terça-feira, junho 25, 2013

PASSADEIRA VERMELHA (09 ABRIL 2013)

1- Em termos ofensivos, há dois tipos de jogadores: os que desequilibram e os que engasgam. Os segundos não correm riscos, mas também não abrem defesas fechadas; os primeiros perdem várias bolas, mas resolvem jogos. É próprio dos treinadores fracos preferirem os segundos. Vítor Pereira é um desses treinadores: prefere um Varela, um Defour ou um Lucho a arrastar-se, pois eles dão-lhe aquele futebol mastigado, ruminante, (circulado, como gosta de dizer), que ele confunde com superioridade táctica. Ontem, contra o Braga, mais uma vez se repetiu a história: sem Varela ao dispor, voltou a insistir num quarteto a meio-campo, incluindo Lucho e Defour, e foi só na iminência do desastre que acabou por se decidir a meter Atsu e Kelvin. Ganhou, mas só então convenceu. E é certo e sabido que, na próxima oportunidade, regressam Varela ou Defour, ou ambos. E é por isso que eu acho que a época já está decidida e perdida.

Em Olhão, o Benfica ganhou quando quis, como quis e por quantos quis. Mais uma vez ficou à vista a tremenda diferença de capacidade entre Benfica e Porto, por um lado, e todos os restantes 14 clubes, por outro: mesmo em relvados sem dimensão e sem a qualidade mínima aceitável para jogos de uma primeira liga, mesmo gerindo o cansaço de jogar em várias frentes simultaneamente, enquanto os outros descansam uma semana inteira, o Benfica e o Porto (agora em menos frentes) passeiam-se a seu bel prazer neste campeonato — que, para acrescentar ainda mais à sua patética competitividade, se prepara para satisfazer os sonhos do actual presidente da Liga e dos que o apoiam e alargar-se para mais dois clubes e dois quintais.

Felizmente e graças à intervenção de um amigo, que cobriu a incapacidade do seu presidente, evitou-se o mal maior e chocante que teria sido a falta de comparência do Olhanense ao jogo com o Benfica. Os habituais adeptos da conspiração e que vêem a mão de Pinto da Costa em tudo o que contrarie os desígnios benfiquistas (até mesmo numa tempestade que se abate sobre Setúbal e faz adiar o jogo do FC Porto) não deixaram de ver aqui também a mão de Pinto da Costa: o amigo que pagou o dinheiro para que os jogadores do Olhanense fossem a jogo seria ele. E que fosse, pergunto eu? Onde está o grande escândalo? O escândalo, do meu ponto de vista, é que o Benfica estivesse à espera de ganhar em Olhão sem ter de jogar. Escândalo seria uma vitória de secretaria num momento decisivo do campeonato, perante a indiferença da Liga. Se o amigo era, de facto, ligado ao FC Porto, então a Liga bem pode agradecer-lhe ter evitado a barracada e os benfiquistas bem podem agradecer-lhe a possibilidade de terem ganho em campo e não na secretaria, o que é mais bonito e mais sério. Até porque, como se viu, o jogo era de risco nulo. E, agora, atenção benfiquistas, porque vou dizer uma coisa que, em circunstâncias inversas, vocês nunca viram nem verão dito por um benfiquista: eu acho que o campeonato já está entregue ao Benfica e, em minha opinião, com todo o mérito e toda a justiça. Claro que eu podia questionar aqueles dois jogos, quase consecutivos, no período recente em que Benfica e Porto seguiam par-a-par, e que terminaram ambos com a vitória encarnada por 1-0 resultante de penalties mais do que duvidosos - em especial, o penalty que deu a vitória contra a Académica, aos 96 minutos. Esses quatro pontos foram decisivos e evitaram que o Porto descolasse numa altura crucial do campeonato. Mas também foram decisivos os quatro pontos que o FC Porto desperdiçou em dois penalties falhados por Jackson Martinez — pelo que até se poderia dizer que o campeonato ficou decidido pela capacidade de converter penalties. Mas o penalty é, cada vez mais, um lance corrente dos jogos: treina-se e tem regras técnicas que, se bem executadas, o tornam quase sempre indefensável; e, no limite, cabe a um treinador perceber quem são os seus jogadores que têm competência técnica para tal. Quando um jogador falha um penalty por evidente falta de capacidade técnica, a seguir falha segundo de forma idêntica, e o treinador ainda insiste nele para falhar terceiro, a culpa já não é do jogador até porque há excelentes jogadores que não cobram penalties.

Mas seria de todo injusto resumir a razão do mais que provável título do Benfica a uma questão de penalties. Até porque, como todos constatam, vivemos esta época num anormal clima de paz em relação às arbitragens, no que diz respeito à disputa do título. Nem Benfica nem FC Porto andaram em cruzadas ao melhor estilo sportinguista contra os árbitros, nem os seus presidentes e dirigentes andaram a fomentar ódios e incêndios. Dirão que ambos estão de parabéns por isso, mas não é verdade: quem está de parabéns é o FC Porto e a sua gente. Porque, se fosse ao contrário, se se tivesse começado a perceber, aí por alturas da 20ª jornada, que era o FC Porto que marchava tranquilamente para o título, o clima seria diferente. Pois que, como disse, salvo erro, Artur Jorge, ano em que o Benfica vai à frente é ano em que, subitamente, a arbitragem vive num mar de rosas. Ou seja: o FC Porto sabe perder, o Benfica não.

E, porque isto é mesmo verdade, quero reafirmar que acho que o Benfica foi claramente a melhor equipa desta época: a mais versátil, a mais imaginativa, a mais ofensiva, a de futebol mais atraente e eficaz, simultaneamente. Jorge Jesus fez uma gestão perfeita dos jogadores ao seu dispor, conseguindo que eles entrassem e saíssem da equipa sem se notar as alterações no futebol exibido. Ao contrário de Vítor Pereira que, avesso a qualquer novidade ou risco, apostou de princípio a fim num núcleo duro, por mais desgastados ou desinspirados que alguns dos seus componentes estivessem, Jesus conseguiu, de facto, ter uma equipa formada por 20 jogadores — e, por isso, não só vai à frente, como está excelentemente colocado para conseguir o triplete que Villas Boas conseguiu há dois anos: campeonato, taça, Liga Europa. E isso é tanto mais notável quanto o Benfica não tem, em minha opinião, melhor equipa que o FC Porto — e viu-se isso no jogo da Luz, o único em que o Benfica abanou de alto a baixo entre-portas. Mas Jorge Jesus não apenas soube rodar muito melhor o espólio que tinha, soube adaptar muito melhor jogadores a novas posições e funções, como também, dando-se conta da imensa superioridade interna face aos outros 14 adversários, introduziu um estilo de jogo de cavalgada para a vitória, que contrasta, de forma gritante com o estilo de jogo adoptado por Vítor Pereira: posse, posse e mais posse, até que o golo apareça.

