1- A três jogos do fim do campeonato, tudo parece indicar que les jeux sont faits: o Benfica já não roubará o título ao FC Porto, o SC Braga já não ameaçará o segundo lugar e a entrada directa na Champions do Benfica, e o Sporting não alcançará o terceiro lugar do Braga e o último a poder dar acesso à mais lucrativa prova internacional, no ano que vem. E, bem vistas as coisas, eu penso que esta hierarquia dos quatro primeiros reflecte aquilo que aconteceu ao longo de uma prova que, nunca é de mais lembrá-lo, se disputa em trinta jornadas, e não em quinze, vinte ou vinte e cinco. De nada serve ter sido episodicamente o melhor e o mais credível candidato, ou até, como gostam de proclamar os benfiquistas, de ter jogado o melhor futebol visto no decorrer da Liga, se depois não há pedalada para aguentar a luta até final e não fraquejar na hora da verdade.
No momento em que celebra trinta anos de uma presidência que é já mítica, com um rol de triunfos em todas as modalidades e todos os escalões nunca visto nem imaginado possível, Pinto da Costa prepara-se para, uma vez mais, conquistar o principal título do principal desporto que move os portugueses. Mais um título que nos afasta ainda mais do Benfica em número total de títulos do futebol e que nos aproxima mais na incrível recuperação encetada trinta anos atrás no número de campeonatos nacionais conquistados - até ao dia, que eu espero viver ainda, em que o FC Porto tenha mais campeonatos nacionais de futebol do que o Benfica.
Para celebrar este número redondo e impressionante de anos na presidência do clube, Pinto da Costa teria merecido mais uma época como a do ano passado, em que o clube praticamente ganhou tudo o que havia para ganhar no futebol e ainda juntou ao futebol os títulos de campeão nacional em todas as modalidades profissionais praticadas basquetebol, andebol, hóquei. Esta época, e embora não esteja de modo algum afastada a possibilidade de repetir os triunfos nas quatro modalidades profissionais, o futebol ficará, todavia, muito aquém da época passada em que, nesta altura, estávamos a disputar a final da liga Europa e da Taça de Portugal, que acabaríamos por vencer, e estávamos já consagrados campeões nacionais, depois do histórico triunfo na Luz, seguido de chuveiro em pleno relvado.
Esta época, depois da previsível perca da Supertaça Europeia frente ao Barcelona, e depois das frustrantes eliminações na Liga dos Campeões, Liga Europa, Taça de Portugal e Taça da Liga, os portistas preparam-se para festejar, vá lá, um campeonato nacional que sabe a pouco e sabe a coisa imprevista, pois que durante mais tempo ele pareceu mais perdido do que achado. Por exclusão de partes e erros alheios, vai ser um campeonato ganho com justiça mas sem o brilhantismo nem a autoridade de outros tempos. Nem por isso deixa de ser mais um campeonato conquistado e, só por ser conquistado ao Benfica, dobra de prazer.
No caminho para um título que já não parece poder escapar, lá se venceu o Beira-Mar, com uma exibicão que não foi boa nem má, mas que chegou e sobejou para um triunfo justíssimo. O Beira-Mar, de facto, apenas teve uma oportunidade de golo — se se puder classificar como tal uma jogada em que o avançado aveirense, em lugar de servir um companheiro isolado, preferiu rematar à baliza. O penalty que dava a vantagem de 1-0 ao intervalo, apesar dos esforços dos comentadores da TVI, existiu mesmo e cortou uma jogada de golo iminente. E mesmo o cerrado critério disciplinar do árbitro com os jogadores portistas (três cartões amarelos em quatro faltas cometidas pela equipa até ao minuto 50!), não impediu que se corressem os riscos necessários para assegurar a vitória. Muito bem jogou Hulk, uma vez mais decisivo, mas também Alex Sandro e James; razoavelmente bem jogaram Helton, Sapunaru, Maicon, Fernando e Danilo; assim assim jogaram Otamendi, Lucho, e Moutinho (muitos passes falhados); e mal jogaram Deffour, Janko e Varela, qualquer deles confirmando aquilo que deu para ver ao longo de toda a época: que não têm valor para a equipa campeã nacional. Dentro de um mês e pouco, quando abrir a época das transferências, vai ser absolutamente decisivo saber geri-la com pinças para não se cometerem os mesmos erros de há um ano atrás — o mais gritante dos quais foi ler formado um plantel que é o pior servido de pontas-de-lança entre todas as dezasseis equipas que participam na Liga.
2- O Barcelona-Real Madrid foi talvez o jogo mais visto da época à escala planetária. No Brasil, onde me encontrava no sábado, e apesar de ser dia de um Vasco-Flamengo para as meias finais da Taça do Rio, as televisões não faziam mais nada o dia inteiro do que falar do derby espanhol e multiplicar as antevisões ao jogo - uma das quais, felizmente, viriam a falhar: a de que, no final e como habitualmente, Mourinho se queixaria da arbitragem.
De facto, José Mourinho não teve razões para se queixar do árbitro nem de coisa alguma. A sua equipa entrou determinada, motivada e sem medo no jogo, e essa entrada foi decisiva para evitar que o Barça instalasse desde logo o seu habitual carrossel de endoidecer merengues. Mourinho precisava desta vitória mata-fantasmas e sem a qual o título não teria o mesmo sabor. Agora, ele prepara-se para uma proeza única nos anais do futebol europeu que é a de ser campeão em quatro países diferentes e, de facto, só lhe falta a Alemanha para poder dizer que ganhou todos os principais campeonatos europeus. E, se conseguir afastar o Bayern (o que não vai ser nada fácil), chegará à sua terceira final da Liga dos Campeões por três equipas de países diferentes. Este bem pode ser mais um ano de José Mourinho. Se juntar ao título espanhol o título europeu, Mourinho terá conseguido ainda o mais difícil de tudo: abalar, pela primeira vez, a hegemonia do Barcelona de Guardiola, que se diria inabalável nos tempos mais próximos.
Num jogo que, em minha opinião, defraudou largamente as expectativas, foi bom ver mais outros três portugueses em plano de destaque: o meio-português Pepe, seguro e sem manifestações de destrambelhamento que por vezes o comprometem; Fábio Coentrão, agora menos loiro e mais discreto; e, claro, Cristiano Ronaldo, a vencer Messi, a chegar ao inacreditável número de 42 golos apontados na Liga, e autor do golo decisivo - um golo à Ronaldo, tirando partido de uma saída extemporânea de Valdez, para usar as suas duas armas letais, a velocidade e o remate, ultrapassando o guarda-redes e chutando nas costas dele (na mesma situação, muito provavelmente, Messi teria optado por um chapéu ou uma finta para dentro, rematando depois).
Foi uma jornada completamente portuguesa, a de Barcelona. E eu, que sou adepto do Barcelona, grande admirador desse senhor e cavalheiro que é Pep Guardiola e que de há muito aqui escrevo que o pequeno Lionel Messi é o melhor jogador de futebol que os meus olhos já viram, eu que não sou de patrioteirismos idiotas, fiquei contente porque ganhou quem mereceu e orgulhoso porque ali estavam portugueses a lembrar ao mundo que não somos apenas um país falido. Agora, o resto já não subscrevo: por exemplo, a vitória sobre «a arrogância catalã» como escreveu o José Manuel Delgado. Qual arrogância catalã? A de ter dado os parabéns ao Real Madrid por uma vitória e um título merecidos, como fez Guardiola? Ou a de se ter rebelado contra Madrid, em 1640, tal como nós o fizemos?
3- O que concluí da leitura da entrevista de Godinho Lopes ao Record é que ele tem medo de Paulo Pereira Cristóvão. Descobrir porquê é a chave da questão.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
sexta-feira, março 22, 2013
quinta-feira, março 21, 2013
MÃO NA BOLA E MÃO NA MASSA (17 ABRIL 2012)
1- Aproveito a interrupção do futebol a sério, para a disputa da final do Torneio Sport Lisboa e Baptista, para falar com mais tempo e espaço de um tema que já tenho aflorado várias vezes: a epidemia dos penalties por bola na mão.
Durante o recente SC Braga-FC Porto, Álvaro Pereira, querendo evitar um cruzamento para a sua área, estendeu a perna para cortar a passagem da bola, já em desequilibrio. E a bola, cruzada a não mais de três metros de distância, bateu-lhe na perna e dai ressaltou para o braço, sem que ele pudesse, humanamente, evitá-lo: livre e cartão amarelo, decidiu o árbitro (por sorte do FC Porto, a jogada não foi dentro da área ou o jogo podia ter tido outro desfecho). Ora, esta decisão da arbitragem é totalmente absurda, não tem qualquer sustentação na lei nem nas regras da FIFA e resulta apenas de uma doutrina perniciosa que se vem instalando entre nós, com o apoio militante da imprensa e dos comentadores dos jogos. Mas que, de facto, desvirtua as regras do jogo e, não poucas vezes, tem desvirtuado resultados. Antes de prosseguir na minha tese, e para beneficio de discussão, convém recordar o que diz a lei e como a interpreta a FIFA.
O que a lei original diz é simples e vem na regra 12: «Constitui infracção punível com livre directo jogar a bola com a mão.» Porem, e tal como sucedeu com a Constituição dos Estados Unidos, as poucas e simples regras originais (que, aparentemente, o bom senso e a boa fé chegariam para interpretar), tiveram de ser acrescentadas por sucessivas decisões doutrinais, que acabaram a confirmar nada mais do que o espírito original da lei. E foi assim, que eu, por exemplo, cresci com uma interpretação desta regra que foi, durante muito tempo, inteiramente pacifica: «jogar a bola com a mão», implica também o braço; e «jogar a bola» implica uma atitude voluntária (assim como, se um jogador dominar a bola com o peito ou o usar para passar a bola a um companheiro, ele jogou a bola; mas se esta apenas foi chutada contra o seu peito, sem responsabilidade sua, ele não jogou a bola com o peito). Na lei 12 trata-se do mesmo principio: jogar a bola com o braço ou mão, pressupõe uma atitude voluntária, um movimento do braço ou da mão em direcção à bola. Ficar estático e simplesmente levar com a bola no braço ou na mão não é falta.
Diz a versão brasileira da lei 12 [site da CBF]: «...Também será concedido tiro de livre directo se um jogador.., tocar na bola com as mãos intencionalmente...»
E diz a versão portuguesa [site da Liga de Clubes]: «Tocar a bola com as mãos implica um acto de liberado, em que o jogador toma contacto com a bola com as mãos ou os braços.»
«Intencionalmente» ou «deliberadamente»: com ou sem Acordo Ortográfico, toda a gente entende que, tanto portugueses como brasileiros exigem o mesmo: um acto voluntário de um jogador em jogar com a mão ou o braço. Mas, para que dúvidas não restem (a não ser aos que as querem manter), o texto da Liga de Clubes, seguindo as instruções da FIFA, explicita que, para assinalar ou não a falta, o árbitro «deve ter em consideração os seguintes critérios:
- o movimento da mão na direcção da bola (e não a bola na direcção da mão);
- a distancia entre o adversário e a bola (bola inesperada);
- que a posição da mão não pressupõe necessariamente uma infracção.»
A esta luz, é curioso analisar o célebre penalty que o árbitro, segundo todas as opiniões, terá deixado de marcar contra o Chelsea na Luz, por mão do John Tcrry. Recordemos: perante um centro iminente de Gaitan, Terry fez-se ao lance de braços bem abertos, ostensivamente abertos; a bola, cruzada por Gaitan, foi bater num dos braços de John Terry, que, todavia, não os mexeu. Isto, para a totalidade da critica foi penalty evidente, que o árbitro só não mareou porque não quis, como disse Jorge Jesus (e até se comparou com lance idêntico, em que David Luiz enfrentou um outro cruzamento de um jogador benfiquista com os braços deliberadamente atrás das costas).
Pois bem, a verdade é que, face ao que reza a lei, o árbitro não marcou o penalty, não porque não quis, mas porque não era penalty. «A posição das mãos ou dos braços não pressupõe necessariamente uma infracção.»: John Terry podia ter colocado os braços na posição que quisesse, antes de a bola partir; se os tivesse aberto depois da bola partir, ai sim, é que o arbitro tinha que pressupor um gesto, um movimento, uma atitude deliberada de cortar a bola com a mão, John Terry estava certíssimo no que fez e que só mostra que conhece bem as regras do futebol; David Luiz é que estava errado: não precisa de recolher os braços atrás do corpo para, previamente, afastar suspeitas. E os críticos e comentadores, peço desculpa de o dizer, deviam conhecer melhor as leis do futebol, antes de partirem para conclusões inflamadas e ditadas, não por razão, mas por paixão. E estou à vontade para o dizer porque sempre defendi esta interpretação e, nomeadamente, quando, ao arrepio de alguma critica, sustentei que a bola no braço de Cardozo, dentro da área, no último Benfica-FC Porto, não foi penalty.
