quarta-feira, julho 31, 2013

AGORA JÁ NÃO É DE CATEDRAL, É DE CAPELA (23 ABRIL 2013)

1- Provavelmente, o Benfica ganharia sempre o jogo contra o Sporting. Provavelmente, mesmo que começasse a perder, daria sempre a volta ao jogo, como já fez uma dúzia de vezes esta época. Provavelmente, mesmo que não ganhasse o jogo, ganharia na mesma o campeonato, pois que está longe de ser garantido que o FC Porto o derrote no Dragão e a seguir vença em Paços de Ferreira. Mas a verdade é que nunca o saberemos, porque a vitória no derby - e, por arrasto, no campeonato - ficará para sempre ligada, não ao fabuloso segundo golo de Gaitán/Lima, mas ao indecoroso desempenho do Sr. João Capela. E, por isso, provavelmente, os adeptos sãos do Benfica estarão a lamentar que aquele que se portou como o 12º jogador dos encarnados (e o único português no onze inicial) lhes tenha roubado parte substancial do mérito de um triunfo final na Liga — que, como aqui escrevi há quinze dias, era, até agora, incontestavelmente justo. Era, mas, para mim, deixou de ser. O futebol tem injustiças destas: uma equipa pode passar uma época quase inteira a mostrar superioridade e mérito na liderança, mas se, chegada a um jogo decisivo, beneficia de uma arbitragem que claramente falseia o resultado, o mérito esvai-se todo aos olhos dos seus adversários.

Porque a verdade é que ninguém sabe o que teria sido o desfecho do jogo (e do campeonato) se, aos oito minutos, o Sr. Capela não tivesse feito já vista grossa a dois penalties cometidos na área do Benfica e uma cotovelada de Garay na cara de Wolfswinkel. Ou se, com o resultado em 1-0, não tivesse assobiado para o ar a uma agressão a pontapé de Maxi Pereira e depois ao seu segundo penalty impune — confirmando o extraordinário estatuto de excepção de que este uruguaio goza perante os árbitros portugueses. Talvez o quarto penalty invocado por Jesualdo Ferreira, já no final do jogo, tenha sido duvidoso, mas uma coisa é certa: das dez ou doze decisões controversas que o jogo teve, em todas elas, o Sr. Capela decidiu a favor do Benfica. E não apenas penalties e agressões: também faltas evidentes sobre jogadores do Sporting que ele desprezou, cantos a favor do Sporting transformados em pontapés de baliza e vice-versa, cartões por mostrar, etc. Dizia Pedro Henriques, na Sport TV que o árbitro estava com um «critério largo» mas imparcial e que os jogadores teriam que se habituar a ele. As duas afirmações estão erradas: o critério foi tudo menos imparcial e os jogadores só tem que se regular pelas dezassete leis do jogo e não pela particular interpretação que delas faz um qualquer árbitro. Se um jogador vai chutar à baliza, isolado e dentro da área, e, no momento do remate, é atingido no pé de apoio, não há critério largo que escamoteie um penalty por assinalar; se um jogador salta com um adversário a uma bola alta e, antes de a tentar cabecear, estica o cotovelo para atingir a cara do outro, não há critério largo que disfarce a agressão. O Sr. Capela não teve um critério largo: teve um critério à medida - só com uma direcção, uma cor e um sentido. E o seu critério escandalosamente unilateral falseou o jogo. Mas outra coisa eu não esperava quando, na véspera do jogo, vi Rui Gomes da Silva elogiar a equipa de arbitragem - logo ele, que acha que quase todos os árbitros são desonestos.

E daqui resultam dois problemas. Um é que uma época relativamente pacifica, em termos de arbitragem, foi decisivamente manchada, justamente num dos jogos em que o não podia ser. E outro, é que não sei como é que Bruno de Carvalho vai agora poder gerir a sua pouco sub-reptícia aproximação Benfica (cujo apoio para a discussão com os bancos parece bem conveniente). Depois de o sistema ter sido exposto perante todo o povo sportinguista e à sua custa, como poderá ele aprofundar esta janela de amizade sem cair em contradição?

2- Ao contrário de tantos outros, falta-me a paciência para estar a registar ou decorar os factos da arbitragem para memória futura. Os factos e os próprios nomes. O que me fica é o futebol e a sua beleza - como o segundo golo do Benfica, anteontem - e não os erros ou malfeitorias dos árbitros. Não fossem, por exemplo, as declarações de Pinto da Costa, e eu nem associaria João Capela à final da Taça da Liga, ocorrida apenas uma semana antes. E foi assim que constatei que, no espaço de oito dias, o mesmo árbitro tinha sido testemunha privilegiada da derrota do FC Porto na Taça da Liga e, provavelmente, no campeonato. Coincidência, acasos do destino. E, embora eu aqui tenha defendido a existência do penalty que ele assinalou e que resolveu a Taça da Liga a favor do Braga (opinião que não foi unânime e de que, por exemplo, discordou Cruz dos Santos), agora foi com espanto que constatei que o mesmo árbitro que, numa só jogada de dúvlda, se decidiu logo pelo penalty e expulsão de Abdoulaye, que resolveram o jogo de Coimbra, foi o mesmíssimo que esteve anteontem na Luz. E que, em três ou quatro penalties na área do Benfica, não viu razão para assinalar nenhum, e que, face a agressões cometidas por Garay, Maxi e Matic, não viu razão sequer para um amarelo. O mesmo árbitro do critério rigoroso em Coimbra aparece transfigurado em adepto de um critério largo, na Luz. Talvez, afinal, eu ande demasiadamente distraído e tenha também de começar a fazer registo das coincidências e descoincidências do futebol. Passo a registar, por exemplo, que João Capela tem, na opinião de Jorge Jesus, um grande futuro pela frente. Ou será antes um grande passado pela frente?

3- Tenho de confessar que tenho admiração por Jorge Jesus e não me importava nada de o ver como treinador do FC Porto. Reconheço que o homem percebe de futebol, sabe escolher e transformar para melhor jogadores que lhe são confiados, e aposta num futebol de ataque que, como eu gosto. Mas também lhe acho muita graça e delicio-me com o tom de catedrático nonchalant que ele gosta de afectar. Rio-me quando ele trata os jornalistas por tu e lhes explica, em tom paternal/professoral, coisas como «Importa é que sejas decisivo na zona de finalização» - e o pagode fica todo rendido. Sorri quando o ouvi na conferência de imprensa após o jogo, fazer o elogio da arbitragem e dizer que tinha ganho «limpinho». E rime a sério quando lhe perguntaram se aquele fabuloso golo construído por Gaitan e finalizado por Lima era resultado do génio individual ou do treino, e ele, começando por dizer que era resultado de ambas as coisas, acabou por, sem se desfazer, explicar que era tudo treinado; quando a jogada sai, os jogadores já estão treinados para saberem onde devem estar e como devem fazer. Ou seja: o Nico Gaitan recebe a bola à entrada da área, faz uma serpentina entre dois adversários, toca para o meio e desloca-se para o lado, recebe e cruza outra vez para o meio por entre três adversários, aparecendo o Lima a finalizar em vólei ao canto oposto. Uma obra de arte em quinze segundos vertiginosos e de uma precisão geométrica digna da NASA. E tudo, afinal, treinado?! A sorte que o Messi tem em não ser treinado pelo Jorge Jesus!