Diz-se que no futebol tudo pode acontecer — o que não é bem verdade. Mas pode acontecer que, contra toda a lógica e todas as minhas expectativas» o Benfica perca na Luz com o Sporting e no Dragão e que o FC Porto leve tudo de arrasto até final, recorrendo àquele quid de vitória e de coragem que hoje está adormecido, mas que eu sei que ainda lá mora. Pode ser que sim. Mas, não só não acho nada provável, como também não sei se acharia justo (o que para o caso, confesso, pouco me incomodaria, se a reviravolta fosse sem espinhas).

DE OLHO NO OLHANENSE (02 ABRIL 2013)

1- Confesso a minha ignorância: até ele ter aparecido como candidato vencedor à presidência da Liga de Clubes, nunca tinha ouvido falar de Mário Figueiredo. Desconhecia, e continuo a desconhecer, que passado, que qualificações e que competências tinha ele acumulado no futebol para aspirar a representar os interesses dos clubes profissionais. Mas a sua entrada de chico esperto não dava muito que enganar. O senhor nao tinha, que eu tivesse reparado, projecto ou ideia alguma que não a de conquistar aquele pequeno grande poder para si mesmo. E fê-lo, claro, da pior maneira disponível: com a promessa de proceder a um alargamento da primeira Liga e a lançar uma batalha contra a Olivedesportos (uma guerra sempre muito popular) para obter uma redistribuição dos direitos televisivos, em favor dos pobres clubes pequenos. Sabendo que na Liga cada clube vale um voto e a maioria está sempre carente de promessas e oportunidades que os façam sonhar alto e dispensar penosas subidas até ao topo, a eleição tornou-se-lhe fácil. Felizmente, a tentativa de alargamento da primeira Liga foi sumariamente chumbada pela Federação — coisa que não incomodou por aí além o novo presidente da Liga, assegurado que estava o seu verdadeiro objectivo, que era o de se fazer eleger.

Mas o episódio marcou o início de uma relação necessariamente conflituosa entre a Liga e a Federação e que, nos últimos dias, tem proporcionado ao sr. Mário Figueiredo várias oportunidades de bem demonstrar a sua vacuidade e uma arrogância que não se funda em qualquer competência reconhecida como tal. E, enquanto ele se distrai em episódios de um conflito que não diz nada a quem se interessa por futebol, a seus olhos desenrola-se um verdadeiro episódio de gravidade potencialmente extrema e que não lhe mereceu ainda uma palavra que fosse. Refiro-me à situação do Olhanense, um entre tantos outros pequenos clubes que, por mais respeito que se lhes tenha, apenas confirmam que a primeira Liga não devia ser para qualquer um e que as teses do alargamento são propostas incendiárias de quem se está nas tintas para a qualidade dos espectáculo e a seriedade da competição. Se o Olhanense, como alguns outros, está há quatro ou cinco meses sem pagar salários aos seus jogadores, isso significa simplesmente que não tinha e nunca teve condições para se sustentar numa liga profissional, muito menos a primeira. E significa também que quem tinha a responsabilidade de o certificar, que era a Liga de Clubes, fez vista grossa aos sinais que lá estavam — provavelmente, porque o Olhanense foi um dos eleitores do sr. Mário Figueiredo. Ou, dito de forma simples: é uma vergonha para a Liga que haja clubes na situação do Olhanense. E o que menos releva é a desculpa do seu presidente de que se arruinou nas obras do Estádio José Arcanjo pois que, apesar de ter a quinze quilómetros de distância, um dos magníficos estádios do Euro-2004 às moscas e à disposição, preferiu antes gastar dinheiro num estádio velho e bem pior, mesmo à custa dos salários dos seus profissionais. Para quem, como a Liga, tem a responsabilidade de assegurar que os clubes têm condições de sustentabilidade, que não exploram os seus atletas e garantem a seriedade da competição, as desculpas dos clubes são irrelevantes. O que é relevante é que jogadores que passam fome estão obviamente à mercê de tentativas obscuras daquilo que sabemos. O que é relevante é saber que, se os jogadores forem para diante com a anunciada greve ao jogo com o Benfica, o campeonato fica irremediavelmente inquinado. E que, se houver jogo e, por conveniência financeira, ele for afinal disputado no Estádio do Algarve, e não no José Arcanjo, o Benfica sai objectivamente beneficiado.

Neste panorama, o silêncio do homem que se fez eleger prometendo o paraíso ao maior número possível de clubes como o Olhanense, é todo um programa.

2- Parece que Luís Ferreira teve uma arbitragem, vamos chamar-lhe desequilibrada, no Sporting-Benfica de equipas B. Acontece. Talvez não mereça desculpa, mas está desculpado pela oportunidade que proporcionou ao novo presidente do Sporting para, como se diz, se posicionar perante a sua massa associativa. Quando afirma que é preciso correr com os « pássaros» do futebol português, ele está a falar para dentro e a vestir desde já a farda do Quixote travestido de Calimero, cujo uso é absolutamente obrigatório a quem quer ser alguém no Sporting. À noite, na SIC, vi também de passagem o sportinguista Rui Santos dissertar sobre uma espécie de Tordesilhas que teria sido estabelecido entre Porto e Benfica para controlarem a arbitragem (curiosamente, depois de um Académica-Porto em que assisti a uma coisa única: a primeira falta, completamente banal, de um portista, aconteceu aos 32 minutos e deu logo direito a uma amarelo; e a terceira falta, que aconteceu só aos 70 minutos de jogo e igualmente banal, deu direito a segundo amarelo e impedimento do seu autor para o próximo jogo, como Braga).

Está, pois, estabelecido o padrão para o mandato de Bruno de Carvalho e o mínimo que se pode dizer é que ele não promete nada de novo em relação ao habitual e tradicional. De cada vez que o Sporting for prejudicado por uma arbitragem, lá desenterrarão os fantasmas da perseguição, que não os deixam chegar às vitórias que o seu brilhante desempenho desportivo e de gestão manifestamente justificariam. De cada vez, porém, que o Sporting for beneficiado, como já sucedeu várias vezes esta época - como contra Braga e Guimarães, em Al- valade — cairá sobre o assunto o silêncio dos justos. Renovação sim, mas sem abdicar das tradições do clube.

3- Já disse, na entrevista a A BOLA TV, o que pensava sobre as postas de pescada debitadas por Paulo Bento em relação a Pinto da Costa. Apenas queria reafirmar que, por pior que seja o português em que o selecionador se exprima, a ideia é clara e não é original: face aos resultados mais do que medíocres, às exibições inaceitáveis, ao perigo real de falhar a qualificação para o Brasil e ao número crescente daqueles que perguntam o que anda o seleccionador a fazer, Paulo Bento ensaia a escapatória de comprar uma guerra com o FC Porto para ver se distrai as atenções e reganha popularidade fácil. Scolari fez o mesmo quando aqui chegou e desatou a perder todos os jogos de preparação para o Euro. Mas no fim só se safou graças aos jogadores do FC Porto.

