domingo, agosto 04, 2013

O FIM-DE-SEMANA PERFEITO (21 MAIO 2013)

1- Sexta-feira o andebol, sábado o hóquei, domingo o futebol: três títulos de campeões nacionais conquistados pelo FC Porto ao Benfica, sendo que dois deles foram conquistados este fim-de-emana em confronto directo com os nossos grandes rivais e o terceiro fora no fim-de-semana passado. É difícil imaginar melhor fim-de-semana, melhor sequência em apenas três dias.

Quarta-feira passada, dei por mim, antes e durante todo o jogo contra o Chelsea, a torcer pelo Benfica e a sofrer, no final, pela injustiça do desfecho do jogo e da Liga Europa. Antes, durante e depois, cumulei de mensagens de apoio e solidariedade a alguns dos meus amigos benfiquistas. Exercício inútil, eu sei: grande parte dos portistas acham que isto é uma traição e os benfiquistas acham que é uma hipocrisia tal como acharam de idêntico desejo formulado por Pinto da Costa. Se ficássemos calados, diriam que estávamos roídos de inveja e que nem sequer éramos capazes de querer a vitória de uma equipa portuguesa numa final europeia, pois que o ódio se sobreporia a tudo o resto; mas se dizemos o contrário, é hipocrisia, nunca sinceridade. Paciência, é por isso que nós somos portistas e eles são benfiquistas. Não sabem ganhar nem sabem perder; são incapazes de jamais reconhecer o mérito alheio e não acreditam que os outros sejam capazes de o fazer; em qualquer derrota, não vêem mais do que o resultado de manobras subterrâneas, árbitros corruptos e sistema viciado. Que triste que deve ser viver assim, como um Rui Comes da Silva, um Silvio Gervan, um Bagão Félix! Que triste que deve ser não conseguir ganhar e não ser capaz de perder!

Pois nós, para que registem, ganhámos três títulos de campeões nacionais em três modalidades diferentes e todos eles decididos mesmo no final, em confronto directo com o Benfica, no nosso estádio e no nosso pavilhão. E, sabem que mais? Não houve um caso de arbitragem, um incidente com os adversários ou os seus adeptos, uma manifestação de mau ganhar, de anti-desportivismo! Ora, embrulhem e imitem no futuro, se o conseguirem - o que eu duvido. O Porto é diferente!

No jogo final do futebol, em Paços de Ferreira, o título escreveu-se sem espinhas nem grandes dificuldades. É verdade (vejam como somos capazes de reconhecer!), que o primeiro golo nasce de um penalty cuja falta é fora e não dentro da área: seria livre e não penalty. Mas isso só se percebeu na repetição, porque, na jogada corrida e ao vivo, pareceu claramente dentro da área. Fora ou dentro, porém, são indiscutíveis, quer a falta, quer o cartão vermelho directo, pois James estava isolado, em posição frontal, frente ao guarda-redes. Mesmo sem o golo, o Paços teria sempre ficado a jogar com dez contra onze até à expulsão de Danilo (isto, se contarmos o Varela, tão estimado pela crítica, e que, para mim, não conta). E a verdade é que, quer onze contra onze, quer dez contra onze, quer dez contra dez, o Paços não teve uma só ocasião de golo e apenas teve um remate perigoso em todo o jogo, enquanto o FC Porto teve várias ocasiões de matar o jogo mais cedo. Com o penalty, ganhamos 2-0; sem o penalty, teríamos ganho 1-0.

No resto, não jogámos bem, como há muito não vínhamos jogando. O campeonato, é forçoso reconhecê-lo, caiu-nos do céu, perdido pelo Benfica, muito mais do que conquistado por nós. Em Paços de Ferreira, como seria de prever, o que valeu foi a vontade e a atitude, essa capacidade de não tremer na hora de ganhar imperiosamente, e não o futebol exibido. Como seria de esperar, Vítor Pereira montou a equipa de sempre, preferindo, varelar no ataque do que arriscar: Kelvin teve o seu previsível e justo prémio por ter decidido o campeonato, ficando no banco até aos 80 minutos; Atsu ficou de fora, castigado e afastado por não querer renovar com uma equipa cujo treinador não reconhece o seu talento ele, seguro de que haverá quem o queira e veja nele o que o treinador do FC Porto não viu, e este nem sequer o convocando para ir festejar o título no final. Porém, pese a rodas as outras opiniões contrarias à minha, o que vejo é o seguinte: há muitos interessados em levar Cristian Atsu do FC Porto, mas não conheço ninguém interessado em levar Silvestre Varela. Não sei porque será, mas é assim.

Mas foi fazendo das tripas coração, espremendo os mesmos de sempre até ao limite e, sobretudo, os determinantes (Mangala, Otamendi, Moutinho, Jackson Martínez), que o FC Porto chegou à vitória em Paços e ao título com que já ninguém contava. Valeu o tal espírito de corpo, a tal cultura de vitória, o tal testemunho do balneário, passado de mão em mão, de geração em geração. Começo a acreditar que, na verdade, até com Passos Coelho a treinador o FC Porto conseguia ser campeão!

Pois, ganhámos e parabéns a Vítor Pereira. O seu curriculum interno, no campeonato apenas, é impressionante: dois campeonatos conquistados e apenas uma derrota nestes dois anos e 60 jogos para o campeonato. Não há como a estatística para desfazer impressões e conclusões estabelecidas: dos sete campeonatos ganhos pelo FC Porto nos últimos oito anos (!) nenhuns pareceram tão inesperados e até tão pouco justificados como estes dois de Vítor Pereira — e, todavia, eles aí estão. E, agora, resta à águia lamber as suas penas e talvez - se tiver humildade para tal, o que não é nada certo — meditar nos malefícios que pode causar o excesso de arrogância e presunção.

É possível que, tal como previu o Dr. Mexia, da EDP, o PIB nacional venha a sofrer ainda mais com o campeonato perdido pelo Benfica. Mas, quanto a isso, há um remédio fácil: basta que o Dr. Mexia e a EDP baixem as tarifas abusivas de electricidade que cobram às empresas e às famílias, e a economia poderá levantar a cabeça e o PIB também. Mais difícil do que isso é o Benfica perceber como é que perdeu três títulos nacionais para o FC Porto em apenas três dias.

2- Esta será a primeira terça-feira, em todos estes / anos, que eu olho para a página ao lado e não vejo a coluna de Cruz dos Santos, mas apenas uma cruz no lugar da sua coluna vazia. Nunca tive o prazer de o conhecer pessoalmente, mas, felizmente, tive ocasião de aqui lhe manifestar publicamente a consideração e o respeito que me mereciam as opiniões de alguém que conseguiu, por mérito próprio, tornar-se numa referência nessa traiçoeira terra da crítica da arbitragem. Porque o fez sempre com uma isenção, uma elegância, uma independência de espírito e uma atitude de serena pedagogia que, a meu ver, o tornaram a única autoridade respeitada no assunto. Costuma-se dizer, nestas ocasiões, que ninguém é insubstituível. Mas, naquilo que fez até ao fim e na forma como o fez. Cruz dos Santos é, de facto, insubstituível.

