sexta-feira, maio 31, 2013

ENTRE O SONHO E A REALIDADE (11 DEZEMBRO 2012)

1- Os benfiquistas têm uma característica que merece ser louvada e até invejada: mal acabam de perder uma competição, imediatamente se auto-declaram favoritos a vencer a próxima. Acabados de sair da Liga dos Campeões, já se proclamaram favoritos a vencer a Liga Europa, com aquela superioridade natural que os caracteriza e que faz com quem olhem sempre para os adversários como um obstáculo de menor importância para a concretização dos seus sonhos. Ano após ano, por exemplo, acreditam sempre que a sua equipa será suficiente para vencer o campeonato, e se, no final, quem o vence é o FC Porto, entramos no domínio dos fenómenos paranormais, em cujas explicações tanto se aplica o Dr. Rui Gomes da Silva e não só.

A confusão entre a realidade e o sonho chega mesmo a perturbar mentes brilhantes, e brilhantemente pagas, para distinguir uma coisa da outra. Assim, por exemplo, Jorge Jesus não se acanhou nada em explicar que em Barcelona o Benfica tinha sido a única equipa que ele tinha visto jogar de igual para igual - como se falasse para uma plateia de atrasados mentais, que não se deram conta de que o Barcelona que estava em campo, sem Daniel Alves, sem Xavi, sem Iniesta, sem Fabregas, sem Messi, sem Sanchez, sem Pedro Rodriguez, enfim, com apenas três titulares habituais e três jogadores a fazerem a sua estreia absoluta na primeira equipa, não era propriamente o Barcelona que ele e nós estamos habituados a ver. Na sua presunção, na sua urgência em fazer passar por quase vitória o que foi um empate-derrota inaceitável nas circunstãncias em que aconteceu, Jesus nem sequer se coibiu de afirmar de véspera, displicentemente, que não sabia que recorde era esse que Messi perseguia e sobre o qual tinha lido vagamente nos jornais. Pena que não tenha havido um só jornalista para lhe perguntar se ele era mesmo a única pessoa era todo o planeta futebol que desconhecia que Leonel Messsi perseguia (e alcançou anteontem) o recorde do jogador que mais golos marcou num só ano civil, depois de já ter batido o recorde de golos numa época. Ele não sabia, mas assim que Messi entrou em campo, logo Luisão tratou de o intimidar com uma entrada a varrer às pernas e a net levou ao mundo inteiro a imagem eloquente de Messi com a bola na área do Benfica, rodeado e cercado pelos dez jogadores de campo dos encarnados!

Mas uma coisa há de que Jesus não tem culpa alguma: aquele egoísmo de Rodrigo aos 18 minutos é imperdoável, e não vale a pena fingir que não viu o companheiro ao lado, porque ninguém consegue acreditar. Pode ter custado a qualificação e, por mais golos que ele marque no futuro, não há nada que o possa redimir. Já do ponto de vista colectivo, parece-me mais difícil de entender como é que o Benfica, vindo de onze dias de descanso de jogos, graças à sua sorte no sorteio da Taça, deu o berro no segundo tempo. Porque, de igual para igual, foi só a primeira parte - aliás, até com superioridade do Benfica.

2- Também Vítor Pereira não tem culpa do inacreditável frango de Helton contra o PSG (fruto, não do azar, mas de um grave erro técnico na forma como se lança à bola), ou do inconcebível falhanço de Lucho numa recarga de baliza aberta, sem guarda-redes e sem oposição, de frente para as redes. Um e outro erro também custaram ao FC Porto o primeiro lugar no grupo e o sorteio do dia 20 dirá se o prejuízo se ficou pelo milhão de euros de prémio que foi à vida. Dizia um portisla ao meu lado que o frango do Helton equivalia a um ano de ordenado - mas essa é apenas a hipótese optimista. É certo que não se pode condenar um jogador por um erro, que todos tém direito a errar, que só acontece a quem anda lá dentro e que já outras vezes tem sido ele o salvador, etc e tal. Tudo isso é certo, mas resta uma verdade estatistica: com esta, foi a quarta vez que um frango do Helton virou contra o FC Porto um jogo da Liga dos Campeões. E, se é certo também que mesmo os melhores guarda-redes dão sempre pelo menos um frango por ano, o problema com Helton é que ele parece escolher sempre os jogos de maior responsabilidade para abrir a capoeira - e isso, queiram ou não, significa alguma coisa, Significa alguém que vacila nos momentos mais importantes. E, olhando para trás e somando os frangos do Helton aos do Nuno espirito Santo, do Hilário, do Rui Correia, ou, por exemplo, à oferta do Bruno Alves ao Rooney, já perdi a conta ao número de jogos do FC Porto na Liga dos Campeões, que foram decididos contra nós por erros próprios e grosseiros. Para dizer a verdade, não há um jogo da Champions em que eu não esteja a temer, a todo o momento, um haraquiri saído do nada.

Um auto-golo em Braga, outro em Paris e quase outro contra o Moreirense. Dois golos fáceis desperdiçados por Lucho em Braga e em Paris, e assim o FC Porto encaixou duas derrotas seguidas, saiu da Taça e pôs um pé fora da Champions. Oxalá que nos oitavos, seja contra quem for, os jogos comecem mesmo com 0-0 e não com zero para nós e uma oferta garantida para eles.

3- 24.000 pessoas assistiram à magra vitória caseira do FC Porto contra o Moreirense. Foram poucas para o habitual, muito poucas para o desjável, mas, mesmo assim, 24.000 heróis que arrostaram com o frio de um sábado à noite de Dezembro, para assistirem a um jogo sem grande cartaz. O problema é que, depois de verem o que viram, eles e os que ficaram a ver pela televisão, é bem provável que o próximo jogo de cartaz semelhante no Dragão tenha menos espectadores ainda. Eu aceito a explicação de Vítor Pereira sobre o cansaço físico e anímico dos jogadores, depois de uma série de trés jogos seguidos de exigência máxima e todos jogados fora. Aceito perfeitamente que tivesse havido um relaxamento geral e poupança de esforços. Mas primeiro era preciso garantir o resultado e para isso era necessário fazer alguma coisa, e o FC Porto, que podia ter marcado logo no primeiro minuto, nada mais fez depois disso, até ao golo redentor de Martinez, ao minuto 70. Com um pouco de azar, podiam-se ter perdido dois pontos: ou no quase consumado auto-golo de Otamendi, ou em mais um daqueles penalties de bola na mão, que os críticos reclamam e os árbitros às vezes marcam mesmo (neste caso, um remate à queima-roupa direito à cara de Alex Sandro e que este, instintivamente protegeu com as mãos. Da próxima vez, deve, estoicamente, deixar-se atingir, com traumatismo craniano, se necessário, pois tudo é melhor do que suportar o Dr. Gomes da Silva).

De resto, como é habitual nestes jogos, o Moreirese não criou, por si, uma ocasião de golo, defendeu o 0-0 sempre com dez jogadores atrás da linha da bola e eu repito uma pergunta recorrente: o FC Porto tinha a desculpa do jogo europeu a meio da semana, mas qual é a desculpa destas equipas para apresentarem sempre pior condição fisica do que as que jogam duas vezes por semana e que tém de passar o jogo todo ao ataque, ocupando todo o terreno, e não apenas ocupando metade do campo, todos ao molhe e à defesa? Será que a preparação física, ao contrário do talento individual e colectivo, não depende apenas de trabalho e esforço?