4- Por razões de trabalho, não poderei ver e tenho de escrever antes do Braga-Sporting. É um jogo determinante para o Braga, que a seguir irá ao Dragão e que tem o persistente Paços de Ferreira sempre em cima. Desperdiçar a oportunidade de ir à Champions num ano em que só teve a concorrência do Paços para o terceiro lugar, será um desenlace desastroso num percurso sempre em ascensão. Talvez a esta hora, e ainda mais depois da lesão de Eder, António Salvador esteja arrependido de ter deixado sair Lima para o Benfica a preço de feijões e já depois de ter deixado sair Artur a custo zero. O Benfica, por seu lado, bem que tem razões para lhe estar eternamente agradecido.

quinta-feira, junho 13, 2013

E HOJE, TAMBÉM NÃO É DECISIVO? (26 MARÇO 2013)

1- Quando teve os seus navios alinhados em coluna pronta a executar a sua célebre manobra de ataque em V, frente à Armada espanhola, no Cabo Trafalgar, Lord Nelson transmitiu a todos os navios a sua última ordem: «A Inglaterra espera de cada um que cumpra o seu dever». A bordo dos navios, Nelson tinha um equipagem de marinheiros e fuzileiros de assalto altamente treinados, mas que viviam em condições de uma dureza difícil de acreditar para os dias de hoje, mal alimentados, mal pagos (quando o eram), meses sem ir a casa (os que não morriam), e sofrendo horrores quando feridos e tratados a bordo, num tempo em que não havia anestesias nem antibíóticos e o tratamento mais comum para os ferimentos eram a amputação e as ligaduras. Mas todos sabiam que, se vencessem a Invencível Armada em Trafalgar, como venceram, as Ilhas Britânicas estariam mais uma vez a salvo de um inimigo vindo do mar.

Em, Telavive, frente a um adversário infinitamente mais fraco que a Selecção portuguesa, num jogo que era imperioso ganhar e com uma equipa composta por meninos de ouro, pagos milionariamente e com prémios de presença, de vitória e de qualificação à sua espera, viajando em classe executiva de voos fretados, dispensados de todas as demoras e diligências nos aeroportos e instalando-se em hotéis de luxo rodeados de mordomias, o que lhes disse o seleccionador Paulo Bento? Disse-lhes que o jogo não era decisivo e que estavam desde já dispensados de pensarem no primeiro lugar do grupo, que dá apuramento directo para o Brasil, pois isso causaria um desgaste desnecessário nos seus espíritos tão ocupados com coisas bem mais importantes como o sejam decidir o desenho da próxima tatuagem ou a escolha do último modelo de penteado inspirado no ca- tálogo de arbustos das florestas do Bornéu. Na opinião avisada do seleccionador, a 6º selecção do ranking da FIFA não tinha, de forma alguma, estrita obrigação de regressar com uma vitória frente à 74ª selecção do mesmo ranking. Dito e feito: recebida a mensagem e com um golo caído do céu aos 80 segundos, os meninos de ouro dedicaram-se a passear a sua classe em campo. Em breve estavam a perder por 3-1 e só um milagre imerecido lhes permitiu, no último sopro do jogo, escapar a uma derrota enxovalhante.

A Selecção Nacional de Paulo Bento está transformada na Decepção Nacional. Tal como escreveu o Rui Moreira, não joga nada e, pior ainda, não se percebe o que faz Paulo Bento em troca de beneficiar de um dos mais fantásticos lugares que o país tem para dar, na relação trabalho/remuneração, só talvez ultrapassado pelo lugar de Eduardo Catroga no Conselho de Supervisão da EDP. Não se percebe para que servem coisas como a excursão ao Gabão ou os particulares com Equador e quejandos, onde a Selecção desperdiça prestígio e aliena adeptos. Vai para mais de um ano que os jogos desta Selecção são penosos exercícios de diletantismo, falta de brio e falta de qualidade. Não é uma questão de atitude, mas sim de mentalidade, explica o seleccionador, numa extraordinária confissão do seu fracasso (pois a quem mais, que não ele, compete mudar as mentalidades, pelos vistos, instaladas na equipa?). Mas será lambem uma questão de mentalidade que não se veja no jogo desta equipa nada de treinado e ensaiado, nem sequer livres ou cantos? Que não haja um fio de jogo, nem uma organização defensiva aceitável, nem plano de ataque que vá para além de esperar que o génio de Ronaldo resolva tudo por si só? Será uma questão de mentalidade continuar a apostar em jogadores que já ultrapassaram o seu prazo de validade útil e estão na fase em que já não lhes resta outra montra que não a da Selecção? E que mentalidade se pretende alterar quando é o próprio Paulo Bento que aparece a justificar a vergonhosa exibicão de Telavive com o golo madrugador que «penalizou» a equipe e com a incapacidade de saber «gerir o resultado» (ou seja, a ganhar por l-0, o único objectivo deveria ter sido o de defender essa preciosa vantagem...). Entre tão complexas mentalidades e tão delicadas susceptibilidades, talvez se pudesse explicar à equipa que, se bem que a invasão da pátria não esteja em jogo, ninguém está pronto a compreender e desculpar que a 6ª Selecção da FIFA não esteja presente entre as 32 que vão estar no Brasil. Nem os brasileiros nos perdoarão a nossa ausência: para eles, se Portugal não se conseguir qualificar num grupo tão fácil, é porque não houve vontade de estar no Brasil.

Mas vá lá que houve uma excepção: ao decidir viajar até Baku, mesmo impedido de jogar, o capitão Cristiano Ronaldo mostrou a Paulo Bento como é que se mudam as mentalidades. E devo dizer até que as suas habituais fracas exibições na Selecção (que não foi o caso em Israel), me começam a parecer mais justificáveis, à luz do dilema que ele deve viver em campo: jogar sozinho ou jogar para uma equipa que ele sente que não sabe jogar?

2- Desejo ardentemente que a nova direcção do Sporting se aguente por muitos e bons anos. Porque assim estaremos livres de tão depressa voltar a viver o ridículo espectáculo mediático das eleições no Sporting, que a comunicação social tratou como se de eleições presidenciais se tratasse. Vi o debate entre os candidatos na SIC, que permitiu perceber que nenhum deles tinha qualquer acordo com os bancos ou qual quer investidor disponível para injectar dinheiro no Sporting (e não se percebe a troco de quê o fariam ou farão). Também deu para ver que entre a candidatura patética de Carlos Severino, um Bruno de Carvalho que, em várias coisas, faz de facto lembrar Vale e Azevedo, e a candidatura de José Couceiro, a deste último, sem trazer também qualquer solução, me pareceu a única capaz de, pelo menos, não piorar as coisas. Na hora da vitória, vi os sócios apoiantes de Bruno de Carvalho celebrarem como se a conquista do campeonato da Liga estivesse já ali, ao virar da esquina. Dá-me ideia que ainda não realizaram que o campeonato é outro e, nesse, a vitória é tudo menos certa. O grande projecto de que falavam todos os candidatos sem o ousarem dizer, resume-se a uma única palavra: sobreviver.

