sábado, junho 08, 2013

SINAIS DE PÂNICO (19 FEVEREIRO 2013)

1- Estamos a entrar na altura da época em que, para os grandes clubes, tudo se decide: o desfecho interno e o desfecho europeu de um ano. É nesta altura que, tradicionalmente, o Benfica e os benfiquistas começam a dar sinais de nervosismo crescente. Sinais que este ano não são de nervosismo apenas, mas de verdadeiro pânico: o pânico de falharem mais uma época. Há vários factores objectivos que contribuem para este estado de alarme vermelho:

- a carreira na Champions foi um falhanço total, agravada pelo facto de o FC Porto se manter ainda em prova;

- passou o período em que o Benfica se podia ter adiantado decisivamente ao FC Porto no campeonato, aproveitando o jogo da Luz e os dois meses em que o FC Porto teve de jogar desfalcado de James e Atsu, e o Benfica nada aproveitou, não conquistando um único ponto de avanço que lhe desse alguma margem de folga para o futuro;

- aparentemente, falhou também a tentativa de afastar na secretaria o FC Porto da Taça da I.iga - o tradicional prémio de consolação benfiquista. A perspectiva de poder encerrar a época apenas com a conquista da Taça de Portugal, e quase por sorteio, é um pesadelo;

- como ficou evidente nos últimos jogos, a equipa começa a dar sinais evidentes do cansaço e da desinspiração que a costumam atingir no momento decisivo da época;

- acresce a sensação de que no que toca à valorização de jogadores para venda (o melhor registo de Jorge Jesus nas águias), o Benfica já não dispõe de anéis de valor seguro à vista, em contraste com o FC Porto, que tem, pelo menos, uma meia dúzia de activos ao nível dos 20 milhões para cima, entre Alex Sandro, Mangala, Otamendi, Maicon, João Moutinho, James, Atsu, Jackson Martinez.

Não ganhar o campeonato este ano e ver o FC Porto assinar o tricampeonato seria um desastre de consequências imensas para o Benfica. Se a isto somarmos o péssimo momento em que vai ser necessário renegociar o contrato dos direitos televisivos (numa conjuntura em que, pela primeira vez, nenhuma das três televisões generalistas quis ficar com os jogos da Liga), facilmente se alcança como, de um momento para o outro, os amanhãs que cantavam podem ficar a assobiar baixinho. Daí aos sinais de pânico a distância é curta e mede-se por alguns indícios reveladores:

- a militante entrada em cena da CD da Liga, sempre pronta a acorrer nos momentos de necessidade, e revelada, não só na citada tentativa de afastar administrativamente o FC Porto da Taça da Liga, como ainda em vários outros detalhes, dos quais o mais recente e despudorado foi o castigo de um jogo de suspensão a Cardozo, culpado de ter pontapeado um adversário, com o jogo parado e, a seguir, ter agarrado o árbitro pelo colarinho, só não tendo ido mais avante porque os colegas o seguraram (um interessante precedente disciplinar que, todavia, suponho e espero, não ficará como doutrina mas apenas como excepção adhoc);

- a escolha de João Ferreira (o árbitro expressamente pedido por Vieira a Valentim Loureiro, noutros tempos), para dirigir o Benfica-Porto: o que diriam se, para dirigir o Porto-Benfica da penúltima jornada, fosse nomeado o árbitro preferido de Pinto da Costa?

- uma semana inteira passada a investir contra Pedro Proença, de modo a criar a ideia de que só por culpa dele o Benfica não venceu o Nacional, quando a única coisa de que talvez (talvez...) se possam queixar é da expulsão de Matic... a 30 segundos do fim. Chegaram mesmo ao ponto de pôr na boca de Proença suposta ameaça verbal a Cardozo, cuja testemunha ou testemunhas não foram indicadas.

- a arbitragem do jogo com a Académica: quatro cantos inventados a favor do Benfica; a melhor oportunidade de golo nascida de uma clara falta de Lima, que nem o árbitro nem o auxiliar conseguiram ver; os dois únicos ataques da Académica, por sinal bem perigosos, cautelarmente interrompidos antes do fim por um off-side e falta inexistentes; os cinco minutos de desconto sem cabimento; o penalty salvador ao minuto 90+5, numa disputa de bola em que ambos os jogadores se agarram (foto da página 9 da edição de ontem deste jornal e demais imagens, fotográficas e televisivas).

- as declarações de Jorge Jesus antes e depois do jogo com a Académica, bem reveladoras do ambiente de terror em que ele já vive, por causas externas e pressões internas.

- e, acima de tudo, a intensa e indisfarçada campanha montada pelos jornalistas militantes do Benfica, criando um clima adequado às golpaças e ao branqueamento do que não convém demasiadamente exposto.

Já conheço o ambiente e detecto à légua os seus sinais. Quer dizer que o Benfica, todo o planeta-Benfica, entrou em modo de pânico e lançará mão do que for necessário para evitar a derrota que tanto teme. Mas é justamente nestas alturas, e reagindo ao cerco, que o FC Porto se costuma transcender.

2- Por todas as razões, mas sobretudo por respeito ao que dele conheço, excluo naturalmente Vítor Serpa da criação do ambiente de que acima falei. Mas a sua tese de que Pedro Proença não poderia ser nomeado para um banal jogo de campeonato do Benfica, com o único argumento de que ele é «um árbitro maldito» para o Benfica, apesar de benfiquista assumido, é obviamente insustentável. E não apenas porque Proença é tido actualmente como um dos melhores, se não o melhor árbitro do mundo — o que já seria argumento suficiente para quem defende que os melhores árbitros devem ser chamados à linha da frente. Mas, sobretudo, porque, a valer essa tese, e como já escreveu Rui Moreira, regressamos ao tempos em que os senhores feudais do nosso futebol exercem um direito de veto, ou de escolha, ou de pernada, sobre a nomeação dos árbitros. E, como decerto Vítor Serpa não defende esse direito apenas para o Benfica, terá ele meditado nas consequências do que defendeu?

3- Diferente é, claro, a posição de partida de Fernando Guerra. Num texto aqui escrito, há oito dias, sintomaticamente intitulado « Convergências enigmáticas », Fernando Guerra estafava-se a repisar na tese da perseguição de Proença ao Benfica. E a grande «convergência enigmática» que ele foi de senterrar para tal é o adiamento do jogo do Porto em Setúbal, que tinha Proença como árbitro. Não é original: já outros benfiquistas o defenderam igualmente, mas na sua posição de adeptos apaixonados, que o que querem é ganhar a qualquer preço.

O que eu acho notável é que Fernando Guerra passe alegremente por cima do facto de nesse dia, como foi público e notório, Portugal ter estado debaixo de um temporal extremo, que, inclusivamente, colocou em alerta laranja o distrito de Setúbal, e de o terreno de jogo estar de facto impraticável, tal como foi reconhecido, não só pelo árbitro, como também pelos treinadores e delegados de ambas as equipas, que, de comum acordo, optaram pelo adiamento.