4- Propositadamente, entrego este texto antes do Sporting-Benfica, permitindo-me um exercício de adivinhação, sempre incerto e pouco prudente. Não vou, porém, tentar adivinhar o resultado, mas apenas dizer isto: pelo que vi do Sporting contra o Videolon e outros jogos, pelo que tenho visto do Benfica, seria um milagre se o Sporting conseguisse, pelo menos, o empate. Há muitos problemas no clube e há muitos problemas na equipa, sem diagnóstico nem solução fácil. Mas, na equipa, há um problema que salta à vista: não jogam nada. Agora, se aquele grupo de jogadores, que eu já nem consigo identificar, por artes mágicas e súbitas, tiver conseguido ontem à noite arrancar um grande jogo e um bom resultado, ainda bem! Para eles e para nós.

quinta-feira, maio 30, 2013

UM ACIDENTE EM BRAGA (4 DEZEMBRO 2012)

1- E pronto, estamos fora da Taça de Portugal. E tenho pena porque, antes destes dois últimos anos de afastamentos precoces sob o comando de Vítor Pereira, a imagem que retinha da participação do FC Porto na Taça foi a da época 2010 /11, em que, sob o comando de André Villas-Boas, fomos eliminar o Benfica na Luz, vencendo por 3-1 depois da derrota por 2-0 no Dragão, e terminámos em grande luxo, com um festival de futebol e uma vitória por 6-2 contra o Guimarães, no Jamor. Mas a Taça tem muito de crueldade aleatória, na medida em que o sorteio acaba por ser a parte mais importante de cada eliminatória. Depois de termos ido à Madeira eliminar o Nacional, três dias antes de um jogo da Champions, seria justo que tivéssemos tido direito a coisa mais fácil do que ter de voltar a Braga cinco dias depois de lá termos ido ganhar para o campeonato e quatro dias antes do jogo de Paris, que irá decidir quem vencerá o grupo 1 da Champions. Um Tourizense ou alguém ainda a definir entre os mais acessíveis, como sucedeu ao Benfica, teria sido bem mais justo. Assim como teria sido bem mais justo que o jogo, o segundo consecutivo contra o Braga, desta vez tivesse calhado no Dragão. Ou que, ao menos e como sucede nos países onde o futebol profissional é levado mais a sério - Espanha, Itália ou Inglaterra - as eliminatórias da Taça fossem disputadas a duas mãos. Mas aqui, já se sabe que os jogadores se cansam muito com dois jogos por semana, os clubes são ricos e não precisam de mais receitas e a Selecção ocupa os tempos livres dos clubes em excursões exóticas, e, portanto, não sobra calendário para disputar as eliminatórias da Taça a duas mãos. E assim, um Benfica, por exemplo, pode alcançar o Jamor sem ter chegado a disputar um jogo a sério. E é pena porque uma competição que depende tanto do factor sorte, sem cabeças de série nem eliminatórias a duas mãos, não consagra necessariamente o melhor, mas muitas vezes o mais afortunado.

Porém, de forma alguma critico a opção de Vítor Pereira de fazer alinhar em Braga, num jogo a eliminar, apenas três titulares habituais: a decorrência do jogo mostrou que o FC Porto podia e esteve à beira de levar de vencida o Braga, mesmo com uma quase equipa-B. É claro que a opção de Vítor Pereira resultará duplamente falhada se, logo à noite em Paris, o FC Porto perder contra o PSG: terá poupado para nada. Mas, chamado a decidir, ele tomou uma opção e correu um risco - e é pago para isso. Além do mais, para além da conveniência em poupar jogadores mais cansados, a opção que tomou permite integrar, rodar e manter vivos outros jogadores com quem também tem de contar, porque uma equipa como a do FC Porto, que aspira a vencer tudo, não pode fazer-se à luta apenas com um leque de 14 ou 15 jogadores, mas sim de 20, 21. Critico-lhe , talvez, a escolha de alguns que deixou de fora e outros que meteu dentro: James Rodriguez, por exemplo, tinha bem mais motivos para estar cansado que Moutinho ou Lucho e seguramente mais do que Alex Sandro, que tinha acabado de regressar de uma longa paragem. Em contrapartida, a inclusão de Kleber teve o efeito previsível de fazer com que o FC Porto jogasse, na prática, sempre com dez jogadores - e nove, depois da expulsão de Castro. Teria sido bem melhor poupar James e incluir Jackson Martinez, dando o flanco direito a um dos jovens impacientes Iturbe ou Kelvin. Ou então, caso Martinez também precisasse de um descanso, na opinião do seu treinador, jogar em 4x4x2, sem ponta-de-lança - o que teria o mérito táctico de deixar sem função e sem jogo útil a dupla de centrais do Braga, que é um dos seus pontos fortes. E, na esteira de todos antes de mim, também subscrevo a critica ao tempo que Vítor Pereira demorou a reagir à expulsão de Castro e ao triplo falhanço das suas substituições - que é, aliás, um dos seus calcanhares de Aquiles.

Mas, como disse, a equipa que ele pôs em campo demonstrou ser suficiente para, em circunstâncias normais, ter levado de vencida um Braga que, com apenas uma ocasião de golo, conseguiu marcar dois. O «amigo portista» Benquerença (como os benfiquistas lhe chamam, depois do célebre talvez-golo da Luz), também deu a sua contribuição para o desfecho final, mostrando que tem pouco de amigo azul, mas muito de mau árbitro, que espalha o mal sem olhar a quem. Infelizmente, não viu um subtil e estúpido penalty do Fernando, que foi a única coisa em que foi amigo do Porto - e mais valia que não tivesse sido. Para que, em contrapartida, não tivesse assinado um festival de decisões técnicas e disciplinares muita vezes erradas e sempre contra o Porto, culminando com a amostragem de oito cartões amarelos e um vermelho, 26 faltas assinaladas contra o Porto e apenas 8 contra o Braga (!) e um cartão vermelho inventado a Castro, por coisa alguma, mas com o condão de virar o jogo do avesso.

Mesmo mal expulso, fica mais uma opurtunidade perdida por Castro, um jogador que tinha tudo para se afirmar nos corações azuis e brancos - é português, é da nossa escola e é portista - mas que, infelizmente, não agarra ocasião alguma e parece ser apenas um jogador de destruir, sem nada construir. Fica mais uma demonstração da falta de qualidade gritante de Kleber e a certeza de que esta equipa não tem ponta-de-lança suplente. E fica-me, com um auto-golo quase ridículo a acrescentar ao resto que já vi, a confirmação de que até prova em contrário, Danilo - uma das mais caras contratações da história do F.C. Porto - não vale nem meio Fucile, que foi cedido de borla. E ficam-me as saudades de uma Taça de Portugal, contra sorteios e sortes, disputada com o mesmo espírito do campeonato.