Esta questão torna-se importante porque cada vez mais se acentua aquilo que já é uma óbvia estratégia planeada de algumas equipas para apostarem deliberadamente nesta espécie inventada de penalties, tentando, por sistema, jogar a bola em direcção às mãos ou braços dos adversários. Foi desta forma, com uma quantidade inimaginável de livres e penalties assim sacados (incluindo o penalty decisivo do último jogo, no Bessa), que o Benfica de Trapattoni se fez campeão. E foi por ter tido a sorte de encontrar no jogo de Alvalade contra o Legia um árbitro que conhecia a lei e que, ao arrepio daquilo que os sportinguistas tantas vezes reclamam, não assinalou um penalty destes (no limite da interpretação...) por mão de Polga, que o Sporting pôde seguir em frente na Liga Europa e estar agora nas meias finais.
2- Por razões de ausência no estrangeiro, escrevo este texto com três dias de antecedência em relação ao habitual e num momento em que, relativamente ao escândalo que atingiu o Sporting, a PJ investiga um eventual envolvimento do presidente Godinho Lopes no inimaginável esquema montado pelo vice Paulo Pereira Cristóvão, destinado a implicar um árbitro numa suposta corrupção montada por ele. Não sei, obviamente, se o presidente do Sporting está envolvido ou não - e espero bem que não. Mas de uma coisa ninguém o livra: da responsabilidade de ter escolhido para a sua equipa alguém cujo curriculum era por demais conhecido e muito pouco recomendável. E, assim como em tempos defendi que Pinto da Costa se deveria demitir, não por ser culpado de qualquer coisa no Apito Dourado (como se provou que não era), mas sim por ser responsável pela escolha da Dª Carolina Salgado para o estatuto de primeira dama do FC Porto, permitindo-lhe causar danos de imagem irreparáveis ao clube, também agora penso que o presidente do Sporting se deveria demitir, assumindo a sua responsabilidade na escolha que fez.
Porque os danos que Cristóvão causou ao Sporting são igualmente irreparáveis. E, se bem que eu não cometa a injustiça de confundir um clube sério com um seu dirigente, a verdade é que o Sporting perdeu aqui toda a sua tão apregoada virgindade na matéria. Daqui em diante, de cada vez que o Sporting investir contra os árbitros, como geneticamente o faz, ficaremos sempre na dúvida de saber de que lado está a seriedade. E o senhor secretário de Estado que cometeu a imprudência de, ainda há umas semanas, ter recebido solenemente Godinho Lopes e Paulo Pereira Cristóvão, para os ouvir debitar as habituais lamúrias e suspeitas acerca dos árbitros, onde será que agora enterra a cabeça de vergonha? Ou não a tem (a vergonha)?
Durante o recente SC Braga-FC Porto, Álvaro Pereira, querendo evitar um cruzamento para a sua área, estendeu a perna para cortar a passagem da bola, já em desequilibrio. E a bola, cruzada a não mais de três metros de distância, bateu-lhe na perna e dai ressaltou para o braço, sem que ele pudesse, humanamente, evitá-lo: livre e cartão amarelo, decidiu o árbitro (por sorte do FC Porto, a jogada não foi dentro da área ou o jogo podia ter tido outro desfecho). Ora, esta decisão da arbitragem é totalmente absurda, não tem qualquer sustentação na lei nem nas regras da FIFA e resulta apenas de uma doutrina perniciosa que se vem instalando entre nós, com o apoio militante da imprensa e dos comentadores dos jogos. Mas que, de facto, desvirtua as regras do jogo e, não poucas vezes, tem desvirtuado resultados. Antes de prosseguir na minha tese, e para beneficio de discussão, convém recordar o que diz a lei e como a interpreta a FIFA.
O que a lei original diz é simples e vem na regra 12: «Constitui infracção punível com livre directo jogar a bola com a mão.» Porem, e tal como sucedeu com a Constituição dos Estados Unidos, as poucas e simples regras originais (que, aparentemente, o bom senso e a boa fé chegariam para interpretar), tiveram de ser acrescentadas por sucessivas decisões doutrinais, que acabaram a confirmar nada mais do que o espírito original da lei. E foi assim, que eu, por exemplo, cresci com uma interpretação desta regra que foi, durante muito tempo, inteiramente pacifica: «jogar a bola com a mão», implica também o braço; e «jogar a bola» implica uma atitude voluntária (assim como, se um jogador dominar a bola com o peito ou o usar para passar a bola a um companheiro, ele jogou a bola; mas se esta apenas foi chutada contra o seu peito, sem responsabilidade sua, ele não jogou a bola com o peito). Na lei 12 trata-se do mesmo principio: jogar a bola com o braço ou mão, pressupõe uma atitude voluntária, um movimento do braço ou da mão em direcção à bola. Ficar estático e simplesmente levar com a bola no braço ou na mão não é falta.
Diz a versão brasileira da lei 12 [site da CBF]: «...Também será concedido tiro de livre directo se um jogador.., tocar na bola com as mãos intencionalmente...»
E diz a versão portuguesa [site da Liga de Clubes]: «Tocar a bola com as mãos implica um acto de liberado, em que o jogador toma contacto com a bola com as mãos ou os braços.»
«Intencionalmente» ou «deliberadamente»: com ou sem Acordo Ortográfico, toda a gente entende que, tanto portugueses como brasileiros exigem o mesmo: um acto voluntário de um jogador em jogar com a mão ou o braço. Mas, para que dúvidas não restem (a não ser aos que as querem manter), o texto da Liga de Clubes, seguindo as instruções da FIFA, explicita que, para assinalar ou não a falta, o árbitro «deve ter em consideração os seguintes critérios:
- o movimento da mão na direcção da bola (e não a bola na direcção da mão);
- a distancia entre o adversário e a bola (bola inesperada);
- que a posição da mão não pressupõe necessariamente uma infracção.»
A esta luz, é curioso analisar o célebre penalty que o árbitro, segundo todas as opiniões, terá deixado de marcar contra o Chelsea na Luz, por mão do John Tcrry. Recordemos: perante um centro iminente de Gaitan, Terry fez-se ao lance de braços bem abertos, ostensivamente abertos; a bola, cruzada por Gaitan, foi bater num dos braços de John Terry, que, todavia, não os mexeu. Isto, para a totalidade da critica foi penalty evidente, que o árbitro só não mareou porque não quis, como disse Jorge Jesus (e até se comparou com lance idêntico, em que David Luiz enfrentou um outro cruzamento de um jogador benfiquista com os braços deliberadamente atrás das costas).
Pois bem, a verdade é que, face ao que reza a lei, o árbitro não marcou o penalty, não porque não quis, mas porque não era penalty. «A posição das mãos ou dos braços não pressupõe necessariamente uma infracção.»: John Terry podia ter colocado os braços na posição que quisesse, antes de a bola partir; se os tivesse aberto depois da bola partir, ai sim, é que o arbitro tinha que pressupor um gesto, um movimento, uma atitude deliberada de cortar a bola com a mão, John Terry estava certíssimo no que fez e que só mostra que conhece bem as regras do futebol; David Luiz é que estava errado: não precisa de recolher os braços atrás do corpo para, previamente, afastar suspeitas. E os críticos e comentadores, peço desculpa de o dizer, deviam conhecer melhor as leis do futebol, antes de partirem para conclusões inflamadas e ditadas, não por razão, mas por paixão. E estou à vontade para o dizer porque sempre defendi esta interpretação e, nomeadamente, quando, ao arrepio de alguma critica, sustentei que a bola no braço de Cardozo, dentro da área, no último Benfica-FC Porto, não foi penalty.
Esta questão torna-se importante porque cada vez mais se acentua aquilo que já é uma óbvia estratégia planeada de algumas equipas para apostarem deliberadamente nesta espécie inventada de penalties, tentando, por sistema, jogar a bola em direcção às mãos ou braços dos adversários. Foi desta forma, com uma quantidade inimaginável de livres e penalties assim sacados (incluindo o penalty decisivo do último jogo, no Bessa), que o Benfica de Trapattoni se fez campeão. E foi por ter tido a sorte de encontrar no jogo de Alvalade contra o Legia um árbitro que conhecia a lei e que, ao arrepio daquilo que os sportinguistas tantas vezes reclamam, não assinalou um penalty destes (no limite da interpretação...) por mão de Polga, que o Sporting pôde seguir em frente na Liga Europa e estar agora nas meias finais.
2- Por razões de ausência no estrangeiro, escrevo este texto com três dias de antecedência em relação ao habitual e num momento em que, relativamente ao escândalo que atingiu o Sporting, a PJ investiga um eventual envolvimento do presidente Godinho Lopes no inimaginável esquema montado pelo vice Paulo Pereira Cristóvão, destinado a implicar um árbitro numa suposta corrupção montada por ele. Não sei, obviamente, se o presidente do Sporting está envolvido ou não - e espero bem que não. Mas de uma coisa ninguém o livra: da responsabilidade de ter escolhido para a sua equipa alguém cujo curriculum era por demais conhecido e muito pouco recomendável. E, assim como em tempos defendi que Pinto da Costa se deveria demitir, não por ser culpado de qualquer coisa no Apito Dourado (como se provou que não era), mas sim por ser responsável pela escolha da Dª Carolina Salgado para o estatuto de primeira dama do FC Porto, permitindo-lhe causar danos de imagem irreparáveis ao clube, também agora penso que o presidente do Sporting se deveria demitir, assumindo a sua responsabilidade na escolha que fez.
Porque os danos que Cristóvão causou ao Sporting são igualmente irreparáveis. E, se bem que eu não cometa a injustiça de confundir um clube sério com um seu dirigente, a verdade é que o Sporting perdeu aqui toda a sua tão apregoada virgindade na matéria. Daqui em diante, de cada vez que o Sporting investir contra os árbitros, como geneticamente o faz, ficaremos sempre na dúvida de saber de que lado está a seriedade. E o senhor secretário de Estado que cometeu a imprudência de, ainda há umas semanas, ter recebido solenemente Godinho Lopes e Paulo Pereira Cristóvão, para os ouvir debitar as habituais lamúrias e suspeitas acerca dos árbitros, onde será que agora enterra a cabeça de vergonha? Ou não a tem (a vergonha)?
quarta-feira, março 20, 2013
QUEM DE TRÊS TIRA DOIS…(10 ABRIL 2012)
1- O Sporting-Benfica começou com um penalty a favor do Benfica que ficou por marcar. Seguiu com um penalty inútil do Luisão, porém real. E continuou com um penalty por marcar a favor do Sporting tudo - até aos 25 minutos. Seguiu-se um jogo essencialmente mal jogado, aos repelões - sobretudo por parte do Benfica, que pouco mais soluções ofensivas mostrou do que os habituais livres a pingar sobre a área (e muitos teve na fase final). Jogando em contra-ataque toda a segunda parte, o Sporting mais do que justificou a vitória e poderia ter desbaratado o Benfica, não fossem Artur, a trave e Van Kleber, perdão, Van Wolfswinkel. Os benfiquistas dirão (Jesus já deu o mote) que, se o penalty sobre Gaitan no primeiro minuto tem sido assinalado, o jogo teria sido completamente diferente e o vencedor também. Para além do facto de o Sporting também se poder queixar de um penalty não assinalado, que teria dado o 2-0, parece um verdadeiro wishfull thlnking afirmar que teria sido diferente e de desfecho diferente um jogo onde o Benfica se mostrou sempre àquem do Sporting e de onde poderia ter saído com um resultado constrangente.
Assim, o Sporting completou uma semana decisiva, garantindo a passagem às meias finais da Liga Furopa e honrando a rivalidade, o prestígio e o profissionalismo contra o seu eterno rival de Lisboa. Já o Benfica, chegou à semana decisiva, em que, dos quatro saldos possíveis, lhe calhou o pior: afastado da Europa, quase afastado do título nacional. É um drama clássico de quem luta nestas duas frentes até muito tarde: para poder ter sucesso, nesta situação, só há um caminho: ter avanço suficiente no final da primeira volta do campeonato para poder gerir o desgaste na segunda volta. Era o que fazia o FC Porto de Mourinho e foi o que fez o de André Villas Boas, na época passada.