Fazendo tábua rasa de tudo isso, escreve ele que o jogo não se realizou nessa data «porque isso ia ao encontro das conveniências do FC Porto». Não explica porquê, mas também aqui os factos não o ajudam: naquela data, o FC Porto tinha um calendário mais desafogado do que na data de substituição; tinha ao seu dispor Atsu e James, que depois não teve (um, imprevistamente, o outro porque já se sabia que estar no CAN); e não teria de se deslocar duas vezes a Setúbal, mais 800 kms, para disputar o jogo. Porque razão era então mais conveniente o adiamento para o FC Porto? Por uma única razão, que ele destapa quando dá como exemplo um Académica-Porto, no tempo de Villas Boas, disputado, nas palavras do próprio Fernando Guerra, «num autêntico pantanal» . É, pois, isso que ele acha que também devia ter sido feito em Setúbal. Eu, por acaso, dediquei aqui um texto às condições, jamais vistas, em que foi disputado esse jogo, e (mesmo depois da vitória do FC Porto) escrevi que ele só foi até ao fim, arriscando a integridade dos jogadores e sem nada ter que ver com um jogo de futebol, porque o que se pretendia era exactamente que o FC Porto não tivesse condições para jogar. O árbitro chamava-se Bruno Paixão... e está tudo dito. Les beaux esprits se rencontrent...

4- Para logo à noite, só peço duas coisas à partida: que o Varela fique no banco e que o Helton não abra a capoeira.

sexta-feira, junho 07, 2013

O GRANDE ADVERSÁRIO PORTISTA (12 FEVEREIRO 2013)

1- Uma enorme manchado azul dominando a primeira página deste jornal, sexta-feira passada, chamou-me desde logo a atenção: uma manchete gigantesca sobre o FC Porto na A Bola? E a propósito de quê, se a equipa nem sequer tinha actuado na véspera? Fui ler e percebi tudo: afinal, a notícia não era para os portistas, mas sim para os benfiquistas. «FC Porto fora da Taça da Liga» era o título garrafal que deve ter enchido de júbilo os leitores benfiquistas deste jornal. Antes de mergulhar na leitura de arrevesado jurídico que sustentava tal título, detive-me a pensar no sentido mais profundo da coisa: FC Porto e Benfica são, desde há vários anos, os dois únicos emblemas que em Portugal se batem por títulos, numa competição a dois que perderia todo o sentido se um deles fosse afastado por meios não desportivos. Acreditem ou não, não me vejo a retirar qualquer prazer de vencer o Benfica na secretaria. Mas parece que o desconforto não é mútuo: com a inestimável colaboração do maior adversário interno do FC Porto, que é a Comissão Disciplinar da Liga de Clubes, esta é a terceira tentativa, feita pelo CD e saudada pelos benfiquistas, para retirar administrativamente o FC Porto de competições: tentaram roubar-lhe os pontos suficientes para perder na secretaria um campeonato brilhantemente ganho em campo; tentaram afastá-lo, em benefício de Guimarães e Benfica, de um lugar na Champions ganho por mérito próprio; e agora tentam afastá-lo da Taça da I.iga, esse couto reservado do Benfica. E isto para não falar da outra operação, mais sofisticada, para retirar o Hulk e o Sapunaru da competição o tempo suficiente para o Benfica assegurar o título de campeão. Parece que, afastado o FC Porto, o principal rival, os benfiquistas ficarão satisfeitos por poderem ganhar assim. Estranho... estranha forma de entender a competição e o desportivismo.

Estava já toda a operação jurídica montada, a pretexto de terem faltado quinze minutos às 72 horas alegadamente exigíveis de intervalo entre um jogo do FC Porto B na liga de Honra e outro do FC Porto. Simplesmente, na Taça da Liga, em que três jogadores actuaram em ambos os encontros, quando se descobre que Benfica, Sporting e Marítimo também estavam envolvidos em supostas infracções idênticas. Porém, recebida a denúncia quanto ao Benfica numa quarta-feira, já na quinta-feira o CD a tinha mandado arquivar.

Parece que há uma diferença substancial entre utilizar jogadores num jogo da Liga de Honra, seguido de um jogo da Taça da Liga, ou utilizar jogadores no campeonato da Liga, seguido de um jogo na Taça da Liga. Muito gostaria que os defensores encartados do Benfica citassem a disposição concreta dos regulamentos da Taça da Liga onde esteja escrito que só no primeiro caso, e não no segundo, é exigível o tal intervalo de 72 horas. Seria muito estranho que tal discriminação existisse porque ela não faria o mais pequeno sentido: se o que se pretende é defender o descanso dos jogadores, não se entende que só funcione para umas competições e não para outras; se o que se pretende é defender a competitividade do campeonato da Liga de Honra, evitando que jogadores alinhem pela primeira equipa e logo depois vão fazer uma perninha à equipa B, então para isso era necessário que o jogo da Liga de Honra viesse depois, e não antes, do jogo da Taça da Liga o que não foi o caso com o FC Porto. Enfim, mesmo conhecendo sobejamente a imaginação jurídica que o CD da Liga sempre consegue descobrir no seu afã anti-portista, estava difícil de ver como iriam conseguir impingir a sua doutrina a alguém mais que o José Manuel Delgado.

E estavam já eles a cantar vitória, estava já o Sílvio Cervan a referir-se à vitória administrativa do V. Setúbal por 3-0 no Dragão para a Taça da Liga, como se de uma vitória no terreno de jogo se tratasse, quando começam a circular notícias de que a doutrina do CD da Liga não iria encontrar acolhimento na Federação: um problema chato no horizonte. Mas eis que uma alma justiceira resolve assaltar a sede da Federação e roubar nada mais do que os computadores pessoais do presidente e da sua secretária. Segundo a opinião insuspeita de José Manuel Delgado, uma das explicações para o móbil do assalto pode ter sido exactamente o roubo da acta da reunião do CD da Federação, «onde foi feita tábua rasa das conclusões» do CD da Liga. Com tanta informação privilegiada, só me resta acreditar. Mas, socorrendo-me da minha própria experiência, quando me assaltaram a casa para roubarem também e apenas o computador pessoal (e eu sei quem, para quê e porquê), posso afiançar ao Dr. Fernando Gomes que é garantido que a PJ e a PSP nada descobrirão. Quando o crime já atinge um nível sofisticado em que não se deslinda com escutas, eles não chegam lá.

2- Subitamente, começamos a realizar que é muito possível que esta nossa triste Selecção não esteja no Mundial do Brasil. Há ali jogadores que já passaram o prazo de validade, outros que não se dão a serviços mínimos e outros que nem eles sabem porque lá estão. Entretanto, julgo que a Federação e Paulo Bento fariam bem em poupar-nos a mais destes desoladores jogos de preparação em que não se prepara coisa alguma e apenas servem para afastar o público e aumentar a descrença.

