, ainda aguentam fazer jogos inteiros a pressionar e a atacar, e os pequenos, que não têm essa sobrecarga e cujo tipo de jogo é muito mais descansativo, dão o berro quando jogam contra os grandes?

Manuel Cajuda, que tanto gosta de se ouvir falar, poderia falar sobre isto. É que, se todos compreendemos que, quem não tem grandes jogadores na equipa não se pode bater tecnicamente de igual para igual com os grandes, já não se percebe porquê também fisicamente não se conseguem bater. Que eu saiba, a preparação física não depende da qualidade futebolística dos atletas: depende sim da quantidade e aplicação no esforço dispendido durante a semana.

(Já agora, gostava também que Manuel Cajuda, que, no final, quase pedia desculpa à «Instituição» por lhe ter roubado dois pontos — ele que se confessou benfiquista de coração, assim como toda a família e o próprio cão — explicasse como é que conseguiu não ver que o grande perigo do Benfica, na última meia hora, vinha da liberdade concedida a Nélson, que corria livremente pelo corredor direito fora, ali mesmo, junto ao banco do treinador da Naval? Que tal ter posto al i alguém , naquela auto-estrada desguarnecida, para travar o Nélson ou ameaçar o flanco aberto pelas suas subidas?).

3- Carlos Freitas, novo director do futebol do Sporting, viu mãozinha do árbitro no empate conquistado no Bessa. Diz ele que poderiam ter chegado ao 0-3 se o árbitro tem assinalado um muito discutível penalty na área do Boavista. Mas esqueceu-se de dizer que nunca teriam chegado ao 0-2 se o árbitro não tem assinalado um canto que não existiu e não tivesse depois deixado de ver a falta atacante que precedeu o golo na cobrança do canto.Vira o disco e toca o mesmo.

Havia necessidade? ( 25 Outubro 2005)

Dou comigo a pensar se às vezes o ideal não seria pôr os adeptos a escolher, por votação, a equipa para cada jogo, ficando o treinador apenas com o encargo de a treinar durante a semana e com a responsabilidade de fazer as alterações que entendesse adequadas durante os jogos?

1-Na semana passada falei aqui dos «três erros fatais de um teimoso», cometidos por Co Adriaanse no jogo contra oBenfica e responsáveis directos pela derrota inapelável encaixada. Uma semana depois, com dois jogos tremendos pelo meio, Adriaanse corrigiu dois desses três erros e safou- se com duas vitórias preciosas daquela que poderia ter sido uma catastrófica semana de ressaca.

Começou por substituir a insustentável dupla de centrais Ricardo Costa/Bruno Alves—responsável por sete golos sofridosemtrês jogos —pela muitomais tranquila e «normal » duplaPedro Emanuel/Pepe, a que acrescentou a estreia do checo Marek Ceh, em detrimento de César Peixoto. Com a sorte que tanto lhe faltara em jogos anteriores finalmente do seu lado no jogo contra o Inter, a defesa portista escapou incólume a Recoba, Figo, Adriano, Júlio Cruz e companhia. E, apesar de dois sustos sofridos no Funchal, escapou também virgem no complicado campodaquela equipa estrangeira que dá pelo curioso nome de Nacional. Com essas alterações, oFCPorto não passou a ter umadefesa segura (até porque resta o problema de Bosingwa na posição de defesa-direito, para que lhe falta emabsoluto o jeito).Mas passou a terumadefesa capaz, pelo menos, de não comprometer irremediavelmente a equipa em todos os jogos. Pena que Adriaanse só o tenha compreendido depois de ver a equipa praticamente afastada da Liga dos Campeões e batida pelo Benfica noPorto, pela primeira vez em dezasseis anos.

No ataque, o holandês pôs termo ao verdadeiro crime cometido contra oBenfica e que consistiu em deixar de fora esse talento furioso que é o Ricardo Quaresma.Quanto mais não seja, a persistência neste erro tratava-se uma atitude incompreensível para quem, como Adriaanse, tanto fala no seu amor ao futebol-espectáculo. E espectáculo, além de soluções de golo únicas, foi o que Quaresma forneceu, quer contra o Inter quer contra o Nacional.

Já não foi nada mau, para quem se obstina emser sempre o último a ver o que já todos viram. Restalhe agora compreender o terceiro erro em que caiu no jogo contra o Benfica e ver aquilo que também salta à vista: que Lucho González precisa de descansar, quanto mais não seja, meias partes dos jogos, e que Jorginho, tal como está a jogar, não tem lugar na equipa e é bom que saia para meditar, antes que, como ia sucedendo contra o Inter, a sua displicência, quase deite tudo a perder.
Mas havia necessidade de tanto sofrimento e tantos danos até que Co Adriaanse se rendesse ao óbvio? Pergunto-me muitas vezes se a teimosia dos treinadores em tomar os seus desejos por realidades, contra toda a evidência e senso-comum, será apenas uma forma de mostrarem autoridade e competência namatéria. E dou comigo a pensar se às vezes o ideal não seria pôr os adeptos a escolher, por votação, a equipa para cada jogo, ficando o treinador apenas com o encargo de a treinar durante a semana e com a responsabilidade de fazer as alterações que entendesse adequadas durante os jogos? Uma coisa eu era capaz de apostar: com Pedro Emanuel e Pepe nos lugares de Ricardo Costa e Bruno Alves, e Ricardo Quaresma de início, o Benfica não teria ganho no Porto com o à vontade que ganhou...