Ainda há quinze dias, escrevi aqui que tinha agendado, para a época morta do defeso, retomar com ele o imprescindível debate sobre a questão dos penalties de mão na bola ou bola na mão, no qual divergimos nestas colunas, há um ano. Agora, não me apetece discutir isso com mais ninguém. Não vejo ninguém mais capaz de me vencer e convencer - e só assim a discussão faz sentido.

Como leitor deste jornal e fidelíssimo leitor seu, como seu admirador à distância, não me conformo com a sua morte. Eu sei que não faz sentido, mas não me conformo. E, se ainda menos sentido faz que um não crente diga isto, gostaria que, lá, onde quer que ele esteja agora, soubesse o quanto a sua ausência, na página aqui ao lado e na vida aqui ao lado, me deixa uma estranha sensação de desamparo.

sábado, agosto 03, 2013

NADA ESTÁ ESCRITO (14 MAIO 2013)

1- «Nada está escrito» foi o que T. E. Lawrence (vulgo Lawrence da Arábia), disse ao Sheriff Faysal, quando este o quis dissuadir de voltar atrás meio deserto do Sinai para ir em busca de um companheiro que ficara perdido na marcha do Exército Árabe, dizendo-lhe que estava escrito que ele não tinha salvação possível.

Nada está escrito foi aquilo de que ninguém se lembrou, quando, à 27ª jornada, os benfiquistas celebraram como campeões o triunfo no Funchal contra o Marítimo, o Marquês de Pombal acordou com uma pintura a vermelho dizendo «reservado», António Costa anunciou as celebrações da vitória no edifício da Câmara e até Vítor Pereira atirou a toalha ao chão, declarando o campeonato já entregue. Mas nada estava ainda escrito.

No espaço de cinco dias, o Estoril-Praia, a quem fora reservado apenas o papel de bombo da festa, silenciou a Luz, fez os benfiquistas viverem um resto de semana de tremedeira indisfarçável e, em consequência disso, sucumbirem no Dragão, fazendo o destino dar uma volta de 180° graus e, de vendedores antecipados, passarem a vencidos amargurados. E, todavia, nada está, ainda, escrito: a deslocação do FC Porto a Paços de Ferreira, na última jornada deste emocionante campeonato, vai ser tudo menos um passeio triunfai, como abaixo direi.

Mas é isto mesmo, afinal, que faz o sortilégio do futebol: não apenas a beleza geométrica e técnica do jogo em si mesmo, mas também a sua faculdade de mudar, de repente, toda a escrita feita. Se o FC Porto for mesmo campeão para a semana, há uma imagem que ficará para sempre na minha memória-e que caracterizará eternamente o desfecho deste campeonato: a fotografia aqui publicada no domingo passado, tirada no Dragão nos instantes seguintes ao golo da vitória portista, e onde se vê Jorge Jesus em primeiro plano, ajoelhado, quebrado, esmagado pelo golpe do destino, e Vítor Pereira saltando de alegria no plano atrás. Viva o futebol, onde nada está escrito!

2- Primeiro, saudemos os bastidores do grande jogo. Apesar dos esforços de empolamento de alguma comunicação social, não houve incidentes de maior a registar — antes, durante ou após. A polícia fez o seu trabalho bem feito, não ficou registo de feridas ou detidos, e algumas escaramuças menores, com os inevitáveis alienados mentais de ambos os clubes, foram menos que uma gota de água num oceano de tantas borrascas anunciadas. Os responsáveis de ambos os lados abstiveram-se de declarações incendiárias durante a semana e os protagonistas do jogo portaram-se com desportivismo após: mesmo as recriminações esperadas dos benfiquistas à nomeação de Pedro Proença (alimentadas mais de superstições do que de razões), foram contidas.

Pedro Proença fez uma hábil e eficaz arbitragem, num jogo que era tudo menos fácil de dirigir. Pessoalmente, acho que ele contemporizou de mais com o antijogo dos benfiquistas, a teatralização das faltas, as lesões simuladas, as perdas de tempo (só Ola John fez-se assistir três vezes na segunda parte!), mas não teve qualquer influência no que foi importante. Apenas uma distracção de um fiscal-de-linha, ia permitindo um golo em off-side a James - que, felizmente para ele, para nós, para o campeonato, foi desperdiçado. E tenho a certeza de que, se o Benfica tem ganho ali o jogo e o campeonato, ninguém da Direcção do FC Porto mandaria apagar as luzes e ligar a rega. Foi tudo limpinho, limpinho.

3- O jogo, em si, foi inevitavelmente tenso e emocionante, minuto a minuto, jogada a jogada.Mas um mau jogo de futebol, disputado entre duas equipes amarradas à táctica e às considerações de dois treinadores tolhidos pelo medo, nenhum deles procurando ir ao encontro do destino. Dos dois, foi Jorge Jesus quem mais concedeu, descaracterizando o futebol da sua equipa, o tipo de jogo que fez com que, e justamente, o Benfica fosse, durante dois terços da época, a equipa de referência.

Jogando ostensivamente para o empate desde o minuto primeiro, defendendo sempre com dez jogadores atrás da linha da bola, renunciando a existir no campo todo,alimentando o antijogo da sua equipa e reforçando-a para defender quando o FC Porto já estava exausto de força e de crença e qualquer veleidade ofensiva do Benfica teria causado o pânico, Jorge Jesus limitou-se a esperar que o destino viesse ter com ele. E, como tantas vezes e felizmente sucede, pagou um amargo preço por tanto calculismo e cautelas, quando já cantava imerecida vitória. Jesus leva quatro anos a ser sovado às mãos do FC Porto e a razão principal continua a mesma: o medo que o tolhe quando vê o adversário de azul e branco.

Do outro lado, e fiel a si mesmo e às suas limitações, Vítor Pereira apostou numa equipa e num jogo que qualquer ignorante teria adivinhado: Atsu descartado, Varela a titular e Defour de prevenção, o fantasma de Lucho Gonzalez a arrastar-se até custar ver, Moutinho a lutar sozinho contra a desinspiração geral, muita posse de bola, muita segurança sem rasgo, muitos ataques, zero oportunidades.

James, a jogar recuado, estava uma sombra de si próprio, Varela igual a si mesmo, desperdiçando jogo às catadupas face a um Maxi Pereira absolutamente vulnerável (apenas uma boa jogada com grande remate que Artur defendeu tão subtilmente com dois dedos que nem Pedro Proença percebeu que era canto). Sem extremos, o FC Porto atacava pelo melo, com passes e mais passes, rodriguinhos, cerimónias sem fim na hora de atirar à baliza, enfim, uma total ausência de audácia na hora em que se tratava de decidir toda uma época.