3- O Benfica vai, obviamente, lançar para cima dos ombros de Pedro Proença a responsabilidade pelo semi desaire da Choupana. E, se é certo, que a televisão não mostra as razões da expulsão de Matic, ela só deixou o Benfica em inferioridade numérica vinte segundos — o que parece pouco para tanta indignação. Diferente teria sido se Proença se tem decidido por um penalty a favor do Nacional, quando misteriosamente, Keita, acossado por Luisão, em vez de encostar para o golo, acabou estatelado no chão: muitos árbitros teriam marcado penalty e expulsão e havia 2-2 no marcador... Acho que o Benfica se pode queixar, sim, do terreno de dimensões mínimas e do estado do relvado , uma e outra coisa impedindo as melhores equipas de poder montar o seu futebol. Mas isso, infelizmente, é uma das imagens de marca do nosso campeonato e não apenas no terreno das pequenas equipas: Alvalade parece uma chapa ondulada e mesmo o relvado do Dragão, outrora motivo de orgulho para todos os portistas e uma preciosa ajuda ao futebol da equipa, é hoje um areal seco o irregular, fruto dos tais concertos rock que Pinto da costa tinha jurado nunca autorizar (e já está um marcado para assim que acabe o campeonato).

Já Vítor Pereira, pode queixar-se da sorte, mas também do dia desastrado de jogadores como Danilo, Fernando, Lucho; de uma equipa que tem de atacar sem extremos, visto que Izmailov foge ostensivamente de um lugar que não conhece e não quer conhecer e, do outro lado, joga o confrange dor Silvestre Varela, que Vítor Pereira protege para além do que a minha inteligência consegue entender.

Ainda bem que Jackson falhou o penalty, pois era mais um desses penalties a que não me conformo, de bola na mão. Penalty verdadeiro aconteceu sim no penúltimo minuto, de Maurício sobre Mangala: mas, quando se marca o penalty errado...

4- Se a memória me não falha, o Sporting teve já os seguintes candidatos, anunciados ou confirmados, à presidência: Paiva dos Santos (João e Paulo), Carlos Monjardino, Jorge Coelho, José Maria Ricciardi, Pedro Baltazar, Bruno de Carvalho, Dias Ferreira, José Couceiro, José Eduardo, Carlos Severino, Hermínio Loureiro, Galvão Teles (um deles), Zeferino Boal e Luís Figo. São quinze, quase todos empresários ou gestores, todos já em contactos com a banca e conversas com potenciais investidores e todos apostados num novo Sporting. Só um clube rico, ou um clube à deriva, consegue reunir tanta gente voluntária para tomar conta dele. Há quinze candidatos à presidência, mas só há um jogador verdadeiramente bom na equipa principal de futebol, que se chama Rui Patrício. Talvez esteja aí parte da razão de tantos males e tantos salvadores.

quinta-feira, junho 06, 2013

SHOW DE BOLA É ISTO! (5 FEVEREIRO 2013)

1- Sem que eu saiba explicar bem porque razão, o Vitória de Guimarães sempre foi um dos meus clubes preferidos: talvez pela cidade, talvez pelas tradições do clube no futebol português, talvez pela sua apaixonada legião de fiéis. Para além disso, o Vitória Sport Clube era tradicionalmente um clube amigo do FC Porto. Mas um amigo no bom sentido: sem subserviência de um lado e sem abuso de posição dominante, do outro. Eram dois clubes com uma identidade e matriz própria que, apesar das diferentes dimensões clubísticas, sempre se respeitaram mutuamente. Tudo isso terminou há uns anos atrás, quando a direcção de então do Vitória tomou a decisão estratégica de se aliar à coligação Ministério Público/Benfica/ Comissão Disciplinar da Liga para, com os fanados e falhados pretextos do Apito Dourado, tentarem ambos, Benfica e Vitória, conquistar por baixo da mesa o lugar que o FC Porto havia ganho na Champions de pleno e brilhante direito no terreno de jogo. Arrastado pelo Benfica, seduzido por uma fácil conquista de secretaria, o Vitória colocou assim em jogo grande parte do prestígio ganho em décadas de esforço e mérito. E o apoio que o arrogante Platini, de tudo desinformado, veio dar aos dois clubes portugueses mancomunados pelo interesse e pela inveja, mais fez crer à direcção do Vitória que aquela era uma disputa destinada ao sucesso e, para mais, em nome de um louvável propósito.

Mas os sucessos rápidos e fora do campo do mérito raramente se consumam. Aconteceu que o Apito Dourado foi cilindrado nos tribunais, para extrema humilhação do Ministério Público; o FC Porto continuou a ganhar regularmente e o senhor Platini ainda teve de se submeter ao sacrifício de entregar pessoalmente uma taça da Liga Europa ao tal clube que só ganhava com batota; o Benfica continuou a marchar atrás do FC Porto, em Portugal e além fronteiras; e agora Michel Platini tem de se defender das graves acusações da France Football de que foi corrompido para atribuir o Mundial ao Catar. Quanto ao Vitória de Guimarães, passada a euforia de se julgar associado aos futuros êxitos do Benfica, com direito a duas ou três edições de uma fantochada já extinta chamada Troféu Amizade, a dita amizade em nada se traduziu de útil: teve até de descer ao inferno da 2ª Divisão, antes de regressar ao lugar que é seu e conquistar uma presença no Jamor para disputar uma final da Taça, em que, pese a uma arbitragem amiga, foi esmagado por 6-2... pelo FC Porto. Não há dúvida que, existindo Deus, uma das suas características certas é a de que não dorme em serviço.

Estranhamente, porém, o que resultou para os vitorianos dessa inútil e humilhante vassalagem ao Benfica foi um remanescente ódio ao FC Porto - que, nessa triste história, foi sempre o atacado e nunca o agressor. Se o Vitória não retirou a mais pequena vantagem, antes pelo contrário, da sua submissão ao grande clube de Lisboa (ou ao clube grande de Lisboa), a reacção foi a de se virar contra o mensageiro e não contra a mensagem. E assim, na noite de sábado passado, o FC Porto lá voltou a ser recebido em Guimarães com um ódio que, extravasando das bancadas para o campo, mais uma vez apenas conseguiu produzir o efeito contrário ao pretendido. Porque Deus continua sem dormir, o Vitória sofreu, este sábado e às mãos dos portistas, uma tareia de futebol que só não atingiu o ponto da humilhação porque naquele balneário azul também se transmitem memórias de amizades antigas. Um Vitória em clara ascensão, que vinha de uma série de jogos sem derrota e que só não tinha ganho em Alvalade na última jornada porque o árbitro fez vista grossa a um descarado penalty ao cair do pano (obviamente silenciado pela legião de sportinguistas que, ao menor pretexto, saltam em cima dos árbitros), foi literalmente cilindrado pelo FC Porto e a única oportunidade de golo de que dispôs em 90 minutos resultou de uma daquelas tremedeiras à Helton (de quem o jornal espanhol As dizia esta semana ser o único ponto vulnerável do FC Porto).

