1- Tenho uma boa notícia para os benfiquistas: o próximo campeão nacional é o SLB. É claro que nós, os portistas, vamos continuar a dar luta até onde pudermos, que, até ser matematicamente possível, nada está ainda decidido, que até ao lavar dos cestos é vindima, etc. e tal. Conversa fiada: o título está entregue. E está entregue por várias razões:
- primeiro, por mérito próprio. Embora estas coisas nunca sejam retribuídas (ou só muito tardiamente), eu gosto de tentar ser justo e ver com olhos de ver: o Benfica está a fazer um grande campeonato, ao nível do FCP de Villas Boas, na época passada, e não me parece que vá quebrar, que cometa outra vez o pecado da soberba, que tão caro pagou então. Como já aqui o escrevi, reforçou-se muito bem, consegue integrar de forma perfeita os novos reforços na equipa, resolveu excelentemente o problema da baliza, e, quando solta a cavalaria no ataque, é um caso sério.
- segundo, porque o FC Porto é treinado por Vítor Pereira.
- terceiro, porque Bruno Paixão deu um empurrão decisivo no jogo do FC Porto em Barcelos no momento certo, na primeira oportunidade que teve e não desperdiçou. Aliás, para que o mérito deste campeonato do Benfica possa ser reconhecido, mais ou menos pacificamente, convinha que acabassem, com mais de três pontos de avanço sobre o Porto - para que este não fique conhecido como o campeonato do Bruno Paixão, como o anterior ficou conhecido (para nós, portistas), como o campeonato do Ricardo Costa, aquele em que o Hulk foi afastado para garantir um caminho asfaltado até à vitória.
- e, em quarto lugar, porque o jogo do título - o Benfica-FC Porto de 2 de Março — foi marcado excepcionalmente para uma sexta-feira, 48 horas depois de toda a equipa do FC Porto ter estado ao serviço das respectivas Selecções. Sim, eu sei que também haverá muitos jogadores do Benfica na mesma situação, mas no FC Porto são praticamente todos (por exemplo, três no jogo de Portugal em Varsóvia, contra nenhum do Bem- fica). Pelo que é de prever que no dia 2 de Março, no Estádio da I.uz, no jogo que tudo decidirá, o FC Porto tenha de fazer alinhar uma equipa de sonâmbulos esgotados. Vítor Pereira tem chamado a atenção para isso, mas, estranhamente ou talvez não, ainda ninguém parece ter percebido bem o que se prepara para o dia 2 de Março e até que ponto isso pode falsificar o desfecho final deste campeonato. Sobra-me, todavia, uma dúvida, que eu gostaria de ver esclarecida (aqui mesmo, nas páginas de A BOLA, porque não?}: a data do jogo está fi- xada desde o início da época ou foi marcada recentemente? É que, se foi marcada logo no início da época, é pura incompetência do departamento de futebol do FC Porto tê-la aceite então, não antecipando que, nesta altura, pudesse estar o Benfica a disputar a Liga dos Campeões e o FC Porto a Liga Europa; se foi marcada recentemente, então trata-se de uma jogada muito pouco clara e que deve ser explicada por quem de direito.
2- Vítor Pereira tem cara de ser excelente pessoa, excelente pai de família, amigo do seu amigo, trabalhador esforçado e sério. Não tenho nada, absolutamente nada, de pessoal ou profissional, contra ele e desejo-lhe as maiores felicidades na vida e no trabalho. Dito o que confesso que já não aguento mais a sua gritante, óbvia, chocante, incapacidade para o lugar de treinador do FC Porto. E estou a ser brando: acho que ele, não apenas vai perder tudo o que há para perder, como vai dar cabo de uma equipa fantástica que herdou sem saber como nem porquê. Vítor Pereira faz-me lembrar a garagem do Cristiano Ronaldo: tem lá um Lamborghini Aventator, que acabou de comprar por 350.000 euros e que veio juntar-se a um Ferrari, dois Bentleys, um Aston Martin, um Fornasari e quatro Audi, topo-topo de gama, mas não é certo que ele os saiba guiar e que não os espete dentro de um túnel, em Londres. Vítor Pereira também tem lá vários Ferraris e Lamborghinis. mas não os distingue de Fiat Puntos e Renault 5. Ele é, por exemplo, a única pessoa que não percebeu a importância do jogo de um Fucile, um Belluschi, um Guarin ou um Candeias, que agora brilha intensamente ao serviço do Nacional. Ele é o único treinador a quem é oferecida uma promessa como o Iturbe para o potenciar e, em vez disso, encosta-o em casa, condenado à ociosidade e à desmotivação (veja-se a diferença para o que Jesus fez com Rodrigo, da mesma idade). E é, seguramente, a única pessoa de todas as que vê jogar o FC Porto, que ainda não percebeu que tem um génio ao seu serviço chamado James Rodriguez e lhe prefere banalidades como o Cristian Rodriguez, o Varela ou o Djalma. Mesmo que, uma e outra vez, o James demonstre que consegue fazer infinitamente mais em meia hora do que os três juntos em hora e meia, Vítor Pereira lá continua agarrado à sua fé de que há-de conseguir fazer de um jogador mediano ou banal um grande jogador e que há-de conseguir fazer de um extraordinário jogador um jogador desmotivado e revoltado. Quando, no final do jogo contra o Leiria, lhe perguntaram se ele não achava que as coisas tinham mudado com a entrada do James, aos 60 minutos (um golo e duas assistências, face à total nulidade do Varela), ele achou que a pergunta continha um elogio à sua pessoa e tratou de explicar que acabara por o meter porque o jogo estava a precisar de alguém assim, dotado de grande técnica, útil para romper defesas baixas e recuadas. Não per- cebeu que a pergunta era porque razão, então, esperou 60 minutos para o meter em jogo - esteve uma hora à espera de um União de Leiria com defesa alta e espaços abertos? Ou esteve à espera de um Varela rápido, clarividente, rompedor, desequilibrador?
O problema com Vítor Pereira é que ele não percebe e não aprende. Qualquer um, no lugar dele, já teria aprendido imenso em sete meses ã frente do FC Porto. Vítor Pereira, não: continua igual ao que era em Julho passado. Como dizia Einstein, ele acredita que o mesmo o erro, repetido diversas vezes, há-de um dia produzir resultados diferentes. Querem saber o que ele vai fazer contra o Manchester City? Vai pôr o Maicon a defesa direito e o Hulk a ponta-de-lança. E, depois de ler várias críticas coincidentes, vai-se contrariar e meter o James de início, em lugar do Cristian ou do Varela, conforme lhe aconselhava a sua intuição. É um caso perdido, definitivamente é um caso perdido. Excelente pessoa, sem dúvida. Mas o maior falhanço naquelas funções desde que, após uma noite mal dormida, Pinto da Cosia acordou e fez de Octávio Machado treinador do FC Porto.
3- Sejamos justos: Vítor Pereira não foi o único treinador a mostrar a sua insuficiência durante o Porto-Leiria. Manuel Cajuda veio, naquela sua linguagem elíptica, hiperbólica e torcida, queixar-se da expulsão de um seu jogador, como factor determinante do desfecho do jogo. Pois, a expulsão pode ter sido rigorosa ou não, conforme a concepção que se tem do futebol: se, para defender vale tudo, até arriscar a integridade física dos adversários, então a entrada de Shaffer a João Moutinho é apenas uma banalidade do jogo. Mas Cajuda esqueceu-se que, logo a seguir houve um penalty sobre o Hulk não assinalado e que, para o Leiria — que, desde o apito inicial, defendeu sempre com dez jogadores e não criou uma só ocasião de golo — defender com dez ou onze era igual. E tanto assim era que, ao ver-se reduzido a dez, limitou-se a tirar o único suposto avançado e continuar a defender com os mesmos dez: mudou o 5x4x1 para 5x4x0. Não foi por acaso que, dos quatro golos a seguir apontados pelo FC Porto, dois foram por defesas, que já não tinham nada que fazer lá atrás. Cajuda, que se acha um catedrático do futebol e se imagina um génio da estratégia quando o seu guarda-redes evita três golos em enormes defesas, devia talvez, digo eu, usar de maior humildade. Afinal de contas, cada vez acho mais que ser treinador de futebol não é assim uma coisa tão extraordinária. Cada equipa tem um e há muitos que só o são porque cada equipa tem de ter um.
4- Um que deixou de o ser: Domingos Paciência, ao serviço ingrato do Sporting. Tem agora uma porta aberta a norte, do seu clube de sempre e onde as coisas funcionam de outra maneira.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
quarta-feira, fevereiro 20, 2013
A CAMINHO DO ABISMO (07 FEVEREIRO 2012)
1- Esta semana ficou a saber-se que o passivo do Sporting atingiu os 370 milhões de euros e os capitais próprios 183 milhões negativos - ou seja, a falência, ainda não declarada; que o Vitória de Guimarães falhou a tentativa de se vender aos árabes e está igualmente falido, não pagando salários há três meses - sensivelmente a mesma situação do seu homónimo de Setúbal; que o Marítimo, clube sustentado pelo dinheiros dos contribuintes via governo regional (como todos os outros da Madeira), pagou a Segurança Social com um cheque careca, publicamente anunciado pelo seu presidente, e mais uma série de casos que seria cansativo estar a enumerar. Ou seja, agora que a banca fechou o crédito, a bolha especulativa do futebol português ameaça rebentar com todo o estrondo. Nada que não fosse de prever e que não tenha sido previsto por muita gente, há muito tempo.
Entre todos os clubes cuja situação financeira se conhece como dramática, avultam dois históricos do futebol português: o Vitória de Guimarães e o Sporting. À sua dimensão, ambos têm sido, nos últimos anos, dois casos lineares de má gestão, todavia com uma subtil diferença: enquanto o presidente do Vitória de Guimarães se pode gabar de ter levado à falência financeira e à irrelevância desportiva um clube que é o quarto em assis-tências, com uma massa associativa notável — portanto, sem atenuantes que se conheçam - o caso do Sporting é diferente. Como aqui o escrevi há tempos, e para grande indignação dos meus amigos sportinguistas, o problema de fundo do Sporting é o de um definhamento progressivo e natural, a partir do momento em que o clube viu ser-lhe roubado pelo FC Porto o segundo lugar em tudo, incluindo no estatuto de challenger do Benfica. O Sporting, por mais que isto custe ouvir aos sportinguistas (mas é apenas a minha opinião...), há muito que perdeu o estatuto de grande do futebol português e eu duvido que algum dia o consiga recuperar. Hoje, discute com o Braga o lugar de primeiro dos clubes médios, fingindo acreditar que ainda pode atingir a galáxia onde vivem Benfica e Porto. E, de cada vez, que o Sporting e os seus dirigentes, num assomo de orgulho fundado em defuntas glórias, tenta recuperar num passe de magia todo o caminho perdido ao longo dos anos como este ano sucedeu com o investimento de tudo ou nada na equipa de futebol — o resultado é afundar-se mais ainda na depressão financeira, sem retorno desportivo. Ou seja: um passo mais em direcção ao abismo.
Julgo que há aqui também uma grande responsabilidade da comunicação social, que assistiu a tudo isto sem nada questionar. Durante muito tempo, por exemplo, interroguei-me aqui sobre o que seria o célebre Projecto Roquette, que nos era apresentado como um ovo de Colombo para a ressurreição do Sporting. Continuo sem saber o que era, mas agora sei o que foi: o princípio do descontrole financeiro e a construção de um estádio que, sob qualquer ponto de vista, foi um erro monumental. O mesmo em relação à gestão de Dias da Cunha, a quem a comunicação social ampliou sempre, sem se interrogar, cada catalinada que ele dizia, em tom de superioridade: hoje sabemos também que a sua gestão foi o golpe final na falência por declarar. Os meus leitores habituais sabem o quanto tenho sempre questionado os actos de gestão da SAD do FC Porto, que me parecem errados, irresponsáveis ou ruinosos. Mas, apesar de tudo, o FC Porto não está na mesma situação do Sporting. Longe disso e com duas importantíssimas diferenças: primeiro, tem obtido resultados desportivos como nunca outro clube português obteve; segundo, dispõe de um good will, como dizem os economistas, que leva a que o nome FC Porto tenha um valor e uma apetência de mercado que tomara o Sporting! Fosse eu sportinguista e aquilo que fui escrevendo teria sido bem diferente... É sem dúvida um triste sinal da situação em que caiu o Sporting que agora se discuta a serio a hipótese de vender o clube aos chineses. Assim como o é o facto de o presidente do Vitória de Guimarães ter jogado todas as suas esperanças (inclusive a de conseguir pagar salários aos jogadores), na hipótese de um qualquer sheik árabe vir aí comprar o clube. Eis o cúmulo da humilhação a que conduziram gestões irresponsáveis: dois dos clubes com maiores pergaminhos no nosso futebol estão reduzidos à condição de suplicantes de dinheiro árabe ou chinês, o que quer que seja, sem lhes importar sequer se esse dinheiro é lavagem de negócios obscuros ou presentes envenenados para servir outros fins. E, enquanto vivem na esperança da quimera de ouro, os seus clubes desabam desportivamente. Seria de esperar outra coisa?