2-E, depois do Porto, também o Benfica teve uma semana bem proveitosa, com o empate fora com o Villarreal e a vitória caseira contra oEstrela.Aequipa está a melhorar e a ganhar confiança e atitude a olhos vistos, com a revelação do lateral Nélson a empurrar tudo para a frente.Peço desculpa de insistir, mas parece-me que apenas o seu presidente não consegue entender que uma conjuntura favorável não pode ser imediatamente aproveitada para um triunfalismo deslumbrado e umespírito de révanche que corre o risco de, mais tarde, se virar contra o seu autor. A persistência nas declarações provocatórias após o jogo do Dragão, inventando incidentes que não existiram ou até intenções de provocação na ausência dela, faz lembrar exactamente aquilo de que se acusava Pinto da Costa há uns anos atrás. E aquela picardia final de declarar que foimais fácil ganhar ao Porto do que ao Guimarães merecia que lhe recordassem que há mais marés do que marinheiros.

Opresidente doBenfica temrazão para andar satisfeito, depois de oito dias triunfais e depois de ter visto, ao cabo deles, 38.000 espectadores acorrerem à Luz, na que foi amaior assistência da época.Mas, apesar de tudo, o presidente do «maior clube do mundo», com 200.000 «sócios» declarados, deveria ficar curioso pelo facto de a maior assistência da época na Luz ser inferior à pior assistência da época no Dragão...

3-Alguns benfiquistas, muito ingénuos ou muito pouco ingénuos, apressaram-se amanifestar o seu espanto pela brandura da pena aplicada pelo Comissão Disciplinar daLiga aBruno Alves: dois jogos. Realmente, para quem não segue atentamente os meandros da subtil política disciplinar destes doutos conselheiros, é de espantar que Bruno Alves não tenha apanhado, como devia, cinco ou seis jogos.Mas estes juízes são tudo menos ingénuos: se Bruno Alves beneficiou agora da sua generosidade é porque eles sabem que, com castigo ou sem ele, Bruno Alves, depois do que mostrouemcampo, não voltaria tão cedo à titularidade noFCPorto. E, assim sendo, a generosidade gratuita de agora permitirá aos senhores conselheiros fazerem a devida compensação, quando descobriremumcotovelo de McCarthy ou um joelho do Quaresma fora do sítio. A CD não perde argumentos a ser duro com quem não interessa. No FC Porto. Porque, já no caso do Benfica, como se viu agora com a anedótica sequência do processo a Petit, a política é toda outra e o objectivo final dela saltou à vista, sem subterfúgios.

4- Dias da Cunha entrou no futebol de leão e saiu de sendeiro, nada mais deixando de memória do que um rasto de confusas boas intenções e trapalhada mental. Disse que vinha para combater o «sistema» e acabou de braço dado com Luís Filipe Viera, que representa o poder actual no «sistema»,emassociação com Valentim Loureiro—denunciado por Dias da Cunha comoum dos dois chefes do mal. E, se finalmente acabou a reconhecer que «o Benfica é levado ao colo», foi ele quem o levou de braço dado até ao beijo da morte. Debalde procurou vilanias do lado de Pinto da Costa e, embora as visse vir do outro lado da Segunda Circular, não conseguiu estabelecer uma simples associação entre causa e efeito. De facto, para o final, já só conseguia meter os pés pelas mãos e fiel aos seus moinhos de vento e à sua inútil zaragata permanente, acabou a substituir o «sistema» pelos jornalistas, como origem de todos os males penados pelo Sporting. Mas havia uma luz ao fundo do túnel e, cambaleante, ele enfiou por lá: era a porta da saída.

OS TRÊS ERROS FATAIS DE UM TEIMOSO ( 18 Outubro 2005)

Eu sei que o mister Co Adriaanse, para além da sua teimosia flamenga,também não fala e não lê português, o que muito contribui para o autismo em que vive. Talvez seja altura de Pinto da Costa começar a aprender holandês, antes que, por delicadeza, como disse o Rimbaud, tudo esteja perdido.

1 - Poucas vezes uma derrota com o Benfica, mesmo que no Porto, me causou tão pouco abalo como a de sábado passado. Primeiro que tudo porque eu troquei uma ida ao Dragão por um fabuloso fim-de-semana de caçada às perdizes, na zona beira do Tejo Internacional. E, quando se está a caçar perdizes, entre amigos e naquela paisagem despojada e selvagem, tudo o resto toma uma importância relativa: como escreveu Shakespeare no Hamlet, com aplicação directa à paixão futebolística, «há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que a tua vã sabedoria supõe». Segundo, porque eu percebi, ao minuto zero do jogo e quando vi a equipa escalada por Adriaanse, que as coisas não iam correr bem, e logo me preparei para o pior; e percebi, por volta do minuto 20, que só o Benfica poderia ganhar aquele jogo. Em terceiro lugar, porque aquilo que verdadeiramente me faz sofrer é quando o FC Porto joga bem e perde, ou quando factores externos conduzem à derrota, sem mérito para o adversário. Mas, desta vez, nem a criteriosa escolha de Lucílio Baptista (just in case...) se revelou necessária: a defesa portista, as asneiras de Adriaanse e o mérito do Benfica foram mais que suficientes para um desfecho que se revelou perfeitamente natural. E, para que conste, justíssimo e sem contestação possível.