A salvação de Vítor Pereira, também imerecida, chegou-lhe através daquele a quem ele chamou um «irresponsável» (entre aspas), que se atreveu a «ter um pontapé daqueles num jogo daqueles». Ou seja, o tipo de jogador que ele abomina, que, em lugar de ficar um jogo inteiro a jogar conforme as instruções - 'passa e volta a passar, para o lado e para trás, mas jamais te atrevas a tentar romper e arriscares-te a perder a bola'. Kelvin, como Atsu e Iturbe ou Djalma, como James na época passada, é o tipo de jogador de que Vítor Pereira desconfia por natureza e que, como todos os outros, foi sempre preterido a um Silvestre Varela — que não rompe, não marca, não assiste e não resolve, mas para ali anda.

Seja qual for o desfecho deste campeonato e desta época, eu não mudo de opinião: tenho um desejo imenso de ver ali outras ideias, outra atitude, alguém que privilegie o talento sobre a segurança e que não tenha medo de pegar em miúdos indisciplinados e talentosos e pô-los ao serviço da equipe, em lugar de se descartar desse incómodo.

4- Mas nada ficou escrito e o FC Porto vai ter uma última jornada terrível em Paços de Ferreira. Não apenas pelo adversário, que provou ser a terceira melhor equipa da época, não apenas pelas dificuldades do campo, mas sobretudo pela pressão de quem veio da condenação, não ainda para a salvação, mas apenas para a sua possibilidade. Mas lamento que um título nacional de futebol, em 2013, se vá decidir num campo que não tem condições nem dimensões adequadas para tal e que, por isso mesmo, não poderá ser usado pelo Paços na Champions. Insisto num ponto em que não me canso de falar: o nosso futebol não avançará, nem será produto digno de exportação televisiva enquanto não for obrigatório em jogos da Liga que a dimensão mínima dos relvados seja a máxima.

5- A opinião largamente dominante entre os benfiquistas é que, se perderem o campeonato, isso ficar-se-á a dever ao empate contra o Estoril e não à derrota no Dragão — pelos vistos, tida como desfecho provável e previsível. Todavia, a verdade é que no jogo contra o Estoril, o que me parece é que o Benfica não perdeu dois pontos, mas ganhou, sim, um ponto: porque, se os dois erros de arbitragem ocorridos a seu favor (um penalty por marcar e um golo do Estoril interrompido por off-side inexistente) não tivessem acontecido, o Benfica poderia ter chegado ao intervalo a perder por 0-2 e, face ao que se viu na segunda parte, não é provável que conseguisse o empate.

Ora, esse ponto faz toda a diferença: obriga o FC porto a ganhar em Paços de Ferreira, não lhe bastando o empatar. Se empatar e o Benfica vencer o Moreirense, o que lhe terá dado o campeonato será...paradoxalmente..., o ponto conquistado contra o Estoril. Eis como nada está escrito.

sexta-feira, agosto 02, 2013

UM DRAMA É OUTRA COISA (07 MAIO 2013)

1- Escrevo antes do Benfica-Estoril da noite passada, e convencido, tal como Vítor Pereira, que, de uma maneira ou de outra, a vitória não terá escapado ao Benfica. No passado recente, o FC Porto viveu vários momentos destes, em que, de repente a época chega ao ponto crucial em que tudo se pode perder e tudo se pode ganhar. O desgaste, que é mais emocional do que físico, é o grande obstáculo a ultrapassar, mas o Benfica ultrapassou o principal no jogo do Funchal e ontem entrou em jogo sabendo que, ganhando ao Estoril, basta apenas, e na pior hipótese (a derrota no Dragão), marcar presença no último jogo, contra o Moreirense, na Luz.

No escuro, aposto, pois, que terá ganho ao Estoril e espero que o tenha ganho limpinho, limpinho. Mas, e depois do que vi nos jogos contra o Sporting e a Académica, devo dizer que, infelizmente, não confio que seja de excluir igualmente a versão sujinho, sujinho, em necessidade havendo. Aliás, para bem do Benfica e do campeonato, seria desejável que, ganhando-o, o faça pelo menos com os 4 pontos de avanço que tem sobre o FC Porto nesta segunda-feira à tarde. Sob pena de para sempre, e injusta ou justamente, terem de arrostar com a memória portista do campeonato Capela. Da mesma forma que o recurso ao estafado truque de anunciar o interesse do Benfica nos serviços futuros de um jogador de um clube adversário nas vésperas de o ir defrontar, é uma coisa feia e que só fica mal a quem se reclama de um legado de verdade e transparência. Esta semana foi Steven Vitória, do Estoril; para semana será Ghílas, do Moreirense. Francamente, não há ali ninguém que perceba o quanto isto desmente a imagem de pureza virginal que se quer fazer passar?

Dito isto, e tal como aqui o escrevi em tempo adequado, estou perfeitamente conformado à perca deste campeonato e não vejo nisso nenhum drama. Drama é a recessão, o milhão de desempregados, os jovens que têm de emigrar porque não há lugar para eles no país em que nasceram. O futebol, que eu amo apaixonadamente desde que me conheço, nunca foi, nem eu permito que vá, além da esquina da vida: jamais estará na rua principal, onde estão tantas outras coisas que valem e significam infinitamente mais. Julgo que a pior homenagem póstuma que me poderiam fazer era enterrar-me com a bandeira do meu clube, como se o meu amor por ele pudesse caracterizar tudo o que eu amei na vida. E é por isso, também, que eu penso que o pior serviço prestado ao futebol é dar voz e guarida aos que, em nome dele, promovem e incitam a imbecilidade, a cegueira e o ódio de massas. Ninguém caracteriza melhor isso do que o vice-presidente benfiquista Rui Gomes da Silva. Escutá-lo na SIC, nem que seja por cinco minutos, assistir ao seu discurso arrogantemente alheio a qualquer preocupação de seriedade factual ou intelectual, ver os seus esgares de ódio pelo adversário, e, enfim, o seu absoluto desprezo pelo futebol enquanto jogo e desafio humano, é perceber quanto é essencial nunca consentir que o futebol vá além da esquina da vida, tropeçando em ambientes infre-quentáveis.

2- Com alguma sorte (sobretudo, contra o Bayer Leverkusen), muitas bolas nos postes, lesões oportunas dos adversários, alguma generosidade arbitral em momentos decisivos, e a incrível capacidade de resolver jogos do mal-amado Óscar Cardozo, o Benfica lá alcançou a final da Liga Europa. Resta o mérito próprio, que obviamente também o teve e que, por isso mesmo, bem podia dispensar o tipo de narração nacionalista/autista anos 60, a que se assistiu na transmissão do jogo contra o Fenerbahçe. E a descoberta da conspiração anti- benfiquista resultante da coincidência árbitro francês/ Platini francês, foi simplesmente notável (porque não seria antes uma conspiração anti-turca?).

