1- É verdade que ainda faltam seis semanas redondas para encerrar a época de transferências nos mercados internacionais. Mas, por esta altura do mês de Julho, já seria de prever que Benfica e FC Porto tivessem assegurado pelo menos uma grande transferencia - isto é, uma venda cuja importância lhes permitisse soltar um primeiro grande suspiro de alívio. E a verdade é que, não só isso ainda não sucedeu, como os mercados já deram suficientes sinais de contenção no número de compras e nos valores que estarão dispostos a pagar esta época, mostrando até que ponto a crise europeia passa por aqui também. Todos sabem que, com o Real Madrid aparentemente apenas interessado em roubar Modric ao Tottenham, os grandes negócios que restam só po- dem vir dos clubes patrocinados por sheiks árabes ou magnatas russos - que são quatro e não mais. E, destes, o PSG, o novo novo-rico da Europa, já estoirou uns 64 milhões em Ibrahimovic e Tiago Silva, o que pode fazer prever que talvez se fique por aí, diminuindo ainda mais o leque de ricos do norte à pesca em águas do sul. O mercado para onde o Benfica espera poder exportar Gaitan ou Witsel e o FC Porto espera poder exportar Hulk e Moutinho está assim cada vez mais apertado. Ora, que não haja ilusões e que ninguém se deixe enredar no discurso habitual do «não estamos vendedores» e «se não vendermos, não haverá problema». Haverá, sim, e grande: nem Benfica nem FC Porto estão em situação financeira de aguentar a época que aí vem se não encaixarem agora uns 30 ou 40 milhões.
(E a propósito do affair Modric, que o Real Madrid tenta sacar à má-fila ao Tottenham - de quem até se diz ser amigo - aquilo a que estamos a assistir é tudo o que supostamente a UEFA ou a FIFA deviam impedir, em defesa do fair-play tão invocado por Platini. Em plena vigência do seu contrato com o Tottenham, celebrado apenas na época passada, principescamenle pago e até com o clube a oferecer-lhe aumento de ordenado, sua excelência Modric quer à viva força que o deixem sair para o Real Madrid e ao preço que os madridistas estão dispostos a pagar. É claro que isto só é possível porque ele sabe que o Real o quer - e, se o sabe, é porque o Real lho fez saber. Mas como o Real não quer pagar o preço que o Tottenham entende justo (e esse é o único preço justo) vá de fazer a habitual combinação com o jogador: tu começas a forçar a saída, até que a situação fique tão insuportável que não lhes reste alternativa senão vender-te a nós e ao nosso preço. Parece que o mesmo estará o Chelsea a planear fazer com Hulk, mas valha a verdade que o brasileiro, até agora, não deu a menor indicação de que esteja disposto a prestar-se a essa suja tarefa. Chama-se a isto, da parle do Real Madrid, abuso da posição dominante, falta de respeito pelos contratos e pelos outros clubes. E, da parte de Modric, chama-se outra coisa, bem mais feia. Isto acabará no dia em que os castigos aplicados aos clubes e jogadores que assim se portam forem de tal forma pesados que nunca mais lhes volte a ocorrer portarem-se como prima donas).
2- Vender, para benfiquistas e portistas é, aliás, não só um imperativo financeiro, mas também desportivo. É que ambos têm de sustentar plantéis de 60 ou 70 jogadores profissionais, que mesmo a recente criação das equipas B e a recente desautorização do CJ (mais uma...) à absurda deliberação da Liga proibindo os empréstimos, não chega para fazer escoar todo um exercito de excedentários que políticas de aquisições, no mínimo incompreensíveis, colocaram na folha de pagamentos dos dois clubes. Já muitas vezes falei nisto e continuarei a falar, visto que a cena se repele de ano para ano: ver jogadores como Sapunaru ou Belluschi a treinarem-se à parte, à espera de um milagroso convite caído do céu, ver o plantel do FC Porto, que já tinha seis guarda-redes, reforçado esta época com mais dois, são coisas que, definitivamente, ninguém me conseguirá explicar que sejam métodos de gestão profissional. E, enquanto que ao FC Porto, por exemplo, lhe falta jogadores de meio-campo, ao Benfica faltam laterais, reduzido que está praticamente a Maxi Pereira. Já no Dragão, o que não faltam são laterais: quatro para o lado direito (Danilo, Fucile, Sapunaru e Miguel Lopes), e quatro para o lado esquerdo (Alvaro Pereira, Alex Sandro, Addy e Emídio Rafael). Se fosse em Itália, em Inglaterra, na Alemanha, e mesmo em Espanha, estaríamos a ver trocas de jogadores entre ambos, como coisa normal. Mas aqui, bastou falar-se da possibilidade de o Sporting, também à procura de um defesa-direito para o lugar de João Pereira, trocar Adrien por Miguel Lopes, para logo se levantarem vozes ofendidas de sportinguistas, como se estivessem a propor enviar-lhes um Synama-Pongolle por troca com o Carrilho.
3- No FC Porto, como também sucede no Benfica, existe também um excesso de extremos, sobretudo para o flanco esquerdo. Uma das consequências disso, a par da escassez de médios ofensivos criativos, é a adaptação que Vítor Pereira vem fazendo de James Rodriguez à posição de número 10. E, muito embora eu próprio tenha defendido isso, há cerca de um ano e numa altura em que Vítor Pereira achava que a melhor posição para James era o banco de suplentes, não posso deixar de sentir uma certa pena por vê-lo abandonar de vez o flanco esquerdo, onde tão grandes jogos fez, como o da final da Taça da época anterior, em que, a partir daí, desbaratou por completo a defesa do Guimarães. Mas agora não há outra coisa a tentar, pois que jogadores como Atsu e Iturbe reclamam protagonismo imediato, e ainda há Kelvin, Varela, Djalma e ...Hulk. Em termos de talento puro, há muito que o FC Porto não dispunha de tantos e tão bons candidatos à titularidade. Mas, infelizmente, concorrem todos para as mesmas variantes, quando tanto jeito nos dava que eles estivessem melhor distribuídos pelas diferenles posições da equipa.
Quanto ao lugar determinante de ponta-de-lança (essencial numa equipa com grandes flanqueadores), confesso que falhei a estreia de Jackson Martinez - a avaliar pelo preço pago, um putativo fora de série. Era ele a estrear-se em Viseu, e, à mesma hora, eu a estrear a minha época de ténis que começa e acaba no Verão. A única coisa de semelhante é que também só durei uns quarenta minutos, tal como ele. Mas, sábado que vem e no primeiro teste a doer da temporada, contra o Valência, no Mestalla, espero ver o colombiano em acção e... respirar fundo.
4- Sem maldade o digo, que não consegui evitar um sorriso trocista quando vi a primeira página da Abola com toda a equipa do Sporting posando, eufórica, ao lado de uma taça conquistada no Algarve, como se de uma grande competição se tratasse. Para começar, era o torneio em si mesmo, que se consumava num único jogo, cujo vencedor erguia a Taça. Depois, o adversário, o Sheffield Wednesday, que julgo ser da 2ª ou 3ª divisão inglesa (um pormenor não confirmado por nenhum dos três jornais consultados). E, enfim, a pomposa designação da coisa: Albufeira Summer Cup. Agora, é assim a moda: Meo Summer Sessions, Albufeira Summer Cup e por aí fora. Desde já anuncio aos meus fieis leitores que hoje à tarde entrarei em campo para disputar em família a Tavares Barlavento's Tennis Cup - onde as minhas expectativas são, infelizmente, reduzidas.
5- E lá se confirmou a triste notícia do fim do basquete profissional no FC Porto. Mesmo com os atletas dispostos a reduzirem os seus vencimentos em 45%, a direcção entendeu que os gastos eram demasiados. E o que dói é pensar que estamos a falar de 770.00 euros por época e que só a compra do passe de Jackson Martinez dava para pagar onze anos de basquete no Dragão...
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
segunda-feira, maio 13, 2013
domingo, maio 12, 2013
MARÉS DE JULHO (17 JULHO 2012)
1- O fim do basquetebol profissional no FC Porto foi uma noticia muito triste, a mais triste possível para os seus jogadores e seccionistas e deprimente para os seus adeptos. A última imagem que nos fica é a do jogo da negra do play-off do campeonato, perdido no Dragão Caixa, quando tudo tínhamos para o ganhar, e com as inqualificáveis provocações na hora da vitória, da parte do treinador benfiquista — que agora talvez esteja arrependido. Arrependido e impune. O FC Porto abandona o basquete profissional depois de provocado e desrespeitado pelo treinador e pelo presidente do Benfica e depois de maltratado peto presidente da Federação.Tiveram o castigo que mereciam, perdendo o seu maior rival: daqui para a frente, os títulos já nào lhes saberão ao mesmo, mas eu não sei se isso os preocupará muito agora e se o irão perceber no futuro próximo. Mas percebêlo-ào quando os patrocinadores, e os próprios adeptos, lhes explicarem que qualquer campeonato profissional vale menos se não tiver clubes como o Porto e o Benfica a disputá-lo. E é por isso que a rivalidade é saudável e indispensável, mas o desrespeito é estúpido e prejudicial a todos.
Porém, o castigo é também auto-infligido e a despedida faz-se depois de uma derrota, que é a pior maneira de ir embora. O Dragão Caixa fica agora só para o hóquei e o andebol profissionais, num clube que, além destas, já só tem mais o futebol como modalidade profissional £, sendo que a decisão foi também e certamente determinada por razões económicas, que se vieram somar às outras, nào consigo deixar de pensar que o futebol tudo devora nos clubes que outrora eram ecléticos: o preço da compra do desconhecido Jackson Martinez para a equipa de futebol seguramente que dava para pagar a continuação do basquete, pelo menos mais um ano. Um ano em que, a sair, sairíamos pela porta grande, como campeões nacionais.
2- Pois o tal Jackson Martinez, que custou mais 50% que o seu compatriota Falcão, ainda só o vimos na bancada. Aparentemente, o rapaz chegou cansado e em baixo de forma, pelo que, compreensivelmente; está a ser defendido de uma estreia que corresse mal E que, por quase nove milhões de euros, está muita coisa em jogo. Há jogadores, e de qualidade já conhecida, que terão de ser vendidos barato para amortizar o custo desta contratação. Vítor Pereira, para quem Pinto da Costa chutou a responsabilidade dela, dizendo que era desejo firme do treinador, tem o pescoço no cepo pela qualidade do novo ponta-de-lança. Mas Pinto da Costa e a direcção terão de ver em campo justificado o alto preço que se dispuseram a pagar para ficarem na história como os compradores da mais alta contratação alguma vez feita no futebol mexicano. Já começo a ter pena do rapaz, com tantas responsabilidades sobre os seus ombros e ainda nem sequer saiu da bancada! Uma coisa, pelo menos, joga a seu favor: é que se tomarmos como termo de comparação os que com ele concorrem para o mesmo lugar, Kleber e Janko, não é preciso muito para ganhar a partida. Agora, outra coisa, e bem mais complicada, é provar que o seu passe vale 50% mais do que o de Falcão, e numa altura em que os negócios de loucura já lá vão (e que o diga o FC Porto, que ainda está à espera de receber metade do preço da venda de Falcão ao Atlético de Madrid).
3- Sem Jackson Martinez e ainda sem sete ou oito dos titulares da época passada, o FC Porto lã se estreou em dois jogos, mostrando o resultado dos primeiros quinze dias de estágio. A boa noticia é que, enquanto que o Benfica, como escreveu Fernando Seara, «entrou à campeão», garantindo que, como de costume, ninguém lhe vai roubar o titulo de campeão da pré-época, o FC Porto entrou de mansinho, numa grande indefinição e confusão estratégica e táctica, com cada um a tentar mostrar serviço por si e nem sombra de equipa. E, embora a coisa nos deixe vagamente preocupados, diz nossa experiência que é melhor assim. O Benfica de Jesus entra sempre a todo o vapor, faz dois ou três meses que impressionam e assustam... e depois dá o berro: ficam a reclamar com os árbitros e a lamentar conspirações, incapazes de ir mais além. Já o FC Porto vai crescendo em competição, aguentando-se nos primeiros tempos, à espera de explodir no momento decisivo, em que as épocas se decidem. Os benfiquistas, já se sabe, hâo-de ficar eternamente a queixar-se de que só não foram campeões na época passada porque, no decisivo jogo da Luz, contra o FC Porto, o juiz-de-linha não correu a tempo de poder ver o cabeceamento decisivo de Maicon em fora-de-jogo. Mas é claro que não se lembram nem que o segundo golo do Benfica resultou de um livre inexistente, nem, sobretudo, que a única equipa que, desde o minuto primeiro, mostrou vontade e capacidade de ganhar o jogo foi o FC Porto.
