1- Assisti à final do Euro ao lado de dois ferozes inimigos do tiki-taka espanhol. «Um aborrecimento», a «destruição do futebol», etc. Tentei contrapor, dizendo que, de facto, sem o Messi, o tiki-taka não tem a mesma vibração, mas o princípio mantém-se: é um jogo da rabia em progressão, que simultaneamente serve para atacar e para defender. Nada mais injusto para mim do que chamarem-lhe tiki-takinacio, porque o catenacio visava apenas defender, enquanto que o esquema de jogo do Barcelona, importando com um êxito tremendo para a selecção espanhola, tanto ataca até estar em vantagem, como defende depois. Grave era se não atacasse: mas o Barcelona marca golos até dizer basta e a Espanha foi a selecção do Europeu que mais golos marcou (ok, também foi a que mais jogos fez, a par da Itália; mas, na fase de grupos, onde as 16 equipas jogaram todas três jogos, ninguém marcou tantos como a Espanha). E, quanto a defender, não conheço equipa que não defenda uma vantagem numa fase final de um Europeu e que não aproveite os jogos em que está em vantagem para descansar, de vez em quando. Mas a Espanha, respondem, guarda a bola para nada, o objectivo do seu jogo é guardar a bola. Falso: guarda a bola em acção ofensiva, até abrir uma brecha por onde aparece alguém a chutar para golo, e guarda a bola depois para descansar com ela, evitando que o adversário a tenha - o problema é dos adversários, se não conseguem tirar a bola aos espanhóis ou inventar um contra-sistema que obrigue os espanhóis a correr atrás da bola. Portugal conseguiu o durante qua se 90 minutos, em grande parte tirando partido de uma Espanha desgastada por menos 48 horas dc descanso. Mas, nos trinta minutos de prolongamento, foi visível que quem estoirou foi Portugal, cansado de contrariar a rabia espanhola. Já a Itália quis imitar a Espanha e conseguiu até ter mais tempo de bola até à lesão de Thiago Motta só que não lhe serviu para nada. Contando desta vez com mais um dia de descanso que o adversário, a Espanha nem precisou de muita bola para, com toda a naturalidade das coisas brilhantes, fazer à Itália um tiki-taka, tiki-taka: 1-0, 2-0, 3-0, 4-0. Parece fácil, mas ninguém consegue imitá-la e ninguém consegue contrariá-la. Chamem-lhe aborrecido, mas se al guém aborreceu foi a Itália e não há nenhum treinador no mundo que não quisesse estar no lugar de Del Bosque.
2- A implosão italiana tornou mais evidente o imenso esforço e mérito da selecção portuguesa frente aos espanhóis: fizemos mais do que todos os outros e o mais que podíamos - mas não foi suficiente. Não concordo que se diga que não tivemos sorte. Aliás, sou alérgico à tradição das desculpas: primeiro era o Platini, que quereria a Espanha na final; depois, era o árbitro, porque era turco e turco é também o vice-presidente da arbitragem da UEFA, sendo o presidente e seu presumível amigo espanhol; a seguir era o hotel em que ficou a selecção e que, ó escândalo, também tinha clientes... espanhóis (o que diria nossa imprensa desportiva, que conspirações não inventaria, se tivéssemos sido nós a ter menos dois dias de descanso que os espanhóis); depois, como Platini não jogou e do árbitro nada nos podemos queixar, foi a sorte. Mas não, não foi a sorte: em todo o jogo, a Espanha teve duas oportunidades de golo e nós apenas uma, ao minuto 89, concluída por Cristiano com um remate disparatado; Patrício salvou um golo feito e Casillas não fez uma defesa, porque não acertámos com um só remate na baliza; no prolongamento ficámos a ver jogar, aparentemente sem forças para mais do que apostar nessa coisa a que chamam a lotaria dos penalties; e, nesta lotaria dos penalties (uma expressão que abomino), é certo que Bruno Alves acertou na barra, o que ó azar, mas que só acontece a quem não sabe que um penaity se marca rasteiro e não pelo ar (se querem saber como se marca um penaity, revejam o de Iniesta, para perceberem que a dita lotaria tem muito de exigência técnica e capacidade de resistência à pressão. Ou seja, tem mais de mérito do que de sorte).
Acho que Paulo Bento fez bem em não ter colocado Ronaldo como primeiro cobrador dos penalties: face às experiências recentes, um falhanço dele teria consequências psicológicas terríveis para os que se seguissem. Em contrapartida, acho que demorou tempo demais até tirar Nani - que, tendo sido até este jogo um dos melhores, desapareceu aqui, desde o início (e eu bem gostaria de ter visto uma meia-hora de Ricardo Quaresma...). E, para quem me tem lido, é evidente que acho que mais uma reincidência em Nelson Oliveira apenas serviu para se traduzir em mais um fiasco: depois de ele entrar, o nosso ataque morreu, pura e simplesmente. Pode ser que venha a ser o ponta-de-lança do futuro na Selecção, mas do presente não é com certeza.
Porém, e para falar com toda a franqueza, não sei se outras alterações do seleccionador (o Hugo Viana em vez do Custódio, por exemplo) teriam tido resultados diferentes. É que, a partir do momento em que Del Bosque também corrigiu o seu erro de casting chamado Negredo e meteu em jogo Navas e Pedro, refrescando a equipe e abrindo os flancos, a Espanha ganhou nova alma, enquanto nós já só apostávamos as fichas todas na lotaria dos penalties que é uma coisa maravilhosa quando corre bem e um azar e uma injustiça tremenda quando corre mal. Todavia, faça-se justiça: uma das diferenças essenciais entre a Espanha e nós é que eles tinham banco e nós não. Aliás, se pensarmos que a Alemanha, por exemplo, tem uns três milhões de jogadores de futebol federados, enquanto nós temos uns 70.000, é notável que Portugal consiga ainda alcançar meias-finais de competições como o Europeu. Temos um inexplicável talento para o futebol, que, infelizmente, não tem correspondência com o número de praticantes. A mim, que joguei furiosamente futebol dos 6 aos 24 anos e que só por três ou quatro vezes joguei num relvado e os outros milhares de vezes em campos de esfolar joelhos, não me admira que nunca tenhamos ganho nada. Colhe-se o que se semeia.
Três vitórias, um empate e uma derrota foi o balanço do nosso Euro. Foi mais do que eu esperava e não acho razoável ter esperado mais, face à equipa que tínhamos e ao grupo que nos calhou. É claro que, chegados às meias-finais, todos nos pusemos a sonhar alto e custa muito acordar de um sonho. Mas toda a realidade é feita apenas da parte do sonho que se consegue cumprir - porque não basta sonhar, vencer dá muito trabalho e exige muitas coisas coincidentes, para além da vontade e do desejo. Tudo visto e ponderado, reconheço, sem esforço, que Paulo Bento merece elogios pelo que conseguiu. Apesar das suas teimosias e preferências fixas (e não conheço treinador que as não tenha, sendo Mourinho o menos contestável nisto), Paulo Bento foi o mais conse-quente seleccionador que tivemos nos últimos dez anos. Não tem o génio táctico que eu acho que tinha, por exemplo, o mal tratado António Oliveira, mas também não tem os seus desequilíbrios e a sua imprevisibilidade às vezes suicidaria. Mas é fiável e bom gestor de grupo. No horizonte próximo não vejo ninguém melhor para nos conduzir até ao Mundial do Brasil.
3- Uma palavra final para o português que melhor nos representou no Europeu: Pedro Proença. Insultado aqui por todos os benfiquistas e seus serventuários, agredido, enxovalhado, tornado suspeito de todas as traficâncias, ele cometeu a proeza de, sozinho, ganhar a final da Liga dos Campeões e a final do Europeu (enquanto que o Benfica, parece que ganhou... o futsal). A final do Euro não lhe correu particularmente bem e é pena (embora o reclamado penalty por mão de um espanhol seja dos tais que é sempre penalty em Portugal e raramente o é na Europa). Mas, tivessem os jogadores e técnicos portugueses conquistado um terço do que ele conquistou, já Cavaco Silva os teria telegramado e condecorado.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
sexta-feira, maio 10, 2013
quinta-feira, maio 09, 2013
E, SUBITAMENTE… ( 26 JUNHO 2012)
1- E, subitamente, uma Selecção pela qual eu (e tantos mais) não dava grande coisa, aí está à beira da final do Europeu - ou mesmo, porque não, da vitória. Ausente de Portugal, tendo deixado este texto escrito de antemão, não sei ainda que adversário nos calhará nas meias-finais — mas desejo ardentemente que seja a França e não a Espanha, assim como desejei apanhar os checos e não os gregos nos quartos-de-final.
Apesar de aqui ter escrito que tinha gostado da nossa exibição contra a Turquia no ensaio final, e não obstante a derrota, a verdade é que não tinha grandes esperanças que sobrevivêssemos ao grupo da morte. E, se o jogo inaugural contra a Alemanha não fez senão aumentar a descrença, já o pontapé salvador de Varela à beira do fim do jogo contra a Dinamarca ressuscitou a esperança, libertou-nos do fantasma da bola que não entrava e, talvez o mais importante, deu aos próprios jogadores a fé e a vontade de, como dizia o MRPP, «ousar lutar, ousar vencer».
O futebol é, de facto, um jogo de surpresas constantes e esse é um dos seus fascínios: se Varela não tem falhado o primeiro remate com o pé esquerdo, talvez a bola não tivesse entrado como entrou com a emenda de pé direito; e, não entrando aquele golo, o Europeu poderia ter acabado para nós, ali mesmo. Mas a bola entrou e ganhámos o jogo e a seguir soubemos aproveitar o suicídio táctico da Holanda para também os vencer com todo o mérito. Uns dias antes, tinha visto também o ensaio final da Holanda, esmagando a Irlanda do Norte por 6-0 e, francamente, não vi como poderíamos sobreviver num grupo com eles, os alemães e mesmo os dinamarqueses, que nos tinham vencido na qualificação. Mas sobrevivemos e ganhámos o prémio dessa primeira etapa ultrapassada: saiu-nos a mais fraca das sete outras equipas nos quartos-de-final e, ainda para mais, desfalcada do seu melhor jogador de campo, Tomás Rosicky. Continuo convencido que teria sido bem mais difícil contra a Grécia. A sorte que não tivemos na fase de grupos, tivemo-la depois nos quartos.
A primeira parte do jogo com os checos foi insípida, até incompreensível da nossa parte, e de tal forma arrastada e aborrecida que, tendo-me ausentado a dois minutos do intervalo, perdi a que foi a melhor jogada do nosso ataque e de Cristiano Ronaldo. Mas a segunda parte, empolgante desde o primeiro minuto, não deixou quaisquer dúvidas de que, apesar do enorme Petr Cech, só podíamos ganhar o jogo. Jogámos para ganhar e ganhámos — o que, felizmente, ainda é o mais frequente de acontecer no futebol, quando se joga assim. Mais uma grande exibição de Ronaldo, mais uma grande exibicão de Moutinho - e de Pepe e Nani, a maior parte do tempo. Mas ao contrario do que aconteceu contra a Holanda, desta vez nem todos estiveram tão bem: houve elos mais fracos, que foram visíveis e a quem precisaria de ser dado descanso. Acho que, paradoxalmente ou talvez não, a chave da nossa mudança de atitude na segunda parte talvez tenha sido a lesão de Hélder Postiga acontecida por volta dos trinta minutos e sem que eu tenha dado por ele até então.
Para mim, o mais confiável dos três pontas-de-lança que Paulo Bento levou para o Euro é o Hugo Almeida e foi com grande alívio, devo dizê-lo, que o vi substituir Postiga por Hugo Almeida e não por Nelson Oliveira. É que Hugo Almeida não só mostrou muito mais serviço frente à baliza, muito mais poder de luta e de ameaça, como isso exigiu maior atenção da defesa checa em relação ao nosso ponta-de-lança, contribuindo decisivamente para libertar Ronaldo para terrenos interiores e de finalização. Fantástico o nosso golo: a desmarcação e cruzamento de Moutinho, a entrada de Ronaldo, como segunda vaga de Hugo Almeida, cabeceando de baixo para cima, quase um penalty de cabeça.
E, agora... Agora, temos seis dias de descanso, mais dois do que França ou a Espanha quando tiverem de nos enfrentar em Donetsk — e isso, nesta fase do campeonato e da época, é, teoricamente, um poderoso factor de desequilíbrio a nosso favor. A este propósito, é engraçado, aliás, como o futebol proporciona opiniões tão desencontradas: ao intervalo do Portugal República-Checa, ouvi os comentadores da Antena 1 dizerem que a nossa Selecção dava mostras de grande cansaço e que, nesse aspecto, os checos pareciam bem melhor; e, aos 20 minutos da segunda parte, ouvi António Tadeia, na RTP, dizer exactamente o contrário: que era de louvar a condição física da nossa equipa, enquanto os checos tinham dado o berro.
E, longe de gozar com as opiniões alheias e contraditórias, devo confessar que, na altura em que foram produzidas, concordei com ambas: na primeira parte, Portugal pareceu-me desvitaminado e abúlico; na segunda parte, vi-o conduzir uma avalanche de futebol ofensivo que deixou os checos de gatas. Se esse vier a ser factor determinante para o jogo das meias finais, queira o destino que nos saia a França e não a Espanha: porque a Espanha sabe, como ninguém, fazer aquilo a que Mourinho chamou «o descanso com bola».