3- Ao ver Higuaín e Messi (Real Madrid e Barcelona) abraçados em três ocasiões do Argentina-Venezuela - no golo de Messi e nos dois de Higuaín, assistido por ele - ao ver os jogadores do Real e do Barça irmanados no apoio e respeito a Del Bosque, percebe-se como Mourinho andou mal ao acusar de batota a eleição que consagrou Del Bosque como o melhor treinador do ano para a FIFA. Em primeiro lugar, porque não se fazem acusações dessas refugiado em fontes que preferem manter o sigilo - e a única que não o fez, Pandev, foi desmascarado como aldrabão. Em segundo lugar, porque não se entende como é que Mourinho pode justificar a sua ausência na cerimónia com o facto de ter sabido que tinha havido votações adulteradas, quando as votações, de quem em quem, só são divulgadas após a cerimónia. Em terceiro lugar, porque, mesmo que tal tivesse acontecido, teriam sido necessários 40 votos adulterados para lhe roubar a vitória, e não «dois ou três», como ele disse. Em quarto lugar, porque sendo a escolha do melhor treinador do ano necessariamente subjectiva, sempre há alguns critérios objectivos que, neste caso, abonavam a favor de Del Bosque: Mourinho foi campeão de Espanha com o Real (coisa que Del Bosque já tinha sido várias vezes), e este foi campeão da Europa com a Espanha, depois de ter sido campeão do mundo: não é comparável. E, em quinto lugar e finalmente, porque sendo Mourinho indiscutivelmente um dos melhores ou, se quiserem, o melhor treinador do mundo, só lhe ficava bem saber ganhar e saber perder e saber respeitar os adversários e os concorrentes com maior naturalidade e fair play. Como é que um homem tão inteligente e tão talentoso naquilo que faz, se desperdiça assim em guerras inúteis que só o desprestigiam e causam mal estar à sua roda?

quarta-feira, junho 12, 2013

NA HORA DA VERDADE PETER NÃO FALHA (19 MARÇO 2013)

1- O Principio de Peter estabelece uma regra cristalina: todos nós temos o nosso patamar de competência, acima do qual as coisas ainda podem correr bem durante uns tempos, mas fatalmente hão-de correr mal na hora da verdade. Em Málaga, Vítor Pereira deu uma eloquente demonstração práctica da actualidade do Princípio de Peter, mostrando que não é impunemente que se salta do banco do Santa Clara, da 2ª Liga, para o de um clube que é crónico candidato ao título e passageiro habitual da Liga dos Campeões. Como escrevi quando ele foi escolhido, compreendi a escolha à luz da deserção de Villas Boas e da urgência em encontrar treinador, já com a equipa a iniciar o estágio de pré-época, no Verão de 2011. Mas não compreendi a extensão do vínculo para o ano em curso. Durante estas duas épocas, Vítor Pereira deu a quem quis ver variadíssimas demonstrações da sua insuficiente competência técnica para estar à frente de uma equipa de luxo, como é a do FC Porto. Repito que, pessoalmente, não tenho dúvidas de que se trata de uma pessoa séria, trabalhadora e bem intencionada — mas isso não chega, como não chegou ao Papa Francisco para treinar o San Lourenzo de Almagro.

Nestes dois anos, vi Vítor Pereira andar à toa, primeiro limitando-se a deixar que fosse a equipa e a categoria dos seus jogadores a carrega-lo às costas para o que contou muito a superior capacidade de Hulk de resolver jogos sozinho e o famigerado espírito do balneário portista. Foram eles que lhe deram o título do ano passado, mas não podiam dar-lhe o que ele não tem, por si mesmo: uma competência técnica que seja capaz de retirar o melhor de cada um e o melhor da equipa. Como não me canso de escrever, duvido que perceba alguma coisa de futebol um treinador que deve ser o único apreciador do jogo em todo o planeta que não entende que James Rodriguez e Cristian Atsu são infinitamente melhores do que Silvestre Varela. Mas isso é apenas um exemplo, embora extremo e elucidativo. Nestes dois anos, Vítor Pereira também se revelou incapaz de potenciar quase todos os novos jogadores que despontaram no clube, desprezando-os ou abrindo mão deles: Atsu, Iturbe, Sérgio Oliveira, Djalma, Souza, Delatorre. Agarrou-se a um núcleo duro de jogadores, que explorou até à exaustão, porque são os que lhe garantem o tal jogo de «posse de bola», triste imitação de um Barcelona, sem escola nem Messi, e que ele, à falta de melhor, resolveu apresentar como resultado do seu ano de aprendizagem. Ele acha que, enquanto tiver a bola, a equipa não corre riscos e, por isso, detesta jogadores que arriscam, que rompem com aquele colete de forças inócuo, e prefere outros que lhe dão uma falsa sensação de segurança e controlo do jogo: Defour, Fernando, Varela, Castro, ou um Lucho rebentado ou em fim de ciclo. Toda a gente saudou a refundação táctica que Vítor Pereira tinha engendrado para um FC Porto sem Hulk. Mas todos fingiram não ver que o esquema dependia de três nomes e não existia sem eles: Moutinho, como pivot de tudo; James (que ele não entende), como criador de desequilíbrios; e Jackson Martinez, como finalizador.

Em Málaga, como qualquer aprendiz de futebol sabe, a melhor, a única forma, de defender a vantagem de 1-0 era garantir pelo menos a marcação de um golo — tarefa não muito complicada, face a uma defesa sabidamente frágil. Na véspera do jogo, aliás, Vítor Pereira não se dispensou de dizer que a equipa não se iria descaracterizar nem mudar de processo de jogo. Mas, na hora da verdade, o que fez foi exactamente o contrário: borrou-se de medo e montou uma estratégia e uma equipa para defender o 1-0. Já vi este filme inúmeras vezes, posto em exibição por treinadores portugueses sem estaleca para os grandes jogos europeus. Pensam, pensam, dormem a sonhar com tácticas que surpreendam o adversário e, no momento da decisão, mudam a equipa e a sua estratégia de jogo. Invariávelmente, mudam-na para defender e, invariavelmente também, o resultado dessa mudança traduz-se num desastre. Foi o que fez Vítor Pereira em Málaga, com o resultado de ter perdido não apenas uma eliminatória totalmente ao alcance do FC Porto, de ter desperidiçado uma oportunidade caída do céu e do sorteio para seguir para os quartos da Champions, mas também caindo com tamanho estrondo e falta de classe que deixou a equipa destroçada, física, emocional e psiquicamente, como se viu este domingo no Funchal. Ao ponto de, mais do que provavelmente, ter também entregue o título nacional ao Benfica.