Daquilo que vi destes dois primeiros e inofensivos jogos do FC Porto, concluídos com duas vitórias (a última das quais injustíssima), foi que há por ah muito talento para ser trabalhado, e aproveitado ou desperdiçado, convivendo com apostas reiteradas que não levarão a lado algum. Gente como Kleber, Janko, Defour, nunca passará da cepa torta: são jogadores banais, que, aqui ou acolá, poderão ser úteis, mas jamais sairão da vulgaridade. Castro e Man gala, por exemplo, tardam em mostrar o que valem, se é que valem. Otamendi tarda em dar confiança, de princípio a fim, e Fernando continua a fazer apenas um bom jogo em cada três. Em contrapartida, e como já se sabia, é lá na frente, e nos flancos, que o FC Porto tem concentradas as suas mais valias. Cristian Atsu, com um treinador minimamente competente, vai ser um fora de série, e eu espero, rezo por tudo, que Vítor Pereira não se lembre de o pôr a rodar algures mais um ano: só os treinadores fracos têm medo dos grandes jogadores. James (que Vítor Pereira demorou meio ano a perceber o que valia) está, e muito bem, a ser testado como número 10, hbertando uma vaga na ponta-esquerda, para onde existem demasiados candidatos. Kelvin e Iturbe são dois meninos-maravilha, a quem falta aprenderem a jogar para a equipa e que desesperadamente anseiam por um treinador que lhes ensine isso e os saiba fazer crescer. Infelizmente, todos estes talentos somam-se a Hulk (se ficar), a Varela, a Djalma e ao próprio James, para, tal como sucede no Benfica, formar um pequeno exército de extremos que está em excesso num plantel normal (e felizmente já lá não está Cristian Rodriguez, assim evitando mais tentações e opções absurdas de Vítor Pereira). Parece fatal que algum ou alguns deles venham a ser dispensados, emprestados, ou oferecidos ao Braga, como sucedeu com Beto (com a extraordinária salvaguarda de, em caso de venda, o Braga, que o recebeu de borla, ter direito a 50%!). Será uma pena se isso suceder, mas é o que normalmente acontece quando se compra demais. Resolvida a questão do ponta-de-lança, a este FC Porto continua a faltar um grande médio de ataque, e mais ainda se, como parece inevitável, Moutinho vier a ser, juntamente com Hulk, um dos jogadores a ser vendido daqui até 31 de Agosto. Mesmo que James venha a ser um sucesso como número 10, e mesmo que Moutinho afinal não saia, eles e Lucho são pouco para um sector tão decisivo como o meío-campo. O que torna mais incompreensível ainda que um jogador como Belluschi esteja a ser oferecido a preço de saldo. Enfim, parece-me que falta alguém de rendimento indiscutível no centro da defesa, ao lado de Maicon. Otamendi ainda não me convenceu, Mangala talvez lá chegue, talvez não, e Rolando, que fez uma má época, diz-se que vai para um dos grandes de Itália — coisa em que não acredito. Mas está aí à venda, e barato, o que foi um grande central no Vitória de Guimarães, antes de se ter mudado para o Colónia. Chama-se Geromel e talvez merecesse a atenção de quem decide as compras no FC Porto.
Porém, o castigo é também auto-infligido e a despedida faz-se depois de uma derrota, que é a pior maneira de ir embora. O Dragão Caixa fica agora só para o hóquei e o andebol profissionais, num clube que, além destas, já só tem mais o futebol como modalidade profissional £, sendo que a decisão foi também e certamente determinada por razões económicas, que se vieram somar às outras, nào consigo deixar de pensar que o futebol tudo devora nos clubes que outrora eram ecléticos: o preço da compra do desconhecido Jackson Martinez para a equipa de futebol seguramente que dava para pagar a continuação do basquete, pelo menos mais um ano. Um ano em que, a sair, sairíamos pela porta grande, como campeões nacionais.
2- Pois o tal Jackson Martinez, que custou mais 50% que o seu compatriota Falcão, ainda só o vimos na bancada. Aparentemente, o rapaz chegou cansado e em baixo de forma, pelo que, compreensivelmente; está a ser defendido de uma estreia que corresse mal E que, por quase nove milhões de euros, está muita coisa em jogo. Há jogadores, e de qualidade já conhecida, que terão de ser vendidos barato para amortizar o custo desta contratação. Vítor Pereira, para quem Pinto da Costa chutou a responsabilidade dela, dizendo que era desejo firme do treinador, tem o pescoço no cepo pela qualidade do novo ponta-de-lança. Mas Pinto da Costa e a direcção terão de ver em campo justificado o alto preço que se dispuseram a pagar para ficarem na história como os compradores da mais alta contratação alguma vez feita no futebol mexicano. Já começo a ter pena do rapaz, com tantas responsabilidades sobre os seus ombros e ainda nem sequer saiu da bancada! Uma coisa, pelo menos, joga a seu favor: é que se tomarmos como termo de comparação os que com ele concorrem para o mesmo lugar, Kleber e Janko, não é preciso muito para ganhar a partida. Agora, outra coisa, e bem mais complicada, é provar que o seu passe vale 50% mais do que o de Falcão, e numa altura em que os negócios de loucura já lá vão (e que o diga o FC Porto, que ainda está à espera de receber metade do preço da venda de Falcão ao Atlético de Madrid).
3- Sem Jackson Martinez e ainda sem sete ou oito dos titulares da época passada, o FC Porto lã se estreou em dois jogos, mostrando o resultado dos primeiros quinze dias de estágio. A boa noticia é que, enquanto que o Benfica, como escreveu Fernando Seara, «entrou à campeão», garantindo que, como de costume, ninguém lhe vai roubar o titulo de campeão da pré-época, o FC Porto entrou de mansinho, numa grande indefinição e confusão estratégica e táctica, com cada um a tentar mostrar serviço por si e nem sombra de equipa. E, embora a coisa nos deixe vagamente preocupados, diz nossa experiência que é melhor assim. O Benfica de Jesus entra sempre a todo o vapor, faz dois ou três meses que impressionam e assustam... e depois dá o berro: ficam a reclamar com os árbitros e a lamentar conspirações, incapazes de ir mais além. Já o FC Porto vai crescendo em competição, aguentando-se nos primeiros tempos, à espera de explodir no momento decisivo, em que as épocas se decidem. Os benfiquistas, já se sabe, hâo-de ficar eternamente a queixar-se de que só não foram campeões na época passada porque, no decisivo jogo da Luz, contra o FC Porto, o juiz-de-linha não correu a tempo de poder ver o cabeceamento decisivo de Maicon em fora-de-jogo. Mas é claro que não se lembram nem que o segundo golo do Benfica resultou de um livre inexistente, nem, sobretudo, que a única equipa que, desde o minuto primeiro, mostrou vontade e capacidade de ganhar o jogo foi o FC Porto.
Daquilo que vi destes dois primeiros e inofensivos jogos do FC Porto, concluídos com duas vitórias (a última das quais injustíssima), foi que há por ah muito talento para ser trabalhado, e aproveitado ou desperdiçado, convivendo com apostas reiteradas que não levarão a lado algum. Gente como Kleber, Janko, Defour, nunca passará da cepa torta: são jogadores banais, que, aqui ou acolá, poderão ser úteis, mas jamais sairão da vulgaridade. Castro e Man gala, por exemplo, tardam em mostrar o que valem, se é que valem. Otamendi tarda em dar confiança, de princípio a fim, e Fernando continua a fazer apenas um bom jogo em cada três. Em contrapartida, e como já se sabia, é lá na frente, e nos flancos, que o FC Porto tem concentradas as suas mais valias. Cristian Atsu, com um treinador minimamente competente, vai ser um fora de série, e eu espero, rezo por tudo, que Vítor Pereira não se lembre de o pôr a rodar algures mais um ano: só os treinadores fracos têm medo dos grandes jogadores. James (que Vítor Pereira demorou meio ano a perceber o que valia) está, e muito bem, a ser testado como número 10, hbertando uma vaga na ponta-esquerda, para onde existem demasiados candidatos. Kelvin e Iturbe são dois meninos-maravilha, a quem falta aprenderem a jogar para a equipa e que desesperadamente anseiam por um treinador que lhes ensine isso e os saiba fazer crescer. Infelizmente, todos estes talentos somam-se a Hulk (se ficar), a Varela, a Djalma e ao próprio James, para, tal como sucede no Benfica, formar um pequeno exército de extremos que está em excesso num plantel normal (e felizmente já lá não está Cristian Rodriguez, assim evitando mais tentações e opções absurdas de Vítor Pereira). Parece fatal que algum ou alguns deles venham a ser dispensados, emprestados, ou oferecidos ao Braga, como sucedeu com Beto (com a extraordinária salvaguarda de, em caso de venda, o Braga, que o recebeu de borla, ter direito a 50%!). Será uma pena se isso suceder, mas é o que normalmente acontece quando se compra demais. Resolvida a questão do ponta-de-lança, a este FC Porto continua a faltar um grande médio de ataque, e mais ainda se, como parece inevitável, Moutinho vier a ser, juntamente com Hulk, um dos jogadores a ser vendido daqui até 31 de Agosto. Mesmo que James venha a ser um sucesso como número 10, e mesmo que Moutinho afinal não saia, eles e Lucho são pouco para um sector tão decisivo como o meío-campo. O que torna mais incompreensível ainda que um jogador como Belluschi esteja a ser oferecido a preço de saldo. Enfim, parece-me que falta alguém de rendimento indiscutível no centro da defesa, ao lado de Maicon. Otamendi ainda não me convenceu, Mangala talvez lá chegue, talvez não, e Rolando, que fez uma má época, diz-se que vai para um dos grandes de Itália — coisa em que não acredito. Mas está aí à venda, e barato, o que foi um grande central no Vitória de Guimarães, antes de se ter mudado para o Colónia. Chama-se Geromel e talvez merecesse a atenção de quem decide as compras no FC Porto.