E desta forma se desfez o trio da frente, a quatro jornadas do fim. O Sporting de Braga ficou pelo caminho, depois de um meio campeonato brilhante, onde acumulou 13 vitórias consecutivas e surgiu subitamente a intrometer-se na luta do topo, que parecia reservada a Benfica e Porto. Mas, no espaço de oito dias, no momento do tudo ou nada, o Braga ficou... com nada. E, se bem que, quer na Luz, quer em Braga, se tenha batido com toda a determinação e dignidade, justificando o estatuto de candidato, em ambos os jogos creio que ficou também patente que lhe faltou ainda um quid de determinação e confiança, sem o qual os campeões não existem. Na minha infância e adolescência assisti a isto com o FC Porto: era eternamente dado como candidato, mas, de facto, na hora da verdade, faltava-lhe sempre qualquer coisa que confirmasse uma real candidatura.
Ao, invés, no jogo de Braga, sempre confiei e apostei na vitória do FC Porto - e a entrada em jogo dos portistas, se bem que por um curto período de domínio. Confirmou-me essa quase certeza. Durante muito tempo, quase até ao fim, o jogo manteve-se, é verdade, de desfecho incerto e, não fosse a dupla infelicidade de Hugo Viana (equivalente a dois frangos do guarda redes) e, aparentemente, o FC Porto não teria ganho. Mas digo aparentemente, porque julgo que, se não tivesse sido a partir de uma perda de bola e do génio de Hulk, teria sido de outra forma: na hora da verdade, o FC Porto puxaria dos galões. Os galões da experiência e do hábito de conquistar títulos e assimilar uma cultura de vitória de que só o Benfica dos últimos anos se começa a aproximar.
Na verdade, eu até esperava mais facilidades do FC Porto no decisivo jogo de Braga. E isso não aconteceu porque foi uma equipa desiquilibrada, com jogadores muito bem e outros mal ou francamente mal. Bem ou muito bem, estiveram o Helton, o Sapunaru, os dois centrais, o Moutinho, o James e, sobretudo o Hulk. Mal, estiveram o Alvaro Pereira (muito bem subsituído, após um amarelo aliás injusto), o Defour (de onde partiu a melhor oportunidade do Braga, desperdiçada por Hugo Viana), o Lucho, jogando permanentemente em marcha atrás, o Varela, igual a si próprio, e o Kleber, surpreendentemente escolhido por Vítor Pereira e apenas para mostrar, pela enésima vez, que não faz a mais pequena ideia de como foi ali parar. Foi um jogo em que o FC Porto teve, indiscutivelmente, a sorte do jogo. Os portistas jogaram apenas o suficiente para vencerem um Braga que esteve sempre na expectativa, nunca dando a sensação de ir à procura do destino, em lugar de ficar à espera que ele acontecesse. E saber fazer a hora é a marca dos campeões. Mas, embora longe do título, o campeonato ainda não acabou para o Braga: tem a luta pelo segundo lugar, que vale uma entrada directa na Champlons e que, provavelmente, irá disputar até final com o Benfica.
Em Londres, frente a um Chelsea que é hoje uma sombra do que foi, o Benfica experimentou a sensacão de impotência dos clubes que, a este nível, enfrentam o clube quase fechado dos tubarões europeus - uma dúzia de equipas que gozam sempre dos favores do dinheiro, da fortuna e de outras coisas mais. Eu vi assim o FC Porto ser diversas vezes afastado pelo Chelsea ou pelo United, em eliminatórias em que as decisões do árbitro ou má fortuna em momentos cruciais o venceram, longe de o convencer. Concordo inteiramente com Jorge Jesus em como o Benfica actual é melhor equipa que o Chelsea e mostrou-o bem na eliminatória. Todavia, e se bem que o árbitro tenha adoptado sempre um critério desigual (que as equipes portuguesas já conhecem e já devem esperar a este nível), o facto é que, nas duas decisões contestadas pelos benfiquistas, ele não cometeu erro algum: Maxi foi bem expulso (e, ao contrário do que vi dito por um jornalista da RTP, benfiquista convicto, não é ele que tinha de se lembrar que Maxi já tinha um amarelo, mas sim o próprio jogador), e o penalty é tão flagrante que só num momento de desespero e a quente se pode pretender o contrário. Se aquilo não fosse penalty, então o penalty assinalado contra o Braga, na Luz, em jogada idêntica mas muito menos ostensiva, seria o quê?
Para um portista, a eliminatória perdida pelo Benfica teve dois momentos, não sei se de ironia, se de justiça póstuma. Um, foi no jogo da primeira mão, quando a equipa portuguesa do SL Benfica utilizou catorze jogadores e nenhum português, enquanto que, do outro lado, a equipa inglesa do Chelsea alinhava quatro portugueses. E a ironia consistiu em ver o público da Luz assobiar os portugueses do Chelsea só porque ti- nham sido do FC Porto e, em especial, a tomar de ponta Raul Meireles - que depois se vingaria, em Londres. A outra ironia (e, essa deliciosa) foi escutar a claque do Benfica em Stamford Bridge a gritar "Platini, Platini". mandando para cima do presidente da UEFA as culpas daquilo que os benfiquistas acharam ser uma arbitragem encomendada. Estariam eles a referir-se ao mesmo Michel Platini que eu julgo? Aquele em cujas mãos, há uns anos atrás, o Benfica depositou um mundo de esperanças de o ver afastar o FCPorto das competições europeias, por via administrativa, assim abrindo uma vaga na Champims para o Benfica, que a havia perdido no terreno de jogo? Seria o mesmo Platini que (não tivesse sido a justiça da UEFA a travar a maquinação) teria sido o último elo de uma cadeia montada peça a peça, entre Benfica, a imprensa que lhe é afecta, e o Conselho de Disciplina da Liga que controlava, para roubar na secretaria o que o FC Porto ganhara em campo com todo o mérito e a vista de todos, mascarando a golpaça de justiça desportiva? Seria o mesmo palhaço que eu estou a pensar por quem gritavam, indignados, os benfiquistas em Stamford Bridge? Pois se era, a ingratidão humana não tem limites...
PS - Subitamente, um jornalista brasileiro apareceu na conferencia de imprensa, no final do jogo de Alvalade, e lançou a Jorge Jesus uma pedrada no charco. Nada de especial, como pergunta: apenas jornalismo.
Assim, o Sporting completou uma semana decisiva, garantindo a passagem às meias finais da Liga Furopa e honrando a rivalidade, o prestígio e o profissionalismo contra o seu eterno rival de Lisboa. Já o Benfica, chegou à semana decisiva, em que, dos quatro saldos possíveis, lhe calhou o pior: afastado da Europa, quase afastado do título nacional. É um drama clássico de quem luta nestas duas frentes até muito tarde: para poder ter sucesso, nesta situação, só há um caminho: ter avanço suficiente no final da primeira volta do campeonato para poder gerir o desgaste na segunda volta. Era o que fazia o FC Porto de Mourinho e foi o que fez o de André Villas Boas, na época passada.
E desta forma se desfez o trio da frente, a quatro jornadas do fim. O Sporting de Braga ficou pelo caminho, depois de um meio campeonato brilhante, onde acumulou 13 vitórias consecutivas e surgiu subitamente a intrometer-se na luta do topo, que parecia reservada a Benfica e Porto. Mas, no espaço de oito dias, no momento do tudo ou nada, o Braga ficou... com nada. E, se bem que, quer na Luz, quer em Braga, se tenha batido com toda a determinação e dignidade, justificando o estatuto de candidato, em ambos os jogos creio que ficou também patente que lhe faltou ainda um quid de determinação e confiança, sem o qual os campeões não existem. Na minha infância e adolescência assisti a isto com o FC Porto: era eternamente dado como candidato, mas, de facto, na hora da verdade, faltava-lhe sempre qualquer coisa que confirmasse uma real candidatura.
Ao, invés, no jogo de Braga, sempre confiei e apostei na vitória do FC Porto - e a entrada em jogo dos portistas, se bem que por um curto período de domínio. Confirmou-me essa quase certeza. Durante muito tempo, quase até ao fim, o jogo manteve-se, é verdade, de desfecho incerto e, não fosse a dupla infelicidade de Hugo Viana (equivalente a dois frangos do guarda redes) e, aparentemente, o FC Porto não teria ganho. Mas digo aparentemente, porque julgo que, se não tivesse sido a partir de uma perda de bola e do génio de Hulk, teria sido de outra forma: na hora da verdade, o FC Porto puxaria dos galões. Os galões da experiência e do hábito de conquistar títulos e assimilar uma cultura de vitória de que só o Benfica dos últimos anos se começa a aproximar.
Na verdade, eu até esperava mais facilidades do FC Porto no decisivo jogo de Braga. E isso não aconteceu porque foi uma equipa desiquilibrada, com jogadores muito bem e outros mal ou francamente mal. Bem ou muito bem, estiveram o Helton, o Sapunaru, os dois centrais, o Moutinho, o James e, sobretudo o Hulk. Mal, estiveram o Alvaro Pereira (muito bem subsituído, após um amarelo aliás injusto), o Defour (de onde partiu a melhor oportunidade do Braga, desperdiçada por Hugo Viana), o Lucho, jogando permanentemente em marcha atrás, o Varela, igual a si próprio, e o Kleber, surpreendentemente escolhido por Vítor Pereira e apenas para mostrar, pela enésima vez, que não faz a mais pequena ideia de como foi ali parar. Foi um jogo em que o FC Porto teve, indiscutivelmente, a sorte do jogo. Os portistas jogaram apenas o suficiente para vencerem um Braga que esteve sempre na expectativa, nunca dando a sensação de ir à procura do destino, em lugar de ficar à espera que ele acontecesse. E saber fazer a hora é a marca dos campeões. Mas, embora longe do título, o campeonato ainda não acabou para o Braga: tem a luta pelo segundo lugar, que vale uma entrada directa na Champlons e que, provavelmente, irá disputar até final com o Benfica.
Em Londres, frente a um Chelsea que é hoje uma sombra do que foi, o Benfica experimentou a sensacão de impotência dos clubes que, a este nível, enfrentam o clube quase fechado dos tubarões europeus - uma dúzia de equipas que gozam sempre dos favores do dinheiro, da fortuna e de outras coisas mais. Eu vi assim o FC Porto ser diversas vezes afastado pelo Chelsea ou pelo United, em eliminatórias em que as decisões do árbitro ou má fortuna em momentos cruciais o venceram, longe de o convencer. Concordo inteiramente com Jorge Jesus em como o Benfica actual é melhor equipa que o Chelsea e mostrou-o bem na eliminatória. Todavia, e se bem que o árbitro tenha adoptado sempre um critério desigual (que as equipes portuguesas já conhecem e já devem esperar a este nível), o facto é que, nas duas decisões contestadas pelos benfiquistas, ele não cometeu erro algum: Maxi foi bem expulso (e, ao contrário do que vi dito por um jornalista da RTP, benfiquista convicto, não é ele que tinha de se lembrar que Maxi já tinha um amarelo, mas sim o próprio jogador), e o penalty é tão flagrante que só num momento de desespero e a quente se pode pretender o contrário. Se aquilo não fosse penalty, então o penalty assinalado contra o Braga, na Luz, em jogada idêntica mas muito menos ostensiva, seria o quê?
Para um portista, a eliminatória perdida pelo Benfica teve dois momentos, não sei se de ironia, se de justiça póstuma. Um, foi no jogo da primeira mão, quando a equipa portuguesa do SL Benfica utilizou catorze jogadores e nenhum português, enquanto que, do outro lado, a equipa inglesa do Chelsea alinhava quatro portugueses. E a ironia consistiu em ver o público da Luz assobiar os portugueses do Chelsea só porque ti- nham sido do FC Porto e, em especial, a tomar de ponta Raul Meireles - que depois se vingaria, em Londres. A outra ironia (e, essa deliciosa) foi escutar a claque do Benfica em Stamford Bridge a gritar "Platini, Platini". mandando para cima do presidente da UEFA as culpas daquilo que os benfiquistas acharam ser uma arbitragem encomendada. Estariam eles a referir-se ao mesmo Michel Platini que eu julgo? Aquele em cujas mãos, há uns anos atrás, o Benfica depositou um mundo de esperanças de o ver afastar o FCPorto das competições europeias, por via administrativa, assim abrindo uma vaga na Champims para o Benfica, que a havia perdido no terreno de jogo? Seria o mesmo Platini que (não tivesse sido a justiça da UEFA a travar a maquinação) teria sido o último elo de uma cadeia montada peça a peça, entre Benfica, a imprensa que lhe é afecta, e o Conselho de Disciplina da Liga que controlava, para roubar na secretaria o que o FC Porto ganhara em campo com todo o mérito e a vista de todos, mascarando a golpaça de justiça desportiva? Seria o mesmo palhaço que eu estou a pensar por quem gritavam, indignados, os benfiquistas em Stamford Bridge? Pois se era, a ingratidão humana não tem limites...