Mas estes são apenas os primeiros sinais e as primeira vítimas de uma ilusão geral, que vai provocar, seguramente, um violento despertar. Há vários sinais que estão aí, para quem os quiser ver, e que ameaçam todos, grandes incluídos: os fundos de jogadores, que têm sido uma panaceia para os nossos clubes irem às compras, estão sob vigilância e suspeita da FIFA; os direitos televisivos são aqueles que o nosso deprimido mercado pode pagar e não o que se sonhava, como o aprendeu o Benfica, depois das suas bravatas com a Olivedesportos; e as vendas milionárias de jogadores aos potentados europeus parecem vir a tornar-se chão que já deu uvas, como acaba de o perceber o FC Porto, que não conseguiu vender nenhum jogador neste mercado de Janeiro, mas apenas emprestar, grátis e à experiência, o Fucile, o Guarín e o Belluschi.
2- Pois, a saída do Guarín e do Belluschi, em troca do regresso de Lucho, é uma jogada de alto risco. Imagine-se que o Lucho se lesiona: quem é que resta como médios de ataque, criativos e capazes de rematar à baliza as segundas bolas? Ninguém: resta o Defour e o Moutinho, dois médios do tipo pare, escute e olhe, com os quais nenhum ataque consegue ser apoiado a partir de trás. O mesmo se diga do risco corrido com a contratação de um ponta-de-lança que não pode jogar a I.iga Europa, deixando o FC Porto, como já sucedera na Liga dos Campeões, entregue à improvável inspiração do Kleber.
Dito isto, foi muito bom ver em acção as novas aquisições do FC Porto, e só foi pena que Vítor Pereira tenha prosseguido o seu processo de destruição e desmotivação de Iturbe - afastado da l.iga Europa, do campeonato e, agora também até da Taça da Liga. É um perigo um treinador que acha que o Maicon é melhor lateral direito que o Danilo, que acha que o Deffour é melhor que o Belluschi e que acha o Cristian Rodriguez melhor que o James (que só joga por pressões da crítica e dos adeptos).
Depois de ver Danilo contra o Vitória de Setúbal, vai ser difícil a Vítor Pereira tirá-lo da equipa. A aposta é que ele o puxe para médio, para poder manter o Maicon a defesa. Será um disparate, sobretudo para consumo interno: a aposta devia ser a do Maicon no lugar do Rolando ou do Otamendi, mas, para isso, é preciso coragem. Já Lucho, que regressou na sua versão de luxo, tornou-se imediatamente intocável. Com ele em jogo, voltámos a lembrar o que é um médio de ataque, capaz de antecipar a jogada seguinte antes de receber a bola, capaz de rematar à baliza sem ser para se desfazer da bola, capaz de levar todo o jogo para a frente com passes ao primeiro toque, de abrir linhas de desmarcação fatais, que só não foram melhor aproveitadas porque nos flancos estavam o Cristian Rodriguez e o Varela, dois pesos pesados, esforçados mas inúteis. (Mas, assim que entrou o James e I.ucho o desmarcou, logo resultou uma assistência para o segundo golo). E até Janko, não tendo deslumbrado (nem ninguém esperava tal), mostrou as qualidades essenciais de um ponta-de-lança coisa de que também andávamos esquecidos. Enfim, tirando o facto de não termos ponta-de-lança para enfrentar o Manchester City, se l.ucho não se magoar e continuar a mostrar o que se viu no seu regresso, pode ser que toda a equipa suba de rendimento, pois até Moutinho e Deffour melhoraram, por contágio, com l.ucho a mostrar como se faz.
Entre todos os clubes cuja situação financeira se conhece como dramática, avultam dois históricos do futebol português: o Vitória de Guimarães e o Sporting. À sua dimensão, ambos têm sido, nos últimos anos, dois casos lineares de má gestão, todavia com uma subtil diferença: enquanto o presidente do Vitória de Guimarães se pode gabar de ter levado à falência financeira e à irrelevância desportiva um clube que é o quarto em assis-tências, com uma massa associativa notável — portanto, sem atenuantes que se conheçam - o caso do Sporting é diferente. Como aqui o escrevi há tempos, e para grande indignação dos meus amigos sportinguistas, o problema de fundo do Sporting é o de um definhamento progressivo e natural, a partir do momento em que o clube viu ser-lhe roubado pelo FC Porto o segundo lugar em tudo, incluindo no estatuto de challenger do Benfica. O Sporting, por mais que isto custe ouvir aos sportinguistas (mas é apenas a minha opinião...), há muito que perdeu o estatuto de grande do futebol português e eu duvido que algum dia o consiga recuperar. Hoje, discute com o Braga o lugar de primeiro dos clubes médios, fingindo acreditar que ainda pode atingir a galáxia onde vivem Benfica e Porto. E, de cada vez, que o Sporting e os seus dirigentes, num assomo de orgulho fundado em defuntas glórias, tenta recuperar num passe de magia todo o caminho perdido ao longo dos anos como este ano sucedeu com o investimento de tudo ou nada na equipa de futebol — o resultado é afundar-se mais ainda na depressão financeira, sem retorno desportivo. Ou seja: um passo mais em direcção ao abismo.
Julgo que há aqui também uma grande responsabilidade da comunicação social, que assistiu a tudo isto sem nada questionar. Durante muito tempo, por exemplo, interroguei-me aqui sobre o que seria o célebre Projecto Roquette, que nos era apresentado como um ovo de Colombo para a ressurreição do Sporting. Continuo sem saber o que era, mas agora sei o que foi: o princípio do descontrole financeiro e a construção de um estádio que, sob qualquer ponto de vista, foi um erro monumental. O mesmo em relação à gestão de Dias da Cunha, a quem a comunicação social ampliou sempre, sem se interrogar, cada catalinada que ele dizia, em tom de superioridade: hoje sabemos também que a sua gestão foi o golpe final na falência por declarar. Os meus leitores habituais sabem o quanto tenho sempre questionado os actos de gestão da SAD do FC Porto, que me parecem errados, irresponsáveis ou ruinosos. Mas, apesar de tudo, o FC Porto não está na mesma situação do Sporting. Longe disso e com duas importantíssimas diferenças: primeiro, tem obtido resultados desportivos como nunca outro clube português obteve; segundo, dispõe de um good will, como dizem os economistas, que leva a que o nome FC Porto tenha um valor e uma apetência de mercado que tomara o Sporting! Fosse eu sportinguista e aquilo que fui escrevendo teria sido bem diferente... É sem dúvida um triste sinal da situação em que caiu o Sporting que agora se discuta a serio a hipótese de vender o clube aos chineses. Assim como o é o facto de o presidente do Vitória de Guimarães ter jogado todas as suas esperanças (inclusive a de conseguir pagar salários aos jogadores), na hipótese de um qualquer sheik árabe vir aí comprar o clube. Eis o cúmulo da humilhação a que conduziram gestões irresponsáveis: dois dos clubes com maiores pergaminhos no nosso futebol estão reduzidos à condição de suplicantes de dinheiro árabe ou chinês, o que quer que seja, sem lhes importar sequer se esse dinheiro é lavagem de negócios obscuros ou presentes envenenados para servir outros fins. E, enquanto vivem na esperança da quimera de ouro, os seus clubes desabam desportivamente. Seria de esperar outra coisa?
Mas estes são apenas os primeiros sinais e as primeira vítimas de uma ilusão geral, que vai provocar, seguramente, um violento despertar. Há vários sinais que estão aí, para quem os quiser ver, e que ameaçam todos, grandes incluídos: os fundos de jogadores, que têm sido uma panaceia para os nossos clubes irem às compras, estão sob vigilância e suspeita da FIFA; os direitos televisivos são aqueles que o nosso deprimido mercado pode pagar e não o que se sonhava, como o aprendeu o Benfica, depois das suas bravatas com a Olivedesportos; e as vendas milionárias de jogadores aos potentados europeus parecem vir a tornar-se chão que já deu uvas, como acaba de o perceber o FC Porto, que não conseguiu vender nenhum jogador neste mercado de Janeiro, mas apenas emprestar, grátis e à experiência, o Fucile, o Guarín e o Belluschi.
2- Pois, a saída do Guarín e do Belluschi, em troca do regresso de Lucho, é uma jogada de alto risco. Imagine-se que o Lucho se lesiona: quem é que resta como médios de ataque, criativos e capazes de rematar à baliza as segundas bolas? Ninguém: resta o Defour e o Moutinho, dois médios do tipo pare, escute e olhe, com os quais nenhum ataque consegue ser apoiado a partir de trás. O mesmo se diga do risco corrido com a contratação de um ponta-de-lança que não pode jogar a I.iga Europa, deixando o FC Porto, como já sucedera na Liga dos Campeões, entregue à improvável inspiração do Kleber.
Dito isto, foi muito bom ver em acção as novas aquisições do FC Porto, e só foi pena que Vítor Pereira tenha prosseguido o seu processo de destruição e desmotivação de Iturbe - afastado da l.iga Europa, do campeonato e, agora também até da Taça da Liga. É um perigo um treinador que acha que o Maicon é melhor lateral direito que o Danilo, que acha que o Deffour é melhor que o Belluschi e que acha o Cristian Rodriguez melhor que o James (que só joga por pressões da crítica e dos adeptos).
Depois de ver Danilo contra o Vitória de Setúbal, vai ser difícil a Vítor Pereira tirá-lo da equipa. A aposta é que ele o puxe para médio, para poder manter o Maicon a defesa. Será um disparate, sobretudo para consumo interno: a aposta devia ser a do Maicon no lugar do Rolando ou do Otamendi, mas, para isso, é preciso coragem. Já Lucho, que regressou na sua versão de luxo, tornou-se imediatamente intocável. Com ele em jogo, voltámos a lembrar o que é um médio de ataque, capaz de antecipar a jogada seguinte antes de receber a bola, capaz de rematar à baliza sem ser para se desfazer da bola, capaz de levar todo o jogo para a frente com passes ao primeiro toque, de abrir linhas de desmarcação fatais, que só não foram melhor aproveitadas porque nos flancos estavam o Cristian Rodriguez e o Varela, dois pesos pesados, esforçados mas inúteis. (Mas, assim que entrou o James e I.ucho o desmarcou, logo resultou uma assistência para o segundo golo). E até Janko, não tendo deslumbrado (nem ninguém esperava tal), mostrou as qualidades essenciais de um ponta-de-lança coisa de que também andávamos esquecidos. Enfim, tirando o facto de não termos ponta-de-lança para enfrentar o Manchester City, se l.ucho não se magoar e continuar a mostrar o que se viu no seu regresso, pode ser que toda a equipa suba de rendimento, pois até Moutinho e Deffour melhoraram, por contágio, com l.ucho a mostrar como se faz.
terça-feira, fevereiro 19, 2013
BRUNO PAIXÃO E VÍTOR PEREIRA: A FIRMA FATAL (31 JANEIRO 2012)
1- O futebol profissional é hoje um negócio de milhões, que não se compadece nem com amadorismos nem com incompetências larvares. Muitas vezes acontece, e há de continuar a acontecer, um clube ser prejudicado ou beneficiado por determinada arbitragem: aconteceu no sábado ao Benfica, que ganhou um jogo que não mereceu ganhar graças à actuação de um juiz-de-linha que parecia apostado em impedir qualquer hipótese de golo do Feirense. Também aconteceu domingo ao Sporting ganhar ao Beira-Mar com dois golos de um jogador que, segundo as regras em vigor, deveria ter sido expulso no primeiro minuto. São coisas que acontecem, umas vezes é-se beneficiado, outras é-se prejudicado, e o único clube que se acha sempre prejudicado – até quando é beneficiado, como anteontem - é o Sporting Clube de Portugal. Este ano as coisas por cá (e à excepção das eternas lamúrias dos sportinguistas), até estavam a correr razoavelmente bem, com queixas e benefícios repartidos. No que ao FC Porto respeita, toda a gente dos rivais o viu como beneficiado no jogo da 1ª jornada, em Guimarães, ganho de penalty — e em mais nenhum. Porém, a critica foi unânime em considerar que esse penalty existiu mesmo, assim como tinham existido quatro outros não assinalados a seu favor oito dias antes, no jogo da final da Supertaça contra o mesmo Guimarães. De então para cá, vi várias vezes o FC Porto ser alvo de arbitragens hostis (como contra o Guimarães, outra vez, ainda na semana passada), mas a equipa foi ultrapassando os azares com os árbitros sem consequências palpáveis à excepcão do jogo de Olhão, onde deixou dois pontos, graças a um erro de arbitragem.