sábado, maio 11, 2013
O MELHOR JOGADOR DO MUNDO (10 JULHO 2012)
1- Discute-se por aí animadamente quem será o melhor jogador do mundo. Os portugueses juram e torcem por Cristiano Ronaldo, os catalães por Iniesta, os castelhanos por Iker Casilhas, e o resto do mundo e alguns portugueses hereges, como eu, por Lionel Messi. Mas estamos todos enganados: o melhor jogador do mundo terá de sair daquele que é o mais espectacular desporto do mundo - e esse, não é o futebol, mas sim o ténis. O futebol é um jogo e um desporto fabuloso, quando bem jogado e, na minha hierarquia pessoal convive com outros igualmente arrebatadores, ao mais alto nível: o vólei, o basquete, algumas modalidades de atletismo - como as de velocidade, maratona, 10 mil metros e salto à vara, os saltos para a água, o ski na neve, o todo-o-terreno e os ralis, etc. Em contrapartida, há modalidades, como aquelas em que os atletas competem curvados como corcundas, o hóquei ou o ciclismo (neste caso, curvados e invariavelmente dopados), ou em que se tornam seres disformes, como o halterofilismo ou o lançamento do peso, ou em que se morre de sono a vê-los, como no andebol, na Fórmula 1 ou no críquete (e a sua versão americana do basebol), que eu passo muito bem sem ter de assistir. Mas, tudo ponderado, há um desporto que me enche as medidas, que tem um lado de duelo de gladiadores inimitável e que pode durar três, quatro, cinco horas de um espectáculo cheio, como nenhum outro desporto, de uma quantidade de momentos que são exaltantes, de uma beleza arrebatadora. E que, ainda para mais, é um desporto onde não há doping, não há árbitros que decidem, não há o factor dinheiro a ditar a diferença, e onde o clubismo doentio é substituído por um fair-play que é, justamente, uma das imagens de marca desse desporto. Esse desporto é o ténis. E o rei do ténis, em 2012, chama-se Roger Federer, o suíço que anteontem, vencendo pela sétima vez Wimbledon, igualou o record de Peter Sampras - nisso e no maior número de semanas como nºl do ranking mundial. Por fidelidade à memoria e ao génio, hesito ainda em alinhar com os que acham que Federer é o maior tenista de todos os tempos, há dez anos no top mundial e ainda conseguindo ser nº1 aos 30 anos de idade. E hesito, apenas porque ainda tenho na memória o fantástico, genial, semi-louco, esquerdista chamado John McEnroe - que, numa inesquecível final de Wimbledon, conseguiu vergar o inamovível bloco de gelo chamado Bjorn Borg, evitando que ele conseguisse vencer Wimbledon pela sexta vez consecutiva, quando, com 5-4 a seu favor, no quinto e último set, se atreveu a fazer o que jamais alguém ousara antes: atacar o serviço de Borg, subindo à rede desde a primeira resposta. Por muitos anos que ainda passe a ver desporto, esse há-de ser para sempre um dos momentos mais marcantes que alguma vez vi a um desportista. É como o calcanhar do Madjer em Viena ou a noite de Los Angeles do Carlos Lopes. Mas também vai durar muito tempo até conseguir esquecer o vóley de esquerda, em amorti e com um efeito inacreditável dado à bola e que eu não sabia possível, com que Federer rematou anteontem a segunda e decisiva partida da final de Wimbledon, daí partindo para a recuperação vitoriosa. Federer é um dos últimos representantes de um ténis puro e clássico - jogado, por exemplo, com a esquerda a uma só mão (e que deslumbrante esquerda, sacada bem de trás, quase de costas, e a explodir na pancada!), e uma direita a varrer, procurando as diagonais absolutas e os cantos do court, em prejuízo do top spin, bem mais fácil e defensivo. E, ainda por cima, é um verdadeiro sportsman, como Wimbledon gosta e venera: não exibe tatuagens nem equipamentos de fantasia adaptados ao mau-gosto dos patrocinadores, quando ganha diz que está feliz e quando perde diz que o adversário foi melhor, não tem sombra de arrogância, de vaidade ou de vedetismo.
Não procurem mais o melhor jogador do mundo em 2012: chama-se Roger Federer.
2- Chiapas? Sim, conheço de ouvir falar: é a capital do crime do México, a cidade dos cartéis da droga. E, da existência dos Jaguares de Chiapas, só soube quando se começou a falar do interesse do FC Porto no seu ponta-de-lança, um tal de Jackson Martinez, autor de uma média de golos inferior a um por cada dois jogos, lá nos Jaguares de Chiapas, e que uma coisa, pelo menos tem garantidamente: é candidato a um dos mais feios jogadores da nossa Liga, a par de Luisão, Carlos Martins, Neca, e outros que mais. A compra de Martinez pelo FC Porto aos tais Jaguares de Chiapas entra na história como a mais cara venda de sempre do futebol mexicano. Suponho que nem nos seus melhores sonhos, o presidente dos Jaguares alguma vez imaginou vender alguém por 8,8 milhões de euros, e o rapaz, que, decerto até pagaria para fugir de Chiapas, ainda deve esfregar os olhos ao realizar que um clube europeu (e nenhum dos dez milionários da lista oficial) pagaria tamanha fortuna para o libertar de Chiapas. Se pensarmos que, por exemplo, Lima, do Sp. Braga, por um golo apenas não o melhor marcador da última Liga, tem ofertas que não passam dos 2 milhões de euros, e que, pelo mesmo valor, o F.C. Porto está pronto a desfazer-se de um centro-campista da qualidade de Belluschi, temos de confiar que este Jackson Martinez deve ser jogador de top mundial. Ainda para mais se, com um ano inteiro para preencher a orfandade de Falcão, o FC Porto apenas se concentrou nele e nenhuma melhor alternativa encontrou, é porque, realmente, melhor não havia no mercado, nesta ordem de valores.
E assim, tendo começar a comprar, e caro, antes de ter começado a vender, numa conjuntura de mercado em que já toda a gente percebeu que os negócios loucos de tempos recentes não se vão repetir agora, temo que tenhamos de vir a pagar este negócio com algumas vendas em saldos de efectivos de valor mais seguro ou, pelo menos, conhecido. A verdade é que, tal como sucede no Benfica, há muita gente, dizem-nos, a perguntar por este e aquele, mas ninguém ainda que se tenha chegado à frente. E, entre os impedimentos, os em trânsito não se sabe para onde, os que agora já não podem ser emprestados cá dentro, os que hão-de continuar emprestados lá fora sem ser vendidos, o FC Porto, que tem quatro defesas-direitos (Danilo, Fucile, Miguel Lopes e Sapunaru), foi para estágio sem nenhum, e, em contrapartida, levou quatro guarda-redes dos oito que tem sob contrato (dois deles, contratados agora e que tanta falta faziam!), e continua a ter uns dez extremos-esquerdos sob contrato, em contraste com apenas quatro médios no plantel, visto que se dá ao luxo de deitar fora Guarin, Belluschi, Souza, Castro, Tomás Costa, Sérgio Monteiro ou Hélder Barbosa.
Porque estão os pequenos falidos é fácil de perceber: porque não têm massa critica que sustente o profissionalismo em que querem viver. Porque estão os grandes falidos também não é difícil de perceber: porque nenhuma empresa, nenhum negócio, resistiria a uma gestão destas: têm setenta jogadores sob contrato, mas apenas uns 25 trabalham para o clube. Diz-se que o Sporting é diferente, apenas porque tem menos dinheiro para aventuras e então aproveita a prata da casa. Sim, aproveita, se não tiver logo ofertas por ela: ainda agora acaba de vender dois miúdos, recém-campeões de juniores para o Barcelona, por 2,5 milhões. E dá-se ao luxo de só integrar o Adrien contra um pedido de desculpas dele... por ter querido ganhar a Taça contra o Sporting e ao serviço da Académica, a quem estava emprestado.
3- Passou mais de um mês e eu continuo muito curioso para saber que decisão irá tomar a Federação de Basquete sobre o comportamento do treinador do Benfica, no decisivo jogo do Dragão. Será que estão à espera que o tempo passe e toda a gente se esqueça?
Não procurem mais o melhor jogador do mundo em 2012: chama-se Roger Federer.
2- Chiapas? Sim, conheço de ouvir falar: é a capital do crime do México, a cidade dos cartéis da droga. E, da existência dos Jaguares de Chiapas, só soube quando se começou a falar do interesse do FC Porto no seu ponta-de-lança, um tal de Jackson Martinez, autor de uma média de golos inferior a um por cada dois jogos, lá nos Jaguares de Chiapas, e que uma coisa, pelo menos tem garantidamente: é candidato a um dos mais feios jogadores da nossa Liga, a par de Luisão, Carlos Martins, Neca, e outros que mais. A compra de Martinez pelo FC Porto aos tais Jaguares de Chiapas entra na história como a mais cara venda de sempre do futebol mexicano. Suponho que nem nos seus melhores sonhos, o presidente dos Jaguares alguma vez imaginou vender alguém por 8,8 milhões de euros, e o rapaz, que, decerto até pagaria para fugir de Chiapas, ainda deve esfregar os olhos ao realizar que um clube europeu (e nenhum dos dez milionários da lista oficial) pagaria tamanha fortuna para o libertar de Chiapas. Se pensarmos que, por exemplo, Lima, do Sp. Braga, por um golo apenas não o melhor marcador da última Liga, tem ofertas que não passam dos 2 milhões de euros, e que, pelo mesmo valor, o F.C. Porto está pronto a desfazer-se de um centro-campista da qualidade de Belluschi, temos de confiar que este Jackson Martinez deve ser jogador de top mundial. Ainda para mais se, com um ano inteiro para preencher a orfandade de Falcão, o FC Porto apenas se concentrou nele e nenhuma melhor alternativa encontrou, é porque, realmente, melhor não havia no mercado, nesta ordem de valores.
E assim, tendo começar a comprar, e caro, antes de ter começado a vender, numa conjuntura de mercado em que já toda a gente percebeu que os negócios loucos de tempos recentes não se vão repetir agora, temo que tenhamos de vir a pagar este negócio com algumas vendas em saldos de efectivos de valor mais seguro ou, pelo menos, conhecido. A verdade é que, tal como sucede no Benfica, há muita gente, dizem-nos, a perguntar por este e aquele, mas ninguém ainda que se tenha chegado à frente. E, entre os impedimentos, os em trânsito não se sabe para onde, os que agora já não podem ser emprestados cá dentro, os que hão-de continuar emprestados lá fora sem ser vendidos, o FC Porto, que tem quatro defesas-direitos (Danilo, Fucile, Miguel Lopes e Sapunaru), foi para estágio sem nenhum, e, em contrapartida, levou quatro guarda-redes dos oito que tem sob contrato (dois deles, contratados agora e que tanta falta faziam!), e continua a ter uns dez extremos-esquerdos sob contrato, em contraste com apenas quatro médios no plantel, visto que se dá ao luxo de deitar fora Guarin, Belluschi, Souza, Castro, Tomás Costa, Sérgio Monteiro ou Hélder Barbosa.
Porque estão os pequenos falidos é fácil de perceber: porque não têm massa critica que sustente o profissionalismo em que querem viver. Porque estão os grandes falidos também não é difícil de perceber: porque nenhuma empresa, nenhum negócio, resistiria a uma gestão destas: têm setenta jogadores sob contrato, mas apenas uns 25 trabalham para o clube. Diz-se que o Sporting é diferente, apenas porque tem menos dinheiro para aventuras e então aproveita a prata da casa. Sim, aproveita, se não tiver logo ofertas por ela: ainda agora acaba de vender dois miúdos, recém-campeões de juniores para o Barcelona, por 2,5 milhões. E dá-se ao luxo de só integrar o Adrien contra um pedido de desculpas dele... por ter querido ganhar a Taça contra o Sporting e ao serviço da Académica, a quem estava emprestado.
3- Passou mais de um mês e eu continuo muito curioso para saber que decisão irá tomar a Federação de Basquete sobre o comportamento do treinador do Benfica, no decisivo jogo do Dragão. Será que estão à espera que o tempo passe e toda a gente se esqueça?
sexta-feira, maio 10, 2013
MEIA-DESFEITA (3 JULHO 2012)
1- Assisti à final do Euro ao lado de dois ferozes inimigos do tiki-taka espanhol. «Um aborrecimento», a «destruição do futebol», etc. Tentei contrapor, dizendo que, de facto, sem o Messi, o tiki-taka não tem a mesma vibração, mas o princípio mantém-se: é um jogo da rabia em progressão, que simultaneamente serve para atacar e para defender. Nada mais injusto para mim do que chamarem-lhe tiki-takinacio, porque o catenacio visava apenas defender, enquanto que o esquema de jogo do Barcelona, importando com um êxito tremendo para a selecção espanhola, tanto ataca até estar em vantagem, como defende depois. Grave era se não atacasse: mas o Barcelona marca golos até dizer basta e a Espanha foi a selecção do Europeu que mais golos marcou (ok, também foi a que mais jogos fez, a par da Itália; mas, na fase de grupos, onde as 16 equipas jogaram todas três jogos, ninguém marcou tantos como a Espanha). E, quanto a defender, não conheço equipa que não defenda uma vantagem numa fase final de um Europeu e que não aproveite os jogos em que está em vantagem para descansar, de vez em quando. Mas a Espanha, respondem, guarda a bola para nada, o objectivo do seu jogo é guardar a bola. Falso: guarda a bola em acção ofensiva, até abrir uma brecha por onde aparece alguém a chutar para golo, e guarda a bola depois para descansar com ela, evitando que o adversário a tenha - o problema é dos adversários, se não conseguem tirar a bola aos espanhóis ou inventar um contra-sistema que obrigue os espanhóis a correr atrás da bola. Portugal conseguiu o durante qua se 90 minutos, em grande parte tirando partido de uma Espanha desgastada por menos 48 horas dc descanso. Mas, nos trinta minutos de prolongamento, foi visível que quem estoirou foi Portugal, cansado de contrariar a rabia espanhola. Já a Itália quis imitar a Espanha e conseguiu até ter mais tempo de bola até à lesão de Thiago Motta só que não lhe serviu para nada. Contando desta vez com mais um dia de descanso que o adversário, a Espanha nem precisou de muita bola para, com toda a naturalidade das coisas brilhantes, fazer à Itália um tiki-taka, tiki-taka: 1-0, 2-0, 3-0, 4-0. Parece fácil, mas ninguém consegue imitá-la e ninguém consegue contrariá-la. Chamem-lhe aborrecido, mas se al guém aborreceu foi a Itália e não há nenhum treinador no mundo que não quisesse estar no lugar de Del Bosque.
