quarta-feira, junho 12, 2013

NA HORA DA VERDADE PETER NÃO FALHA (19 MARÇO 2013)

1- O Principio de Peter estabelece uma regra cristalina: todos nós temos o nosso patamar de competência, acima do qual as coisas ainda podem correr bem durante uns tempos, mas fatalmente hão-de correr mal na hora da verdade. Em Málaga, Vítor Pereira deu uma eloquente demonstração práctica da actualidade do Princípio de Peter, mostrando que não é impunemente que se salta do banco do Santa Clara, da 2ª Liga, para o de um clube que é crónico candidato ao título e passageiro habitual da Liga dos Campeões. Como escrevi quando ele foi escolhido, compreendi a escolha à luz da deserção de Villas Boas e da urgência em encontrar treinador, já com a equipa a iniciar o estágio de pré-época, no Verão de 2011. Mas não compreendi a extensão do vínculo para o ano em curso. Durante estas duas épocas, Vítor Pereira deu a quem quis ver variadíssimas demonstrações da sua insuficiente competência técnica para estar à frente de uma equipa de luxo, como é a do FC Porto. Repito que, pessoalmente, não tenho dúvidas de que se trata de uma pessoa séria, trabalhadora e bem intencionada — mas isso não chega, como não chegou ao Papa Francisco para treinar o San Lourenzo de Almagro.

Nestes dois anos, vi Vítor Pereira andar à toa, primeiro limitando-se a deixar que fosse a equipa e a categoria dos seus jogadores a carrega-lo às costas para o que contou muito a superior capacidade de Hulk de resolver jogos sozinho e o famigerado espírito do balneário portista. Foram eles que lhe deram o título do ano passado, mas não podiam dar-lhe o que ele não tem, por si mesmo: uma competência técnica que seja capaz de retirar o melhor de cada um e o melhor da equipa. Como não me canso de escrever, duvido que perceba alguma coisa de futebol um treinador que deve ser o único apreciador do jogo em todo o planeta que não entende que James Rodriguez e Cristian Atsu são infinitamente melhores do que Silvestre Varela. Mas isso é apenas um exemplo, embora extremo e elucidativo. Nestes dois anos, Vítor Pereira também se revelou incapaz de potenciar quase todos os novos jogadores que despontaram no clube, desprezando-os ou abrindo mão deles: Atsu, Iturbe, Sérgio Oliveira, Djalma, Souza, Delatorre. Agarrou-se a um núcleo duro de jogadores, que explorou até à exaustão, porque são os que lhe garantem o tal jogo de «posse de bola», triste imitação de um Barcelona, sem escola nem Messi, e que ele, à falta de melhor, resolveu apresentar como resultado do seu ano de aprendizagem. Ele acha que, enquanto tiver a bola, a equipa não corre riscos e, por isso, detesta jogadores que arriscam, que rompem com aquele colete de forças inócuo, e prefere outros que lhe dão uma falsa sensação de segurança e controlo do jogo: Defour, Fernando, Varela, Castro, ou um Lucho rebentado ou em fim de ciclo. Toda a gente saudou a refundação táctica que Vítor Pereira tinha engendrado para um FC Porto sem Hulk. Mas todos fingiram não ver que o esquema dependia de três nomes e não existia sem eles: Moutinho, como pivot de tudo; James (que ele não entende), como criador de desequilíbrios; e Jackson Martinez, como finalizador.

Em Málaga, como qualquer aprendiz de futebol sabe, a melhor, a única forma, de defender a vantagem de 1-0 era garantir pelo menos a marcação de um golo — tarefa não muito complicada, face a uma defesa sabidamente frágil. Na véspera do jogo, aliás, Vítor Pereira não se dispensou de dizer que a equipa não se iria descaracterizar nem mudar de processo de jogo. Mas, na hora da verdade, o que fez foi exactamente o contrário: borrou-se de medo e montou uma estratégia e uma equipa para defender o 1-0. Já vi este filme inúmeras vezes, posto em exibição por treinadores portugueses sem estaleca para os grandes jogos europeus. Pensam, pensam, dormem a sonhar com tácticas que surpreendam o adversário e, no momento da decisão, mudam a equipa e a sua estratégia de jogo. Invariávelmente, mudam-na para defender e, invariavelmente também, o resultado dessa mudança traduz-se num desastre. Foi o que fez Vítor Pereira em Málaga, com o resultado de ter perdido não apenas uma eliminatória totalmente ao alcance do FC Porto, de ter desperidiçado uma oportunidade caída do céu e do sorteio para seguir para os quartos da Champions, mas também caindo com tamanho estrondo e falta de classe que deixou a equipa destroçada, física, emocional e psiquicamente, como se viu este domingo no Funchal. Ao ponto de, mais do que provavelmente, ter também entregue o título nacional ao Benfica.

Quando optou por entrar em campo em Málaga com um ataque reduzido a Jackson Martinez (visto que Defour nunca foi, nem sabe ser, extremo, e Varela não conta), Vítor Pereira fez o três em um:
- transmitiu aos seus jogadores uma mensagem clara de que estava com medo do adversário e era preciso defender desde o primeiro minuto; reduziu as hipóteses de marcar um golo a factores de pura sorte do jogo;
- rebentou com Jackson Martinez (com consequências que pagaria mais tarde), ao forçá-lo a passar metade do jogo a correr, sem apoio algum, a impossíveis passes de 30 e 40 metros — única estratégia de ataque engendrada.

É certo que depois contou com as traições dc Defour e do departamento médico do FC Porto que, tal como já sucedera com James, demorou muito mais tempo do que o razoável a recuperar João Moutinho e, afinal, entregou-lho sem estar em condições. Mas a traição de Defour é uma história diferente e que um treinador avisado teria evitado. Para começar, é a própria inclusão de Defour que está em causa: trata-se de um jogador absolutamente banal, de equipa do fim da tabela. Tem a seu favor ser esforçado e generoso, mas é tecnicamente limitado, nada esclarecido e precipitado em todas as acções, seja a rematar à baliza ou a entrar ao desarme. A conjugação destas características torna-o um jogador perigoso num jogo daquela importância, para mais se já levou um amarelo e continua de cabeça quente. Sem desculpar minimamente a indesculpável atitude de Defour (três meses sem ordenado seria o mínimo que ele devia pagar ao clube pelos danos causados), é indesculpável também que Vítor Pereira não tenha lido o cuidado elementar de o retirar após o primeiro amarelo. Tanto mais que, já no ano passado contra o Apoel e também na Champions, o FC Porto vivera episódio semelhante com Fucile, que terminou com a sua expulsão, derrota no jogo e eliminação da competição. Ora, um treinador está no banco para aprender com os erros cometidos, para conhecer o temparamento dos seus jogadores e defender a equipa dos seus excessos previsíveis. Não para estar a tirar apontamentos enquanto o jogo decorre ou ficar de mãos nos bolsos, estático e silencioso, a assistir a tudo, como se, bom ou mau, nada houvesse a fazer contra o destino.