4- Longe das capelas e sacristias onde, afinal, ocorrem tantas coisas de espantar, um FC Porto regressado à normalidade desenvencilhou-se do Moreirense, numa vitória tão convincente como provavelmente inútil. A normalidade de que falo é jogar sem Defour e Varela, com Lucho de volta a uma boa exibição e Jackson de volta aos golos, mas também com Helton a garantir a vitória, antes e depois do golo inaugural. Uma coisa eu sei: não há uma só voz, com um mínimo de seriedade, que possa dizer que o FC Porto ganhou este ano um ponto que fosse graças à arbitragem. Nós não tivemos arbitragens como a do Sr. Capela nem jogos decididos ao minuto 96, com penalties inventados em desespero de causa. Mal ou bem (e mais mal que bem) fomos a jogo sozinhos.

terça-feira, julho 30, 2013

QUANDO NÃO SE QUER APRENDER, NÃO SE APRENDE MESMO (16 ABRIL 2013)

1- É verdade que tivemos o Del Neri, aquele surrealista italiano que pegou numa equipa que tinha acabado de ser campeã da Europa com um futebol assente na força e criatividade do meio-campo e resolveu inventar o futebol de sobrevoo: a bola era directamente batida pelos defesas ou pelo Baía em longos pontapés para o ataque sobrevoando um meio-campo reduzido à função de controlo aéreo. Bastaram três jogos de pré-época para que Pinto da Gosta percebesse o buraco em que se tinha metido, quando deixou que lhe impingissem o italiano, numa noite num hotel em Dusseldorf.

E tivemos também o louco do Co Adriaanse, que jogava com quatro e cinco avançados e não conseguia marcar golos. Também ele abandonou na segunda pre-época, depois de uma fúria cujos motivos nunca se perceberam bem, mas causaram um profundo suspiro de alívio entre as hostes portistas. E, como a pré-época é, decididamente, o pior período do futebol portista, tivemos ainda a pré-época em que Villas Boas se foi embora subitamente, a dias de começar o estágio com a equipa, dando origem à impensável promoção de Vítor Pereira - o adjunto do adjunto do mestre, como então o defini. E, com excepção de Del Neri, não vejo quem pior tenha ocupado o posto de treinador do FC Porto, desde que Octávio foi substituído por Mourinho.

O que mais caracteriza Vítor Pereira é não aprender com o que vê em campo, não aprender com os erros cometidos, não aprender com nada. A excepção de Mangala, que é daqueles jogadores destinados a evoluir fatalmente, não há um só jogador mais que, às ordens de Vítor Pereira, se tenha tomado melhor nestes últimos dois anos. Andou tudo para trás ou estagnou, a começar por ele próprio.

Em Málaga, no decisivo jogo da Champíons, Vítor Pereira reincidiu no erro que já cometera um ano antes, na mesma competição: deixou em campo, e depois de ter levado um cartão amarelo, um jogador nitidamente nervoso e sem sangue frio, até que ele cometesse nova asneira e fosse expulso. No ano passado, fora Fucile, este ano foi Defour. Depois de Málaga, o mínimo que se poderia esperar era que Vítor Pereira pusesse Defour de castigo uns largos tempos - até porque, além da banalidade do seu jogo, já mais do que provara que a sua utilização como suposto extremo-esquerdo era uma invenção sem pés nem cabeça, não apenas inútil, mas até prejudicial à equipa. Mas o que Vítor Pereira fez foi exactamente o contrário: deixou-o a titular e nas mesmas funções, à espera de um milagre em que só ele acreditava, ou talvez porque se sentia solidário com o outro elemento que, além dele próprio, enterrara o FC Porto em Málaga. No sábado passado, frente ao Braga, depois de 70 minutos a ver Defour na sua habitual inutilidade, Lucho a arrastar-se como vem fazendo há meses, e sem o seu querido Varela disponível, Vítor Pereira, na iminência do desastre, deitou mão a Atsu e Kelvin, e a sua simples entrada conseguiu resolver em 20 minutos o que antes parecera sem solução. Toda a gente viu o que sucedera e porquê. Toda a gente, menos o homem que é pago para ver antes e melhor do que todos: o treinador. Como aqui escrevi na semana passada depois do jogo, a prestação salvadora de Atsu e Kelvin iria ter, como prémio, o seu regresso ao banco, preteridos outra vez por Lucho e Defour - ou Varela, se estivesse apto.

E claro que foi isso mesmo que sucedeu, no jogo da final da Taça da Liga. Um 4x3x3 com um único verdadeiro avançado de raiz, Jackson Martinez, a desgastar-se sozinho, à espera de bolas que nunca lhe chegavam. Ah! Mas Vítor Pereira estava feliz, quando, por volta dos 45 minutos, aquele seu adjunto que anda sempre de auricular no ouvido (estará a escutar o relato e os comentários?) e de caderno de esquemas sempre em punho (estará a conferir a táctica com a practica?) lhe segredou ao ouvido; “Estamos bem, com 70 por cento de posse de bola”. Estavam sim; nem uma ocasião de golo, nem um único remate enquadrado com a baliza. Mas a equipa estava, como Vftor Pereira gosta de dizer e de a ver, «com os seus princípios e a sua identidade próprias». Até que...

Até que sucedeu aquilo que qualquer aprendiz de treinador teria previsto: a expulsão de Abdoulaye. Desde que aos 15 minutos, a sua entrada louca sobre Mossoró se saldou por um generoso amarelo, o treinador deveria ter entrado em estado de alerta: estaria um miúdo de 19 anos, a ferver em pouca água, capaz de se aguentar até final - ele que nem sequer é titular habitual e fora lançado sem aviso numa final? Manifestamente, não estava: bastava olhar para ele e para o jogo para o perceber: Márcio Mossoró (este sim, bem faríamos em ir buscar!) encostou-se à linha, de onde evoluía para o centro à procura da zona de intervenção de Abdoulaye e, no um contra um repetido várias vezes entre ambos, era fatal que o bracarense iria sacar, mais tarde ou mais cedo, segundo amarelo ao jovem e nervoso portista. E assim foi, sacou-lhe não apenas o segundo amarelo, mas também o penalty e o golo que, mais uma vez, roubou ao FC Porto esta amaldiçoada Taça da Liga.