2 - Mas, tomem nota, também: numa semana em que, como habitualmente, a minha estimulante colega de coluna, Leonor Pinhão, fez questão de relembrar acidentes passados da última vez que o Benfica ganhou no Porto, revelando que o seu presidente de então, Jorge de Brito, teve de sair do estádio de ambulância e disfarçado de doente (estaria mesmo disfarçado ou estaria mesmo doente?), desta vez os selvagens do Porto receberam o Benfica sem a mínima razão de reclamações, excepto as de má-fé. Parece que, no hotel onde a equipe lisboeta dormiu, dois petardos (e não «três ou quatro», como disse o presidente benfiquista) foram lançados na rua por energúmenos de passagem, que existem infelizmente em todas as cidades e todos os clubes. E nada mais. Nem as provocações lançadas em Gaia no próprio dia do jogo por Luís Filipe Vieira encontraram qualquer eco ou qualquer resposta de dirigentes ou gentes portistas, que se mantiveram alheios ao ambiente toda a semana e assim continuaram depois. Nem o aparato policial requisitado pelo Benfica para se deslocar ao estádio encontrou qualquer justificação no ambiente vivido. Os adeptos benfiquistas compraram todos os bilhetes a que tinham direito e não os 1008 que a direcção benfiquista quis instituir para os adeptos portistas na Luz. Viram o jogo tranquilamente e sem quaisquer incidentes, antes, durante ou depois, e festejaram pacificamente a vitória com os seus jogadores, mesmo apesar da atitude desafiadora de um tal José Veiga, que consegue a proeza de, tendo servido dois clubes rivais, ser igualmente detestado pelos adeptos de ambos. E, tal como anunciara previamente, o presidente do Benfica viu o jogo no camarote presidencial, sem direito a insultos, a cartazes ofensivos, a cânticos hostis ensaiados ou a conferências de imprensa improvisadas no final para o ofender pessoalmente. Para que conste, também. E para comparação futura.

3 - Ronald Koeman derrotou Co Adriaanse em toda a linha e com laivos de maquiavelismo. Koeman estudou bem o FC Porto e montou uma estratégia para vencer. Adriaanse, tal como já sucedeu outras vezes esta época, deu ideia de não conhecer o adversário e limitou-se a mandar 11 lá para dentro e esperar até ao 0-2 que eles resolvessem o assunto a golpes vadios de inspiração. Depois de ver como um e outro encararam o jogo, não me admira que Koeman esteja a ganhar 7-0 nos confrontos com Adriaanse.

Mas não esperem de mim que, por causa de uma derrota, ainda que exemplar, venha desdizer tudo o que de bom já disse sobre Co Adriaanse. O meu lenço branco continua no bolso. E eu continuo a pensar que ele tem razão em privilegiar o jogo ofensivo - não apenas em teoria mas no concreto, atendendo aos jogadores que tem, para atacar e para defender. Continuo a pensar que ele tem razão em ser um dis-ciplinador e muitas das suas ideias têm toda a lógica e fazem todo o sentido. Mas também não posso deixar de reforçar as críticas que já lhe fiz e cujo único erro de que me penitencio foi ter pensado que eram detalhes corrigíveis e afinal estarem-se a revelar problemas de fundo. Adriaanse é teimoso até ao absurdo, é autoritarista até ao ponto de isso prejudicar as suas boas ideias em matéria de disciplina e tem um excesso de autoconfiança e um défice de humildade que facilmente se transformam em autismo e arrogância, com evidente prejuízo da equipa. Dá que pensar e é matéria de séria preocupação que só o treinador não consiga ver o que qualquer um vê à vista desarmada. Os três erros fatais cometidos por Adriaanse no jogo contra o Benfica foram demasiado gritantes para serem desculpáveis e foram causa decisiva da derrota. Poucas vezes se poderá dizer com tamanha segurança que uma equipa foi derrotada pelos erros do seu treinador.

O primeiro erro fatal de Adriaanse foi, obviamente, a defesa. Talvez ele não tenha a culpa toda pelo facto de o FC Porto não ter um único grande central e jogar com dois laterais adaptados: ou seja, de não ter um único bom defesa de raiz. Mas, se prefere jogar com Bosingwa adaptado que com Sonkaya, por ele indicado para a função, então tem de explicar a Bosingwa o mínimo que é de esperar de um lateral - por exemplo, que, se o avançado contrário pode cabecear a bola para golo e ele está por ali, é de esperar que tente também cabecear a bola, em lugar de ficar a olhar. Depois, tem de dizer aos centrais que não podem subir os dois nos cantos, proporcionando contra-ataques como o que deu a vitória ao Artmedia e o que ia dando o 3-0 ao Benfica. E, finalmente, não pode, sob pena de suicídio continuado, insistir nos dois piores centrais dos cinco que tem ao seu dispor. Ricardo Costa já teve sobejas oportunidades para mostrar o que valia e já deu suficientes provas de que a sua vontade e a sua ambição não têm correspondência no seu valor. Quanto a Bruno Alves, esse só pode ser um caso evidente de erro na origem: se realmente tem talento para jogar futebol, de certeza que não é a defesa-central. E, depois daquela vergonhosa atitude para com Nuno Gomes, a questão é a de saber se pode voltar a ter lugar na equipa principal do FC Porto. Como quer que seja, os factos falam por si: esta dupla de centrais em que Adriaanse se fixou encaixou sete golos nos três jogos que fez, dois dos quais jogados em casa. Tremo só de pensar que lhe estará reservada a tarefa de amanhã enfrentar Adriano e companhia.