2- Agora, os patriotas encartados não suportam Platini, porque ele ousou apostar numa final Alemanha-Es-panha e logo se tornou suspeito de tudo fazer para a favorecer. Mas quando Platini, de tudo ignorante, atacava o FC Porto, porque engolira sem se informar a propaganda do Benfica e da Comissão Disciplinar da Liga, que o Benfica controlava, aí todos adoravam Platini. Malhas que o destino tece...
3- Já aqui critiquei a reacção de Paulo Bento e de alguns jogadores às críticas feitas à Selecção, por parte de gente como Carlos Queiroz, Manuel José, Luís Figo e Rui Costa. Mas falta também referir o terceiro elemento que é parte desta história: os jornalistas. Já com tréguas estabelecidas, os jornalistas continuam, insaciáveis, à procura de sangue, para melhor vender as suas notícias. A nível interno, já se sabe que nunca deixam de perguntar aos vencidos pela arbitragem; na Selecção e na hora das vitórias, nunca deixam de pedir aos vencedores uma resposta aos «críticos». Mas, no caso concreto, é sempre Manuel José ou Carlos Queiroz, lá bem longe, que eles instigam a abater. A coragem não lhes chega, obviamente, para referir Figo ou Rui Costa, que estão aqui ao lado e que têm bem mais poder.
4- Uma hora depois da vitória de Portugal sobre os checos, já tinha sido reposto no ar o insuportável anúncio da Galp com o menino patriota a incitar os jogadores da Selecção a vingarem a honra pátria. É um monumento ao nacional-pirosismo que tem o dom de roubar a alegria das vitórias do futebol, reduzindo-as a uma coisinha ridícula, insuportável e imbecil. Por favor, parem lá com aquilo!
5- Quando o Euro acabar, vamos voltar ao nosso ram ram futebolístico, que, por enquanto, vai mais ou menos suspenso. Teremos, então, ocasião de meditar sobre as sórdidas histórias que vêm aparecendo à superfície no Sporting e que são tudo menos rábulas de cavalheiros. Ou sobre a meia dúzia de juvenis sul-americanos (colombianos, uruguaios ou argentinos) que se anuncia que o Benfica terá contratado por atacado, para melhor valorizar as suas escolas cos jogadores portugueses. Ou sobre os dois guarda-redes, estrangeiros também, que o FC Porto já comprou para a próxima época, elevando a oito (oito!) o número de guarda-redes profissionais sob contrato — e, dos quais, o melhor, que é português e se chama Beto, não tem lugar na equipa principal. Lá iremos, a seu tempo.
Apesar de aqui ter escrito que tinha gostado da nossa exibição contra a Turquia no ensaio final, e não obstante a derrota, a verdade é que não tinha grandes esperanças que sobrevivêssemos ao grupo da morte. E, se o jogo inaugural contra a Alemanha não fez senão aumentar a descrença, já o pontapé salvador de Varela à beira do fim do jogo contra a Dinamarca ressuscitou a esperança, libertou-nos do fantasma da bola que não entrava e, talvez o mais importante, deu aos próprios jogadores a fé e a vontade de, como dizia o MRPP, «ousar lutar, ousar vencer».
O futebol é, de facto, um jogo de surpresas constantes e esse é um dos seus fascínios: se Varela não tem falhado o primeiro remate com o pé esquerdo, talvez a bola não tivesse entrado como entrou com a emenda de pé direito; e, não entrando aquele golo, o Europeu poderia ter acabado para nós, ali mesmo. Mas a bola entrou e ganhámos o jogo e a seguir soubemos aproveitar o suicídio táctico da Holanda para também os vencer com todo o mérito. Uns dias antes, tinha visto também o ensaio final da Holanda, esmagando a Irlanda do Norte por 6-0 e, francamente, não vi como poderíamos sobreviver num grupo com eles, os alemães e mesmo os dinamarqueses, que nos tinham vencido na qualificação. Mas sobrevivemos e ganhámos o prémio dessa primeira etapa ultrapassada: saiu-nos a mais fraca das sete outras equipas nos quartos-de-final e, ainda para mais, desfalcada do seu melhor jogador de campo, Tomás Rosicky. Continuo convencido que teria sido bem mais difícil contra a Grécia. A sorte que não tivemos na fase de grupos, tivemo-la depois nos quartos.
A primeira parte do jogo com os checos foi insípida, até incompreensível da nossa parte, e de tal forma arrastada e aborrecida que, tendo-me ausentado a dois minutos do intervalo, perdi a que foi a melhor jogada do nosso ataque e de Cristiano Ronaldo. Mas a segunda parte, empolgante desde o primeiro minuto, não deixou quaisquer dúvidas de que, apesar do enorme Petr Cech, só podíamos ganhar o jogo. Jogámos para ganhar e ganhámos — o que, felizmente, ainda é o mais frequente de acontecer no futebol, quando se joga assim. Mais uma grande exibição de Ronaldo, mais uma grande exibicão de Moutinho - e de Pepe e Nani, a maior parte do tempo. Mas ao contrario do que aconteceu contra a Holanda, desta vez nem todos estiveram tão bem: houve elos mais fracos, que foram visíveis e a quem precisaria de ser dado descanso. Acho que, paradoxalmente ou talvez não, a chave da nossa mudança de atitude na segunda parte talvez tenha sido a lesão de Hélder Postiga acontecida por volta dos trinta minutos e sem que eu tenha dado por ele até então.
Para mim, o mais confiável dos três pontas-de-lança que Paulo Bento levou para o Euro é o Hugo Almeida e foi com grande alívio, devo dizê-lo, que o vi substituir Postiga por Hugo Almeida e não por Nelson Oliveira. É que Hugo Almeida não só mostrou muito mais serviço frente à baliza, muito mais poder de luta e de ameaça, como isso exigiu maior atenção da defesa checa em relação ao nosso ponta-de-lança, contribuindo decisivamente para libertar Ronaldo para terrenos interiores e de finalização. Fantástico o nosso golo: a desmarcação e cruzamento de Moutinho, a entrada de Ronaldo, como segunda vaga de Hugo Almeida, cabeceando de baixo para cima, quase um penalty de cabeça.
E, agora... Agora, temos seis dias de descanso, mais dois do que França ou a Espanha quando tiverem de nos enfrentar em Donetsk — e isso, nesta fase do campeonato e da época, é, teoricamente, um poderoso factor de desequilíbrio a nosso favor. A este propósito, é engraçado, aliás, como o futebol proporciona opiniões tão desencontradas: ao intervalo do Portugal República-Checa, ouvi os comentadores da Antena 1 dizerem que a nossa Selecção dava mostras de grande cansaço e que, nesse aspecto, os checos pareciam bem melhor; e, aos 20 minutos da segunda parte, ouvi António Tadeia, na RTP, dizer exactamente o contrário: que era de louvar a condição física da nossa equipa, enquanto os checos tinham dado o berro.
E, longe de gozar com as opiniões alheias e contraditórias, devo confessar que, na altura em que foram produzidas, concordei com ambas: na primeira parte, Portugal pareceu-me desvitaminado e abúlico; na segunda parte, vi-o conduzir uma avalanche de futebol ofensivo que deixou os checos de gatas. Se esse vier a ser factor determinante para o jogo das meias finais, queira o destino que nos saia a França e não a Espanha: porque a Espanha sabe, como ninguém, fazer aquilo a que Mourinho chamou «o descanso com bola».
2- Agora, os patriotas encartados não suportam Platini, porque ele ousou apostar numa final Alemanha-Es-panha e logo se tornou suspeito de tudo fazer para a favorecer. Mas quando Platini, de tudo ignorante, atacava o FC Porto, porque engolira sem se informar a propaganda do Benfica e da Comissão Disciplinar da Liga, que o Benfica controlava, aí todos adoravam Platini. Malhas que o destino tece...
3- Já aqui critiquei a reacção de Paulo Bento e de alguns jogadores às críticas feitas à Selecção, por parte de gente como Carlos Queiroz, Manuel José, Luís Figo e Rui Costa. Mas falta também referir o terceiro elemento que é parte desta história: os jornalistas. Já com tréguas estabelecidas, os jornalistas continuam, insaciáveis, à procura de sangue, para melhor vender as suas notícias. A nível interno, já se sabe que nunca deixam de perguntar aos vencidos pela arbitragem; na Selecção e na hora das vitórias, nunca deixam de pedir aos vencedores uma resposta aos «críticos». Mas, no caso concreto, é sempre Manuel José ou Carlos Queiroz, lá bem longe, que eles instigam a abater. A coragem não lhes chega, obviamente, para referir Figo ou Rui Costa, que estão aqui ao lado e que têm bem mais poder.
4- Uma hora depois da vitória de Portugal sobre os checos, já tinha sido reposto no ar o insuportável anúncio da Galp com o menino patriota a incitar os jogadores da Selecção a vingarem a honra pátria. É um monumento ao nacional-pirosismo que tem o dom de roubar a alegria das vitórias do futebol, reduzindo-as a uma coisinha ridícula, insuportável e imbecil. Por favor, parem lá com aquilo!
5- Quando o Euro acabar, vamos voltar ao nosso ram ram futebolístico, que, por enquanto, vai mais ou menos suspenso. Teremos, então, ocasião de meditar sobre as sórdidas histórias que vêm aparecendo à superfície no Sporting e que são tudo menos rábulas de cavalheiros. Ou sobre a meia dúzia de juvenis sul-americanos (colombianos, uruguaios ou argentinos) que se anuncia que o Benfica terá contratado por atacado, para melhor valorizar as suas escolas cos jogadores portugueses. Ou sobre os dois guarda-redes, estrangeiros também, que o FC Porto já comprou para a próxima época, elevando a oito (oito!) o número de guarda-redes profissionais sob contrato — e, dos quais, o melhor, que é português e se chama Beto, não tem lugar na equipa principal. Lá iremos, a seu tempo.
quarta-feira, maio 08, 2013
AFINAL, A BOLA ENTRA! (17 JUNHO 2012)
1- No curto espaço de cinco dias, de quarta a domingo, quebrou-se o mistério e o enguiço que vinha perseguindo a Selecção: a bola que não queria entrar. Três golos contra a Dinamarca, num jogo em que sofremos mais do que merecíamos, e mais dois contra a Holanda, num triunfo tão justo quanto escasso. E mais uma dezena de oportunidades de golo perdidas por culpa própria ou mérito alheio.
Uns minutos antes de começar o Portugal-Holanda, Marcelo Rebelo de Sousa fazia, na TVI, a sua pré-análise - um exercício sempre arriscado, como se confirmaria. Convicto, Marcelo garantia que ia acontecer uma de duas coisas: ou nós aguentávamos a primeira meia-hora de ímpeto atacante dos holandeses, sem sofrer golos, e tínhamos grandes hipóteses de depois assegurar um bom resultado final; ou nós não aguentávamos em branco essa meia-hora e as coisas complicar-se-iam muito para nós. No fundo, ele estava a reproduzir a filosofia de há muito entranhada nos nossos hábitos e na cultura dos nossos treinadores, sempre que têm pela frente um adversário que infunde respeito: aguentá-los primeiro, não esquecer que o 0-0 é sempre um bom resultado e que, calhando até, na hora certa lançamos o contra-golpe e podemos ganhar 1-0. Foi o que fizemos contra a Alemanha, na abertura do Europeu e foi o que aqui critiquei na semana passada, embora deixando a dúvida se esta selecção teria capacidade para outra estratégia em que não tivesse medo de assumir o jogo de igual para igual, desde o início. Mas, e embora reconhecendo a debilidade do nosso meio-campo e a ausência de um ponta-de-lança matador, ao estilo Pauleta, também sempre me fez espécie a habitual incapacidade ofensiva, numa equipa que, apesar de tudo, dispõe de Ronaldo e de Nani. Como escreveu Santiago Segurola no DN, o tipo de jogo que Portugal apresentou contra a Alemanha, só soltando os cavalos no último quarto-de-hora e quando se viu a perder, contraria a matriz natural desta selecção - que é ofensiva e não defensiva. Quem tem Ronaldo e Nani não pode brilhar a defender, mas a atacar. É claro que há sempre a questão de saber que Ronaldo vai estar em cada jogo: o do Real Madrid ou o de alguns tristes jogos pela Selecção. Mas até essa questão perdeu alguma importância, quando vimos a Selecção ganhar à Dinamarca e marcar três golos sem a menor contribuição de Ronaldo para cada um deles, antes pelo contrário. Esse terá sido o efeito mais benéfico da sofrida, mas justíssima, vitória sobre a Dinamarca: mostrar que também podíamos ganhar sem Ronaldo. Óptimo se ele estiver nos seus dias, paciência se não estiver.