2- Volto a um tema que me é caro, a propósito do anterior Braga-Porto, para o campeonato, e do lance em que, no primeiro remate do Braga, aos 21 minutos, o tiro de Alan, disparado à queima-roupa, encontra no caminho o cotovelo de Alex Sandro - um lance que a unanimidade da crítica julgou como penalty, que ficou por marcar. Não me interessa nada a generalidade da critica, mas apenas uma opinião: a de Cruz dos Santos, aqui neste jornal, e porque, mesmo quando discordo dele, lhe reconheço um estatuto único entre pares, que é o de suplantar todos no conhecimento técnico e na isenção de julgamento. Já aqui, aliás, terei armas com ele, em defesa da minha tese de que esta moda lusitana de pedir, reclamar e assinalar uma profusão de penalties sempre que uma bola encontra um braço, contraria a letra e o espirito da lei, desvirtua a justiça de muitos jogos e está-se a tornar uma forma deliberada de batota: não vejo, nos jogos disputados lá fora, essa coisa ridícula de os defesas se fazerem à bola com os braços atrás das costas, como se fossem auto-decepados. A propósito desse lance, escreveu Cruz dos Santos: «Ficou por assinalar penalty contra os portistas (porque) não houve braço dirigido para a bola, (mas) houve bola no braço colocado onde a bola poderia passar». Não posso estar mais em desacordo: no momento do remate, Alex Sandro está de costas para ele e o braço que atinge a bola (e que Cruz dos Santos reconhece que não se moveu) nem sequer é o mais próximo, mas o mais distante - o que invalida a malévola intenção que lhe atribui. Estava colocado em posição absolutamente normal, relativamente ao corpo e ao movimento do corpo - e só mesmo se fosse maneta é que não estava ali. E eu não vejo, nem na letra nem no espirito da lei, que um defesa tenha obrigação de tentar interceptar um lance fazendo desaparecer os braços ou tendo de, numa fracção de segundo, avaliar uma das possíveis trajectórias da bola e torcer-se todo, numa posição anti-natural, para retirar os braços dessa linha imaginária. Acresce que não tenho uma dúvida que jogadas como aquela nada têm de inocente, da parte do atacante. De onde estava, Alan só tinha duas possibilidades de sucesso: ou cruzar para trás ou rematar em arco, em geito, para o canto posto. Mas ele optou por rematar em força e em frente, direito ao corpo do adversário e à altura dos seus braços. Imediatamente, reclamou exaltado pelo penalty e, eu posso estar mil vezes enganado, mas era capaz de jurar que o seu objectivo foi só aquele: sacar à má-fila um desses penalties que aqui se marcam ou reclamam com tanta facilidade e imponderação. E daqui ninguém me tira: isto é anti-jogo e não vem na lei como penalty.

quarta-feira, maio 29, 2013

UM CAFÉ DA COLÔMBIA (27 NOVEMBRO 2012)

1- Aquele menino James Rodriguez vale ouro. Eu sempre o soube e escrevi, mas outros houve que duraram tempo de mais até o perceberem. No ano passado, por esta altura, Vítor Pereira estava ainda com dificuldades em decidir a quem entregaria a ala esquerda do ataque, sendo frequente que James fosse preterido por Varela e até por Cristian Rodriguez. E muitos dos críticos da praça defendiam que também não havia lugar para ele como número dez, pois estava tapado por Lucho. Agora, que o abutre de Sir Alex não pára de voar em círculos por cima do menino de ouro da Colômbia, não há quem, finalmente, não se tenha rendido ao seu génio.

Anteontem, em Braga, James Rodriguez conseguiu mais três pontos determinantes para o FC Porto, numa vitória arrancada à Benfica, isto é, nos últimos suspiros de um jogo indefinido. E, com isso, acabou com as dúvidas: o campeonato vai ser até ao fim um mano-a-mano Porto-Benfica.

Em Braga, ainda não tinham passado 3 minutos, e já o FC Porto podia estar a ganhar por 2-0, se Otamendi não tivesse acertado primeiro no poste e depois ao lado do poste, mas por fora. Foram 15 minutos portistas avassaladores, sem o Braga ousar pisar sequer para além da linha do meio-campo. Aos 21 minutos, enfim, o Braga desceu ao ataque e fez o seu primeiro remate: Alan, quase sem ângulo, rematou a meio metro de distância contra o cotovelo de Alex Sandro e tudo o que é benfiquista ou bracarense por esse Universo fora desatou a reclamar penalty. Depois compreendeu-se a razão da veemência: não fosse assim, de um penalty manhoso, caído do céu sem mérito nem razão alguma, e a própria equipa não acreditava que pudesse lá chegar de outra maneira. É verdade que, até ao intervalo, o Braga equilibrou e chegou a estar por cima um breve período, mas sem nunca estar na iminência do golo. E, em toda a segunda parte, pura e simplesmente, desistiu de atacar, lá ficou entrincheirado no seu reduto, aproveitando uma exibição luxuosa do central Douglão e uma prestação bem amiga de Carlos Xistra — que, afectado pelos gritos de «gatuno», após o pretenso penalty não assinalado, errou, em favor do Braga, quase todas ou mesmo todas as decisões disciplinares subsequentes. Não quero ser injusto: cada um tem as armas que tem e talvez as de Peseiro não dêem para mais. O Braga é, indiscutivelmente , uma equipa que sabe o que está a fazer e joga bom futebol. Mas, como já aqui tinha assinalado nos jogos contra o Man. United, falta-lhe, nos grandes jogos, um suplemento de crença e de coragem que o levem a assumir alguns riscos. E, quem não arrisca, não petisca. O Braga não arriscou nada anteontem e, como já sucedera contra os ingleses, voltou a pagar o preço ao cair do pano. O FC Porto, que jogou mal e que terá feito mesmo uma das piores exibições da época, saiu de Braga com os três pontos, não tanto por mérito próprio, mas sobretudo por castigo próprio do Braga. Sem esquecer que, depois, é claro, é preciso ter um James Rodriguez, capaz de acreditar e arriscar até ao último fôlego. Do lado azul, houve alturas de desacerto total, em que não entravam três passes seguidos do meio-campo para a frente; Moutinho e Lucho, que tão bem tinham jogado contra o Dínamo Zagreb, eclipsaram-se; Jackson Martinez nunca foi servido em condições e James, de cada vez que arrancava direito à área, era derrubado. Como se costuma dizer, o resultado foi bem melhor do que a exibição. E a sorte, de que falou Jorge Jesus e de que o Benfica tanto beneficiou no final dos jogos quando foi campeão pela sua mão, desta vez sorriu ao F C Porto. O sol, quando nasce, é para todos.