Espanta-me que Pinto da Costa - que percebe muito mais de futebol a dormir que Vítor Pereira acordado
não lhe tivesse pedido antes do jogo a equipa que ele ia fazer alinhar em Málaga. E que, se o fez, não lhe tenha logo dito: «esse onze e essa estratégia de medo estão condena-dos ao desastre. Acredite em mim, que já vi isso acontecer antes».

2- Uma única nota para o empate do FC Porto no Funchal. Quando finalmente íamos jogar onze contra onze — isto é, com o Varela no banco — Atsu vai contra a bancada em construção e sai lesionado aos 5 minutos. Depois, quando ia afastar uma bola fácil, Mangala tropeça no relvado, em estilo de chapa ondulada, e permite o golo do empate. Ou seja: o campo foi determinante no resultado. E é extraordinário que o Marítimo e o Governo Regional da Madeira, olhando para o Estádio dos Barreiros — que jamais enchia na sua dimensão anterior e que tem um campo curto, estreito e com um relvado impraticável —, em lugar de fazer obras que o tornassem aceitável para uma primeira divisão, tenham antes optado por uma despesa imensa para aumentar bancadas condenadas às moscas e que, ainda para mais, na ganância de chegarem mesmo em cima do campo, são uma ameaça à integridade física dos jogadores. Assim se percebe porque se joga mal futebol por cá e porque está a Madeira falida.

terça-feira, junho 11, 2013

DAQUI ATÉ AO DRAGÃO (12 MARÇO 2013)

1- Quinze minutos: era tudo o que deveria ter visto do Porto-Estoril. Porque a partir daí e a ganhar por 2-0, o Porto deixou de jogar e o jogo acabou. Sim, já sei que havia o jogo de Málaga no subconsciente dos jogadores, que a época já leva 37 jogos e as pernas começam a pesar, etc. e tal. Mas, do Estoril até Málaga, mediavam seis dias de descanso — uma distância suficientemente grande para apenas um quarto de hora de futebol empenhado. Talvez não seja deslocado recordar que o público paga para ver 90 minutos de espectáculo e não apenas quinze, com artistas que ganham o que ninguém mais ganha em Portugal. E talvez também não tivesse sido má ideia recordar aos artistas do FC Porto que talvez este campeonato se venha a decidir por diferença de golos, o que justificaria o esforço de ir um pouco mais além.

Foi isso que fez o Benfica com o Gil Vicente: marcou cinco e ultrapassou a diferença de goal average que tinha em relação ao FC Porto. Deste jogo, vi apenas os primeiros vinte minutos e depois desisti, impressionado pela eficácia benfiquista: um remate à baliza, dois golos, ambos oferecidos. Quando vejo equipas entregarem assim os jogos ao Benfica, logo para começo de conversa, desisto de ver: também não é espectáculo que se recomende.

Olhando para a diferença abissal entre os dois primeiros e os restantes, eu penso, ao contrário de Jorge Jesus, que é muito possível, e mesmo provável, que o campeonato se decida no Dragão. E, para essa decisão, o Benfica está neste momento, em vantagem. Se ganhar lá, será campeão certamente. Se perder mas lá chegar com 4 pontos de avanço, também. E, se empatar, tem todas as hipóteses a seu favor, se até lá não perder ou a vantagem pontual ou a da diferença de golos. Quer isto dizer que, para ser campeão, o caminho do FC Porto está cada vez mais estreito: não se pode permitir mais nenhum deslize ditado pela displicência, como sucedeu em Alvalade, no Dragão com o Olhanense, e ia sucedendo com o Rio Ave, também no Dragão. E, depois, terá de ganhar ao Benfica. Já vi isto mais fácil. Mas também já vi o FC Porto sair de situações piores.

2- Depois de anunciada a sua ressurreição no jogo com o FC Porto, o Sporting voltou à normalidade em Coimbra: as notícias felizes eram manifestamente exageradas e não tenho, infelizmente, qualquer dúvida de que o assomo de orgulho ferido que se viu contra o FC Porto não se irá repetir contra o Benfica.

Nada mudou no Sporting, a começar por aquela que, ao longo dos anos, aqui venho apontando como a razão primeira do seu declínio: a falta de uma mentalidade competitiva, que nunca procura responsabilidades próprias para os desaires, antes encontra sempre desculpas exteriores. Mais uma vez isso sucedeu no jogo contra o FC. Porto — onde, convém recordá-lo, o Sporting, jogando em casa, esteve sempre, sempre, à defesa, recuado e amedrontado. Mas, ao ver sportinguistas ilustres, como Dias Ferreira ou Eduardo Barroso, atira-rem-se à arbitragem, como tendo sido escandalosa, percebi que a atitude se mantém tal e qual. E porque foi a arbitragem escandalosa? Porque não mostrou o segundo amarelo a Otamendi (numa jogada de que, sinceramente, não me recordo, mas numa altura em que não faria qualquer diferença) e, sobretudo, por ter expulso os dois treinadores do Sporting. Mas algum deles terá escutado as palavras que os treinadores dirigiram ao árbitro e que terão justificado as expulsões? Como podem então concluir que elas foram escandalosas — só por terem acontecido? De Oceano, não se sabe o que terá dito, porque ninguém o referiu. E, de Jesualdo, sabe-se apenas a sua versão, de que terá dito ao árbitro «acaba com isto, antes que isto acabe mal». Não sei se é ou não razão para o expulsar do banco, mas não me parece muito adequado que um treinador se dirija ao árbitro, tratando-o por tu e dando-lhe ordens para acabar com o jogo, antes mesmo dos 90 minutos, sob pena de uma ameaça implícita. E garanto que, se fosse o treinador do FC Porto a jogar em casa um clássico, empatado a zero a poucos minutos do fim, o que eu acharia escandaloso é que ele pedisse ao árbitro para acabar com o jogo rapidamente Mas lá está: são mentalidades competitivas diferentes.

3- Como aqui escrevi a semana passada, o tema da ruptura entre o Benfica e a Olivedesportos/Sport TV e a aposta na rentabilização própria dos jogos caseiros do clube e da Benfica TV é um assunto que me interessa muitíssimo na perspectiva da viabilidade dos principais clubes portugueses, ao nível da alta competição.

Infelizmente, porém e como sempre sucede nas SAD, o estudo de viabilidade que o Benfica terá feito é secreto. Como secreto é até o preço que aceitou pagar pela transmissão dos jogos do campeonato inglês na Benfica TV, invocando uma suposta «cláusula de confidencialidade» (que não impediu, contudo, que o jornal Expresso noticiasse que o Benfica pagou à Liga inglesa o triplo do que pagava a Sport TV: 2,3 milhões por época). Mas foi um texto de Bagão Félix, aqui publicado há dias, que me chamou a atenção para uma perspectiva que ainda não tinha considerado. Escreveu ele que a transmissão dos jogos da Luz na Benfica TV vai permitir servir a «verdade desportiva» . Ou seja, como se adivinha, vai permitir reduzir à opinião dos benfiquistas de serviço à Benfica TV as incidências dos jogos. Ora, para quem como eu, já teve ocasião de assistir ao número cómico-surreal que são os comentários dos locutores da Benfica TV, feitos em directo e sobre jogos que eles não podem mostrar, é fácil de imaginar o que seja a «verdade desportiva» nas mãos daquelas criaturas. Mas, não só: a transmissão da Benfica TV vai passar a ser a única fonte visual dos jogos transmitidos. E imaginem que há, por exemplo, uma jogada duvidosa dentro da área do Benfica e que só o slowmotion e a repetição da jogada permitem concluir se foi ou não penalty: acham que a Benfica TV o vai fazer? Acham que ela se vai preocupar em esclarecer se foi ou não penalty contra o Benfica não assinalado? E se, a seguir, for o FC Porto a transmitir os jogos do Dragão no Porto-Canal (que, diga-se de passagem, não tem nada a ver com a caricatura de jornalismo e tudo o resto que se faz na Benfica-TV)?