PS - Subitamente, um jornalista brasileiro apareceu na conferencia de imprensa, no final do jogo de Alvalade, e lançou a Jorge Jesus uma pedrada no charco. Nada de especial, como pergunta: apenas jornalismo.
terça-feira, março 19, 2013
VI, NÃO VI E ADORMECI (03 ABRIL 2012)
1- Sentei-me a ver o União de Leiria-Sporting e dez minutos depois dormia profundamente. Se o Leiria é o último classificado e outra coisa não seria de esperar do seu soporífero futebol, já o Sporting é aquela equipe que, segundo o seu presidente, não fossem os árbitros e estaria a lutar pelo título. Pois, bem: se assim é, quero declarar que o Dormicum Futebol Clube tem mais hipóteses de lutar por um título que o Sporting. Não é uma andorinha, mesmo vinda de Manchester, que faz a Primavera.
Brincadeira à parte, considero inacreditável que o Secretário de Estado do Desporto receba o presidente do Sporting para este lhe ir fazer o habitual relambório das queixinhas da arbitragem. Partindo do princípio que o Secretário de Estado não estará disponível para receber todos os clubes que se querem queixar da arbitragem (e são todos), a audiência concedida ao presidente do Sporting tresanda a vassalagem à moda antiga, a fazer lembrar os tempos em que os dois grandes de Lisboa cultivavam relações promíscuas com o poder politico, assim garantindo um tratamento privilegiado em relação a todos os outros. Eu sei bem que o hábito ainda não desapareceu por completo (basta ter visto o ar de pessoa da casa com que o ministro Miguel Relvas se passeou terça-feira na tribuna de honra da Luz e, no dia seguinte, na de Alvalade), mas, apesar de tudo, há que manter algumas aparências: que eu saiba, não compete ao Secretário do Desporto ocupar-se da arbitragem das modalidades e é simplesmente ridículo imaginar que ele possa ter estado a ver vídeos seleccionados pelo Sporting na companhia do Engº Godinho Lopes.
Já quanto às declarações do presidente sportinguista, no final da audiência, essas nao tem que enganar: são mesmo para gozar com o pagode. Afirmar, sem tremer de vergonha, que só por causa dos árbitros é que o Sporting não disputa o título de campeão, é tomar por parvos todos os que vêem futebol e percebem alguma coisa deste jogo. O Sporting está no quinto lugar da classificação, atrás de Marítimo, Braga, Benfica e Porto. Todos estes clubes só podem sentir-se ofendidos com tamanho desplante. Estaria a lutar pelo título uma equipa que está no 5º lugar, a catorze pontos do primeiro classificado e que esteve cinco meses sem conseguir ganhar um jogo fora de casa e só de livre e a três minutos do fim conseguiu marcar um golo em cinco jogos consecutivos fora? E no ano passado, quando terminou em 4ºlugar, a uns inimagináveis 27 pontos do campeão? Quantos pontos teria o Secretário de Estado do Desporto de acrescentar por decreto ao Sporting para que ele conseguisse disputar o título?
2- Este sábado aconteceu-me uma coisa impensável: tamanha era a cobertura dada pelos jornais desportivos ao Benfica-Braga desse dia (como se não houvesse outros jogos no sábado e, entre eles, o jogo envolvendo o FC Porto e que poderia dar, como deu, a liderança do campeonato), que eu me convenci que o Porto só jogava domingo. E assim levado ao engano, falhei o primeiro jogo do FC Porto esta época e foi só quando liguei a televisão, minutos antes do Braga-Benfica, que, indo parar ao flash-interwiew do Porto-Olhanenese, me dei conta que, afinal, o jogo já tinha acontecido e terminado com a vitória dos portistas por 2-0. Não fazendo ideia como tinha sido o jogo, fiquei a escutar atentamente o Sérgio Conceição. Disse ele, em substância, que o Olha- nense tinha jogado mal, que o Porto jogou mais, mas que era muito difícil jogar contra os grandes, por causa da arbitragem: teria ficado por mostrar um segundo amarelo a um jogador portista por mão na bola e quando um avançado do Olhanense se ia isolar, a jogada foi interrompida sem razão. Não fosse a arbitragem, e o Olhanense... Fiquei a pensar que já não tenho pachorra para isto: haverá algum treinador que perca e não diga que a culpa é do árbitro? No dia seguinte, li A Bola e lá vinha a fotografia da tal jogada com o atacante de Olhão, onde se via ele a agarrar um jogador portista para não o deixar correr. O relato do jogo, quanto à arbitragem, dizia apenas que tinha sido quase perfeita, não fosse o árbitro ter perdoado um penalty ao Olhanense por falta sobre o Hulk (mais um não assinalado...). E, quanto ao resto, escrevia-se que, em todo o jogo, o Olhanense não criara uma só oportunidade de golo, apenas fizera um remate e inofensivo e só graças ao seu guarda-redes não tinha saído do Dragão esmagado a uma cabazada. Ora, o Sérgio Conceição é treinador apenas há um par de meses e dá-se o caso de ter sido jogador do FC Porto, clube que o potenciou para uma bem sucedida carreira internacional. São duas boas razões para ter um bocado mais de respeito, se não pela verdade, ao menos pelo seu presente e pelo seu passado.
3- Com um penalty caído do céu e de um critério generoso do árbitro, e um golo aos 92 minutos, o Benfica venceu um jogo cujo resultado justo só podia ser o empate. Na segunda parte, por assim dizer, o Braga resgatou os seus méritos como candidato ao título. A meus olhos. E digo isto, porque os últimos dois jogos que vi do Braga (em casa contra o Leiria e contra a Académica), em ambos o vi vencer imerecidamente por 2-1, tendo beneficiado de muita, muita sorte, e decisões erradas da arbitragem que lhe garantiram a vitória. É evidente que eu comungo da onda de elogios a uma equipa que se bale como o Braga se tem batido, uma equipa formada pelas sobras dos grandes (seis jogadores ex-FC Porto!) e com um orçamento que não é nada ao pé do deles. E claro que, não sendo o FC Porto campeão, muito gostaria que fosse o Braga. Mas, constato que esta simpatia geral pelos Davids face aos Golias, leva a que uma equipa como o Braga goze de uma generosidade da crítica, que outros não têm. Tivesse sido o FC Porto a assinar aquela exibição contra a Académica e a beneficiar das decisões do árbitro, aqui mesmo assinaladas na crónica do jogo, e toda a semana só se teria falado da injustiça da liderança. Ser grande também não é sempre fácil!
4- Como toda a gente sabe, esta época tem-se assistido a um inusitado silêncio de Pinto da Costa. Não que ele tenha o hábito de falar demais: fala sempre menos, muito menos, dos que pedem audiências ao governo, dão entrevistas de fundo a cada dois meses e redigem comunicados semanais, no mínimo, com medo que se es- queçam da sua existência. Mas este ano, o presidente do FC Porto tem falado tão pouco que aos olhos de muitos portistas tem sido até de menos. Por responsabilidade sua, ninguém pode dizer que ele ajudou a crispar o ambiente ou acirrar ânimos em vésperas dos jogos importantes. Mas, mesmo assim, há quem ache que se o presidente do FC Porto soltar meia dúzia de frases em toda a época, já será de mais. Há quem ache, convictamente, que existe uma lei não escrita que não confere ao presidente portista o mesmo direito à palavra que os seus homólogos de outros clubes.
Fernando Guerra, aqui na página ao lado, é um desses. Na semana passada, ele construiu toda uma teoria conspirativa à roda do suspeitíssimo facto de Pinto da Costa ter dito umas palavras circunstanciais, algures por aí. Segundo ele, essa «súbita reentrada em cena» do presidente do FC Porto, motivada pelo medo que o Benfica lhe infunde, visou «accionar alarmes, mover influências, activar alianças e declarar medidas de emergência», face ao «perigo medonho» de ter visto o Benfica no topo da classificação, há umas semanas atrás. Já as palavras que, «por coincidência», o presidente do Benfica disse na mesma altura, merecem a Fernando Guerra um tamanho rol de elogios que chega a ser comovente. Luís Filipe Vieira, escreve ele, «é um homem sobreavisado, conhece os truques, mas há caminhos que, por princípio, se recusa a pisar». E o elogio segue: « É notável o seu espírito de sacrifício e a sua inabalável coragem para continuar o combate solitário em frentes agrestes contra inimigos empenhados em atrasarem, por qualquer meio, e explosão futebolística do Benfica» - Eis o crime dos «inimigos»: atrasarem a explosão benfiquista do Benfica, ousarem disputar o título (este ou qualquer outro) com a intocável Instituição. Quando Pinto da Costa abre a boca, por pouco que seja, trata-se de uma conspiração, de «esquemas obscuros». Quando Filipe Vieira abre a boca, trata-se de coragem solitária, de quem não quer pisar os mesmos terrenos.
O mais irónico disto é pensar que, conhecendo Luís Filipe Viera, aposto que ele dispensa bem este tipo de advocacias.
Brincadeira à parte, considero inacreditável que o Secretário de Estado do Desporto receba o presidente do Sporting para este lhe ir fazer o habitual relambório das queixinhas da arbitragem. Partindo do princípio que o Secretário de Estado não estará disponível para receber todos os clubes que se querem queixar da arbitragem (e são todos), a audiência concedida ao presidente do Sporting tresanda a vassalagem à moda antiga, a fazer lembrar os tempos em que os dois grandes de Lisboa cultivavam relações promíscuas com o poder politico, assim garantindo um tratamento privilegiado em relação a todos os outros. Eu sei bem que o hábito ainda não desapareceu por completo (basta ter visto o ar de pessoa da casa com que o ministro Miguel Relvas se passeou terça-feira na tribuna de honra da Luz e, no dia seguinte, na de Alvalade), mas, apesar de tudo, há que manter algumas aparências: que eu saiba, não compete ao Secretário do Desporto ocupar-se da arbitragem das modalidades e é simplesmente ridículo imaginar que ele possa ter estado a ver vídeos seleccionados pelo Sporting na companhia do Engº Godinho Lopes.
Já quanto às declarações do presidente sportinguista, no final da audiência, essas nao tem que enganar: são mesmo para gozar com o pagode. Afirmar, sem tremer de vergonha, que só por causa dos árbitros é que o Sporting não disputa o título de campeão, é tomar por parvos todos os que vêem futebol e percebem alguma coisa deste jogo. O Sporting está no quinto lugar da classificação, atrás de Marítimo, Braga, Benfica e Porto. Todos estes clubes só podem sentir-se ofendidos com tamanho desplante. Estaria a lutar pelo título uma equipa que está no 5º lugar, a catorze pontos do primeiro classificado e que esteve cinco meses sem conseguir ganhar um jogo fora de casa e só de livre e a três minutos do fim conseguiu marcar um golo em cinco jogos consecutivos fora? E no ano passado, quando terminou em 4ºlugar, a uns inimagináveis 27 pontos do campeão? Quantos pontos teria o Secretário de Estado do Desporto de acrescentar por decreto ao Sporting para que ele conseguisse disputar o título?