2- A propósito de João Moutinho, já aqui falei dos jogadores cuja verdadeira importância no jogo só se avalia bem ao vivo e não na televisão, por maior que seja o ecrã. Moutinho é um desse jogadores, sobre o qual mudei radicalmente de opinião, e para muito melhor, quando o vi jogar no estádio. Esta quarta-feira, contra o Dínamo, voltei a confirmar isso e também o inverso: que há jogadores cujo défice de importância e produção é bem maior vistos em pessoa do que na televisão. É o caso de Silvestre Varela, que, para mim, é claramente a carta fora do baralho, nesta equipa reconstruída ou inventada após a partidade Hulk. Varela, não apenas é capaz de passar um jogo inteiro sem produzir nada de útil — um cruzamento, uma assistência, um passe a rasgar, um apoio decisivo atrás — como também parece flutuar permanentemente fora do jogo, andado para trás e para a frente sem sentido, num trote miúdo e repousado. Mas, como os deuses nem sempre são justos e ele é esperto, de vez em quando foge da sua posição e da sua função, onde nada pode acontecer por iniciativa sua, e aparece no centro do ataque, em busca das bolas perdidas que lhe permitam, aqui e ali, um golo redentor que faz esquecer tudo o resto. E assim vai iludindo muitos, de Vítor Pereira a Paulo Bento. Para ser justo, devo dizer, contudo, que nem sempre foi assim: quando chegou ao FC Porto (por alguma razão abandonado pelo Sporting e remetido para a Amadora), Varela era um jogador a sério, que corria, rematava, procurava a linha e cruzava ou assistia os companheiros. Mas agora encostou-se. E encostou-se também ao direito adquirido de titularidade, que Vítor Pereira lhe concedeu.

3- Como se temia e era previsível, as três equipas portuguesas em competição na Liga Europa despediram-se todas, sem direito a queixume algum. O que não se previa é que também o Braga falhasse simultaneamente a qualificação para os oitavos da Champions e até o terceiro lugar, que lhe daria passagem à segunda competição europeia. E assim, as mesmas duas equipas, Benfica e Porto, que são agora as únicas candidatas ao campeonato, são também as únicas que podem salvar a honra do convento na Europa. Com a Liga Europa garantida, o Benfica tem a tarefa muito complicada para continuar na Champions — sobretudo se Tito Vilanova não quiser aceitar a amável sugestão de Jorge Jesus de pôr em campo a reserva do Barcelona contra o Benfica, em Camp Nou. O problema é que Messi precisa de jogar para conseguir chegar ao recorde de Gerd Muller de 85 golos num ano, e só lhe faltam 3. Mais vale apostar numa derrota caseira do Celtic contra o Spartak de Moscovo. E seria bom que isso acontecesse para que o mano-a-mano interno Benfica-Porto permanecesse equilibrado em termos de compromissos europeus.

4- Se passar em Braga, na sexta-feira, o FC Porto, não apenas permanecerá bem vivo em todas as competições, como sobrevivera ao terceiro de quatro jogos consecutivos fora de casa — um ciclo que só terminará em Paris, daqui a oito dias. Este é o primeiro dos dois momentos decisivos de cada época e talvez o principal: quando, assegurada a continuidade nas competições europeias antes da pausa de Inverno, se asseguram também as condições de êxito internas. Inversamente, nova derrota do Braga equivalerá, sem subterfúgios, a uma época aquém das expectativas. É provável que António Salvador mande a factura a José Peseiro, esquecendo-se do seu próprio contributo, quando, acabado de garantir a Champions, tratou de vender Lima ao Benfica, a preço de saldo. O FC Porto vai lutar pelos pergaminhos, o Braga pela vida.

5- E se na noite passada tiver ganho em Moreira de Cónegos [este texto foi escrito antes do jogo], o Sporting terá uma ténue esperança de sobrevida. A seguir, terá duas tranquilas semanas para preparar o jogo de Alvalade contra o Benfica, onde a hipótese improvável de uma nova vitória lhe pode garantir um Natal menos penoso.

terça-feira, maio 28, 2013

JOGOS DE GABÃO (20 NOVEMBRO 2012)

1- Pese a insistência e boa vontade com que o José Manuel Delgado e o Fernando Guerra se têm atirado a Pinto da Costa, a propósito dos comentários deste sobre a excursão nacional ao Gabão, não vejo que outra razão exista (para além da embirração sempre latente ao presidente portisla) para o criticar.

Para começar, assiste a Pinto da Costa uma legitimidade que poucos têm na matéria. Não só porque é presidente do clube que, de longe, mais prestigia o futebol português além-fronteiras, mas também porque é, possivelmente, o dirigente que mais apoio tem dado à Selecção, ao longo dos anos.

Paulo Bento pode não ter gostado de ouvir Pinto da Costa criticar o excesso de tempo que ele deu de utilização aos portistas enviados ao Gabão: isso é aceitável, é aceitável que diga que a gestão lhe cabe a ele (o que também não o coloca para além do legítimo direito de ser criticado); mas já não é aceitável que ele trate o presidente portista de cima da burra, nisso mostrando ingratidão e falta de memória. E fica muito bem à Federação vir dizer que a Selecção é gerida de dentro para fora e não de fora para dentro - esquecendo-se, porém, que ela só existe de fora para dentro, actuando nos estádios cedidos pelos clubes e com os jogadores cedidos e pagos pelos clubes. O seleccionador e os seus dirigentes montaram uma bravata para agradar às forças vivas de Lisboa, sempre de tocaia para qualquer oportunidade de viraram baterias contra quem lhes disputa o mando e enraivece de inveja. Mas não tivesse o Sporting cedido apenas o guarda-redes à Selecção e o Benfica nem isso, e outro galo cantaria e outra narrativa se teria feito. Já não há ingénuos, só há distraídos.

Mas isso são apenas detalhes. O essencial desta triste história é que não há ninguém de boa-fé capaz de defender e justificar a excursão nacional ao Gabão. Eu sei que é uma data FIFA, mas isso apenas devia permitir às Federações agendarem jogos que servem efectivamente de preparação ou que são importantes em termos de prestígio da Selecção. E, embora também o permita, não devia servir para que as Federações aproveitem essas datas para agendarem jogos que apenas têm por finalidade desgastar os jogadores e os clubes, pôr em risco a sua utilização em jogos bem mais importantes internacionalmente e arriscar o prestígio do nome de Portugal, a troco de uns milhares de euros.

E que, ao contrário do que Paulo Bento argumentou de forma deselegante, há uma diferença imensa entre chamar os colombianos do FC Porto para irem a New Jersey jogar contra o Brasil (o equivalente a um Espanha Portugal), ou chamar os portugueses do FC Porto para irem fazer horas a um batatal tropical, contra o Gabão. A aventura africana da Selecção reuniu tudo o que não devia ser permitido: uma longa viagem, um clima terrível, um relvado de arrepiar e um desempenho desprestigianle. Se Paulo Bento quisesse fazer prova da coragem que alguns lhe elogiaram ao empertigar-se contra o presidente do FC Porto, deveria antes ter sido ele o primeiro a empertigar-se contra os desejos comerciais dos seus patrões da Federação, reconheceudo que este jogo era inúti e potencialmenle prejudicial em vários aspectos. Isso sim, teria mostrado coragem e independência de espírito. A Selecção Nacional não pode ser gerida como uma mercearia.

Diz o presidente da FPF que com os 800.000 euros que a Federação cobrou nesta aventura africana vai começar a amealhar para a sonhada Casa das Selecções. Pergunto-me quantas mais excursões destas terão de ser contratadas até que ele reúna os milhões necessários a essa empreitada? E pergunto-me se esse novo-riquismo das Casa das Selecções será mesmo uma necessidade premente ou apenas um luxo sem sentido, num país onde existem tantos centros de estágio e estádios desaproveitados?