Pela terceira vez, em outros tantos jogos decisivos. Vítor Pereira não foi capaz de perceber que lhe competia agir antes de ter de reagir e evitar a expulsão adivinhada de um jogador. E, pela terceira vez, pagou isso com a derrota. Mas, como nada aprende, preferiu queixar-se do árbitro e dizer que não fora penalty o que a todos pareceu penalty. É certo e sabido que voltará a cometer este erro e todos os outros que o caracterizam as vezes que forem precisas. Não sei o que há com os Vítores que tornam estes dias tão cinzentos e cuja teimosia militante parece alimentar-se dos desastres em que se metem e da incompetência que exibem. Mais do que nome próprio, Vítor Pereira e Vítor Gaspar tem em comum uma fatal incapacidade de acertarem nas previsões, anteciparem crises, aprenderem com os desastres resultantes das suas malfadadas teorias e, ao menos, terem a humildade de arrepiarem caminho. Enfim, resta-me, como consolação, o desabafo do meu filho portista: «Já só faltam cinco jogos para nos livrarmos deste pesadelo!».

Quanto ao Braga, verdade se diga que teve toda a sorte do jogo. Primeiro, encontrou pela frente Vítor Pereira; depois, chegou ao golo sem nada ter feito para tal; e, mesmo com um a mais, passou toda a segunda parte a defender com dez jogadores atrás da linha da bola, obviamente em posição facilitada para lançar contra ataques predadores, que lhe deram a ilusão de que podia ter vencido tranquilamente e não sofridamente. Todavia, não contesto a justiça da sua vitória, mas sim o mérito dela. Mas é sempre bonito ver um clube mais pequeno ganhar nem que seja uma Taça da Liga e, a avaliar, pela festa feita, a Taça fica bem em Braga.

2- Na «narrativa» heróica, de que os sócios tanto gostam, Bruno de Carvalho vergou os bancos à sua indómita vontade. Esses abutres dos bancos, que achavam que lá porque já emprestaram 300 milhões ao Sporting não tinham que emprestar mais 80, ficaram a saber que quem manda no clube são os sócios que elegeram Bruno de Carvalho. Ao contrário do que disse em tempos Manuela Ferreira Leite, ali quem manda não é quem paga, mas quem deve. Mas ouso desconfiar que os sócios ainda não perceberam o filme todo. Por mais simpatias clubistas que o Sporting recolha a nível da administração do BES, a verdade é que ela deve explicações aos seus accionistas e depositantes quanto à forma como gasta o seu dinheiro. E se tantas empresas viáveis estão a ser mortas pela tesouraria porque não conseguem crédito na banca, por que há-de o Sporting consegui-lo eternamente? Já quanto ao BCP a questão é ainda mais delicada, visto que parte do seu dinheiro é actualmente dos contribuintes, uma vez que teve de recorrer a dinheiro do Estado. Com certeza que, de uma forma ou de outra, mais cedo do que tarde, isto há-de reflectir-se na vida do Sporting.

terça-feira, junho 25, 2013

PASSADEIRA VERMELHA (09 ABRIL 2013)

1- Em termos ofensivos, há dois tipos de jogadores: os que desequilibram e os que engasgam. Os segundos não correm riscos, mas também não abrem defesas fechadas; os primeiros perdem várias bolas, mas resolvem jogos. É próprio dos treinadores fracos preferirem os segundos. Vítor Pereira é um desses treinadores: prefere um Varela, um Defour ou um Lucho a arrastar-se, pois eles dão-lhe aquele futebol mastigado, ruminante, (circulado, como gosta de dizer), que ele confunde com superioridade táctica. Ontem, contra o Braga, mais uma vez se repetiu a história: sem Varela ao dispor, voltou a insistir num quarteto a meio-campo, incluindo Lucho e Defour, e foi só na iminência do desastre que acabou por se decidir a meter Atsu e Kelvin. Ganhou, mas só então convenceu. E é certo e sabido que, na próxima oportunidade, regressam Varela ou Defour, ou ambos. E é por isso que eu acho que a época já está decidida e perdida.

Em Olhão, o Benfica ganhou quando quis, como quis e por quantos quis. Mais uma vez ficou à vista a tremenda diferença de capacidade entre Benfica e Porto, por um lado, e todos os restantes 14 clubes, por outro: mesmo em relvados sem dimensão e sem a qualidade mínima aceitável para jogos de uma primeira liga, mesmo gerindo o cansaço de jogar em várias frentes simultaneamente, enquanto os outros descansam uma semana inteira, o Benfica e o Porto (agora em menos frentes) passeiam-se a seu bel prazer neste campeonato — que, para acrescentar ainda mais à sua patética competitividade, se prepara para satisfazer os sonhos do actual presidente da Liga e dos que o apoiam e alargar-se para mais dois clubes e dois quintais.

Felizmente e graças à intervenção de um amigo, que cobriu a incapacidade do seu presidente, evitou-se o mal maior e chocante que teria sido a falta de comparência do Olhanense ao jogo com o Benfica. Os habituais adeptos da conspiração e que vêem a mão de Pinto da Costa em tudo o que contrarie os desígnios benfiquistas (até mesmo numa tempestade que se abate sobre Setúbal e faz adiar o jogo do FC Porto) não deixaram de ver aqui também a mão de Pinto da Costa: o amigo que pagou o dinheiro para que os jogadores do Olhanense fossem a jogo seria ele. E que fosse, pergunto eu? Onde está o grande escândalo? O escândalo, do meu ponto de vista, é que o Benfica estivesse à espera de ganhar em Olhão sem ter de jogar. Escândalo seria uma vitória de secretaria num momento decisivo do campeonato, perante a indiferença da Liga. Se o amigo era, de facto, ligado ao FC Porto, então a Liga bem pode agradecer-lhe ter evitado a barracada e os benfiquistas bem podem agradecer-lhe a possibilidade de terem ganho em campo e não na secretaria, o que é mais bonito e mais sério. Até porque, como se viu, o jogo era de risco nulo. E, agora, atenção benfiquistas, porque vou dizer uma coisa que, em circunstâncias inversas, vocês nunca viram nem verão dito por um benfiquista: eu acho que o campeonato já está entregue ao Benfica e, em minha opinião, com todo o mérito e toda a justiça. Claro que eu podia questionar aqueles dois jogos, quase consecutivos, no período recente em que Benfica e Porto seguiam par-a-par, e que terminaram ambos com a vitória encarnada por 1-0 resultante de penalties mais do que duvidosos - em especial, o penalty que deu a vitória contra a Académica, aos 96 minutos. Esses quatro pontos foram decisivos e evitaram que o Porto descolasse numa altura crucial do campeonato. Mas também foram decisivos os quatro pontos que o FC Porto desperdiçou em dois penalties falhados por Jackson Martinez — pelo que até se poderia dizer que o campeonato ficou decidido pela capacidade de converter penalties. Mas o penalty é, cada vez mais, um lance corrente dos jogos: treina-se e tem regras técnicas que, se bem executadas, o tornam quase sempre indefensável; e, no limite, cabe a um treinador perceber quem são os seus jogadores que têm competência técnica para tal. Quando um jogador falha um penalty por evidente falta de capacidade técnica, a seguir falha segundo de forma idêntica, e o treinador ainda insiste nele para falhar terceiro, a culpa já não é do jogador até porque há excelentes jogadores que não cobram penalties.