Quando optou por entrar em campo em Málaga com um ataque reduzido a Jackson Martinez (visto que Defour nunca foi, nem sabe ser, extremo, e Varela não conta), Vítor Pereira fez o três em um:
- transmitiu aos seus jogadores uma mensagem clara de que estava com medo do adversário e era preciso defender desde o primeiro minuto; reduziu as hipóteses de marcar um golo a factores de pura sorte do jogo;
- rebentou com Jackson Martinez (com consequências que pagaria mais tarde), ao forçá-lo a passar metade do jogo a correr, sem apoio algum, a impossíveis passes de 30 e 40 metros — única estratégia de ataque engendrada.

É certo que depois contou com as traições dc Defour e do departamento médico do FC Porto que, tal como já sucedera com James, demorou muito mais tempo do que o razoável a recuperar João Moutinho e, afinal, entregou-lho sem estar em condições. Mas a traição de Defour é uma história diferente e que um treinador avisado teria evitado. Para começar, é a própria inclusão de Defour que está em causa: trata-se de um jogador absolutamente banal, de equipa do fim da tabela. Tem a seu favor ser esforçado e generoso, mas é tecnicamente limitado, nada esclarecido e precipitado em todas as acções, seja a rematar à baliza ou a entrar ao desarme. A conjugação destas características torna-o um jogador perigoso num jogo daquela importância, para mais se já levou um amarelo e continua de cabeça quente. Sem desculpar minimamente a indesculpável atitude de Defour (três meses sem ordenado seria o mínimo que ele devia pagar ao clube pelos danos causados), é indesculpável também que Vítor Pereira não tenha lido o cuidado elementar de o retirar após o primeiro amarelo. Tanto mais que, já no ano passado contra o Apoel e também na Champions, o FC Porto vivera episódio semelhante com Fucile, que terminou com a sua expulsão, derrota no jogo e eliminação da competição. Ora, um treinador está no banco para aprender com os erros cometidos, para conhecer o temparamento dos seus jogadores e defender a equipa dos seus excessos previsíveis. Não para estar a tirar apontamentos enquanto o jogo decorre ou ficar de mãos nos bolsos, estático e silencioso, a assistir a tudo, como se, bom ou mau, nada houvesse a fazer contra o destino.

Espanta-me que Pinto da Costa - que percebe muito mais de futebol a dormir que Vítor Pereira acordado
não lhe tivesse pedido antes do jogo a equipa que ele ia fazer alinhar em Málaga. E que, se o fez, não lhe tenha logo dito: «esse onze e essa estratégia de medo estão condena-dos ao desastre. Acredite em mim, que já vi isso acontecer antes».

2- Uma única nota para o empate do FC Porto no Funchal. Quando finalmente íamos jogar onze contra onze — isto é, com o Varela no banco — Atsu vai contra a bancada em construção e sai lesionado aos 5 minutos. Depois, quando ia afastar uma bola fácil, Mangala tropeça no relvado, em estilo de chapa ondulada, e permite o golo do empate. Ou seja: o campo foi determinante no resultado. E é extraordinário que o Marítimo e o Governo Regional da Madeira, olhando para o Estádio dos Barreiros — que jamais enchia na sua dimensão anterior e que tem um campo curto, estreito e com um relvado impraticável —, em lugar de fazer obras que o tornassem aceitável para uma primeira divisão, tenham antes optado por uma despesa imensa para aumentar bancadas condenadas às moscas e que, ainda para mais, na ganância de chegarem mesmo em cima do campo, são uma ameaça à integridade física dos jogadores. Assim se percebe porque se joga mal futebol por cá e porque está a Madeira falida.

terça-feira, junho 11, 2013

DAQUI ATÉ AO DRAGÃO (12 MARÇO 2013)

1- Quinze minutos: era tudo o que deveria ter visto do Porto-Estoril. Porque a partir daí e a ganhar por 2-0, o Porto deixou de jogar e o jogo acabou. Sim, já sei que havia o jogo de Málaga no subconsciente dos jogadores, que a época já leva 37 jogos e as pernas começam a pesar, etc. e tal. Mas, do Estoril até Málaga, mediavam seis dias de descanso — uma distância suficientemente grande para apenas um quarto de hora de futebol empenhado. Talvez não seja deslocado recordar que o público paga para ver 90 minutos de espectáculo e não apenas quinze, com artistas que ganham o que ninguém mais ganha em Portugal. E talvez também não tivesse sido má ideia recordar aos artistas do FC Porto que talvez este campeonato se venha a decidir por diferença de golos, o que justificaria o esforço de ir um pouco mais além.

Foi isso que fez o Benfica com o Gil Vicente: marcou cinco e ultrapassou a diferença de goal average que tinha em relação ao FC Porto. Deste jogo, vi apenas os primeiros vinte minutos e depois desisti, impressionado pela eficácia benfiquista: um remate à baliza, dois golos, ambos oferecidos. Quando vejo equipas entregarem assim os jogos ao Benfica, logo para começo de conversa, desisto de ver: também não é espectáculo que se recomende.

Olhando para a diferença abissal entre os dois primeiros e os restantes, eu penso, ao contrário de Jorge Jesus, que é muito possível, e mesmo provável, que o campeonato se decida no Dragão. E, para essa decisão, o Benfica está neste momento, em vantagem. Se ganhar lá, será campeão certamente. Se perder mas lá chegar com 4 pontos de avanço, também. E, se empatar, tem todas as hipóteses a seu favor, se até lá não perder ou a vantagem pontual ou a da diferença de golos. Quer isto dizer que, para ser campeão, o caminho do FC Porto está cada vez mais estreito: não se pode permitir mais nenhum deslize ditado pela displicência, como sucedeu em Alvalade, no Dragão com o Olhanense, e ia sucedendo com o Rio Ave, também no Dragão. E, depois, terá de ganhar ao Benfica. Já vi isto mais fácil. Mas também já vi o FC Porto sair de situações piores.

2- Depois de anunciada a sua ressurreição no jogo com o FC Porto, o Sporting voltou à normalidade em Coimbra: as notícias felizes eram manifestamente exageradas e não tenho, infelizmente, qualquer dúvida de que o assomo de orgulho ferido que se viu contra o FC Porto não se irá repetir contra o Benfica.