Porém, tudo muda quando entra em cena um árbitro que já todos conhecem de ginjeira e todos sabem ao que vem. Desde o inesquecível jogo de Campo Maior que não resta dúvida alguma do objectivo que trouxe o sr. Bruno Paixão para o futebol. Porque, de facto, nunca na minha vida tinha visto actuação tão chocante como essa, escrevi então que aquele árbitro devia imediatamente ser afastado do futebol, quando ainda estava no início uma carreira da qual era de esperar o pior possível. Porém, e como é costume lusitano, quando se inicia uma carreira pública não há forma de a parar, sem ser por vontade do próprio. Bruno Paixão lá foi fazendo a sua carreira sempre subindo, claro - apesar de ter sempre mostrado exuberantemente que, tal como era de temer, é capaz de não ter pinga de isenção nem pinga de competência. Ele é, por opinião unânime (excepto, seguramente, a dos benfiquistas de má-fé) o pior árbitro em actividade na primeira categoria. E, quando a isso junta um histórico, sem desfalecimentos, de prejuízo ao FC Porto e benefício ao Benfica, é pura provocação nomeá-lo para um jogo do qual pode depender a escolha do campeão entre Porto e Benfica.
Chamado a Barcelos, Bruno Paixão não falhou na sua missão. De acordo com o consenso geral da critica, teve três erros que influíram directamente no resultado: validou mal um golo ao Gil e perdoou-Ihe dois penalties — o suficiente para que o resultado, em lugar de ter sido 3-1, tivesse sido 2-3. E, como não há dúvidas nesses trés lances, falarei apenas de mais um, também decisivo (e partindo do princípio, que a televisão não conseguiu demonstrar, de que o terceiro golo do Gil não parte de off-side). Esse outro lance é aquele de que resulta o primeiro golo do Gil e que é eloquente da senha de Bruno Paixão contra o FC Porto: dois jogadores, um de cada lado, disputam a mesma bola, levantando o pé exactamente à mesma altura. Decisão dele: livre contra o Porto. Porque, pergunta-se, e a resposta só pode ser uma: porque sim.
Que o FC Porto jogou péssimamente, jogou. Mas que perdeu por que o Gil jogou bem, não é verdade. O Gil Vicente jogou bem contra o Benfica, um jogo que bem mereceu ganhar. Contra o FC Porto, em vão se procurará, alem dos três golos, qualquer outra oportunidade, um remate perigoso, uma defesa apertada do Helton; nada disso existiu. O Gil teve menos de metade de posse de bola que o FC Porto, menos de um terço dos remates à baliza, um quarto dos ataques e zero cantos contra seis. A «eficácia» de que falou Paulo Alves traduziu-se em aproveitar em golo um livre e um penalty mal assinalados.
Não foi o Gil Vicente que venceu o FC Porto e que pôs fim à tentativa de recorde de invencibilidade. Com todo o respeito pelos esforço dos seus profissionais, quem venceu o FC Porto foi Bruno Paixão e ninguém mais. Provavelmente terá conseguido até evitar pela segunda vez que o Porto seja campeão. Um certo futebol, um certo sistema, recordará para sempre seu nome com entusiasmo. E, entretanto, para aí vai continuar, a fazer mais do mesmo, como se nada fosse. Se querem saber como é que Portugal desceu onde desceu, ponham os olhos no caso de Bruno Paixão. A impunidade de que goza é o exemplo acabado da regra de jogo, entre nós.
2- É claro que a «vergonhosa» prestação de Bruno Paixãoe e seus acólitos serviu às mil maravilhas a Vítor Pereira para explicar a derrota. Isso e a péssima primeira parte dos jogadores. Mas basta olhar para a equipa que ele escolheu para a primeira parte para antecipar o que ia suceder. Confrontado com a ausência de Hulk, como eu sempre temi, Vítor Pereira mostrou não ter nenhum Plano B - pelo contrário, pareceu-me mesmo que ele não realizou a necessidade de reforçar o poder desequilibrador ofensivo de outra forma. Só isso explica que mantenha o Maicon a lateral direito, sabendo que ele defende bem mas não ataca. Desfez-se tranquilamente de um lateral da categoria do Fucile, encostou o Sapunaru e, tendo finalmente recebido o Danilo, por quem se pagou uma fortuna, continua a ver «onde é que ele pode encaixar»; no Santos e na selecção brasileira, faz todo o corredor direito; no FC Porto de Vítor Pereira, ainda não se sabe para que serve. Mas Vítor Pereira também não percebeu ainda que só tem um médio criativo de ataque (visto que, misteriosamente também, abdicou do Guarín, que interessa ao Inter e à Juventus, mas não ao clube que lhe paga): esse médio é, como toda a gente sabe, o Belluschi, ao qual ele prefere um jogador completamente banal como Deffour ou outro completamente previsível, como João Moutinho, ainda por cima jogando a um ritmo de Dormicum. Em Barcelos, Vítor Pereira juntou ainda mais uma escolha que mostra a profundidade do seu pensamento estratégico: na hora do tudo ou nada, quando se pedia um jogador repentista no drible e no remate, ele meteu...o Cristian Rodriguez, deixando mais uma vez no banco, em «processo de adaptação», o miúdo Iturbe, de quem meio mundo diz maravilhas e já pensa recuperar de volta, face à inutilidade a que o votou o treinador nortista.
Ao fim da primeira parte do jogo de Barcelos, o FC Porto não tinha criado uma oportunidade de golo e, que me lembre, não tinha sequer feito um remate à baliza. Toda a gente o viu, até Vítor Pereira. A minha pergunta é: para que precisou ele de 45 minutos, dois golos de desvantagem e duas páginas de apontamentos para reagir ao que estava a ver?
3- Há um outro problema a carecer de uma solução urgente neste FC Porto: o sistema de jogo, de há muito implantado e com óptimos resultados, pede um ponta de lança e o sacrifício de Hulk nessa posição não resolve o problema e enfraquece o flanco. E, manifestamente, Kleber não serve. Estamos perante um daqueles casos em que um bom avançado de uma equipa média não resulta numa equipa grande: um avançado-centro de uma equipa como o FC Porto, que faz 47 ataques num jogo, não pode estar até ao minuto 90 para finalmente conseguir um remate à baliza. Kleber, para já, pelo menos (e já é o que interessa), tem o oposto do instinto matador que deve caracterizar qualquer bom ponta-de-lança: nunca consegue que os companheiros o encontrem desmarcado, nunca consegue estar onde a bola vai aparecer. E nenhuma equipa pode aspirar a um título sem um guarda-redes que evite golos e um ponta-de-lança que os invente. Alguém que, como disse Falcão, transforme o impossível em possível — ao menos, de vez em quando. Foi o grande erro de planeamento desta época, cometido pelo FC Porto. Mas, atendendo ao estado de urgência absoluto, não seria de experimentar um júnior?
Porém, tudo muda quando entra em cena um árbitro que já todos conhecem de ginjeira e todos sabem ao que vem. Desde o inesquecível jogo de Campo Maior que não resta dúvida alguma do objectivo que trouxe o sr. Bruno Paixão para o futebol. Porque, de facto, nunca na minha vida tinha visto actuação tão chocante como essa, escrevi então que aquele árbitro devia imediatamente ser afastado do futebol, quando ainda estava no início uma carreira da qual era de esperar o pior possível. Porém, e como é costume lusitano, quando se inicia uma carreira pública não há forma de a parar, sem ser por vontade do próprio. Bruno Paixão lá foi fazendo a sua carreira sempre subindo, claro - apesar de ter sempre mostrado exuberantemente que, tal como era de temer, é capaz de não ter pinga de isenção nem pinga de competência. Ele é, por opinião unânime (excepto, seguramente, a dos benfiquistas de má-fé) o pior árbitro em actividade na primeira categoria. E, quando a isso junta um histórico, sem desfalecimentos, de prejuízo ao FC Porto e benefício ao Benfica, é pura provocação nomeá-lo para um jogo do qual pode depender a escolha do campeão entre Porto e Benfica.
Chamado a Barcelos, Bruno Paixão não falhou na sua missão. De acordo com o consenso geral da critica, teve três erros que influíram directamente no resultado: validou mal um golo ao Gil e perdoou-Ihe dois penalties — o suficiente para que o resultado, em lugar de ter sido 3-1, tivesse sido 2-3. E, como não há dúvidas nesses trés lances, falarei apenas de mais um, também decisivo (e partindo do princípio, que a televisão não conseguiu demonstrar, de que o terceiro golo do Gil não parte de off-side). Esse outro lance é aquele de que resulta o primeiro golo do Gil e que é eloquente da senha de Bruno Paixão contra o FC Porto: dois jogadores, um de cada lado, disputam a mesma bola, levantando o pé exactamente à mesma altura. Decisão dele: livre contra o Porto. Porque, pergunta-se, e a resposta só pode ser uma: porque sim.
Que o FC Porto jogou péssimamente, jogou. Mas que perdeu por que o Gil jogou bem, não é verdade. O Gil Vicente jogou bem contra o Benfica, um jogo que bem mereceu ganhar. Contra o FC Porto, em vão se procurará, alem dos três golos, qualquer outra oportunidade, um remate perigoso, uma defesa apertada do Helton; nada disso existiu. O Gil teve menos de metade de posse de bola que o FC Porto, menos de um terço dos remates à baliza, um quarto dos ataques e zero cantos contra seis. A «eficácia» de que falou Paulo Alves traduziu-se em aproveitar em golo um livre e um penalty mal assinalados.
Não foi o Gil Vicente que venceu o FC Porto e que pôs fim à tentativa de recorde de invencibilidade. Com todo o respeito pelos esforço dos seus profissionais, quem venceu o FC Porto foi Bruno Paixão e ninguém mais. Provavelmente terá conseguido até evitar pela segunda vez que o Porto seja campeão. Um certo futebol, um certo sistema, recordará para sempre seu nome com entusiasmo. E, entretanto, para aí vai continuar, a fazer mais do mesmo, como se nada fosse. Se querem saber como é que Portugal desceu onde desceu, ponham os olhos no caso de Bruno Paixão. A impunidade de que goza é o exemplo acabado da regra de jogo, entre nós.
2- É claro que a «vergonhosa» prestação de Bruno Paixãoe e seus acólitos serviu às mil maravilhas a Vítor Pereira para explicar a derrota. Isso e a péssima primeira parte dos jogadores. Mas basta olhar para a equipa que ele escolheu para a primeira parte para antecipar o que ia suceder. Confrontado com a ausência de Hulk, como eu sempre temi, Vítor Pereira mostrou não ter nenhum Plano B - pelo contrário, pareceu-me mesmo que ele não realizou a necessidade de reforçar o poder desequilibrador ofensivo de outra forma. Só isso explica que mantenha o Maicon a lateral direito, sabendo que ele defende bem mas não ataca. Desfez-se tranquilamente de um lateral da categoria do Fucile, encostou o Sapunaru e, tendo finalmente recebido o Danilo, por quem se pagou uma fortuna, continua a ver «onde é que ele pode encaixar»; no Santos e na selecção brasileira, faz todo o corredor direito; no FC Porto de Vítor Pereira, ainda não se sabe para que serve. Mas Vítor Pereira também não percebeu ainda que só tem um médio criativo de ataque (visto que, misteriosamente também, abdicou do Guarín, que interessa ao Inter e à Juventus, mas não ao clube que lhe paga): esse médio é, como toda a gente sabe, o Belluschi, ao qual ele prefere um jogador completamente banal como Deffour ou outro completamente previsível, como João Moutinho, ainda por cima jogando a um ritmo de Dormicum. Em Barcelos, Vítor Pereira juntou ainda mais uma escolha que mostra a profundidade do seu pensamento estratégico: na hora do tudo ou nada, quando se pedia um jogador repentista no drible e no remate, ele meteu...o Cristian Rodriguez, deixando mais uma vez no banco, em «processo de adaptação», o miúdo Iturbe, de quem meio mundo diz maravilhas e já pensa recuperar de volta, face à inutilidade a que o votou o treinador nortista.
Ao fim da primeira parte do jogo de Barcelos, o FC Porto não tinha criado uma oportunidade de golo e, que me lembre, não tinha sequer feito um remate à baliza. Toda a gente o viu, até Vítor Pereira. A minha pergunta é: para que precisou ele de 45 minutos, dois golos de desvantagem e duas páginas de apontamentos para reagir ao que estava a ver?