Pois o tal árbitro, estranha e coincidentemente francês, até acabou por ter uma prestação assaz simpática para o Benfica na interpretação das faltas, mas sem qualquer influência no desfecho final. É claro que não se deixou ir na cantiga dos quatro penalties por pretensas mãos, reclamados pelos benfiquistas, mas isso apenas serviu para mostrar como aqui, em Portugal, se está a instaurar uma doutrina dos penalties por bola na mão que se presta a toda a espécie de subjectividade, manipulações e discussões estéreis. Quando chegar o defeso e a falta de assuntos mais palpitantes, espero retomar a minha conversa epistolar sobre isto com Cruz dos Santos, que aqui travámos no ano passado. Um ano decorrido e à vista de tantos e tantos casos sucedidos, tenho esperança que ele, pelo menos, reconheça que se criou um problema onde antes não existia, que se tornou obscuro o que antes parecia claro, e que se escancarou uma porta pela qual tantas vezes se falseia a verdade e a justiça de tantos jogos.

3- No rescaldo das mais do que fundadas criticas portistas aos três penalties por marcar no jogo do Benfica contra o Sporting, João Gabriel lá velo, ex-officio, apresentar um pretenso rol de penalties por marcar contra o FC Porto. Não vi nem a conferencia de imprensa que deu, nem as imagens que sustentariam a sua argumentação. Mas, à partida, parece-me que a coisa foi mal feita: se ele tivesse elencado dois ou três penalties por marcar contra o FC Porto, a coisa pareceria verosímil, possível - assim como pareceria verosímil se o FC Porto reclamasse quatro ou cinco por marcar a seu favor. Mas quando João Gabriel reclama nada menos do que oito penalties não assinalados a favorecer o Porto e nenhum em situação contrária, cai na pura propaganda clubística, cujo crédito é o que é. E se lhe parece estranho que o FCP não tivesse, até ao jogo contra o Nacional, nenhum penalty assinalado contra, também eu poderia estranhar então que o Benfica seja, de longe, o clube mais beneficiado com penalties a favor. Mas não estranho nem uma coisa nem outra, pois que é tão normal que a melhor defesa do campeonato seja a que menos penalties comete, como o melhor ataque aquele de que mais penalties beneficia. E, no fim de contas, é claro que as duas únicas coisas relevantes foram aquelas que João Gabriel omitiu: uma, é que é completamente diferente ter 2, 3, ou mesmo 8 penalties não assinalados contra, ao longo de 27 jornadas, ou ter 3 não assinalados no mesmo e decisivo jogo; e outra é que o que importa é o saldo entre penalties a favor e contra e, nesse, o Benfica leva clara vantagem sobre o FC Porto.

4- Notáveis, notáveis, são os esforços que Luís Filipe Vieira faz para não se comprometer com Jorge Jesus nem se descomprometer com ele. Se está tudo bem e claro entre ambos e só falta assinar os papéis, como ele diz, porque não o faz? Porque ainda há muitos benfiquistas que não estão convencidos com Jorge Jesus e o próprio Vieira tem dúvidas e só quer assinar depois de o treinador lhe trazer resultados concretos numa bandeja. E porque Jesus quer um contrato de média/longa duração e Vieira não. Com ambas as partes envolvidas num jogo subtil de cautelas e bluff, parece-me que quem mais arrisca é o presidente do Benfica: ou perde os títulos que já se prepara para festejar, ou vence o que quer e a seguir vai ter de negociar com um treinador com a faca, o queijo os adeptos na mão. A seguir, com toda a atenção.

quinta-feira, agosto 01, 2013

UM LEGADO DE TRANSPARÊNCIA E VERDADE (30 ABRIL 2013)

Caro Eduardo Barroso
Carta recebida, carta respondida.
Aqui vai, pois.

Primeiro de tudo,retribuo o que é sincero: a estima e admiração, a tal «amizade à distância» e as cordiais discordâncias desportivas ou desencontros de paixões antagónicas. E, a seguir, declaro que sei que partilharmos algumas outras paixões, essas não antagónicas: o amor pela Baía de Lagos e Ria de Alvor, na parte ainda a salvo dos piratas, pelo peixe grelhado, pelos livros e pela música, pelo futebol como arte irracional, por um puro fumado ao final da tarde, com os olhos magoados de sal e de azul, nesses dias de tréguas de Verão, sem vencedores nem vencidos, a que chamam «defeso», e onde nada é mais importante do que ver a felicidade a desaparecer devagar no horizonte em todos os finais de dia, sabendo que estará de volta na manha seguinte. Pensando nisso, nesse teu gosto pela beleza das coisas, tenho pena de ti, cujo clube joga no horrendo Estádio de Alvalade, enquanto que o meu joga no mais bonito estádio que conheço. (Toma isto como um indicador, mais um, da desgraça que se abateu sobre o teu clube nas últimas décadas, comparada com a glória que levou o nome do meu aos quatro cantos do mundo).

Sobre a minha última crónica aqui, tu dizes, e com razão, que o que mais me indignou no que fizeram ao teu Sporting na Luz foi o que disso sobrou para o meu FC Porto. Pois claro que sim! É que, desculpar-me-ás que te diga, quem se quis atingir não foi o Sporting (vegetando num 7ºlugar a 37 pontos do Benfica!), mas, obviamente o FC Porto, disputando com o Benfica um campeonato ponto a ponto. E, se dúvidas restassem, bastaria atentar nos comentários dos benfiquistas à capelada da Luz: o alvo deles não eram vocês, mas nós. Assim, enquanto que uns, assobiando para o ar, diziam coisas piedosas tais como «não há derby sem casos» ou «tirando as polémicas, o Sporting não leve nenhuma oportunidade de golo» (pudera, se o árbitro negou todas!), os outros, os institucionais, lá vieram com o Apito Dourado e o «Papa» e o passado - na versão deles e com o condão de desculpar todo o presente e qualquer futuro. Vocês, desculpa que te diga, foram apenas um peão na engrenagem, como a Académica e outros neste campeonato, colocados no caminho do «legado de transparência e verdade».

E agora que o novo presidente do teu clube me parece tão ansioso por encontrar uma fórmula de amizade e vassalagem com o campeão da verdade e transparência, deixa apenas que te recorde coisas de um passado recente de tal campeão:

- todos os clubes tem claques pouco recomendáveis, mas o único clube que tem claques condenadas em tribunal criminal, enquanto organização, é o SLB. O único cuja claque matou um adepto adversário em pleno estádio foi o SLB (numa final da Taça contra o Sporting). O único cuja claque atacou um autocarro de um clube adversário no seu estádio, deixando um jogador em coma, e nem um pedido de desculpas apresentou, foi o SLB (num Benfica-Porto em hóquei em patins, na Luz);

- o único clube cujo treinador insultou, com gestos de uma ordinarice inimaginável, os adeptos adversários em pleno pavilhão destes e nada lhe sucedeu, foi o SLB (no último jogo do campeonato de basquete do ano passado).

- o único clube que disputou a primeira Liga com um director de futebol que era simultaneamente presidente de outro clube da primeira Liga, foi o SLB, com José Veiga.