O problema destes apologistas da «verdade desportiva» nem é, principalmente, os sucessivos tiros nos pés que eles dão e que reduzem a sua verdade a uma caricatura do que apregoam. O problema maior é que, à força dese tentarem convencer que só a sua verdade é que conta e é «desportiva» , já perderam a noção do ridículo em que caem. É como a raposa de guarda ao galinheiro.

4- No espaço de três jogos e dez dias, Sergio Ramos, central do Real Madrid, alcançou a proeza, digna do Guinness, de cometer cinco penalties, nenhum dos quais assinalado pelo árbitro: um em Barcelona, no jogo da Taça do Rei, quando havia 0-1; outro em Madrid, verdadeiramente escandaloso, quando havia 2-1 para o Real e faltava um minuto para o fim; e mais três em Manchester, o último dos quais igualmente de bradar aos céus. Junte-se a isso a expulsão de Nani e só se pode afirmar que José Mourinho bem andou em reconhecer a ajuda do árbitro na qualificação para os quartos da Champions. Mas, mais papistas do que o próprio Papa, há jornalistas portugueses que acham que o patriotismo consiste em não dar importância a estas coisas, se elas beneficiam portugueses envolvidos. Mas, se tem sido ao contrário, cinco penalties a favor do Real não marcados em três jogos decisivos consecutivos..., ai meu Deus, o que não se teria escrito!

segunda-feira, junho 10, 2013

TUDO TÃO PREVISÍVEL! (5 MARÇO 2013)

1- Caros correligionários nortistas: querem saber qual é a equipa que Vítor Pereira vai pôr a jogar no próximo encontro? Eu digo-vos. Partindo do princípio que Mangala e Moutinho recuperam das lesões musculares contraídas nos treinos (o que não é nada certo, porque no FC Porto todas as lesões são de cura prolongada), ele vai receber o Estoril com o seguinte onze de entrada: Helton, Danilo, Mangala, Otamendi e Alex Sandro; Lucho, Fernando e Moutinho; Varela, Jackson e Izmailov. Aí pelos 60 minutos, fará o favor dc tirar o lzmailov e meter o James e, se as coisas estiverem mesmo complicadas, tirará o Varela para meter o Atsu. Como é que eu sei? É facílimo: a menos que a derrota abale as suas certezas de forma gritante, Vítor Pereira mete sempre a jogar os mesmos do jogo anterior e aqueles que, desde o início da época, decidiu que seriam o seu onze de escolha. Seja contra quem for o jogo, jogue o adversário como jogar, seja necessário defender ou atacar.

Pode o Manchester United, o Tottenham, o Milan, cobiçar o James, é absolutamente indiferente: para Vítor Pereira, estão todos enganados - bom mesmo é o Silvestre Varela, que, não se entende por que razão, ninguém cobiça. Pode meia Europa andar com o Atsu debaixo de olho e o próprio preferir esperar para ver antes de renovar contrato com o FC Porto, nada disso muda a ideia feita de Vítor Pereira: o lugar de Atsu é no banco, como suplente de Varela e de Izmailov. Pode o sistema de 4x3x3, que ele herdou e manteve, precisar, por natureza, de dois extremos capazes de ir à linha cruzar e assistir o ponta de lança coisa que nem Varela nem Izmailov sabem ou estão dispostos a fazer - pouco importa, ele prefere jogar assim e ficar um jogo inteiro a ver um ponta-de-lança tão excepcional como Jackson Martinez esperar em vão receber jogo das alas.

Foi assim que Vítor Pereira se apresentou em Alvalade. Precisou de uma hora para perceber que o Izmailov não abria jogo e fugia do flanco como diabo da cruz, e precisou ainda de mais dez minutos até se cansar de ver o Varela na sua habitual postura de tratador da relva, que por ali se passeia, sem pressa nem engenho, como se tudo aquilo não fosse nada com ele. Em Alvalade, o FC Porto deixou mais dois pontos devido à estratégia ganhadora do seu treinador.

Por favor senhores jornalistas: quando escreverem que hoje todos os portistas estão já rendidos a Vítor Pereira, lembrem-se de abrir uma excepção para mim, o último dos gauleses a ser subjugado. A posse de bola, que ele tanto privilegia, é, como disse Lucho Gonzalez, tão bonita quanto inútil, se não é capaz de abrir espaços para chegar ao golo. E um treinador que prefere o Varela ao James Rodriguez, como já o havia mostrado no ano passado, para mim é alguém que não distingue um Fiat 500 de um Ferrari. (Sim, eu sei: o James ainda não está na sua forma habitual. E, então, qual foi a última vez que o Varela esteve em forma aceitável?).

2- A única coisa consoladora, vagamente consoladora, do empate em Alvalade, foi constatar o respeitinho que o FC Porto impõe a todos. Mesmo desfalcado de Mangala e Moutinho, mesmo com James e Atsu sentados no banco até mais não dar, o FC Porto teve o dobro de posse de bola do Sporting e o triplo de cantos, ataques, remates e remates perigosos. A única coisa em que ficaram empatados, além do resultado final, foi no número de oportunidades de golo. Mas toda a gente sentenciou que o Sporting tinha feito uma grande exibição e até pareceu que tinha nascido uma alma nova aos devastados leõezinhos. E eu percebo o sentimento, porque, na verdade, todos sabemos que este FC Porto, deveria ter ganho tranquilamente em Alvalade. Com qualquer treinador. Porque, para ser treinador desta equipa, basta não complicar, pôr os melhores a jogar e deixar as coisas correrem por si, naturalmente.

3- Também me serviu de fraco consolo ver o banho de bola que o Benfica levou em Aveiro. A ganhar desde os 15 minutos, com um daqueles pretensos penalties a que jamais me habituarei (desta vez um cabeceamento feito a meio metro contra o braço de um defensor de costas para a jogada), só por uma vez mais o Benfica esteve à beira de poder marcar. No resto do tempo, Costinha cumpriu a sua promessa de não jogar de autocarro: o Beira-Mar teve mais bola, mais ataques, mais remates e mais ocasiões de golo — que, com um ponta-de-lança um pouco mais inspirado e esforçado que Yazalde, teriam ferido de morte a águia e feito justiça ao resultado. E o melhor em campo foi alguém que não me recordo de ter visto jogar antes e que francamente me impressionou: o médio volante aveirense Ruben. Para além dele, que fez gato-sapato do meio campo benfiquista, retive a cotovelada voluntária de Cardozo na cara de um adversário, que, nos saudosos tempos dos sumaríssimos, lhe custaria dois jogos de fora...fosse ele jogador do FCP. Mas quando pontapear um adversário no chão, com o jogo interrompido, e agarrar o árbitro pelos colarinhos só dá um jogo de castigo, como não há-de o bom do Cardozo (que eu até admiro bastante) não se convencer que tudo lhe é permitido? Ah, e gostaria de ter visto, só para tirar umas dúvidas genuínas, a repetição de um lance aos 88 minutos, dentro da área do Benfica, em que Garay salta por cima de um adversário para cortar a bola...