3- Há um outro problema a carecer de uma solução urgente neste FC Porto: o sistema de jogo, de há muito implantado e com óptimos resultados, pede um ponta de lança e o sacrifício de Hulk nessa posição não resolve o problema e enfraquece o flanco. E, manifestamente, Kleber não serve. Estamos perante um daqueles casos em que um bom avançado de uma equipa média não resulta numa equipa grande: um avançado-centro de uma equipa como o FC Porto, que faz 47 ataques num jogo, não pode estar até ao minuto 90 para finalmente conseguir um remate à baliza. Kleber, para já, pelo menos (e já é o que interessa), tem o oposto do instinto matador que deve caracterizar qualquer bom ponta-de-lança: nunca consegue que os companheiros o encontrem desmarcado, nunca consegue estar onde a bola vai aparecer. E nenhuma equipa pode aspirar a um título sem um guarda-redes que evite golos e um ponta-de-lança que os invente. Alguém que, como disse Falcão, transforme o impossível em possível — ao menos, de vez em quando. Foi o grande erro de planeamento desta época, cometido pelo FC Porto. Mas, atendendo ao estado de urgência absoluto, não seria de experimentar um júnior?
segunda-feira, fevereiro 18, 2013
O PESADELO DE MOURINHO (24 JANEIRO 2012)
1- Muitos anos depois de deixar de ser treinador, José Mourinho ainda há-de ter pesadelos com o Barcelona de Guardiola, com Messi, Xavi, Iniesta, Fabregas e Cª. Noites a fio, ele há-de procurar em vão o sono, fechará os olhos para dormir e tudo o que conseguirá é ver imagens de um relvado a perder de vista onde um grupo de homens equipados à Barcelona dançam por entre figuras brancas, inertes, passando por elas uma e outra vez, até as fazerem cair para o chão de tonturas. O Barcelona tem sido impiedoso com o Real de José Mourinho: 73% de posse de bola em pleno Chamartin, lições de futebol sucessivas e confrangentes, Messi ofuscando em génio e eficácia um Cristiano Ronaldo desamparado de deuses e homens, reduzido à condição de lebre cega a correr atrás de bolas atiradas lá para a frente em desespero (e a tanlo se resumindo o ataque do Madrid) . Esta cena repete-se jogo após jogo, com a fatalidade das coisas irremediáveis, até chegar inevitavelmente à questão mais angustiante para Mourinho: será este Barcelona de Guardiola que é imbatível ou será este Real Madrid que não consegue encontrar a receita para, ao menos de vez em quando, o conseguir travar?
Não obstante os cinco pontos de avanço no campeonato, não obstante uma primeira fase da Champions 100% vitoriosa, não obstante os 4-1 ao Bilbao anteontem, Mourinho começa a escutar os primeiros assobios das bancadas do Bernabéu. Nada disso é suficiente para a affición madridisla: a guerra Real-Barça, ou Castela- Catalunha, é uma guerra particular, em que nenhumas outras vitórias laterais podem compensar sucessivas humilhações de uma das partes às mãos da outra. E, quando chega a hora da verdade, o Barça, não apenas ganha, como também humilha o Real: redu-lo à condição de equipa menor, mendigante, perdida em campo, não parecendo ter qualquer ideia do que fazer. E, para agravar as coisas, Mourinho não sabe perder, enquanto que Guardiola é um senhor a vencer. Lendo a imprensa espanhola dos últimos dias, percebe-se que Mourinho está agora na angustiante situação em que, quinhentos anos atrás, se encontrou outro português também com o orgulho e a angústia de comandar outra armada de Castela: Fernão de Magalhães. Também então Magalhães teve de arrostar com a surda revolta dos seus capitães espanhóis, que viam em qualquer desaire momentâneo ou em qualquer hesitação sua um sinal infalível da incompetência do português. A determinada altura da sua longa e desesperada busca do paso que ele sabia unir o Atlântico ao Pacífico e às «ilhas das especiarias», algures na ponta meridional do continente americano. Magalhães recolheu-se a uma baía para invernar e aproveitou uma tímida dissensão dos capitães espanhóis para cortar o mal pela raiz: matou dois deles e largou os outros em terra, abandonados de tudo.
Mas Mourinho não pode seguir o exemplo de Fernão de Magalhães nem se pode dar por vencido, porque isso seria deitar ao chão e pisar uma carreira de triunfo e uma aura de vencedor, que são a sua razão de ser. Ele não pode abandonar Espanha antes de ter encontrado o paso para dobrar este incrível Barcelona. Mas, entretanto e friamente, a Espanha agradece-lhe o fracasso: graças a ele, graças às sucessivas tareias futebolísticas que o Barça dá no Real, os desejos independentistas da Catalunha andam adormecidos: fosse a Catalunha independente, e, em lugar destas jornadas gloriosas de Madrid, o FC Barcelona estaria limitado a disputar o título de campeão da Catalunha com o Espanhol de Barcelona. Mais vale reinar em toda a Espanha sem ser independente do que reinar independente no quintal da Catalunha.
2- Quanto ao nosso Pepe, é evidente que, na melhor das hipóteses, estamos perante um caso clínico, do foro psiquiátrico. Por sorte sua, ele é um superdotado para o futebol: se o não fosse, seria certamente um caso triste, na vida comum. Mas, tendo tido a sorte de jogar num clube como o Real Madrid, pago a peso de ouro, com estádios cheios a aplaudi-lo e uma vida de luxo; tendo lido a sorte de representar a Selecção de um país que o acolheu como seu; e tendo tido ainda a sorte de ter sido perdoado, com uma leve pena, para a brutalidade do seu comportamento contra um adversário (Casquero), Pepe não tem mais perdão. Tomara tantos e tantos milhares de miúdos com jeito para o futebol terem tido a sorte que ele teve e as oportunidades de que dispôs! Infelizmente, a dúvida de saber se algum dia ele arrepiará caminho tem toda a razão de ser. E tem-na, sobretudo, porque, quando devia pedir perdão pelo seu ges-to inqualificável sobre Messi, ele preferiu vir dizer que foi sem intenção - como se o mundo inteiro não o tivesse visto a olhar bem para ver onde estava a mão de Messi, para não falhar a pisadela com os pitons. Paulo Bento tem de meditar muito bem se vale a pena continuar a contar com Pepe na Selecção: se vale a pena como estratégia e se vale a pena como exemplo.
3- Outro português às voltas com os castelhanos: Carlos Pereira, presidente do Marítimo e recente vencedor não oficial das eleições para a Liga de Clubes. O mesmo Carlos Pereira que fez a guerra que fez com a ida de Kléber para o FC Porto, que obrigou o jogador a ficar mais um ano, contrariado, no Marítimo, que apregoou que com ele ninguém fazia farinha, o que fez ele agora com a deserção de Babá para o Sevilha, que fez ele com a humilhação de ver o jogador apresentado publicamente em Espanha quando ainda nem sequer tinha rescindido com o Marítimo e não havia acordo entre os clubes? Pois, fez apenas isto: foi a Espanha a despacho, assinar com o Sevilha a cedência do jogador, pelo preço que os espanhóis queriam e nas condições deles! Grandes bravatas... para uso interno.
4- Muito gostava que alguém da direcção do FC Porto viesse explicar o estranho e nebuloso contrato de compra do Danilo ao Santos, envolvendo 18 milhões de euros, seis meses de espera e a cedência gratuita do Fucile por um ano. E gostava de perceber como é, depois de tanta espera e tanto empenho, o treinador Vítor Pereira veio declarar que é preciso ir descobrindo quais são as características do jogador e como é que ele se poderá encaixar na actual equipa. Como, ainda não sabe?
E, já agora, gostava também de perceber porque razão o FC Porto apenas consegue emprestar os jogadores que quer vender, enquanto que a nós ninguém nos empresta ninguém: vendem caro, definitivamente e com contratos de longa duração.
5- Tinha três certezas, antes do FC Porto-Guimarães: que o Hulk não seria recuperado a tempo (porque as avaliações do departamento médico são sempre mais optimistas do que a realidade); que o Danilo não iria jogar de início (porque o treinador não prescinde de o ir «adaptando»); e que, entrando o Danilo, ficaria de fora o Iturbe (pela mesma razão, acrescida). Tudo bateu certo, mas, felizmente, as coisas correram melhor do que o costume. E achei um modelo de anti-desporlivismo as declarações de Nuno Assis, no flash-interview: como é possível conseguir queixar-se de uma arbitragem (mais uma...) tão chocantemente anti-portista que quase conseguia alterar o resultado?
Aquilo que não esperava de todo foi a lição de bola que o Gil Vicente deu em pleno estádio da Luz. Um Benfica totalmente desinspirado ficou a dever a vitória a uma defesa imensa de Artur (o seu melhor jogador) e a um remate feliz de Rodrigo. Duas oportunidades, três golos: espero bem que não seja já a estrelinha de campeão.
6- E uma palavra final para aquele que considero o maior campeão português de todas as modalidades: Nelson Évora. O seu azar foi tremendo, mas a sua força de vontade não fica atrás. Espero bem vê-lo ainda em Londres, no próximo Verão, como ele tanto merece.
Não obstante os cinco pontos de avanço no campeonato, não obstante uma primeira fase da Champions 100% vitoriosa, não obstante os 4-1 ao Bilbao anteontem, Mourinho começa a escutar os primeiros assobios das bancadas do Bernabéu. Nada disso é suficiente para a affición madridisla: a guerra Real-Barça, ou Castela- Catalunha, é uma guerra particular, em que nenhumas outras vitórias laterais podem compensar sucessivas humilhações de uma das partes às mãos da outra. E, quando chega a hora da verdade, o Barça, não apenas ganha, como também humilha o Real: redu-lo à condição de equipa menor, mendigante, perdida em campo, não parecendo ter qualquer ideia do que fazer. E, para agravar as coisas, Mourinho não sabe perder, enquanto que Guardiola é um senhor a vencer. Lendo a imprensa espanhola dos últimos dias, percebe-se que Mourinho está agora na angustiante situação em que, quinhentos anos atrás, se encontrou outro português também com o orgulho e a angústia de comandar outra armada de Castela: Fernão de Magalhães. Também então Magalhães teve de arrostar com a surda revolta dos seus capitães espanhóis, que viam em qualquer desaire momentâneo ou em qualquer hesitação sua um sinal infalível da incompetência do português. A determinada altura da sua longa e desesperada busca do paso que ele sabia unir o Atlântico ao Pacífico e às «ilhas das especiarias», algures na ponta meridional do continente americano. Magalhães recolheu-se a uma baía para invernar e aproveitou uma tímida dissensão dos capitães espanhóis para cortar o mal pela raiz: matou dois deles e largou os outros em terra, abandonados de tudo.
Mas Mourinho não pode seguir o exemplo de Fernão de Magalhães nem se pode dar por vencido, porque isso seria deitar ao chão e pisar uma carreira de triunfo e uma aura de vencedor, que são a sua razão de ser. Ele não pode abandonar Espanha antes de ter encontrado o paso para dobrar este incrível Barcelona. Mas, entretanto e friamente, a Espanha agradece-lhe o fracasso: graças a ele, graças às sucessivas tareias futebolísticas que o Barça dá no Real, os desejos independentistas da Catalunha andam adormecidos: fosse a Catalunha independente, e, em lugar destas jornadas gloriosas de Madrid, o FC Barcelona estaria limitado a disputar o título de campeão da Catalunha com o Espanhol de Barcelona. Mais vale reinar em toda a Espanha sem ser independente do que reinar independente no quintal da Catalunha.
2- Quanto ao nosso Pepe, é evidente que, na melhor das hipóteses, estamos perante um caso clínico, do foro psiquiátrico. Por sorte sua, ele é um superdotado para o futebol: se o não fosse, seria certamente um caso triste, na vida comum. Mas, tendo tido a sorte de jogar num clube como o Real Madrid, pago a peso de ouro, com estádios cheios a aplaudi-lo e uma vida de luxo; tendo lido a sorte de representar a Selecção de um país que o acolheu como seu; e tendo tido ainda a sorte de ter sido perdoado, com uma leve pena, para a brutalidade do seu comportamento contra um adversário (Casquero), Pepe não tem mais perdão. Tomara tantos e tantos milhares de miúdos com jeito para o futebol terem tido a sorte que ele teve e as oportunidades de que dispôs! Infelizmente, a dúvida de saber se algum dia ele arrepiará caminho tem toda a razão de ser. E tem-na, sobretudo, porque, quando devia pedir perdão pelo seu ges-to inqualificável sobre Messi, ele preferiu vir dizer que foi sem intenção - como se o mundo inteiro não o tivesse visto a olhar bem para ver onde estava a mão de Messi, para não falhar a pisadela com os pitons. Paulo Bento tem de meditar muito bem se vale a pena continuar a contar com Pepe na Selecção: se vale a pena como estratégia e se vale a pena como exemplo.