Mas seria de todo injusto resumir a razão do mais que provável título do Benfica a uma questão de penalties. Até porque, como todos constatam, vivemos esta época num anormal clima de paz em relação às arbitragens, no que diz respeito à disputa do título. Nem Benfica nem FC Porto andaram em cruzadas ao melhor estilo sportinguista contra os árbitros, nem os seus presidentes e dirigentes andaram a fomentar ódios e incêndios. Dirão que ambos estão de parabéns por isso, mas não é verdade: quem está de parabéns é o FC Porto e a sua gente. Porque, se fosse ao contrário, se se tivesse começado a perceber, aí por alturas da 20ª jornada, que era o FC Porto que marchava tranquilamente para o título, o clima seria diferente. Pois que, como disse, salvo erro, Artur Jorge, ano em que o Benfica vai à frente é ano em que, subitamente, a arbitragem vive num mar de rosas. Ou seja: o FC Porto sabe perder, o Benfica não.

E, porque isto é mesmo verdade, quero reafirmar que acho que o Benfica foi claramente a melhor equipa desta época: a mais versátil, a mais imaginativa, a mais ofensiva, a de futebol mais atraente e eficaz, simultaneamente. Jorge Jesus fez uma gestão perfeita dos jogadores ao seu dispor, conseguindo que eles entrassem e saíssem da equipa sem se notar as alterações no futebol exibido. Ao contrário de Vítor Pereira que, avesso a qualquer novidade ou risco, apostou de princípio a fim num núcleo duro, por mais desgastados ou desinspirados que alguns dos seus componentes estivessem, Jesus conseguiu, de facto, ter uma equipa formada por 20 jogadores — e, por isso, não só vai à frente, como está excelentemente colocado para conseguir o triplete que Villas Boas conseguiu há dois anos: campeonato, taça, Liga Europa. E isso é tanto mais notável quanto o Benfica não tem, em minha opinião, melhor equipa que o FC Porto — e viu-se isso no jogo da Luz, o único em que o Benfica abanou de alto a baixo entre-portas. Mas Jorge Jesus não apenas soube rodar muito melhor o espólio que tinha, soube adaptar muito melhor jogadores a novas posições e funções, como também, dando-se conta da imensa superioridade interna face aos outros 14 adversários, introduziu um estilo de jogo de cavalgada para a vitória, que contrasta, de forma gritante com o estilo de jogo adoptado por Vítor Pereira: posse, posse e mais posse, até que o golo apareça.

Diz-se que no futebol tudo pode acontecer — o que não é bem verdade. Mas pode acontecer que, contra toda a lógica e todas as minhas expectativas» o Benfica perca na Luz com o Sporting e no Dragão e que o FC Porto leve tudo de arrasto até final, recorrendo àquele quid de vitória e de coragem que hoje está adormecido, mas que eu sei que ainda lá mora. Pode ser que sim. Mas, não só não acho nada provável, como também não sei se acharia justo (o que para o caso, confesso, pouco me incomodaria, se a reviravolta fosse sem espinhas).

DE OLHO NO OLHANENSE (02 ABRIL 2013)

1- Confesso a minha ignorância: até ele ter aparecido como candidato vencedor à presidência da Liga de Clubes, nunca tinha ouvido falar de Mário Figueiredo. Desconhecia, e continuo a desconhecer, que passado, que qualificações e que competências tinha ele acumulado no futebol para aspirar a representar os interesses dos clubes profissionais. Mas a sua entrada de chico esperto não dava muito que enganar. O senhor nao tinha, que eu tivesse reparado, projecto ou ideia alguma que não a de conquistar aquele pequeno grande poder para si mesmo. E fê-lo, claro, da pior maneira disponível: com a promessa de proceder a um alargamento da primeira Liga e a lançar uma batalha contra a Olivedesportos (uma guerra sempre muito popular) para obter uma redistribuição dos direitos televisivos, em favor dos pobres clubes pequenos. Sabendo que na Liga cada clube vale um voto e a maioria está sempre carente de promessas e oportunidades que os façam sonhar alto e dispensar penosas subidas até ao topo, a eleição tornou-se-lhe fácil. Felizmente, a tentativa de alargamento da primeira Liga foi sumariamente chumbada pela Federação — coisa que não incomodou por aí além o novo presidente da Liga, assegurado que estava o seu verdadeiro objectivo, que era o de se fazer eleger.

Mas o episódio marcou o início de uma relação necessariamente conflituosa entre a Liga e a Federação e que, nos últimos dias, tem proporcionado ao sr. Mário Figueiredo várias oportunidades de bem demonstrar a sua vacuidade e uma arrogância que não se funda em qualquer competência reconhecida como tal. E, enquanto ele se distrai em episódios de um conflito que não diz nada a quem se interessa por futebol, a seus olhos desenrola-se um verdadeiro episódio de gravidade potencialmente extrema e que não lhe mereceu ainda uma palavra que fosse. Refiro-me à situação do Olhanense, um entre tantos outros pequenos clubes que, por mais respeito que se lhes tenha, apenas confirmam que a primeira Liga não devia ser para qualquer um e que as teses do alargamento são propostas incendiárias de quem se está nas tintas para a qualidade dos espectáculo e a seriedade da competição. Se o Olhanense, como alguns outros, está há quatro ou cinco meses sem pagar salários aos seus jogadores, isso significa simplesmente que não tinha e nunca teve condições para se sustentar numa liga profissional, muito menos a primeira. E significa também que quem tinha a responsabilidade de o certificar, que era a Liga de Clubes, fez vista grossa aos sinais que lá estavam — provavelmente, porque o Olhanense foi um dos eleitores do sr. Mário Figueiredo. Ou, dito de forma simples: é uma vergonha para a Liga que haja clubes na situação do Olhanense. E o que menos releva é a desculpa do seu presidente de que se arruinou nas obras do Estádio José Arcanjo pois que, apesar de ter a quinze quilómetros de distância, um dos magníficos estádios do Euro-2004 às moscas e à disposição, preferiu antes gastar dinheiro num estádio velho e bem pior, mesmo à custa dos salários dos seus profissionais. Para quem, como a Liga, tem a responsabilidade de assegurar que os clubes têm condições de sustentabilidade, que não exploram os seus atletas e garantem a seriedade da competição, as desculpas dos clubes são irrelevantes. O que é relevante é que jogadores que passam fome estão obviamente à mercê de tentativas obscuras daquilo que sabemos. O que é relevante é saber que, se os jogadores forem para diante com a anunciada greve ao jogo com o Benfica, o campeonato fica irremediavelmente inquinado. E que, se houver jogo e, por conveniência financeira, ele for afinal disputado no Estádio do Algarve, e não no José Arcanjo, o Benfica sai objectivamente beneficiado.

Neste panorama, o silêncio do homem que se fez eleger prometendo o paraíso ao maior número possível de clubes como o Olhanense, é todo um programa.