E, quando digo que não há inocentes mas apenas distraídos, é por que, obviamente, estou a lembrar-me da golpaça montada na época passada, quando em vésperas do jogo do título, a Liga de Clubes conseguiu parir um sábio enredo com as datas do jogo, que fez com que o FC Porto fosse à Luz 48 horas depois de alguns dos seus jogadores terem jogado pelas respectivas selecções no estrangeiro, e um deles, James Rodriguez, ter jogado menos de 24 horas antes, em Miami. Felizmente paraa «verdade desporliva» que tanto apregoam, a golpada foi desmontada com mestria: o FC Porto fretou um jatinho para trazer de noite James de Miami para Lisboa, fê-lo dormir no hotel durante o dia e, no momento exacto, soltou-o no relvado da Luz para que ele resolvesse o jogo, como resolveu, como génio dos predestinados.

Os benfiquistas falam eternamente do golo de Maicon em off-side nesse jogo, mas nunca falam, do segundo golo do Benfica, de livre inexistente, nem, sobretudo, dos preparativos urdidos antes do jogo, para que o FC Porto chegasse à luz sem condições de se apresentar no seu melhor. Já cá ando há muitos anos a assistir a coincidências destas para me deixar iludir com jogos de gabão: o FC Porto afastado já da Taça de Portugal dava muito jeito.

2- Havia, de facto, razões para temer o pior, na deslocação à Madeira. Que o nevoeiro, por ali frequente, ou mesmo o temporal que assolava o continente se estendesse para lá e tornasse o jogo uma lotaria. Que jogadores desgastados pelas viagens e jogos, de fusos trocados e sono alterado não conseguissem estar à altura da situação. E que o ambiente sempre difícil, com a eterna cantoria do bailinho da Madeira em fundo, enervando os ouvidos e os espíritos, se aliasse a uma equipe em subida de forma e sedenta de triunfos para tornar ludo ainda maiscomplicado.

Mas, não. Corajosamente, Vítor Pereira montou um onze onde apenas dois jogadores, Otamendi e Lucho, integravam a lista dos habituais titulares. E, mesmo assim, venceu categoricamente. E valeu a pena ver as alternativas: Fabiano fez uma exibição impecável e de grande categoria, revelando que o FC Porto tem um guarda-redes suplente à altura do titular; Miguel Lopes defendeu bem, embora atacasse mal; Abdoulaye melhora e estabiliza a cada jogo que passa, alimentando nele todas as esperanças; Iturbe entrou finalmente de início e, embora não tenha aproveitado com pletamente a oportunidade, mos trou que é um jogador capaz de explodir de um momento para o outro; e Atsu, mais uma vez, mostrou o quanto é superior a Varela (mas isso já não é novidade alguma, assim como não será novida de que amanhã, contra o Dínamo Zagreb, Vítor Pereira o mande regressar ao banco, sem mais nem porquê). Apenas Kleber, apesar do golo, e Castro, voltaram a desaproveitar por completo esta nova chamada. Boa notícia ainda foi o regresso de Lucho às boas exibições, culminando com um fabuloso golo, depois de um arrastado período de sombra.

Mesmo abundantemente retocada, a equipa confirmou o bom momento que atravessa, a confiança e determinação que exibe em todos os jogos e uma surpreendente imaginação e criatividade na frente de ataque, que teve de inventar quando se viu órfã de Hulk. Está no bom caminho, que espero ver, da bancada do Dragão, confirmado amanhã.

3- Não sou adepto da Fórmula 1, cujas transmissões televisivas me adormecem invariavelmente, pela mo- notonia de uma corrida em que não há ultrapassagens. E pior ainda achei quando fiz a experiência ao vivo. Gosto muito de automobilismo, mas da Fórmula 1, não. Mas torço para que, depois de várias alternativas que não foram avante, a carreira, segura e sempre em evolução, de António Félix da Costa, traga um português de volta à Fórmula 1, já em 2014. Lembro-me de o ver, miúdo, a correr nos karts, em Évora, e já então se comentava o potencial que ele tinha. Tinha também os cromossomas de uma família de pilotos de corrida e teve sempre o que ele chamou, com gratidão, um «paitrocínio», que o tem empurrado ladeira acima. Está quase lá e vai lá chegar, com certeza, para grande orgulho nosso.

segunda-feira, maio 27, 2013

UM LUGAR NA EUROPA (13 NOVEMBRO 2012)

1- Somos actualmente o 5º pais no ranking de equipas da UEFA, o que nos permite (provisoriamente) este luxo de ter três equipas na Champions e outras três na Liga Europa. Um luxo que tem de ser mantido com pontos por todos os envolvidos. Chegados agora a um momento crucial, onde se vai decidir quem fica pela fase de grupos e quem avança mais além, a quarta jornada europeia saldou-se por duas vitórias, dois empates e duas derrotas, mas já com uma qualificação garantida: a do FC Porto para os oitavos de final da Champions. Digamos que foi um saldo médio para as equipas portuguesas — se é que podemos chamar portuguesas a equipas em que, entre os 14 jogadores alinhados, só havia três portugueses pelo FC Porto, dois pelo Benfica e dois pelo Sporting (com Academia de Alcochete e tudo). Neste aspecto, a honra da confraria foi salva pelo Braga, com sete portugueses entre os utilizados (e quase todos com origem no FC Porto).

E, começando o balanço da jornada europeia justamente pelo Braga, devo confessar que foi penoso ter visto, e ter adivinhado antes, que mais uma vez se iria repetir o desfecho ingrato de Old Trafford, e que mais uma vez Sir Alex iria fazer figura de génio tranquilo, que, no momento certo e com a decisão certa, consegue virar do avesso um jogo e sair-se a rir de um confronto contra uma equipa portuguesa. E evidente que quem se dá ao luxo de ter um Van Persie no banco e só o mandar lá para dentro quando acha que chegou a hora de acabar com a brincadeira, tem uma grande vantagem sobre quem tem um Ruben Micael e é obrigado a acreditar que ele é um grande jogador e um desequilibrador duas coisas que nunca foi nem será. Mesmo assim, não consigo deixar de pensar que em ambos os jogos contra o Manchester United o que tramou o Braga foi o síndroma de Mamede — o medo antigo e atávico de vencer. Em ambas as ocasiões, depois de se ter apanhado a ganhar (o que, teoricamente, era o mais difícil), o Braga ficou como o tipo de 1,60 metros que enfia um murro no gigante de 2 melros e, quando o vê cair ao chão, entra cm pânico com o terror de que ele se levante. Ficou provado que o medo não é estratégia.