3- Outro português às voltas com os castelhanos: Carlos Pereira, presidente do Marítimo e recente vencedor não oficial das eleições para a Liga de Clubes. O mesmo Carlos Pereira que fez a guerra que fez com a ida de Kléber para o FC Porto, que obrigou o jogador a ficar mais um ano, contrariado, no Marítimo, que apregoou que com ele ninguém fazia farinha, o que fez ele agora com a deserção de Babá para o Sevilha, que fez ele com a humilhação de ver o jogador apresentado publicamente em Espanha quando ainda nem sequer tinha rescindido com o Marítimo e não havia acordo entre os clubes? Pois, fez apenas isto: foi a Espanha a despacho, assinar com o Sevilha a cedência do jogador, pelo preço que os espanhóis queriam e nas condições deles! Grandes bravatas... para uso interno.
4- Muito gostava que alguém da direcção do FC Porto viesse explicar o estranho e nebuloso contrato de compra do Danilo ao Santos, envolvendo 18 milhões de euros, seis meses de espera e a cedência gratuita do Fucile por um ano. E gostava de perceber como é, depois de tanta espera e tanto empenho, o treinador Vítor Pereira veio declarar que é preciso ir descobrindo quais são as características do jogador e como é que ele se poderá encaixar na actual equipa. Como, ainda não sabe?
E, já agora, gostava também de perceber porque razão o FC Porto apenas consegue emprestar os jogadores que quer vender, enquanto que a nós ninguém nos empresta ninguém: vendem caro, definitivamente e com contratos de longa duração.
5- Tinha três certezas, antes do FC Porto-Guimarães: que o Hulk não seria recuperado a tempo (porque as avaliações do departamento médico são sempre mais optimistas do que a realidade); que o Danilo não iria jogar de início (porque o treinador não prescinde de o ir «adaptando»); e que, entrando o Danilo, ficaria de fora o Iturbe (pela mesma razão, acrescida). Tudo bateu certo, mas, felizmente, as coisas correram melhor do que o costume. E achei um modelo de anti-desporlivismo as declarações de Nuno Assis, no flash-interview: como é possível conseguir queixar-se de uma arbitragem (mais uma...) tão chocantemente anti-portista que quase conseguia alterar o resultado?
Aquilo que não esperava de todo foi a lição de bola que o Gil Vicente deu em pleno estádio da Luz. Um Benfica totalmente desinspirado ficou a dever a vitória a uma defesa imensa de Artur (o seu melhor jogador) e a um remate feliz de Rodrigo. Duas oportunidades, três golos: espero bem que não seja já a estrelinha de campeão.
6- E uma palavra final para aquele que considero o maior campeão português de todas as modalidades: Nelson Évora. O seu azar foi tremendo, mas a sua força de vontade não fica atrás. Espero bem vê-lo ainda em Londres, no próximo Verão, como ele tanto merece.
domingo, fevereiro 17, 2013
O FIM DE UMA ILUSÃO (17 JANEIRO 2012)
1- Verdade se diga, os sportinguistas nunca se afirmaram claramente como candidatos ao título desta época: apenas disseram que gostariam de o ser ou, pelo menos, de serem levados mais a sério nessa luta do que o são habitualmente. Porém, uma nova direcção, a contratação de Domingos e de quase uma vintena de novos jogadores, a par de evidentes melhorias no futebol jogado, logo levaram muitos a querer concluir diligentemente que tínhamos mesmo candidato e já este ano. Como os leitores sabem, nunca foi o meu caso: a mim, sempre me pareceu evidente que o Sporting estava vários furos abaixo dos seus principais rivais em tudo, como aliás o próprio Domingos reconheceu. E, embora Luís Duque garanta que esta equipa fez já várias coisas «extraordinárias», eu não me consigo lembrar quais: sei sim que, com excepção do jogo da Luz, que perdeu, o Sporting ainda não tinha chegado aos grandes testes na Liga (e para apontar à final do Jamor, na Taça, bastou -lhe um rico sorteio, a displicência de Benfica e Porto e uma vitória caseira sobre o Braga).
Os grandes testes começaram agora... e o Sporting baqueou, embora seja forçoso reconhecer que teve alguns jogadores importantes lesionados na pior altura. Em contrapartida, não encontra a menor desculpa nas arbitragens, antes pelo contrario: só não ficou praticamente afastado do Jamor porque, mais uma vez, se aproveitou da superioridade numérica para recuperar e beneficiou de um golo irregular, já depois da hora (há um off-side posicional que claramente impede o guarda-redes do Nacional de ver a bola). E, no campeonalo, os oito pontos que Eduardo Barroso se queixa que lhes tiraram já não bastariam para os fazer igualar Benfica e Porto... Perdida a luta pelo título, perdida, sem dúvida, a luta pelo segundo lugar, ao Sporting resta levar muito a sério o desafio do Braga e tentar vencer a luta pelo último lugar do pódio e o último a dar acesso à Champions. Aliás, e esquecendo aquelas absurdas estatísticas da tal Fundação das Estatísticas do Futebol, è da mais elementar justiça reconhecer que os últimos anos têm consistentemente afirmado o Braga acima do Sporting, como o quarto grande (ou o outro médio, sendo que então haveria só dois grandes, Porto e Benfica).
No jogo de Braga com um resultado justo e previsível desde o início, mais uma vez constatei esta característica, tantas vezes fatal, dos treinadores portugueses, quando confrontados com um jogo difícil: refugiarem-se em alternativas que privilegiam o reforço do meio-campo e do jogo defensivo com jogadores certinhos e de com- tenção, em prejuízo dos jogadores desequilibradores e mais ofensivos. Querem ganhar o jogo, defendendo, em obediência ao princípio de que o melhor ataque é uma boa defesa. Assim, vimos Domingos Paciência jogar com um lateral adaptado a extremo-esquerdo - o que obrigou ainda Capel a vir para a direita, onde rende manifestamente menos - e deixando no banco aquele que é o único desequilibrador do ataque sportinguista, o miúdo Carrillo.
Para se defender da opção falhada, Domingos usou a mesma desculpa que Vítor Pereira usou em Alvalade para ter deixado James Rodriguez no banco durante 75 minutos: ambos, segundo os respectivos treinadores, tinham passado a semana com febre. Mas, se assim foi, se estavam incapazes, não se percebe porque foram convocados e sentados no banco. E se porventura a sua condição física não lhes consentia o jogo todo, não se percebe porque não arriscaram neles de início, tirando-os quando já não aguentassem, em lugar de os meter só no final, em situação de estado de necessidade. Certo é que, em ambos os casos também, assim que James e Carrillo entraram, logo o ataque das suas equipas ganhou nova alma e novo talento — tarde de mais, porém. E também não percebi porque razão, com 2-0 no marcador e avenidas abertas ao contra-ataque do Braga, Leonardo Jardim resolveu tirar o seu mais talentoso jogador e grande municiador do ataque, Márcio Mossoró, para apostar num médio defensivo, que nada trouxe de novo, apenas convidou o Sporting a vir para a frente, reduzir a desvantagem e ameaçar o empate. São estratégias que me ultrapassam....
2- James Rodriguez, aliás, não se fez esperar nem uma semana para (mais uma vez!) mostrar a Vítor Pereira aquilo que ele parece ser o único a não ter ainda entendido bem: que tem nas mãos um diamante fabuloso, que, mesmo que passe uma semana sem se treinar e com febre, vale muito mais do que um Cristian, um Djalma ou um Varela estoirando de saúde. E que não é apenas (e, se calhar, nem é sobretudo) um extremo-esquerdo fixo no lugar, mas um verdadeiro número 10, flutuando nas costas do ataque e decisivo para partidas com equipas recuadas na defesa. Contra o Rio Ave, foi o seu talento puro que resolveu a Vítor Pereira um problema que se começava a tornar preocupante, sobretudo depois da saída de Hulk, e causado por um ataque formado por três extremos-esquerdos, sem ponta-de-lança, sem lateral-direito em apoio e com um jogador tão fabuloso como Hulk deslocado da sua posição natural e fechado num colete de forças entre dois centrais, sem o espaço de que precisa para romper as defesas. A entrega dos jogadores é imensa, o esforço físico também, a motivação está lá, outra vez. Mas, do meio campo para a frente, falta uma ideia de jogo clara e eficiente, que os jogadores possam entender e servir. Se nem de fora se percebe qual é o esquema de jogo!
3- Confesso que não liguei atenção ao assunto e só despertei para ele tarde e graças a uma coisa que escreveu o Rui Moreira e outras coisas que li avulso e como se não tivesse importância. Escrevo, pois, com as cautelas devidas a quem pode estar a escapar alguma coisa. Mas parece (digo parece) que, mais uma vez, o Benfica se dedicou a uma das suas jogadas favoritas: contratar um jogador na véspera de ir defrontar o seu clube. Desta vez, esta prática tão desportiva e reveladora, deu-se na véspera da deslocação a Leiria, com a compra do avançado Djaniny. O mais grave, porém, é que parece também que essa aquisição e o sinal ou preço logo pago pelo Benfica, permitiu à direcção do União pagar aos seus jogadores salários em atraso. Ou seja, quando entra-ram em campo para defrontar o Benfica, os jogadores do União sabiam que deviam ao seu adversário os salários recebidos. Se tudo isto é verdade e aconteceu mesmo assim, será , de facto, um escândalo, que a Liga de Clubes fique em silêncio. Em Inglaterra, uma jogadinha destas teria consequências violentas para o Benfica. Parece que há por lá uma coisa a que eles chamam fair-play.
4- E, por falar em Liga e segundo também percebi, o seu novo presidente deve a eleição à compra de votos no restrito colégio eleitoral da Liga. E digo compra e não conquista (o que seria normal), porque ele ganhou a eleição prometendo aos pequenos clubes o alargamento da primeira liga, em prejuízo dos grandes (cujo problema principal é a sobrecarga de jogos dos seus jogadores, entre clube e Selecção). Foi assim eleito contra o voto dos grandes e contra o interesse da competição - que precisa sim de um campeonato com menos clubes e não com mais, e eventualmente com mais jogos, mas jogos que valham a pena e não apenas oportunidades de transmissões televisivas. Confesso que nunca tinha ouvido falar no Dr. Mário Figueiredo e desconheço por completo qual seja o curriculum que o torna adequado ao cargo. Mas já fiquei a perceber como é que lá chegou. E o que percebi não é grande recomendação.
5- O Sporting, que tão mal tem gerido o assunto das imagens do balneário dos visitantes em Alvalade, resolveu, além de proibir a entrada do jornal Público nas suas instalações, instaurar-lhe uma acção em que, dizem, vai exigir um milhão de euros de indemnização. Pois, acções judiciais qualquer um pode instaurar e pode-se pedir os milhões de indemnização que se quiser, desde que se seja rico, como Sporting é, e se possa deitar fora um dinheirão em custas judiciais: o Estado agradece. Mais difícil é provar os danos causados pela simples revelação de um facto — a divulgação das fotografias do túnel do balneário. Sobretudo, quando são eles próprios a dizer que as ditas fotografias são perfeitamente aceitáveis e banais - aliás, recomendáveis. Em que ficamos, afinal: são óptimas para serem vistas pelos adversários, mas difamatórias se reveladas a terceiros?
Os grandes testes começaram agora... e o Sporting baqueou, embora seja forçoso reconhecer que teve alguns jogadores importantes lesionados na pior altura. Em contrapartida, não encontra a menor desculpa nas arbitragens, antes pelo contrario: só não ficou praticamente afastado do Jamor porque, mais uma vez, se aproveitou da superioridade numérica para recuperar e beneficiou de um golo irregular, já depois da hora (há um off-side posicional que claramente impede o guarda-redes do Nacional de ver a bola). E, no campeonalo, os oito pontos que Eduardo Barroso se queixa que lhes tiraram já não bastariam para os fazer igualar Benfica e Porto... Perdida a luta pelo título, perdida, sem dúvida, a luta pelo segundo lugar, ao Sporting resta levar muito a sério o desafio do Braga e tentar vencer a luta pelo último lugar do pódio e o último a dar acesso à Champions. Aliás, e esquecendo aquelas absurdas estatísticas da tal Fundação das Estatísticas do Futebol, è da mais elementar justiça reconhecer que os últimos anos têm consistentemente afirmado o Braga acima do Sporting, como o quarto grande (ou o outro médio, sendo que então haveria só dois grandes, Porto e Benfica).