O segundo erro do homem que disse que não iria mudar nada por se tratar do Benfica foi ter mudado o que não devia e não ter mudado o que devia. Não mudou a defesa, que tão más provas vinha dando, e ela enterrou a equipa. Não deu descanso ao Lucho González, que grita desesperadamente por alguns dias de repouso, ao fim de um ano inteiro a jogar sem pausas, e que regressara 24 horas antes do Uruguai, depois de dois jogos e duas viagens intercontinentais em sete dias. Tirou o Diego, que estava a jogar bem, e meteu finalmente o Jorginho na sua verdadeira posição, só que tarde e a más horas, porque salta à vista que o Jorginho atravessa uma crise de forma a pedir banco urgente. E, finalmente, mexeu no ataque, que era a sua melhor defesa face à incompetência larvar da defesa, e, fazendo-o, quebrou as rotinas adquiridas, sem que a alternativa tivesse mostrado um mínimo de inspiração ou trabalho de casa.

O terceiro erro já é um clássico e um mimetismo típico de treinador português, que Co Adriaanse parece ter assimilado até ao âmago: quando o jogo é complicado olha-se para a lista de jogadores e tira-se o mais criativo deles, o desequilibrador nato, aquele que o adversário mais teme, a benefício da suposta consistência da equipa. Ganhei, infelizmente, duas apostas feitas com um amigo: uma, que Adriaanse iria deixar o Ricardo Quaresma de fora da equipa inicial; outra, que o meteria à pressa, assim que estivesse a perder, porque também isso é um clássico: os génios não servem para ganhar jogos, só servem para salvar jogos perdidos. Só não esperava é que a sua parcimónia fosse tamanha que, quando finalmente meteu o Quaresma em jogo, depois de longos minutos a dar-lhe instruções inúteis, já houvesse 2-0 e nada a fazer.

Eu sei que o mister Co Adriaanse, para além da sua teimosia flamenga, também não fala e não lê português, o que muito contribui para o autismo em que vive. Talvez seja altura de Pinto da Costa começar a aprender holandês, antes que, por delicadeza, como disse o Rimbaud, tudo esteja perdido.

Desmancha-prazeres (11 Outubro 2005)

É apenas uma sugestão ou uma opinião contracorrente: mas talvez não nos ficasse mal, na perspectiva do Alemanha-2006, um pouco mais de humildade entre os já eleitos e um pouco mais de exigência entre os arautos.

1- Parece que Luiz Felipe Scolari não terá gostado muito de uns comentários de Gilberto Madail, criticando a prestação da Selecção contra o Liechtenstein, e deixou no ar a ameaça (ou a promessa...) velada de se poder ir embora, antes ainda do Mundial. Pode ser que não tenha passado de um arrufo de quem não está habituado a que ponham em causa os seus méritos, ou pode ter-se tratado de mais qualquer coisa, que ainda não sabemos: a verdade é que, há tempos atrás, vi uma entrevista do seleccionador a uma televisão brasileira onde ele afirmava que tinha convites de outras selecções ou clubes do Sul da Europa e era coisa que o poderia vir a interessar. Nessa entrevista Scolari só descartava a possibilidade de regressar ao Brasil, explicando que aqui recebia no dia 1 de cada mês e lá recebia quando calhava...

Mas esse ordenado pontualmente pago vem dos cofres da Federação e estes, por sua vez, são alimentados em parte pelo público que, como o de Aveiro sábado passado, enche os estádios para ver jogar a Selecção. Só abona a favor de Gilberto Madail que o presidente da Federação dê eco à frustração de 30 mil espectadores que tinham acabado de assistir a um jogo que roçou o limite do suportável - e já não era o primeiro nem o segundo.

Verdade se diga que o próprio Scolari não estava muito contente com aquela exibição, embora só no final o tenhamos percebido - ele que foi o primeiro a afirmar que um empate ou uma vitória por "meio a zero" já chegava: teve o que pediu. Há várias coisas em que Scolari só se pode queixar de si próprio, a primeira das quais é a sensação que ele transmitiu, desde que chegou, que a Selecção é praticamente imutável: são os mesmos de sempre, por pior que estejam ou por melhor que estejam os seus concorrentes. Recordo que, contra a opinião de toda a gente de bom senso, ele passou seis meses a treinar para o Europeu uma equipa onde não havia ninguém do FC Porto no meio-campo, apesar de esse meio-campo ser campeão europeu. E foi só após a derrota inaugural contra a Grécia, e na iminência de ver a equipa escandalosamente afastada da qualificação para os quartos-de-final, que ele se rendeu, enfim, à evidência. Nos tempos mais recentes, com sucessivas exibições medíocres dos intocáveis, só o seleccionador é que parece não ver a desinspiração continuada de algumas vedetas encartadas ou outras de recente extracção. E já nem falo do caso do Ricardo, porque, tendo sido o primeiro a falar disso, já me saturei do assunto e é tão evidente a razão que então tinha, e hoje salta à vista de todos, que a única coisa que posso dizer sobre isto, agora, é que a teimosia do seleccionador, que ele confunde com autoridade, é a pior ajuda que podia prestar ao guarda-redes do Sporting. Está a ser friamente lançado às feras para servir de instrumento ingénuo dos tiques de autoridade do seleccionador.