2- Parece que Luís Ferreira teve uma arbitragem, vamos chamar-lhe desequilibrada, no Sporting-Benfica de equipas B. Acontece. Talvez não mereça desculpa, mas está desculpado pela oportunidade que proporcionou ao novo presidente do Sporting para, como se diz, se posicionar perante a sua massa associativa. Quando afirma que é preciso correr com os « pássaros» do futebol português, ele está a falar para dentro e a vestir desde já a farda do Quixote travestido de Calimero, cujo uso é absolutamente obrigatório a quem quer ser alguém no Sporting. À noite, na SIC, vi também de passagem o sportinguista Rui Santos dissertar sobre uma espécie de Tordesilhas que teria sido estabelecido entre Porto e Benfica para controlarem a arbitragem (curiosamente, depois de um Académica-Porto em que assisti a uma coisa única: a primeira falta, completamente banal, de um portista, aconteceu aos 32 minutos e deu logo direito a uma amarelo; e a terceira falta, que aconteceu só aos 70 minutos de jogo e igualmente banal, deu direito a segundo amarelo e impedimento do seu autor para o próximo jogo, como Braga).

Está, pois, estabelecido o padrão para o mandato de Bruno de Carvalho e o mínimo que se pode dizer é que ele não promete nada de novo em relação ao habitual e tradicional. De cada vez que o Sporting for prejudicado por uma arbitragem, lá desenterrarão os fantasmas da perseguição, que não os deixam chegar às vitórias que o seu brilhante desempenho desportivo e de gestão manifestamente justificariam. De cada vez, porém, que o Sporting for beneficiado, como já sucedeu várias vezes esta época - como contra Braga e Guimarães, em Al- valade — cairá sobre o assunto o silêncio dos justos. Renovação sim, mas sem abdicar das tradições do clube.

3- Já disse, na entrevista a A BOLA TV, o que pensava sobre as postas de pescada debitadas por Paulo Bento em relação a Pinto da Costa. Apenas queria reafirmar que, por pior que seja o português em que o selecionador se exprima, a ideia é clara e não é original: face aos resultados mais do que medíocres, às exibições inaceitáveis, ao perigo real de falhar a qualificação para o Brasil e ao número crescente daqueles que perguntam o que anda o seleccionador a fazer, Paulo Bento ensaia a escapatória de comprar uma guerra com o FC Porto para ver se distrai as atenções e reganha popularidade fácil. Scolari fez o mesmo quando aqui chegou e desatou a perder todos os jogos de preparação para o Euro. Mas no fim só se safou graças aos jogadores do FC Porto.

4- Por razões de trabalho, não poderei ver e tenho de escrever antes do Braga-Sporting. É um jogo determinante para o Braga, que a seguir irá ao Dragão e que tem o persistente Paços de Ferreira sempre em cima. Desperdiçar a oportunidade de ir à Champions num ano em que só teve a concorrência do Paços para o terceiro lugar, será um desenlace desastroso num percurso sempre em ascensão. Talvez a esta hora, e ainda mais depois da lesão de Eder, António Salvador esteja arrependido de ter deixado sair Lima para o Benfica a preço de feijões e já depois de ter deixado sair Artur a custo zero. O Benfica, por seu lado, bem que tem razões para lhe estar eternamente agradecido.

quinta-feira, junho 13, 2013

E HOJE, TAMBÉM NÃO É DECISIVO? (26 MARÇO 2013)

1- Quando teve os seus navios alinhados em coluna pronta a executar a sua célebre manobra de ataque em V, frente à Armada espanhola, no Cabo Trafalgar, Lord Nelson transmitiu a todos os navios a sua última ordem: «A Inglaterra espera de cada um que cumpra o seu dever». A bordo dos navios, Nelson tinha um equipagem de marinheiros e fuzileiros de assalto altamente treinados, mas que viviam em condições de uma dureza difícil de acreditar para os dias de hoje, mal alimentados, mal pagos (quando o eram), meses sem ir a casa (os que não morriam), e sofrendo horrores quando feridos e tratados a bordo, num tempo em que não havia anestesias nem antibíóticos e o tratamento mais comum para os ferimentos eram a amputação e as ligaduras. Mas todos sabiam que, se vencessem a Invencível Armada em Trafalgar, como venceram, as Ilhas Britânicas estariam mais uma vez a salvo de um inimigo vindo do mar.

Em, Telavive, frente a um adversário infinitamente mais fraco que a Selecção portuguesa, num jogo que era imperioso ganhar e com uma equipa composta por meninos de ouro, pagos milionariamente e com prémios de presença, de vitória e de qualificação à sua espera, viajando em classe executiva de voos fretados, dispensados de todas as demoras e diligências nos aeroportos e instalando-se em hotéis de luxo rodeados de mordomias, o que lhes disse o seleccionador Paulo Bento? Disse-lhes que o jogo não era decisivo e que estavam desde já dispensados de pensarem no primeiro lugar do grupo, que dá apuramento directo para o Brasil, pois isso causaria um desgaste desnecessário nos seus espíritos tão ocupados com coisas bem mais importantes como o sejam decidir o desenho da próxima tatuagem ou a escolha do último modelo de penteado inspirado no ca- tálogo de arbustos das florestas do Bornéu. Na opinião avisada do seleccionador, a 6º selecção do ranking da FIFA não tinha, de forma alguma, estrita obrigação de regressar com uma vitória frente à 74ª selecção do mesmo ranking. Dito e feito: recebida a mensagem e com um golo caído do céu aos 80 segundos, os meninos de ouro dedicaram-se a passear a sua classe em campo. Em breve estavam a perder por 3-1 e só um milagre imerecido lhes permitiu, no último sopro do jogo, escapar a uma derrota enxovalhante.

A Selecção Nacional de Paulo Bento está transformada na Decepção Nacional. Tal como escreveu o Rui Moreira, não joga nada e, pior ainda, não se percebe o que faz Paulo Bento em troca de beneficiar de um dos mais fantásticos lugares que o país tem para dar, na relação trabalho/remuneração, só talvez ultrapassado pelo lugar de Eduardo Catroga no Conselho de Supervisão da EDP. Não se percebe para que servem coisas como a excursão ao Gabão ou os particulares com Equador e quejandos, onde a Selecção desperdiça prestígio e aliena adeptos. Vai para mais de um ano que os jogos desta Selecção são penosos exercícios de diletantismo, falta de brio e falta de qualidade. Não é uma questão de atitude, mas sim de mentalidade, explica o seleccionador, numa extraordinária confissão do seu fracasso (pois a quem mais, que não ele, compete mudar as mentalidades, pelos vistos, instaladas na equipa?). Mas será lambem uma questão de mentalidade que não se veja no jogo desta equipa nada de treinado e ensaiado, nem sequer livres ou cantos? Que não haja um fio de jogo, nem uma organização defensiva aceitável, nem plano de ataque que vá para além de esperar que o génio de Ronaldo resolva tudo por si só? Será uma questão de mentalidade continuar a apostar em jogadores que já ultrapassaram o seu prazo de validade útil e estão na fase em que já não lhes resta outra montra que não a da Selecção? E que mentalidade se pretende alterar quando é o próprio Paulo Bento que aparece a justificar a vergonhosa exibicão de Telavive com o golo madrugador que «penalizou» a equipe e com a incapacidade de saber «gerir o resultado» (ou seja, a ganhar por l-0, o único objectivo deveria ter sido o de defender essa preciosa vantagem...). Entre tão complexas mentalidades e tão delicadas susceptibilidades, talvez se pudesse explicar à equipa que, se bem que a invasão da pátria não esteja em jogo, ninguém está pronto a compreender e desculpar que a 6ª Selecção da FIFA não esteja presente entre as 32 que vão estar no Brasil. Nem os brasileiros nos perdoarão a nossa ausência: para eles, se Portugal não se conseguir qualificar num grupo tão fácil, é porque não houve vontade de estar no Brasil.