Nada mudou no Sporting, a começar por aquela que, ao longo dos anos, aqui venho apontando como a razão primeira do seu declínio: a falta de uma mentalidade competitiva, que nunca procura responsabilidades próprias para os desaires, antes encontra sempre desculpas exteriores. Mais uma vez isso sucedeu no jogo contra o FC. Porto — onde, convém recordá-lo, o Sporting, jogando em casa, esteve sempre, sempre, à defesa, recuado e amedrontado. Mas, ao ver sportinguistas ilustres, como Dias Ferreira ou Eduardo Barroso, atira-rem-se à arbitragem, como tendo sido escandalosa, percebi que a atitude se mantém tal e qual. E porque foi a arbitragem escandalosa? Porque não mostrou o segundo amarelo a Otamendi (numa jogada de que, sinceramente, não me recordo, mas numa altura em que não faria qualquer diferença) e, sobretudo, por ter expulso os dois treinadores do Sporting. Mas algum deles terá escutado as palavras que os treinadores dirigiram ao árbitro e que terão justificado as expulsões? Como podem então concluir que elas foram escandalosas — só por terem acontecido? De Oceano, não se sabe o que terá dito, porque ninguém o referiu. E, de Jesualdo, sabe-se apenas a sua versão, de que terá dito ao árbitro «acaba com isto, antes que isto acabe mal». Não sei se é ou não razão para o expulsar do banco, mas não me parece muito adequado que um treinador se dirija ao árbitro, tratando-o por tu e dando-lhe ordens para acabar com o jogo, antes mesmo dos 90 minutos, sob pena de uma ameaça implícita. E garanto que, se fosse o treinador do FC Porto a jogar em casa um clássico, empatado a zero a poucos minutos do fim, o que eu acharia escandaloso é que ele pedisse ao árbitro para acabar com o jogo rapidamente Mas lá está: são mentalidades competitivas diferentes.

3- Como aqui escrevi a semana passada, o tema da ruptura entre o Benfica e a Olivedesportos/Sport TV e a aposta na rentabilização própria dos jogos caseiros do clube e da Benfica TV é um assunto que me interessa muitíssimo na perspectiva da viabilidade dos principais clubes portugueses, ao nível da alta competição.

Infelizmente, porém e como sempre sucede nas SAD, o estudo de viabilidade que o Benfica terá feito é secreto. Como secreto é até o preço que aceitou pagar pela transmissão dos jogos do campeonato inglês na Benfica TV, invocando uma suposta «cláusula de confidencialidade» (que não impediu, contudo, que o jornal Expresso noticiasse que o Benfica pagou à Liga inglesa o triplo do que pagava a Sport TV: 2,3 milhões por época). Mas foi um texto de Bagão Félix, aqui publicado há dias, que me chamou a atenção para uma perspectiva que ainda não tinha considerado. Escreveu ele que a transmissão dos jogos da Luz na Benfica TV vai permitir servir a «verdade desportiva» . Ou seja, como se adivinha, vai permitir reduzir à opinião dos benfiquistas de serviço à Benfica TV as incidências dos jogos. Ora, para quem como eu, já teve ocasião de assistir ao número cómico-surreal que são os comentários dos locutores da Benfica TV, feitos em directo e sobre jogos que eles não podem mostrar, é fácil de imaginar o que seja a «verdade desportiva» nas mãos daquelas criaturas. Mas, não só: a transmissão da Benfica TV vai passar a ser a única fonte visual dos jogos transmitidos. E imaginem que há, por exemplo, uma jogada duvidosa dentro da área do Benfica e que só o slowmotion e a repetição da jogada permitem concluir se foi ou não penalty: acham que a Benfica TV o vai fazer? Acham que ela se vai preocupar em esclarecer se foi ou não penalty contra o Benfica não assinalado? E se, a seguir, for o FC Porto a transmitir os jogos do Dragão no Porto-Canal (que, diga-se de passagem, não tem nada a ver com a caricatura de jornalismo e tudo o resto que se faz na Benfica-TV)?

O problema destes apologistas da «verdade desportiva» nem é, principalmente, os sucessivos tiros nos pés que eles dão e que reduzem a sua verdade a uma caricatura do que apregoam. O problema maior é que, à força dese tentarem convencer que só a sua verdade é que conta e é «desportiva» , já perderam a noção do ridículo em que caem. É como a raposa de guarda ao galinheiro.

4- No espaço de três jogos e dez dias, Sergio Ramos, central do Real Madrid, alcançou a proeza, digna do Guinness, de cometer cinco penalties, nenhum dos quais assinalado pelo árbitro: um em Barcelona, no jogo da Taça do Rei, quando havia 0-1; outro em Madrid, verdadeiramente escandaloso, quando havia 2-1 para o Real e faltava um minuto para o fim; e mais três em Manchester, o último dos quais igualmente de bradar aos céus. Junte-se a isso a expulsão de Nani e só se pode afirmar que José Mourinho bem andou em reconhecer a ajuda do árbitro na qualificação para os quartos da Champions. Mas, mais papistas do que o próprio Papa, há jornalistas portugueses que acham que o patriotismo consiste em não dar importância a estas coisas, se elas beneficiam portugueses envolvidos. Mas, se tem sido ao contrário, cinco penalties a favor do Real não marcados em três jogos decisivos consecutivos..., ai meu Deus, o que não se teria escrito!

segunda-feira, junho 10, 2013

TUDO TÃO PREVISÍVEL! (5 MARÇO 2013)

1- Caros correligionários nortistas: querem saber qual é a equipa que Vítor Pereira vai pôr a jogar no próximo encontro? Eu digo-vos. Partindo do princípio que Mangala e Moutinho recuperam das lesões musculares contraídas nos treinos (o que não é nada certo, porque no FC Porto todas as lesões são de cura prolongada), ele vai receber o Estoril com o seguinte onze de entrada: Helton, Danilo, Mangala, Otamendi e Alex Sandro; Lucho, Fernando e Moutinho; Varela, Jackson e Izmailov. Aí pelos 60 minutos, fará o favor dc tirar o lzmailov e meter o James e, se as coisas estiverem mesmo complicadas, tirará o Varela para meter o Atsu. Como é que eu sei? É facílimo: a menos que a derrota abale as suas certezas de forma gritante, Vítor Pereira mete sempre a jogar os mesmos do jogo anterior e aqueles que, desde o início da época, decidiu que seriam o seu onze de escolha. Seja contra quem for o jogo, jogue o adversário como jogar, seja necessário defender ou atacar.

Pode o Manchester United, o Tottenham, o Milan, cobiçar o James, é absolutamente indiferente: para Vítor Pereira, estão todos enganados - bom mesmo é o Silvestre Varela, que, não se entende por que razão, ninguém cobiça. Pode meia Europa andar com o Atsu debaixo de olho e o próprio preferir esperar para ver antes de renovar contrato com o FC Porto, nada disso muda a ideia feita de Vítor Pereira: o lugar de Atsu é no banco, como suplente de Varela e de Izmailov. Pode o sistema de 4x3x3, que ele herdou e manteve, precisar, por natureza, de dois extremos capazes de ir à linha cruzar e assistir o ponta de lança coisa que nem Varela nem Izmailov sabem ou estão dispostos a fazer - pouco importa, ele prefere jogar assim e ficar um jogo inteiro a ver um ponta-de-lança tão excepcional como Jackson Martinez esperar em vão receber jogo das alas.