O mais notável e eloquente desta postura foi o facto de o seleccionador, após reconhecer a paupérrima exibição contra o Liechtenstein, afirmar tranquilamente que, dos 23 jogadores a levar ao Mundial, 20 já estavam escolhidos e, entre esses, dois dos três guarda-redes. A nove meses de distância, o que isto significa é que em nada adianta que os que estão de fora façam uma grande época ou que os que estão dentro se afundem na Selecção ou nos seus clubes: os lugares cativos mantêm-se intocáveis. Imagine-se a motivação que daqui deve resultar, para uns e para outros.

Não sei se o Presidente da República faz tenções de voltar a condecorar os heróis que agora asseguraram a qualificação portuguesa para o Mundial da Alemanha-depois de ter achado mais pertinente condecorar a Selecção que perdeu o Europeu para a Grécia, jogando em casa, que o FC Porto, campeão europeu e mundial de clubes. Mas eu, sinceramente, não vejo grande proeza em ter obtido a qualificação num grupo tão fácil como o que nos calhou em sorte, onde a única selecção com algum historial, a russa, atravessa o pior momento das últimas décadas. Já sei que é a primeira vez que nos qualificamos para dois Mundiais consecutivos e, entre Mundiais e Europeus, vamos em não sei quantas qualificações sucessivas. Convém porém não esquecer que anteriormente se qualificavam 16 selecções (e, depois, 24) para o Mundial e agora 32, e 8 para o Europeu e agora 16 (e, para o último, quem nos qualificou foram os portugueses que pagam impostos e pagaram o Euro-2004).

Não sei, é apenas uma sugestão ou uma opinião contracorrente: mas talvez não nos ficasse mal, na perspectiva do Alemanha-2006, um pouco mais de humildade entre os já eleitos e um pouco mais de exigência entre os arautos.

2- É suposto igualmente sentirmos uma profunda e lusófona alegria pela qualificação de Angola. É estranho: não consigo senti-la. Quando penso em Angola penso nos milhares de crianças estropiadas de guerra para quem não há dinheiro para as próteses, nos outros milhares que vagueiam pelas cidades em busca de comida nos contentores de lixo, e penso num país imensamente rico onde uns vivem no luxo e nas mordomias do poder e a grande maioria vive na miséria. E lembro-me do texto que Pepetela aqui escreveu no sábado, desejando, enquanto angolano, que Angola se não qualificasse, para que isso não servisse de pretexto a mais umas quantas despesas sumptuárias de uns tantos privilegiados e a desviar as atenções daquilo que verdadeiramente interessa. Infelizmente, há alturas em que o futebol serve a quem não deve.

3- É seguro que não vão faltar os comentadores lisboetas a verem na vitória eleitoral de Rui Rio a derrota do FC Porto e de Pinto da Costa. Se Rio, que governou de costas voltadas para o FC Porto, teve 46% de votos, é porque o Porto-cidade lhe deu razão nessa atitude. Mas como se explica então que, do outro lado do rio, o grande apoiante do FC Porto - Luís Filipe Meneses - tenha tido 58%?


É inútil tentar explicar que uma e outra coisa não estão ligadas e a vitória de Rui Rio teve que ver com outras coisas e não foi conquistada contra o FC Porto mas apesar disso. E, se é verdade que ele tem o mérito de ter ganho sem precisar do FC Porto, também este ganhou - no País, na Europa e no Mundo - sem precisar do presidente da câmara do Porto. E uma coisa eu vos posso garantir: é que, se no Mundo inteiro não há quem saiba quem é o presidente da câmara do Porto, também não há quem hoje não saiba que fica em Portugal uma cidade chamada Porto, onde joga o FC Porto.


Quanto mais não fosse, bastaria esse simples facto para que devesse ser tido como uma anormalidade o desprezo a que o presidente da câmara do Porto vota a instituição que até hoje mais fez pelo nome e pelo prestígio da cidade - mais até que o vinho do Porto. Em Lisboa tal facto é tido como motivo de louvor e exemplo da saudável separação entre o futebol e a política. Curioso é que não tenham nunca uma palavra a dizer sobre os apoios constantes que as sucessivas vereações camarárias de Lisboa dão ao Benfica, ao Sporting ou ao Belenenses. Não há nada mais confortável que pregar moralidade no quintal do vizinho...

P. S. - Não sei se repararam numa notícia saída nos jornais que dizia que o arquitecto Manuel Salgado, autor do célebre Plano de Pormenor das Antas, iria processar a vereação de Rui Rio por violação de direito de autor. Em causa estará, segundo ele, a alteração feita pela câmara no seu projecto, permitindo maior volume de construção no centro comercial e nos edifícios anexos ao Estádio do Dragão. Lembram-se quais eram as críticas que, uma vez eleito há quatro anos, Rui Rio fez ao Plano de Pormenor das Antas ? O excesso de volumetria dos edifícios e a dimensão do centro comercial, que iria liquidar os comerciantes da Baixa...

quarta-feira, outubro 19, 2005

AS RAZÕES À VISTA DE ADRIAANSE ( 4 Outubro 2005)

AS RAZÕES À VISTA DE ADRIAANSE


Não vejo que vantagem possa haver em pedir a Co Adriaanse que ponha a equipa a jogar com base num sistema que depende do sector em que ela é mais fraca. Se não sabe defender, a umca coisa que o FC Porto pode fazer é atacar.