4- Apresentadas as contas de gestão dos três grandes, relativas ao primeiro semestre desta época, confirma-se que o Sporting está tecnicamente falido e que à dívida acumulada e insustentável se junta uma gestão corrente largamente deficitária. Razão tem o presidente do Benfica para desconfiar que se prepara um perdão da banca, como única forma de evitar o estoiro de um dos históricos do futebol português. Quanto aos candidatos à presidência do clube, nem uma palavra de concreto sobre o assunto...

O Benfica saiu positivo com as vendas de jogadores e conseguiu diminuir os custos salariais. Cumprindo uma promessa eleitoral, Vieira prepara se para o salto no vazio que é assumir directamente a transmissão dos jogos do Benfica na Benfica TV, começando, por ora, por anunciar a compra dos direitos do campeonato inglês. Este é um lema de uma importância extrema, que daria material para todo um artigo. Assumindo o desafio numa altura em que o mercado publicitário enfrenta a sua maior crise dos últimos vinte anos, o Benfica corre riscos extremos e, das duas uma: ou a decisão se revelará acertada, premiando visão e coragem, ou redundará num desastroso tiro nos pés. Para já, o que sabe é que, apesar do saldo positivo da conta de exploração do primeiro semestre da época 2012/13, o Benfica prepara-se para ir ao mercado, pedir um empréstimo de 80 milhões, sob a forma de obrigações que deverão andar próximo dos 8% de juros uma brutalidade, que reflecte alguma pressão inadiável.

Quanto às contas do FC Porto, também positivas, contêm, contudo algumas razões de preocupação, pelo menos vistas por alto e não em detalhe. Desde logo, a baixa acentuada das receitas de bilheteira; depois, o crescimento em cerca de 18% da massa salarial numa altura em que não há uma só empresa em Portugal que não tenha reduzido os custos salariais; e, finalmente, a receita anunciada com vendas de jogadores (16 milhões de euros), incrivelmente baixa se considerarmos que ela envolve uma série de vendas, como Guarín, Álvaro Pereira, Belluschi, Hulk (45 milhões só à sua conta) e até Falcao, que o Atlético de Madrid ainda não acabou de pagar.

Mesmo não esquecendo que parte dos passes dos jogadores não pertenciam ao clube, 16 milhões facturados parece incompreensivelmente pouco. Talvez o Conselho Fiscal tenha uma explicação - é para isso que foi eleito.

domingo, junho 09, 2013

CONTRADIÇÕES (26 FEVEREIRO 2013)

1- Bem à sua maneira, Jorge Jesus já tratou de espicaçar o Sporting e, do mesmo passo, desvalorizar uma eventual vitória do FC Porto em Alvalade, sábado que vem. Disse ele que o Sporting estava bem mais forte quando o Benfica lá foi vencer e que agora joga com metade do onze vindo da equipa B. Faz parte dos mind games em que ele é o principal especialista no nosso campeonato. Mas, à vista desarmada, eu não alcanço nenhuma diferença entre este Sporting de Fevereiro e aquele que, ao longo de um campeonato completamente coerente no desastre, ocupa um justíssimo 12º lugar. Todavia, é sabido que se alguma coisa um clássico tem é a capacidade de fazer transcender a equipa que no momento está por baixo. Sendo favorito em Alvalade, o FC Porto não pode e não vai contar com um passeio.

2- E, por falar em passeios, lembrei-me, ao ver o Benfica-Paços de Ferreira, de alguns benfiquistas que conheço, que acham sempre que as outras equipas jogam muito menos contra o Porto do que contra o Benfica. E não o dizem em tom de opinião, mas de suspeita. Pois o Paços, terceiro classificado do campeonato, chegou à Luz e à primeira oportunidade, ao minuto sétimo, abriu uma avenida na zona frontal da defesa, por onde o Benfica chegou ao golo e logo se percebeu que o jogo estava entregue. Daí até final, o terceiro do campeonato apenas mostrou uma defesa macia e simpática e um ataque simpático e macio, com verdadeiro terror de ultrapassar com bola o meio-campo: nem sombra da coragem de que falou o seu treinador. Uma semana antes, a Académica, sem pergaminhos a mostrar, passou 95 minutos a defender a sua grande área com todos os jogadores, de tal modo que o golo salvador do Benfica, nos últimos segundos da partida, nasceu de uma abertura do meio do seu meio campo, feita pelo guarda-redes Artur. Ao menos no Dragão atacou várias vezes com perigo, esteve a ganhar e pregou um valente susto...

3- Mais um valente susto apanhou o FC Porto também contra o Rio Ave. Tal como sucedera quinze dias antes contra o Olhanense, também esteve a perder, mas desta vez conseguiu dar a volta completa, já bem perto do fim. Pedras nucleares da equipa, como Moutinho e Jackson, revelaram o cansaço do jogo com o Málaga, apenas três dias antes (suponho que terá sido a expectativa do jogo da Taça da Liga, marcado para meio da semana mas entretanto adiado, a única explicação racional para não ter jogado contra o Rio Ave domingo ou segunda). Alex Sandro fez muita falta, não obstante a bela estreia de Quiñones; Atsu também deixou saudades e James tarda a encontrar ritmo de jogo, mas, apesar de tudo, foi dele a belíssima assistência para o golo da vitória - coisa que um Varela a tempo inteiro jamais consegue fazer. O meio-campo, zona estratégica para o tipo de jogo implantado por Vitor Pereira, sofre do desastrado momento de forma de Lucho (que nele é sabido acontecer todos os anos, a meio da época), e do regresso de Fernando ao seu pior - passes errados perigosos, atrapalhação constante, debilidades técnicas gritantes, que se tornam patéticas quando decide subir ou rematar. No flanco direito, para colmatar a inutilidade de Varela, está um Danilo que não tem nada a ver com Alex Sandro e muito pouco a ver com os 17 milhões que custou. Correndo o risco de me tomarem por louco, direi que temos quem, actualmente marginalizado e descartado, recorde como bem melhor: Fucile, esse mesmo. Mas também Souza eu achava bem melhor que Fernando e foi mandado embora; e Iturbe é bem melhor que Varela e foi emprestado; e Atsu é infinitamente melhor e não tem lugar cativo. Enfim, dirão que tudo é subjectivo e questão de opiniões, mas a verdade é que também há dados objectivos que permitem analisar friamente o desempenho prático de cada um. E preciso é consultá-los.