2- A implosão italiana tornou mais evidente o imenso esforço e mérito da selecção portuguesa frente aos espanhóis: fizemos mais do que todos os outros e o mais que podíamos - mas não foi suficiente. Não concordo que se diga que não tivemos sorte. Aliás, sou alérgico à tradição das desculpas: primeiro era o Platini, que quereria a Espanha na final; depois, era o árbitro, porque era turco e turco é também o vice-presidente da arbitragem da UEFA, sendo o presidente e seu presumível amigo espanhol; a seguir era o hotel em que ficou a selecção e que, ó escândalo, também tinha clientes... espanhóis (o que diria nossa imprensa desportiva, que conspirações não inventaria, se tivéssemos sido nós a ter menos dois dias de descanso que os espanhóis); depois, como Platini não jogou e do árbitro nada nos podemos queixar, foi a sorte. Mas não, não foi a sorte: em todo o jogo, a Espanha teve duas oportunidades de golo e nós apenas uma, ao minuto 89, concluída por Cristiano com um remate disparatado; Patrício salvou um golo feito e Casillas não fez uma defesa, porque não acertámos com um só remate na baliza; no prolongamento ficámos a ver jogar, aparentemente sem forças para mais do que apostar nessa coisa a que chamam a lotaria dos penalties; e, nesta lotaria dos penalties (uma expressão que abomino), é certo que Bruno Alves acertou na barra, o que ó azar, mas que só acontece a quem não sabe que um penaity se marca rasteiro e não pelo ar (se querem saber como se marca um penaity, revejam o de Iniesta, para perceberem que a dita lotaria tem muito de exigência técnica e capacidade de resistência à pressão. Ou seja, tem mais de mérito do que de sorte).
Acho que Paulo Bento fez bem em não ter colocado Ronaldo como primeiro cobrador dos penalties: face às experiências recentes, um falhanço dele teria consequências psicológicas terríveis para os que se seguissem. Em contrapartida, acho que demorou tempo demais até tirar Nani - que, tendo sido até este jogo um dos melhores, desapareceu aqui, desde o início (e eu bem gostaria de ter visto uma meia-hora de Ricardo Quaresma...). E, para quem me tem lido, é evidente que acho que mais uma reincidência em Nelson Oliveira apenas serviu para se traduzir em mais um fiasco: depois de ele entrar, o nosso ataque morreu, pura e simplesmente. Pode ser que venha a ser o ponta-de-lança do futuro na Selecção, mas do presente não é com certeza.
Porém, e para falar com toda a franqueza, não sei se outras alterações do seleccionador (o Hugo Viana em vez do Custódio, por exemplo) teriam tido resultados diferentes. É que, a partir do momento em que Del Bosque também corrigiu o seu erro de casting chamado Negredo e meteu em jogo Navas e Pedro, refrescando a equipe e abrindo os flancos, a Espanha ganhou nova alma, enquanto nós já só apostávamos as fichas todas na lotaria dos penalties que é uma coisa maravilhosa quando corre bem e um azar e uma injustiça tremenda quando corre mal. Todavia, faça-se justiça: uma das diferenças essenciais entre a Espanha e nós é que eles tinham banco e nós não. Aliás, se pensarmos que a Alemanha, por exemplo, tem uns três milhões de jogadores de futebol federados, enquanto nós temos uns 70.000, é notável que Portugal consiga ainda alcançar meias-finais de competições como o Europeu. Temos um inexplicável talento para o futebol, que, infelizmente, não tem correspondência com o número de praticantes. A mim, que joguei furiosamente futebol dos 6 aos 24 anos e que só por três ou quatro vezes joguei num relvado e os outros milhares de vezes em campos de esfolar joelhos, não me admira que nunca tenhamos ganho nada. Colhe-se o que se semeia.
Três vitórias, um empate e uma derrota foi o balanço do nosso Euro. Foi mais do que eu esperava e não acho razoável ter esperado mais, face à equipa que tínhamos e ao grupo que nos calhou. É claro que, chegados às meias-finais, todos nos pusemos a sonhar alto e custa muito acordar de um sonho. Mas toda a realidade é feita apenas da parte do sonho que se consegue cumprir - porque não basta sonhar, vencer dá muito trabalho e exige muitas coisas coincidentes, para além da vontade e do desejo. Tudo visto e ponderado, reconheço, sem esforço, que Paulo Bento merece elogios pelo que conseguiu. Apesar das suas teimosias e preferências fixas (e não conheço treinador que as não tenha, sendo Mourinho o menos contestável nisto), Paulo Bento foi o mais conse-quente seleccionador que tivemos nos últimos dez anos. Não tem o génio táctico que eu acho que tinha, por exemplo, o mal tratado António Oliveira, mas também não tem os seus desequilíbrios e a sua imprevisibilidade às vezes suicidaria. Mas é fiável e bom gestor de grupo. No horizonte próximo não vejo ninguém melhor para nos conduzir até ao Mundial do Brasil.
3- Uma palavra final para o português que melhor nos representou no Europeu: Pedro Proença. Insultado aqui por todos os benfiquistas e seus serventuários, agredido, enxovalhado, tornado suspeito de todas as traficâncias, ele cometeu a proeza de, sozinho, ganhar a final da Liga dos Campeões e a final do Europeu (enquanto que o Benfica, parece que ganhou... o futsal). A final do Euro não lhe correu particularmente bem e é pena (embora o reclamado penalty por mão de um espanhol seja dos tais que é sempre penalty em Portugal e raramente o é na Europa). Mas, tivessem os jogadores e técnicos portugueses conquistado um terço do que ele conquistou, já Cavaco Silva os teria telegramado e condecorado.
2- A implosão italiana tornou mais evidente o imenso esforço e mérito da selecção portuguesa frente aos espanhóis: fizemos mais do que todos os outros e o mais que podíamos - mas não foi suficiente. Não concordo que se diga que não tivemos sorte. Aliás, sou alérgico à tradição das desculpas: primeiro era o Platini, que quereria a Espanha na final; depois, era o árbitro, porque era turco e turco é também o vice-presidente da arbitragem da UEFA, sendo o presidente e seu presumível amigo espanhol; a seguir era o hotel em que ficou a selecção e que, ó escândalo, também tinha clientes... espanhóis (o que diria nossa imprensa desportiva, que conspirações não inventaria, se tivéssemos sido nós a ter menos dois dias de descanso que os espanhóis); depois, como Platini não jogou e do árbitro nada nos podemos queixar, foi a sorte. Mas não, não foi a sorte: em todo o jogo, a Espanha teve duas oportunidades de golo e nós apenas uma, ao minuto 89, concluída por Cristiano com um remate disparatado; Patrício salvou um golo feito e Casillas não fez uma defesa, porque não acertámos com um só remate na baliza; no prolongamento ficámos a ver jogar, aparentemente sem forças para mais do que apostar nessa coisa a que chamam a lotaria dos penalties; e, nesta lotaria dos penalties (uma expressão que abomino), é certo que Bruno Alves acertou na barra, o que ó azar, mas que só acontece a quem não sabe que um penaity se marca rasteiro e não pelo ar (se querem saber como se marca um penaity, revejam o de Iniesta, para perceberem que a dita lotaria tem muito de exigência técnica e capacidade de resistência à pressão. Ou seja, tem mais de mérito do que de sorte).
Acho que Paulo Bento fez bem em não ter colocado Ronaldo como primeiro cobrador dos penalties: face às experiências recentes, um falhanço dele teria consequências psicológicas terríveis para os que se seguissem. Em contrapartida, acho que demorou tempo demais até tirar Nani - que, tendo sido até este jogo um dos melhores, desapareceu aqui, desde o início (e eu bem gostaria de ter visto uma meia-hora de Ricardo Quaresma...). E, para quem me tem lido, é evidente que acho que mais uma reincidência em Nelson Oliveira apenas serviu para se traduzir em mais um fiasco: depois de ele entrar, o nosso ataque morreu, pura e simplesmente. Pode ser que venha a ser o ponta-de-lança do futuro na Selecção, mas do presente não é com certeza.
Porém, e para falar com toda a franqueza, não sei se outras alterações do seleccionador (o Hugo Viana em vez do Custódio, por exemplo) teriam tido resultados diferentes. É que, a partir do momento em que Del Bosque também corrigiu o seu erro de casting chamado Negredo e meteu em jogo Navas e Pedro, refrescando a equipe e abrindo os flancos, a Espanha ganhou nova alma, enquanto nós já só apostávamos as fichas todas na lotaria dos penalties que é uma coisa maravilhosa quando corre bem e um azar e uma injustiça tremenda quando corre mal. Todavia, faça-se justiça: uma das diferenças essenciais entre a Espanha e nós é que eles tinham banco e nós não. Aliás, se pensarmos que a Alemanha, por exemplo, tem uns três milhões de jogadores de futebol federados, enquanto nós temos uns 70.000, é notável que Portugal consiga ainda alcançar meias-finais de competições como o Europeu. Temos um inexplicável talento para o futebol, que, infelizmente, não tem correspondência com o número de praticantes. A mim, que joguei furiosamente futebol dos 6 aos 24 anos e que só por três ou quatro vezes joguei num relvado e os outros milhares de vezes em campos de esfolar joelhos, não me admira que nunca tenhamos ganho nada. Colhe-se o que se semeia.
Três vitórias, um empate e uma derrota foi o balanço do nosso Euro. Foi mais do que eu esperava e não acho razoável ter esperado mais, face à equipa que tínhamos e ao grupo que nos calhou. É claro que, chegados às meias-finais, todos nos pusemos a sonhar alto e custa muito acordar de um sonho. Mas toda a realidade é feita apenas da parte do sonho que se consegue cumprir - porque não basta sonhar, vencer dá muito trabalho e exige muitas coisas coincidentes, para além da vontade e do desejo. Tudo visto e ponderado, reconheço, sem esforço, que Paulo Bento merece elogios pelo que conseguiu. Apesar das suas teimosias e preferências fixas (e não conheço treinador que as não tenha, sendo Mourinho o menos contestável nisto), Paulo Bento foi o mais conse-quente seleccionador que tivemos nos últimos dez anos. Não tem o génio táctico que eu acho que tinha, por exemplo, o mal tratado António Oliveira, mas também não tem os seus desequilíbrios e a sua imprevisibilidade às vezes suicidaria. Mas é fiável e bom gestor de grupo. No horizonte próximo não vejo ninguém melhor para nos conduzir até ao Mundial do Brasil.
3- Uma palavra final para o português que melhor nos representou no Europeu: Pedro Proença. Insultado aqui por todos os benfiquistas e seus serventuários, agredido, enxovalhado, tornado suspeito de todas as traficâncias, ele cometeu a proeza de, sozinho, ganhar a final da Liga dos Campeões e a final do Europeu (enquanto que o Benfica, parece que ganhou... o futsal). A final do Euro não lhe correu particularmente bem e é pena (embora o reclamado penalty por mão de um espanhol seja dos tais que é sempre penalty em Portugal e raramente o é na Europa). Mas, tivessem os jogadores e técnicos portugueses conquistado um terço do que ele conquistou, já Cavaco Silva os teria telegramado e condecorado.
quinta-feira, maio 09, 2013
E, SUBITAMENTE… ( 26 JUNHO 2012)
1- E, subitamente, uma Selecção pela qual eu (e tantos mais) não dava grande coisa, aí está à beira da final do Europeu - ou mesmo, porque não, da vitória. Ausente de Portugal, tendo deixado este texto escrito de antemão, não sei ainda que adversário nos calhará nas meias-finais — mas desejo ardentemente que seja a França e não a Espanha, assim como desejei apanhar os checos e não os gregos nos quartos-de-final.