Nas semanas em que há jogos europeus a desvantagem de escrever no início da semana, como eu, é que os jogos europeus já estão desactualizados face aos jogos do campeonato que, entretanto, tiveram lugar ao fim-de-semana. É o caso, agora: para um portista o grande tema de meditação, esta semana, não pode deixar de ser a incrível derrota europeia frente àquela equipa com nome de agência de publicidade, e as subsequentes declarações que, sobre ela, fez o treinador Co Adriaanse, bem como as inúmeras reflexões que essa derrota e os comentários do treinador portista inspiraram. Só que, entretanto, houve o jogo da Madeira, susceptível ou não de mudar as conclusões que já teriam sido tiradas.

Ora bem. Sucede que, por acaso, eu acho que nem é assim. A derrota contra o Artmedia, o empate contra o Marítimo e as declarações de Adriaanse de que não iria mudar a sua filosofia e o seu estilo de jogo, apesar das sucessivas desilusões motivadas pelos descalabros defensivos dos portistas, permitem um julgamento comum sobre as razões do treinador do FC Porto. Os factos (os resultados) dão-lhe ou não razão, na sua crença de que o futebol de ataque é a solução adequada — em geral e, em particular, para o caso desta equipa do FC Porto? Há ou não razão para lenços brancos?

A minha opinião é que Co Adriaanse tem razão — e julgo que comigo está a generalidade dos adeptos portistas. No geral porque é mil vezes preferível, como espectadores, um futebol de ataque, que traz espectáculo, emoção e beleza ao jogo, que aquele futebol completamente estéril e passivo que a equipa jogava no ano passado. No particular porque, olhando para a actual equipa do FC Porto, é fácil perceber que, face àquela defesa de gelatina, a melhor defesa possível... é o ataque.

Muita gente criticou Adriaanse por ele não saber defender os resultados, ter uma estratégia suicida de ataque, nunca parar em busca do maior número de golos possível. Para esses espíritos desassossegados por tanta coisa nova e diferente Adriaanse deveria ter posto o FC Porto à defesa assim que chegou ao 2-2 em Glasgow e deveria ter parado de atacar assim que chegou ao 2-0 contra o Artme-dia, em lugar de continuar à procura do 3-0. Pois, mas os factos podem ser vistos de outra perspectiva, onde os críticos perdem a razão: mesmo a jogar com 10 o FC Porto teve duas oportunidades de chegar ao 3-2 em Glas-gow e, se o tem conseguido, pelo menos não acabaria a perder o jogo; teve uma oportunidade inacreditavelmente desaproveitada de chegar ao 3-0 contra o Artmedia e, se o tem conseguido, pelo menos não perdia o jogo; e, da única vez que recuou e defendeu o resultado — no Funchal a jogar contra 10, a um quarto de hora do fim —, acabou por consentir o empate. Moral da história, do meu ponto de vista: com uma defesa que, seja contra quem for, sofre habitualmente dois ou três golos, a única salvação possível é que o ataque e o meio-campo ofensivo consigam pelo menos marcar três e, de preferência, quatro.

Deixemos de parte o recente e estranho jogo contra o Marítimo, em que, a par da pior exibição da época, o FC Porto foi surpreendido (como todos fomos) por um Marítimo que, em quatro dias de trei-nador novo, ressuscitou da nulidade e apareceu pujante de futebol e de energia, correndo sem parar, ao ponto de, a jogar com 10, ter conseguido encostar o FC Porto lá atrás a 15 minutos do fim. Vamos ver se esta extraordinária e instantânea ressurreição se confirma e em que termos nos jogos seguintes. (Só dois apartes, para contrariar as verdades feitas: o golo anulado ao Marítimo foi, tal como o golo anulado ao FC Porto, bem anulado, porque entre o jogador do Marítimo e a linha de golo só havia um portista no momento do passe — o Bruno Alves; o invocado penalty que terá sido sofrido por um sujeito do Marítimo que se viria a distinguir por cuspir na cara dos adversários e entrar a matar sobre eles depende da vontade de cada um — para mim trata-se de um .penalty à João Pinto, um estafado número que consiste em adiantar a bola para onde já não se pode ir buscá-la e depois arrastar a perna deliberadamente para encontrar a perna do defesa que tenta cortar a bola.)

Mas, à parte esse atípico jogo com o Marítimo, o que o marcante jogo contra o Artmedia mostrou foi apenas aquilo que já se sabia. O que falta a este FC Porto, em minha opinião, é aquilo que aqui escrevi a seguir ao jogo contra o Glasgow Rangers: o fim do azar e uma defesa minimamente capaz. Compare-se com o Sporting, contra o Halmstads. Perdeu também por 2-3 mas o adversário ainda poderia ter marcado outros três. Já o Artmedia e o Rangers chutaram, cada um deles, quatro vezes à baliza do FC Porto, acertaram três vezes e das três foi golo. Em contraste, o FC Porto chutou 28 vezes à baliza do Artmedia, 25 à do Rangers, perdeu quatro ou cinco oportunidades flagrantes em cada um dos jogos, teve 62% de posse de bola no primeiro jogo e 68% no segundo, teve seis vezes mais ataques e seis vezes mais cantos que ambos os adversários... e perdeu os dois jogos. Independentemente dos erros defensivos, é forçoso reconhecer que apenas um pouco menos de azar e as histórias teriam sido outras.