Contra a Holanda, felizmente que o prognóstico de Marcelo Rebelo de Sousa saiu exactamente ao contrário: entrámos encolhidos e amedrontados face àquela equipa de cinco avançados e aos 11 minutos já estávamos a perder, num golo tão simples e brilhante quanto inevitável: um daqueles golos em que não se consegue encontrar um culpado, apenas o mérito do adversário. Mas foi o melhor que nos podia ter acontecido. A equipa percebeu cedo que, se continuasse naquela atitude, em breve estaria a sofrer o segundo e o terceiro. E bastou soltar os medos e os génios para rapidamente perceber também que uma equipa com cinco avançados defende mal necessariamente e que, além disso, mal se viu acossada lá atrás, destapou um segredo de polichinelo: que a sua defesa era fraca, com centrais sem mobilidade e laterais sem velocidade. Para satisfazer os críticos, o seleccionador holandês, Bert Van Marwijk, deu-lhes a equipa de ataque que eles reclamavam e o resultado foi partir a equipa ao meio: cinco jogadores lá à frente, sem bola nem jogo, e outros cinco cá atrás, defendendo mal, e não fazendo a ligação entre sectores. E Portugal - para mais com um Cristiano Ronaldo de regresso à alegria e à inspiração, muito mais concentrado no jogo do que nas televisões - aproveitou as avenidas assim abertas e foi por ali fora: uma, duas, três quatro oportunidades e finalmente o golo. Mais tarde e já em desespero, Van Marwijk haveria de completar o suicídio estratégico, retirando um defesa e metendo ainda mais um homem de ataque, facilitando-nos o segundo golo e só não encaixando mais por sorte, por mérito do keeper e porque Paulo Bento não resistiu à sua substituição fetiche, fazendo entrar Nelson Oliveira - mais uma vez, para nada.
Para Cristiano, o homem do jogo, ficaram os maiores louros e a leitura resumida da imprensa internacional dizendo que ele resolveu o jogo: é tão injusto como injusto é assacar-lhe toda a responsabilidade pelos jogos que não se ganham. Soube concluir com calma, classe e inteligencia os dois golos, mas ambos são trabalho de equipa, sobretudo o segundo, que começa numa recuperação de Miguel Veloso à saída da nossa área, continua com um soberbo passe de Moutinho a rasgar a defesa, na desmarcação perfeita de Nani e depois a assistência para Ronaldo, no momento certo e para o local exacto. Mas Cristiano mereceu a distinção também pelo mais que fez: duas bolas no poste, duas assistências mortais para Coentrão e Nani. No topo máximo, ao lado de Ronaldo, coloco Pepe (um monstro!), Fábio Coentrão e João Moutinho (sempre melhor na Selecção do que no FC Porto). Excelentes também Bruno Alves, Veloso, e Nani. Muito bons todos os outros: Patrício (o melhor guarda-redes nacional da última década, mas sem grande trabalho contra os holandeses), João Pereira (por aquele passe fantástico a oferecer a Ronaldo o primeiro golo), Meireles, Postiga (outro jogador que é sempre melhor na Selecção e muito se esforça na posição 9, que não é a sua natural - ele é um 9,5), e Custódio, muito bem entrado no jogo. Foi um daqueles raros jogos em que todos estiveram bem e tudo nos correu bem. Enfim, nem tudo: se fosse pelas oportunidades criadas, teríamos ganho 9-3 e não 2-1.
2- Ainda bem que não vamos ter de jogar com a Grécia: tínhamos garantido um jogo de adormecer e irritar, sem espaços nem rasgo, e com os gregos sempre a apostarem na sorte. A culpa não é de Fernando Santos, que já herdou o modelo e que só tem aquilo e não melhor. E aquilo é uma equipa que só defende e que espera que aquele tipo com nome de primeiro-ministro e ar de resgatado da Guerra de Tróia, que habita lá na frente e se chama Samaras, consiga, entre os seus tiques e toques de vedeta, o milagre de um golo. Parece-me que os checos são bem mais à nossa medida. E parece-me que talvez fosse o momento de Paulo Bento rodar minimamente a equipa, dando descanso a quem mais precisa: será então ou nunca. Até porque já tem um amarelo, João Pereira podia ser rendido por Miguel Lopes, que tão bem provou contra a Turquia; Custódio também mostrou estar à altura para render Veloso; Moutinho, e sobretudo Meireles, gritam por algum descanso; Hugo Almeida não merece ser o único dos três pontas-de-lança votado ao ostracismo total; e não gostaria de nos ver terminar o Euro sem que Quaresma dispusesse de meia-hora, pelo menos, para mostrar como está. Estou a meter-me na zona reservada de Paulo Bento, mas é apenas uma opinião - nada de mais grave do que isso.
3- E as opiniões, ao contrário do que Paulo Bento parece pensar, podem ser erradas, injustas, tudo o que quiserem, mas nunca são ilegítimas. Não o são em domínio algum e menos ainda no futebol, cuja atracção consiste precisamente na paixão com que é discutido e permanentemente questionado pelos adeptos. Tanto no Sporting como na Selecção, sempre elogiei Paulo Bento, mas lamento a sua reacção aos críticos, após a vitória sobre a Holanda - que, ainda por cima, se estendeu aos jogadores. Não fazem ideia do ridículo que é, para a imprensa internacional, ver os jogadores portugueses recusarem-se a falar, sob pretexto de que foram alvos de críticas que eles acham injustas! Pior, só ouvir o seleccionador vingar-se das críticas dos seus colegas de profissão, Carlos Queiroz e Manuel José, dizendo que eles deviam estar a torcer pela derrota de Portugal e que já devem estar com os cachecóis da República Checa vestidos!
Não me digam que voltámos aos tempos da Selecção de Scolari, cujo grande patriotismo era pago a peso de ouro pelo BPN e etc, e cujo assessor de imprensa, teve o desplante de escrevinhar um livro chamado A Pátria fomos nós. Não me digam que regressámos à máxima salazarista de que a Pátria não se discute - e que, confundindo-se a Selecção com a Pátria, também a Selecção se não discute. Por maior que seja o valor de Paulo Bento e por mais que venham a ser os seus êxitos futuros, esta não é a sua Selecção Nacional. Sua é apenas a parte que se chama Selecção; a que se chama Nacional ou é de nós todos ou não é nacional. De uma vez por todas, é altura de pôr fim a esta chantagem mesquinha de confundir as coisas deliberadamente, fazendo passar a mensagem de que quem não concorda com tudo o que a Selecção faz, diz ou joga é um traidor à Pátria. Pobre Pátria, se assim fosse!
Uns minutos antes de começar o Portugal-Holanda, Marcelo Rebelo de Sousa fazia, na TVI, a sua pré-análise - um exercício sempre arriscado, como se confirmaria. Convicto, Marcelo garantia que ia acontecer uma de duas coisas: ou nós aguentávamos a primeira meia-hora de ímpeto atacante dos holandeses, sem sofrer golos, e tínhamos grandes hipóteses de depois assegurar um bom resultado final; ou nós não aguentávamos em branco essa meia-hora e as coisas complicar-se-iam muito para nós. No fundo, ele estava a reproduzir a filosofia de há muito entranhada nos nossos hábitos e na cultura dos nossos treinadores, sempre que têm pela frente um adversário que infunde respeito: aguentá-los primeiro, não esquecer que o 0-0 é sempre um bom resultado e que, calhando até, na hora certa lançamos o contra-golpe e podemos ganhar 1-0. Foi o que fizemos contra a Alemanha, na abertura do Europeu e foi o que aqui critiquei na semana passada, embora deixando a dúvida se esta selecção teria capacidade para outra estratégia em que não tivesse medo de assumir o jogo de igual para igual, desde o início. Mas, e embora reconhecendo a debilidade do nosso meio-campo e a ausência de um ponta-de-lança matador, ao estilo Pauleta, também sempre me fez espécie a habitual incapacidade ofensiva, numa equipa que, apesar de tudo, dispõe de Ronaldo e de Nani. Como escreveu Santiago Segurola no DN, o tipo de jogo que Portugal apresentou contra a Alemanha, só soltando os cavalos no último quarto-de-hora e quando se viu a perder, contraria a matriz natural desta selecção - que é ofensiva e não defensiva. Quem tem Ronaldo e Nani não pode brilhar a defender, mas a atacar. É claro que há sempre a questão de saber que Ronaldo vai estar em cada jogo: o do Real Madrid ou o de alguns tristes jogos pela Selecção. Mas até essa questão perdeu alguma importância, quando vimos a Selecção ganhar à Dinamarca e marcar três golos sem a menor contribuição de Ronaldo para cada um deles, antes pelo contrário. Esse terá sido o efeito mais benéfico da sofrida, mas justíssima, vitória sobre a Dinamarca: mostrar que também podíamos ganhar sem Ronaldo. Óptimo se ele estiver nos seus dias, paciência se não estiver.
Contra a Holanda, felizmente que o prognóstico de Marcelo Rebelo de Sousa saiu exactamente ao contrário: entrámos encolhidos e amedrontados face àquela equipa de cinco avançados e aos 11 minutos já estávamos a perder, num golo tão simples e brilhante quanto inevitável: um daqueles golos em que não se consegue encontrar um culpado, apenas o mérito do adversário. Mas foi o melhor que nos podia ter acontecido. A equipa percebeu cedo que, se continuasse naquela atitude, em breve estaria a sofrer o segundo e o terceiro. E bastou soltar os medos e os génios para rapidamente perceber também que uma equipa com cinco avançados defende mal necessariamente e que, além disso, mal se viu acossada lá atrás, destapou um segredo de polichinelo: que a sua defesa era fraca, com centrais sem mobilidade e laterais sem velocidade. Para satisfazer os críticos, o seleccionador holandês, Bert Van Marwijk, deu-lhes a equipa de ataque que eles reclamavam e o resultado foi partir a equipa ao meio: cinco jogadores lá à frente, sem bola nem jogo, e outros cinco cá atrás, defendendo mal, e não fazendo a ligação entre sectores. E Portugal - para mais com um Cristiano Ronaldo de regresso à alegria e à inspiração, muito mais concentrado no jogo do que nas televisões - aproveitou as avenidas assim abertas e foi por ali fora: uma, duas, três quatro oportunidades e finalmente o golo. Mais tarde e já em desespero, Van Marwijk haveria de completar o suicídio estratégico, retirando um defesa e metendo ainda mais um homem de ataque, facilitando-nos o segundo golo e só não encaixando mais por sorte, por mérito do keeper e porque Paulo Bento não resistiu à sua substituição fetiche, fazendo entrar Nelson Oliveira - mais uma vez, para nada.
Para Cristiano, o homem do jogo, ficaram os maiores louros e a leitura resumida da imprensa internacional dizendo que ele resolveu o jogo: é tão injusto como injusto é assacar-lhe toda a responsabilidade pelos jogos que não se ganham. Soube concluir com calma, classe e inteligencia os dois golos, mas ambos são trabalho de equipa, sobretudo o segundo, que começa numa recuperação de Miguel Veloso à saída da nossa área, continua com um soberbo passe de Moutinho a rasgar a defesa, na desmarcação perfeita de Nani e depois a assistência para Ronaldo, no momento certo e para o local exacto. Mas Cristiano mereceu a distinção também pelo mais que fez: duas bolas no poste, duas assistências mortais para Coentrão e Nani. No topo máximo, ao lado de Ronaldo, coloco Pepe (um monstro!), Fábio Coentrão e João Moutinho (sempre melhor na Selecção do que no FC Porto). Excelentes também Bruno Alves, Veloso, e Nani. Muito bons todos os outros: Patrício (o melhor guarda-redes nacional da última década, mas sem grande trabalho contra os holandeses), João Pereira (por aquele passe fantástico a oferecer a Ronaldo o primeiro golo), Meireles, Postiga (outro jogador que é sempre melhor na Selecção e muito se esforça na posição 9, que não é a sua natural - ele é um 9,5), e Custódio, muito bem entrado no jogo. Foi um daqueles raros jogos em que todos estiveram bem e tudo nos correu bem. Enfim, nem tudo: se fosse pelas oportunidades criadas, teríamos ganho 9-3 e não 2-1.
2- Ainda bem que não vamos ter de jogar com a Grécia: tínhamos garantido um jogo de adormecer e irritar, sem espaços nem rasgo, e com os gregos sempre a apostarem na sorte. A culpa não é de Fernando Santos, que já herdou o modelo e que só tem aquilo e não melhor. E aquilo é uma equipa que só defende e que espera que aquele tipo com nome de primeiro-ministro e ar de resgatado da Guerra de Tróia, que habita lá na frente e se chama Samaras, consiga, entre os seus tiques e toques de vedeta, o milagre de um golo. Parece-me que os checos são bem mais à nossa medida. E parece-me que talvez fosse o momento de Paulo Bento rodar minimamente a equipa, dando descanso a quem mais precisa: será então ou nunca. Até porque já tem um amarelo, João Pereira podia ser rendido por Miguel Lopes, que tão bem provou contra a Turquia; Custódio também mostrou estar à altura para render Veloso; Moutinho, e sobretudo Meireles, gritam por algum descanso; Hugo Almeida não merece ser o único dos três pontas-de-lança votado ao ostracismo total; e não gostaria de nos ver terminar o Euro sem que Quaresma dispusesse de meia-hora, pelo menos, para mostrar como está. Estou a meter-me na zona reservada de Paulo Bento, mas é apenas uma opinião - nada de mais grave do que isso.
3- E as opiniões, ao contrário do que Paulo Bento parece pensar, podem ser erradas, injustas, tudo o que quiserem, mas nunca são ilegítimas. Não o são em domínio algum e menos ainda no futebol, cuja atracção consiste precisamente na paixão com que é discutido e permanentemente questionado pelos adeptos. Tanto no Sporting como na Selecção, sempre elogiei Paulo Bento, mas lamento a sua reacção aos críticos, após a vitória sobre a Holanda - que, ainda por cima, se estendeu aos jogadores. Não fazem ideia do ridículo que é, para a imprensa internacional, ver os jogadores portugueses recusarem-se a falar, sob pretexto de que foram alvos de críticas que eles acham injustas! Pior, só ouvir o seleccionador vingar-se das críticas dos seus colegas de profissão, Carlos Queiroz e Manuel José, dizendo que eles deviam estar a torcer pela derrota de Portugal e que já devem estar com os cachecóis da República Checa vestidos!