Em Guimarães, o FC Porto, mesmo sem James e sem Atsu, fez o jogo perfeito, do primeiro ao último minuto. Não foi apenas o melhor jogo do FC Porto neste campeonato - foi, apesar do seu sentido único, o melhor jogo deste campeonato. Mais do que aquilo não é possível ver por aqui. Como equipa, como futebol encadeado e pensado, jogado com imaginação e velocidade, foi topo de gama, aqui e em qualquer lugar. E com exibições individuais superlativas, como as de Mangala, Danilo, Alex Sandro, Moutinho, Martinez. Até Izmailov mostrou utilidade prometedora e até, caramba, até Varela conseguiu jogar bem e fazer aquilo que há 17 jornadas se esperava que um dia fizesse: um cruzamento que resultou em assistência para golo! E inacreditável pensar como Mangala, aproveitando a lesão de Maicon, conseguiu roubar-lhe o lugar, coisa absolutamente impensável há dois meses atrás. Fantástico como Alex Sandro consegue fazer esquecer Alvaro Pereira (só não é melhor que ele nos cruzamentos). Inacreditável como é que Jackson Martinez (de cuja compra desconfiei, não por ele, que não conhecia, mas pelo preço pago por um quase desconhecido de um desconhecido clube mexicano), consegue entrar melhor na equipa do que Falcão. Jackson é um jogador de área completo — na técnica individual, na capacidade de jogo lateral com a equipa, no poder de elevação e qualidade do jogo de cabeça, na imaginação a finalizar e na humildade que demonstra. Eu tiro o chapéu à equipa de scouting do FC Porto que conseguiu, em cinco anos anos, reunir no clube toda a frente de ataque da Selecção da Colômbia: Jackson, Falcão, James.

Depois de Guimarães, fiquei bem mais confiante e entusiasmado. Nos últimos anos, o jogo de Guimarães tem calhado quase sempre na segunda volta do campeonato e, sempre que lá ganhamos, somos campeões. Mas, apesar de tudo, desespero e sofro para que o departamento médico do Porto nos devolva rapidamente o James, igual ao que sempre foi. Porque, quanto ao Atsu, só resta ir esperando: o Gana segue em frente na CAN e com a sua ajuda, que tanta falta também nos faz.

2- Antes de enfrentar o Paços de Ferreira na meia final da Taça, a meio da semana, o Benfica fez saber do seu interesse em dois centro-campistas do Paços, em especial Vítor. E uma jogada psicológica que se vai tornando um clássico no clube que tanto amor à verdade desportiva derrama. Há dois anos atrás, no próprio dia em que recebia o Olhanense, também para um jogo da Taça, estes desportistas chegaram ao desplante de lhes comprar de manhã o melhor central dos algarvios, Jardel - cujo contrato de compra, celebrado de manhã, implicou que ele já não jogasse à noite pelo Olhanense, apesar de ter mais uns meses de contrato a cumprir com os algarvios. Desta vez, a coisa não foi tão longe — por falta de tempo ou porque era bluff. Mas o rapaz, talvez motivado para se despedir em grande do Paços ou para convencer de vez o seu eventual futuro patrão, tanto entusiasmo pôs numa disputa de bola, que recebeu o vermelho directo e assim, involuntariamente é claro, tornou as coisas mais fáceis para o grande clube de Lisboa ou clube grande de Lisboa. E claro que, fosse ele já benfiquista, como André Gomes, e o árbitro perdoar-lhe-ia, sem sequer lhe mostrar um amarelo, não uma, mas duas entradas semelhantes -como se viu no jogo de domingo, entre Benfica e Vitória de Setúbal. Não joga à Maxi Pereira quem quer, mas quem pode. Uma lição para o jovem Vítor.

quarta-feira, junho 05, 2013

QUINZE MINUTOS DE JUSTIÇA (29 JANEIRO 2013)

1- O furo jornalístico revelado por A BOLA, com honras de manchete na primeira página, de que o FC Porto tinha utilizado irregularmente três jogadores contra o Setúbal, no último jogo da Taça da Liga, vai redundar num mau serviço prestado ao futebol. Vejamos:

De facto, não há dúvida de que três jogadores da equipa B do FC Porto disputaram com um intervalo de 71 horas e 45 minutos um jogo do campeonato da Liga de Honra e outro da Taça da Liga. E não há dúvida de que os regulamentos desta última (que não coincidem neste ponto com os regulamentos das outras competições) exigem um intervalo mínimo de 72 horas. Logo, e por quinze minutos de diferença, o FC Porto infringiu a lei e será condenado a perder os pontos suficientes para ser afastado compulsivamente das meias-finais da Taça da Liga, para que se apurara em campo. Tem sido evidente o júbilo com que os comentadores benfiquistas se apoderaram do assunto para nele verem uma prova de que, afinal, a tão falada organização profissional do FC Porto não é assim tão profissional. E há ate quem veja mais longe: num programa televisivo, perguntava-se aos espectadores, por telefone, se o erro não teria sido mesmo voluntariamente cometido pelo FC Porto — presume-se que para escapar, via secretaria, ao previsível confronto com o Benfica na final da Taça da Liga. Está assim definido o crime: suicídio; encontrado o criminoso: o suicida; e desvendado o móbil: medo de viver.

Mas, se pararmos para pensar um pouco, há várias coisas neste caso que destoam da tese do crime perfeito: primeiro, que os regulamentos não sejam iguais em todas as competições, de forma a evitar confusões ou distracções; segundo, que, tendo o FC Porto solicitado à Liga a marcação do segundo jogo para as 20.15, como vem sendo habitual, a Liga tenha antes marcado o jogo para a absurda hora de 17.30 de um dia de semana (fosse às 17.45 e já não haveria caso...); terceiro, que todos os auto-proclamados defensores da verdade desportiva deviam incomodar-se é quando a Liga obriga a disputar um decisivo Benfica-Porto, sabendo que 48 e até 24 antes, alguns jogadores determinantes na equipa portista teriam estado ao serviço das respectivas selecções cm jogos no estrangeiro e mesmo noutro continente; quarto, que resolver assim a questão das meias-finais da Taça da Liga, afastando, num preciosismo de zelo administrativo, um dos dois principais candidatos, não contribui muito para o prestígio de uma competição jovem e já bastante abalada por outros casos.

Sem o FC Porto na lula, o que resta disputar da Taça da Liga perde grande parte do seu interesse. Ou talvez não, depende da perspectiva: se o interesse é, sobretudo, o de ver o Benfica juntar mais um titulo ao acumulado histórico disputado taco-a-taco com o FC Porto, então, compreende-se. Assim como terá de se compreender se o FC Porto resolver, pura e simplesmenle, deixar de disputar a Taça da Liga. Foi, em parte, por jogadas destas, que o clube desistiu do basquete.

A lei é dura mas é igual para todos — dirão. Sim, eu sei, já ouvi essa ladainha a propósito da emboscada montada ao Hulk e ao Sapunaru no túnel da Luz. Eu sei que a lei é inflexível, eu estudei leis. Mas, por isso mesmo também, sei que a especialidade dos nossos legisladores é fazerem leis ambíguas cuja aplicação fica depois à interpretação flutuante das instâncias de julgamento. Veja-se o caso da lei que proíbe os autarcas de desempenharem mais do que três mandatos consecutivos: está redigida de forma tal, que ninguém pode jurar que a intenção do legislador foi a de o proibir apenas na mesma autarquia ou em qualquer uma. Trata-se de uma ambiguidade muito conveniente agora, pois que a interpretação benigna da lei permite as candidaturas de Luís Filipe Menezes no Porto e Fernando Seara em Lisboa, ambas patrocinadas pelo PSD. E, todavia, está aí, activíssimo, o homem que redigiu essa lei: chama-se Paulo Rangel e é deputado europeu pelo PSD. Porque razão ninguém lhe pergunta qual era a intenção legisladora dele?