Depois de um jogo muito bem conseguido contra o Málaga, apenas com um pouquinho de ambição a menos para chegar ao 2-0 que teria sido justo, o FC Porto repetiu contra o Rio Ave o longo jogo sonolento que lhe custou dois impensáveis pontos contra o Olhanense. Nos últimos quatro jogos, incluindo o da Champions, aconteceu uma coisa rara: Helton não fez uma única defesa. E, mesmo assim, encaixou dois golos, em ambos deixando a sensação de que poderia ter feito mais. Como a equipa vem alternando o bom com o mau, é de esperar que em Alvalade regresse ao bom, antes de se mentalizar para a determinante viagem à Andaluzia.

4- Incapaz de atingir o seu grande objectivo, que era o de travar os anos de conquista do FC Porto, o Apito Dourado desforrou-se no Boavista - que, juntamente com o FCP, constituiu o outro único alvo de tanto empenho. Escrevi na altura que a sanção de despromoção aplicada ao Boavista com fundamento numa nebulosa acusação de tentativa de coacção sobre os árbitros me parecia mais destinada a salvar a face dos justiceiros do que a fazer justiça. Mas o CD da Liga, escudado nas brilhantes teses jurídicas do seu presidente, Ricardo Costa, e num parecer do mestre Freitas do Amaral, foi destemidamente em frente, até às últimas consequências. Obviamente, espero que agora, com a reintegração do Boavista e a obrigação de o indemnizar pelos danos causados com a sua condenação, quem foi responsável seja chamado a pagar solidariamente. Como dizem os brasileiros, «ajoelhou, tem de rezar».

5- Muito tenho escrito sobre o deplorável estado do relvado do Dragão (que ainda no jogo contra o Málaga poderá ter estado na origem de se ter falhado o segundo golo). E também sobre o de Alvalade e outros mais. Pois devo dizer que fiquei estupefacto ao ver o estado do relvado de S. Siro para receber um Milan-Barcelona, ou o do Galatasaray. Como é que a UEFA consente relva dos destes na principal competição mundial de clubes?

6- Há dias, alguém escreveu aqui que uma forte corrente de sportinguistas queria Luís Figo na presidência do clube, devido «ao seu prestigio e forma de estar na vida». Tenho-me lembrado dessa frase ao ler os relatos do julgamento do Tagus Park cuja administraçào, incluindo o actual acionista maioritário do Belenenses, é acusada de ter utilizado dinheiros públicos para pagar 750.000 euros a Luís Figo, em troca do seu apoio eleitoral a José Sócrates. O tal pequeno-almoço mais caro da história. O próprio Luís Figo só não está também no banco dos réus porque generosamente o Ministério Público aceitou a sua explicação de que não sabia que o Tagus Park era uma empresa de capitais públicos - o que, juridicamente, muda a natureza do crime de corrupção. Assinou um contrato em que uma empresa se dispunha a pagar-lhe 750.000 euros ao longo de três anos, mas não teve a curiosidade ou a cautela de se informar de que tipo de empresa se tratava...

Na Assembleia da República, respondendo a uma deputada do Bloco de Fsquerda, que questionava o seu vencimento como presidente do BPI, Fernando Ulrich lembrou-lhe que o seu vencimento era decidido e pago por uma empresa privada e perguntou-lhe por que não questionava ela também o vencimento do treinador do Benfica. Perguntou e respondeu, emudecendo-a: «porque, se o fizesse, podia perder votos e comigo não perde nenhum». É disso mesmo que se trata: o povo escandaliza-se porque um deputado recebe pouco mais de 3.000 euros por mês e um ministro pouco mais de 4.000. Mas já as fortunas que ganham jogadores, treinadores ou dirigentes, isso não escandaliza ninguém. Mesmo que depois os clubes estejam falidos e vão pedir ajudas aos governos. Pagas com o dinheiro de quem paga impostos.

sábado, junho 08, 2013

SINAIS DE PÂNICO (19 FEVEREIRO 2013)

1- Estamos a entrar na altura da época em que, para os grandes clubes, tudo se decide: o desfecho interno e o desfecho europeu de um ano. É nesta altura que, tradicionalmente, o Benfica e os benfiquistas começam a dar sinais de nervosismo crescente. Sinais que este ano não são de nervosismo apenas, mas de verdadeiro pânico: o pânico de falharem mais uma época. Há vários factores objectivos que contribuem para este estado de alarme vermelho:

- a carreira na Champions foi um falhanço total, agravada pelo facto de o FC Porto se manter ainda em prova;

- passou o período em que o Benfica se podia ter adiantado decisivamente ao FC Porto no campeonato, aproveitando o jogo da Luz e os dois meses em que o FC Porto teve de jogar desfalcado de James e Atsu, e o Benfica nada aproveitou, não conquistando um único ponto de avanço que lhe desse alguma margem de folga para o futuro;

- aparentemente, falhou também a tentativa de afastar na secretaria o FC Porto da Taça da I.iga - o tradicional prémio de consolação benfiquista. A perspectiva de poder encerrar a época apenas com a conquista da Taça de Portugal, e quase por sorteio, é um pesadelo;

- como ficou evidente nos últimos jogos, a equipa começa a dar sinais evidentes do cansaço e da desinspiração que a costumam atingir no momento decisivo da época;

- acresce a sensação de que no que toca à valorização de jogadores para venda (o melhor registo de Jorge Jesus nas águias), o Benfica já não dispõe de anéis de valor seguro à vista, em contraste com o FC Porto, que tem, pelo menos, uma meia dúzia de activos ao nível dos 20 milhões para cima, entre Alex Sandro, Mangala, Otamendi, Maicon, João Moutinho, James, Atsu, Jackson Martinez.

Não ganhar o campeonato este ano e ver o FC Porto assinar o tricampeonato seria um desastre de consequências imensas para o Benfica. Se a isto somarmos o péssimo momento em que vai ser necessário renegociar o contrato dos direitos televisivos (numa conjuntura em que, pela primeira vez, nenhuma das três televisões generalistas quis ficar com os jogos da Liga), facilmente se alcança como, de um momento para o outro, os amanhãs que cantavam podem ficar a assobiar baixinho. Daí aos sinais de pânico a distância é curta e mede-se por alguns indícios reveladores:

- a militante entrada em cena da CD da Liga, sempre pronta a acorrer nos momentos de necessidade, e revelada, não só na citada tentativa de afastar administrativamente o FC Porto da Taça da Liga, como ainda em vários outros detalhes, dos quais o mais recente e despudorado foi o castigo de um jogo de suspensão a Cardozo, culpado de ter pontapeado um adversário, com o jogo parado e, a seguir, ter agarrado o árbitro pelo colarinho, só não tendo ido mais avante porque os colegas o seguraram (um interessante precedente disciplinar que, todavia, suponho e espero, não ficará como doutrina mas apenas como excepção adhoc);

- a escolha de João Ferreira (o árbitro expressamente pedido por Vieira a Valentim Loureiro, noutros tempos), para dirigir o Benfica-Porto: o que diriam se, para dirigir o Porto-Benfica da penúltima jornada, fosse nomeado o árbitro preferido de Pinto da Costa?