O Benfica cumpriu a obrigação de vencer o Spartak de Moscovo, a partir do momento em que Jorge Jesus se deixou de maneirismos estratégicos e mandou para o jogo o homem mais capaz de o resolver: Oscar Cardozo. Sinceramente, digo que nunca compreendi as reticências de tantos benfiquistas, incluindo o seu treinador, relativamente a Cardozo. Eu, enquanto portista, confesso que, de todos os jogadores do Benfica que nos garantem que são génios, só há um de quem verdadeiramente tenho medo quando joga contra nós: o Cardozo. Apesar da vitória, o Benfica precisa agora, além de vencer o Celtic em Lisboa, de uma conjugação de resultados favoráveis. Isto porque, com a habitual tendência para desvalorizar os rivais, os benfiquistas achavam que, mesmo depois da milagrosa vitória do Barcelona sobre o Cellic ao minulo 93 do jogo de Camp Nou, não havia outro desfecho possível no jogo de retribuição que não nova vitória do Barça. E agora choram, não por que o Celtic tenha conseguido o que o Benfica não conseguiu, mas porque o Barcelona não foi sério, não foi profíssional, não foi amigo. Os grandes senhores são assim — acham que tudo lhes é devido. Mas pode ser que o Barça ainda possa fazer prova de amizade, se, chegado à última jornada e já com o primeiro lugar garantido, apresentar a segunda equipa contra o Benfica. Isso, sim, seria uma atitude séria e uma oportunidade a não desperdiçar.

Em Kiev, no primeiro jogo da ronda, o FC Porto trouxe o empate e a qualificação, a dois jogos do fim da poule. É o segundo objectivo da época cumprido, depois da pálida conquista da Supertaça contra a Académica. Foi um jogo táctico, cauteloso e aborrecido, em que todos ficámos com a sensação de que mais era possível, forçando apenas um pouco. Todavia, eu devo ter visto um jogo diferente de, por exemplo, os enviados deste jornal. Vi, uma vez mais, um Lucho completamente fora do jogo, incapaz de fazer um passe certo, comprido ou curto, desastrado a rematar, lento a atacar: mas depois li aqui que tinha sido o melhor em campo. Vi um Varela igual ao habitual, estragando todo o jogo até ter a oportunidade de se redimir marcando um grande golo. Só que, desta vez, em lugar de um grande golo facturado, falhou um golo fácil para um bom jogador mas até isso serviu para lhe fazerem o elogio. Como se confirmou depois contra a Académica, o ataque do FC Porto vive da dinâmica crida por três jogadores determinantes Moutinho, James e Jackson Martínez — à volta dos quais vagueiam, sem sentido, dois outros — Lucho e Varela que apenas esperam uma oportunidade caída do céu para marcar um golo, que consiga esconder o pouco ou nada que actualmente acrescentam à equipa. Em Lucho, é um problema já conhecido, de um jogador que funciona por fases alternadas; em Varela, a questão parece-me mais estrutural, como dizem os economistas. Em contrapartida, vi, no jogo de Kiev, uma exibição seguríssima de Helton e de Otamendi, uma estreia sem sobressaltos de Abdoulaye, um jogo bem aceitável de Deffour e os habituais sobressaltos de génio de James Rodriguez. Acima de tudo, vi uma equipa que, mudando os jogadores e rodando os anos, já tem uma notável cultura europeia, que claramente a distingue das demais equipas portuguesas.

Na Liga Europa, tivemos a natural derrota do Marítimo em Bordéus, a surpreendente vitória da Académica sobre o Atlético de Madrid (mesmo considerando que só apareceu a segunda equipa deles em Coimbra), e o previsível empate caseiro do Sporting, frente a uma equipa da terceira divisão europeia. E, mesmo que tenha perdido os três pontos ao cair do pano, o resultado nada teve de injusto, após mais uma paupérrima exibição do Sporting. Insisto: dizem que tem grandes jogadores e uma grande equipa, mas eu não consigo ver quais e qual. De qualquer modo, é assim: na Liga Europa, todas as equipas portuguesas estão à beira da desqualificação e, todavia, todas podem ainda qualificar-se. Que uma, ao menos, o consiga!

2- Vitória tranquila do FC Porto contra a Académica, mais do que os números mostram. Vitória sofrida do Benfica em Vila do Conde, com mais um golo saído de um lançamento lateral, que gostaria de ter visto em repetição com mais detalhe, pois me pareceu executado já dentro do campo. E vitória feliz do Sporting frente ao Braga, celebrada como se fosse frente ao Real Madrid, na Champions. Presumo que por estes dias Godinho Lopes estará a pedir uma reunião com o presidente do Conselho de Arbitragem, a fim de se queixar do golo invalidado ao Braga, sem a mais pequena razão de ser. Aguardemos.

3- Não há adjectivos que cheguem para classificar a oportunidade e a legitimidade da excursão ao Gabão da Selecção Nacional. Eu sei que é uma data FIFA, mas isso não obriga a Federação a agenciar jogos que têm como único objectivo acrescentar a sua conta bancária à custa dos interesses desportivos de alguns clubes, Benfica excluído. Quem pôde, pôs-se de fora e fez muito bem. E quem vai, não representa, de facto, a Selecção de Portugal, mas apenas um grupo reunido ad hoc para facturar a favor da Federação. E a escola da CBF, a Federação brasileira, que fez do seu até há pouco eterno presidente João Havelange, um multimilionário e alvo de todas as suspeitas. Fernando Gomes tem categoria para fazer diferente.

domingo, maio 26, 2013

A OESTE NADA DE NOVO (6 NOVEMBRO 2012)

1- Jornada muito calma e pacífica — e só nisso pouco habitual. Não houve gritaria contra os árbitros ou o sistema, nem houve desfechos imprevistos. Porto, Benfica e Braga ganharam, com mais ou menos segurança e autoridade, os respectivos jogos caseiros, mantiveram inalteráveis as suas posicòes de únicos candidatos ao título e resguardaram-se para os jogos decisivos da Champions, que os três enfrentam esta semana, começando já hoje pelo FC Porto, em Kiev. Eles constituem um planeta à parte, flutuando numa outra galáxia, muito acima dos restantes, e, se alguma coisa há de novo, é a normalidade com que o Sporting de Braga pode agora reclamar o seu estatuto legítimo dentro deste restrito grupo. Normalidade ainda em mais uma derrota do Sporting, desta vez em Setúbal. Não sei o que sentiriam os portistas e como reagiriam a seis meses sem vencer fora de casa, a sete jogos consecutivos (e três treinadores) sem ganhar um, a um 13º lugar ao fim de oito jornadas, a beijar a linha da despromoção. Ser sportinguista hoje e ainda se dar ao trabalho de sofrer com a equipa é uma prova de estoicismo e dedicação ao clube verdadeiramente notável. Li e ouvi que o Sporting fez em Setúbal uma das melhores exibições dos últimos tempos, mas, apenas tendo visto a segunda parte, concluí que deveriam estar a referir-se à primeira, visto que aquilo que observei foi de uma pobreza assustadora. Compreendo bem que Franky Vercauteren se tenha mostrado surpreendido com a falta de qualidade de alguns jogadores, porque, de facto, houve ali exibições más de mais para serem suportáveis. Será que esta primeira equipa do Sporting, que está na cauda da classificação, conseguiria derrotar a Equipa B, que lidera a segunda Liga? Ao contrário do que tantos proclamaram no início da época, nunca vi, neste Sporting, em que já nem sei quem é quem, valor algum para se bater, já nem digo pelo título, mas por um lugar de acesso à Champions. E, a par disso, não consigo entender como é que uma das evidentes excepções à mediocridade dominante, está aparentemente fora dos planos de Vercauteren, como esteve antes dos de Oceano: refiro-me a Carrillo, um miúdo que, se estivesse no FC Porto, de certeza que já teria explodido por essa Europa fora. Talvez isso explique alguma coisa, mas, enfim, são assuntos alheios. Vamos ao meu Porto.