Não me digam que voltámos aos tempos da Selecção de Scolari, cujo grande patriotismo era pago a peso de ouro pelo BPN e etc, e cujo assessor de imprensa, teve o desplante de escrevinhar um livro chamado A Pátria fomos nós. Não me digam que regressámos à máxima salazarista de que a Pátria não se discute - e que, confundindo-se a Selecção com a Pátria, também a Selecção se não discute. Por maior que seja o valor de Paulo Bento e por mais que venham a ser os seus êxitos futuros, esta não é a sua Selecção Nacional. Sua é apenas a parte que se chama Selecção; a que se chama Nacional ou é de nós todos ou não é nacional. De uma vez por todas, é altura de pôr fim a esta chantagem mesquinha de confundir as coisas deliberadamente, fazendo passar a mensagem de que quem não concorda com tudo o que a Selecção faz, diz ou joga é um traidor à Pátria. Pobre Pátria, se assim fosse!
terça-feira, maio 07, 2013
O REGRESSO DAS VITÓRIAS MORAIS (12 JUNHO 2012)
1- Comecemos pelo principio: o Portugal-Alemanha foi um mau jogo de futebol, talvez o pior do Euro até à data. Foi um jogo soporífero até dez minutos do fim, disputado entre uma equipa sem imaginação e outra sem ambição. Claro que a responsabilidade maior é da Alemanha, eterno candidato a todos os títulos e de que se diz ter a melhor selecção dos últimos anos ou décadas.
Não se viu nada disso, mas o facto é que, no fim, ganharam os alemães e a vitória serve para absolver muitas coisas. Já Portugal jogou para o 0-0, tal como é tradição das equipas e da Selecção portuguesas quando jogam contra adversários tidos como mais fortes. Jogar na contencão e nas cautelas e viver feliz enquanto o adversário não marca são a nossa tradição nestas situações. Mas, como já se tinha visto contra a Espanha no Mundial da África do Sul, jogar para o 0-0 acaba quase sempre por resultar na derrota por 1-0, com o adversário a marcar quando já não há muito tempo para reagir. A fortuna não ajuda os não audazes. Como se viu agora nos dez minutos finais do jogo, um pouco mais de fé e de ambição, um pouco menos de medo e cautelas, poderiam ter dado ao jogo um destino diferente. Nenhum jogo está decidido enquanto não for jogado.
Depois, é tempo de parar com os choradinhos habituais: o árbitro e a falta de sorte. O árbitro, não só não teve a mais pequena influência no resultado, como fez também um trabalho absolutamente impecável e imparcial. Só mentalidades benfiquistas ou sportinguistas, viciadas em décadas de reclamação das arbitragens quando as coisas não correm como desejado, é que podem vir desculpar a nossa impotência com uma suposta parcialidade da arbitragem. Com franqueza, já não há pachorra para as conspirações anti-portuguesas sempre inventadas pela nossa imprensa, a lembrança do dr. Marc Batta e outras efabulações que tais. A falta de capacidade de autocrítica e a tentação de transferência para outrem de culpas próprias é a imagem de marca dos cronicamenle derrotados.
Quanto à sorte, é verdade que não a tivemos no remate de Pepe à trave, no último minuto da primeira parte: teria sido um golo caído do céu e em nada justificado pelos insípidos 45 minutos anteriores. Já a bola do Nani na parte superior da barra, se tivesse entrado, teria sido, sim, uma imensa sorte, jã que ele, conforme confessou e todos vimos, apenas falhou o cruzamento. E não lem nada a ver com falta de sorte, mas com falta de jeito, os golos que Ronaldo, Varela e Nani poderiam ter marcado e nao marcaram porque deixaram que os adversários os evitassem.
Ao contrário do que disse Nani, não é «a bola que não quer entrar»: a bola entra quando é rematada para entrar e não tem defesa possível. Não é por acaso nem porque a bola não queira entrar que, nos quatro jogos disputados em 2012, a Selecção empatou dois, perdeu outros dois e apenas marcou um golo. Basta, aliás, vê-la jogar para perceber que o golo, ali, é sempre uma coisa que só parece poder acontecer fruto de um acidente imprevisível. Mesmo sabendo-se que não temos um ponta-de-lança digno desse nome, é um dos principais mistérios e marcas desta Selecção (que, apesar de tudo, tem Ronaldo, Nani, Quaresma) a doentia incapacidade de gerar jogadas de golo e concluí-las.
Não vou atirar as culpas para cima de Paulo Bento, porque julgo que todos reconhecemos que esta é uma fraca Selecção, com pontos bastante vulneráveis e demasiados jogadores banais em várias posições. Mas podemos criticar a Paulo Bento a ausência, nunca explicada, de Bosingwa que tanta falta fez no golo da Alemanha, em que, vendo João Pereira a saltar com Mário Gomez, me lembrei da razão pela qual Mourinho dizia que não queria laterais baixos. E podemos perguntar para que servem afinal os jogos de preparação e para que serviu o ensaio geral contra a Turquia, quando o vimos depois insistir em João Pereira, Miguel Veloso ou Nelson Ohveira. João Pereira mostrara já que está em pior forma do que Miguel Lopes; Miguel Veloso que é pior opção do que Custodio ou que a opção de Meireles a trinco e Hugo Viana no meio-campo ofensivo; e Nelson Oliveira mostrara e voltou a mostrar que, para já, não passa de uma ficção jornalística e uma atenção ao Benfica.
Mas Paulo Bento não tem culpa de não ter melhor meio campo, de Raul Meireles andar à toa por ali, de Postiga não conseguir ser diferente do que é, de Ronaldo se eclipsar habitualmente quando joga pela Selecção. Também reconheço que é fácil olhar para os últimos dez minutos do jogo com a Alemanha, quando tivemos de correr atrás do resultado, e concluir que, se calhar, nos faltou ambição mais cedo. Mas será que temos equipa para ambições destas? Veremos já amanhã contra a Dinamarca.
2- Subscrevo o que escreveu Vítor Serpa e acrescento: pobre Selecção, se não aguenta as críticas feitas por Manuel José e Queiroz e se, dos dirigentes aos jogadores, reagem todos como majestades ofendidas. Primeiro, porque somos um País onde a crítica é livre; segundo, porque revela mais coragem e personalidade fazer as críticas antes, do que após conhecer o desfecho; e terceiro, porque as críticas tinham toda a razão de ser. Quem tem juízo, sabe muito bem que o circo em que a Selecçao é passeada antes das competições, a diarreia patriótica de que é alvo e o exibicionismo ridículo em que os jogadores se deleitam, não sei se prejudica ou não a concentração, mas que vai irritando cada vez mais, isso vai. A histeria jornalística na cobertura da Selecção, em especial por parte das televisões, as patéticas campanhas de publicidade das marcas que patrocinam a Selecção e as suas vedetas, a mensagem do ministro Miguel Relvas jurando à Selecção que «vocês são Portugal» ou o discurso do presidente da Federação, Fernando Gomes, comparando os jogadores aos «antigos navegadores» , à «descoberta de novos mundos», tudo isso, pelo menos na parte que me toca, é o retrato plasmado de um País culturalmente sub-desenvolvido e que parece não ter emenda. Mais uma vez e por mais impopular que seja, é preciso repetir que o futebol não é o principal da vida das pessoas nem da vida das nações. É preciso repetir que uma selecção nacional de futebol é a escolha dos seus cidadãos que têm mais jeito para jogar futebol, e apenas isso. Não é uma selecção dos melhores músicos, investigadores, arquitectos, escritores, cirurgiões, ele. Se aqueles são Portugal, estes serão o quê — as sobras da nação?
3- Contrariando a lei do País, jogou-se um decisivo Benfica-Porto em hóquei em patins, num pavilhão da Luz reservado a sócios do Benhca e onde mesmo os portistas portadores de bilhetes foram impedidos de entrar pela polícia. O jogo foi ainda televisionado pelo canal do Benfica, que emite na Meo - que eu, por exemplo, não tenho. Parece que tudo se passou conforme planeado, que pouca gente é testemunha do que, de facto, terá acontecido e pouca gente terá ainda conseguido distinguir a baliza do Benfica, coberta de fumo, quando, ao cair do pano, foi lá cobrado e falhado um penalty a favor do Porto.
No final, o Benfica conseguiu, in extremis, o empate que lhe serve para se tornar campeão e o treinador portista, Tó Neves, perguntou se era aquela «a verdade desportiva que reclama o presidente do Benfica». Não sei, não vi. Mas, no hóquei, como no resto, sei que tudo está bem quando acaba como o Benfica deseja.
4- Segundo Luís Filipe Viera, o Benfica não vai jogar um torneio a Angola, pensado pelo Governo, porque o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, conhecido portista, ousou, num texto escrito enquanto adepto do FC Porto, referir-se ao Benfica como «a outra equipa». Uma ofensa que Vieira não perdoa e que considera, pelos vistos, extensível a todo o Governo. Alguém que comente isto, porque a mim falta-me a imaginação.
5- O presidente da Liga de Clubes, o notável Mário Figueiredo, jurou, por sua vez, que 80% dos clubes profissionais de futebol têm os ordenados em dia. Alguém que se ria, porque eu já não consigo achar graça.
Não se viu nada disso, mas o facto é que, no fim, ganharam os alemães e a vitória serve para absolver muitas coisas. Já Portugal jogou para o 0-0, tal como é tradição das equipas e da Selecção portuguesas quando jogam contra adversários tidos como mais fortes. Jogar na contencão e nas cautelas e viver feliz enquanto o adversário não marca são a nossa tradição nestas situações. Mas, como já se tinha visto contra a Espanha no Mundial da África do Sul, jogar para o 0-0 acaba quase sempre por resultar na derrota por 1-0, com o adversário a marcar quando já não há muito tempo para reagir. A fortuna não ajuda os não audazes. Como se viu agora nos dez minutos finais do jogo, um pouco mais de fé e de ambição, um pouco menos de medo e cautelas, poderiam ter dado ao jogo um destino diferente. Nenhum jogo está decidido enquanto não for jogado.
Depois, é tempo de parar com os choradinhos habituais: o árbitro e a falta de sorte. O árbitro, não só não teve a mais pequena influência no resultado, como fez também um trabalho absolutamente impecável e imparcial. Só mentalidades benfiquistas ou sportinguistas, viciadas em décadas de reclamação das arbitragens quando as coisas não correm como desejado, é que podem vir desculpar a nossa impotência com uma suposta parcialidade da arbitragem. Com franqueza, já não há pachorra para as conspirações anti-portuguesas sempre inventadas pela nossa imprensa, a lembrança do dr. Marc Batta e outras efabulações que tais. A falta de capacidade de autocrítica e a tentação de transferência para outrem de culpas próprias é a imagem de marca dos cronicamenle derrotados.
Quanto à sorte, é verdade que não a tivemos no remate de Pepe à trave, no último minuto da primeira parte: teria sido um golo caído do céu e em nada justificado pelos insípidos 45 minutos anteriores. Já a bola do Nani na parte superior da barra, se tivesse entrado, teria sido, sim, uma imensa sorte, jã que ele, conforme confessou e todos vimos, apenas falhou o cruzamento. E não lem nada a ver com falta de sorte, mas com falta de jeito, os golos que Ronaldo, Varela e Nani poderiam ter marcado e nao marcaram porque deixaram que os adversários os evitassem.
Ao contrário do que disse Nani, não é «a bola que não quer entrar»: a bola entra quando é rematada para entrar e não tem defesa possível. Não é por acaso nem porque a bola não queira entrar que, nos quatro jogos disputados em 2012, a Selecção empatou dois, perdeu outros dois e apenas marcou um golo. Basta, aliás, vê-la jogar para perceber que o golo, ali, é sempre uma coisa que só parece poder acontecer fruto de um acidente imprevisível. Mesmo sabendo-se que não temos um ponta-de-lança digno desse nome, é um dos principais mistérios e marcas desta Selecção (que, apesar de tudo, tem Ronaldo, Nani, Quaresma) a doentia incapacidade de gerar jogadas de golo e concluí-las.
Não vou atirar as culpas para cima de Paulo Bento, porque julgo que todos reconhecemos que esta é uma fraca Selecção, com pontos bastante vulneráveis e demasiados jogadores banais em várias posições. Mas podemos criticar a Paulo Bento a ausência, nunca explicada, de Bosingwa que tanta falta fez no golo da Alemanha, em que, vendo João Pereira a saltar com Mário Gomez, me lembrei da razão pela qual Mourinho dizia que não queria laterais baixos. E podemos perguntar para que servem afinal os jogos de preparação e para que serviu o ensaio geral contra a Turquia, quando o vimos depois insistir em João Pereira, Miguel Veloso ou Nelson Ohveira. João Pereira mostrara já que está em pior forma do que Miguel Lopes; Miguel Veloso que é pior opção do que Custodio ou que a opção de Meireles a trinco e Hugo Viana no meio-campo ofensivo; e Nelson Oliveira mostrara e voltou a mostrar que, para já, não passa de uma ficção jornalística e uma atenção ao Benfica.