2- Este sábado aconteceu-me uma coisa impensável: tamanha era a cobertura dada pelos jornais desportivos ao Benfica-Braga desse dia (como se não houvesse outros jogos no sábado e, entre eles, o jogo envolvendo o FC Porto e que poderia dar, como deu, a liderança do campeonato), que eu me convenci que o Porto só jogava domingo. E assim levado ao engano, falhei o primeiro jogo do FC Porto esta época e foi só quando liguei a televisão, minutos antes do Braga-Benfica, que, indo parar ao flash-interwiew do Porto-Olhanenese, me dei conta que, afinal, o jogo já tinha acontecido e terminado com a vitória dos portistas por 2-0. Não fazendo ideia como tinha sido o jogo, fiquei a escutar atentamente o Sérgio Conceição. Disse ele, em substância, que o Olha- nense tinha jogado mal, que o Porto jogou mais, mas que era muito difícil jogar contra os grandes, por causa da arbitragem: teria ficado por mostrar um segundo amarelo a um jogador portista por mão na bola e quando um avançado do Olhanense se ia isolar, a jogada foi interrompida sem razão. Não fosse a arbitragem, e o Olhanense... Fiquei a pensar que já não tenho pachorra para isto: haverá algum treinador que perca e não diga que a culpa é do árbitro? No dia seguinte, li A Bola e lá vinha a fotografia da tal jogada com o atacante de Olhão, onde se via ele a agarrar um jogador portista para não o deixar correr. O relato do jogo, quanto à arbitragem, dizia apenas que tinha sido quase perfeita, não fosse o árbitro ter perdoado um penalty ao Olhanense por falta sobre o Hulk (mais um não assinalado...). E, quanto ao resto, escrevia-se que, em todo o jogo, o Olhanense não criara uma só oportunidade de golo, apenas fizera um remate e inofensivo e só graças ao seu guarda-redes não tinha saído do Dragão esmagado a uma cabazada. Ora, o Sérgio Conceição é treinador apenas há um par de meses e dá-se o caso de ter sido jogador do FC Porto, clube que o potenciou para uma bem sucedida carreira internacional. São duas boas razões para ter um bocado mais de respeito, se não pela verdade, ao menos pelo seu presente e pelo seu passado.
3- Com um penalty caído do céu e de um critério generoso do árbitro, e um golo aos 92 minutos, o Benfica venceu um jogo cujo resultado justo só podia ser o empate. Na segunda parte, por assim dizer, o Braga resgatou os seus méritos como candidato ao título. A meus olhos. E digo isto, porque os últimos dois jogos que vi do Braga (em casa contra o Leiria e contra a Académica), em ambos o vi vencer imerecidamente por 2-1, tendo beneficiado de muita, muita sorte, e decisões erradas da arbitragem que lhe garantiram a vitória. É evidente que eu comungo da onda de elogios a uma equipa que se bale como o Braga se tem batido, uma equipa formada pelas sobras dos grandes (seis jogadores ex-FC Porto!) e com um orçamento que não é nada ao pé do deles. E claro que, não sendo o FC Porto campeão, muito gostaria que fosse o Braga. Mas, constato que esta simpatia geral pelos Davids face aos Golias, leva a que uma equipa como o Braga goze de uma generosidade da crítica, que outros não têm. Tivesse sido o FC Porto a assinar aquela exibição contra a Académica e a beneficiar das decisões do árbitro, aqui mesmo assinaladas na crónica do jogo, e toda a semana só se teria falado da injustiça da liderança. Ser grande também não é sempre fácil!
4- Como toda a gente sabe, esta época tem-se assistido a um inusitado silêncio de Pinto da Costa. Não que ele tenha o hábito de falar demais: fala sempre menos, muito menos, dos que pedem audiências ao governo, dão entrevistas de fundo a cada dois meses e redigem comunicados semanais, no mínimo, com medo que se es- queçam da sua existência. Mas este ano, o presidente do FC Porto tem falado tão pouco que aos olhos de muitos portistas tem sido até de menos. Por responsabilidade sua, ninguém pode dizer que ele ajudou a crispar o ambiente ou acirrar ânimos em vésperas dos jogos importantes. Mas, mesmo assim, há quem ache que se o presidente do FC Porto soltar meia dúzia de frases em toda a época, já será de mais. Há quem ache, convictamente, que existe uma lei não escrita que não confere ao presidente portista o mesmo direito à palavra que os seus homólogos de outros clubes.
Fernando Guerra, aqui na página ao lado, é um desses. Na semana passada, ele construiu toda uma teoria conspirativa à roda do suspeitíssimo facto de Pinto da Costa ter dito umas palavras circunstanciais, algures por aí. Segundo ele, essa «súbita reentrada em cena» do presidente do FC Porto, motivada pelo medo que o Benfica lhe infunde, visou «accionar alarmes, mover influências, activar alianças e declarar medidas de emergência», face ao «perigo medonho» de ter visto o Benfica no topo da classificação, há umas semanas atrás. Já as palavras que, «por coincidência», o presidente do Benfica disse na mesma altura, merecem a Fernando Guerra um tamanho rol de elogios que chega a ser comovente. Luís Filipe Vieira, escreve ele, «é um homem sobreavisado, conhece os truques, mas há caminhos que, por princípio, se recusa a pisar». E o elogio segue: « É notável o seu espírito de sacrifício e a sua inabalável coragem para continuar o combate solitário em frentes agrestes contra inimigos empenhados em atrasarem, por qualquer meio, e explosão futebolística do Benfica» - Eis o crime dos «inimigos»: atrasarem a explosão benfiquista do Benfica, ousarem disputar o título (este ou qualquer outro) com a intocável Instituição. Quando Pinto da Costa abre a boca, por pouco que seja, trata-se de uma conspiração, de «esquemas obscuros». Quando Filipe Vieira abre a boca, trata-se de coragem solitária, de quem não quer pisar os mesmos terrenos.
O mais irónico disto é pensar que, conhecendo Luís Filipe Viera, aposto que ele dispensa bem este tipo de advocacias.
quarta-feira, fevereiro 27, 2013
A GESTÃO INTELIGENTE (27 MARÇO 2012)
1- Ponto prévio: já tinha decidido não falar hoje de arbitragens, antes mesmo de conhecer a devassa pessoal e terrorista de que os árbitros portugueses estão a ser alvo na Net, e para a qual não pode haver qualquer espécie de contemporização nem ensaio justificativo. A minha decisão, porém, é anterior a isso e prende-se com a constatação de que a eterna discussão sobre arbitragens não só não conduz a lado algum (eu penso uma coisa, um benfiquista pensa outra e um sportinguista outra ainda, sem que jamais se atinja um consenso), como também contribui para que os principais culpados de resultados inconvenientes sacudam a água do capote para cima dos árbitros. Sempre defendi que as queixas da arbitragem só têm justificação quando uma equipa manifestamente fez tudo o que podia e devia por um bom resultado e só não o alcançou por influência directa de erros grosseiros de arbitragem (e isso não inclui, por exemplo, o fora de jogo de centímetros ou o penalty que ninguém pode garantir ter sido mão na bola e não bola na mão).
Ora, o que vemos, no meio desta imensa cacofonia dos últimos tempos é que, na Luz, para a Taça da Liga, o FC Porto teve o Benfica totalmente à sua mercê e retraiu-se, não lhe sabendo ou ousando dar a estocada final e mandando a culpa da derrota para cima do árbitro, enquanto que contra a Académica e contra o Paços de Ferreira, deu-se ao luxo de desperdiçar toda a primeira parte, consentiu dois empates e depois queixou-se do árbitro. O Sporting não jogou nada contra o Gil Vicente, perdeu 2-0 e reagiu como se tivesse sido o árbitro a impedir-lhe uma vitória merecidíssima. O mesmo fez o Benfica em Coimbra e em Olhão - onde até acusou um árbitro que deu nove minutos de descontos na segunda parte(!) de ter «pactuado com o antijogo do adversário». Excepção feita ao Benfica-Porto da Taça da Liga, aquilo que apetece dizer é «Não têm vergonha de jogar tão pouco? E se os árbitros arbitrassem como vocês jogam?"
Não vou, pois, falar das arbitragens dos dois últimos jogos do FC Porto para não ajudar mais a uma festa que tem tido aspectos verdadeiramente ridículos, algumas vezes, graves. Falarei apenas do caso do Sporting com Bruno Paixão, a sua recente descoberta, e porque é revelador da coerência de alguns. Há anos que toda a gente sabe e vê que o árbitro de Setúbal não tem competência mínima para actuar na primeira Iiga. Desde Campo Maior, onde um central emprestado pelo Benfica e quase promovido a herói nacional, esteve à beira de até enforcar o Jardel perante a complacência de Bruno Paixão, que se tornou claro que ele aliava a falta de competência à falta de isenção. Mas lá foi seguindo paulatinamente a sua carreira e a sua ascensão até internacional, perante o encolher de ombros geral e apenas por uma razão: porque era inimigo de estimação do FC Porto. Nesse jogo de Campo Maior, o FC Porto perderia dois pontos que vieram a ser decisivos para as contas finais de um título agarrado pelo... Sporting! E, ainda há um mês atrás e também em Barcelos, Bruno Paixão foi determinante na perca de três pontos pelo FC Porto, os quais, talvez venham também a revelar-se decisivos nas contas finais deste título. Comparada com essa, a actuação de Bruno Paixão no Gil-Sporting foi verdadeiramente soft - tanto mais que ali o Sporting não jogava nada e nada tinha já a perder. Mas foi o que se viu: um charivari de todo o tamanho, pedidos de audiência ao ministro, ameaças de morte anónimas a Bruno Paixão e à sua família, como se o Sporting é que tivesse perdido um título em Campo Maior e se arriscasse a perder outro em Barcelos, graças a este árbitro. E o mesmo se diga de Lucílio Baptista, um árbitro que anos a fio prejudicou o FC Porto e que, num feito digno do Guinness, foi quatro vezes consecutivas nomeado para arbitrar jogos do Porto com o Sporting, em todos errando sistematicamente a favor dos leões. A ele deve o Sporting uma Taça de Portugal ganha ao Porto, no Jamor, e no final da qual, Mourinho exclamou : «Não sei se o problema deste árbitro é comigo ou com o FC Porto...» Mas foi preciso Bruno Paixão marcar dois penalties consecutivos contra o Sporting em Barcelos (um dos quais inquestionável),e foi preciso Lucílio Baptista atribuir uma Taça da Liga ao Benfica, numa final com o Sporting, para que os sportinguistas, subitamente, se dessem conta da sua existência, como se ambos não tivessem um historial antes disso...
2- É muito raro de ver, mas aconteceu: Pinto da Costa foi o primeiro responsável pela derrota do FC Porto na Taça da Iiga. Ao antecipar que aquilo não era importante e que se deveriam rodar jogadores, ele disse exactamente o que Vítor Pereira queria ouvir. Desresponsabilizado previamente por mais uma competição falhada, o treinador portista avançou para aquilo que chamou «uma gestão inteligente» do plantel, que lhe assegurava uma win win situation: se ganhasse, era um mestre; se perdesse, tinha desculpa. Mas o que não teve desculpa foi a «inteligência» da sua gestão: em obediência ao princípio da rotação na baliza, que, pelos vistos é mais importante do que o princípio de tentar ganhar títulos (nos últimos tempos, e com Nuno Espírito Santo na baliza, perdemos assim uma Taça de Portugal e uma Taça da Liga), substituiu o Helton polo Bracali, guarda-redes fraco e baixinho, que tratou de encaixar três bolas na trave e três golos, todos com defesa, a troco de nada. Continuando sem perceber que o Maicon é o melhor central que tem, resolveu geri-lo no banco, esquecendo-se até que ele era o único que não precisava de descanso, porque estava castigado para Paços de Ferreira. Em lugar dele, meteu o Mangala, verde de mais para jogos destes, e responsável directo por dois golos do Benfica. Num meio-campo misteriosamente despovoado em Janeiro, resolveu insistir no Lucho, de principio a fim - pagando a factura em Paços de Ferreira. Em contrapartida, deixou o jovem James, que toda a Europa cobiça, a descansar uma vez mais no banco e, com ele no flanco esquerdo, em vez de Alvaro Pereira, teria arrumado o Benfica, quando estava a ganhar 2-1 e todo o lado direito da defensiva benfiquista era uma Avenida da Liberdade. Foi penoso ver como, desta vez e sem demoras, os jogadores mostraram que queriam ganhar e que tinham vindo para isso, enquanto que no banco estava um treinador que já partiu derrotado e que não soube ajudar a equipa do fora, quando ela precisou de um mínimo de lucidez estratégica. E assim continua Vítor Pereira: já perdeu ou foi afastado rapidamente do cinco competições e só lhe resta, como consolação, uma vitória pífia sobre o Guimarães, que valeu uma Supertaça nacional. E tudo feito com um ar de naturalidade a que não estávamos habituados.