2- Ser portista, para além de tantas e tantas alegrias emotivos de orgulho vividos nos últimos quarenta anos, traz outras razões de felicidade e vaidade. Por exemplo, o tradicional equipamento de riscas azuis e brancas sobre calções azuis e meias brancas — infelizmente, adulterado aos poucos nos últimos anos, e em especial neste, em obediência aos ditames e ao mau-gosto do fabricante. Espero bem que o bom-senso e o bom-gosto regressem na próxima época, para que o mundo inteiro que hoje vê jogar o FC Porto reconheça logo nas cores e desenho tradicional do equipamento um dos mais prestigiados clubes de futebol da actualidade. Segundo motivo de prazer e vaidade é jogarmos naquele que, para mim, é o mais bonito estádio de futebol do mundo. E não digo isto por ser portista, digo-o porque é mesmo o que penso e felicito-me por o clube ter tido a lucidez de ter recorrido aos serviços de Manuel Salgado, que eu considero o melhor arquitecto português contemporâneo, ainda na semana passada reconhecido por mais dois Prémios Valmor de arquitectura — pelo Hospital da Luz e pelo projecto urbanístico da Expo-98. Várias vezes, quando o jogo está aborrecido (interrompido ou morto pela superioridade portista), dou por mim a percorrer com o olhar as bancadas, o desenho e as curvas suaves do Estádio, lembrando-me da máxima de Niemayer: «a linha recta não me interessa».

Outro motivo de orgulho para quem entra naquele estádio e é portista, ou para quem vê os jogos internacionais na televisão e compara, é o relvado do Dragão — de há dez anos a esta parte, verdadeiramente sem igual em todo o planeta futebol. Um relvado assim foi sempre sinal inequívoco de que ali mora um clube que gosta de praticar bom futebol e não futebol aleatório, de ganhar a qualquer preço. Grandes jogadores se revelaram nestes dez anos, porque ali, sobre aquele relva que mais parece um pano de bilhar, quem é bom jogador revela-se e quem não se revela não tem desculpa. É uma espécie de terreno da verdade, capaz de se manter impecável sob sol inclemente ou enxurradas que transformam outros em lamaçais. Mas eis que...

Eis que esta época, também, a juntar a um equipamento deprimente, o relvado do Dragão perdeu inexplicavelmente o brilho de outrora: está às cores, com marcas de enxertos sobre enxertos, levantando a relva facilmente e assim ajudando a nivelar o pior futebol com o melhor futebol. Mas, para dizer a verdade, não sei se isto aconteceu inexplicavelmente ou por causa directa dos fatais concertos rock de Verão, com os quais os clubes costumam ajudar a compor a tesouraria na época morta. Lembro-me bem de ouvir há tempos Pinto da Costa, gozando com o eterno e deplorável estado do relvado de Alvalade, declarar que não era possível ter concertos no estádio nem jogar futebol no pavilhão. Afinal, parece ter revisto as suas ideias, certamente por necessidade — e o resultado está à vista. Sexta-feira passada, o mítico relvado do Dragão, agora em versão post-rock, virou-se contra a própria equipa e mandou para o estaleiro dois jogadores fundamentais: Fernando e Maicon. Cada um deles arrumado pelo menos para mês e meio, porque a cura das lesões no FC Porto nunca é rápida (que o diga Alex Sandro, que tanta falta tem feito!). Na véspera de um jogo fora na Champions e no decurso de um jogo de fraca exigência, em dia sem chuva nem relvado pesado. O crime não compensa.

3- As lesões de Fernando e Maicon caem numa altura em que o FC Porto estava claramente a atingir o primeiro pico de forma da temporada. Muito embora não dê para esquecer que o Marítimo foi apenas um saco de pancada, sempre inexistente enquanto adversário no jogo (como o foi o Guimarães na Luz), o FC Porto também não lhe deu nenhuma hipótese de chegar a disputar o jogo, marcando logo aos 4 minutos e nunca se mostrando satisfeito ou saciado. É de jogos assim que eu gosto, com um futebol de ataque fluido e constante, em que o prazer se alia ao dever, com os jogadores a respeitarem o público que paga para os ver jogar. Desta vez, o FC Porto não ficou à espera que as coisas acontecessem, tratou de arrumar o assunto rapidamente e depois ainda se regalou com um futebol por vezes brilhante, escorreito, imaginativo, envolvendo toda a equipa como um só corpo. Mais uma vez houve golpes de génio colombianos, vindos desse país hoje tão em moda e que, com a anunciada compra da TAP, é natural que venha a estabelecer uma ligação directa entre o Porto e Bogotá.

E logo, ao fim da tarde, lá estamos de regresso a Kiev, essa cidade de que os portistas guardam tão boas memórias. Oxalá possamos regressar com uma vitória, que significaria, não apenas o apuramento para os oitavos da Champions, mas também e praticamente a garantia do primeiro lugar no grupo. Pelo que se viu contra o Marítimo, Deffour parece melhor do que o habitual e, se conseguir um misto de prudência e de ousadia, poderá substituir bem Fernando. Já para a vaga de Maicon, julgo que Vítor Pereira deveria escolher Rolando. Gostei de ver a estreia de Abdoulaye na primeira Liga, mas o Marítimo não tem nada a ver com o que o FC Porto vai encontrar em Kiev. E, embora Rolando deva estar naturalmente fora de forma, no seu caso e em comparação, a experiência é uma vantagem determinante — mesmo sobre Mangala, na hipótese de Vítor Pereira o desviar para o seu lugar natural no centro da defesa, pondo termo à sua muito pouco conseguida aventura a lateral-esquerdo. Seja como for, e mesmo remediado em parte, o FC Porto tem uma vantagem à partida, que é o de não ter muito a perder e poder arriscar alguma coisa. Já amealhou pontos suficientes para poder jogar tranquilo e sem medo.

sábado, maio 25, 2013

ANOS FELIZES TÊM MIL JOGOS (30 OUTUBRO 2012)

1- Foi um Pinto da Costa anormalmente compreensivo e generoso para com os adversários que, no final do jogo do Estoril, apareceu a comentar os seus mil jogos de Campeonato enquanto presidente do FC Porto. Tão compreensivo e generoso que chegou a profetizar que o Sporting ainda vai regressar à luta por este campeonato e a declarar que gostaria de ver o Benfica numa final europeia. Pois eu, não: tenho a certeza de que o Sporting já não conta para a disputa deste título e não tenho o menor desejo de ver o Benfica em final alguma. Mas compreendo o momento de generosidade de Pinto da Costa, depois do alívio da vitória no Estoril, a juntar-se ao orgulho da marca dos mil jogos.