Mas Paulo Bento não tem culpa de não ter melhor meio campo, de Raul Meireles andar à toa por ali, de Postiga não conseguir ser diferente do que é, de Ronaldo se eclipsar habitualmente quando joga pela Selecção. Também reconheço que é fácil olhar para os últimos dez minutos do jogo com a Alemanha, quando tivemos de correr atrás do resultado, e concluir que, se calhar, nos faltou ambição mais cedo. Mas será que temos equipa para ambições destas? Veremos já amanhã contra a Dinamarca.
2- Subscrevo o que escreveu Vítor Serpa e acrescento: pobre Selecção, se não aguenta as críticas feitas por Manuel José e Queiroz e se, dos dirigentes aos jogadores, reagem todos como majestades ofendidas. Primeiro, porque somos um País onde a crítica é livre; segundo, porque revela mais coragem e personalidade fazer as críticas antes, do que após conhecer o desfecho; e terceiro, porque as críticas tinham toda a razão de ser. Quem tem juízo, sabe muito bem que o circo em que a Selecçao é passeada antes das competições, a diarreia patriótica de que é alvo e o exibicionismo ridículo em que os jogadores se deleitam, não sei se prejudica ou não a concentração, mas que vai irritando cada vez mais, isso vai. A histeria jornalística na cobertura da Selecção, em especial por parte das televisões, as patéticas campanhas de publicidade das marcas que patrocinam a Selecção e as suas vedetas, a mensagem do ministro Miguel Relvas jurando à Selecção que «vocês são Portugal» ou o discurso do presidente da Federação, Fernando Gomes, comparando os jogadores aos «antigos navegadores» , à «descoberta de novos mundos», tudo isso, pelo menos na parte que me toca, é o retrato plasmado de um País culturalmente sub-desenvolvido e que parece não ter emenda. Mais uma vez e por mais impopular que seja, é preciso repetir que o futebol não é o principal da vida das pessoas nem da vida das nações. É preciso repetir que uma selecção nacional de futebol é a escolha dos seus cidadãos que têm mais jeito para jogar futebol, e apenas isso. Não é uma selecção dos melhores músicos, investigadores, arquitectos, escritores, cirurgiões, ele. Se aqueles são Portugal, estes serão o quê — as sobras da nação?
3- Contrariando a lei do País, jogou-se um decisivo Benfica-Porto em hóquei em patins, num pavilhão da Luz reservado a sócios do Benhca e onde mesmo os portistas portadores de bilhetes foram impedidos de entrar pela polícia. O jogo foi ainda televisionado pelo canal do Benfica, que emite na Meo - que eu, por exemplo, não tenho. Parece que tudo se passou conforme planeado, que pouca gente é testemunha do que, de facto, terá acontecido e pouca gente terá ainda conseguido distinguir a baliza do Benfica, coberta de fumo, quando, ao cair do pano, foi lá cobrado e falhado um penalty a favor do Porto.
No final, o Benfica conseguiu, in extremis, o empate que lhe serve para se tornar campeão e o treinador portista, Tó Neves, perguntou se era aquela «a verdade desportiva que reclama o presidente do Benfica». Não sei, não vi. Mas, no hóquei, como no resto, sei que tudo está bem quando acaba como o Benfica deseja.
4- Segundo Luís Filipe Viera, o Benfica não vai jogar um torneio a Angola, pensado pelo Governo, porque o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, conhecido portista, ousou, num texto escrito enquanto adepto do FC Porto, referir-se ao Benfica como «a outra equipa». Uma ofensa que Vieira não perdoa e que considera, pelos vistos, extensível a todo o Governo. Alguém que comente isto, porque a mim falta-me a imaginação.
5- O presidente da Liga de Clubes, o notável Mário Figueiredo, jurou, por sua vez, que 80% dos clubes profissionais de futebol têm os ordenados em dia. Alguém que se ria, porque eu já não consigo achar graça.
segunda-feira, maio 06, 2013
HERÓIS DO MAR? (5 JUNHO 2012)
1- Diz-se que os portugueses não têm pela sua Selecção a mesma paixão que têm pelos seus clubes. Isso é verdade e eu não fujo à regra, talvez porque nunca vi a Selecção ganhar nada e já vi o meu clube ganhar várias coisas, tais como dois Campeonatos da Europa e dois títulos mundiais. Tenho a sorte de ser apaixonado por um clube a quem, ódios e invejas à parte, o futebol português, e mesmo o nome de Portugal, devem bem mais do que à sua Selecção.
Por outro lado, há uma coisa que me irrita profundamente quando se trata da Selecção e, em especial, de fases finais de Europeus ou Mundiais, que é esta onda daquilo a que eu chamo patrioteirismo barato — e que, para quem não sabe o que seja ao certo, está exuberantemente transcrito naquele insuportável texto que um miúdo lê aos jogadores da Selecção, abraçados em pose de dádiva à nação, imaginado por uma das milhentas campanhas de publicidade (pagas, todas) com as quais os elementos da Selecção exibem o seu inultrapassável amor pátrio e algumas empresas tentam extrair benefícios de imagem dele.
Não suporto a confusão deliberada que se faz entre um simples campeonato de futebol e o serviço de Portugal, entre o destino da Selecção e o prestígio da nação, entre os jogadores (pagos e bem pagos para representarem Portugal) e os heróis do mar, que nos juram ser eles. Para mim, patriotismo é pagar todos os impostos que se devem e, quando necessário e seja a que nível for, representar o seu país sem esperar outra recompensa que não a noção de dever e de honra cumpridos.
Sinceramente que me custa o espectáculo de ver tratar por heróis da nação, a quem constantemente se canta o hino e se louvam os feitos, banais cidadãos que só têm de diferente a arte de jogar bem futebol e de, por via disso, receberem num ano o que o comum dos outros ganha numa vida, exibindo carros, penteados, tatuagens e roupas que, francamente, seriam motivo de chacota pública se não fossem eles os modelos.
Também sei que esta histeria patrioteira com o futebol não é exclusivo de Portugal e contagia até países bem mais civilizados do que o nosso. Mas isso não impede que eu continue a achar que há aqui uma enorme confusão de valores e uma diarreia de atenção mediática que, no meu caso pessoal, faz com que, a certa altura, eu já só queira que o campeonato acabe rapidamente para que a gente deixe de ser massacrado com a Selecção e se possa ocupar de outros assuntos, já nem digo mais importantes, mas ao menos diferentes.
Posto isto, é evidente que eu também gosto de ver jogar a Selecção e obviamente torço há décadas para que um dia ela possa ganhar qualquer coisa que fique nos registos e não apenas nas eternas promessas. Aparentemente, tal não será ainda o caso desta vez. Esta é uma Selecção com dois grandes jogadores (Nani e Ronaldo), alguns bons e alguns apenas razoáveis. Fraca no meio-campo, desequilibrada entre sectores e com um deficit tremendo de ponta-de-lança, que é uma questão por resolver desde que Pauleta se retirou. Já vi selecções bem melhores do que esta, não sendo necessário, para tal recuar à da 66. Para além disso e pelo menos há já largos anos, que esta é uma Selecção que não tem um fio de jogo reconhecível nem uma continuidade exibicional que dê garantias. E que, muitas vezes, parece um simples amontoado de onze jogadores sem plano de jogo, sem lances treinados ou ensaiados e que parece esperar eternamente um golpe de génio de Ronaldo ou Nani.
Isso, mais o grupo terrível em que fomos aterrar, não nos deixa (julgo que a nenhum de nós) grandes esperanças de simplesmente passarmos a fase de grupos. Mas antes assim do que, como sucedeu no passado, partirmos como favoritos ou candidatos autonomeados e depois soçobrarmos num mar de equívocos e desilusões. Com esta Selecção e neste Campeonato da Europa, tudo o que vier a mais do que a eliminação no grupo já será uma boa surpresa. E nem digo isto por causa da derrota no ensaio-geral contra a Turquia, onde a exibição me pareceu bem melhor do que o resultado.
É evidente que o Eduardo não voltará a ter oportunidade de jogar na fase final nem acredito que o seleccionador aposte num ponta-de-lança que chega à Selecção sem ter marcado um único golo no campeonato - o que deve ser caso único no mundo inteiro. Mas é preocupante, sobretudo, a incapacidade endémica de chegar ao golo, complicando sempre oque podia ser simples, mostrando uma quase absoluta incapacidade de rematar com perigo e uma fatal tendência de dar sempre mais um toque, fazer mais uma finta ou mais um passe lateral quando tudo o que se pede é um remate a acreditar no golo. E é preocupante que Ronaldo tenha o monopólio absoluto da cobrança de livres e penalties sem correspondência alguma com a sua taxa de sucesso. E são preocupantes os frequentes desentendimentos posicionais entre os defesas, sobretudo os centrais, levando-nos a encaixar golos quase infantis.
Defendo que as grandes competições entre selecções, o Europeu e o Mundial, deveriam ser disputadas a meio da época e não no final, quando os melhores jogadores estão estoirados por alguns 60 jogos nas pernas e a suspirar por férias e descanso. E acho contra-producentes estes longos estágios de preparação. Aliás, o inesquecível exemplo da Dinamarca campeã europeia, com os seus jogadores convocados três dias antes do primeiro jogo, serviu para pôr em causa a suposta razão científica que aconselhará tão longos estágios.
A verdade é que, a avaliar pelos dois jogos de preparação feitos pela nossa Selecção, chegamos à Polónia sem que se entenda para que serviu ao certo tão longa concentração. A menos que os resultados sejam invisíveis até se tornarem evidentes. Oxalá seja o caso. Sábado já começaremos a sabê-lo e todos esperamos que se confirme a tradição de jogarmos melhor contra os melhores.
2- Foi Scolari quem inventou a histeria patrioteira entre nós. Fê-lo como forma de se impor em terra alheia, de conquistar adeptos pessoais, antes mesmo de adeptos para a Selecção. A outra coisa que fez para tal, e de forma clara, foi desafiar o FC Porto, enfrentá-lo, na certeza de que assim teria consigo a grande maioria dos adeptos portugueses e da comunicação social desportiva. Para isso — e como muito bem sabemos e nos lembramos — Scolari congeminou o sacrifício e humilhação de Vítor Baía, capitão e símbolo do FC Porto. Para defesa dos seus próprios interesses, o grande sargentão nao hesitou em privar um jogador com a categoria de Vítor Baía da possibilidade de ter representado Portugal em mais um Europeu e um Mundial. O que fez foi uma vilania fácil, mas ao menos assumido como opção sua. A explicação que agora vem dar e onde, perfidamente, chuta a responsabilidade para Pinto da Costa, não se importando sequer de passar como pau-mandado, confirma a sua natureza e tudo aquilo que sobre ele escrevi na altura. Nunca gostei de Scolari, nem sequer como treinador, e o tempo só me deu razão.
3- Escreveu aqui Bagão Félix, a propósito dos célebres incidentes no final do Porto - Benfica em basquetebol: «O que se passou no final do decisivo jogo foi miserável. Independentemente de reais ou inventados rastilhos e intimidações, nada desculpa o insólito de os atletas do Benfica terem recebido o troféu entrincheirados entre quatro paredes.» «Reais ou imaginários rastilhos e intimidações», sr. conselheiro de Estado? O sr. não viu as imagens do comportamento do treinador e do roupeiro do Benfica, logo após o apito final? E «independentemente», sr. conselheiro? O sr. acha que, se o jogo tem sido na Luz e o desfecho o oposto e se o treinador do Porto tem, em gestos eloquentes e repetidos, mandado os adeptos benfiquistas «levar no c...», «independentemente» disso, teria havido condições para entregar a taça aos do Porto, em pleno recinto e com os seus aplausos, por exemplo? Caramba, será assim tão difícil não cometer o pecado de bradar aos céus que consiste «em não reconhecer a verdade vista como tal»?
Por outro lado, há uma coisa que me irrita profundamente quando se trata da Selecção e, em especial, de fases finais de Europeus ou Mundiais, que é esta onda daquilo a que eu chamo patrioteirismo barato — e que, para quem não sabe o que seja ao certo, está exuberantemente transcrito naquele insuportável texto que um miúdo lê aos jogadores da Selecção, abraçados em pose de dádiva à nação, imaginado por uma das milhentas campanhas de publicidade (pagas, todas) com as quais os elementos da Selecção exibem o seu inultrapassável amor pátrio e algumas empresas tentam extrair benefícios de imagem dele.
Não suporto a confusão deliberada que se faz entre um simples campeonato de futebol e o serviço de Portugal, entre o destino da Selecção e o prestígio da nação, entre os jogadores (pagos e bem pagos para representarem Portugal) e os heróis do mar, que nos juram ser eles. Para mim, patriotismo é pagar todos os impostos que se devem e, quando necessário e seja a que nível for, representar o seu país sem esperar outra recompensa que não a noção de dever e de honra cumpridos.
Sinceramente que me custa o espectáculo de ver tratar por heróis da nação, a quem constantemente se canta o hino e se louvam os feitos, banais cidadãos que só têm de diferente a arte de jogar bem futebol e de, por via disso, receberem num ano o que o comum dos outros ganha numa vida, exibindo carros, penteados, tatuagens e roupas que, francamente, seriam motivo de chacota pública se não fossem eles os modelos.
Também sei que esta histeria patrioteira com o futebol não é exclusivo de Portugal e contagia até países bem mais civilizados do que o nosso. Mas isso não impede que eu continue a achar que há aqui uma enorme confusão de valores e uma diarreia de atenção mediática que, no meu caso pessoal, faz com que, a certa altura, eu já só queira que o campeonato acabe rapidamente para que a gente deixe de ser massacrado com a Selecção e se possa ocupar de outros assuntos, já nem digo mais importantes, mas ao menos diferentes.