3- Em Paços de Ferreira, a sensacão foi a de sonhar pela enésima vez o mesmo sonho mau: um campo apertado, tornado ainda mais pequeno por uma equipa em que todos defendiam atrás da linha da bola; um guarda redes pronto para fazer a exibição da época; um FC Porto que inevitavelmente entra a passo, sem pressa e sem rasgo, convencido que o tempo tudo resolve; um meio campo sem força que não pode ser rendido por ausência de reforços; uma segunda parte já jogada a sério e com sucessivas oportunidades desperdiçadas para matar o jogo; até que, com zero ocasiões de golo do adversário, antes ou depois, aparece um canto (um, um canto!): bola batida para a linha da pequena área, o Helton tranquilamente entre os postes, como sempre, e o Rolando batido lá em cima, como de costume, por um jogador com menos 15 centimetros do que ele. E assim se entregam dois pontos. Nunca o campeonalo nos pareceu tão fácil de ganhar e nunca nos pareceu tão próximo de se perder.
Ora, o que vemos, no meio desta imensa cacofonia dos últimos tempos é que, na Luz, para a Taça da Liga, o FC Porto teve o Benfica totalmente à sua mercê e retraiu-se, não lhe sabendo ou ousando dar a estocada final e mandando a culpa da derrota para cima do árbitro, enquanto que contra a Académica e contra o Paços de Ferreira, deu-se ao luxo de desperdiçar toda a primeira parte, consentiu dois empates e depois queixou-se do árbitro. O Sporting não jogou nada contra o Gil Vicente, perdeu 2-0 e reagiu como se tivesse sido o árbitro a impedir-lhe uma vitória merecidíssima. O mesmo fez o Benfica em Coimbra e em Olhão - onde até acusou um árbitro que deu nove minutos de descontos na segunda parte(!) de ter «pactuado com o antijogo do adversário». Excepção feita ao Benfica-Porto da Taça da Liga, aquilo que apetece dizer é «Não têm vergonha de jogar tão pouco? E se os árbitros arbitrassem como vocês jogam?"
Não vou, pois, falar das arbitragens dos dois últimos jogos do FC Porto para não ajudar mais a uma festa que tem tido aspectos verdadeiramente ridículos, algumas vezes, graves. Falarei apenas do caso do Sporting com Bruno Paixão, a sua recente descoberta, e porque é revelador da coerência de alguns. Há anos que toda a gente sabe e vê que o árbitro de Setúbal não tem competência mínima para actuar na primeira Iiga. Desde Campo Maior, onde um central emprestado pelo Benfica e quase promovido a herói nacional, esteve à beira de até enforcar o Jardel perante a complacência de Bruno Paixão, que se tornou claro que ele aliava a falta de competência à falta de isenção. Mas lá foi seguindo paulatinamente a sua carreira e a sua ascensão até internacional, perante o encolher de ombros geral e apenas por uma razão: porque era inimigo de estimação do FC Porto. Nesse jogo de Campo Maior, o FC Porto perderia dois pontos que vieram a ser decisivos para as contas finais de um título agarrado pelo... Sporting! E, ainda há um mês atrás e também em Barcelos, Bruno Paixão foi determinante na perca de três pontos pelo FC Porto, os quais, talvez venham também a revelar-se decisivos nas contas finais deste título. Comparada com essa, a actuação de Bruno Paixão no Gil-Sporting foi verdadeiramente soft - tanto mais que ali o Sporting não jogava nada e nada tinha já a perder. Mas foi o que se viu: um charivari de todo o tamanho, pedidos de audiência ao ministro, ameaças de morte anónimas a Bruno Paixão e à sua família, como se o Sporting é que tivesse perdido um título em Campo Maior e se arriscasse a perder outro em Barcelos, graças a este árbitro. E o mesmo se diga de Lucílio Baptista, um árbitro que anos a fio prejudicou o FC Porto e que, num feito digno do Guinness, foi quatro vezes consecutivas nomeado para arbitrar jogos do Porto com o Sporting, em todos errando sistematicamente a favor dos leões. A ele deve o Sporting uma Taça de Portugal ganha ao Porto, no Jamor, e no final da qual, Mourinho exclamou : «Não sei se o problema deste árbitro é comigo ou com o FC Porto...» Mas foi preciso Bruno Paixão marcar dois penalties consecutivos contra o Sporting em Barcelos (um dos quais inquestionável),e foi preciso Lucílio Baptista atribuir uma Taça da Liga ao Benfica, numa final com o Sporting, para que os sportinguistas, subitamente, se dessem conta da sua existência, como se ambos não tivessem um historial antes disso...
2- É muito raro de ver, mas aconteceu: Pinto da Costa foi o primeiro responsável pela derrota do FC Porto na Taça da Iiga. Ao antecipar que aquilo não era importante e que se deveriam rodar jogadores, ele disse exactamente o que Vítor Pereira queria ouvir. Desresponsabilizado previamente por mais uma competição falhada, o treinador portista avançou para aquilo que chamou «uma gestão inteligente» do plantel, que lhe assegurava uma win win situation: se ganhasse, era um mestre; se perdesse, tinha desculpa. Mas o que não teve desculpa foi a «inteligência» da sua gestão: em obediência ao princípio da rotação na baliza, que, pelos vistos é mais importante do que o princípio de tentar ganhar títulos (nos últimos tempos, e com Nuno Espírito Santo na baliza, perdemos assim uma Taça de Portugal e uma Taça da Liga), substituiu o Helton polo Bracali, guarda-redes fraco e baixinho, que tratou de encaixar três bolas na trave e três golos, todos com defesa, a troco de nada. Continuando sem perceber que o Maicon é o melhor central que tem, resolveu geri-lo no banco, esquecendo-se até que ele era o único que não precisava de descanso, porque estava castigado para Paços de Ferreira. Em lugar dele, meteu o Mangala, verde de mais para jogos destes, e responsável directo por dois golos do Benfica. Num meio-campo misteriosamente despovoado em Janeiro, resolveu insistir no Lucho, de principio a fim - pagando a factura em Paços de Ferreira. Em contrapartida, deixou o jovem James, que toda a Europa cobiça, a descansar uma vez mais no banco e, com ele no flanco esquerdo, em vez de Alvaro Pereira, teria arrumado o Benfica, quando estava a ganhar 2-1 e todo o lado direito da defensiva benfiquista era uma Avenida da Liberdade. Foi penoso ver como, desta vez e sem demoras, os jogadores mostraram que queriam ganhar e que tinham vindo para isso, enquanto que no banco estava um treinador que já partiu derrotado e que não soube ajudar a equipa do fora, quando ela precisou de um mínimo de lucidez estratégica. E assim continua Vítor Pereira: já perdeu ou foi afastado rapidamente do cinco competições e só lhe resta, como consolação, uma vitória pífia sobre o Guimarães, que valeu uma Supertaça nacional. E tudo feito com um ar de naturalidade a que não estávamos habituados.
3- Em Paços de Ferreira, a sensacão foi a de sonhar pela enésima vez o mesmo sonho mau: um campo apertado, tornado ainda mais pequeno por uma equipa em que todos defendiam atrás da linha da bola; um guarda redes pronto para fazer a exibição da época; um FC Porto que inevitavelmente entra a passo, sem pressa e sem rasgo, convencido que o tempo tudo resolve; um meio campo sem força que não pode ser rendido por ausência de reforços; uma segunda parte já jogada a sério e com sucessivas oportunidades desperdiçadas para matar o jogo; até que, com zero ocasiões de golo do adversário, antes ou depois, aparece um canto (um, um canto!): bola batida para a linha da pequena área, o Helton tranquilamente entre os postes, como sempre, e o Rolando batido lá em cima, como de costume, por um jogador com menos 15 centimetros do que ele. E assim se entregam dois pontos. Nunca o campeonalo nos pareceu tão fácil de ganhar e nunca nos pareceu tão próximo de se perder.
terça-feira, fevereiro 26, 2013
A REVOLTA DOS PEQUENOS PRESIDENTES (20 MARÇO 2012)
1- Os jogadores do Vitória de Guimarães, do Vitória de Setúbal e do União de Leiria não recebem ordenados há três meses: entram em campo para lutar pela vitória ou pelos pontos sem saberem quando e se alguma vez verão o dinheiro estipulado nos seus contratos. E falo apenas dos casos mais conhecidos, pois consta por aí que os salários em atraso atingem a quase totalidade dos clubes da primeira e segunda divisão. Esperava-se que o novo presidente da Liga de Clubes se preocupasse com isso, que tomasse medidas para evitar essa vergonha ou, pelo menos, para impedir que clubes com dívidas a jogadores possam continuar tranquilamente a contratar outros - o que é também uma forma de concorrência desleal. Mas não, o que preocupa o novo presidente da Liga é assegurar aos chamados pequenos clubes o cumprimento da sua promessa eleitoral do alargamento da primeira divisão, para repor uma competição a 18 para a qual o país não tem população que o justifique e o nosso futebol não tem capacidade desportiva ou financeira que o sustente. Em lugar de reduzir a primeira divisão a doze clubes, jogando a quatro voltas (primeiro, todos; depois, em duas séries, dos seis primeiros e dos seis últimos), num sistema que toda a gente de bom senso e boa-fé reconhece ser o mais adequado e competitivo, atraindo mais publico e mais receitas, Sua Excelência promove o alargamento. Não para defender o futebol, como lhe competia, mas para defender os interesses dos clubes que o elegeram, tirando-o do absoluto anonimato, em troca dessa miserável combinação.
O Dr. Mário Figueiredo, na pele de um Robin Hood do futebol português, é simplesmente ridículo. Claro que, em teoria, todos defendemos que haja maior igualdade e competitividade entre os grandes e os pequenos: não há ninguém que não goste de ver um Braga a lutar pelo título, por exemplo. Mas isso não se faz artificialmente, por regras adoptadas ad-hoc e em ambiente comicieiro de assembleias gerais a que chamam democráticas. Por mais que o Sr. Figueiredo e os seus compères queiram alargar para 18 ou para 20 a primeira I.iga, por mais que ameacem a Olivedesportos de queixas e processos ou que ameacem os grandes com greves (como esse génio do presidente do Gil, que tantos benefícios tem trazido ao futebol português), restam os factos, os míseros factos, que contrariam as suas ambições: onde estão as infraestruturas, onde está o público, onde estão os patrocinadores e os anunciantes, onde está alguém interessado em concorrer com a Olivedesportos pelos direitos televisivos do nosso campeonato, que possa sustentar esses pequenos numa primeira divisão, de outra forma que não seja a de não pagarem impostos nem salários? Nós vemos um jogo em Birmingham, do campeonato inglês, em Hannover, do campeonato alemão, ou em Málaga, do campeonato espanhol, e o que vemos? Estádios quase sempre cheios, relvados impecáveis e de dimensões máximas, equipas pequenas a jogarem aberto e para ganhar. Mas vemos um jogo em Barcelos, em Setúbal, em Leiria, e o que vemos? Bancadas vazias, campos sem a dimensão máxima, equipas a jogarem o jogo do autocarro. E esperam assim ter público, ter sócios, ter anunciantes, ter disputa pela cobertura televisiva dos jogos? Não, eles esperam apenas duas coisas: aproveitar os jogos com os grandes para facturarem os direitos televisivos e os bilhetes ao preço máximo, e conseguirem o miraculoso pontinho que lhes pode vir a ser muito útil para continuarem ao mais alto nível. Uma greve dos pequenos aos jogos com os grandes, como promete o Sr. Fiúza, seria uma coisa assustadora. E que tal uma greve dos grandes aos jogos com os pequenos?
Nunca dei para o peditório nacional dos coitadinhos dos pequenos do nosso futebol, devorados pelos grandes. E não dei, por uma razão simples: porque o problema não está nos nossos grandes, que não são grandes de mais; o problema está nos pequenos, que são pequenos de mais. Porto, Benfica e Sporting estão muito aquém do nível de clubes médios dos campeonatos que interessam, e tomaram eles que os pequenos assegurassem bem mais competitividade e interesse do público. Mas, infelizmente, os nossos pequenos estão muito aquém de qualquer clube de segunda divisão dos campeonatos competitivos. Umas vezes, por razões inelutáveis, de ordem econó- mica, demográfica ou social. Outras vezes, a maior parte delas talvez, por razões de má gestão, ambições não sustentadas e total falta de respeito pela qualidade dos espectáculos que proporcionam. Não penso que seja função do Porto, do Sporting, do Benfica e até do Braga, ter de apoiar os desejos de vaidade de alguns patos bravos, amigos do autarca local e ansiosos por reconhecimento púbico e promoção social, auto-erigidos em dirigentes desportivos, sem qualquer competência que os recomende para tal.