Mas vá lá que houve uma excepção: ao decidir viajar até Baku, mesmo impedido de jogar, o capitão Cristiano Ronaldo mostrou a Paulo Bento como é que se mudam as mentalidades. E devo dizer até que as suas habituais fracas exibições na Selecção (que não foi o caso em Israel), me começam a parecer mais justificáveis, à luz do dilema que ele deve viver em campo: jogar sozinho ou jogar para uma equipa que ele sente que não sabe jogar?

2- Desejo ardentemente que a nova direcção do Sporting se aguente por muitos e bons anos. Porque assim estaremos livres de tão depressa voltar a viver o ridículo espectáculo mediático das eleições no Sporting, que a comunicação social tratou como se de eleições presidenciais se tratasse. Vi o debate entre os candidatos na SIC, que permitiu perceber que nenhum deles tinha qualquer acordo com os bancos ou qual quer investidor disponível para injectar dinheiro no Sporting (e não se percebe a troco de quê o fariam ou farão). Também deu para ver que entre a candidatura patética de Carlos Severino, um Bruno de Carvalho que, em várias coisas, faz de facto lembrar Vale e Azevedo, e a candidatura de José Couceiro, a deste último, sem trazer também qualquer solução, me pareceu a única capaz de, pelo menos, não piorar as coisas. Na hora da vitória, vi os sócios apoiantes de Bruno de Carvalho celebrarem como se a conquista do campeonato da Liga estivesse já ali, ao virar da esquina. Dá-me ideia que ainda não realizaram que o campeonato é outro e, nesse, a vitória é tudo menos certa. O grande projecto de que falavam todos os candidatos sem o ousarem dizer, resume-se a uma única palavra: sobreviver.

3- Ao ver Higuaín e Messi (Real Madrid e Barcelona) abraçados em três ocasiões do Argentina-Venezuela - no golo de Messi e nos dois de Higuaín, assistido por ele - ao ver os jogadores do Real e do Barça irmanados no apoio e respeito a Del Bosque, percebe-se como Mourinho andou mal ao acusar de batota a eleição que consagrou Del Bosque como o melhor treinador do ano para a FIFA. Em primeiro lugar, porque não se fazem acusações dessas refugiado em fontes que preferem manter o sigilo - e a única que não o fez, Pandev, foi desmascarado como aldrabão. Em segundo lugar, porque não se entende como é que Mourinho pode justificar a sua ausência na cerimónia com o facto de ter sabido que tinha havido votações adulteradas, quando as votações, de quem em quem, só são divulgadas após a cerimónia. Em terceiro lugar, porque, mesmo que tal tivesse acontecido, teriam sido necessários 40 votos adulterados para lhe roubar a vitória, e não «dois ou três», como ele disse. Em quarto lugar, porque sendo a escolha do melhor treinador do ano necessariamente subjectiva, sempre há alguns critérios objectivos que, neste caso, abonavam a favor de Del Bosque: Mourinho foi campeão de Espanha com o Real (coisa que Del Bosque já tinha sido várias vezes), e este foi campeão da Europa com a Espanha, depois de ter sido campeão do mundo: não é comparável. E, em quinto lugar e finalmente, porque sendo Mourinho indiscutivelmente um dos melhores ou, se quiserem, o melhor treinador do mundo, só lhe ficava bem saber ganhar e saber perder e saber respeitar os adversários e os concorrentes com maior naturalidade e fair play. Como é que um homem tão inteligente e tão talentoso naquilo que faz, se desperdiça assim em guerras inúteis que só o desprestigiam e causam mal estar à sua roda?

quarta-feira, junho 12, 2013

NA HORA DA VERDADE PETER NÃO FALHA (19 MARÇO 2013)

1- O Principio de Peter estabelece uma regra cristalina: todos nós temos o nosso patamar de competência, acima do qual as coisas ainda podem correr bem durante uns tempos, mas fatalmente hão-de correr mal na hora da verdade. Em Málaga, Vítor Pereira deu uma eloquente demonstração práctica da actualidade do Princípio de Peter, mostrando que não é impunemente que se salta do banco do Santa Clara, da 2ª Liga, para o de um clube que é crónico candidato ao título e passageiro habitual da Liga dos Campeões. Como escrevi quando ele foi escolhido, compreendi a escolha à luz da deserção de Villas Boas e da urgência em encontrar treinador, já com a equipa a iniciar o estágio de pré-época, no Verão de 2011. Mas não compreendi a extensão do vínculo para o ano em curso. Durante estas duas épocas, Vítor Pereira deu a quem quis ver variadíssimas demonstrações da sua insuficiente competência técnica para estar à frente de uma equipa de luxo, como é a do FC Porto. Repito que, pessoalmente, não tenho dúvidas de que se trata de uma pessoa séria, trabalhadora e bem intencionada — mas isso não chega, como não chegou ao Papa Francisco para treinar o San Lourenzo de Almagro.

Nestes dois anos, vi Vítor Pereira andar à toa, primeiro limitando-se a deixar que fosse a equipa e a categoria dos seus jogadores a carrega-lo às costas para o que contou muito a superior capacidade de Hulk de resolver jogos sozinho e o famigerado espírito do balneário portista. Foram eles que lhe deram o título do ano passado, mas não podiam dar-lhe o que ele não tem, por si mesmo: uma competência técnica que seja capaz de retirar o melhor de cada um e o melhor da equipa. Como não me canso de escrever, duvido que perceba alguma coisa de futebol um treinador que deve ser o único apreciador do jogo em todo o planeta que não entende que James Rodriguez e Cristian Atsu são infinitamente melhores do que Silvestre Varela. Mas isso é apenas um exemplo, embora extremo e elucidativo. Nestes dois anos, Vítor Pereira também se revelou incapaz de potenciar quase todos os novos jogadores que despontaram no clube, desprezando-os ou abrindo mão deles: Atsu, Iturbe, Sérgio Oliveira, Djalma, Souza, Delatorre. Agarrou-se a um núcleo duro de jogadores, que explorou até à exaustão, porque são os que lhe garantem o tal jogo de «posse de bola», triste imitação de um Barcelona, sem escola nem Messi, e que ele, à falta de melhor, resolveu apresentar como resultado do seu ano de aprendizagem. Ele acha que, enquanto tiver a bola, a equipa não corre riscos e, por isso, detesta jogadores que arriscam, que rompem com aquele colete de forças inócuo, e prefere outros que lhe dão uma falsa sensação de segurança e controlo do jogo: Defour, Fernando, Varela, Castro, ou um Lucho rebentado ou em fim de ciclo. Toda a gente saudou a refundação táctica que Vítor Pereira tinha engendrado para um FC Porto sem Hulk. Mas todos fingiram não ver que o esquema dependia de três nomes e não existia sem eles: Moutinho, como pivot de tudo; James (que ele não entende), como criador de desequilíbrios; e Jackson Martinez, como finalizador.