Posto isto, é evidente que eu também gosto de ver jogar a Selecção e obviamente torço há décadas para que um dia ela possa ganhar qualquer coisa que fique nos registos e não apenas nas eternas promessas. Aparentemente, tal não será ainda o caso desta vez. Esta é uma Selecção com dois grandes jogadores (Nani e Ronaldo), alguns bons e alguns apenas razoáveis. Fraca no meio-campo, desequilibrada entre sectores e com um deficit tremendo de ponta-de-lança, que é uma questão por resolver desde que Pauleta se retirou. Já vi selecções bem melhores do que esta, não sendo necessário, para tal recuar à da 66. Para além disso e pelo menos há já largos anos, que esta é uma Selecção que não tem um fio de jogo reconhecível nem uma continuidade exibicional que dê garantias. E que, muitas vezes, parece um simples amontoado de onze jogadores sem plano de jogo, sem lances treinados ou ensaiados e que parece esperar eternamente um golpe de génio de Ronaldo ou Nani.
Isso, mais o grupo terrível em que fomos aterrar, não nos deixa (julgo que a nenhum de nós) grandes esperanças de simplesmente passarmos a fase de grupos. Mas antes assim do que, como sucedeu no passado, partirmos como favoritos ou candidatos autonomeados e depois soçobrarmos num mar de equívocos e desilusões. Com esta Selecção e neste Campeonato da Europa, tudo o que vier a mais do que a eliminação no grupo já será uma boa surpresa. E nem digo isto por causa da derrota no ensaio-geral contra a Turquia, onde a exibição me pareceu bem melhor do que o resultado.
É evidente que o Eduardo não voltará a ter oportunidade de jogar na fase final nem acredito que o seleccionador aposte num ponta-de-lança que chega à Selecção sem ter marcado um único golo no campeonato - o que deve ser caso único no mundo inteiro. Mas é preocupante, sobretudo, a incapacidade endémica de chegar ao golo, complicando sempre oque podia ser simples, mostrando uma quase absoluta incapacidade de rematar com perigo e uma fatal tendência de dar sempre mais um toque, fazer mais uma finta ou mais um passe lateral quando tudo o que se pede é um remate a acreditar no golo. E é preocupante que Ronaldo tenha o monopólio absoluto da cobrança de livres e penalties sem correspondência alguma com a sua taxa de sucesso. E são preocupantes os frequentes desentendimentos posicionais entre os defesas, sobretudo os centrais, levando-nos a encaixar golos quase infantis.
Defendo que as grandes competições entre selecções, o Europeu e o Mundial, deveriam ser disputadas a meio da época e não no final, quando os melhores jogadores estão estoirados por alguns 60 jogos nas pernas e a suspirar por férias e descanso. E acho contra-producentes estes longos estágios de preparação. Aliás, o inesquecível exemplo da Dinamarca campeã europeia, com os seus jogadores convocados três dias antes do primeiro jogo, serviu para pôr em causa a suposta razão científica que aconselhará tão longos estágios.
A verdade é que, a avaliar pelos dois jogos de preparação feitos pela nossa Selecção, chegamos à Polónia sem que se entenda para que serviu ao certo tão longa concentração. A menos que os resultados sejam invisíveis até se tornarem evidentes. Oxalá seja o caso. Sábado já começaremos a sabê-lo e todos esperamos que se confirme a tradição de jogarmos melhor contra os melhores.
2- Foi Scolari quem inventou a histeria patrioteira entre nós. Fê-lo como forma de se impor em terra alheia, de conquistar adeptos pessoais, antes mesmo de adeptos para a Selecção. A outra coisa que fez para tal, e de forma clara, foi desafiar o FC Porto, enfrentá-lo, na certeza de que assim teria consigo a grande maioria dos adeptos portugueses e da comunicação social desportiva. Para isso — e como muito bem sabemos e nos lembramos — Scolari congeminou o sacrifício e humilhação de Vítor Baía, capitão e símbolo do FC Porto. Para defesa dos seus próprios interesses, o grande sargentão nao hesitou em privar um jogador com a categoria de Vítor Baía da possibilidade de ter representado Portugal em mais um Europeu e um Mundial. O que fez foi uma vilania fácil, mas ao menos assumido como opção sua. A explicação que agora vem dar e onde, perfidamente, chuta a responsabilidade para Pinto da Costa, não se importando sequer de passar como pau-mandado, confirma a sua natureza e tudo aquilo que sobre ele escrevi na altura. Nunca gostei de Scolari, nem sequer como treinador, e o tempo só me deu razão.
3- Escreveu aqui Bagão Félix, a propósito dos célebres incidentes no final do Porto - Benfica em basquetebol: «O que se passou no final do decisivo jogo foi miserável. Independentemente de reais ou inventados rastilhos e intimidações, nada desculpa o insólito de os atletas do Benfica terem recebido o troféu entrincheirados entre quatro paredes.» «Reais ou imaginários rastilhos e intimidações», sr. conselheiro de Estado? O sr. não viu as imagens do comportamento do treinador e do roupeiro do Benfica, logo após o apito final? E «independentemente», sr. conselheiro? O sr. acha que, se o jogo tem sido na Luz e o desfecho o oposto e se o treinador do Porto tem, em gestos eloquentes e repetidos, mandado os adeptos benfiquistas «levar no c...», «independentemente» disso, teria havido condições para entregar a taça aos do Porto, em pleno recinto e com os seus aplausos, por exemplo? Caramba, será assim tão difícil não cometer o pecado de bradar aos céus que consiste «em não reconhecer a verdade vista como tal»?
domingo, maio 05, 2013
EM NOME DO ÓDIO (29 MAIO 2012)
FELIZMENTE, escrevo cinco dias depois dos acontecimentos no final do jogo de basquete no Dragão que decidiu o título nacional a favor do Benfica. Assim, posso escrever com um conhecimento maior de todos os factos, e não apenas daqueles que inicialmente nos quiseram vender como versão oficial. E, sobretudo, posso escrever de cabeça fria.
Gostaria de começar por dizer que o futebol, o desporto, em geral, praticado pelos outros e a paixão clubística, não são, nunca foram e jamais serão parte importante ou decisiva da minha vida. Conforme os casos, sempre tive a maior pena ou desdém por aqueles que fazem da paixão clubística o alfa e o ómega das suas vidas. Que são capazes de perder dias inteiros a espreitar os treinos dos seus clubes ou apenas a admirar as bombas automobilísticas dos seus ídolos, de perder horas de discussão à mesa dos cafés por causa do penalty assim ou do off-side assado, de irem descarregar ódios e frustrações outras para os infectos blogues da net, e que, no limite, confundem os pobres valores do desporto profissional com os seus valores de vida. Sempre entendi que este mundo não é o mundo de gente com outros interesses, com valor e com valores, e dou graças à minha lucidez por nunca me ter sentido tentado a experimentar o chamado dirigismo desportivo ou a integrar aqueles deprimentes painéis futebolísticos da televisão, onde jamais se fala de futebol e apenas de arbitragens ( e para os quais, em verdade, apenas fui convidado uma vez, mas sumptuosamente pago, se tivesse aceite). Vejo com alguma curiosidade e preocupação a participação, por exemplo, de um Eduardo Barroso em ambas as actividades e, se não for demasiada presunção da minha parte, julgo detectar-lhe por vezes um mal-estar que ele próprio sentirá. Até porque aquilo está formatado para incentivar os discursos de cabeça quente, as afirmações sem reflexão e até o ódio. Acontece que o Eduardo Barroso é alguém a quem o país deve, alguém que pôs de pé um serviço clínico pioneiro e de vanguarda, aqui e no mundo inteiro, que salva vidas e faz coisas bem mais importantes do que dar chutos numa bola. E, sobre isso ainda, pelo pouco que dele conheço, é um homem livre, culto, inteligente, apaixonado pela vida. Compreendo que ele e outros se sintam um dia tentados a saltar para o outro lado, desejando ajudar o seu clube do coração. Mas há um preço e todos o sabemos: quando se passa da bancada para o camarote presidencial é forçoso ter de passar a conviver com gente que não convidaríamos para jantar em nossa casa e a quem tudo o que nos une é um acidente: a partilha do mesmo amor clubístico. Eu sei que ele sabe em quem eu estou agora a pensar. Mas, seja no Sporting, no Benfica ou no FC Porto, os camarotes presidenciais estão cheios de gente que não se recomenda.
Tudo isto a propósito da final do basquete, cuja apreciação vou dividir em três partes: Sport, Lisboa e Benfica.
SPORT
Depois de uma época em que o FC Porto ganhou folgadamente o campeonato nacional em todas as modalidades profissionais que o clube pratica (futebol, basquete, andebol e hóquei), esta época era decisiva para o Benfica conseguir estancar o massacre. Perdeu o futebol e o andebol, está à frente por um ponto no hóquei e, depois de uma fase regular em que se viu batido pelo FC Porto, chegou à situação de ter de ir ganhar a negra do play-off em pleno Dragão. Infelizmente, outros afazeres mais importantes (aí está...) impediram-me de ver o jogo, mas confio na justiça do triunfo benfiquista nesse jogo. E digo apenas nesse jogo, porque acho que o FC Porto teve algum azar na fase final e decisiva do campeonato. Primeiro, porque tendo ultrapassado com autoridade os quartos de final, viu-se subitamente sem adversário nas meias, devido à insólita desistência do CAB, arrastado pela falência estrondosa do governo modelo de Alberto João Jardim na Madeira. Assim, na fase em que as equipas são preparadas para atingirem o máximo da competitividade, o FC Porto ficou uns quinze dias sem jogar, à espera do adversário para a final. Depois, porque, tendo ganho sem sobressalto dois jogos do play-off, viu-se batido noutros dois pela diferença de um ponto e dois pontos e, no quinto e decisivo jogo, por três pontos. Mas, como disse, nem eu contesto o título do Benfica, nem ninguém do Porto o contestou. Parabéns aos novos campeões.
LISBOA
Na quinta-feira, ao almoço, tendo como única fonte os jornais desportivos da capital, dei os parabéns a um amigo benfiquista e acrescentei: «Parece que, ainda por cima, perdemos mal, perdemos à Benfica!». Mas, ao fim do dia, tudo tinha mudado: só nos haviam contado uma parte da verdade, a verdade que lhes é conveniente.
Meus caros amigos: dêem as voltas ao texto que quiserem, as imagens que vimos não são como as do túnel da Luz, onde só os juízes do Benfica conseguiram enxergar graves agressões. Estas são claras e nítidas e não têm duas interpretações: mal o árbitro acabou o jogo, os jogadores do Benfica juntaram-se no centro a festejar com o seu treinador - o que era mais do que legítimo. Mas, entretanto, o roupeiro do Benfica atirava uma toalha aos adeptos do Porto (e não era uma camisola autografada nem um cumprimento) e o treinador do Benfica fazia, varias vezes, um gesto que, não sendo motivado por uma súbita comichão na zona dos fundilhos das calças, só podia significar aquilo que todos percebemos: «Vão levar no c...». A frio, cinco dias depois, digo que, em cinquenta anos a ver desporto e transmissões televisivas no mundo inteiro, nunca tinha visto coisa tão rasca, tão ordinária, tão reles, vinda de um treinador. Se fosse na NBA, Carlos Lisboa acabava já aqui a sua curta carreira de treinador. Aliás, e para quem acha que graves foram os incidentes causados pelos adeptos portistas, digo-vos que foi uma sorte que o público de um pavilhão onde os espectadores estão praticamente em cima do terreno de jogo tenha reagido tão brandamente a provocações daquelas. Dizem que houve cadeiras pelo ar, mas eu não as vi — pelo menos enquanto a equipa do Benfica ali estava. E li, sim, o capitão do Benfica dizer que o que tinha sido arremessado foram «moedas e garrafas de plástico» e que nunca se apercebeu que alguém tivesse tentado forçar a entrada na cabina do Benfica.
Depois, entrou em cena a policia de choque, mas eu também não vi as imagens. Li comentários a dizer muito mal de Pinto da Costa, por estar de dedo em riste para os polícias, e ouvi o presidente do Benfica apoiar implicitamente a actuação da polícia, enquanto a Direcção do FC Porto falava em agressões gratuitas sobre espectadores indefesos, incluindo crianças. Não sei quem fala verdade, mas a experiência histórica diz-me que se há coisa que não mudou com a democracia foi a irresistível apetência da polícia de choque para carregar à bastonada sobre quem não a ameaça como vários exemplos recentes o testemunham e que, quando atingiram jornalistas, muito indignou a respectiva classe.
E há outra coisa que sei: se um presidente de um clube acha que está a assistir a agressões gratuitas e desnecessárias da polícia sobre os adeptos do seu clube, compete-lhe fazer o que fez Pinto da Costa e a sua Direcção: saltar lá para dentro e tentar parar com a acção policial. Ou preferem jogos sem espectadores e só com polícias?