Agora sobeja a outra verdade incontornável. O FC Porto tem o terceiro ataque entre as 32 equipas Liga dos Campeões, é a equipa que mais ataques fez, mais remates fez, mais posse de bola teve. E a pior defesa. Nenhuma equipa com aspirações europeias se pode dar ao luxo de marcar quatro golos em dois jogos e perder ambos. Ou de sofrer oito remates à baliza e encaixar seis golos. É simplesmente impensável.

Ao longo das últimas décadas o FC Porto habituou os seus adeptos a ter sempre um ou dois grandes defesas-centrais em acção, trás para a frente, foram os ciclos de Ricardo Carvalho, Jorge Andrade, Aloísio (10 anos!), Geraldão, Celso, etc. Nunca, que me lembre, o FC Porto iniciou uma época sem ter um grande central, pelo menos. Aconteceu este ano, em que o melhor deles, Jorge Costa, está, ainda por cima, encostado ou lesionado. A dupla dos últimos jogos — Ricardo Costa e Bruno Alves — é a pior de todas, com a agravante de ter nos flancos dois laterais adaptados. E, quando assim é, não há milagres. Ricardo Costa bem pode justificar dizendo que a responsabilidade de defender é de todos e não apenas dos defesas: é tão verdade como dizer que a responsabilidade de marcar golos é de todos. O que sabemos é que a frieza dos números demonstra que o ataque tem cumprido a sua obrigação, a defesa é que não.

O problema só tem solução de fundo e esta só pode chegar em Dezembro e cara. Daqui até lá, porém, decide-se o destino do FC Porto na Liga dos Campeões. Para que ele seja feliz é preciso que a sorte mude e a defesa portista seja capaz, ao menos, de não encaixar dois ou três golos todos os jogos. Entretanto, não vejo que vantagem possa haver em pedir a Co Adriaanse que ponha a equipa a jogar com base num sistema que depende do sector em que ela é mais fraca. Se não sabe defender, a única coisa que o FC Porto pode fazer é atacar. E quanto mais melhor.

DO QUE O POVO GOSTA ( 27 Setembro 2005)

O exemplo prático do FC Porto de Co Adriaanse, a coragem do seu futebol de risco, a beleza dos espectáculos que proporciona e o público que enche o Dragão para o ver vão ser, não tenham dúvidas, o grande motivo de reflexão deste campeonato.

1 - Em Montreal, no Canadá, Luís Filipe Vieira anunciou que o Benfica já é o maior clube do Mundo, com 170.000 sócios e 70.000 kits vendidos. Transportado pelo próprio entusiasmo, o presidente benfiquista atreveu-se até a mais um salto qualitativo: este ano o objectivo e a previsão já não são só chegar à final da Liga dos Campeões mas sim vencê-la e fazer do «maior clube do Mundo» o campeão da Europa. Não mais de 30 mil benfiquistas — os que foram ver a estreia do seu clube na Champions — parecem comungar de igual entusiasmo. Mas pode ser que, aproveitando o momento insolitamente negativo que atravessa o Manchester United e as 10 baixas do seu plantel, o Benfica consiga esta noite em Manchester dar mais asas ao sonho presidencial e provar, no próximo jogo caseiro, que «certos estádios fizeram-se para estar cheios».

Sem nada prometer de semelhante, seja pela boca do seu presidente, treinador ou jogadores, e sem andar por aí a lembrar que o campeão do Mundo em título é ele, o FC Porto lá vai continuando a confundir esperanças com realidades. Quarenta e cinco mil espectadores estiveram no primeiro jogo do campeonato no Dragão; 37.000 no segundo; 41.000 no terceiro. Certos estádios fizeram-se para estar cheios: aqueles onde se joga bom futebol.

A receita de sucesso de Co Adriaanse é simples: futebol de ataque garante o espectáculo e o espectáculo garante o público. Dêem ao povo o que o povo gosta e a lua-de-mel será eterna. Houve quem se melindrasse pelo enunciado tão simples da sua receita; houve quem, num assomo de chauvinismo pacóvio, se melindrasse pelo facto de o holandês, tão verde entre nós, já se permitir considerações sobre os males do futebol luso; houve até quem visse nas suas declarações uma forma de desviar as atenções da sua brandura disciplinar contra McCarthy (que, por razões à vista, eles tanto desejavam que fosse levada aos limites...). Mas a vantagem de Adriaanse é esta: jogo após jogo ele mostra que as suas teorias não são apenas teorias mas sim uma filosofia de jogo, uma ideia do que deve ser o futebol e um projecto para salvar o «maior espectáculo do Mundo», que é levada a cena de cada vez que a sua equipa entra em campo.