- uma semana inteira passada a investir contra Pedro Proença, de modo a criar a ideia de que só por culpa dele o Benfica não venceu o Nacional, quando a única coisa de que talvez (talvez...) se possam queixar é da expulsão de Matic... a 30 segundos do fim. Chegaram mesmo ao ponto de pôr na boca de Proença suposta ameaça verbal a Cardozo, cuja testemunha ou testemunhas não foram indicadas.

- a arbitragem do jogo com a Académica: quatro cantos inventados a favor do Benfica; a melhor oportunidade de golo nascida de uma clara falta de Lima, que nem o árbitro nem o auxiliar conseguiram ver; os dois únicos ataques da Académica, por sinal bem perigosos, cautelarmente interrompidos antes do fim por um off-side e falta inexistentes; os cinco minutos de desconto sem cabimento; o penalty salvador ao minuto 90+5, numa disputa de bola em que ambos os jogadores se agarram (foto da página 9 da edição de ontem deste jornal e demais imagens, fotográficas e televisivas).

- as declarações de Jorge Jesus antes e depois do jogo com a Académica, bem reveladoras do ambiente de terror em que ele já vive, por causas externas e pressões internas.

- e, acima de tudo, a intensa e indisfarçada campanha montada pelos jornalistas militantes do Benfica, criando um clima adequado às golpaças e ao branqueamento do que não convém demasiadamente exposto.

Já conheço o ambiente e detecto à légua os seus sinais. Quer dizer que o Benfica, todo o planeta-Benfica, entrou em modo de pânico e lançará mão do que for necessário para evitar a derrota que tanto teme. Mas é justamente nestas alturas, e reagindo ao cerco, que o FC Porto se costuma transcender.

2- Por todas as razões, mas sobretudo por respeito ao que dele conheço, excluo naturalmente Vítor Serpa da criação do ambiente de que acima falei. Mas a sua tese de que Pedro Proença não poderia ser nomeado para um banal jogo de campeonato do Benfica, com o único argumento de que ele é «um árbitro maldito» para o Benfica, apesar de benfiquista assumido, é obviamente insustentável. E não apenas porque Proença é tido actualmente como um dos melhores, se não o melhor árbitro do mundo — o que já seria argumento suficiente para quem defende que os melhores árbitros devem ser chamados à linha da frente. Mas, sobretudo, porque, a valer essa tese, e como já escreveu Rui Moreira, regressamos ao tempos em que os senhores feudais do nosso futebol exercem um direito de veto, ou de escolha, ou de pernada, sobre a nomeação dos árbitros. E, como decerto Vítor Serpa não defende esse direito apenas para o Benfica, terá ele meditado nas consequências do que defendeu?

3- Diferente é, claro, a posição de partida de Fernando Guerra. Num texto aqui escrito, há oito dias, sintomaticamente intitulado « Convergências enigmáticas », Fernando Guerra estafava-se a repisar na tese da perseguição de Proença ao Benfica. E a grande «convergência enigmática» que ele foi de senterrar para tal é o adiamento do jogo do Porto em Setúbal, que tinha Proença como árbitro. Não é original: já outros benfiquistas o defenderam igualmente, mas na sua posição de adeptos apaixonados, que o que querem é ganhar a qualquer preço.

O que eu acho notável é que Fernando Guerra passe alegremente por cima do facto de nesse dia, como foi público e notório, Portugal ter estado debaixo de um temporal extremo, que, inclusivamente, colocou em alerta laranja o distrito de Setúbal, e de o terreno de jogo estar de facto impraticável, tal como foi reconhecido, não só pelo árbitro, como também pelos treinadores e delegados de ambas as equipas, que, de comum acordo, optaram pelo adiamento.

Fazendo tábua rasa de tudo isso, escreve ele que o jogo não se realizou nessa data «porque isso ia ao encontro das conveniências do FC Porto». Não explica porquê, mas também aqui os factos não o ajudam: naquela data, o FC Porto tinha um calendário mais desafogado do que na data de substituição; tinha ao seu dispor Atsu e James, que depois não teve (um, imprevistamente, o outro porque já se sabia que estar no CAN); e não teria de se deslocar duas vezes a Setúbal, mais 800 kms, para disputar o jogo. Porque razão era então mais conveniente o adiamento para o FC Porto? Por uma única razão, que ele destapa quando dá como exemplo um Académica-Porto, no tempo de Villas Boas, disputado, nas palavras do próprio Fernando Guerra, «num autêntico pantanal» . É, pois, isso que ele acha que também devia ter sido feito em Setúbal. Eu, por acaso, dediquei aqui um texto às condições, jamais vistas, em que foi disputado esse jogo, e (mesmo depois da vitória do FC Porto) escrevi que ele só foi até ao fim, arriscando a integridade dos jogadores e sem nada ter que ver com um jogo de futebol, porque o que se pretendia era exactamente que o FC Porto não tivesse condições para jogar. O árbitro chamava-se Bruno Paixão... e está tudo dito. Les beaux esprits se rencontrent...

4- Para logo à noite, só peço duas coisas à partida: que o Varela fique no banco e que o Helton não abra a capoeira.

sexta-feira, junho 07, 2013

O GRANDE ADVERSÁRIO PORTISTA (12 FEVEREIRO 2013)

1- Uma enorme manchado azul dominando a primeira página deste jornal, sexta-feira passada, chamou-me desde logo a atenção: uma manchete gigantesca sobre o FC Porto na A Bola? E a propósito de quê, se a equipa nem sequer tinha actuado na véspera? Fui ler e percebi tudo: afinal, a notícia não era para os portistas, mas sim para os benfiquistas. «FC Porto fora da Taça da Liga» era o título garrafal que deve ter enchido de júbilo os leitores benfiquistas deste jornal. Antes de mergulhar na leitura de arrevesado jurídico que sustentava tal título, detive-me a pensar no sentido mais profundo da coisa: FC Porto e Benfica são, desde há vários anos, os dois únicos emblemas que em Portugal se batem por títulos, numa competição a dois que perderia todo o sentido se um deles fosse afastado por meios não desportivos. Acreditem ou não, não me vejo a retirar qualquer prazer de vencer o Benfica na secretaria. Mas parece que o desconforto não é mútuo: com a inestimável colaboração do maior adversário interno do FC Porto, que é a Comissão Disciplinar da Liga de Clubes, esta é a terceira tentativa, feita pelo CD e saudada pelos benfiquistas, para retirar administrativamente o FC Porto de competições: tentaram roubar-lhe os pontos suficientes para perder na secretaria um campeonato brilhantemente ganho em campo; tentaram afastá-lo, em benefício de Guimarães e Benfica, de um lugar na Champions ganho por mérito próprio; e agora tentam afastá-lo da Taça da I.iga, esse couto reservado do Benfica. E isto para não falar da outra operação, mais sofisticada, para retirar o Hulk e o Sapunaru da competição o tempo suficiente para o Benfica assegurar o título de campeão. Parece que, afastado o FC Porto, o principal rival, os benfiquistas ficarão satisfeitos por poderem ganhar assim. Estranho... estranha forma de entender a competição e o desportivismo.