E BENFICA
Nesse mesmo dia à noite, assisti, estarrecido, a um depoimento escrito(?) e lido pelo presidente do Benfica — já depois de serem conhecidas as esclarecedoras imagens do comportamento de Carlos Lisboa no Dragão Caixa e sem que nenhum ataque ao seu clube tivesse vindo da parte do FC Porto. Quero apenas dizer que jamais, também, tinha escutado uma tamanha declaração de injúrias, insultos e incitamento público ao ódio por parte de um dirigente desportivo. E é sintomático que, até hoje, não tenha lido um único comentário sobre isso na im- prensa desportiva da capital. E gostaria de acrescentar outra coisa: o Luís Filipe Vieira, que eu conheço e aprecio, não é aquele senhor que leu aquele comentário. E por isso, volto ao princípio deste texto: não há campeonato, nem jogo, nem paixão clubística, nem eleição no horizonte que justifique que se perca a cabeça ao ponto de esquecer os valores de vida em sociedade que são os nossos. Até porque tudo passa, até o que é importante: Luís Filipe Vieira e Pinto da Costa hão-de passar ambos, como eu e qualquer um de nós. E o Benfica e o Porto hão de continuar e os seus adeptos hão-de continuar a querer ir aos jogos entre eles, celebrar as vitórias ou encaixar as derrotas, sem este clima de intimidação, ameaça e ódio à flor da pele, que não tem nada a ver com desporto, nem com a sua caricatura. Imaginem, como dizia o John Lennon, imaginem por um momento que, findo o jogo no Dragão, a equipa do Benfica, comandada pelo seu treinador e depois dos abraços de vitória, se voltava para o público e o aplaudia? Imaginem que dia bonito que teria sido para a história do Benfica e do desporto em Portugal!
Gostaria de começar por dizer que o futebol, o desporto, em geral, praticado pelos outros e a paixão clubística, não são, nunca foram e jamais serão parte importante ou decisiva da minha vida. Conforme os casos, sempre tive a maior pena ou desdém por aqueles que fazem da paixão clubística o alfa e o ómega das suas vidas. Que são capazes de perder dias inteiros a espreitar os treinos dos seus clubes ou apenas a admirar as bombas automobilísticas dos seus ídolos, de perder horas de discussão à mesa dos cafés por causa do penalty assim ou do off-side assado, de irem descarregar ódios e frustrações outras para os infectos blogues da net, e que, no limite, confundem os pobres valores do desporto profissional com os seus valores de vida. Sempre entendi que este mundo não é o mundo de gente com outros interesses, com valor e com valores, e dou graças à minha lucidez por nunca me ter sentido tentado a experimentar o chamado dirigismo desportivo ou a integrar aqueles deprimentes painéis futebolísticos da televisão, onde jamais se fala de futebol e apenas de arbitragens ( e para os quais, em verdade, apenas fui convidado uma vez, mas sumptuosamente pago, se tivesse aceite). Vejo com alguma curiosidade e preocupação a participação, por exemplo, de um Eduardo Barroso em ambas as actividades e, se não for demasiada presunção da minha parte, julgo detectar-lhe por vezes um mal-estar que ele próprio sentirá. Até porque aquilo está formatado para incentivar os discursos de cabeça quente, as afirmações sem reflexão e até o ódio. Acontece que o Eduardo Barroso é alguém a quem o país deve, alguém que pôs de pé um serviço clínico pioneiro e de vanguarda, aqui e no mundo inteiro, que salva vidas e faz coisas bem mais importantes do que dar chutos numa bola. E, sobre isso ainda, pelo pouco que dele conheço, é um homem livre, culto, inteligente, apaixonado pela vida. Compreendo que ele e outros se sintam um dia tentados a saltar para o outro lado, desejando ajudar o seu clube do coração. Mas há um preço e todos o sabemos: quando se passa da bancada para o camarote presidencial é forçoso ter de passar a conviver com gente que não convidaríamos para jantar em nossa casa e a quem tudo o que nos une é um acidente: a partilha do mesmo amor clubístico. Eu sei que ele sabe em quem eu estou agora a pensar. Mas, seja no Sporting, no Benfica ou no FC Porto, os camarotes presidenciais estão cheios de gente que não se recomenda.
Tudo isto a propósito da final do basquete, cuja apreciação vou dividir em três partes: Sport, Lisboa e Benfica.
SPORT
Depois de uma época em que o FC Porto ganhou folgadamente o campeonato nacional em todas as modalidades profissionais que o clube pratica (futebol, basquete, andebol e hóquei), esta época era decisiva para o Benfica conseguir estancar o massacre. Perdeu o futebol e o andebol, está à frente por um ponto no hóquei e, depois de uma fase regular em que se viu batido pelo FC Porto, chegou à situação de ter de ir ganhar a negra do play-off em pleno Dragão. Infelizmente, outros afazeres mais importantes (aí está...) impediram-me de ver o jogo, mas confio na justiça do triunfo benfiquista nesse jogo. E digo apenas nesse jogo, porque acho que o FC Porto teve algum azar na fase final e decisiva do campeonato. Primeiro, porque tendo ultrapassado com autoridade os quartos de final, viu-se subitamente sem adversário nas meias, devido à insólita desistência do CAB, arrastado pela falência estrondosa do governo modelo de Alberto João Jardim na Madeira. Assim, na fase em que as equipas são preparadas para atingirem o máximo da competitividade, o FC Porto ficou uns quinze dias sem jogar, à espera do adversário para a final. Depois, porque, tendo ganho sem sobressalto dois jogos do play-off, viu-se batido noutros dois pela diferença de um ponto e dois pontos e, no quinto e decisivo jogo, por três pontos. Mas, como disse, nem eu contesto o título do Benfica, nem ninguém do Porto o contestou. Parabéns aos novos campeões.
LISBOA
Na quinta-feira, ao almoço, tendo como única fonte os jornais desportivos da capital, dei os parabéns a um amigo benfiquista e acrescentei: «Parece que, ainda por cima, perdemos mal, perdemos à Benfica!». Mas, ao fim do dia, tudo tinha mudado: só nos haviam contado uma parte da verdade, a verdade que lhes é conveniente.
Meus caros amigos: dêem as voltas ao texto que quiserem, as imagens que vimos não são como as do túnel da Luz, onde só os juízes do Benfica conseguiram enxergar graves agressões. Estas são claras e nítidas e não têm duas interpretações: mal o árbitro acabou o jogo, os jogadores do Benfica juntaram-se no centro a festejar com o seu treinador - o que era mais do que legítimo. Mas, entretanto, o roupeiro do Benfica atirava uma toalha aos adeptos do Porto (e não era uma camisola autografada nem um cumprimento) e o treinador do Benfica fazia, varias vezes, um gesto que, não sendo motivado por uma súbita comichão na zona dos fundilhos das calças, só podia significar aquilo que todos percebemos: «Vão levar no c...». A frio, cinco dias depois, digo que, em cinquenta anos a ver desporto e transmissões televisivas no mundo inteiro, nunca tinha visto coisa tão rasca, tão ordinária, tão reles, vinda de um treinador. Se fosse na NBA, Carlos Lisboa acabava já aqui a sua curta carreira de treinador. Aliás, e para quem acha que graves foram os incidentes causados pelos adeptos portistas, digo-vos que foi uma sorte que o público de um pavilhão onde os espectadores estão praticamente em cima do terreno de jogo tenha reagido tão brandamente a provocações daquelas. Dizem que houve cadeiras pelo ar, mas eu não as vi — pelo menos enquanto a equipa do Benfica ali estava. E li, sim, o capitão do Benfica dizer que o que tinha sido arremessado foram «moedas e garrafas de plástico» e que nunca se apercebeu que alguém tivesse tentado forçar a entrada na cabina do Benfica.
Depois, entrou em cena a policia de choque, mas eu também não vi as imagens. Li comentários a dizer muito mal de Pinto da Costa, por estar de dedo em riste para os polícias, e ouvi o presidente do Benfica apoiar implicitamente a actuação da polícia, enquanto a Direcção do FC Porto falava em agressões gratuitas sobre espectadores indefesos, incluindo crianças. Não sei quem fala verdade, mas a experiência histórica diz-me que se há coisa que não mudou com a democracia foi a irresistível apetência da polícia de choque para carregar à bastonada sobre quem não a ameaça como vários exemplos recentes o testemunham e que, quando atingiram jornalistas, muito indignou a respectiva classe.
E há outra coisa que sei: se um presidente de um clube acha que está a assistir a agressões gratuitas e desnecessárias da polícia sobre os adeptos do seu clube, compete-lhe fazer o que fez Pinto da Costa e a sua Direcção: saltar lá para dentro e tentar parar com a acção policial. Ou preferem jogos sem espectadores e só com polícias?
E BENFICA
Nesse mesmo dia à noite, assisti, estarrecido, a um depoimento escrito(?) e lido pelo presidente do Benfica — já depois de serem conhecidas as esclarecedoras imagens do comportamento de Carlos Lisboa no Dragão Caixa e sem que nenhum ataque ao seu clube tivesse vindo da parte do FC Porto. Quero apenas dizer que jamais, também, tinha escutado uma tamanha declaração de injúrias, insultos e incitamento público ao ódio por parte de um dirigente desportivo. E é sintomático que, até hoje, não tenha lido um único comentário sobre isso na im- prensa desportiva da capital. E gostaria de acrescentar outra coisa: o Luís Filipe Vieira, que eu conheço e aprecio, não é aquele senhor que leu aquele comentário. E por isso, volto ao princípio deste texto: não há campeonato, nem jogo, nem paixão clubística, nem eleição no horizonte que justifique que se perca a cabeça ao ponto de esquecer os valores de vida em sociedade que são os nossos. Até porque tudo passa, até o que é importante: Luís Filipe Vieira e Pinto da Costa hão-de passar ambos, como eu e qualquer um de nós. E o Benfica e o Porto hão de continuar e os seus adeptos hão-de continuar a querer ir aos jogos entre eles, celebrar as vitórias ou encaixar as derrotas, sem este clima de intimidação, ameaça e ódio à flor da pele, que não tem nada a ver com desporto, nem com a sua caricatura. Imaginem, como dizia o John Lennon, imaginem por um momento que, findo o jogo no Dragão, a equipa do Benfica, comandada pelo seu treinador e depois dos abraços de vitória, se voltava para o público e o aplaudia? Imaginem que dia bonito que teria sido para a história do Benfica e do desporto em Portugal!
sábado, maio 04, 2013
CONTAS FINAIS (22 MAIO 2012)
1- O fim-de-semana fechou uma série de contas pendentes e o saldo final pendeu mais para os lados dos Davids contra os Golias, do imprevisto contra o previsível. Em Portugal, a final da Taça escapou das mãos triunfantes dos sportinguistas, que já a erguiam, e, após um interregno de 72 anos, transformou-se no segundo troféu nacional de toda a história dessa gloriosa Associação Académica. Também em Itália, o Nápoles renasceu de vinte anos de escuridão, desde os tempos de Maradona, para arrebatar a Taça ao recém campeão Juventus, impedindo-lhe assim a dobradinha. Em França, um desconhecido Montpellier conseguiu na última jornada, e pela primeira vez na sua história, ganhar o título de campeão, sonegado ao multimilionário PSG, do xeque Mansour (36 milhões de orçamento anual do novo campeão contra 130 apenas gastos em aquisições pelo PSG).
E, em Munique, nove anos e 2500 milhões de euros mais tarde, o emergente da catastroika Roman Abramovich, tendo pela segunda vez despedido um treinador português a meio da competição, conseguiu ver o seu adjunto levar outra vez o Chelsea à final e à decisão por penalties. Só que desta vez não havia um diletante Anelka para cobrar o penalty em tom displicente, permitindo a defesa de Van der Sar e a entrega do troféu ao Man. United. Desta vez, e jogando no estádio do adversário, o bem mais poderoso, futebolísticamente, Bayern de Munique, o Chelsea resistiu a tudo - a um golo, que parecia decisivo, aos 82 minutos, ironicamente marcado pelo pior jogador do Bayern, Thomas Muller, através de um cabeceamento falhado, resistiu a um penalty falhado de Robben, já no prolongamento (o mesmo acontecera a Messi, na meia final, em Barcelona). E acabou por ganhar no desempate por penalties, numa vitória injusta, feia quanto o é o seu futebol e apenas tornada possível pelos dois foras-de-série que ainda moram em Stamford Bridge: o guarda redes Petr Cech e o marfinense Didier Drogba, o melhor ponta-de-lança da última década da história do futebol. Dá-me ideia de que aquilo que levou o insignificante Di Matteo a conseguir triunfar onde Mourinho e Villas Boas (sobretudo este) falharam, é que ele não se preocupou em jogar para a plateia ou para os pergaminhos: percebeu que, apesar de todos os milhões do russo, o Chelsea não tinha jogadores nem equipa para fazer figura de grande senhor na Europa dos poderosos. Com o campeonato já praticamente perdido quando recebeu a equipe do portugues, Di Matteo concentrou-se apenas na Liga dos Campeões e em jogar apenas para o resultado. Em nenhum momento dos quartos-de-final pareceu superior ao Benfica, apenas mais letal; na meia-final com o Barcelona, embora tivesse encontrado os catalães já desgastados por uma grande época, não deve ter tido mais do que um jogador durante meia-hora para além da linha do meio campo, em 180 minutos de eliminatória: defendeu forte e feio e confiou em que uma só oportunidade de golo seria suficiente para Drogba resolver tudo. E a mesma receita aplicou na final contra o Bayern, com os mesmos felizes resultados. Há muito que não havia um campeão europeu tão pouco entusiasmante como este Chelsea de Abramovich e Di Matteo.