Contra um excelente Belenenses viu-se um FC Porto de ataque continuado, incontrolável, insaciável. As jogadas para o golo sucedem-se, umas a seguir às outras, a imaginação anda à solta como uma febre sem controlo, os 90 minutos sabem a pouco. Dá gosto ver futebol assim! E os leitores que me permitam duas satisfações pessoais acrescidas: primeira, o triunfo do futebol de ataque, de que sou e sempre me confessei adepto incorrigível, contra os «meios campos superpovoados» e o «jogo de contenção» que fazem a doutrina dos nossos treinadores; segunda, a satisfação de ver o que vale um FC Porto com o onze que aqui venho defendendo há dois meses, ou seja, com McCarthy e Quaresma a titulares. Por mais voltas que o futebol dê, hei-de morrer sem que alguém me consiga convencer de que os grandes jogadores devem ceder lugar aos jogadores seguros ou disciplinados.

2 - 0 exemplo prático do FC Porto de Co Adriaanse, a coragem do seu futebol de risco, a beleza dos espectáculos que proporciona e o público que enche o Dragão para o ver vão ser, não tenham dúvidas, o grande motivo de reflexão deste campeonato. Foi porque já o perceberam que os sportinguistas despediram a sua equipa com uma assobiadela, após a magra e frustrante vitória caseira contra o V Setúbal e depois de terem visto Peseiro a defender o 1-0, em casa e em superioridade numérica, tirando o Liedson para colocar o Beto. Depois de uma época em que dispôs da melhor equipa nacional e jogou o melhor futebol, mas perdeu sempre nos momentos decisivos, José Peseiro acha que a solução é sacrificar o espectáculo e privilegiar os resultados. Depois do desastre contra o Nacional, a ordem parece ser clara: se a equipa está a ganhar por 1-0, defende-se o 1-0, com assobios ou sem assobios. Adriaanse pensa exactamente o contrário: se a equipa está a ganhar por 1-0, é preciso fazer o 2-0, continuando a atacar. Os resultados de ambos esta época já lhes deram razão, a um e outro, alternadamente. Mas não há dúvidas para que lado balança o coração dos adeptos, com qual das filosofias de jogo se defende melhor o futebol e com qual dos dois tipos de espectáculo se traz público aos estádios. Eu estou com as ideias de Co Adriaanse e ainda bem que elas estão ao serviço do meu clube.

3 - Ao minuto 19 do jogo de Al-valade o árbitro Paulo Baptista resolveu o jogo a favor do Sporting, assinalando penalty contra o Vitória e expulsão do guarda-redes setubalense. Resolveu-o, diga-se, de acordo com as regras e, portanto, nada há a dizer contra a decisão dele: considerou que Deivid foi tocado pelo guarda-redes, quando estava em posição de marcar golo, e, sendo assim, as regras mandam que assinale penalty e mostre o vermelho ao infractor. Não é a decisão do árbitro que está em causa mas a própria regra. Esta regra é equívoca, injusta e contra o espectáculo.

Equívoca porque exige do árbitro um juízo de valor totalmente subjectivo, as mais das vezes fundado num palpite: o jogador derrubado estaria ou não em posição flagrante de poder marcar golo? Cada cabeça sua sentença — o que, numa decisão de tal forma gravosa, não é recomendável...

Injusta porque, na prática, equivale a duas penalidades máximas na mesma jogada: a expulsão directa e o penalty. Faz muito mais sentido que o vermelho directo seja mostrado fora da área, a quem derruba um jogador que se vai isolar, que dentro da área. Porque, dentro da área, o penalty dá quase sempre como resultado um golo, enquanto o livre fora da área só raramente tem essa consequência. Um critério de adequação da justiça estabeleceria como regra que este tipo de jogada, se cometido fora da área, devia dar lugar a livre directo e expulsão e, se cometido dentro da área, a penalty e cartão amarelo.

Enfim, a regra em vigor contribui claramente para estragar o espectáculo, já que oferece uma clara oportunidade de golo a uma equipa e, simultaneamente, uma superioridade numérica que, se adquirida logo de início, como sucedeu em Alvalade, desequilibra o jogo e condena a equipa do infractor a remeter-se à defesa até final.

Mas esta regra tem também um mal acrescido: é que, ponderando todas as suas consequências para o próprio jogo, há muitos árbitros, incluindo alguns dos mais conceituados do Mundo, que se recusam a aplicá-la em todo o seu rigor: ficam-se pelo penalty e pelo amarelo. Mas como, apesar de muitos, não são todos, e há sempre os outros, como Paulo Baptista, que seguem a lei à letra, está estabelecido um critério aleatório, variando de árbitro para árbitro, com toda a incerteza e toda a injustiça a que isso se presta. Anteontem o Sporting beneficiou, e sem contestação possível, de um critério estrito do árbitro nesta matéria. Mas se amanhã o critério for outro, ou for o mesmo contra o Sporting, lá virá o inevitável dr. Dias da Cunha bramar contra a arbitragem e o sistema. Esperem para ver...

4 - Só um grande profissional, um grande jogador e um grande atleta, como o é Marco Aurélio, poderia atingir a marca impensável de 200 jogos consecutivos na I Liga, SuperLiga ou BetandWin qualquer coisa. Duzentos jogos são seis anos e meio a defender as balizas, sem falhar um jogo, por lesão ou por castigo. E, 200 jogos depois, aos 35 anos de idade, ele ainda prova que pode ser o melhor da equipa, como o foi sábado passado, na visita ao Dragão. Eis alguém que certamente merece cada euro que ganha.