No jogo de Braga com um resultado justo e previsível desde o início, mais uma vez constatei esta característica, tantas vezes fatal, dos treinadores portugueses, quando confrontados com um jogo difícil: refugiarem-se em alternativas que privilegiam o reforço do meio-campo e do jogo defensivo com jogadores certinhos e de com- tenção, em prejuízo dos jogadores desequilibradores e mais ofensivos. Querem ganhar o jogo, defendendo, em obediência ao princípio de que o melhor ataque é uma boa defesa. Assim, vimos Domingos Paciência jogar com um lateral adaptado a extremo-esquerdo - o que obrigou ainda Capel a vir para a direita, onde rende manifestamente menos - e deixando no banco aquele que é o único desequilibrador do ataque sportinguista, o miúdo Carrillo.
Para se defender da opção falhada, Domingos usou a mesma desculpa que Vítor Pereira usou em Alvalade para ter deixado James Rodriguez no banco durante 75 minutos: ambos, segundo os respectivos treinadores, tinham passado a semana com febre. Mas, se assim foi, se estavam incapazes, não se percebe porque foram convocados e sentados no banco. E se porventura a sua condição física não lhes consentia o jogo todo, não se percebe porque não arriscaram neles de início, tirando-os quando já não aguentassem, em lugar de os meter só no final, em situação de estado de necessidade. Certo é que, em ambos os casos também, assim que James e Carrillo entraram, logo o ataque das suas equipas ganhou nova alma e novo talento — tarde de mais, porém. E também não percebi porque razão, com 2-0 no marcador e avenidas abertas ao contra-ataque do Braga, Leonardo Jardim resolveu tirar o seu mais talentoso jogador e grande municiador do ataque, Márcio Mossoró, para apostar num médio defensivo, que nada trouxe de novo, apenas convidou o Sporting a vir para a frente, reduzir a desvantagem e ameaçar o empate. São estratégias que me ultrapassam....
2- James Rodriguez, aliás, não se fez esperar nem uma semana para (mais uma vez!) mostrar a Vítor Pereira aquilo que ele parece ser o único a não ter ainda entendido bem: que tem nas mãos um diamante fabuloso, que, mesmo que passe uma semana sem se treinar e com febre, vale muito mais do que um Cristian, um Djalma ou um Varela estoirando de saúde. E que não é apenas (e, se calhar, nem é sobretudo) um extremo-esquerdo fixo no lugar, mas um verdadeiro número 10, flutuando nas costas do ataque e decisivo para partidas com equipas recuadas na defesa. Contra o Rio Ave, foi o seu talento puro que resolveu a Vítor Pereira um problema que se começava a tornar preocupante, sobretudo depois da saída de Hulk, e causado por um ataque formado por três extremos-esquerdos, sem ponta-de-lança, sem lateral-direito em apoio e com um jogador tão fabuloso como Hulk deslocado da sua posição natural e fechado num colete de forças entre dois centrais, sem o espaço de que precisa para romper as defesas. A entrega dos jogadores é imensa, o esforço físico também, a motivação está lá, outra vez. Mas, do meio campo para a frente, falta uma ideia de jogo clara e eficiente, que os jogadores possam entender e servir. Se nem de fora se percebe qual é o esquema de jogo!
3- Confesso que não liguei atenção ao assunto e só despertei para ele tarde e graças a uma coisa que escreveu o Rui Moreira e outras coisas que li avulso e como se não tivesse importância. Escrevo, pois, com as cautelas devidas a quem pode estar a escapar alguma coisa. Mas parece (digo parece) que, mais uma vez, o Benfica se dedicou a uma das suas jogadas favoritas: contratar um jogador na véspera de ir defrontar o seu clube. Desta vez, esta prática tão desportiva e reveladora, deu-se na véspera da deslocação a Leiria, com a compra do avançado Djaniny. O mais grave, porém, é que parece também que essa aquisição e o sinal ou preço logo pago pelo Benfica, permitiu à direcção do União pagar aos seus jogadores salários em atraso. Ou seja, quando entra-ram em campo para defrontar o Benfica, os jogadores do União sabiam que deviam ao seu adversário os salários recebidos. Se tudo isto é verdade e aconteceu mesmo assim, será , de facto, um escândalo, que a Liga de Clubes fique em silêncio. Em Inglaterra, uma jogadinha destas teria consequências violentas para o Benfica. Parece que há por lá uma coisa a que eles chamam fair-play.
4- E, por falar em Liga e segundo também percebi, o seu novo presidente deve a eleição à compra de votos no restrito colégio eleitoral da Liga. E digo compra e não conquista (o que seria normal), porque ele ganhou a eleição prometendo aos pequenos clubes o alargamento da primeira liga, em prejuízo dos grandes (cujo problema principal é a sobrecarga de jogos dos seus jogadores, entre clube e Selecção). Foi assim eleito contra o voto dos grandes e contra o interesse da competição - que precisa sim de um campeonato com menos clubes e não com mais, e eventualmente com mais jogos, mas jogos que valham a pena e não apenas oportunidades de transmissões televisivas. Confesso que nunca tinha ouvido falar no Dr. Mário Figueiredo e desconheço por completo qual seja o curriculum que o torna adequado ao cargo. Mas já fiquei a perceber como é que lá chegou. E o que percebi não é grande recomendação.
5- O Sporting, que tão mal tem gerido o assunto das imagens do balneário dos visitantes em Alvalade, resolveu, além de proibir a entrada do jornal Público nas suas instalações, instaurar-lhe uma acção em que, dizem, vai exigir um milhão de euros de indemnização. Pois, acções judiciais qualquer um pode instaurar e pode-se pedir os milhões de indemnização que se quiser, desde que se seja rico, como Sporting é, e se possa deitar fora um dinheirão em custas judiciais: o Estado agradece. Mais difícil é provar os danos causados pela simples revelação de um facto — a divulgação das fotografias do túnel do balneário. Sobretudo, quando são eles próprios a dizer que as ditas fotografias são perfeitamente aceitáveis e banais - aliás, recomendáveis. Em que ficamos, afinal: são óptimas para serem vistas pelos adversários, mas difamatórias se reveladas a terceiros?
sábado, fevereiro 16, 2013
«HÁ QUE LEVANTAR A CABEÇA» (10 JANEIRO 2012)
1- Entrevistado no final do jogo de Alvalade, o brasileiro Hulk - o seu maior protagonista - saiu-se com a frase utilizada dez em cada dez vezes pelos jogadores, após resultados negativos: «Há que levantar a cabeça!» Utilizada por ele, naquele contexto, a frase traduziu aquilo que Hulk concluiu sobre o desfecho do jogo: foi um mau resultado para o FC Porto. Mau, não em função daquilo que o jogo foi, mas daquilo que devia ter sido e não foi.
O FC Porto, tal como O Sporting, não jogou para ganhar: jogou para não perder. O medo da derrota e o respeito mútuo comprometeram o jogo de ambas as equipas e fizeram do clássico dc Alvalade um jogo que não ficará para a história. Três oportunidades de golo para cada lado, ligeiramente mais bola para o Sporting, mas mais ataques e mais remates para o Porto. Um erro do árbitro para cada lado, nenhum com influência. De positivo, o jogo teve ainda poucas faltas, nenhuma entrada de massagistas em campo, nenhum jogador a fazer fitas, ninguém a perder tempo deliberadamente. Já não é mau.
Foi assim que eu vi o jogo, mas já sei que a versão sportinguista é, fatalmente diferente. Para eles, o que marcará o jogo é um off-side supostamente mal tirado a Van Wolfswinkel. que deixaria Elias isolado. Assim, mais uma vez, o Sporting só perdeu pontos por culpa do árbitro, como muito bem notou, aliás, João Pereira - para quem, também, só existiram duas oportunidades de golo e ambas do Sporting. O Sporting saiu do derby definitivamente fora da corrida ao título (não acredito que recupere uma soma de 14 pontos aos dois rivais), mas, apesar de tudo. satisfeito por não ter saído com estrondo, entregando a candidatura em casa, após derrota com o grande rival do norte, como tantas vezes tem sucedido nos últimos anos.
Pode-se dizer, pois, que o Sporting fez melhor (e está a fazer melhor) que o habitual. Quem fez pior foi o FC Porto. Um FC Porto com a ambição a um nível normal teria ganho em Alvalade. Foi nisso que eu apostei, mas, infelizmente, enganei-me. Mas como poderia também imaginar que o James Rodriguez, um jogador fabuloso, infelizmente confiado à gestão de Vítor Pereira, seria relegado para o banco, em detrimento de um sabidamente inútil Cristian Rodriguez? E que, acrescendo a esse erro de casting, mais uma vez, jogando sem ponta de lança, o ataque do FC Porto ficaria transformado numa absoluta confusão táctica, em que toda a esperança residia num golpe de génio solitário de Hulk?
O jogo todo, aliás, girou à roda do fenómeno brasileiro: quando ele pegava na bola, os corações portistas agitavam-se e os sportinguistas gelavam; quando a bola andava longe dele, era outro jogo. com gente normal fazendo esforçadamente o melhor que podiam.
Imaginem uma outra equipa do FC Porto, assim alinhada: Beto; Fucile, Mangala. Souza e Alex Sandro; Danilo, Guarín e James Rodriguez; Varela, Kleber e Iturbe. E, para suplentes, Bracali. Sapunaru, Emídio Rafael, Defour, mais os emprestados ao Rio Ave, Christian Atsu e Kelvin. Sabem que equipa é esta? É a equipa de jogadores não alinhados de início por Vítor Pereira em Alvalade e que, todos juntos, custaram ao FC Porto para cima de 70 ou 80 milhões de euros. Alguns foram emprestados porque não tinham lugar na equipa de Vítor Pereira; outros estão em baixo de forma continuada e, aparentemente, irrecuperável; outros não se sabe porque foram comprados, se não há lugar para jogarem; outro acabou de chegar e não há pressa em experimentá-lo, apesar dos 19 milhões que custou; e outro, que demorou seis meses a chegar e com fama de fenómeno, continua numa fase de adaptação tão prolongada que só estará adaptado quando tudo já estiver resolvido. Se alguém quiser perceber a razão porque a SAD do FC Porto está a viver tamanhos apertos de dinheiro, tem aqui a explicação.
Mas uma coisa é certa: apesar das também mais de 20 contratacões efectuadas pelo Sporting esta época, o que não faltou a Vítor Pereira em Alvalade foi matéria-prima para ganhar o derby tranquilamente, com a autoridade que lhe conferia a diferença de valor entre uma e outra equipa. Diferença claramente favorável aos portistas, excepto numa coisa; com Domingos Paciência no banco azul e branco, tinhamos ganho tranquilamente. A única coisa que falta a este FC Porto é um ponta-de-lança, já não digo à altura de fazer esquecer Falcão, mas a altura daquele que era, até Alvalade, o melhor ataque do campeonato. Mas não fui eu que fiz o plantel, no início da época. Não fui eu que juntei oito (!) extremos-esquerdos (e diz-se que ainda querem o Yannick!), nenhum extremo direito, e um centro de ataque confiado a Walter e a Kleber, de tal modo que foi jogar a Alvalade com um ataque formado por três extremos esquerdos, embrulhados uns nos outros, num novelo táctico que ninguém conseguiu desatar.
Diz Pinto da Costa que quem critica Vítor Pereira não percebe nada de futebol. Deve ser o meu caso - só resta saber o que seja perceber de futebol. Confesso que nunca tinha visto uma equipa, que supostamente queria ganhar um jogo difícil, entrarem campo com uma frente de ataque formada por três extremos-esquerdos. E duvido que haja algum treinador no mundo que, percebendo de futebol, prefira apostar em Cristian Rodriguez para ganhar o jogo, deixando no banco James (ver-se-á quem tem razão quando vierem buscar o James por milhões que jamais foram ou serão oferecidos pelo Cristian). E, ver-se-á, caso o Hulk se for embora, como o es- forçado desenho estratégico montado por Vítor Pereira desaba instantaneamente, sem demora nem apelo. Sobre isso, de não perceber nada de futebol, lembro-me sempre de uma coisa que me disse José Couceiro, quando era treinador do FC Porto e tinha de arrostar com as minhas críticas: «Para quem gosta de futebol e o segue com atenção, não é muito difícil perceber de futebol. Não é nenhuma ciência oculta.»
2- Em contrapartida, tenho visto com atenção como Jorge Jesus vai integrando de forma equilibrada e harmoniosa os sobrantes do seu onze principal, de tal maneira que, quando são chamados a jogo, não se nota que haja ali qualquer corpo estranho infiltrado num clube restrito. Isso foi uma vez mais evidente no tradicional passeio que o Benfica fez de visita ao União de Leiria. Quando solta os cavalos para atacar e ganhar o jogo, em sucessivas avalanches a toda a largura do campo, o Benfica é um caso sério. E só uma coisa me intriga: como é que há benfiquistas que não gostam de Cardozo? Não quererão trocá-lo por uma mão cheia dos nossos? Pois agora e depois de várias vitórias tem-te-não caias, o Benfica aí vai com dois pontos de avanço e dois jogos seguidos em casa pela frente. Uma equipa capaz arranca daqui para o titulo. Oxalá não seja o caso.