Estava já toda a operação jurídica montada, a pretexto de terem faltado quinze minutos às 72 horas alegadamente exigíveis de intervalo entre um jogo do FC Porto B na liga de Honra e outro do FC Porto. Simplesmente, na Taça da Liga, em que três jogadores actuaram em ambos os encontros, quando se descobre que Benfica, Sporting e Marítimo também estavam envolvidos em supostas infracções idênticas. Porém, recebida a denúncia quanto ao Benfica numa quarta-feira, já na quinta-feira o CD a tinha mandado arquivar.

Parece que há uma diferença substancial entre utilizar jogadores num jogo da Liga de Honra, seguido de um jogo da Taça da Liga, ou utilizar jogadores no campeonato da Liga, seguido de um jogo na Taça da Liga. Muito gostaria que os defensores encartados do Benfica citassem a disposição concreta dos regulamentos da Taça da Liga onde esteja escrito que só no primeiro caso, e não no segundo, é exigível o tal intervalo de 72 horas. Seria muito estranho que tal discriminação existisse porque ela não faria o mais pequeno sentido: se o que se pretende é defender o descanso dos jogadores, não se entende que só funcione para umas competições e não para outras; se o que se pretende é defender a competitividade do campeonato da Liga de Honra, evitando que jogadores alinhem pela primeira equipa e logo depois vão fazer uma perninha à equipa B, então para isso era necessário que o jogo da Liga de Honra viesse depois, e não antes, do jogo da Taça da Liga o que não foi o caso com o FC Porto. Enfim, mesmo conhecendo sobejamente a imaginação jurídica que o CD da Liga sempre consegue descobrir no seu afã anti-portista, estava difícil de ver como iriam conseguir impingir a sua doutrina a alguém mais que o José Manuel Delgado.

E estavam já eles a cantar vitória, estava já o Sílvio Cervan a referir-se à vitória administrativa do V. Setúbal por 3-0 no Dragão para a Taça da Liga, como se de uma vitória no terreno de jogo se tratasse, quando começam a circular notícias de que a doutrina do CD da Liga não iria encontrar acolhimento na Federação: um problema chato no horizonte. Mas eis que uma alma justiceira resolve assaltar a sede da Federação e roubar nada mais do que os computadores pessoais do presidente e da sua secretária. Segundo a opinião insuspeita de José Manuel Delgado, uma das explicações para o móbil do assalto pode ter sido exactamente o roubo da acta da reunião do CD da Federação, «onde foi feita tábua rasa das conclusões» do CD da Liga. Com tanta informação privilegiada, só me resta acreditar. Mas, socorrendo-me da minha própria experiência, quando me assaltaram a casa para roubarem também e apenas o computador pessoal (e eu sei quem, para quê e porquê), posso afiançar ao Dr. Fernando Gomes que é garantido que a PJ e a PSP nada descobrirão. Quando o crime já atinge um nível sofisticado em que não se deslinda com escutas, eles não chegam lá.

2- Subitamente, começamos a realizar que é muito possível que esta nossa triste Selecção não esteja no Mundial do Brasil. Há ali jogadores que já passaram o prazo de validade, outros que não se dão a serviços mínimos e outros que nem eles sabem porque lá estão. Entretanto, julgo que a Federação e Paulo Bento fariam bem em poupar-nos a mais destes desoladores jogos de preparação em que não se prepara coisa alguma e apenas servem para afastar o público e aumentar a descrença.

3- O Benfica vai, obviamente, lançar para cima dos ombros de Pedro Proença a responsabilidade pelo semi desaire da Choupana. E, se é certo, que a televisão não mostra as razões da expulsão de Matic, ela só deixou o Benfica em inferioridade numérica vinte segundos — o que parece pouco para tanta indignação. Diferente teria sido se Proença se tem decidido por um penalty a favor do Nacional, quando misteriosamente, Keita, acossado por Luisão, em vez de encostar para o golo, acabou estatelado no chão: muitos árbitros teriam marcado penalty e expulsão e havia 2-2 no marcador... Acho que o Benfica se pode queixar, sim, do terreno de dimensões mínimas e do estado do relvado , uma e outra coisa impedindo as melhores equipas de poder montar o seu futebol. Mas isso, infelizmente, é uma das imagens de marca do nosso campeonato e não apenas no terreno das pequenas equipas: Alvalade parece uma chapa ondulada e mesmo o relvado do Dragão, outrora motivo de orgulho para todos os portistas e uma preciosa ajuda ao futebol da equipa, é hoje um areal seco o irregular, fruto dos tais concertos rock que Pinto da costa tinha jurado nunca autorizar (e já está um marcado para assim que acabe o campeonato).

Já Vítor Pereira, pode queixar-se da sorte, mas também do dia desastrado de jogadores como Danilo, Fernando, Lucho; de uma equipa que tem de atacar sem extremos, visto que Izmailov foge ostensivamente de um lugar que não conhece e não quer conhecer e, do outro lado, joga o confrange dor Silvestre Varela, que Vítor Pereira protege para além do que a minha inteligência consegue entender.

Ainda bem que Jackson falhou o penalty, pois era mais um desses penalties a que não me conformo, de bola na mão. Penalty verdadeiro aconteceu sim no penúltimo minuto, de Maurício sobre Mangala: mas, quando se marca o penalty errado...

4- Se a memória me não falha, o Sporting teve já os seguintes candidatos, anunciados ou confirmados, à presidência: Paiva dos Santos (João e Paulo), Carlos Monjardino, Jorge Coelho, José Maria Ricciardi, Pedro Baltazar, Bruno de Carvalho, Dias Ferreira, José Couceiro, José Eduardo, Carlos Severino, Hermínio Loureiro, Galvão Teles (um deles), Zeferino Boal e Luís Figo. São quinze, quase todos empresários ou gestores, todos já em contactos com a banca e conversas com potenciais investidores e todos apostados num novo Sporting. Só um clube rico, ou um clube à deriva, consegue reunir tanta gente voluntária para tomar conta dele. Há quinze candidatos à presidência, mas só há um jogador verdadeiramente bom na equipa principal de futebol, que se chama Rui Patrício. Talvez esteja aí parte da razão de tantos males e tantos salvadores.

quinta-feira, junho 06, 2013

SHOW DE BOLA É ISTO! (5 FEVEREIRO 2013)

1- Sem que eu saiba explicar bem porque razão, o Vitória de Guimarães sempre foi um dos meus clubes preferidos: talvez pela cidade, talvez pelas tradições do clube no futebol português, talvez pela sua apaixonada legião de fiéis. Para além disso, o Vitória Sport Clube era tradicionalmente um clube amigo do FC Porto. Mas um amigo no bom sentido: sem subserviência de um lado e sem abuso de posição dominante, do outro. Eram dois clubes com uma identidade e matriz própria que, apesar das diferentes dimensões clubísticas, sempre se respeitaram mutuamente. Tudo isso terminou há uns anos atrás, quando a direcção de então do Vitória tomou a decisão estratégica de se aliar à coligação Ministério Público/Benfica/ Comissão Disciplinar da Liga para, com os fanados e falhados pretextos do Apito Dourado, tentarem ambos, Benfica e Vitória, conquistar por baixo da mesa o lugar que o FC Porto havia ganho na Champions de pleno e brilhante direito no terreno de jogo. Arrastado pelo Benfica, seduzido por uma fácil conquista de secretaria, o Vitória colocou assim em jogo grande parte do prestígio ganho em décadas de esforço e mérito. E o apoio que o arrogante Platini, de tudo desinformado, veio dar aos dois clubes portugueses mancomunados pelo interesse e pela inveja, mais fez crer à direcção do Vitória que aquela era uma disputa destinada ao sucesso e, para mais, em nome de um louvável propósito.