Apesar de aqui ter escrito que tinha gostado da nossa exibição contra a Turquia no ensaio final, e não obstante a derrota, a verdade é que não tinha grandes esperanças que sobrevivêssemos ao grupo da morte. E, se o jogo inaugural contra a Alemanha não fez senão aumentar a descrença, já o pontapé salvador de Varela à beira do fim do jogo contra a Dinamarca ressuscitou a esperança, libertou-nos do fantasma da bola que não entrava e, talvez o mais importante, deu aos próprios jogadores a fé e a vontade de, como dizia o MRPP, «ousar lutar, ousar vencer».
O futebol é, de facto, um jogo de surpresas constantes e esse é um dos seus fascínios: se Varela não tem falhado o primeiro remate com o pé esquerdo, talvez a bola não tivesse entrado como entrou com a emenda de pé direito; e, não entrando aquele golo, o Europeu poderia ter acabado para nós, ali mesmo. Mas a bola entrou e ganhámos o jogo e a seguir soubemos aproveitar o suicídio táctico da Holanda para também os vencer com todo o mérito. Uns dias antes, tinha visto também o ensaio final da Holanda, esmagando a Irlanda do Norte por 6-0 e, francamente, não vi como poderíamos sobreviver num grupo com eles, os alemães e mesmo os dinamarqueses, que nos tinham vencido na qualificação. Mas sobrevivemos e ganhámos o prémio dessa primeira etapa ultrapassada: saiu-nos a mais fraca das sete outras equipas nos quartos-de-final e, ainda para mais, desfalcada do seu melhor jogador de campo, Tomás Rosicky. Continuo convencido que teria sido bem mais difícil contra a Grécia. A sorte que não tivemos na fase de grupos, tivemo-la depois nos quartos.
A primeira parte do jogo com os checos foi insípida, até incompreensível da nossa parte, e de tal forma arrastada e aborrecida que, tendo-me ausentado a dois minutos do intervalo, perdi a que foi a melhor jogada do nosso ataque e de Cristiano Ronaldo. Mas a segunda parte, empolgante desde o primeiro minuto, não deixou quaisquer dúvidas de que, apesar do enorme Petr Cech, só podíamos ganhar o jogo. Jogámos para ganhar e ganhámos — o que, felizmente, ainda é o mais frequente de acontecer no futebol, quando se joga assim. Mais uma grande exibição de Ronaldo, mais uma grande exibicão de Moutinho - e de Pepe e Nani, a maior parte do tempo. Mas ao contrario do que aconteceu contra a Holanda, desta vez nem todos estiveram tão bem: houve elos mais fracos, que foram visíveis e a quem precisaria de ser dado descanso. Acho que, paradoxalmente ou talvez não, a chave da nossa mudança de atitude na segunda parte talvez tenha sido a lesão de Hélder Postiga acontecida por volta dos trinta minutos e sem que eu tenha dado por ele até então.
Para mim, o mais confiável dos três pontas-de-lança que Paulo Bento levou para o Euro é o Hugo Almeida e foi com grande alívio, devo dizê-lo, que o vi substituir Postiga por Hugo Almeida e não por Nelson Oliveira. É que Hugo Almeida não só mostrou muito mais serviço frente à baliza, muito mais poder de luta e de ameaça, como isso exigiu maior atenção da defesa checa em relação ao nosso ponta-de-lança, contribuindo decisivamente para libertar Ronaldo para terrenos interiores e de finalização. Fantástico o nosso golo: a desmarcação e cruzamento de Moutinho, a entrada de Ronaldo, como segunda vaga de Hugo Almeida, cabeceando de baixo para cima, quase um penalty de cabeça.
E, agora... Agora, temos seis dias de descanso, mais dois do que França ou a Espanha quando tiverem de nos enfrentar em Donetsk — e isso, nesta fase do campeonato e da época, é, teoricamente, um poderoso factor de desequilíbrio a nosso favor. A este propósito, é engraçado, aliás, como o futebol proporciona opiniões tão desencontradas: ao intervalo do Portugal República-Checa, ouvi os comentadores da Antena 1 dizerem que a nossa Selecção dava mostras de grande cansaço e que, nesse aspecto, os checos pareciam bem melhor; e, aos 20 minutos da segunda parte, ouvi António Tadeia, na RTP, dizer exactamente o contrário: que era de louvar a condição física da nossa equipa, enquanto os checos tinham dado o berro.
E, longe de gozar com as opiniões alheias e contraditórias, devo confessar que, na altura em que foram produzidas, concordei com ambas: na primeira parte, Portugal pareceu-me desvitaminado e abúlico; na segunda parte, vi-o conduzir uma avalanche de futebol ofensivo que deixou os checos de gatas. Se esse vier a ser factor determinante para o jogo das meias finais, queira o destino que nos saia a França e não a Espanha: porque a Espanha sabe, como ninguém, fazer aquilo a que Mourinho chamou «o descanso com bola».
2- Agora, os patriotas encartados não suportam Platini, porque ele ousou apostar numa final Alemanha-Es-panha e logo se tornou suspeito de tudo fazer para a favorecer. Mas quando Platini, de tudo ignorante, atacava o FC Porto, porque engolira sem se informar a propaganda do Benfica e da Comissão Disciplinar da Liga, que o Benfica controlava, aí todos adoravam Platini. Malhas que o destino tece...
3- Já aqui critiquei a reacção de Paulo Bento e de alguns jogadores às críticas feitas à Selecção, por parte de gente como Carlos Queiroz, Manuel José, Luís Figo e Rui Costa. Mas falta também referir o terceiro elemento que é parte desta história: os jornalistas. Já com tréguas estabelecidas, os jornalistas continuam, insaciáveis, à procura de sangue, para melhor vender as suas notícias. A nível interno, já se sabe que nunca deixam de perguntar aos vencidos pela arbitragem; na Selecção e na hora das vitórias, nunca deixam de pedir aos vencedores uma resposta aos «críticos». Mas, no caso concreto, é sempre Manuel José ou Carlos Queiroz, lá bem longe, que eles instigam a abater. A coragem não lhes chega, obviamente, para referir Figo ou Rui Costa, que estão aqui ao lado e que têm bem mais poder.
4- Uma hora depois da vitória de Portugal sobre os checos, já tinha sido reposto no ar o insuportável anúncio da Galp com o menino patriota a incitar os jogadores da Selecção a vingarem a honra pátria. É um monumento ao nacional-pirosismo que tem o dom de roubar a alegria das vitórias do futebol, reduzindo-as a uma coisinha ridícula, insuportável e imbecil. Por favor, parem lá com aquilo!
5- Quando o Euro acabar, vamos voltar ao nosso ram ram futebolístico, que, por enquanto, vai mais ou menos suspenso. Teremos, então, ocasião de meditar sobre as sórdidas histórias que vêm aparecendo à superfície no Sporting e que são tudo menos rábulas de cavalheiros. Ou sobre a meia dúzia de juvenis sul-americanos (colombianos, uruguaios ou argentinos) que se anuncia que o Benfica terá contratado por atacado, para melhor valorizar as suas escolas cos jogadores portugueses. Ou sobre os dois guarda-redes, estrangeiros também, que o FC Porto já comprou para a próxima época, elevando a oito (oito!) o número de guarda-redes profissionais sob contrato — e, dos quais, o melhor, que é português e se chama Beto, não tem lugar na equipa principal. Lá iremos, a seu tempo.
Apesar de aqui ter escrito que tinha gostado da nossa exibição contra a Turquia no ensaio final, e não obstante a derrota, a verdade é que não tinha grandes esperanças que sobrevivêssemos ao grupo da morte. E, se o jogo inaugural contra a Alemanha não fez senão aumentar a descrença, já o pontapé salvador de Varela à beira do fim do jogo contra a Dinamarca ressuscitou a esperança, libertou-nos do fantasma da bola que não entrava e, talvez o mais importante, deu aos próprios jogadores a fé e a vontade de, como dizia o MRPP, «ousar lutar, ousar vencer».
O futebol é, de facto, um jogo de surpresas constantes e esse é um dos seus fascínios: se Varela não tem falhado o primeiro remate com o pé esquerdo, talvez a bola não tivesse entrado como entrou com a emenda de pé direito; e, não entrando aquele golo, o Europeu poderia ter acabado para nós, ali mesmo. Mas a bola entrou e ganhámos o jogo e a seguir soubemos aproveitar o suicídio táctico da Holanda para também os vencer com todo o mérito. Uns dias antes, tinha visto também o ensaio final da Holanda, esmagando a Irlanda do Norte por 6-0 e, francamente, não vi como poderíamos sobreviver num grupo com eles, os alemães e mesmo os dinamarqueses, que nos tinham vencido na qualificação. Mas sobrevivemos e ganhámos o prémio dessa primeira etapa ultrapassada: saiu-nos a mais fraca das sete outras equipas nos quartos-de-final e, ainda para mais, desfalcada do seu melhor jogador de campo, Tomás Rosicky. Continuo convencido que teria sido bem mais difícil contra a Grécia. A sorte que não tivemos na fase de grupos, tivemo-la depois nos quartos.
A primeira parte do jogo com os checos foi insípida, até incompreensível da nossa parte, e de tal forma arrastada e aborrecida que, tendo-me ausentado a dois minutos do intervalo, perdi a que foi a melhor jogada do nosso ataque e de Cristiano Ronaldo. Mas a segunda parte, empolgante desde o primeiro minuto, não deixou quaisquer dúvidas de que, apesar do enorme Petr Cech, só podíamos ganhar o jogo. Jogámos para ganhar e ganhámos — o que, felizmente, ainda é o mais frequente de acontecer no futebol, quando se joga assim. Mais uma grande exibição de Ronaldo, mais uma grande exibicão de Moutinho - e de Pepe e Nani, a maior parte do tempo. Mas ao contrario do que aconteceu contra a Holanda, desta vez nem todos estiveram tão bem: houve elos mais fracos, que foram visíveis e a quem precisaria de ser dado descanso. Acho que, paradoxalmente ou talvez não, a chave da nossa mudança de atitude na segunda parte talvez tenha sido a lesão de Hélder Postiga acontecida por volta dos trinta minutos e sem que eu tenha dado por ele até então.
Para mim, o mais confiável dos três pontas-de-lança que Paulo Bento levou para o Euro é o Hugo Almeida e foi com grande alívio, devo dizê-lo, que o vi substituir Postiga por Hugo Almeida e não por Nelson Oliveira. É que Hugo Almeida não só mostrou muito mais serviço frente à baliza, muito mais poder de luta e de ameaça, como isso exigiu maior atenção da defesa checa em relação ao nosso ponta-de-lança, contribuindo decisivamente para libertar Ronaldo para terrenos interiores e de finalização. Fantástico o nosso golo: a desmarcação e cruzamento de Moutinho, a entrada de Ronaldo, como segunda vaga de Hugo Almeida, cabeceando de baixo para cima, quase um penalty de cabeça.
E, agora... Agora, temos seis dias de descanso, mais dois do que França ou a Espanha quando tiverem de nos enfrentar em Donetsk — e isso, nesta fase do campeonato e da época, é, teoricamente, um poderoso factor de desequilíbrio a nosso favor. A este propósito, é engraçado, aliás, como o futebol proporciona opiniões tão desencontradas: ao intervalo do Portugal República-Checa, ouvi os comentadores da Antena 1 dizerem que a nossa Selecção dava mostras de grande cansaço e que, nesse aspecto, os checos pareciam bem melhor; e, aos 20 minutos da segunda parte, ouvi António Tadeia, na RTP, dizer exactamente o contrário: que era de louvar a condição física da nossa equipa, enquanto os checos tinham dado o berro.
E, longe de gozar com as opiniões alheias e contraditórias, devo confessar que, na altura em que foram produzidas, concordei com ambas: na primeira parte, Portugal pareceu-me desvitaminado e abúlico; na segunda parte, vi-o conduzir uma avalanche de futebol ofensivo que deixou os checos de gatas. Se esse vier a ser factor determinante para o jogo das meias finais, queira o destino que nos saia a França e não a Espanha: porque a Espanha sabe, como ninguém, fazer aquilo a que Mourinho chamou «o descanso com bola».