Em Málaga, como qualquer aprendiz de futebol sabe, a melhor, a única forma, de defender a vantagem de 1-0 era garantir pelo menos a marcação de um golo — tarefa não muito complicada, face a uma defesa sabidamente frágil. Na véspera do jogo, aliás, Vítor Pereira não se dispensou de dizer que a equipa não se iria descaracterizar nem mudar de processo de jogo. Mas, na hora da verdade, o que fez foi exactamente o contrário: borrou-se de medo e montou uma estratégia e uma equipa para defender o 1-0. Já vi este filme inúmeras vezes, posto em exibição por treinadores portugueses sem estaleca para os grandes jogos europeus. Pensam, pensam, dormem a sonhar com tácticas que surpreendam o adversário e, no momento da decisão, mudam a equipa e a sua estratégia de jogo. Invariávelmente, mudam-na para defender e, invariavelmente também, o resultado dessa mudança traduz-se num desastre. Foi o que fez Vítor Pereira em Málaga, com o resultado de ter perdido não apenas uma eliminatória totalmente ao alcance do FC Porto, de ter desperidiçado uma oportunidade caída do céu e do sorteio para seguir para os quartos da Champions, mas também caindo com tamanho estrondo e falta de classe que deixou a equipa destroçada, física, emocional e psiquicamente, como se viu este domingo no Funchal. Ao ponto de, mais do que provavelmente, ter também entregue o título nacional ao Benfica.

Quando optou por entrar em campo em Málaga com um ataque reduzido a Jackson Martinez (visto que Defour nunca foi, nem sabe ser, extremo, e Varela não conta), Vítor Pereira fez o três em um:
- transmitiu aos seus jogadores uma mensagem clara de que estava com medo do adversário e era preciso defender desde o primeiro minuto; reduziu as hipóteses de marcar um golo a factores de pura sorte do jogo;
- rebentou com Jackson Martinez (com consequências que pagaria mais tarde), ao forçá-lo a passar metade do jogo a correr, sem apoio algum, a impossíveis passes de 30 e 40 metros — única estratégia de ataque engendrada.

É certo que depois contou com as traições dc Defour e do departamento médico do FC Porto que, tal como já sucedera com James, demorou muito mais tempo do que o razoável a recuperar João Moutinho e, afinal, entregou-lho sem estar em condições. Mas a traição de Defour é uma história diferente e que um treinador avisado teria evitado. Para começar, é a própria inclusão de Defour que está em causa: trata-se de um jogador absolutamente banal, de equipa do fim da tabela. Tem a seu favor ser esforçado e generoso, mas é tecnicamente limitado, nada esclarecido e precipitado em todas as acções, seja a rematar à baliza ou a entrar ao desarme. A conjugação destas características torna-o um jogador perigoso num jogo daquela importância, para mais se já levou um amarelo e continua de cabeça quente. Sem desculpar minimamente a indesculpável atitude de Defour (três meses sem ordenado seria o mínimo que ele devia pagar ao clube pelos danos causados), é indesculpável também que Vítor Pereira não tenha lido o cuidado elementar de o retirar após o primeiro amarelo. Tanto mais que, já no ano passado contra o Apoel e também na Champions, o FC Porto vivera episódio semelhante com Fucile, que terminou com a sua expulsão, derrota no jogo e eliminação da competição. Ora, um treinador está no banco para aprender com os erros cometidos, para conhecer o temparamento dos seus jogadores e defender a equipa dos seus excessos previsíveis. Não para estar a tirar apontamentos enquanto o jogo decorre ou ficar de mãos nos bolsos, estático e silencioso, a assistir a tudo, como se, bom ou mau, nada houvesse a fazer contra o destino.

Espanta-me que Pinto da Costa - que percebe muito mais de futebol a dormir que Vítor Pereira acordado
não lhe tivesse pedido antes do jogo a equipa que ele ia fazer alinhar em Málaga. E que, se o fez, não lhe tenha logo dito: «esse onze e essa estratégia de medo estão condena-dos ao desastre. Acredite em mim, que já vi isso acontecer antes».

2- Uma única nota para o empate do FC Porto no Funchal. Quando finalmente íamos jogar onze contra onze — isto é, com o Varela no banco — Atsu vai contra a bancada em construção e sai lesionado aos 5 minutos. Depois, quando ia afastar uma bola fácil, Mangala tropeça no relvado, em estilo de chapa ondulada, e permite o golo do empate. Ou seja: o campo foi determinante no resultado. E é extraordinário que o Marítimo e o Governo Regional da Madeira, olhando para o Estádio dos Barreiros — que jamais enchia na sua dimensão anterior e que tem um campo curto, estreito e com um relvado impraticável —, em lugar de fazer obras que o tornassem aceitável para uma primeira divisão, tenham antes optado por uma despesa imensa para aumentar bancadas condenadas às moscas e que, ainda para mais, na ganância de chegarem mesmo em cima do campo, são uma ameaça à integridade física dos jogadores. Assim se percebe porque se joga mal futebol por cá e porque está a Madeira falida.

terça-feira, junho 11, 2013

DAQUI ATÉ AO DRAGÃO (12 MARÇO 2013)

1- Quinze minutos: era tudo o que deveria ter visto do Porto-Estoril. Porque a partir daí e a ganhar por 2-0, o Porto deixou de jogar e o jogo acabou. Sim, já sei que havia o jogo de Málaga no subconsciente dos jogadores, que a época já leva 37 jogos e as pernas começam a pesar, etc. e tal. Mas, do Estoril até Málaga, mediavam seis dias de descanso — uma distância suficientemente grande para apenas um quarto de hora de futebol empenhado. Talvez não seja deslocado recordar que o público paga para ver 90 minutos de espectáculo e não apenas quinze, com artistas que ganham o que ninguém mais ganha em Portugal. E talvez também não tivesse sido má ideia recordar aos artistas do FC Porto que talvez este campeonato se venha a decidir por diferença de golos, o que justificaria o esforço de ir um pouco mais além.