3- Pois, meu caro Eduardo Barroso, os meus prometidos parabéns ao Sporting ficam adiados, por razões à vista. Mas dou-lhes os parabéns por terem recebido o campeão nacional sem jaulas, nem grades, nem provocações prévias ou demonstrações de ódio larvar. Houve uns autocarros de adeptos apedrejados, mas isso foi coisa pouca e, infelizmente, banal em todo o lado. Todavia, faço notar que é segundo clássico envolvendo o FC Porto este ano,. depois da recepção ao Benfica, e não houve, nem com a nossa comitiva, os nossos dirigentes ou os nossos adeptos, o mínimo incidente provocado por nós. Pois é, nós temos a fama, mas os outros é que estragam as festas, com as suas claques nazis e os seus túneis e balneários pouco recomendáveis.
O FC Porto, tal como O Sporting, não jogou para ganhar: jogou para não perder. O medo da derrota e o respeito mútuo comprometeram o jogo de ambas as equipas e fizeram do clássico dc Alvalade um jogo que não ficará para a história. Três oportunidades de golo para cada lado, ligeiramente mais bola para o Sporting, mas mais ataques e mais remates para o Porto. Um erro do árbitro para cada lado, nenhum com influência. De positivo, o jogo teve ainda poucas faltas, nenhuma entrada de massagistas em campo, nenhum jogador a fazer fitas, ninguém a perder tempo deliberadamente. Já não é mau.
Foi assim que eu vi o jogo, mas já sei que a versão sportinguista é, fatalmente diferente. Para eles, o que marcará o jogo é um off-side supostamente mal tirado a Van Wolfswinkel. que deixaria Elias isolado. Assim, mais uma vez, o Sporting só perdeu pontos por culpa do árbitro, como muito bem notou, aliás, João Pereira - para quem, também, só existiram duas oportunidades de golo e ambas do Sporting. O Sporting saiu do derby definitivamente fora da corrida ao título (não acredito que recupere uma soma de 14 pontos aos dois rivais), mas, apesar de tudo. satisfeito por não ter saído com estrondo, entregando a candidatura em casa, após derrota com o grande rival do norte, como tantas vezes tem sucedido nos últimos anos.
Pode-se dizer, pois, que o Sporting fez melhor (e está a fazer melhor) que o habitual. Quem fez pior foi o FC Porto. Um FC Porto com a ambição a um nível normal teria ganho em Alvalade. Foi nisso que eu apostei, mas, infelizmente, enganei-me. Mas como poderia também imaginar que o James Rodriguez, um jogador fabuloso, infelizmente confiado à gestão de Vítor Pereira, seria relegado para o banco, em detrimento de um sabidamente inútil Cristian Rodriguez? E que, acrescendo a esse erro de casting, mais uma vez, jogando sem ponta de lança, o ataque do FC Porto ficaria transformado numa absoluta confusão táctica, em que toda a esperança residia num golpe de génio solitário de Hulk?
O jogo todo, aliás, girou à roda do fenómeno brasileiro: quando ele pegava na bola, os corações portistas agitavam-se e os sportinguistas gelavam; quando a bola andava longe dele, era outro jogo. com gente normal fazendo esforçadamente o melhor que podiam.
Imaginem uma outra equipa do FC Porto, assim alinhada: Beto; Fucile, Mangala. Souza e Alex Sandro; Danilo, Guarín e James Rodriguez; Varela, Kleber e Iturbe. E, para suplentes, Bracali. Sapunaru, Emídio Rafael, Defour, mais os emprestados ao Rio Ave, Christian Atsu e Kelvin. Sabem que equipa é esta? É a equipa de jogadores não alinhados de início por Vítor Pereira em Alvalade e que, todos juntos, custaram ao FC Porto para cima de 70 ou 80 milhões de euros. Alguns foram emprestados porque não tinham lugar na equipa de Vítor Pereira; outros estão em baixo de forma continuada e, aparentemente, irrecuperável; outros não se sabe porque foram comprados, se não há lugar para jogarem; outro acabou de chegar e não há pressa em experimentá-lo, apesar dos 19 milhões que custou; e outro, que demorou seis meses a chegar e com fama de fenómeno, continua numa fase de adaptação tão prolongada que só estará adaptado quando tudo já estiver resolvido. Se alguém quiser perceber a razão porque a SAD do FC Porto está a viver tamanhos apertos de dinheiro, tem aqui a explicação.
Mas uma coisa é certa: apesar das também mais de 20 contratacões efectuadas pelo Sporting esta época, o que não faltou a Vítor Pereira em Alvalade foi matéria-prima para ganhar o derby tranquilamente, com a autoridade que lhe conferia a diferença de valor entre uma e outra equipa. Diferença claramente favorável aos portistas, excepto numa coisa; com Domingos Paciência no banco azul e branco, tinhamos ganho tranquilamente. A única coisa que falta a este FC Porto é um ponta-de-lança, já não digo à altura de fazer esquecer Falcão, mas a altura daquele que era, até Alvalade, o melhor ataque do campeonato. Mas não fui eu que fiz o plantel, no início da época. Não fui eu que juntei oito (!) extremos-esquerdos (e diz-se que ainda querem o Yannick!), nenhum extremo direito, e um centro de ataque confiado a Walter e a Kleber, de tal modo que foi jogar a Alvalade com um ataque formado por três extremos esquerdos, embrulhados uns nos outros, num novelo táctico que ninguém conseguiu desatar.
Diz Pinto da Costa que quem critica Vítor Pereira não percebe nada de futebol. Deve ser o meu caso - só resta saber o que seja perceber de futebol. Confesso que nunca tinha visto uma equipa, que supostamente queria ganhar um jogo difícil, entrarem campo com uma frente de ataque formada por três extremos-esquerdos. E duvido que haja algum treinador no mundo que, percebendo de futebol, prefira apostar em Cristian Rodriguez para ganhar o jogo, deixando no banco James (ver-se-á quem tem razão quando vierem buscar o James por milhões que jamais foram ou serão oferecidos pelo Cristian). E, ver-se-á, caso o Hulk se for embora, como o es- forçado desenho estratégico montado por Vítor Pereira desaba instantaneamente, sem demora nem apelo. Sobre isso, de não perceber nada de futebol, lembro-me sempre de uma coisa que me disse José Couceiro, quando era treinador do FC Porto e tinha de arrostar com as minhas críticas: «Para quem gosta de futebol e o segue com atenção, não é muito difícil perceber de futebol. Não é nenhuma ciência oculta.»
2- Em contrapartida, tenho visto com atenção como Jorge Jesus vai integrando de forma equilibrada e harmoniosa os sobrantes do seu onze principal, de tal maneira que, quando são chamados a jogo, não se nota que haja ali qualquer corpo estranho infiltrado num clube restrito. Isso foi uma vez mais evidente no tradicional passeio que o Benfica fez de visita ao União de Leiria. Quando solta os cavalos para atacar e ganhar o jogo, em sucessivas avalanches a toda a largura do campo, o Benfica é um caso sério. E só uma coisa me intriga: como é que há benfiquistas que não gostam de Cardozo? Não quererão trocá-lo por uma mão cheia dos nossos? Pois agora e depois de várias vitórias tem-te-não caias, o Benfica aí vai com dois pontos de avanço e dois jogos seguidos em casa pela frente. Uma equipa capaz arranca daqui para o titulo. Oxalá não seja o caso.
3- Pois, meu caro Eduardo Barroso, os meus prometidos parabéns ao Sporting ficam adiados, por razões à vista. Mas dou-lhes os parabéns por terem recebido o campeão nacional sem jaulas, nem grades, nem provocações prévias ou demonstrações de ódio larvar. Houve uns autocarros de adeptos apedrejados, mas isso foi coisa pouca e, infelizmente, banal em todo o lado. Todavia, faço notar que é segundo clássico envolvendo o FC Porto este ano,. depois da recepção ao Benfica, e não houve, nem com a nossa comitiva, os nossos dirigentes ou os nossos adeptos, o mínimo incidente provocado por nós. Pois é, nós temos a fama, mas os outros é que estragam as festas, com as suas claques nazis e os seus túneis e balneários pouco recomendáveis.
domingo, janeiro 13, 2013
OS NEGÓCIOS DE JANEIRO (03 JANEIRO 2012)
1- Sabem os meus leitores portistas como eu temo a abertura da época das contratações, no início de cada Verão. Temo, não apenas a saída dos melhores jogadores (que são aqueles que têm mercado que vale a pena), e temo igualmente a contratação em série de sul-americanos e outros, segundo uma fórmula que, se tem trazido alguns bons jogadores para o clube, também se tem revelado financeiramente ruinosa: por cada grande jogador que sai, entram quatro; e, por cada quatro que entram, um é bom e os outros são apenas um encargo sem retorno, durante quatro ou cinco anos. De há uns anos para cá, para aumentar os meus receios, abriu-se uma nova época de contratações, ao longo de todo o mês de Janeiro - mais uma oportunidade de negócio dada aos parasitas do futebol. É essa época que agora acaba de se abrir.
Numa longa entrevista ao Jornal de Noticias, Pinto da Costa veio tentar, como é hábito, sossegar os adeptos, garantindo três coisas: que o clube não está vendedor; que nenhum dos jogadores essenciais sairá em Janeiro; e que ninguém sairá por menos que as cláusulas de rescisão. A primeira afirmação não é verdadeira: o FC Porto está vendedor e empenhadamente vendedor. A eliminação da Liga dos Campeões e a necessidade crónica de sustentar uma folha de pagamentos com alguns 70 jogadores sob contrato, a isso obrigam constantemente. A verdade é que o FC Porto está sempre vendedor, umas vezes com mais premência, outras menos: desta vez, consta que está vendedor em busca de realizar 25 milhões de que a caixa precisa. A segunda afirmação - a de que não sairá agora nenhum jogador essencial — é subjectiva: depende de quem o treinador e o presidente têm como essencial. E, sendo certo que o critério do presidente não é difícil de imaginar, tratando- se de alguém que percebe de futebol, já o critério do treinador é todo um mundo de adivinhação. Creio que, por razões de qualidade, de disciplina interna ou de oportunidade financeira, há uma série de jogadores do plantel inicial que o FC Porto não se importaria nada de vender já em Janeiro: Sapunaru, Rolando, Fernando, Moutinho, Guarin, Cristian Rodriguez, Walter e Varela. Duvido que consiga vender um só deles, sobretudo por um preço justo: os tempos são de contenção e o mercado não é parvo. Assim, também a terceira afirmação de Pinto da Costa (de que ninguém sairá abaixo da cláusula de rescisão) não é para ser tomada à letra, como nunca foi. Só espero que não se aplique ao Hulk.
Por junto, parece que o FC Porto está em vias de despachar o Walter, de volta à procedência. dejois de definitivamente perdidas as esperanças de inverter um óbvio erro de casting (que, por acaso, aqui previ, logo que foram conhecidas as negociações). Mas, como é evidente, não vai conseguir vendê-lo, mas apenas emprestá- lo e, muito provavelinente, ficando a pagar metade ou mais do ordenado para o ver jogar por outro clube: um clássico, um mau hábito de clube rico.
Em matéria de aquisições, e embora Pinto da Costa também diga que não há compras em vista, toda a gente sabe que o FC Porto procura um ponta-de-lança, que gritantemente lhe falta, para mais, depois de despachar o Walter e ficar reduzido ao até agora inócuo Kleber, que ainda não se percebeu se é ou não outro erro de casting. O problema, é claro, é que bons pontas-de-lança, livres a meio da época, não abundam e não são baratos - impossível chegar lá sem vender antes e bem. Consta para aí que o FC Porto estaria disponível para dar 8 milhões por um colombiano com nome de artista de Love Boat, um tal de Jackson Martinez, jogador de um clube mexicano chamado Jaguares Chiappas, da terra da droga. Eu espero sinceramente que não se vá por aí, que se tenha o bom senso de perceber que um ponta-de-lança de 25 anos, absolutamente desconhecido e a jogar num clube desconhecido, de certeza que, se fosse bom e valesse 8 milhões, já estaria na Europa ou nou-tro clube. É que 8 milhões, mesmo para quem paga habitualmente alto de mais, como a SAD do FC Porto, não são trocos: a título de comparação, basta pensar que o Sporting deu 5,5 milhões pelo Van Volswinkel... 8 milhões por um candidato a novo Walter seria, de certeza, muito dinheiro a perder-se no circuito e a ir parar aos bolsos de quem nos está sempre a impingir barretes, que depois temos de sustentar anos a fio, com ordenados que os tornam inegociáveis.