2- Agora, os patriotas encartados não suportam Platini, porque ele ousou apostar numa final Alemanha-Es-panha e logo se tornou suspeito de tudo fazer para a favorecer. Mas quando Platini, de tudo ignorante, atacava o FC Porto, porque engolira sem se informar a propaganda do Benfica e da Comissão Disciplinar da Liga, que o Benfica controlava, aí todos adoravam Platini. Malhas que o destino tece...
3- Já aqui critiquei a reacção de Paulo Bento e de alguns jogadores às críticas feitas à Selecção, por parte de gente como Carlos Queiroz, Manuel José, Luís Figo e Rui Costa. Mas falta também referir o terceiro elemento que é parte desta história: os jornalistas. Já com tréguas estabelecidas, os jornalistas continuam, insaciáveis, à procura de sangue, para melhor vender as suas notícias. A nível interno, já se sabe que nunca deixam de perguntar aos vencidos pela arbitragem; na Selecção e na hora das vitórias, nunca deixam de pedir aos vencedores uma resposta aos «críticos». Mas, no caso concreto, é sempre Manuel José ou Carlos Queiroz, lá bem longe, que eles instigam a abater. A coragem não lhes chega, obviamente, para referir Figo ou Rui Costa, que estão aqui ao lado e que têm bem mais poder.
4- Uma hora depois da vitória de Portugal sobre os checos, já tinha sido reposto no ar o insuportável anúncio da Galp com o menino patriota a incitar os jogadores da Selecção a vingarem a honra pátria. É um monumento ao nacional-pirosismo que tem o dom de roubar a alegria das vitórias do futebol, reduzindo-as a uma coisinha ridícula, insuportável e imbecil. Por favor, parem lá com aquilo!
5- Quando o Euro acabar, vamos voltar ao nosso ram ram futebolístico, que, por enquanto, vai mais ou menos suspenso. Teremos, então, ocasião de meditar sobre as sórdidas histórias que vêm aparecendo à superfície no Sporting e que são tudo menos rábulas de cavalheiros. Ou sobre a meia dúzia de juvenis sul-americanos (colombianos, uruguaios ou argentinos) que se anuncia que o Benfica terá contratado por atacado, para melhor valorizar as suas escolas cos jogadores portugueses. Ou sobre os dois guarda-redes, estrangeiros também, que o FC Porto já comprou para a próxima época, elevando a oito (oito!) o número de guarda-redes profissionais sob contrato — e, dos quais, o melhor, que é português e se chama Beto, não tem lugar na equipa principal. Lá iremos, a seu tempo.
quarta-feira, maio 08, 2013
AFINAL, A BOLA ENTRA! (17 JUNHO 2012)
1- No curto espaço de cinco dias, de quarta a domingo, quebrou-se o mistério e o enguiço que vinha perseguindo a Selecção: a bola que não queria entrar. Três golos contra a Dinamarca, num jogo em que sofremos mais do que merecíamos, e mais dois contra a Holanda, num triunfo tão justo quanto escasso. E mais uma dezena de oportunidades de golo perdidas por culpa própria ou mérito alheio.
Uns minutos antes de começar o Portugal-Holanda, Marcelo Rebelo de Sousa fazia, na TVI, a sua pré-análise - um exercício sempre arriscado, como se confirmaria. Convicto, Marcelo garantia que ia acontecer uma de duas coisas: ou nós aguentávamos a primeira meia-hora de ímpeto atacante dos holandeses, sem sofrer golos, e tínhamos grandes hipóteses de depois assegurar um bom resultado final; ou nós não aguentávamos em branco essa meia-hora e as coisas complicar-se-iam muito para nós. No fundo, ele estava a reproduzir a filosofia de há muito entranhada nos nossos hábitos e na cultura dos nossos treinadores, sempre que têm pela frente um adversário que infunde respeito: aguentá-los primeiro, não esquecer que o 0-0 é sempre um bom resultado e que, calhando até, na hora certa lançamos o contra-golpe e podemos ganhar 1-0. Foi o que fizemos contra a Alemanha, na abertura do Europeu e foi o que aqui critiquei na semana passada, embora deixando a dúvida se esta selecção teria capacidade para outra estratégia em que não tivesse medo de assumir o jogo de igual para igual, desde o início. Mas, e embora reconhecendo a debilidade do nosso meio-campo e a ausência de um ponta-de-lança matador, ao estilo Pauleta, também sempre me fez espécie a habitual incapacidade ofensiva, numa equipa que, apesar de tudo, dispõe de Ronaldo e de Nani. Como escreveu Santiago Segurola no DN, o tipo de jogo que Portugal apresentou contra a Alemanha, só soltando os cavalos no último quarto-de-hora e quando se viu a perder, contraria a matriz natural desta selecção - que é ofensiva e não defensiva. Quem tem Ronaldo e Nani não pode brilhar a defender, mas a atacar. É claro que há sempre a questão de saber que Ronaldo vai estar em cada jogo: o do Real Madrid ou o de alguns tristes jogos pela Selecção. Mas até essa questão perdeu alguma importância, quando vimos a Selecção ganhar à Dinamarca e marcar três golos sem a menor contribuição de Ronaldo para cada um deles, antes pelo contrário. Esse terá sido o efeito mais benéfico da sofrida, mas justíssima, vitória sobre a Dinamarca: mostrar que também podíamos ganhar sem Ronaldo. Óptimo se ele estiver nos seus dias, paciência se não estiver.
Contra a Holanda, felizmente que o prognóstico de Marcelo Rebelo de Sousa saiu exactamente ao contrário: entrámos encolhidos e amedrontados face àquela equipa de cinco avançados e aos 11 minutos já estávamos a perder, num golo tão simples e brilhante quanto inevitável: um daqueles golos em que não se consegue encontrar um culpado, apenas o mérito do adversário. Mas foi o melhor que nos podia ter acontecido. A equipa percebeu cedo que, se continuasse naquela atitude, em breve estaria a sofrer o segundo e o terceiro. E bastou soltar os medos e os génios para rapidamente perceber também que uma equipa com cinco avançados defende mal necessariamente e que, além disso, mal se viu acossada lá atrás, destapou um segredo de polichinelo: que a sua defesa era fraca, com centrais sem mobilidade e laterais sem velocidade. Para satisfazer os críticos, o seleccionador holandês, Bert Van Marwijk, deu-lhes a equipa de ataque que eles reclamavam e o resultado foi partir a equipa ao meio: cinco jogadores lá à frente, sem bola nem jogo, e outros cinco cá atrás, defendendo mal, e não fazendo a ligação entre sectores. E Portugal - para mais com um Cristiano Ronaldo de regresso à alegria e à inspiração, muito mais concentrado no jogo do que nas televisões - aproveitou as avenidas assim abertas e foi por ali fora: uma, duas, três quatro oportunidades e finalmente o golo. Mais tarde e já em desespero, Van Marwijk haveria de completar o suicídio estratégico, retirando um defesa e metendo ainda mais um homem de ataque, facilitando-nos o segundo golo e só não encaixando mais por sorte, por mérito do keeper e porque Paulo Bento não resistiu à sua substituição fetiche, fazendo entrar Nelson Oliveira - mais uma vez, para nada.
Para Cristiano, o homem do jogo, ficaram os maiores louros e a leitura resumida da imprensa internacional dizendo que ele resolveu o jogo: é tão injusto como injusto é assacar-lhe toda a responsabilidade pelos jogos que não se ganham. Soube concluir com calma, classe e inteligencia os dois golos, mas ambos são trabalho de equipa, sobretudo o segundo, que começa numa recuperação de Miguel Veloso à saída da nossa área, continua com um soberbo passe de Moutinho a rasgar a defesa, na desmarcação perfeita de Nani e depois a assistência para Ronaldo, no momento certo e para o local exacto. Mas Cristiano mereceu a distinção também pelo mais que fez: duas bolas no poste, duas assistências mortais para Coentrão e Nani. No topo máximo, ao lado de Ronaldo, coloco Pepe (um monstro!), Fábio Coentrão e João Moutinho (sempre melhor na Selecção do que no FC Porto). Excelentes também Bruno Alves, Veloso, e Nani. Muito bons todos os outros: Patrício (o melhor guarda-redes nacional da última década, mas sem grande trabalho contra os holandeses), João Pereira (por aquele passe fantástico a oferecer a Ronaldo o primeiro golo), Meireles, Postiga (outro jogador que é sempre melhor na Selecção e muito se esforça na posição 9, que não é a sua natural - ele é um 9,5), e Custódio, muito bem entrado no jogo. Foi um daqueles raros jogos em que todos estiveram bem e tudo nos correu bem. Enfim, nem tudo: se fosse pelas oportunidades criadas, teríamos ganho 9-3 e não 2-1.
2- Ainda bem que não vamos ter de jogar com a Grécia: tínhamos garantido um jogo de adormecer e irritar, sem espaços nem rasgo, e com os gregos sempre a apostarem na sorte. A culpa não é de Fernando Santos, que já herdou o modelo e que só tem aquilo e não melhor. E aquilo é uma equipa que só defende e que espera que aquele tipo com nome de primeiro-ministro e ar de resgatado da Guerra de Tróia, que habita lá na frente e se chama Samaras, consiga, entre os seus tiques e toques de vedeta, o milagre de um golo. Parece-me que os checos são bem mais à nossa medida. E parece-me que talvez fosse o momento de Paulo Bento rodar minimamente a equipa, dando descanso a quem mais precisa: será então ou nunca. Até porque já tem um amarelo, João Pereira podia ser rendido por Miguel Lopes, que tão bem provou contra a Turquia; Custódio também mostrou estar à altura para render Veloso; Moutinho, e sobretudo Meireles, gritam por algum descanso; Hugo Almeida não merece ser o único dos três pontas-de-lança votado ao ostracismo total; e não gostaria de nos ver terminar o Euro sem que Quaresma dispusesse de meia-hora, pelo menos, para mostrar como está. Estou a meter-me na zona reservada de Paulo Bento, mas é apenas uma opinião - nada de mais grave do que isso.
3- E as opiniões, ao contrário do que Paulo Bento parece pensar, podem ser erradas, injustas, tudo o que quiserem, mas nunca são ilegítimas. Não o são em domínio algum e menos ainda no futebol, cuja atracção consiste precisamente na paixão com que é discutido e permanentemente questionado pelos adeptos. Tanto no Sporting como na Selecção, sempre elogiei Paulo Bento, mas lamento a sua reacção aos críticos, após a vitória sobre a Holanda - que, ainda por cima, se estendeu aos jogadores. Não fazem ideia do ridículo que é, para a imprensa internacional, ver os jogadores portugueses recusarem-se a falar, sob pretexto de que foram alvos de críticas que eles acham injustas! Pior, só ouvir o seleccionador vingar-se das críticas dos seus colegas de profissão, Carlos Queiroz e Manuel José, dizendo que eles deviam estar a torcer pela derrota de Portugal e que já devem estar com os cachecóis da República Checa vestidos!
Não me digam que voltámos aos tempos da Selecção de Scolari, cujo grande patriotismo era pago a peso de ouro pelo BPN e etc, e cujo assessor de imprensa, teve o desplante de escrevinhar um livro chamado A Pátria fomos nós. Não me digam que regressámos à máxima salazarista de que a Pátria não se discute - e que, confundindo-se a Selecção com a Pátria, também a Selecção se não discute. Por maior que seja o valor de Paulo Bento e por mais que venham a ser os seus êxitos futuros, esta não é a sua Selecção Nacional. Sua é apenas a parte que se chama Selecção; a que se chama Nacional ou é de nós todos ou não é nacional. De uma vez por todas, é altura de pôr fim a esta chantagem mesquinha de confundir as coisas deliberadamente, fazendo passar a mensagem de que quem não concorda com tudo o que a Selecção faz, diz ou joga é um traidor à Pátria. Pobre Pátria, se assim fosse!