Foi assim que Vítor Pereira se apresentou em Alvalade. Precisou de uma hora para perceber que o Izmailov não abria jogo e fugia do flanco como diabo da cruz, e precisou ainda de mais dez minutos até se cansar de ver o Varela na sua habitual postura de tratador da relva, que por ali se passeia, sem pressa nem engenho, como se tudo aquilo não fosse nada com ele. Em Alvalade, o FC Porto deixou mais dois pontos devido à estratégia ganhadora do seu treinador.

Por favor senhores jornalistas: quando escreverem que hoje todos os portistas estão já rendidos a Vítor Pereira, lembrem-se de abrir uma excepção para mim, o último dos gauleses a ser subjugado. A posse de bola, que ele tanto privilegia, é, como disse Lucho Gonzalez, tão bonita quanto inútil, se não é capaz de abrir espaços para chegar ao golo. E um treinador que prefere o Varela ao James Rodriguez, como já o havia mostrado no ano passado, para mim é alguém que não distingue um Fiat 500 de um Ferrari. (Sim, eu sei: o James ainda não está na sua forma habitual. E, então, qual foi a última vez que o Varela esteve em forma aceitável?).

2- A única coisa consoladora, vagamente consoladora, do empate em Alvalade, foi constatar o respeitinho que o FC Porto impõe a todos. Mesmo desfalcado de Mangala e Moutinho, mesmo com James e Atsu sentados no banco até mais não dar, o FC Porto teve o dobro de posse de bola do Sporting e o triplo de cantos, ataques, remates e remates perigosos. A única coisa em que ficaram empatados, além do resultado final, foi no número de oportunidades de golo. Mas toda a gente sentenciou que o Sporting tinha feito uma grande exibição e até pareceu que tinha nascido uma alma nova aos devastados leõezinhos. E eu percebo o sentimento, porque, na verdade, todos sabemos que este FC Porto, deveria ter ganho tranquilamente em Alvalade. Com qualquer treinador. Porque, para ser treinador desta equipa, basta não complicar, pôr os melhores a jogar e deixar as coisas correrem por si, naturalmente.

3- Também me serviu de fraco consolo ver o banho de bola que o Benfica levou em Aveiro. A ganhar desde os 15 minutos, com um daqueles pretensos penalties a que jamais me habituarei (desta vez um cabeceamento feito a meio metro contra o braço de um defensor de costas para a jogada), só por uma vez mais o Benfica esteve à beira de poder marcar. No resto do tempo, Costinha cumpriu a sua promessa de não jogar de autocarro: o Beira-Mar teve mais bola, mais ataques, mais remates e mais ocasiões de golo — que, com um ponta-de-lança um pouco mais inspirado e esforçado que Yazalde, teriam ferido de morte a águia e feito justiça ao resultado. E o melhor em campo foi alguém que não me recordo de ter visto jogar antes e que francamente me impressionou: o médio volante aveirense Ruben. Para além dele, que fez gato-sapato do meio campo benfiquista, retive a cotovelada voluntária de Cardozo na cara de um adversário, que, nos saudosos tempos dos sumaríssimos, lhe custaria dois jogos de fora...fosse ele jogador do FCP. Mas quando pontapear um adversário no chão, com o jogo interrompido, e agarrar o árbitro pelos colarinhos só dá um jogo de castigo, como não há-de o bom do Cardozo (que eu até admiro bastante) não se convencer que tudo lhe é permitido? Ah, e gostaria de ter visto, só para tirar umas dúvidas genuínas, a repetição de um lance aos 88 minutos, dentro da área do Benfica, em que Garay salta por cima de um adversário para cortar a bola...

4- Apresentadas as contas de gestão dos três grandes, relativas ao primeiro semestre desta época, confirma-se que o Sporting está tecnicamente falido e que à dívida acumulada e insustentável se junta uma gestão corrente largamente deficitária. Razão tem o presidente do Benfica para desconfiar que se prepara um perdão da banca, como única forma de evitar o estoiro de um dos históricos do futebol português. Quanto aos candidatos à presidência do clube, nem uma palavra de concreto sobre o assunto...

O Benfica saiu positivo com as vendas de jogadores e conseguiu diminuir os custos salariais. Cumprindo uma promessa eleitoral, Vieira prepara se para o salto no vazio que é assumir directamente a transmissão dos jogos do Benfica na Benfica TV, começando, por ora, por anunciar a compra dos direitos do campeonato inglês. Este é um lema de uma importância extrema, que daria material para todo um artigo. Assumindo o desafio numa altura em que o mercado publicitário enfrenta a sua maior crise dos últimos vinte anos, o Benfica corre riscos extremos e, das duas uma: ou a decisão se revelará acertada, premiando visão e coragem, ou redundará num desastroso tiro nos pés. Para já, o que sabe é que, apesar do saldo positivo da conta de exploração do primeiro semestre da época 2012/13, o Benfica prepara-se para ir ao mercado, pedir um empréstimo de 80 milhões, sob a forma de obrigações que deverão andar próximo dos 8% de juros uma brutalidade, que reflecte alguma pressão inadiável.

Quanto às contas do FC Porto, também positivas, contêm, contudo algumas razões de preocupação, pelo menos vistas por alto e não em detalhe. Desde logo, a baixa acentuada das receitas de bilheteira; depois, o crescimento em cerca de 18% da massa salarial numa altura em que não há uma só empresa em Portugal que não tenha reduzido os custos salariais; e, finalmente, a receita anunciada com vendas de jogadores (16 milhões de euros), incrivelmente baixa se considerarmos que ela envolve uma série de vendas, como Guarín, Álvaro Pereira, Belluschi, Hulk (45 milhões só à sua conta) e até Falcao, que o Atlético de Madrid ainda não acabou de pagar.

Mesmo não esquecendo que parte dos passes dos jogadores não pertenciam ao clube, 16 milhões facturados parece incompreensivelmente pouco. Talvez o Conselho Fiscal tenha uma explicação - é para isso que foi eleito.

domingo, junho 09, 2013

CONTRADIÇÕES (26 FEVEREIRO 2013)

1- Bem à sua maneira, Jorge Jesus já tratou de espicaçar o Sporting e, do mesmo passo, desvalorizar uma eventual vitória do FC Porto em Alvalade, sábado que vem. Disse ele que o Sporting estava bem mais forte quando o Benfica lá foi vencer e que agora joga com metade do onze vindo da equipa B. Faz parte dos mind games em que ele é o principal especialista no nosso campeonato. Mas, à vista desarmada, eu não alcanço nenhuma diferença entre este Sporting de Fevereiro e aquele que, ao longo de um campeonato completamente coerente no desastre, ocupa um justíssimo 12º lugar. Todavia, é sabido que se alguma coisa um clássico tem é a capacidade de fazer transcender a equipa que no momento está por baixo. Sendo favorito em Alvalade, o FC Porto não pode e não vai contar com um passeio.