Como toda a gente da minha idade, tenho as piores recordações das descidas do FC Porto à Amoreira. Se a memória me não falha, o campo era bem mais pequeno então - o que proporcionava a um rapaz cabo-verdiano chamado Oscar ensaiar remates de meio-campo que acabavam no fundo da baliza portista, semeando o terror e a desgraça nessas visitas dos azuis e brancos à Costa do Sol. Farto de assim ser gozado e humilhado, o FC Porto acabou por lançar mão de um remédio radical: comprou o Oscar ao Estoril. Escusado será dizer que, pelo Porto, ele nunca obteve golos daqueles e nunca, aliás, chegou a conquistar um lugar na equipa. Mas ficou a tradição do medo de jogar no Estoril.

A medo, comecei então a ver este Estoril-Porto dos tempos modernos e estremeci quando, logo aos dez minutos e pela segunda vez em cinco dias, uma bola sobrevoou a pequena área do guarda-redes e acabou no fundo da nossa baliza: em grande forma em tudo o resto, Helton mostra que ainda não conseguiu ultrapassar as suas limitações no jogo aéreo. Passados outros dez minutos, a cena repetiu-se e só por pouco não dava o 2-0 para o Estoril. Depois, sim, o FC Porto tomou conta do jogo e fez vinte minutos infernais na segunda parte, virando o resultado e triunfando com toda a justiça. E, porque tantas vezes se critica, e tantas sem razão, uma palavra para a arbitragem de João Capela, que foi simplesmente irrepreensível.

Notas comuns aos dois jogos dos portistas na semana passada:
- uma estratégia de jogo muito mais colectiva desde a saída de Hulk, exigindo mais de todos e bastante mais imaginação e variedade de jogo na frente de ataque, agora que o Incrível já lá não mora para resolver as coisas sozinho, como tantas vezes fez;
-um Jackson Martinez em superação constante, que já fora decisivo contra o Sporting com aquele maravilhoso golo de bicicleta em vólei, e voltou a sê-lo contra o Dinamo de Kiev e o Estoril. Tendo sido dos que ficaram assustados com o preço da sua aquisição, agora vou gostosamente constatando que os meus receios não tinham razão de ser. Não apenas ele tem o faro do golo, como junta a isso, que é essencial num ponta-de-lança, um reportório técnico que desconcerta os adversários e serve a equipa como se viu anteontem na magnífica assistência para o golo de Varela;
- James sempre em grande nível, com um futebol perfumado e elegante, por vezes letal, e ainda com o plus de ser um jogador sem tatuagens nem penteados à moicano ou à poupa-rabuda, sem tiques de vedeta e a olhar sempre à procura das câmaras. Um miúdo genial e simples;
- Lucho em acentuada queda, física e criativa, disfarçada com dois passes para golo contra o Dinamo, mas sem nada mais de bom a registar no resto do tempo dos dois jogos em questão;
- Otamendi a subir de forma e Maicon a descer, em ambos os jogos, permitindo cabeceamentos nas suas costas (um fatal, o outro quase);
- Mangala totalmente inadaptado à função de defesa esquerdo, com precipitações perigosas e fora de tom.

Tudo ponderado, o saldo destes primeiros tempos de orfandade de Hulk é francamente positivo. Os oitavos de final da Champions estão já aí, ao virar da esquina, e um bom resultado em Kiev, para a semana, deixará a equipa muitíssimo bem encaminhada para o sempre importante primeiro lugar no grupo.

2- Vi a meia hora inicial do Benfica em Barcelos, naturalmente impressionado com a passadeira vermelha que o Gil lhe estendeu desde o primeiro minuto. Sem retirar mérito, por exemplo, ao segundo golo do Benfica, muito bem construído, fiquei com a sensação de que estavam a jogar sozinhos. Já do jogo de Moscovo, só vi bocados da segunda parte e pareceu-me muito pouco Benfica para as necessidades do momento e para as dificuldades daquela espécie de relvado.

Constatei que os dois melhores jogadores do Benfica, ali e neste início de época, são Artur e Lima, dois jogadores que foram buscar ao Braga, um grátis, o outro por módicos três milhões. E depois vi o Braga a jogar em Manchester com nada menos do que cinco jogadores provenientes do FC Porto e gratuitamente. Situação curiosa esta: nós, que somos oficialmente o amigo do Braga, passámos para lá cinco jogadores e não fomos buscar nenhum; e o Benfica, aliado do Guimarães, foi lá buscar dois decisivos, e só mandou para lá o Ruben Amorim.

No jogo de Manchester, cheguei a entusiasmar-me com a perspectiva de finalmente ver o arrogante United de Ferguson ser batido em casa por uma equipa portuguesa. Mas, a partir da meia hora de jogo, perdi a esperança, assim que vi os jogadores do Braga renunciarem ao ataque e mesmo ao contra-ataque, que tão bons frutos tinha dado até aí. Deixando-se encostar voluntariamente às cordas, quando ainda faltava uma hora para o fim, o Braga limitou-se a confiar na sorte e acabou tendo o castigo merecido.

Na taça UEFA, aconteceu o que mais seria de esperar. Equipas que só lá estão por força dos pontos ganhos pelas outras equipas portuguesas que estão na Liga dos Campeões, demonstraram não estar à altura da situação - incluindo o Sporting, que, sob o comando de Oceano, acumulou a sua quarta derrota em outros tantos jogos, três em que o teve como treinador principal e transitório. Não vi o jogo, só li que o Sporting até jogou bem e a derrota foi injusta. Mas, caramba, quem é o Genk? O que deste esquema resulta é que o FC Porto, sempre, e o Benfica e Braga, por vezes, acumulam pontos que revertem em favor das equipas que irão à Taça UEFA; e estas, uma vez lá chegadas, tratam de fazer baixar o ranking, acabando assim por prejudicar a participação dos seus benfeitores na Champions. Mais valia que houvesse dois rankings separados, um para cada competição, abrindo vaga nelas conforme os pontos aí conquistados.

3- A campanha eleitoral do Benfica decorreu como se esperava (sem nenhuma elevação) e terminou como se previa (com um tranquilo passeio de LFV). O juiz Rangel saiu muito abalado — não como benfiquista, mas sim como juiz. E Vieira viu-se obrigado e amarrado a uma declaração de guerra contra a Olivedesportos, cujas consequências estou muito curioso de ver como conseguirá ultrapassar sem se enfiar num tremendo buraco. É bem mais fácil dizer que os direitos televisivos do Benfica valem 30 ou 40 milhões por ano do que arranjar forma de os fazer valer. Em ambiente eleitoral, os adeptos acríticos e os jornalistas militantes são levados a pensar que, basta ir buscar José Eduardo Moniz para o assunto se resolver em duas penadas. Mas a ver vamos até onde e quanto estará a Meo disposta a ir para vencer a guerra contra a Zon. Comigo, escusam de contar, por quatro razões, que desde já anuncio: primeiro, porque acho a Zon melhor que a Meo; segundo, por que Meo é descaradamente benfiquista; terceiro, porque fiquei alérgico à Meo desde as supinamente irritantes campanhas de promoção com os Gatos Fedorentos; e quarto, porque, a não ser para me rir até às lágrimas com os relatores e comentadores do Canal Benfica, não me imagino a suportar jogos de futebol com aquele ruído de fundo que alguns gostariam de confundir com jornalismo.