Uns minutos antes de começar o Portugal-Holanda, Marcelo Rebelo de Sousa fazia, na TVI, a sua pré-análise - um exercício sempre arriscado, como se confirmaria. Convicto, Marcelo garantia que ia acontecer uma de duas coisas: ou nós aguentávamos a primeira meia-hora de ímpeto atacante dos holandeses, sem sofrer golos, e tínhamos grandes hipóteses de depois assegurar um bom resultado final; ou nós não aguentávamos em branco essa meia-hora e as coisas complicar-se-iam muito para nós. No fundo, ele estava a reproduzir a filosofia de há muito entranhada nos nossos hábitos e na cultura dos nossos treinadores, sempre que têm pela frente um adversário que infunde respeito: aguentá-los primeiro, não esquecer que o 0-0 é sempre um bom resultado e que, calhando até, na hora certa lançamos o contra-golpe e podemos ganhar 1-0. Foi o que fizemos contra a Alemanha, na abertura do Europeu e foi o que aqui critiquei na semana passada, embora deixando a dúvida se esta selecção teria capacidade para outra estratégia em que não tivesse medo de assumir o jogo de igual para igual, desde o início. Mas, e embora reconhecendo a debilidade do nosso meio-campo e a ausência de um ponta-de-lança matador, ao estilo Pauleta, também sempre me fez espécie a habitual incapacidade ofensiva, numa equipa que, apesar de tudo, dispõe de Ronaldo e de Nani. Como escreveu Santiago Segurola no DN, o tipo de jogo que Portugal apresentou contra a Alemanha, só soltando os cavalos no último quarto-de-hora e quando se viu a perder, contraria a matriz natural desta selecção - que é ofensiva e não defensiva. Quem tem Ronaldo e Nani não pode brilhar a defender, mas a atacar. É claro que há sempre a questão de saber que Ronaldo vai estar em cada jogo: o do Real Madrid ou o de alguns tristes jogos pela Selecção. Mas até essa questão perdeu alguma importância, quando vimos a Selecção ganhar à Dinamarca e marcar três golos sem a menor contribuição de Ronaldo para cada um deles, antes pelo contrário. Esse terá sido o efeito mais benéfico da sofrida, mas justíssima, vitória sobre a Dinamarca: mostrar que também podíamos ganhar sem Ronaldo. Óptimo se ele estiver nos seus dias, paciência se não estiver.
Contra a Holanda, felizmente que o prognóstico de Marcelo Rebelo de Sousa saiu exactamente ao contrário: entrámos encolhidos e amedrontados face àquela equipa de cinco avançados e aos 11 minutos já estávamos a perder, num golo tão simples e brilhante quanto inevitável: um daqueles golos em que não se consegue encontrar um culpado, apenas o mérito do adversário. Mas foi o melhor que nos podia ter acontecido. A equipa percebeu cedo que, se continuasse naquela atitude, em breve estaria a sofrer o segundo e o terceiro. E bastou soltar os medos e os génios para rapidamente perceber também que uma equipa com cinco avançados defende mal necessariamente e que, além disso, mal se viu acossada lá atrás, destapou um segredo de polichinelo: que a sua defesa era fraca, com centrais sem mobilidade e laterais sem velocidade. Para satisfazer os críticos, o seleccionador holandês, Bert Van Marwijk, deu-lhes a equipa de ataque que eles reclamavam e o resultado foi partir a equipa ao meio: cinco jogadores lá à frente, sem bola nem jogo, e outros cinco cá atrás, defendendo mal, e não fazendo a ligação entre sectores. E Portugal - para mais com um Cristiano Ronaldo de regresso à alegria e à inspiração, muito mais concentrado no jogo do que nas televisões - aproveitou as avenidas assim abertas e foi por ali fora: uma, duas, três quatro oportunidades e finalmente o golo. Mais tarde e já em desespero, Van Marwijk haveria de completar o suicídio estratégico, retirando um defesa e metendo ainda mais um homem de ataque, facilitando-nos o segundo golo e só não encaixando mais por sorte, por mérito do keeper e porque Paulo Bento não resistiu à sua substituição fetiche, fazendo entrar Nelson Oliveira - mais uma vez, para nada.
Para Cristiano, o homem do jogo, ficaram os maiores louros e a leitura resumida da imprensa internacional dizendo que ele resolveu o jogo: é tão injusto como injusto é assacar-lhe toda a responsabilidade pelos jogos que não se ganham. Soube concluir com calma, classe e inteligencia os dois golos, mas ambos são trabalho de equipa, sobretudo o segundo, que começa numa recuperação de Miguel Veloso à saída da nossa área, continua com um soberbo passe de Moutinho a rasgar a defesa, na desmarcação perfeita de Nani e depois a assistência para Ronaldo, no momento certo e para o local exacto. Mas Cristiano mereceu a distinção também pelo mais que fez: duas bolas no poste, duas assistências mortais para Coentrão e Nani. No topo máximo, ao lado de Ronaldo, coloco Pepe (um monstro!), Fábio Coentrão e João Moutinho (sempre melhor na Selecção do que no FC Porto). Excelentes também Bruno Alves, Veloso, e Nani. Muito bons todos os outros: Patrício (o melhor guarda-redes nacional da última década, mas sem grande trabalho contra os holandeses), João Pereira (por aquele passe fantástico a oferecer a Ronaldo o primeiro golo), Meireles, Postiga (outro jogador que é sempre melhor na Selecção e muito se esforça na posição 9, que não é a sua natural - ele é um 9,5), e Custódio, muito bem entrado no jogo. Foi um daqueles raros jogos em que todos estiveram bem e tudo nos correu bem. Enfim, nem tudo: se fosse pelas oportunidades criadas, teríamos ganho 9-3 e não 2-1.
2- Ainda bem que não vamos ter de jogar com a Grécia: tínhamos garantido um jogo de adormecer e irritar, sem espaços nem rasgo, e com os gregos sempre a apostarem na sorte. A culpa não é de Fernando Santos, que já herdou o modelo e que só tem aquilo e não melhor. E aquilo é uma equipa que só defende e que espera que aquele tipo com nome de primeiro-ministro e ar de resgatado da Guerra de Tróia, que habita lá na frente e se chama Samaras, consiga, entre os seus tiques e toques de vedeta, o milagre de um golo. Parece-me que os checos são bem mais à nossa medida. E parece-me que talvez fosse o momento de Paulo Bento rodar minimamente a equipa, dando descanso a quem mais precisa: será então ou nunca. Até porque já tem um amarelo, João Pereira podia ser rendido por Miguel Lopes, que tão bem provou contra a Turquia; Custódio também mostrou estar à altura para render Veloso; Moutinho, e sobretudo Meireles, gritam por algum descanso; Hugo Almeida não merece ser o único dos três pontas-de-lança votado ao ostracismo total; e não gostaria de nos ver terminar o Euro sem que Quaresma dispusesse de meia-hora, pelo menos, para mostrar como está. Estou a meter-me na zona reservada de Paulo Bento, mas é apenas uma opinião - nada de mais grave do que isso.
3- E as opiniões, ao contrário do que Paulo Bento parece pensar, podem ser erradas, injustas, tudo o que quiserem, mas nunca são ilegítimas. Não o são em domínio algum e menos ainda no futebol, cuja atracção consiste precisamente na paixão com que é discutido e permanentemente questionado pelos adeptos. Tanto no Sporting como na Selecção, sempre elogiei Paulo Bento, mas lamento a sua reacção aos críticos, após a vitória sobre a Holanda - que, ainda por cima, se estendeu aos jogadores. Não fazem ideia do ridículo que é, para a imprensa internacional, ver os jogadores portugueses recusarem-se a falar, sob pretexto de que foram alvos de críticas que eles acham injustas! Pior, só ouvir o seleccionador vingar-se das críticas dos seus colegas de profissão, Carlos Queiroz e Manuel José, dizendo que eles deviam estar a torcer pela derrota de Portugal e que já devem estar com os cachecóis da República Checa vestidos!
Não me digam que voltámos aos tempos da Selecção de Scolari, cujo grande patriotismo era pago a peso de ouro pelo BPN e etc, e cujo assessor de imprensa, teve o desplante de escrevinhar um livro chamado A Pátria fomos nós. Não me digam que regressámos à máxima salazarista de que a Pátria não se discute - e que, confundindo-se a Selecção com a Pátria, também a Selecção se não discute. Por maior que seja o valor de Paulo Bento e por mais que venham a ser os seus êxitos futuros, esta não é a sua Selecção Nacional. Sua é apenas a parte que se chama Selecção; a que se chama Nacional ou é de nós todos ou não é nacional. De uma vez por todas, é altura de pôr fim a esta chantagem mesquinha de confundir as coisas deliberadamente, fazendo passar a mensagem de que quem não concorda com tudo o que a Selecção faz, diz ou joga é um traidor à Pátria. Pobre Pátria, se assim fosse!
terça-feira, maio 07, 2013
O REGRESSO DAS VITÓRIAS MORAIS (12 JUNHO 2012)
1- Comecemos pelo principio: o Portugal-Alemanha foi um mau jogo de futebol, talvez o pior do Euro até à data. Foi um jogo soporífero até dez minutos do fim, disputado entre uma equipa sem imaginação e outra sem ambição. Claro que a responsabilidade maior é da Alemanha, eterno candidato a todos os títulos e de que se diz ter a melhor selecção dos últimos anos ou décadas.
Não se viu nada disso, mas o facto é que, no fim, ganharam os alemães e a vitória serve para absolver muitas coisas. Já Portugal jogou para o 0-0, tal como é tradição das equipas e da Selecção portuguesas quando jogam contra adversários tidos como mais fortes. Jogar na contencão e nas cautelas e viver feliz enquanto o adversário não marca são a nossa tradição nestas situações. Mas, como já se tinha visto contra a Espanha no Mundial da África do Sul, jogar para o 0-0 acaba quase sempre por resultar na derrota por 1-0, com o adversário a marcar quando já não há muito tempo para reagir. A fortuna não ajuda os não audazes. Como se viu agora nos dez minutos finais do jogo, um pouco mais de fé e de ambição, um pouco menos de medo e cautelas, poderiam ter dado ao jogo um destino diferente. Nenhum jogo está decidido enquanto não for jogado.
Depois, é tempo de parar com os choradinhos habituais: o árbitro e a falta de sorte. O árbitro, não só não teve a mais pequena influência no resultado, como fez também um trabalho absolutamente impecável e imparcial. Só mentalidades benfiquistas ou sportinguistas, viciadas em décadas de reclamação das arbitragens quando as coisas não correm como desejado, é que podem vir desculpar a nossa impotência com uma suposta parcialidade da arbitragem. Com franqueza, já não há pachorra para as conspirações anti-portuguesas sempre inventadas pela nossa imprensa, a lembrança do dr. Marc Batta e outras efabulações que tais. A falta de capacidade de autocrítica e a tentação de transferência para outrem de culpas próprias é a imagem de marca dos cronicamenle derrotados.
Quanto à sorte, é verdade que não a tivemos no remate de Pepe à trave, no último minuto da primeira parte: teria sido um golo caído do céu e em nada justificado pelos insípidos 45 minutos anteriores. Já a bola do Nani na parte superior da barra, se tivesse entrado, teria sido, sim, uma imensa sorte, jã que ele, conforme confessou e todos vimos, apenas falhou o cruzamento. E não lem nada a ver com falta de sorte, mas com falta de jeito, os golos que Ronaldo, Varela e Nani poderiam ter marcado e nao marcaram porque deixaram que os adversários os evitassem.
Ao contrário do que disse Nani, não é «a bola que não quer entrar»: a bola entra quando é rematada para entrar e não tem defesa possível. Não é por acaso nem porque a bola não queira entrar que, nos quatro jogos disputados em 2012, a Selecção empatou dois, perdeu outros dois e apenas marcou um golo. Basta, aliás, vê-la jogar para perceber que o golo, ali, é sempre uma coisa que só parece poder acontecer fruto de um acidente imprevisível. Mesmo sabendo-se que não temos um ponta-de-lança digno desse nome, é um dos principais mistérios e marcas desta Selecção (que, apesar de tudo, tem Ronaldo, Nani, Quaresma) a doentia incapacidade de gerar jogadas de golo e concluí-las.