2- E, por falar em passeios, lembrei-me, ao ver o Benfica-Paços de Ferreira, de alguns benfiquistas que conheço, que acham sempre que as outras equipas jogam muito menos contra o Porto do que contra o Benfica. E não o dizem em tom de opinião, mas de suspeita. Pois o Paços, terceiro classificado do campeonato, chegou à Luz e à primeira oportunidade, ao minuto sétimo, abriu uma avenida na zona frontal da defesa, por onde o Benfica chegou ao golo e logo se percebeu que o jogo estava entregue. Daí até final, o terceiro do campeonato apenas mostrou uma defesa macia e simpática e um ataque simpático e macio, com verdadeiro terror de ultrapassar com bola o meio-campo: nem sombra da coragem de que falou o seu treinador. Uma semana antes, a Académica, sem pergaminhos a mostrar, passou 95 minutos a defender a sua grande área com todos os jogadores, de tal modo que o golo salvador do Benfica, nos últimos segundos da partida, nasceu de uma abertura do meio do seu meio campo, feita pelo guarda-redes Artur. Ao menos no Dragão atacou várias vezes com perigo, esteve a ganhar e pregou um valente susto...

3- Mais um valente susto apanhou o FC Porto também contra o Rio Ave. Tal como sucedera quinze dias antes contra o Olhanense, também esteve a perder, mas desta vez conseguiu dar a volta completa, já bem perto do fim. Pedras nucleares da equipa, como Moutinho e Jackson, revelaram o cansaço do jogo com o Málaga, apenas três dias antes (suponho que terá sido a expectativa do jogo da Taça da Liga, marcado para meio da semana mas entretanto adiado, a única explicação racional para não ter jogado contra o Rio Ave domingo ou segunda). Alex Sandro fez muita falta, não obstante a bela estreia de Quiñones; Atsu também deixou saudades e James tarda a encontrar ritmo de jogo, mas, apesar de tudo, foi dele a belíssima assistência para o golo da vitória - coisa que um Varela a tempo inteiro jamais consegue fazer. O meio-campo, zona estratégica para o tipo de jogo implantado por Vitor Pereira, sofre do desastrado momento de forma de Lucho (que nele é sabido acontecer todos os anos, a meio da época), e do regresso de Fernando ao seu pior - passes errados perigosos, atrapalhação constante, debilidades técnicas gritantes, que se tornam patéticas quando decide subir ou rematar. No flanco direito, para colmatar a inutilidade de Varela, está um Danilo que não tem nada a ver com Alex Sandro e muito pouco a ver com os 17 milhões que custou. Correndo o risco de me tomarem por louco, direi que temos quem, actualmente marginalizado e descartado, recorde como bem melhor: Fucile, esse mesmo. Mas também Souza eu achava bem melhor que Fernando e foi mandado embora; e Iturbe é bem melhor que Varela e foi emprestado; e Atsu é infinitamente melhor e não tem lugar cativo. Enfim, dirão que tudo é subjectivo e questão de opiniões, mas a verdade é que também há dados objectivos que permitem analisar friamente o desempenho prático de cada um. E preciso é consultá-los.

Depois de um jogo muito bem conseguido contra o Málaga, apenas com um pouquinho de ambição a menos para chegar ao 2-0 que teria sido justo, o FC Porto repetiu contra o Rio Ave o longo jogo sonolento que lhe custou dois impensáveis pontos contra o Olhanense. Nos últimos quatro jogos, incluindo o da Champions, aconteceu uma coisa rara: Helton não fez uma única defesa. E, mesmo assim, encaixou dois golos, em ambos deixando a sensação de que poderia ter feito mais. Como a equipa vem alternando o bom com o mau, é de esperar que em Alvalade regresse ao bom, antes de se mentalizar para a determinante viagem à Andaluzia.

4- Incapaz de atingir o seu grande objectivo, que era o de travar os anos de conquista do FC Porto, o Apito Dourado desforrou-se no Boavista - que, juntamente com o FCP, constituiu o outro único alvo de tanto empenho. Escrevi na altura que a sanção de despromoção aplicada ao Boavista com fundamento numa nebulosa acusação de tentativa de coacção sobre os árbitros me parecia mais destinada a salvar a face dos justiceiros do que a fazer justiça. Mas o CD da Liga, escudado nas brilhantes teses jurídicas do seu presidente, Ricardo Costa, e num parecer do mestre Freitas do Amaral, foi destemidamente em frente, até às últimas consequências. Obviamente, espero que agora, com a reintegração do Boavista e a obrigação de o indemnizar pelos danos causados com a sua condenação, quem foi responsável seja chamado a pagar solidariamente. Como dizem os brasileiros, «ajoelhou, tem de rezar».

5- Muito tenho escrito sobre o deplorável estado do relvado do Dragão (que ainda no jogo contra o Málaga poderá ter estado na origem de se ter falhado o segundo golo). E também sobre o de Alvalade e outros mais. Pois devo dizer que fiquei estupefacto ao ver o estado do relvado de S. Siro para receber um Milan-Barcelona, ou o do Galatasaray. Como é que a UEFA consente relva dos destes na principal competição mundial de clubes?

6- Há dias, alguém escreveu aqui que uma forte corrente de sportinguistas queria Luís Figo na presidência do clube, devido «ao seu prestigio e forma de estar na vida». Tenho-me lembrado dessa frase ao ler os relatos do julgamento do Tagus Park cuja administraçào, incluindo o actual acionista maioritário do Belenenses, é acusada de ter utilizado dinheiros públicos para pagar 750.000 euros a Luís Figo, em troca do seu apoio eleitoral a José Sócrates. O tal pequeno-almoço mais caro da história. O próprio Luís Figo só não está também no banco dos réus porque generosamente o Ministério Público aceitou a sua explicação de que não sabia que o Tagus Park era uma empresa de capitais públicos - o que, juridicamente, muda a natureza do crime de corrupção. Assinou um contrato em que uma empresa se dispunha a pagar-lhe 750.000 euros ao longo de três anos, mas não teve a curiosidade ou a cautela de se informar de que tipo de empresa se tratava...

Na Assembleia da República, respondendo a uma deputada do Bloco de Fsquerda, que questionava o seu vencimento como presidente do BPI, Fernando Ulrich lembrou-lhe que o seu vencimento era decidido e pago por uma empresa privada e perguntou-lhe por que não questionava ela também o vencimento do treinador do Benfica. Perguntou e respondeu, emudecendo-a: «porque, se o fizesse, podia perder votos e comigo não perde nenhum». É disso mesmo que se trata: o povo escandaliza-se porque um deputado recebe pouco mais de 3.000 euros por mês e um ministro pouco mais de 4.000. Mas já as fortunas que ganham jogadores, treinadores ou dirigentes, isso não escandaliza ninguém. Mesmo que depois os clubes estejam falidos e vão pedir ajudas aos governos. Pagas com o dinheiro de quem paga impostos.