- o único clube que, em consequência do facto anterior, convenceu o adversário a transferir um jogo em sua casa para campo neutro e onde o jogo lhe era mais favorável, foi o SLB, num decisivo jogo contra o Estoril, transferido para o Algarve;

- o único clube que compra, ou anuncia o seu interesse em comprar, jogadores de um clube adversário nas vésperas de o ir defrontar, é o SLB (o último consumado foi o Jardel, do Olhanense, comprado na manhã do próprio jogo e logo impedido de o disputar);

- o único clube que tem um presidente na cadeia (e só depois de ter perdido a reeleição e se ter apurado que roubara o proprio clube) é o SLB;

- o único clube que montou toda uma operação engendrada ao pormenor e com cumplicidades no topo para retirar da competição o melhor jogador do adversário principal, foi o SLB (com o vergonhoso episódio do túnel da Luz, através do qual o Hulk foi afastado do campeonato num momento decisivo);

— o único clube cujo presidente foi apanhado nas célebres escutas do Apito Dourado a escolher literalmente um árbitro para um jogo junto do presidente da Liga, foi o SLB;

— o único clube cujo presidente ousou afirmar que era mais importante ter os homens certos nos lugares certos da estrutura da Liga do que ter uma boa equipe, foi o SLB;

- o único clube que, tendo ficado em terceiro lugar no campeonato, montou uma estrangeirinha para afastar o campeão (que lhe ganhara com mais de 20 pontos de avanço) e assim tentar conquistar um lugar de acesso à Champions, foi o SLB;

— o único clube que vos conquistou uma Taça da Liga através de uma arbitragem tão transparente e verdadeira que a Taça ficou para sempre conhecida pelo nome do árbitro, foi o SLB;

— o único clube que o Fisco e a Comissão de Acompanhamento das Dividas dos Clubes se esqueceram de controlar,permitindo que durante anos estivesse na ilegalidade e em condições de concorrência desleal, foi o SLB;

- o único clube cuja direcção, precisando de favores do governo, compareceu a um acto público de campanha eleitoral de um partido politico que as sondagens davam como vencedor (e veio a sé-lo), foi o SLB, na campanha de Durão Barroso.

Porque, meu caro Eduardo Barroso, há uma diferença abissal entre nós e eles, entre os portistas e os benfiquistas. Eles são incapazes de jamais reconhecerem mérito aos adversários, e nós sim (ainda há três semanas aqui o fiz). Eles não se importam de ganhar nem que seja por decreto-lei e nós importamo-nos. Eles têm a imprensa desportiva a cortejá-los, temê-los, branqueá-los, reverenciá-los, e nós não. Não encontrarás um portista que não reconheça que, de facto, o golo do Maicon na Luz, na época passada. foi em obtido em off-side, mas não encontraste um só benfiquista capaz de reconhecer, ao menos, um dos penalties que o Sr. Capela não viu. Assim como não viste um único a reconhecer que também o segundo golo do Benfica, no jogo da época passada contra o Porto, nasceu de um livre que não existiu, que talvez tenha havido um penalty por marcar contra o Benfica ou que, sobretudo, foi o Porto que fez por merecer ganhar o jogo. Eles são arrogantes e acham-se donos do futebol indígena, por direito divino, e nós não. Nós respeitámos e respeitamos o Benfica do Eusébio e as suas conquistas europeias da década de sessenta, mas eles vivem a repetir que tudo o que nos ganhámos, na Europa e no mundo, foi com batota - como ainda agora o voltou a dizer o seu presidente. Mas é por isso mesmo que o SLB é hoje dono de um estatuto, um triste estatuto, que eu devo confessar que também já foi nosso; o de ser o clube que, fora do universo dos seus adeptos, é o mais desprezado de todos.

Quanto a vocês, Eduardo, o que eu digo e repito há anos é isto: que, quando, acumulando uma dívida de 500 milhões de euros, se consegue ficar habitualmente a 20,30 ou mais pontos de distância do campeão, tentar explicar isso com as arbitragens é tapar o sol com uma peneira. Mais, até: em minha opinião, o constante choradinho do Sporting com os árbitros tem tido o efeito de auto-desresponsabilização, com os resultados à vista. Até porque certamente não irás ver nenhum correligionário a reconhecer, por exemplo, que acabam de ganhar dois pontos ao Nacional com um golo exactamente igual ao tal do Maicon na Luz ou que ganharam um ao Guimarães graças a um penalty evidente perdoado no último minuto, em Alvalade. Mas é evidente que vocês não beneficiam de arbitragens à Capela. Nem vocês nem nós. Porque o sistema tem um nome e é SLB.

quarta-feira, julho 31, 2013

AGORA JÁ NÃO É DE CATEDRAL, É DE CAPELA (23 ABRIL 2013)

1- Provavelmente, o Benfica ganharia sempre o jogo contra o Sporting. Provavelmente, mesmo que começasse a perder, daria sempre a volta ao jogo, como já fez uma dúzia de vezes esta época. Provavelmente, mesmo que não ganhasse o jogo, ganharia na mesma o campeonato, pois que está longe de ser garantido que o FC Porto o derrote no Dragão e a seguir vença em Paços de Ferreira. Mas a verdade é que nunca o saberemos, porque a vitória no derby - e, por arrasto, no campeonato - ficará para sempre ligada, não ao fabuloso segundo golo de Gaitán/Lima, mas ao indecoroso desempenho do Sr. João Capela. E, por isso, provavelmente, os adeptos sãos do Benfica estarão a lamentar que aquele que se portou como o 12º jogador dos encarnados (e o único português no onze inicial) lhes tenha roubado parte substancial do mérito de um triunfo final na Liga — que, como aqui escrevi há quinze dias, era, até agora, incontestavelmente justo. Era, mas, para mim, deixou de ser. O futebol tem injustiças destas: uma equipa pode passar uma época quase inteira a mostrar superioridade e mérito na liderança, mas se, chegada a um jogo decisivo, beneficia de uma arbitragem que claramente falseia o resultado, o mérito esvai-se todo aos olhos dos seus adversários.

Porque a verdade é que ninguém sabe o que teria sido o desfecho do jogo (e do campeonato) se, aos oito minutos, o Sr. Capela não tivesse feito já vista grossa a dois penalties cometidos na área do Benfica e uma cotovelada de Garay na cara de Wolfswinkel. Ou se, com o resultado em 1-0, não tivesse assobiado para o ar a uma agressão a pontapé de Maxi Pereira e depois ao seu segundo penalty impune — confirmando o extraordinário estatuto de excepção de que este uruguaio goza perante os árbitros portugueses. Talvez o quarto penalty invocado por Jesualdo Ferreira, já no final do jogo, tenha sido duvidoso, mas uma coisa é certa: das dez ou doze decisões controversas que o jogo teve, em todas elas, o Sr. Capela decidiu a favor do Benfica. E não apenas penalties e agressões: também faltas evidentes sobre jogadores do Sporting que ele desprezou, cantos a favor do Sporting transformados em pontapés de baliza e vice-versa, cartões por mostrar, etc. Dizia Pedro Henriques, na Sport TV que o árbitro estava com um «critério largo» mas imparcial e que os jogadores teriam que se habituar a ele. As duas afirmações estão erradas: o critério foi tudo menos imparcial e os jogadores só tem que se regular pelas dezassete leis do jogo e não pela particular interpretação que delas faz um qualquer árbitro. Se um jogador vai chutar à baliza, isolado e dentro da área, e, no momento do remate, é atingido no pé de apoio, não há critério largo que escamoteie um penalty por assinalar; se um jogador salta com um adversário a uma bola alta e, antes de a tentar cabecear, estica o cotovelo para atingir a cara do outro, não há critério largo que disfarce a agressão. O Sr. Capela não teve um critério largo: teve um critério à medida - só com uma direcção, uma cor e um sentido. E o seu critério escandalosamente unilateral falseou o jogo. Mas outra coisa eu não esperava quando, na véspera do jogo, vi Rui Gomes da Silva elogiar a equipa de arbitragem - logo ele, que acha que quase todos os árbitros são desonestos.