2- Para um portista, é uma estranha sensação ver os nossos principais rivais seguirem em frente na Europa - um para os quartos da Champions, outro para os da Liga Europa — e nós de fora, a ver passar o comboio. Como já disse, acho que tivemos muito azar no sorteio da Liga Europa, onde nem sequer o facto de sermos o detentor do título nos assegurou um lugar de cabeça-de-série no sorteio dos dezasseis avos finais. Mas, como o Sporting o demonstrou, e brilhantemente, o Manchester City não era invencível. Teria sido necessário estudar melhor o adversário, ultrapassar o terror que nos paralisa face a equipes inglesas e não cometer erros fatais, tais como oferecer um golo aos 20 segundos de jogo. A verdade é que, em vez de termos «jogado à Porto» - como sentenciou Vítor Pereira, depois de levar 4-0 em Manchester - deveríamos era ter jogado à Sporting. Quem o diria!
O Sporting foi compensado com o seu brilharete face ao City, recebendo no sorteio a mais acessível das equipes que lá estavam, aqueles ucranianos com nome de fábrica dos tempos soviéticos. E o Benfica recebeu quem Jorge Jesus queria - e por alguma razão o queria. Um Benfica com uma noite inspirada e outra disciplinada, pode bem levar de vencida o Chelsea.
3- Não prevejo nenhum desfecho em particular para o jogo de hoje à noite na Luz, mas espero que os jogadores portistas não tenham ouvido as palavras de Pinto da Costa, tirando importância ao jogo. Nem consigo perceber como é que o presidente do FC Porto disse tal coisa; então, fomos corridos, sem honra nem glória, da Supertaça europeia, da Taça de Portugal, da Liga dos Campeões, da Liga Europa, tanto podemos ganhar o campeonato como acabar em terceiro, e o presidente do FC Porto acha que não se justifica um esforçozinho para ganhar na Luz e conquistar, pelo menos, o Troféu Lucílio Baptista?
Aliás, contenção de esforços é o que mais temos visto nos últimos jogos, com a Académica no Dragão, e com o Nacional na Madeira, em que só graças a Helton saímos com os três pontos. Não estamos na Europa, não estamos na Taça, andamos poupados no campeonato, que razão sobra para irmos à Luz sem obrigação de tudo fazer para ganhar? Aliás, nem vejo que jogadores principais deveriam ficar a descansar, visto que, e após as generosas cedências e empréstimos da época de Dezembro, nem sequer temos tido 18 jogadores para a ficha técnica dos jogos, sem recorrer aos juniores. (Um dia ainda me hão-de contar quem teve, por exemplo, a avisada ideia de ficar apenas com quatro médios e um ponta-de-lança a meio da época, quando ainda disputávamos a Champions e o resto!).
Pois, eu cá por mim não concedo nada: quero ganhar na Luz logo à noite!
O Dr. Mário Figueiredo, na pele de um Robin Hood do futebol português, é simplesmente ridículo. Claro que, em teoria, todos defendemos que haja maior igualdade e competitividade entre os grandes e os pequenos: não há ninguém que não goste de ver um Braga a lutar pelo título, por exemplo. Mas isso não se faz artificialmente, por regras adoptadas ad-hoc e em ambiente comicieiro de assembleias gerais a que chamam democráticas. Por mais que o Sr. Figueiredo e os seus compères queiram alargar para 18 ou para 20 a primeira I.iga, por mais que ameacem a Olivedesportos de queixas e processos ou que ameacem os grandes com greves (como esse génio do presidente do Gil, que tantos benefícios tem trazido ao futebol português), restam os factos, os míseros factos, que contrariam as suas ambições: onde estão as infraestruturas, onde está o público, onde estão os patrocinadores e os anunciantes, onde está alguém interessado em concorrer com a Olivedesportos pelos direitos televisivos do nosso campeonato, que possa sustentar esses pequenos numa primeira divisão, de outra forma que não seja a de não pagarem impostos nem salários? Nós vemos um jogo em Birmingham, do campeonato inglês, em Hannover, do campeonato alemão, ou em Málaga, do campeonato espanhol, e o que vemos? Estádios quase sempre cheios, relvados impecáveis e de dimensões máximas, equipas pequenas a jogarem aberto e para ganhar. Mas vemos um jogo em Barcelos, em Setúbal, em Leiria, e o que vemos? Bancadas vazias, campos sem a dimensão máxima, equipas a jogarem o jogo do autocarro. E esperam assim ter público, ter sócios, ter anunciantes, ter disputa pela cobertura televisiva dos jogos? Não, eles esperam apenas duas coisas: aproveitar os jogos com os grandes para facturarem os direitos televisivos e os bilhetes ao preço máximo, e conseguirem o miraculoso pontinho que lhes pode vir a ser muito útil para continuarem ao mais alto nível. Uma greve dos pequenos aos jogos com os grandes, como promete o Sr. Fiúza, seria uma coisa assustadora. E que tal uma greve dos grandes aos jogos com os pequenos?
Nunca dei para o peditório nacional dos coitadinhos dos pequenos do nosso futebol, devorados pelos grandes. E não dei, por uma razão simples: porque o problema não está nos nossos grandes, que não são grandes de mais; o problema está nos pequenos, que são pequenos de mais. Porto, Benfica e Sporting estão muito aquém do nível de clubes médios dos campeonatos que interessam, e tomaram eles que os pequenos assegurassem bem mais competitividade e interesse do público. Mas, infelizmente, os nossos pequenos estão muito aquém de qualquer clube de segunda divisão dos campeonatos competitivos. Umas vezes, por razões inelutáveis, de ordem econó- mica, demográfica ou social. Outras vezes, a maior parte delas talvez, por razões de má gestão, ambições não sustentadas e total falta de respeito pela qualidade dos espectáculos que proporcionam. Não penso que seja função do Porto, do Sporting, do Benfica e até do Braga, ter de apoiar os desejos de vaidade de alguns patos bravos, amigos do autarca local e ansiosos por reconhecimento púbico e promoção social, auto-erigidos em dirigentes desportivos, sem qualquer competência que os recomende para tal.
2- Para um portista, é uma estranha sensação ver os nossos principais rivais seguirem em frente na Europa - um para os quartos da Champions, outro para os da Liga Europa — e nós de fora, a ver passar o comboio. Como já disse, acho que tivemos muito azar no sorteio da Liga Europa, onde nem sequer o facto de sermos o detentor do título nos assegurou um lugar de cabeça-de-série no sorteio dos dezasseis avos finais. Mas, como o Sporting o demonstrou, e brilhantemente, o Manchester City não era invencível. Teria sido necessário estudar melhor o adversário, ultrapassar o terror que nos paralisa face a equipes inglesas e não cometer erros fatais, tais como oferecer um golo aos 20 segundos de jogo. A verdade é que, em vez de termos «jogado à Porto» - como sentenciou Vítor Pereira, depois de levar 4-0 em Manchester - deveríamos era ter jogado à Sporting. Quem o diria!
O Sporting foi compensado com o seu brilharete face ao City, recebendo no sorteio a mais acessível das equipes que lá estavam, aqueles ucranianos com nome de fábrica dos tempos soviéticos. E o Benfica recebeu quem Jorge Jesus queria - e por alguma razão o queria. Um Benfica com uma noite inspirada e outra disciplinada, pode bem levar de vencida o Chelsea.
3- Não prevejo nenhum desfecho em particular para o jogo de hoje à noite na Luz, mas espero que os jogadores portistas não tenham ouvido as palavras de Pinto da Costa, tirando importância ao jogo. Nem consigo perceber como é que o presidente do FC Porto disse tal coisa; então, fomos corridos, sem honra nem glória, da Supertaça europeia, da Taça de Portugal, da Liga dos Campeões, da Liga Europa, tanto podemos ganhar o campeonato como acabar em terceiro, e o presidente do FC Porto acha que não se justifica um esforçozinho para ganhar na Luz e conquistar, pelo menos, o Troféu Lucílio Baptista?
Aliás, contenção de esforços é o que mais temos visto nos últimos jogos, com a Académica no Dragão, e com o Nacional na Madeira, em que só graças a Helton saímos com os três pontos. Não estamos na Europa, não estamos na Taça, andamos poupados no campeonato, que razão sobra para irmos à Luz sem obrigação de tudo fazer para ganhar? Aliás, nem vejo que jogadores principais deveriam ficar a descansar, visto que, e após as generosas cedências e empréstimos da época de Dezembro, nem sequer temos tido 18 jogadores para a ficha técnica dos jogos, sem recorrer aos juniores. (Um dia ainda me hão-de contar quem teve, por exemplo, a avisada ideia de ficar apenas com quatro médios e um ponta-de-lança a meio da época, quando ainda disputávamos a Champions e o resto!).
Pois, eu cá por mim não concedo nada: quero ganhar na Luz logo à noite!
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
ESPEREMOS QUE NÃO AQUEÇA DE MAIS… (13 MARÇO 2012)
1- Quando for grande, quero ser como o Rui Gomes da Silva: se não gostar de uma transmissão televisiva de um jogo do Benfica, por achar que ficou por repetir um lance duvidoso contra os encarnados, eu pego no telefone, ligo para A BOLA e a minha indignação ocupa metade da última página, com chamada de primeira página no jornal. Gente importante é assim. Eu, por exemplo, também achei que, no último Benfica-Porto houve uma queda do Djalma na área do Benfica que gostaria de visto repetida e não vi: mas a quem me queixar? Em tempos, o Benfica também protestou contra os comentários da Sport TV, agora protesta contra a própria realização. Imaginem o que seriam os jogos do Benfica transmitidos pela Benfica TV, com o Rui Gomes da Silva na realização e o Sílvio Cervan nos comentários!
Eu compreendo, porém: a coisa está a apertar e o que o dirigente do Benfica pretendeu foi lançar fumo sobre o que realmente aconteceu no Dragão e que contou a sério: mesmo antes do intervalo, o Hulk isola-se desmarcado pelo James e partindo de posição completamente legal finta o guarda-redes e, quando vai encostar para a baliza deserta, apita o árbitro a marcar off-side que não houve. O mesmo Hulk, mais adiante, entra na área, bate em velocidade Nivaldo é derrubado por este e o árbitro decide-se por uma tripla penalização do FC Porto: não marca o penalty, mostra amarelo a Hulk por pretensa simulação (já não se pode cair na área, com ou sem penalty) e, com isso, põe-no fora do próximo jogo, a difícil deslocação ao Nacional. Aliás, e segundo a análise deste mesmo jornal, já antes disso, um outro penalty contra a Académica teria ficado por marcar (e vou dizer uma coisa que jamais Gomes da Silva ou Gervan diriam, em idênticas circunstâncias: não acho que este tenha sido penalty, assim como não acho que o tenha sido a mão do Cardozo na sua área, durante o Benfica-Porto).
Olhão: empate e dois pontos perdidos graças a um erro decisivo da arbitragem; Barcelos: derrota e três pontos perdidos graças a quatro decisões determinantes do artista Bruno Paixão; e, agora, contra a Académica, empate e mais dois pontos perdidos graças a dois erros com influência directa no resultado. E eis que finalmente me sinto irmanado com o meu amigo Eduardo Sete Pontos Roubados Barroso: também nós nos podemos queixar da maldição dos sete pontos. (Atenção, Eduardo: não me estou a meter contigo, por quem tenho grande consideração, e cujo clubismo apaixonado, como o de nós todos, não inclui, por formação, o ódio doentio aos adversários e a arrogância de quem acha que tudo podem e tudo lhes é devido, que escorre do discurso de um Gomes da Silva e de um Sílvio Cervan. São níveis completamente diferentes ).
2- Mas esta reflexão sobre a infeliz arbitragem do Dragão, é apenas a constatação de um facto, para efeitos da actualização das contas e da narrativa com que outros se preocupam tanto. No essencial, e como sempre o defendi, estou de acordo com Vitor Pereira: não se pode queixar da arbitragem quem tão pouco fez para ganhar o jogo. O mistério, que parece ser partilhado pelo próprio treinador portista, consiste em saber porque razão um conjunto de jogadores insuspeito de falta de ambição ou profissionalismo, entra sempre em jogo, contra os mais fracos, com uma atitude de deixa andar, que não há pressa nem perigo.