Não vou atirar as culpas para cima de Paulo Bento, porque julgo que todos reconhecemos que esta é uma fraca Selecção, com pontos bastante vulneráveis e demasiados jogadores banais em várias posições. Mas podemos criticar a Paulo Bento a ausência, nunca explicada, de Bosingwa que tanta falta fez no golo da Alemanha, em que, vendo João Pereira a saltar com Mário Gomez, me lembrei da razão pela qual Mourinho dizia que não queria laterais baixos. E podemos perguntar para que servem afinal os jogos de preparação e para que serviu o ensaio geral contra a Turquia, quando o vimos depois insistir em João Pereira, Miguel Veloso ou Nelson Ohveira. João Pereira mostrara já que está em pior forma do que Miguel Lopes; Miguel Veloso que é pior opção do que Custodio ou que a opção de Meireles a trinco e Hugo Viana no meio-campo ofensivo; e Nelson Oliveira mostrara e voltou a mostrar que, para já, não passa de uma ficção jornalística e uma atenção ao Benfica.
Mas Paulo Bento não tem culpa de não ter melhor meio campo, de Raul Meireles andar à toa por ali, de Postiga não conseguir ser diferente do que é, de Ronaldo se eclipsar habitualmente quando joga pela Selecção. Também reconheço que é fácil olhar para os últimos dez minutos do jogo com a Alemanha, quando tivemos de correr atrás do resultado, e concluir que, se calhar, nos faltou ambição mais cedo. Mas será que temos equipa para ambições destas? Veremos já amanhã contra a Dinamarca.
2- Subscrevo o que escreveu Vítor Serpa e acrescento: pobre Selecção, se não aguenta as críticas feitas por Manuel José e Queiroz e se, dos dirigentes aos jogadores, reagem todos como majestades ofendidas. Primeiro, porque somos um País onde a crítica é livre; segundo, porque revela mais coragem e personalidade fazer as críticas antes, do que após conhecer o desfecho; e terceiro, porque as críticas tinham toda a razão de ser. Quem tem juízo, sabe muito bem que o circo em que a Selecçao é passeada antes das competições, a diarreia patriótica de que é alvo e o exibicionismo ridículo em que os jogadores se deleitam, não sei se prejudica ou não a concentração, mas que vai irritando cada vez mais, isso vai. A histeria jornalística na cobertura da Selecção, em especial por parte das televisões, as patéticas campanhas de publicidade das marcas que patrocinam a Selecção e as suas vedetas, a mensagem do ministro Miguel Relvas jurando à Selecção que «vocês são Portugal» ou o discurso do presidente da Federação, Fernando Gomes, comparando os jogadores aos «antigos navegadores» , à «descoberta de novos mundos», tudo isso, pelo menos na parte que me toca, é o retrato plasmado de um País culturalmente sub-desenvolvido e que parece não ter emenda. Mais uma vez e por mais impopular que seja, é preciso repetir que o futebol não é o principal da vida das pessoas nem da vida das nações. É preciso repetir que uma selecção nacional de futebol é a escolha dos seus cidadãos que têm mais jeito para jogar futebol, e apenas isso. Não é uma selecção dos melhores músicos, investigadores, arquitectos, escritores, cirurgiões, ele. Se aqueles são Portugal, estes serão o quê — as sobras da nação?
3- Contrariando a lei do País, jogou-se um decisivo Benfica-Porto em hóquei em patins, num pavilhão da Luz reservado a sócios do Benhca e onde mesmo os portistas portadores de bilhetes foram impedidos de entrar pela polícia. O jogo foi ainda televisionado pelo canal do Benfica, que emite na Meo - que eu, por exemplo, não tenho. Parece que tudo se passou conforme planeado, que pouca gente é testemunha do que, de facto, terá acontecido e pouca gente terá ainda conseguido distinguir a baliza do Benfica, coberta de fumo, quando, ao cair do pano, foi lá cobrado e falhado um penalty a favor do Porto.
No final, o Benfica conseguiu, in extremis, o empate que lhe serve para se tornar campeão e o treinador portista, Tó Neves, perguntou se era aquela «a verdade desportiva que reclama o presidente do Benfica». Não sei, não vi. Mas, no hóquei, como no resto, sei que tudo está bem quando acaba como o Benfica deseja.
4- Segundo Luís Filipe Viera, o Benfica não vai jogar um torneio a Angola, pensado pelo Governo, porque o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, conhecido portista, ousou, num texto escrito enquanto adepto do FC Porto, referir-se ao Benfica como «a outra equipa». Uma ofensa que Vieira não perdoa e que considera, pelos vistos, extensível a todo o Governo. Alguém que comente isto, porque a mim falta-me a imaginação.
5- O presidente da Liga de Clubes, o notável Mário Figueiredo, jurou, por sua vez, que 80% dos clubes profissionais de futebol têm os ordenados em dia. Alguém que se ria, porque eu já não consigo achar graça.
Não se viu nada disso, mas o facto é que, no fim, ganharam os alemães e a vitória serve para absolver muitas coisas. Já Portugal jogou para o 0-0, tal como é tradição das equipas e da Selecção portuguesas quando jogam contra adversários tidos como mais fortes. Jogar na contencão e nas cautelas e viver feliz enquanto o adversário não marca são a nossa tradição nestas situações. Mas, como já se tinha visto contra a Espanha no Mundial da África do Sul, jogar para o 0-0 acaba quase sempre por resultar na derrota por 1-0, com o adversário a marcar quando já não há muito tempo para reagir. A fortuna não ajuda os não audazes. Como se viu agora nos dez minutos finais do jogo, um pouco mais de fé e de ambição, um pouco menos de medo e cautelas, poderiam ter dado ao jogo um destino diferente. Nenhum jogo está decidido enquanto não for jogado.
Depois, é tempo de parar com os choradinhos habituais: o árbitro e a falta de sorte. O árbitro, não só não teve a mais pequena influência no resultado, como fez também um trabalho absolutamente impecável e imparcial. Só mentalidades benfiquistas ou sportinguistas, viciadas em décadas de reclamação das arbitragens quando as coisas não correm como desejado, é que podem vir desculpar a nossa impotência com uma suposta parcialidade da arbitragem. Com franqueza, já não há pachorra para as conspirações anti-portuguesas sempre inventadas pela nossa imprensa, a lembrança do dr. Marc Batta e outras efabulações que tais. A falta de capacidade de autocrítica e a tentação de transferência para outrem de culpas próprias é a imagem de marca dos cronicamenle derrotados.
Quanto à sorte, é verdade que não a tivemos no remate de Pepe à trave, no último minuto da primeira parte: teria sido um golo caído do céu e em nada justificado pelos insípidos 45 minutos anteriores. Já a bola do Nani na parte superior da barra, se tivesse entrado, teria sido, sim, uma imensa sorte, jã que ele, conforme confessou e todos vimos, apenas falhou o cruzamento. E não lem nada a ver com falta de sorte, mas com falta de jeito, os golos que Ronaldo, Varela e Nani poderiam ter marcado e nao marcaram porque deixaram que os adversários os evitassem.
Ao contrário do que disse Nani, não é «a bola que não quer entrar»: a bola entra quando é rematada para entrar e não tem defesa possível. Não é por acaso nem porque a bola não queira entrar que, nos quatro jogos disputados em 2012, a Selecção empatou dois, perdeu outros dois e apenas marcou um golo. Basta, aliás, vê-la jogar para perceber que o golo, ali, é sempre uma coisa que só parece poder acontecer fruto de um acidente imprevisível. Mesmo sabendo-se que não temos um ponta-de-lança digno desse nome, é um dos principais mistérios e marcas desta Selecção (que, apesar de tudo, tem Ronaldo, Nani, Quaresma) a doentia incapacidade de gerar jogadas de golo e concluí-las.
Não vou atirar as culpas para cima de Paulo Bento, porque julgo que todos reconhecemos que esta é uma fraca Selecção, com pontos bastante vulneráveis e demasiados jogadores banais em várias posições. Mas podemos criticar a Paulo Bento a ausência, nunca explicada, de Bosingwa que tanta falta fez no golo da Alemanha, em que, vendo João Pereira a saltar com Mário Gomez, me lembrei da razão pela qual Mourinho dizia que não queria laterais baixos. E podemos perguntar para que servem afinal os jogos de preparação e para que serviu o ensaio geral contra a Turquia, quando o vimos depois insistir em João Pereira, Miguel Veloso ou Nelson Ohveira. João Pereira mostrara já que está em pior forma do que Miguel Lopes; Miguel Veloso que é pior opção do que Custodio ou que a opção de Meireles a trinco e Hugo Viana no meio-campo ofensivo; e Nelson Oliveira mostrara e voltou a mostrar que, para já, não passa de uma ficção jornalística e uma atenção ao Benfica.
Mas Paulo Bento não tem culpa de não ter melhor meio campo, de Raul Meireles andar à toa por ali, de Postiga não conseguir ser diferente do que é, de Ronaldo se eclipsar habitualmente quando joga pela Selecção. Também reconheço que é fácil olhar para os últimos dez minutos do jogo com a Alemanha, quando tivemos de correr atrás do resultado, e concluir que, se calhar, nos faltou ambição mais cedo. Mas será que temos equipa para ambições destas? Veremos já amanhã contra a Dinamarca.
2- Subscrevo o que escreveu Vítor Serpa e acrescento: pobre Selecção, se não aguenta as críticas feitas por Manuel José e Queiroz e se, dos dirigentes aos jogadores, reagem todos como majestades ofendidas. Primeiro, porque somos um País onde a crítica é livre; segundo, porque revela mais coragem e personalidade fazer as críticas antes, do que após conhecer o desfecho; e terceiro, porque as críticas tinham toda a razão de ser. Quem tem juízo, sabe muito bem que o circo em que a Selecçao é passeada antes das competições, a diarreia patriótica de que é alvo e o exibicionismo ridículo em que os jogadores se deleitam, não sei se prejudica ou não a concentração, mas que vai irritando cada vez mais, isso vai. A histeria jornalística na cobertura da Selecção, em especial por parte das televisões, as patéticas campanhas de publicidade das marcas que patrocinam a Selecção e as suas vedetas, a mensagem do ministro Miguel Relvas jurando à Selecção que «vocês são Portugal» ou o discurso do presidente da Federação, Fernando Gomes, comparando os jogadores aos «antigos navegadores» , à «descoberta de novos mundos», tudo isso, pelo menos na parte que me toca, é o retrato plasmado de um País culturalmente sub-desenvolvido e que parece não ter emenda. Mais uma vez e por mais impopular que seja, é preciso repetir que o futebol não é o principal da vida das pessoas nem da vida das nações. É preciso repetir que uma selecção nacional de futebol é a escolha dos seus cidadãos que têm mais jeito para jogar futebol, e apenas isso. Não é uma selecção dos melhores músicos, investigadores, arquitectos, escritores, cirurgiões, ele. Se aqueles são Portugal, estes serão o quê — as sobras da nação?
3- Contrariando a lei do País, jogou-se um decisivo Benfica-Porto em hóquei em patins, num pavilhão da Luz reservado a sócios do Benhca e onde mesmo os portistas portadores de bilhetes foram impedidos de entrar pela polícia. O jogo foi ainda televisionado pelo canal do Benfica, que emite na Meo - que eu, por exemplo, não tenho. Parece que tudo se passou conforme planeado, que pouca gente é testemunha do que, de facto, terá acontecido e pouca gente terá ainda conseguido distinguir a baliza do Benfica, coberta de fumo, quando, ao cair do pano, foi lá cobrado e falhado um penalty a favor do Porto.
No final, o Benfica conseguiu, in extremis, o empate que lhe serve para se tornar campeão e o treinador portista, Tó Neves, perguntou se era aquela «a verdade desportiva que reclama o presidente do Benfica». Não sei, não vi. Mas, no hóquei, como no resto, sei que tudo está bem quando acaba como o Benfica deseja.
4- Segundo Luís Filipe Viera, o Benfica não vai jogar um torneio a Angola, pensado pelo Governo, porque o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, conhecido portista, ousou, num texto escrito enquanto adepto do FC Porto, referir-se ao Benfica como «a outra equipa». Uma ofensa que Vieira não perdoa e que considera, pelos vistos, extensível a todo o Governo. Alguém que comente isto, porque a mim falta-me a imaginação.
5- O presidente da Liga de Clubes, o notável Mário Figueiredo, jurou, por sua vez, que 80% dos clubes profissionais de futebol têm os ordenados em dia. Alguém que se ria, porque eu já não consigo achar graça.