E daqui resultam dois problemas. Um é que uma época relativamente pacifica, em termos de arbitragem, foi decisivamente manchada, justamente num dos jogos em que o não podia ser. E outro, é que não sei como é que Bruno de Carvalho vai agora poder gerir a sua pouco sub-reptícia aproximação Benfica (cujo apoio para a discussão com os bancos parece bem conveniente). Depois de o sistema ter sido exposto perante todo o povo sportinguista e à sua custa, como poderá ele aprofundar esta janela de amizade sem cair em contradição?

2- Ao contrário de tantos outros, falta-me a paciência para estar a registar ou decorar os factos da arbitragem para memória futura. Os factos e os próprios nomes. O que me fica é o futebol e a sua beleza - como o segundo golo do Benfica, anteontem - e não os erros ou malfeitorias dos árbitros. Não fossem, por exemplo, as declarações de Pinto da Costa, e eu nem associaria João Capela à final da Taça da Liga, ocorrida apenas uma semana antes. E foi assim que constatei que, no espaço de oito dias, o mesmo árbitro tinha sido testemunha privilegiada da derrota do FC Porto na Taça da Liga e, provavelmente, no campeonato. Coincidência, acasos do destino. E, embora eu aqui tenha defendido a existência do penalty que ele assinalou e que resolveu a Taça da Liga a favor do Braga (opinião que não foi unânime e de que, por exemplo, discordou Cruz dos Santos), agora foi com espanto que constatei que o mesmo árbitro que, numa só jogada de dúvlda, se decidiu logo pelo penalty e expulsão de Abdoulaye, que resolveram o jogo de Coimbra, foi o mesmíssimo que esteve anteontem na Luz. E que, em três ou quatro penalties na área do Benfica, não viu razão para assinalar nenhum, e que, face a agressões cometidas por Garay, Maxi e Matic, não viu razão sequer para um amarelo. O mesmo árbitro do critério rigoroso em Coimbra aparece transfigurado em adepto de um critério largo, na Luz. Talvez, afinal, eu ande demasiadamente distraído e tenha também de começar a fazer registo das coincidências e descoincidências do futebol. Passo a registar, por exemplo, que João Capela tem, na opinião de Jorge Jesus, um grande futuro pela frente. Ou será antes um grande passado pela frente?

3- Tenho de confessar que tenho admiração por Jorge Jesus e não me importava nada de o ver como treinador do FC Porto. Reconheço que o homem percebe de futebol, sabe escolher e transformar para melhor jogadores que lhe são confiados, e aposta num futebol de ataque que, como eu gosto. Mas também lhe acho muita graça e delicio-me com o tom de catedrático nonchalant que ele gosta de afectar. Rio-me quando ele trata os jornalistas por tu e lhes explica, em tom paternal/professoral, coisas como «Importa é que sejas decisivo na zona de finalização» - e o pagode fica todo rendido. Sorri quando o ouvi na conferência de imprensa após o jogo, fazer o elogio da arbitragem e dizer que tinha ganho «limpinho». E rime a sério quando lhe perguntaram se aquele fabuloso golo construído por Gaitan e finalizado por Lima era resultado do génio individual ou do treino, e ele, começando por dizer que era resultado de ambas as coisas, acabou por, sem se desfazer, explicar que era tudo treinado; quando a jogada sai, os jogadores já estão treinados para saberem onde devem estar e como devem fazer. Ou seja: o Nico Gaitan recebe a bola à entrada da área, faz uma serpentina entre dois adversários, toca para o meio e desloca-se para o lado, recebe e cruza outra vez para o meio por entre três adversários, aparecendo o Lima a finalizar em vólei ao canto oposto. Uma obra de arte em quinze segundos vertiginosos e de uma precisão geométrica digna da NASA. E tudo, afinal, treinado?! A sorte que o Messi tem em não ser treinado pelo Jorge Jesus!

4- Longe das capelas e sacristias onde, afinal, ocorrem tantas coisas de espantar, um FC Porto regressado à normalidade desenvencilhou-se do Moreirense, numa vitória tão convincente como provavelmente inútil. A normalidade de que falo é jogar sem Defour e Varela, com Lucho de volta a uma boa exibição e Jackson de volta aos golos, mas também com Helton a garantir a vitória, antes e depois do golo inaugural. Uma coisa eu sei: não há uma só voz, com um mínimo de seriedade, que possa dizer que o FC Porto ganhou este ano um ponto que fosse graças à arbitragem. Nós não tivemos arbitragens como a do Sr. Capela nem jogos decididos ao minuto 96, com penalties inventados em desespero de causa. Mal ou bem (e mais mal que bem) fomos a jogo sozinhos.

terça-feira, julho 30, 2013

QUANDO NÃO SE QUER APRENDER, NÃO SE APRENDE MESMO (16 ABRIL 2013)

1- É verdade que tivemos o Del Neri, aquele surrealista italiano que pegou numa equipa que tinha acabado de ser campeã da Europa com um futebol assente na força e criatividade do meio-campo e resolveu inventar o futebol de sobrevoo: a bola era directamente batida pelos defesas ou pelo Baía em longos pontapés para o ataque sobrevoando um meio-campo reduzido à função de controlo aéreo. Bastaram três jogos de pré-época para que Pinto da Gosta percebesse o buraco em que se tinha metido, quando deixou que lhe impingissem o italiano, numa noite num hotel em Dusseldorf.

E tivemos também o louco do Co Adriaanse, que jogava com quatro e cinco avançados e não conseguia marcar golos. Também ele abandonou na segunda pre-época, depois de uma fúria cujos motivos nunca se perceberam bem, mas causaram um profundo suspiro de alívio entre as hostes portistas. E, como a pré-época é, decididamente, o pior período do futebol portista, tivemos ainda a pré-época em que Villas Boas se foi embora subitamente, a dias de começar o estágio com a equipa, dando origem à impensável promoção de Vítor Pereira - o adjunto do adjunto do mestre, como então o defini. E, com excepção de Del Neri, não vejo quem pior tenha ocupado o posto de treinador do FC Porto, desde que Octávio foi substituído por Mourinho.

O que mais caracteriza Vítor Pereira é não aprender com o que vê em campo, não aprender com os erros cometidos, não aprender com nada. A excepção de Mangala, que é daqueles jogadores destinados a evoluir fatalmente, não há um só jogador mais que, às ordens de Vítor Pereira, se tenha tomado melhor nestes últimos dois anos. Andou tudo para trás ou estagnou, a começar por ele próprio.