Sim, eu sei que a lei é inflexível e igual para todos. Mas é também por saber que o futebol tem a pior legislação e os piores juristas ao seu serviço, que defendo uma justiça desportiva fundada, não apenas na lei, mas também na equidade. De uma coisa, pelo menos, os meus leitores ficaram certos: eu queria ver o FC Porto disputar até ao fim esta edição da Taça da Liga. Mesmo com todas as limitações actuais da equipa e com o transtorno que isso lhe iria causar noutras frentes, eu queria vê-la ir até ao fim na competição. Mas já percebi que há quem não queira. Por quinze minutos de justiça.

2- Também esperei por quinze minutos finais de justiça no Braga-Benfica, mas eles não chegaram. Ainda esteve perto de acontecer, mas duas decisões erradas da arbitragem (a expulsão do central Haas, do Braga, e um fora dc jogo mal assinalado a uma fuga prometedora de João Pedro), tornaram impossível o que já de si não era provável. Ficou a injustiça de um jogo em que o Benfica nunca esteve por cima e nunca mereceu ganhar e onde, também, de meia oportunidade fez dois golos — dois golos oferecidos por Beto, que é um bom guarda-redes, com o defeito de ter tendência a falhar nos jogos mais importantes. Mas, quando tanto se fala no «futebol artístico» do Benfica e no «resultadismo» do FC Porto (que eu subscrevo, em parte), foi curioso ver o Benfica passar toda a segunda parte encolhido atrás, defendendo com dez, perdendo tempo em simulações e reposições de bola e festejando o triunfo como se esse valesse já o campeonato.

3- Ainda sobre justiça e a propósito das duas expulsões de setubalenses no desafio em atraso contra o FC Porto, que tanta indignação causaram a José Mota e ao presidente setubalense: considero-as duas expulsões exemplares e, queira ou não José Mota, é assim que se arbitra ao mais alto nível e é por isso que Pedro Proença chegou ao topo do mais alto nível. A primeira expulsão é de um jogador (Bruno Galo) que, acabado de entrar, tem um pontapé por trás ao tendão de Aquiles de Moutinho: não foi para cortar a jogada, foi para aleijar, e a única discussão possível é se era amarelo ou vermelho directo. Se, um minuto volvido o mesmo jogador volta a ter uma entrada descontrolada sobre um adversário, é óbvio que não entrou para jogar futebol e só pode ser enviado de volta para a cabine. A segunda expulsão, de Jorginho, por segundo amarelo, é ainda mais exemplar: salta a uma bola na área a que não chega c aproveita a proximidade de um adversário nas suas costas para se atirar para o chão agarrado à cara, fazendo o número de procurar sangue no nariz, tudo para simular uma cotovelada que não recebeu. Ou seja,quis fazer batota grosseira e, se o tem conseguido, com o resultado ainda em 0-1, poderia ter mudado o desfecho do jogo. Sinceramente, não vejo a diferença entre isto e um ciclista que se droga para ganhar uma corrida. Eu sei que treinadores como José Mota lutam com armas absolutamente desiguais, que enfrentam problemas de que os adeptos nem suspeitam e que, quando jogam contra os grandes, só lhes resta tentar o impossível. Mas isso não os dispensa de também terem uma obrigação para com a verdade e para com o jogo.

4- 0 massacre infligido pelo FC Porto ao Gil Vicente, na primeira parte do jogo da noite passada, confirma que este é um dos mais desequilibrados campeonatos de sempre: há um campeonato disputado a dois entre Porto e Benfica; um outro disputado a solo pelo Braga; e longe, muito longe, treze equipas que pouco ou nada influem nas contas finais. Foi o melhor e o mais tranquilo jogo do FC Porto neste longo período de transição até voltar a poder jogar com dois extremos de verdade. Um único senão: foi jogo para sete ou oito.

terça-feira, junho 04, 2013

CONSISTÊNCIA: VIRTUDES E FRAQUEZAS (22 JANEIRO 2012)

1- Nas palavras de Vítor Pereira, o FC Porto fez um jogo «consistente» contra o Paços de Ferreira. O Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora ajuda-nos a perceber exactamente o que quis dizer o treinador portista: por «consistente» entende-se aquilo que é sólido, credível, estável. De facto e olhando o jogo, vencer por 2-0 é credível, sem que o adversário crie uma ocasião de golo é sólido e sem grandes sobressaltos é estável. E, todavia... E, todavia, essa consistência tão cara a Vítor Pereira é uma moeda de duas faces. Na face vista na Luz, ela resultou na melhor estratégia aplicável ao adversário e na melhor tendo em conta os condicionalismos próprios (ausências de James e Atsu). A estratégia de posse de bola, domínio do meio-campo e solidez defensiva, manietou o futebol de cavalgada do Benfica e produziu um jogo em que o empate foi o me- nor dos benefícios colhidos. Mas é forçoso reconhecer que, como dizia um benfiquista, o FC Porto de meia oportunidade fez dois golos embora o Benfica, recheado de soluções ofensivas alternativas, só tenha tido mais uma oportunidade.

Mas, para receber em casa um Paços de Ferreira, que de antemão se sabia que iria jogar fechado e organizado atrás, é óbvio que a mesma estratégia de «consistência» arriscava-se a produzir o que se viu: um jogo tão lento, tão aborrecido, tão falho de interesse que às tantas a câmara da televisão até surpreendeu um jogador do Paços bocejando de sono. E um jogo que o FC Porto só desatou e venceu graças a um pontapé feliz e à total ausência de capacidade ofensiva do adversário.

Acho que, apesar de qualquer um perspectivar um jogo em tudo diferente do da Luz, também cada um de nós, conhecendo o treinador portista, era capaz de adivinhar que ele nada iria mudar em relação ao jogo com o Benfica nem a estratégia nem os seus intervenientes. E assim foi: reincidiu na aposta, já provadamente falhada, de Defour a extremo-direito e, claro, reincidiu na aposta eternamente falhada de Varela. Não por acaso, foi quando os tirou que os seus substitutos mataram o jogo um na assistência, outro no remate.

De uma semana para a outra, Vítor Pereira mostrou o seu melhor e as suas limitações. É bom a dar a tal «consistência» à equipa; é mau a dar-lhe criatividade, a correr riscos necessários, a apostar e a desamarrar os jogadores de desequilíbrio. Com ele à frente, James teve de esperar meia época para conquistar a titularidade a Varela e a Cristian Rodriguez, apesar de ter vindo de uma época, com Vilas Boas, em que fora já o melhor ou um dos melhores da equipa. Com ele, Atsu, Kelvin, Iturbe, Sebá e Tozé esperam e esperarão indefinidamente que o treinador lhes dê um décimo das oportunidades que têm jogadores «consistentes» como, por exemplo, Defour e Varela. Ao contrário de Jorge Jesus no Benfica, Vítor Pereira é um destruidor de talentos no berço.