2- Em matéria de negócios cuja utilidade para os clubes não se alcança, também gostava de perceber o que levou a direcção do Olhanense a prescindir dos serviços de Daúto Faquira, a favor de Sérgio Conceição, a trocar um treinador com provas dadas por um absoluto estreante. O Olhanense está a três pontos da linha de água? OK, mas era suposto estar aonde? Está em 10º lugar, fazendo um campeonato tranquilo e de acordo com as suas melhores expectativas. Alguém reproduzindo as intenções do presidente do Olhanense, escreveu que o clube espera que desta mudança de comando resulte uma equipe a jogar «um futebol atraente e ofensivo» e bater-se por um lugar na Europa. Deveras? E onde estão os jogadores, as estruturas, os sócios e o dinheiro para tal?
3- Este sábado tenho marcado um programa em cheio: acordo às seis e meia da manhã e vou caçar tordos - a minha caça favorita no prato, não no tiro. Depois, almoço com amigos - companheiros das noites e madrugadas de caça, amigos do coração. Espero voltar para casa ainda a tempo de me deixar cair na cama, exausto, fazer uma sesta, acordar para um duche e sentar-me em frente da televisão a tempo de começar a ver o FC Porto silenciar Alvalade.
Lamento pelos meus amigos sportinguislas (sobretudo, os amigos sportinguistas da caça, que são muitos), mas, para mim, o FC Porto é o grande favorito para o jogo de Alvalade. Em condições normais, o FC Porto que eu me habituei a conhecer, chega ali e ganha o jogo, categoricamente. Mas devo dizer não para provocar, mas com sinceridade — que há duas coisas que eu temo, todavia: Vítor Pereira e o árbitro. De Vitor Pereira, temo que ele se ponha a inventar, que contrarie a tendência natural daqueles jogadores de tomarem conta do jogo e, obviamente, vou ter o terror de o ver avançar para as substituições. Do árbitro, que não faço ideia quem seja, temo a terrível e infernal pressão a que Alvalade o vai submeter, como sempre faz. É uma pressão que começa muito antes dos jogos decisivos e que se alimenta até onde o Sporting está em condições de ameaçar o que quer que seja. Este ano, as pressões começaram logo na primeira jornada e não mais pararam, ao ponto de já não se conseguir suportar o discurso de que todos e cada um dos pontos que o Sporting perdeu esta época — todos, sem excepção - terem sido roubados pelos árbitros. Ele é golos mal anulados, penalties por marcar, adversários por expulsar (embora tantos o tenham sido já...). Ainda na última jornada, em Coimbra, uma daquelas jo- gadas que tantas vezes se vêem, em que um defesa ganha a dianteira ao avançado e se coloca entre este e a bola, sem tocar em nenhum deles, foi logo visto como um penalty por assinalar (sendo falta, que não foi, seria obstrução e a obstrução dá livre indirecto, e não penalty). E logo veio a habitual lógica calimero dos sportinguistas: "nós achamos que foi falta, portanto foi - sendo falta e dentro da área, teria de ser penalty - o penalty seria convertido pelo Van Volswinkel - com esse golo, teríamos ganho o jogo por 2-1, em vez de o empatar; e assim, roubaram-nos mais dois pontos”. É desta pressão constante, que vem de fora do estádio para dentro e das bancadas para o relvado, que eu tenho medo, em Alvalade. Ali é muito difícil um árbitro manter- se frio e isento, quando lhe basta assinalar um livre contra o Sporting para todo o estádio desatar a assobiar, e onde um erro banal e inócuo dá imediatamente lugar a um coro de 'gatuno!', de uma multidão que sabe bem o que faz: a estratégia consiste exactamente em levar o árbitro a compensar um livre a meio campo contra o Sporting com um penalty inexistente contra o adversário ou um cartão amarelo a um sportinguista com um cartão vermelho forçado a um adversário.
Podem dizer, claro, que eu agora estou a fazer o mesmo. Mas é o que penso: sem nenhum menosprezo, acho, sinceramente, que a qualidade, a experiência e a cultura de vitória desta equipe do FC Porto lhe garante ainda vantagem sobre o Sporting, em jogo jogado e em condições de igualdade. Mas temo que, antes de se completar meia hora de jogo, o FC Porto já esteja reduzido a dez, que uma bola chutada à queima-roupa contra o braço ou o ombro de um portista sirva de penalty ou que uma jogada em que o Hulk vai disparado para o golo termine em falta atacante inexistente ou em off-side mal visto. Temo, sim.
Em contrapartida, se nada disto acontecer (e desejo que não), se o Sporting ganhar sem favor do árbitro e merecidamente, cá estarei terça-feira para o reconhecer.
Numa longa entrevista ao Jornal de Noticias, Pinto da Costa veio tentar, como é hábito, sossegar os adeptos, garantindo três coisas: que o clube não está vendedor; que nenhum dos jogadores essenciais sairá em Janeiro; e que ninguém sairá por menos que as cláusulas de rescisão. A primeira afirmação não é verdadeira: o FC Porto está vendedor e empenhadamente vendedor. A eliminação da Liga dos Campeões e a necessidade crónica de sustentar uma folha de pagamentos com alguns 70 jogadores sob contrato, a isso obrigam constantemente. A verdade é que o FC Porto está sempre vendedor, umas vezes com mais premência, outras menos: desta vez, consta que está vendedor em busca de realizar 25 milhões de que a caixa precisa. A segunda afirmação - a de que não sairá agora nenhum jogador essencial — é subjectiva: depende de quem o treinador e o presidente têm como essencial. E, sendo certo que o critério do presidente não é difícil de imaginar, tratando- se de alguém que percebe de futebol, já o critério do treinador é todo um mundo de adivinhação. Creio que, por razões de qualidade, de disciplina interna ou de oportunidade financeira, há uma série de jogadores do plantel inicial que o FC Porto não se importaria nada de vender já em Janeiro: Sapunaru, Rolando, Fernando, Moutinho, Guarin, Cristian Rodriguez, Walter e Varela. Duvido que consiga vender um só deles, sobretudo por um preço justo: os tempos são de contenção e o mercado não é parvo. Assim, também a terceira afirmação de Pinto da Costa (de que ninguém sairá abaixo da cláusula de rescisão) não é para ser tomada à letra, como nunca foi. Só espero que não se aplique ao Hulk.
Por junto, parece que o FC Porto está em vias de despachar o Walter, de volta à procedência. dejois de definitivamente perdidas as esperanças de inverter um óbvio erro de casting (que, por acaso, aqui previ, logo que foram conhecidas as negociações). Mas, como é evidente, não vai conseguir vendê-lo, mas apenas emprestá- lo e, muito provavelinente, ficando a pagar metade ou mais do ordenado para o ver jogar por outro clube: um clássico, um mau hábito de clube rico.
Em matéria de aquisições, e embora Pinto da Costa também diga que não há compras em vista, toda a gente sabe que o FC Porto procura um ponta-de-lança, que gritantemente lhe falta, para mais, depois de despachar o Walter e ficar reduzido ao até agora inócuo Kleber, que ainda não se percebeu se é ou não outro erro de casting. O problema, é claro, é que bons pontas-de-lança, livres a meio da época, não abundam e não são baratos - impossível chegar lá sem vender antes e bem. Consta para aí que o FC Porto estaria disponível para dar 8 milhões por um colombiano com nome de artista de Love Boat, um tal de Jackson Martinez, jogador de um clube mexicano chamado Jaguares Chiappas, da terra da droga. Eu espero sinceramente que não se vá por aí, que se tenha o bom senso de perceber que um ponta-de-lança de 25 anos, absolutamente desconhecido e a jogar num clube desconhecido, de certeza que, se fosse bom e valesse 8 milhões, já estaria na Europa ou nou-tro clube. É que 8 milhões, mesmo para quem paga habitualmente alto de mais, como a SAD do FC Porto, não são trocos: a título de comparação, basta pensar que o Sporting deu 5,5 milhões pelo Van Volswinkel... 8 milhões por um candidato a novo Walter seria, de certeza, muito dinheiro a perder-se no circuito e a ir parar aos bolsos de quem nos está sempre a impingir barretes, que depois temos de sustentar anos a fio, com ordenados que os tornam inegociáveis.
2- Em matéria de negócios cuja utilidade para os clubes não se alcança, também gostava de perceber o que levou a direcção do Olhanense a prescindir dos serviços de Daúto Faquira, a favor de Sérgio Conceição, a trocar um treinador com provas dadas por um absoluto estreante. O Olhanense está a três pontos da linha de água? OK, mas era suposto estar aonde? Está em 10º lugar, fazendo um campeonato tranquilo e de acordo com as suas melhores expectativas. Alguém reproduzindo as intenções do presidente do Olhanense, escreveu que o clube espera que desta mudança de comando resulte uma equipe a jogar «um futebol atraente e ofensivo» e bater-se por um lugar na Europa. Deveras? E onde estão os jogadores, as estruturas, os sócios e o dinheiro para tal?
3- Este sábado tenho marcado um programa em cheio: acordo às seis e meia da manhã e vou caçar tordos - a minha caça favorita no prato, não no tiro. Depois, almoço com amigos - companheiros das noites e madrugadas de caça, amigos do coração. Espero voltar para casa ainda a tempo de me deixar cair na cama, exausto, fazer uma sesta, acordar para um duche e sentar-me em frente da televisão a tempo de começar a ver o FC Porto silenciar Alvalade.
Lamento pelos meus amigos sportinguislas (sobretudo, os amigos sportinguistas da caça, que são muitos), mas, para mim, o FC Porto é o grande favorito para o jogo de Alvalade. Em condições normais, o FC Porto que eu me habituei a conhecer, chega ali e ganha o jogo, categoricamente. Mas devo dizer não para provocar, mas com sinceridade — que há duas coisas que eu temo, todavia: Vítor Pereira e o árbitro. De Vitor Pereira, temo que ele se ponha a inventar, que contrarie a tendência natural daqueles jogadores de tomarem conta do jogo e, obviamente, vou ter o terror de o ver avançar para as substituições. Do árbitro, que não faço ideia quem seja, temo a terrível e infernal pressão a que Alvalade o vai submeter, como sempre faz. É uma pressão que começa muito antes dos jogos decisivos e que se alimenta até onde o Sporting está em condições de ameaçar o que quer que seja. Este ano, as pressões começaram logo na primeira jornada e não mais pararam, ao ponto de já não se conseguir suportar o discurso de que todos e cada um dos pontos que o Sporting perdeu esta época — todos, sem excepção - terem sido roubados pelos árbitros. Ele é golos mal anulados, penalties por marcar, adversários por expulsar (embora tantos o tenham sido já...). Ainda na última jornada, em Coimbra, uma daquelas jo- gadas que tantas vezes se vêem, em que um defesa ganha a dianteira ao avançado e se coloca entre este e a bola, sem tocar em nenhum deles, foi logo visto como um penalty por assinalar (sendo falta, que não foi, seria obstrução e a obstrução dá livre indirecto, e não penalty). E logo veio a habitual lógica calimero dos sportinguistas: "nós achamos que foi falta, portanto foi - sendo falta e dentro da área, teria de ser penalty - o penalty seria convertido pelo Van Volswinkel - com esse golo, teríamos ganho o jogo por 2-1, em vez de o empatar; e assim, roubaram-nos mais dois pontos”. É desta pressão constante, que vem de fora do estádio para dentro e das bancadas para o relvado, que eu tenho medo, em Alvalade. Ali é muito difícil um árbitro manter- se frio e isento, quando lhe basta assinalar um livre contra o Sporting para todo o estádio desatar a assobiar, e onde um erro banal e inócuo dá imediatamente lugar a um coro de 'gatuno!', de uma multidão que sabe bem o que faz: a estratégia consiste exactamente em levar o árbitro a compensar um livre a meio campo contra o Sporting com um penalty inexistente contra o adversário ou um cartão amarelo a um sportinguista com um cartão vermelho forçado a um adversário.
Podem dizer, claro, que eu agora estou a fazer o mesmo. Mas é o que penso: sem nenhum menosprezo, acho, sinceramente, que a qualidade, a experiência e a cultura de vitória desta equipe do FC Porto lhe garante ainda vantagem sobre o Sporting, em jogo jogado e em condições de igualdade. Mas temo que, antes de se completar meia hora de jogo, o FC Porto já esteja reduzido a dez, que uma bola chutada à queima-roupa contra o braço ou o ombro de um portista sirva de penalty ou que uma jogada em que o Hulk vai disparado para o golo termine em falta atacante inexistente ou em off-side mal visto. Temo, sim.
Em contrapartida, se nada disto acontecer (e desejo que não), se o Sporting ganhar sem favor do árbitro e merecidamente, cá estarei terça-feira para o reconhecer.