Durante toda a semana, fui lendo um rol de comentários ao Benfica-Porto que me deixou de boca aberta: afinal, provou-se que Vítor Pereira é um grande treinador e que os seus críticos é que estavam errados. Ora, sendo eu, se não o maior, pelo menos o mais antigo deles, gostaria de me defender chamando a atenção para um facto insólito: aquilo que, do consenso geral, fez Vítor Pereira ganhar o jogo da Luz foi ter feito exactamente o que eu e os seus outros críticos andámos a reclamar tanto tempo - ter tirado o Maicon de defesa direito e colocá-lo ao centro da defesa; ter mandado o Rolando para o duche mais cedo; ter posto o James em jogo. Só para nos contrariar, apareceu até uma teoria deveras extraordinária: se, cada vez que saltava do banco para o jogo, o James tudo mudava para melhor, isso queria dizer que Vítor Pereira era um génio a mexer na equipa durante o jogo pois que tinha descoberto que o James rendia bem era sentado no banco durante uma hora e depois jogando os 30 minutos finais de cada jogo. Francamente! Era como se dissessem que o Guardiola deveria deixar o Messi no banco durante uma hora, porque, assim que ele entrasse, tudo mudaria para melhor! Pois claro!
Contra a Académica, James entrou de início e, de início a fim, foi dos poucos que mexeram com o jogo. Aliás e face aos disponíveis, creio que esta foi a primeira vez que Vítor Pereira começou uma partida com um onze lógico e consensual. O único erro que tenho a apontar-lhe foi ter passado toda a primeira parte a tirar apontamentos e a consultar-se com o seu adjunto, quando o que havia a fazer face ao que estava à vista não precisava de grandes conversas: o meio campo não funcionava, jogava a passo e falhava todos os passes; não ajudava a defesa e não servia o ataque. Fernando estava num daqueles dias em que só fazia asneiras, algumas perigosas; e Lucho passeava-se, ausente, como algumas vezes lhe sucede e é sabido, para quem o conhece. É certo que a suicidária politica de dispensas de Janeiro, deixou a equipa desprovida de alternativas (Sousa, Guarín, Belluschi), mas havia uma alternativa lógica: fazer entrar Djalma, recuar James para nº10 e tirar Lucho. Era ai que Vítor Pereira deveria ter entrado em jogo e antes mesmo do intervalo. Se não consegue explicar porque razão a equipa entra apática em certos jogos, já deveria, pelo menos, ter descoberto a maneira de reagir a isso a tempo, sem se preocupar com os apontamentos nem com as susceptibilidades de intocáveis. Não há intocáveis nem esquemas fixos quando se trata de ganhar o campeonato. Eu sei que, feitas à posteriori, as análises se tornam mais fáceis. Mas por isso é que há os treinadores (que têm de reagir enquanto as coisas estão a acontecer) e os comentadores (que só intervêm depois).
3- Antes do Mundial de 2006, na Alemanha, A BOLA perguntou aos seus colaboradores quem achavam que viria a ser o melhor jogador do Mundial. Respondi Leonel Messi, mas Packerman, o seleccionador argentino, não concordava comigo: deixou Messi de fora quase todo o Mundial. Já na altura, eu achava que Messi era o melhor jogador da actualidade, mas, com o decorrer do tempo, comecei a escrever que não era apenas isso: era o melhor jogador que eu alguma vez tinha visto, o melhor jogador de sempre. Para quem gosta mesmo de futebol e o vê atenção, os cinco golos de Messi ao Bayer Leverkusen não foram apenas fruto de uma noite particularmente inspirada: não há um deles que seja banal, todos são consumados com uma genialidade e simplicidade de execução que nenhum jogador do mundo conseguiu até hoje acumular numa so noite. Tudo foi feito em souplesse, como se fosse fácil, sem uma precipitação, uma hesitação, em cada momento procurando a solução mais imaginativa e não a mais tentadora. Os dois chapéus, de pé esquerdo e pé direito, só estão ao alcance de um predestinado, mas o quinto golo, visto e meditado com atenção, não vem nos livros nem nos nossos melhores sonhos: vem do outro mundo. Estou como disse Rosell, o presidente do Barcelona: «nunca mais vai haver um jogador assim. Só nos resta assistir e desfrutar». E a isto eu acrescento o que também já escrevi e só aumenta a minha infinita admiração por este verdadeiro reinventor do futebol: Leo Messi é um deus, com o mundo a seus pés. Mas não se deslumbra nem se exibe para além da sua suprema arte de jogar futebol como ninguém mais. Não exibe os músculos, nem loiras, nem Ferraris, não tem brincos nem tatuagens, nem sequer gel no cabelo ou penteados foleiros à Moicano ou penteados idiotas à neo-nazi. Ninguém sabe nada da sua vida privada, a não ser que criou uma Fundação - não para fugir ao fisco, como tantos outros, mas para ajudar mesmo crianças necessitadas. Que Deus proteja Leonel Messi! Nunca o futebol deveu tanto a um só homem.
Eu compreendo, porém: a coisa está a apertar e o que o dirigente do Benfica pretendeu foi lançar fumo sobre o que realmente aconteceu no Dragão e que contou a sério: mesmo antes do intervalo, o Hulk isola-se desmarcado pelo James e partindo de posição completamente legal finta o guarda-redes e, quando vai encostar para a baliza deserta, apita o árbitro a marcar off-side que não houve. O mesmo Hulk, mais adiante, entra na área, bate em velocidade Nivaldo é derrubado por este e o árbitro decide-se por uma tripla penalização do FC Porto: não marca o penalty, mostra amarelo a Hulk por pretensa simulação (já não se pode cair na área, com ou sem penalty) e, com isso, põe-no fora do próximo jogo, a difícil deslocação ao Nacional. Aliás, e segundo a análise deste mesmo jornal, já antes disso, um outro penalty contra a Académica teria ficado por marcar (e vou dizer uma coisa que jamais Gomes da Silva ou Gervan diriam, em idênticas circunstâncias: não acho que este tenha sido penalty, assim como não acho que o tenha sido a mão do Cardozo na sua área, durante o Benfica-Porto).
Olhão: empate e dois pontos perdidos graças a um erro decisivo da arbitragem; Barcelos: derrota e três pontos perdidos graças a quatro decisões determinantes do artista Bruno Paixão; e, agora, contra a Académica, empate e mais dois pontos perdidos graças a dois erros com influência directa no resultado. E eis que finalmente me sinto irmanado com o meu amigo Eduardo Sete Pontos Roubados Barroso: também nós nos podemos queixar da maldição dos sete pontos. (Atenção, Eduardo: não me estou a meter contigo, por quem tenho grande consideração, e cujo clubismo apaixonado, como o de nós todos, não inclui, por formação, o ódio doentio aos adversários e a arrogância de quem acha que tudo podem e tudo lhes é devido, que escorre do discurso de um Gomes da Silva e de um Sílvio Cervan. São níveis completamente diferentes ).
2- Mas esta reflexão sobre a infeliz arbitragem do Dragão, é apenas a constatação de um facto, para efeitos da actualização das contas e da narrativa com que outros se preocupam tanto. No essencial, e como sempre o defendi, estou de acordo com Vitor Pereira: não se pode queixar da arbitragem quem tão pouco fez para ganhar o jogo. O mistério, que parece ser partilhado pelo próprio treinador portista, consiste em saber porque razão um conjunto de jogadores insuspeito de falta de ambição ou profissionalismo, entra sempre em jogo, contra os mais fracos, com uma atitude de deixa andar, que não há pressa nem perigo.
Durante toda a semana, fui lendo um rol de comentários ao Benfica-Porto que me deixou de boca aberta: afinal, provou-se que Vítor Pereira é um grande treinador e que os seus críticos é que estavam errados. Ora, sendo eu, se não o maior, pelo menos o mais antigo deles, gostaria de me defender chamando a atenção para um facto insólito: aquilo que, do consenso geral, fez Vítor Pereira ganhar o jogo da Luz foi ter feito exactamente o que eu e os seus outros críticos andámos a reclamar tanto tempo - ter tirado o Maicon de defesa direito e colocá-lo ao centro da defesa; ter mandado o Rolando para o duche mais cedo; ter posto o James em jogo. Só para nos contrariar, apareceu até uma teoria deveras extraordinária: se, cada vez que saltava do banco para o jogo, o James tudo mudava para melhor, isso queria dizer que Vítor Pereira era um génio a mexer na equipa durante o jogo pois que tinha descoberto que o James rendia bem era sentado no banco durante uma hora e depois jogando os 30 minutos finais de cada jogo. Francamente! Era como se dissessem que o Guardiola deveria deixar o Messi no banco durante uma hora, porque, assim que ele entrasse, tudo mudaria para melhor! Pois claro!
Contra a Académica, James entrou de início e, de início a fim, foi dos poucos que mexeram com o jogo. Aliás e face aos disponíveis, creio que esta foi a primeira vez que Vítor Pereira começou uma partida com um onze lógico e consensual. O único erro que tenho a apontar-lhe foi ter passado toda a primeira parte a tirar apontamentos e a consultar-se com o seu adjunto, quando o que havia a fazer face ao que estava à vista não precisava de grandes conversas: o meio campo não funcionava, jogava a passo e falhava todos os passes; não ajudava a defesa e não servia o ataque. Fernando estava num daqueles dias em que só fazia asneiras, algumas perigosas; e Lucho passeava-se, ausente, como algumas vezes lhe sucede e é sabido, para quem o conhece. É certo que a suicidária politica de dispensas de Janeiro, deixou a equipa desprovida de alternativas (Sousa, Guarín, Belluschi), mas havia uma alternativa lógica: fazer entrar Djalma, recuar James para nº10 e tirar Lucho. Era ai que Vítor Pereira deveria ter entrado em jogo e antes mesmo do intervalo. Se não consegue explicar porque razão a equipa entra apática em certos jogos, já deveria, pelo menos, ter descoberto a maneira de reagir a isso a tempo, sem se preocupar com os apontamentos nem com as susceptibilidades de intocáveis. Não há intocáveis nem esquemas fixos quando se trata de ganhar o campeonato. Eu sei que, feitas à posteriori, as análises se tornam mais fáceis. Mas por isso é que há os treinadores (que têm de reagir enquanto as coisas estão a acontecer) e os comentadores (que só intervêm depois).
3- Antes do Mundial de 2006, na Alemanha, A BOLA perguntou aos seus colaboradores quem achavam que viria a ser o melhor jogador do Mundial. Respondi Leonel Messi, mas Packerman, o seleccionador argentino, não concordava comigo: deixou Messi de fora quase todo o Mundial. Já na altura, eu achava que Messi era o melhor jogador da actualidade, mas, com o decorrer do tempo, comecei a escrever que não era apenas isso: era o melhor jogador que eu alguma vez tinha visto, o melhor jogador de sempre. Para quem gosta mesmo de futebol e o vê atenção, os cinco golos de Messi ao Bayer Leverkusen não foram apenas fruto de uma noite particularmente inspirada: não há um deles que seja banal, todos são consumados com uma genialidade e simplicidade de execução que nenhum jogador do mundo conseguiu até hoje acumular numa so noite. Tudo foi feito em souplesse, como se fosse fácil, sem uma precipitação, uma hesitação, em cada momento procurando a solução mais imaginativa e não a mais tentadora. Os dois chapéus, de pé esquerdo e pé direito, só estão ao alcance de um predestinado, mas o quinto golo, visto e meditado com atenção, não vem nos livros nem nos nossos melhores sonhos: vem do outro mundo. Estou como disse Rosell, o presidente do Barcelona: «nunca mais vai haver um jogador assim. Só nos resta assistir e desfrutar». E a isto eu acrescento o que também já escrevi e só aumenta a minha infinita admiração por este verdadeiro reinventor do futebol: Leo Messi é um deus, com o mundo a seus pés. Mas não se deslumbra nem se exibe para além da sua suprema arte de jogar futebol como ninguém mais. Não exibe os músculos, nem loiras, nem Ferraris, não tem brincos nem tatuagens, nem sequer gel no cabelo ou penteados foleiros à Moicano ou penteados idiotas à neo-nazi. Ninguém sabe nada da sua vida privada, a não ser que criou uma Fundação - não para fugir ao fisco, como tantos outros, mas para ajudar mesmo crianças necessitadas. Que Deus proteja Leonel Messi! Nunca o futebol deveu tanto a um só homem.