2- Ao FC Porto chegou agora um reforço que, pelo que já se viu, deve também fazer parte da categoria dos «jogadores consistentes», tão do agrado de Vítor Pereira: Izmailov. O golo que marcou ao Paços de Ferreira é uma certidão de vida que lhe vai valer grande protagonismo sem grande esforço. Eu confesso que não percebo os elogios que choveram: o golo é de oportunidade e boa execução técnica, que é uma qualidade que todos lhe reconhecem. Mas é também um golo à Varela, isto é, resultante de um momento de sorte e de indisciplina táctica, abandonando o lugar e as funções no jogo que lhe cabiam para vir vaguear dentro da área, à espera de uma bola sobrante que lhe permita, facturando, disfarçar tudo o resto. E o resto, no caso de Izmailov, foi um quarto de hora contra o Benfica e uma meia hora contra o Paços em que se mostrou absolutamente fora do jogo e sem a mais pequena possibilidade de dispor da velocidade e do arranque para uma função de extremo. Mas marcou, está desculpado.

Porém há coisas, neste reforço que me dão que pensar e baixar as expectativas. Não falando já do seu longo historial de indisponibilidade ao serviço do Sporting, faz-me confusão, por exemplo, que, ao fim de cinco anos em Portugal, não seja capaz de pronunciar uma palavra em português e se exprima por uns vagos sussurros em suposto inglês. Depois, custa-me aceitar que um atleta de alta competição, que deve ganhar uns 75 a 100 mil euros/mês (25 a 30 vezes o ordenado médio em Portugal), ao fim de duas semanas de treino e apenas meia hora de jogo, disputado a passo, não tenha pudor em queixar-se, uma, duas, três vezes, do grande cansaço que sente, como se fosse suposto termos pena dele. Que o FC Porto precisava de um reforço no meio campo ofensivo, concordo; que tenha vindo a custo zero é excelente; que seja este, já tenho bem maiores dúvidas.

3- Por razões profissionais, escrevo antes do jogo do Benfica em Moreira de Cónegos. Gostaria de pensar que há uma hipótese de o Benfica perder pontos, mas não acredito nela. Apenas espero do Moreirense que não entregue o jogo tão rapidamente e tão displicentemente como o fez a Académica, na quinta-feira. Há muito que não via uma equipa entregar-se tão galhardamente, para mais quando defendia um título e jogando perante o seu público. Depois admirem-se se ele não comparece à chamada, como sucedeu quinta-feira.

4- Provisoriamente reduzido a dois centrais disponíveis antes de receber o Benfica, no domingo que vem, o Sporting de Braga viu um deles ser expulso, já nos descontos e por falta duvidosa e que, reza toda a critica, a existir, jamais daria direito a um vermelho directo. Segundo o presidente do Braga, que classificou a arbitragem como «dos tempos de Calabole», o «árbitro andou todo o jogo a tentar expulsar quem tinha de expulsar». É uma acusação muito grave que, na parte substancial, vai acabar diluída na atmosfera e, na parte formal, vai acabar com suspensão de trinta dias e multa de mil euros a António Salvador.

5- Espicaçado pelas abundantes notícias acerca da ressurreição súbita do Sporting, lá me dei ao trabalho de ver o jogo contra o Beira Mar. E o que vi serviu-me para confirmar que há uma profunda divergência de opinião entre mim e os sportinguistas: onde eles acham que a crise é inexplicável face ao grande grupo de futebolistas de qualidade de que dispõem, eu acho justamente o contrário que a crise, tendo várias origens e razões, se explica sobretudo pela absoluta falta de qualidade da equipa. Tirando Rui Patrício e a promessa mal aproveitada de Carrillo, não há ali um jogador verdadeiramente de qualidade. Evidente e constante. É só uma opinião, que espero que não me levem a mal.

6- Como tantos outros que já fo escreveram, tambem eu assisti à morte de um dos meus ídolos, com as con-fissões de Armstrong a Oprah. Mas, de facto, não sei por que razão criámos ilusões: de há muito que é sabido que o ciclismo é um desporto quimicamente viciado, de alto a baixo. Pessoalmente, perdi as ilusões há muitos anos, quando li aqui uma entrevista de Carlos Miranda a Joaquim Agostinho, em que este, sempre negando a justiça dos dois controlos positivos em que fora apanhado, acabava, contudo, por se descair: «Mas não esperam, com certeza, que um homem suba o Alpe d'Huez só com eau d´Évian e bife grelhado!».

Armstrong foi um mito que a imprensa alimentou e deixou que crescesse, mesmo sabendo que, como ele diz, fez o mesmo que todo o pelotão do Tom de France fazia e faz. E tanto assim é que se os sete triunfos de Armstrong no Tour ficaram agora desertos de titular é porque todos sabem que os segundos, terceiros ou quartos classificados estavam tão limpos como ele. O ciclismo profissional, pese ao espectáculo que é, à tradição que carrega ou às espectaculares coberturas televisivas do Tour, está morto e enterrado. Podemos é continuar a fingir que aquilo é coisa séria.

segunda-feira, junho 03, 2013

O HOMEM DO JOGO (15 JANEIRO 2013)

1- O homem do jogo foi Vítor Pereira. Antes, durante e depois do jogo, ele esteve sempre por cima e fez com que o derby fosse disputado ao ritmo por si escolhido.

Antes do jogo, porque, não deixando de elogiar Jorge Jesus e o futebol jogado pelo Benfica (uma raridade nas relações entre ambos os clubes), respondeu à letra às provocãçõezinhas do treinador benfiquista («somos a única equipe que está em todas as competições»), lembrando que na Champions, que é a mais importante, já não estão. E podia ter acrescentado que é fácil continuar na Taça quando se joga em casa com equipas da terceira divisão, mas é bem mais difícil quando se joga a eliminatória, a uma só mão, no terreno do Nacional e do Braga, num jogo em que foi necessário fazer poupanças forçadas. Também lembrou que uma coisa é o favoritismo habitualmente atribuído ao Benfica nestes jogos, outra é o desfecho, habitualmente favorável ao FC Porto. E, sobretudo, em nenhum momento Vítor Pereira lamentou a ausência de um jogador fundamental como James Rodriguez, agravada ainda pelas ausências de Atsu e Iturbe — em contraste com Jorge Jesus, que, com aquele desvelo pela verdade desportiva que já o levara a elogiar o «jogo de igual para igual» com o Barcelona (como se fosse igual jogar contra o Barcelona A ou a reserva), tambem declarara catedraticamente que para o FC Porlo era exactamente o mesmo jogar com o James ou sem ele (como se viu na época passada...).