Restou-nos a nós (não a todos, enfim...), o orgulho de portugueses de ver a enorme exibição de Pedro Proença: rigorosa, incontroversa, elegante e sem exibicionismos. Mas quem viu, por exemplo, as inúmeras fitas do Capel na final do Jamor no dia seguinte, ou as já habituais cotoveladas impunes do João Pereira, os protestos do banco do Sporting a toda e qualquer decisão do árbitro Pedro Baptista que não eram favoráveis ao Sporting, percebe bem por que razão os árbitros portugueses se saem melhor no estrangeiro.
2- Já na final inédita do Jamor, as forças estavam ainda mais desequilibradas, tanto mais que, enquanto que a Académica tinha acabado de conseguir o seu grande objectivo da época — a permanência, obtida in articulo mortis — já o Sporting jogava ali a única oportunidade de ganhar qualquer coisa nos últimos anos e depois de uma época em que tanto prometera e anunciara. Pareceu-me, mas talvez tenha sido impressão minha, que os sportinguistas encararam a final num certo tom de favas contadas que, tradicionalmente, acaba por ser a razão primeira dos seus fiascos. E, assim parecendo, mais infelizes foram ainda as declarações de véspera de Sá Pinto sobre Adrien, o jogador que iria jogar a final emprestado pela Académica. Dizer que ele não tinha o direito de se mostrar optimista quanto ao desfecho do jogo, pois que era jogador do Sporting e era o Sporting que lhe pagava o ordenado, só tem uma interpretação possível e muito feia: que o Sporting esperava que Adrien fosse mais fiel ao patrão do que à verdade desportiva, à camisola e aos companheiros e treinador com que ia disputar a final. Antes da Batalha de Trafalgar, Nelson fez a sua célebre proclamação aos marinheiros embarcados, dizendo-lhes que a Inglaterra esperava que cada um cumprisse o seu dever para com ele. Antes do Jamor, Sá Pinto ensaiou uma variante: o Sporting esperava que cada um cumprisse o seu dever para com ele, inclusive os que iam jogar pelo adversário. Não há dúvida de que ultimamente o fair play anda muito esquecido pelas bandas do viscondado de Alvalade...
A Académica mereceu levar a Taça para Coimbra. Porque fez um melhor caminho até ao Jamor, com destaque para a histórica eliminação do FC Porto por 3-0, enquanto que o Sporting só lá chegou porque, por exemplo, teve duas arbitragens muito simpáticas nos dois jogos das meias-finais com o Nacional (dessas que nenhum sportinguista regista para memória futura). E porque, no jogo da final, a Académica mostrou melhor atitude e até melhor futebol até à linha de meio-campo. Daí para a frente é que não existiu, quase. Mesmo assim, quando surgiu a primeira oportunidade de golo criada pelo Sporting, já a Académica podia estar a ganhar por 3-0, se Edinho não tivesse conseguido a proeza de falhar dois golos feitos, um deles de forma verdadeiramente inacreditável. Um ressalto, uma bola de sorte, uma de cisão errada do árbitro, uma boa execução de bola parada, qualquer factor desses podia sempre alterar o jogo a favor do Sporting. Mas a verdade é que, fora uma possibilidade dessas (que existe para os dois lados), em nenhum momento o Sporting mostrou futebol suficiente para justificar a conquista da Taça. E, para quem ainda se lembra bem da jogatana que o FC Porto ali fez, há um ano atrás, esmagando o Vitória de Guimarães por 6-2 (e o 7-2 mal anulado), com um futebol que jamais voltei a ver esta época, em lado algum...
3- Enfim, há prémios de consolação para todos: se o FC Porto voltou a ganhar o campeonato de futebol que mais interessa - o dos seniores - o Sporting ficou com o dos juniores, o Porto com o dos juvenis e o Benfica com o dos iniciados. Vale o que vale, embora não seja grande coisa, pois é sabido que (menos no Sporting do que nos outros) as jovens esperanças saídas deste campeonato costumam ter como destino inelutável a emigração ou o empréstimo a clubes menores, onde a sua formação ao mais alto nível competitivo é irremediavelmente interrompida. Quando assim não sucede , a excepção é de tal forma realçada que aí temos o caso notável digno do Guiness, de termos um ponta-de-lança chamado por Paulo Bento para a fase final do Europeu, o Nelson Oliveira, que tem a particularidade extraordinária de jamais ter marcado um golo na Liga portuguesa ou qualquer outra. Também não admira, visto ser jogador do Benfica: um clube português que, em trinta jogos do campeonato, não teve um só golo marcado por um português!
4- E depois admiram-se por estarem arruinados. E escandalizam-se porque a Olivedesportos e a televisão só lhes paga uma ninharia pelas transmissões. Rangem os doentes, falam alto e ameaçam. E depois descobrem que o nosso mercado publicitário é tão fraco que nos arriscamos, para a época que vem, a não ter nenhum jogo do campeonato em sinal aberto, pelas simples razão de que nenhuma das três televisões quer concorrer ao negócio, supostamente fabuloso.
5- O Benfica perdeu dois campeonatos que contava ganhar facilmente: o futebol para o FC Porto e o vólei (onde os portistas não competem) para o Sp. Espinho (depois do Fonte Bastarda!). E perdeu o andebol para o FC Porto.
Mas nem tudo está ainda perdido: amanhã, no Dragão Caixa, pode roubar o título do basquete ao FC Porto, na negra do play-off. E, no hóquei em patins, está a um passo de interromper o infernal círculo de dez campeonatos consecutivos do FC Porto. Se não conseguir evitar a repetição destes últimos dois títulos pelos portistas, será uma época igualzinha à anterior — e a outras anteriores. Malditas arbitragens!
E, em Munique, nove anos e 2500 milhões de euros mais tarde, o emergente da catastroika Roman Abramovich, tendo pela segunda vez despedido um treinador português a meio da competição, conseguiu ver o seu adjunto levar outra vez o Chelsea à final e à decisão por penalties. Só que desta vez não havia um diletante Anelka para cobrar o penalty em tom displicente, permitindo a defesa de Van der Sar e a entrega do troféu ao Man. United. Desta vez, e jogando no estádio do adversário, o bem mais poderoso, futebolísticamente, Bayern de Munique, o Chelsea resistiu a tudo - a um golo, que parecia decisivo, aos 82 minutos, ironicamente marcado pelo pior jogador do Bayern, Thomas Muller, através de um cabeceamento falhado, resistiu a um penalty falhado de Robben, já no prolongamento (o mesmo acontecera a Messi, na meia final, em Barcelona). E acabou por ganhar no desempate por penalties, numa vitória injusta, feia quanto o é o seu futebol e apenas tornada possível pelos dois foras-de-série que ainda moram em Stamford Bridge: o guarda redes Petr Cech e o marfinense Didier Drogba, o melhor ponta-de-lança da última década da história do futebol. Dá-me ideia de que aquilo que levou o insignificante Di Matteo a conseguir triunfar onde Mourinho e Villas Boas (sobretudo este) falharam, é que ele não se preocupou em jogar para a plateia ou para os pergaminhos: percebeu que, apesar de todos os milhões do russo, o Chelsea não tinha jogadores nem equipa para fazer figura de grande senhor na Europa dos poderosos. Com o campeonato já praticamente perdido quando recebeu a equipe do portugues, Di Matteo concentrou-se apenas na Liga dos Campeões e em jogar apenas para o resultado. Em nenhum momento dos quartos-de-final pareceu superior ao Benfica, apenas mais letal; na meia-final com o Barcelona, embora tivesse encontrado os catalães já desgastados por uma grande época, não deve ter tido mais do que um jogador durante meia-hora para além da linha do meio campo, em 180 minutos de eliminatória: defendeu forte e feio e confiou em que uma só oportunidade de golo seria suficiente para Drogba resolver tudo. E a mesma receita aplicou na final contra o Bayern, com os mesmos felizes resultados. Há muito que não havia um campeão europeu tão pouco entusiasmante como este Chelsea de Abramovich e Di Matteo.
Restou-nos a nós (não a todos, enfim...), o orgulho de portugueses de ver a enorme exibição de Pedro Proença: rigorosa, incontroversa, elegante e sem exibicionismos. Mas quem viu, por exemplo, as inúmeras fitas do Capel na final do Jamor no dia seguinte, ou as já habituais cotoveladas impunes do João Pereira, os protestos do banco do Sporting a toda e qualquer decisão do árbitro Pedro Baptista que não eram favoráveis ao Sporting, percebe bem por que razão os árbitros portugueses se saem melhor no estrangeiro.
2- Já na final inédita do Jamor, as forças estavam ainda mais desequilibradas, tanto mais que, enquanto que a Académica tinha acabado de conseguir o seu grande objectivo da época — a permanência, obtida in articulo mortis — já o Sporting jogava ali a única oportunidade de ganhar qualquer coisa nos últimos anos e depois de uma época em que tanto prometera e anunciara. Pareceu-me, mas talvez tenha sido impressão minha, que os sportinguistas encararam a final num certo tom de favas contadas que, tradicionalmente, acaba por ser a razão primeira dos seus fiascos. E, assim parecendo, mais infelizes foram ainda as declarações de véspera de Sá Pinto sobre Adrien, o jogador que iria jogar a final emprestado pela Académica. Dizer que ele não tinha o direito de se mostrar optimista quanto ao desfecho do jogo, pois que era jogador do Sporting e era o Sporting que lhe pagava o ordenado, só tem uma interpretação possível e muito feia: que o Sporting esperava que Adrien fosse mais fiel ao patrão do que à verdade desportiva, à camisola e aos companheiros e treinador com que ia disputar a final. Antes da Batalha de Trafalgar, Nelson fez a sua célebre proclamação aos marinheiros embarcados, dizendo-lhes que a Inglaterra esperava que cada um cumprisse o seu dever para com ele. Antes do Jamor, Sá Pinto ensaiou uma variante: o Sporting esperava que cada um cumprisse o seu dever para com ele, inclusive os que iam jogar pelo adversário. Não há dúvida de que ultimamente o fair play anda muito esquecido pelas bandas do viscondado de Alvalade...
A Académica mereceu levar a Taça para Coimbra. Porque fez um melhor caminho até ao Jamor, com destaque para a histórica eliminação do FC Porto por 3-0, enquanto que o Sporting só lá chegou porque, por exemplo, teve duas arbitragens muito simpáticas nos dois jogos das meias-finais com o Nacional (dessas que nenhum sportinguista regista para memória futura). E porque, no jogo da final, a Académica mostrou melhor atitude e até melhor futebol até à linha de meio-campo. Daí para a frente é que não existiu, quase. Mesmo assim, quando surgiu a primeira oportunidade de golo criada pelo Sporting, já a Académica podia estar a ganhar por 3-0, se Edinho não tivesse conseguido a proeza de falhar dois golos feitos, um deles de forma verdadeiramente inacreditável. Um ressalto, uma bola de sorte, uma de cisão errada do árbitro, uma boa execução de bola parada, qualquer factor desses podia sempre alterar o jogo a favor do Sporting. Mas a verdade é que, fora uma possibilidade dessas (que existe para os dois lados), em nenhum momento o Sporting mostrou futebol suficiente para justificar a conquista da Taça. E, para quem ainda se lembra bem da jogatana que o FC Porto ali fez, há um ano atrás, esmagando o Vitória de Guimarães por 6-2 (e o 7-2 mal anulado), com um futebol que jamais voltei a ver esta época, em lado algum...
3- Enfim, há prémios de consolação para todos: se o FC Porto voltou a ganhar o campeonato de futebol que mais interessa - o dos seniores - o Sporting ficou com o dos juniores, o Porto com o dos juvenis e o Benfica com o dos iniciados. Vale o que vale, embora não seja grande coisa, pois é sabido que (menos no Sporting do que nos outros) as jovens esperanças saídas deste campeonato costumam ter como destino inelutável a emigração ou o empréstimo a clubes menores, onde a sua formação ao mais alto nível competitivo é irremediavelmente interrompida. Quando assim não sucede , a excepção é de tal forma realçada que aí temos o caso notável digno do Guiness, de termos um ponta-de-lança chamado por Paulo Bento para a fase final do Europeu, o Nelson Oliveira, que tem a particularidade extraordinária de jamais ter marcado um golo na Liga portuguesa ou qualquer outra. Também não admira, visto ser jogador do Benfica: um clube português que, em trinta jogos do campeonato, não teve um só golo marcado por um português!
4- E depois admiram-se por estarem arruinados. E escandalizam-se porque a Olivedesportos e a televisão só lhes paga uma ninharia pelas transmissões. Rangem os doentes, falam alto e ameaçam. E depois descobrem que o nosso mercado publicitário é tão fraco que nos arriscamos, para a época que vem, a não ter nenhum jogo do campeonato em sinal aberto, pelas simples razão de que nenhuma das três televisões quer concorrer ao negócio, supostamente fabuloso.
5- O Benfica perdeu dois campeonatos que contava ganhar facilmente: o futebol para o FC Porto e o vólei (onde os portistas não competem) para o Sp. Espinho (depois do Fonte Bastarda!). E perdeu o andebol para o FC Porto.
Mas nem tudo está ainda perdido: amanhã, no Dragão Caixa, pode roubar o título do basquete ao FC Porto, na negra do play-off. E, no hóquei em patins, está a um passo de interromper o infernal círculo de dez campeonatos consecutivos do FC Porto. Se não conseguir evitar a repetição destes últimos dois títulos pelos portistas, será uma época igualzinha à anterior — e a outras anteriores. Malditas arbitragens!