Mas os sucessos rápidos e fora do campo do mérito raramente se consumam. Aconteceu que o Apito Dourado foi cilindrado nos tribunais, para extrema humilhação do Ministério Público; o FC Porto continuou a ganhar regularmente e o senhor Platini ainda teve de se submeter ao sacrifício de entregar pessoalmente uma taça da Liga Europa ao tal clube que só ganhava com batota; o Benfica continuou a marchar atrás do FC Porto, em Portugal e além fronteiras; e agora Michel Platini tem de se defender das graves acusações da France Football de que foi corrompido para atribuir o Mundial ao Catar. Quanto ao Vitória de Guimarães, passada a euforia de se julgar associado aos futuros êxitos do Benfica, com direito a duas ou três edições de uma fantochada já extinta chamada Troféu Amizade, a dita amizade em nada se traduziu de útil: teve até de descer ao inferno da 2ª Divisão, antes de regressar ao lugar que é seu e conquistar uma presença no Jamor para disputar uma final da Taça, em que, pese a uma arbitragem amiga, foi esmagado por 6-2... pelo FC Porto. Não há dúvida que, existindo Deus, uma das suas características certas é a de que não dorme em serviço.

Estranhamente, porém, o que resultou para os vitorianos dessa inútil e humilhante vassalagem ao Benfica foi um remanescente ódio ao FC Porto - que, nessa triste história, foi sempre o atacado e nunca o agressor. Se o Vitória não retirou a mais pequena vantagem, antes pelo contrário, da sua submissão ao grande clube de Lisboa (ou ao clube grande de Lisboa), a reacção foi a de se virar contra o mensageiro e não contra a mensagem. E assim, na noite de sábado passado, o FC Porto lá voltou a ser recebido em Guimarães com um ódio que, extravasando das bancadas para o campo, mais uma vez apenas conseguiu produzir o efeito contrário ao pretendido. Porque Deus continua sem dormir, o Vitória sofreu, este sábado e às mãos dos portistas, uma tareia de futebol que só não atingiu o ponto da humilhação porque naquele balneário azul também se transmitem memórias de amizades antigas. Um Vitória em clara ascensão, que vinha de uma série de jogos sem derrota e que só não tinha ganho em Alvalade na última jornada porque o árbitro fez vista grossa a um descarado penalty ao cair do pano (obviamente silenciado pela legião de sportinguistas que, ao menor pretexto, saltam em cima dos árbitros), foi literalmente cilindrado pelo FC Porto e a única oportunidade de golo de que dispôs em 90 minutos resultou de uma daquelas tremedeiras à Helton (de quem o jornal espanhol As dizia esta semana ser o único ponto vulnerável do FC Porto).

Em Guimarães, o FC Porto, mesmo sem James e sem Atsu, fez o jogo perfeito, do primeiro ao último minuto. Não foi apenas o melhor jogo do FC Porto neste campeonato - foi, apesar do seu sentido único, o melhor jogo deste campeonato. Mais do que aquilo não é possível ver por aqui. Como equipa, como futebol encadeado e pensado, jogado com imaginação e velocidade, foi topo de gama, aqui e em qualquer lugar. E com exibições individuais superlativas, como as de Mangala, Danilo, Alex Sandro, Moutinho, Martinez. Até Izmailov mostrou utilidade prometedora e até, caramba, até Varela conseguiu jogar bem e fazer aquilo que há 17 jornadas se esperava que um dia fizesse: um cruzamento que resultou em assistência para golo! E inacreditável pensar como Mangala, aproveitando a lesão de Maicon, conseguiu roubar-lhe o lugar, coisa absolutamente impensável há dois meses atrás. Fantástico como Alex Sandro consegue fazer esquecer Alvaro Pereira (só não é melhor que ele nos cruzamentos). Inacreditável como é que Jackson Martinez (de cuja compra desconfiei, não por ele, que não conhecia, mas pelo preço pago por um quase desconhecido de um desconhecido clube mexicano), consegue entrar melhor na equipa do que Falcão. Jackson é um jogador de área completo — na técnica individual, na capacidade de jogo lateral com a equipa, no poder de elevação e qualidade do jogo de cabeça, na imaginação a finalizar e na humildade que demonstra. Eu tiro o chapéu à equipa de scouting do FC Porto que conseguiu, em cinco anos anos, reunir no clube toda a frente de ataque da Selecção da Colômbia: Jackson, Falcão, James.

Depois de Guimarães, fiquei bem mais confiante e entusiasmado. Nos últimos anos, o jogo de Guimarães tem calhado quase sempre na segunda volta do campeonato e, sempre que lá ganhamos, somos campeões. Mas, apesar de tudo, desespero e sofro para que o departamento médico do Porto nos devolva rapidamente o James, igual ao que sempre foi. Porque, quanto ao Atsu, só resta ir esperando: o Gana segue em frente na CAN e com a sua ajuda, que tanta falta também nos faz.

2- Antes de enfrentar o Paços de Ferreira na meia final da Taça, a meio da semana, o Benfica fez saber do seu interesse em dois centro-campistas do Paços, em especial Vítor. E uma jogada psicológica que se vai tornando um clássico no clube que tanto amor à verdade desportiva derrama. Há dois anos atrás, no próprio dia em que recebia o Olhanense, também para um jogo da Taça, estes desportistas chegaram ao desplante de lhes comprar de manhã o melhor central dos algarvios, Jardel - cujo contrato de compra, celebrado de manhã, implicou que ele já não jogasse à noite pelo Olhanense, apesar de ter mais uns meses de contrato a cumprir com os algarvios. Desta vez, a coisa não foi tão longe — por falta de tempo ou porque era bluff. Mas o rapaz, talvez motivado para se despedir em grande do Paços ou para convencer de vez o seu eventual futuro patrão, tanto entusiasmo pôs numa disputa de bola, que recebeu o vermelho directo e assim, involuntariamente é claro, tornou as coisas mais fáceis para o grande clube de Lisboa ou clube grande de Lisboa. E claro que, fosse ele já benfiquista, como André Gomes, e o árbitro perdoar-lhe-ia, sem sequer lhe mostrar um amarelo, não uma, mas duas entradas semelhantes -como se viu no jogo de domingo, entre Benfica e Vitória de Setúbal. Não joga à Maxi Pereira quem quer, mas quem pode. Uma lição para o jovem Vítor.