Em Málaga, no decisivo jogo da Champíons, Vítor Pereira reincidiu no erro que já cometera um ano antes, na mesma competição: deixou em campo, e depois de ter levado um cartão amarelo, um jogador nitidamente nervoso e sem sangue frio, até que ele cometesse nova asneira e fosse expulso. No ano passado, fora Fucile, este ano foi Defour. Depois de Málaga, o mínimo que se poderia esperar era que Vítor Pereira pusesse Defour de castigo uns largos tempos - até porque, além da banalidade do seu jogo, já mais do que provara que a sua utilização como suposto extremo-esquerdo era uma invenção sem pés nem cabeça, não apenas inútil, mas até prejudicial à equipa. Mas o que Vítor Pereira fez foi exactamente o contrário: deixou-o a titular e nas mesmas funções, à espera de um milagre em que só ele acreditava, ou talvez porque se sentia solidário com o outro elemento que, além dele próprio, enterrara o FC Porto em Málaga. No sábado passado, frente ao Braga, depois de 70 minutos a ver Defour na sua habitual inutilidade, Lucho a arrastar-se como vem fazendo há meses, e sem o seu querido Varela disponível, Vítor Pereira, na iminência do desastre, deitou mão a Atsu e Kelvin, e a sua simples entrada conseguiu resolver em 20 minutos o que antes parecera sem solução. Toda a gente viu o que sucedera e porquê. Toda a gente, menos o homem que é pago para ver antes e melhor do que todos: o treinador. Como aqui escrevi na semana passada depois do jogo, a prestação salvadora de Atsu e Kelvin iria ter, como prémio, o seu regresso ao banco, preteridos outra vez por Lucho e Defour - ou Varela, se estivesse apto.

E claro que foi isso mesmo que sucedeu, no jogo da final da Taça da Liga. Um 4x3x3 com um único verdadeiro avançado de raiz, Jackson Martinez, a desgastar-se sozinho, à espera de bolas que nunca lhe chegavam. Ah! Mas Vítor Pereira estava feliz, quando, por volta dos 45 minutos, aquele seu adjunto que anda sempre de auricular no ouvido (estará a escutar o relato e os comentários?) e de caderno de esquemas sempre em punho (estará a conferir a táctica com a practica?) lhe segredou ao ouvido; “Estamos bem, com 70 por cento de posse de bola”. Estavam sim; nem uma ocasião de golo, nem um único remate enquadrado com a baliza. Mas a equipa estava, como Vftor Pereira gosta de dizer e de a ver, «com os seus princípios e a sua identidade próprias». Até que...

Até que sucedeu aquilo que qualquer aprendiz de treinador teria previsto: a expulsão de Abdoulaye. Desde que aos 15 minutos, a sua entrada louca sobre Mossoró se saldou por um generoso amarelo, o treinador deveria ter entrado em estado de alerta: estaria um miúdo de 19 anos, a ferver em pouca água, capaz de se aguentar até final - ele que nem sequer é titular habitual e fora lançado sem aviso numa final? Manifestamente, não estava: bastava olhar para ele e para o jogo para o perceber: Márcio Mossoró (este sim, bem faríamos em ir buscar!) encostou-se à linha, de onde evoluía para o centro à procura da zona de intervenção de Abdoulaye e, no um contra um repetido várias vezes entre ambos, era fatal que o bracarense iria sacar, mais tarde ou mais cedo, segundo amarelo ao jovem e nervoso portista. E assim foi, sacou-lhe não apenas o segundo amarelo, mas também o penalty e o golo que, mais uma vez, roubou ao FC Porto esta amaldiçoada Taça da Liga.

Pela terceira vez, em outros tantos jogos decisivos. Vítor Pereira não foi capaz de perceber que lhe competia agir antes de ter de reagir e evitar a expulsão adivinhada de um jogador. E, pela terceira vez, pagou isso com a derrota. Mas, como nada aprende, preferiu queixar-se do árbitro e dizer que não fora penalty o que a todos pareceu penalty. É certo e sabido que voltará a cometer este erro e todos os outros que o caracterizam as vezes que forem precisas. Não sei o que há com os Vítores que tornam estes dias tão cinzentos e cuja teimosia militante parece alimentar-se dos desastres em que se metem e da incompetência que exibem. Mais do que nome próprio, Vítor Pereira e Vítor Gaspar tem em comum uma fatal incapacidade de acertarem nas previsões, anteciparem crises, aprenderem com os desastres resultantes das suas malfadadas teorias e, ao menos, terem a humildade de arrepiarem caminho. Enfim, resta-me, como consolação, o desabafo do meu filho portista: «Já só faltam cinco jogos para nos livrarmos deste pesadelo!».

Quanto ao Braga, verdade se diga que teve toda a sorte do jogo. Primeiro, encontrou pela frente Vítor Pereira; depois, chegou ao golo sem nada ter feito para tal; e, mesmo com um a mais, passou toda a segunda parte a defender com dez jogadores atrás da linha da bola, obviamente em posição facilitada para lançar contra ataques predadores, que lhe deram a ilusão de que podia ter vencido tranquilamente e não sofridamente. Todavia, não contesto a justiça da sua vitória, mas sim o mérito dela. Mas é sempre bonito ver um clube mais pequeno ganhar nem que seja uma Taça da Liga e, a avaliar, pela festa feita, a Taça fica bem em Braga.

2- Na «narrativa» heróica, de que os sócios tanto gostam, Bruno de Carvalho vergou os bancos à sua indómita vontade. Esses abutres dos bancos, que achavam que lá porque já emprestaram 300 milhões ao Sporting não tinham que emprestar mais 80, ficaram a saber que quem manda no clube são os sócios que elegeram Bruno de Carvalho. Ao contrário do que disse em tempos Manuela Ferreira Leite, ali quem manda não é quem paga, mas quem deve. Mas ouso desconfiar que os sócios ainda não perceberam o filme todo. Por mais simpatias clubistas que o Sporting recolha a nível da administração do BES, a verdade é que ela deve explicações aos seus accionistas e depositantes quanto à forma como gasta o seu dinheiro. E se tantas empresas viáveis estão a ser mortas pela tesouraria porque não conseguem crédito na banca, por que há-de o Sporting consegui-lo eternamente? Já quanto ao BCP a questão é ainda mais delicada, visto que parte do seu dinheiro é actualmente dos contribuintes, uma vez que teve de recorrer a dinheiro do Estado. Com certeza que, de uma forma ou de outra, mais cedo do que tarde, isto há-de reflectir-se na vida do Sporting.

terça-feira, junho 25, 2013

PASSADEIRA VERMELHA (09 ABRIL 2013)

1- Em termos ofensivos, há dois tipos de jogadores: os que desequilibram e os que engasgam. Os segundos não correm riscos, mas também não abrem defesas fechadas; os primeiros perdem várias bolas, mas resolvem jogos. É próprio dos treinadores fracos preferirem os segundos. Vítor Pereira é um desses treinadores: prefere um Varela, um Defour ou um Lucho a arrastar-se, pois eles dão-lhe aquele futebol mastigado, ruminante, (circulado, como gosta de dizer), que ele confunde com superioridade táctica. Ontem, contra o Braga, mais uma vez se repetiu a história: sem Varela ao dispor, voltou a insistir num quarteto a meio-campo, incluindo Lucho e Defour, e foi só na iminência do desastre que acabou por se decidir a meter Atsu e Kelvin. Ganhou, mas só então convenceu. E é certo e sabido que, na próxima oportunidade, regressam Varela ou Defour, ou ambos. E é por isso que eu acho que a época já está decidida e perdida.