Foi isso que fez o Benfica com o Gil Vicente: marcou cinco e ultrapassou a diferença de goal average que tinha em relação ao FC Porto. Deste jogo, vi apenas os primeiros vinte minutos e depois desisti, impressionado pela eficácia benfiquista: um remate à baliza, dois golos, ambos oferecidos. Quando vejo equipas entregarem assim os jogos ao Benfica, logo para começo de conversa, desisto de ver: também não é espectáculo que se recomende.

Olhando para a diferença abissal entre os dois primeiros e os restantes, eu penso, ao contrário de Jorge Jesus, que é muito possível, e mesmo provável, que o campeonato se decida no Dragão. E, para essa decisão, o Benfica está neste momento, em vantagem. Se ganhar lá, será campeão certamente. Se perder mas lá chegar com 4 pontos de avanço, também. E, se empatar, tem todas as hipóteses a seu favor, se até lá não perder ou a vantagem pontual ou a da diferença de golos. Quer isto dizer que, para ser campeão, o caminho do FC Porto está cada vez mais estreito: não se pode permitir mais nenhum deslize ditado pela displicência, como sucedeu em Alvalade, no Dragão com o Olhanense, e ia sucedendo com o Rio Ave, também no Dragão. E, depois, terá de ganhar ao Benfica. Já vi isto mais fácil. Mas também já vi o FC Porto sair de situações piores.

2- Depois de anunciada a sua ressurreição no jogo com o FC Porto, o Sporting voltou à normalidade em Coimbra: as notícias felizes eram manifestamente exageradas e não tenho, infelizmente, qualquer dúvida de que o assomo de orgulho ferido que se viu contra o FC Porto não se irá repetir contra o Benfica.

Nada mudou no Sporting, a começar por aquela que, ao longo dos anos, aqui venho apontando como a razão primeira do seu declínio: a falta de uma mentalidade competitiva, que nunca procura responsabilidades próprias para os desaires, antes encontra sempre desculpas exteriores. Mais uma vez isso sucedeu no jogo contra o FC. Porto — onde, convém recordá-lo, o Sporting, jogando em casa, esteve sempre, sempre, à defesa, recuado e amedrontado. Mas, ao ver sportinguistas ilustres, como Dias Ferreira ou Eduardo Barroso, atira-rem-se à arbitragem, como tendo sido escandalosa, percebi que a atitude se mantém tal e qual. E porque foi a arbitragem escandalosa? Porque não mostrou o segundo amarelo a Otamendi (numa jogada de que, sinceramente, não me recordo, mas numa altura em que não faria qualquer diferença) e, sobretudo, por ter expulso os dois treinadores do Sporting. Mas algum deles terá escutado as palavras que os treinadores dirigiram ao árbitro e que terão justificado as expulsões? Como podem então concluir que elas foram escandalosas — só por terem acontecido? De Oceano, não se sabe o que terá dito, porque ninguém o referiu. E, de Jesualdo, sabe-se apenas a sua versão, de que terá dito ao árbitro «acaba com isto, antes que isto acabe mal». Não sei se é ou não razão para o expulsar do banco, mas não me parece muito adequado que um treinador se dirija ao árbitro, tratando-o por tu e dando-lhe ordens para acabar com o jogo, antes mesmo dos 90 minutos, sob pena de uma ameaça implícita. E garanto que, se fosse o treinador do FC Porto a jogar em casa um clássico, empatado a zero a poucos minutos do fim, o que eu acharia escandaloso é que ele pedisse ao árbitro para acabar com o jogo rapidamente Mas lá está: são mentalidades competitivas diferentes.

3- Como aqui escrevi a semana passada, o tema da ruptura entre o Benfica e a Olivedesportos/Sport TV e a aposta na rentabilização própria dos jogos caseiros do clube e da Benfica TV é um assunto que me interessa muitíssimo na perspectiva da viabilidade dos principais clubes portugueses, ao nível da alta competição.

Infelizmente, porém e como sempre sucede nas SAD, o estudo de viabilidade que o Benfica terá feito é secreto. Como secreto é até o preço que aceitou pagar pela transmissão dos jogos do campeonato inglês na Benfica TV, invocando uma suposta «cláusula de confidencialidade» (que não impediu, contudo, que o jornal Expresso noticiasse que o Benfica pagou à Liga inglesa o triplo do que pagava a Sport TV: 2,3 milhões por época). Mas foi um texto de Bagão Félix, aqui publicado há dias, que me chamou a atenção para uma perspectiva que ainda não tinha considerado. Escreveu ele que a transmissão dos jogos da Luz na Benfica TV vai permitir servir a «verdade desportiva» . Ou seja, como se adivinha, vai permitir reduzir à opinião dos benfiquistas de serviço à Benfica TV as incidências dos jogos. Ora, para quem como eu, já teve ocasião de assistir ao número cómico-surreal que são os comentários dos locutores da Benfica TV, feitos em directo e sobre jogos que eles não podem mostrar, é fácil de imaginar o que seja a «verdade desportiva» nas mãos daquelas criaturas. Mas, não só: a transmissão da Benfica TV vai passar a ser a única fonte visual dos jogos transmitidos. E imaginem que há, por exemplo, uma jogada duvidosa dentro da área do Benfica e que só o slowmotion e a repetição da jogada permitem concluir se foi ou não penalty: acham que a Benfica TV o vai fazer? Acham que ela se vai preocupar em esclarecer se foi ou não penalty contra o Benfica não assinalado? E se, a seguir, for o FC Porto a transmitir os jogos do Dragão no Porto-Canal (que, diga-se de passagem, não tem nada a ver com a caricatura de jornalismo e tudo o resto que se faz na Benfica-TV)?

O problema destes apologistas da «verdade desportiva» nem é, principalmente, os sucessivos tiros nos pés que eles dão e que reduzem a sua verdade a uma caricatura do que apregoam. O problema maior é que, à força dese tentarem convencer que só a sua verdade é que conta e é «desportiva» , já perderam a noção do ridículo em que caem. É como a raposa de guarda ao galinheiro.

4- No espaço de três jogos e dez dias, Sergio Ramos, central do Real Madrid, alcançou a proeza, digna do Guinness, de cometer cinco penalties, nenhum dos quais assinalado pelo árbitro: um em Barcelona, no jogo da Taça do Rei, quando havia 0-1; outro em Madrid, verdadeiramente escandaloso, quando havia 2-1 para o Real e faltava um minuto para o fim; e mais três em Manchester, o último dos quais igualmente de bradar aos céus. Junte-se a isso a expulsão de Nani e só se pode afirmar que José Mourinho bem andou em reconhecer a ajuda do árbitro na qualificação para os quartos da Champions. Mas, mais papistas do que o próprio Papa, há jornalistas portugueses que acham que o patriotismo consiste em não dar importância a estas coisas, se elas beneficiam portugueses envolvidos. Mas, se tem sido ao contrário, cinco penalties a favor do Real não marcados em três jogos decisivos consecutivos..., ai meu Deus, o que não se teria escrito!