Durante o jogo, Vítor Pereira deu uma banhada táctica em Jorge Jesus. Susteve no meio-campo a cavalgada frenética do ataque benfiquista, mostrando que ali estava um adversário bem mais difícil do que o habitual. E, sem James nem Atsu para abrirem jogo para Jackson Martinez, com dois ocasionais extremos absolutamente inofensivos (Varela e Defour), apostou nas diagonais em aberturas rápidas pelo centro da defesa do Benfica — que só não produziram resultados mortais porque houve um juiz-de-linha que se encarregou do papel de quinto defesa benfiquista. Eu, que me gabo de perceber logo de entrada como vai correr um jogo ao FC Porto, a partir da atitude dos jogadores logo de início, aos 5 minutos já tinha concluído que, em condições normais, aquele jogo não ia ser perdido e, muito provavelmente, iria ser ganho. De facto, só aos 76 minutos, quando uma distracção na defesa em linha permitiu a Cardozo isolar-se perante Helton, é que o Benfica esteve perto de po- der ganhar o jogo. De resto, apenas reagiu bem a uma entrada de dragão, que rapidamente espalhou o temor e a ansiedade pelas bancadas da Luz. Colocando-se na frente por duas vezes e, logo no início do jogo, o FC Porto mostrou ao que vinha e condicionou a confiança benfiquista até final. Seguríssimo atrás (com excepção da retribuição de Helton ao frango de Artur), com Alex Sandro e Mangala imperiais, muilo bem acompanhados por Danilo e Fernando, a defesa portista apenas se mostrou vulnerável nessa jogada de Cardozo e no extraordinário golo de Matic, que é daqueles que não dá para prever nem para evitar. De resto, e não obstante uma noite pouco inspirada de Moutinho e Lucho, o FC Porto ganhou sempre a batalha de meio-campo, apesar de fustigado com faltas inexistentes de cada vez que um benfiquista era desarmado, e a que Jorge Jesus preferiu chamar «faltas técnicas». Onde as coisas falharam, como era de prever, foi no ataque pelos flancos. E eu,de facto, só não dou à performance de Vítor Pereira a nota máxima, porque continuo a não entender a sua fixação em Varela. Com toda a franqueza, pergunto-me se ele não terá um vídeo em que reveja os jogos e em que se dê ao trabalho de ir notando as vezes, em cada jogo, em que Varela tem um bom passe a rasgar, um bom centro, uma finta bem sucedida, um remate perigoso, um sprint ganho a um defesa, uma ajuda decisiva atrás ou, vá lá, em que não perca de imediato a bola para um adversário. Anteontem na Luz, isso sucedeu zero vezes — o que está dentro da média. E, se Defour, visivelmente, não é extremo nem grande jogador, no banco estavam Kelvin e Sebá, que tem, pelo menos, a vantagem de serem jovens, com mais talento à vista e muito mais vontade de mostrar serviço. E pena esta obsessão de Vítor Pereira, porque muitas vezes, como anteontem, a equipe está, de facto, a jogar com dez. E assim é mais difícil.

E, depois de oito meses a ouvir falar até à náusea do golo de Maicon em off-side (esquecendo os erros que favoreceram o Benfica nesse jogo, como o livre inexistente que lhe deu o segundo golo), Vítor Pereira esteve muitíssimo bem, no final do derby de domingo, optando por não calar a sua revolta com o que todos viram. Porque isto de os benfiquistas declararem que a arbitragem foi boa e passa-se adiante, como se a opinião deles fizesse doutrina, é chão que já deu uvas. Houve quatro off-sides mal tirados ao ataque portista três dos quais, começando logo pelo primeiro minuto de jogo, evitaram situações de jogador isolado frente ao guarda-redes. Se isto são erros «sem influência no resultado», estamos conversados... Como disse o treinador portista, não vale a pena passar a semana a treinar jogadas de ruptura no ataque se depois um juiz-de-linha, provavelmente tolhido pelo medo e pela responsabilidade, opta sistematicamente pela opção mais fácil.

Mas foi sobretudo na análise ao trabalho disciplinar do árbitro que Vítor Pereira esteve à altura daquilo que se exige a um treinador do FC Porto. Em relação a Matic, toda a gente viu o mesmo que João Ferreira e toda gente que conhece as regras do futebol sabe que aquilo é amarelo, sem desculpa: se João Ferreira o não mostrou, seguido de vermelho, foi apenas porque não quis. Em relação a Maxi Pereira, a história foi a habitual: algumas faltas maldosas no primeiro tempo, uma entrada ao corpo de Defour quando este ia para a área em boa posição, aos 58 minutos (sem falta assinalada nem amarelo), seguida, dois minutos depois, por uma cotovelada em Mangala, junto à lateral, numa das suas entradas características (e de novo sem falta nem cartão). E, finalmente, aquela entrada de kick-boxing sobre João Moutinho que, em qualquer lugar do mundo onde o futebol é apreciado, terminava com a sua imediata expulsão para os balneários. Mas finalmente alguém disse alto e bom som aquilo que eu próprio já aqui havia escrito: a impunidade de que goza Maxi Pereira é um escândalo na liga portuguesa, onde não há nenhum jogador que se lhe compare na falta de respeito pelos adversários e pela sua integridade física, pelo jogo e pelos espectadores e pelos próprios árbitros, com quem goza de alto, seguro da sua impunidade. É inacreditável que, como disse Vítor Pereira, Maxi Pereira possa continuar a terminar todos os jogos em campo, como se nada de escandaloso se passasse com as suas actuações. Noutros tempos, as suas recorrentes cotoveladas na cara dos adversários e nas barbas dos juízes-de linha, seriam mais difíceis de escamotear. Mas isso era no tempo dos sumaríssimos, que passaram de moda assim que o seu único alvo o FC Porto deixou de ter jogadores cotoveleiros, genuínos ou inventados. Hoje, Maxi Pereira distribui cotoveladas à vontade, toma balanço no ar e desfere pontapés no peito dos adversários, nem sequer se preocupando em saber onde está a bola, para disfarçar, e passa os jogos todos a distribuir pancada para, como explicou Abel Xavier n'A BOLA TV, «ganhar espaço e respeito». Neste caso, a táctica é eficaz: não creio que tenha o respeito dos adversários e dos que gostam de futebol, mas tem o respeitinho dos árbitros portugueses. E o silêncio cúmplice da crítica. Até quando, é a pergunta que se começa a tornar impossível de não ser escutada.

domingo, junho 02, 2013

CONTAGEM CRESCENTE (8 JANEIRO 2013)

1- Estava a escutar as notícias de domingo de manhã na rádio, quando fiquei a saber que se tinham registado incidentes no Pavilhão da Luz na véspera, na sequência do jogo de hóquei em patins entre Benfica e Porto. Percebi imediatamente que o FC Porto tinha ganho o jogo. A fórmula para tal é fácil: jogo na Luz+incidentes=derrota do Benfica. Os benfiquistas não sabem perder, nem ao berlinde: não sabem os dirigen- tes, os técnicos, por vezes os atletas. E já é uma sorte quando sabem ganhar e não se comportam como o seu treinador de basquetebol a celebrar o título no Dragão de forma vergonhosa e, aliás, ainda impune.