Em Olhão, o Benfica ganhou quando quis, como quis e por quantos quis. Mais uma vez ficou à vista a tremenda diferença de capacidade entre Benfica e Porto, por um lado, e todos os restantes 14 clubes, por outro: mesmo em relvados sem dimensão e sem a qualidade mínima aceitável para jogos de uma primeira liga, mesmo gerindo o cansaço de jogar em várias frentes simultaneamente, enquanto os outros descansam uma semana inteira, o Benfica e o Porto (agora em menos frentes) passeiam-se a seu bel prazer neste campeonato — que, para acrescentar ainda mais à sua patética competitividade, se prepara para satisfazer os sonhos do actual presidente da Liga e dos que o apoiam e alargar-se para mais dois clubes e dois quintais.

Felizmente e graças à intervenção de um amigo, que cobriu a incapacidade do seu presidente, evitou-se o mal maior e chocante que teria sido a falta de comparência do Olhanense ao jogo com o Benfica. Os habituais adeptos da conspiração e que vêem a mão de Pinto da Costa em tudo o que contrarie os desígnios benfiquistas (até mesmo numa tempestade que se abate sobre Setúbal e faz adiar o jogo do FC Porto) não deixaram de ver aqui também a mão de Pinto da Costa: o amigo que pagou o dinheiro para que os jogadores do Olhanense fossem a jogo seria ele. E que fosse, pergunto eu? Onde está o grande escândalo? O escândalo, do meu ponto de vista, é que o Benfica estivesse à espera de ganhar em Olhão sem ter de jogar. Escândalo seria uma vitória de secretaria num momento decisivo do campeonato, perante a indiferença da Liga. Se o amigo era, de facto, ligado ao FC Porto, então a Liga bem pode agradecer-lhe ter evitado a barracada e os benfiquistas bem podem agradecer-lhe a possibilidade de terem ganho em campo e não na secretaria, o que é mais bonito e mais sério. Até porque, como se viu, o jogo era de risco nulo. E, agora, atenção benfiquistas, porque vou dizer uma coisa que, em circunstâncias inversas, vocês nunca viram nem verão dito por um benfiquista: eu acho que o campeonato já está entregue ao Benfica e, em minha opinião, com todo o mérito e toda a justiça. Claro que eu podia questionar aqueles dois jogos, quase consecutivos, no período recente em que Benfica e Porto seguiam par-a-par, e que terminaram ambos com a vitória encarnada por 1-0 resultante de penalties mais do que duvidosos - em especial, o penalty que deu a vitória contra a Académica, aos 96 minutos. Esses quatro pontos foram decisivos e evitaram que o Porto descolasse numa altura crucial do campeonato. Mas também foram decisivos os quatro pontos que o FC Porto desperdiçou em dois penalties falhados por Jackson Martinez — pelo que até se poderia dizer que o campeonato ficou decidido pela capacidade de converter penalties. Mas o penalty é, cada vez mais, um lance corrente dos jogos: treina-se e tem regras técnicas que, se bem executadas, o tornam quase sempre indefensável; e, no limite, cabe a um treinador perceber quem são os seus jogadores que têm competência técnica para tal. Quando um jogador falha um penalty por evidente falta de capacidade técnica, a seguir falha segundo de forma idêntica, e o treinador ainda insiste nele para falhar terceiro, a culpa já não é do jogador até porque há excelentes jogadores que não cobram penalties.

Mas seria de todo injusto resumir a razão do mais que provável título do Benfica a uma questão de penalties. Até porque, como todos constatam, vivemos esta época num anormal clima de paz em relação às arbitragens, no que diz respeito à disputa do título. Nem Benfica nem FC Porto andaram em cruzadas ao melhor estilo sportinguista contra os árbitros, nem os seus presidentes e dirigentes andaram a fomentar ódios e incêndios. Dirão que ambos estão de parabéns por isso, mas não é verdade: quem está de parabéns é o FC Porto e a sua gente. Porque, se fosse ao contrário, se se tivesse começado a perceber, aí por alturas da 20ª jornada, que era o FC Porto que marchava tranquilamente para o título, o clima seria diferente. Pois que, como disse, salvo erro, Artur Jorge, ano em que o Benfica vai à frente é ano em que, subitamente, a arbitragem vive num mar de rosas. Ou seja: o FC Porto sabe perder, o Benfica não.

E, porque isto é mesmo verdade, quero reafirmar que acho que o Benfica foi claramente a melhor equipa desta época: a mais versátil, a mais imaginativa, a mais ofensiva, a de futebol mais atraente e eficaz, simultaneamente. Jorge Jesus fez uma gestão perfeita dos jogadores ao seu dispor, conseguindo que eles entrassem e saíssem da equipa sem se notar as alterações no futebol exibido. Ao contrário de Vítor Pereira que, avesso a qualquer novidade ou risco, apostou de princípio a fim num núcleo duro, por mais desgastados ou desinspirados que alguns dos seus componentes estivessem, Jesus conseguiu, de facto, ter uma equipa formada por 20 jogadores — e, por isso, não só vai à frente, como está excelentemente colocado para conseguir o triplete que Villas Boas conseguiu há dois anos: campeonato, taça, Liga Europa. E isso é tanto mais notável quanto o Benfica não tem, em minha opinião, melhor equipa que o FC Porto — e viu-se isso no jogo da Luz, o único em que o Benfica abanou de alto a baixo entre-portas. Mas Jorge Jesus não apenas soube rodar muito melhor o espólio que tinha, soube adaptar muito melhor jogadores a novas posições e funções, como também, dando-se conta da imensa superioridade interna face aos outros 14 adversários, introduziu um estilo de jogo de cavalgada para a vitória, que contrasta, de forma gritante com o estilo de jogo adoptado por Vítor Pereira: posse, posse e mais posse, até que o golo apareça.

Diz-se que no futebol tudo pode acontecer — o que não é bem verdade. Mas pode acontecer que, contra toda a lógica e todas as minhas expectativas» o Benfica perca na Luz com o Sporting e no Dragão e que o FC Porto leve tudo de arrasto até final, recorrendo àquele quid de vitória e de coragem que hoje está adormecido, mas que eu sei que ainda lá mora. Pode ser que sim. Mas, não só não acho nada provável, como também não sei se acharia justo (o que para o caso, confesso, pouco me incomodaria, se a reviravolta fosse sem espinhas).