Com a aproximação do Benfica Porto em futebol, neste domingo, é claro e evidente o avolumar de um ambiente de tensão e de provocação, a que se soma um permanente clima de levantamento de suspeitas por tudo e por nada que visa intimidar, condicionar e, em última análise, justificar as derrotas desportivas. A propósito do adiamento do jogo do Porto em Setúbal, por exemplo, a quantidade de suspeitas e desconfianças lançadas para o ar por gente que já tinha idade para ter juízo, chegou ao ponto do ridículo: foi a data marcada para o jogo que se tornou suspeita, o estado do relvado do Bonfim, as razões do árbitro para adiar o jogo e mesmo a verdade da tempestade que nessa noite desabou sobre Setúbal. Tudo lhes pareceu altamente suspeito. Para os benfiquistas — não todos, mas parte significativa e exposta deles — o próprio facto de o Benfica não ganhar sempre é altamente suspeito. Como já o escrevi, jamais os ouviremos reconhecer mérito a uma vitória do adversário, reconhecer-lhe valor ou superioridade, elogiar o que quer que seja que os adversários façam. No limite, chego a pensar por vezes que os benfiquistas não se importariam de jogar sozinhos para terem a certeza de que seriam sempre campeões.

2- Também não deve ter sido, pois, por coincidência, que recentemente, e pela vigésima quinta vez, ressuscitaram as memórias do falhado Apito Dourado para, apostando sempre na falta de memória que tanto caracteriza os portugueses, tentar fixar para a eternidade a sua doutrina: o Apito Dourado terá feito prova de um imenso esquema de corrupção da arbitragem em favor do FC Porto, que só uma estranha permissividade da justiça comum não sancionou. Esta é, por exemplo, a tese recorrente do presidente do Benfica, ainda há dias aqui retomada. Não vale a pena perder tempo a responder a quem não quer saber de factos, mas apenas de conveniências. Todavia, vou apenas relembrar ai gumas coisas a alguém que há muitos anos aprendi a ler com respeito e interesse: o jornalista desta casa Santos Neves.

A propósito do caso Pereira Cristóvão/ José Cardinal, escreveu aqui Santos Neves, há dias: «Nunca poderá cair no esquecimento aquilo que o famigerado Apito Dourado pôs a nu: a visita do árbitro a casa de presidente de clube na semana em que estava nomeado para jogo desse clube; o que milhares ou milhões ouvimos nas célebres escutas que vieram a não ter validade judicial..» Ora, sobre a visita do árbitro: a) ao longo de todo o processo, Pinto da Costa afirmou sempre que a visita do árbitro foi inesperada e o deixou incomodado. Como nunca se fez prova de que ele mentia, assumir o contrário é apenas um acto de vontade, b) o jogo em questão (Beira-Mar-FC Porto) foi disputado quase no final do campeonato quando o FC Porto tinha o título de tal forma seguro que mandou a reserva a Aveiro, pois daí a dias jogava a final de Gelsenkirchen; c) o jogo terminou com um empate e, nas crónicas sobre a arbitragem, ficou registado que o árbitro tinha cometido dois erros com influência no resultado, sendo que o primeiro deles em prejuízo do FC Porto.

Quanto às célebres escutas não validadas, recordo a Santos Neves que as escutas são um meio de prova apenas admitido em processo-crime, para determinado tipo de crimes e mediante prévio consentimento e posterior validação de um juiz. Algumas das escutas do Apito Dourado não foram validadas exactamente porque não obedeceram aos requisitos legais e outras não foram valoradas como prova porque nenhuma outra prova apa- receu que confirmasse a interpretação que delas se quis fazer e que os seus autores negaram — e acontece que raríssimos são os casos em que, em processo crime, as escutas, isoladas de qualquer outro meio de prova, servem para alguma coisa. Pode-se sempre defender outro tipo de regime jurídico, mas este é o que vigora num Estado de Direito. Quem preferir escutas sem controlo judicial e a servirem por si só para incriminar alguém, independentemente de contraditório, pode sempre defender o regresso ao regime político anterior. Não pode é defender o Estado de Direito, mas com excepções ad hominem. Não há democracias grátis.

Adiante, escreve Santos Neves ainda o seguinte: «Imperioso não se repetir a incompetência processual que levou ao absurdo arquivamento do Apito Dourado». Começo por recordar os factos: Pinto da Costa foi acusado em três processos diferentes: em dois deles, a instrução concluiu pelo arquivamento por entender que não havia elementos para o levar a julgamento; no terceiro, foi acusado e julgado no tribunal de Aveiro, tendo sido absolvido, na instância e no recurso. Suponho que seja exigir muito ir consultar a sentença que o absolveu, mas se Santos Neves o fizesse ficaria impressionado por constatar como os juízes desmontaram de alto a baixo todo o Apito Dourado, reduzindo-o a uma total leviandade ou má-fé do Ministério Público. E, nisto sim, reside a tal «incompetência processual» de que fala Santos Neves: não nos arquivamentos ou absolvição, mas sim no papel desempenhado por alguns magistrados do Ministério Público, comandados a partir de Lisboa. Alguns, mas apenas um com intervenção directa no processo: porque todos os restantes magistrados do MP ou magistrados judiciais que se ocuparam do caso — e foram para aí uns vinte — concluíram da mesma forma. Seriam todos incompetentes, como afirma Santos Neves, ou estariam todos comprados, como parece sugerir o presidente do Benfica?

A terminar, deixo três questões a Santos Neves: não lhe parece estranho que num mega-processo destinado a apurar eventuais promiscuidades entre os clubes e os árbitros, apenas tenham sido escutados e investigados os presidentes do Boavista e do FC Porto? Não lhe parece, vá lá, suspeito que a testemunha chave do MP, a D. Carolina Salgado, fosse alguém que tinha evidentes e recentes motivos de despeito e vingança contra o presidente do FC Porto, que a substituíra no cargo de primeira-dama do clube? E que essa testemunha, a quem o MP colocou sob protecção de seguranças, dois anos a fio, para sugerir que ela era tão importante que corria perigo, tenha sido apanhada nos autos a mentir várias vezes, acabando por ser processada por crime de perjúrio? E não acha rocambolesco que a sua irmã, a principal contra-testemunha da defesa, tenha estado até às duas da manhã da véspera de ir depor no tribunal de Aveiro, à conversa com o MP em Lisboa, acabando por não aparecer no tribunal e enviando em seu lugar um documento, apresentado pelo MP, no qual desdizia tudo o que dissera durante anos, nos autos?

3- Quanto ao Benfica-Porto, propriamente dito, é evidente que as circunstâncias estão todas contra um FC Porto desfalcado de James Rodriguez, desfalcado de Atsu, desfalcado ate de Iturbe, sem nenhum ponta-de-lança de reserva e com flanqueadores reduzidos ao inconsequente Kelvin e ao absolutamente inútil Silvestre Varela. Só falta mesmo que Jackson Martinez se lesione também e o ataque do FC Porto desaparece. Como é que se geriu o plantel, em termos clínicos e técnicos, com tantos negócios sul americanos e tantos empréstimos de jogadores com valor (Fucile, Souza e Walter encostados à procura de um destino!) para chegar nestas condições a um período decisivo do campeonato e da Champions é matéria de profunda reflexão, que só pode deixar alguns com as orelhas a arder.