1- Eu em Natal, no Brasil, num festival literário, e o meu filho em Bolonha, Itália, num semestre de estudo. Veio dele uma primeira mensagem: «Estamos a perder 1-0 com a Académica a 20 minutos do fim e o James continua no banco.» Perguntei: «Estamos a jogar com a reserva?» Respondeu que não, «são os titulares» e, menos de meia hora depois, nova mensagem: «Perdemos 3-0. Que mais será preciso para mandar embora o Vítor Pereira?» Dez minutos a seguir, telefonaram do JN: andavam a fazer uma mini sondagem pelos adeptos portistas para saber que destino preconizavam para Vítor Pereira.
Bem, comigo, enganaram-se, com certeza: há mais de um mês que aqui escrevi que «com Vítor Pereira, o FC Porto não vai a lado nenhum». Foi a seguir ao desastre de S. Petersburgo, contra o Zenit, quando não me restaram mais dúvidas de que ele não fazia a mais pequena ideia do que era dirigir uma equipa como o FC Porto e só por acidente circunstancial é que estava sentado naquele banco. Depois disso, veio o empate caseiro com o APOEL e a impensável derrota em Chipre, apenas para confirmar aquilo que entrava pelos olhos adentro de cada um. E veio novo empate em Olhão, em mais um jogo de uma pobreza franciscana.
A pergunta que me interessa não é a de saber se Vítor Pereira se deve ir embora. Essa é pergunta para fazer aos portistas que ainda alimentaram ilusões, não a mim, que há muito as perdi. A única pergunta que me interessa, de facto, é a do meu filho: que mais será preciso para Pinto da Costa acordar da sua letargia e convencer-se de que não há milagres e que, como aqui escrevi há quinze dias, é preciso pôr termo a esta agonia de uma grande equipa, antes que as coisas se tornem realmente feias? Que mais falta ainda provar? Que mais oportunidades desperdiçadas lhe serão concedidas? Que outras demonstrações de incompetência para a função serão ainda necessárias? O que falta - ser afastado da Liga dos Campeões, ser ultrapassado por Sporting e Benfica, ser eliminado também daquela coisa da Taça da Liga? Para já, saímos da Taça de Portugal ao segundo jogo e à primeira dificuldade encontrada. Ficámos impedidos de defender com um pouco mais de brio e de honra um título que nos pertencia há três anos e gentilmente entrámos para a galeria das grandes memórias da Académica e ajudámos a cimentar a carreira nascente do treinador portista Pedro Emanuel. Já tínhamos também ajudado o APOEL o Feirense e o Olhanense a fazerem história. Tanta generosidade já começa a irritar: não tarda nada, já ninguém respeita esta equipa que por aí anda arrastando o nome e as camisolas do FC Porto.
Como escrevi há um mês, eu acho que o grande problema de Vítor Pereira nem é o que ele vai perder, é o que vai estragar. Se não for rápidamente desmobilizado, ele vai conseguir estragar uma grande equipa, que lhe caiu do céu em herança. Este é o treinador que acha que o Varela (e até o Cristian Rodriguez!) é melhor que o James; o treinador que ainda não percebeu que o Rolando tem de sair rapidamente da equipa porque já são incontáveis os golos causados por erros dele (e foi preciso o Moutinho explicar-lhe que também estava a precisar de estagiar no banco, para ele perceber}; o treinador que desdenhou promessas como o Kelvin e o Christian Atsu e que mantém o Iturbe no congelador; o treinador que achou que um ponta de lança imberbe chegava para disputar a fase de grupos da Champions; o estratega que não acerta uma substituição e que nos momentos de aperto é brifado pelo adjunto, que veio da terceira divisão; o estudioso que descobriu que a passagem rápida da defesa para o ataque não convinha ao «futebol de posse de bola» que queria implementar; o inconsciente que, depois de um jogo em Chipre em que viu a equipa criar apenas uma oportunidade de golo (e de penalty inexistente), conseguiu declarar que tinham jogado «à Porto»; o cego, que vai culpando a equipa pelas sucessivas decepções, recusando-se a encarar o facto de que a equipa é ele que a faz... ou que desfaz.
Enfim, não adianta dizer mais nada. Repito que a culpa não é sequer de Vítor Pereira: ele faz o que pode e sabe. O problema é que isso, obviamente, não chega, nem chegará nunca. A culpa também não é de Pinto da Costa, que também fez o que pôde nas circunstãncias que teve de enfrentar. A culpa é apenas e só do Dragão de Ouro André Villas Boas e da sua deserção - que eu, ao que parece sozinho, não perdoei nem perdoo. Mas, a partir daqui, a continuidade de Vítor Pereira até ao desastre total e absoluto é apenas decisão do presidente. «Quem sabe, faz a hora, não espera acontecer», como escreveu o Gerardo Vandrei e cantava a Simone, em pleno período de nevoeiro da ditadura militar brasileira.
2- No Brasil, justamente, a presidente Dilma Rousse honrou uma das suas promessas eleitorais e fez aprovar e instalar a Comissão da Verdade e Reconciliação, para trazer a lume grande parte da história, ainda escondida, dos crimes da ditadura militar, instaurada em 1964 e terminada com Tancredo Neves e As Directas Já! Há, pelo menos, 500 mortos sem sepultura, 500 famílias de antigos resistentes à ditadura que não sabem sequer como é que os seus filhos ou pais, ou filhas ou mães e mulheres, morreram e quando e às mãos de quem. E claro, que os militares não gostaram nada da ideia: dizem que ofende a honra militar. Como se não tivessem sido eles próprios quem ofendeu a honra militar, derrubando um governo legítimo e instalando uma ditadura sanguinária e criminosa!
Pois, no Brasil, segui mais de perto esta ponta final do Brasileirão. Depois de um disputadíssimo campeonato que, até seis jornadas do fim, tinha cinco candidatos em disputa pelo título — o meu Corinthians, mais um quarteto caríoca formado pelos renascidos Vasco e Botafogo, vindos da segunda divisão, o Fla, campeão há dois anos, e o Flu, campeão em título - agora, a três jornadas do fim, tem aparentemente a luta resumida a dois: o Corinthians e o Vasco da Gama, o clube português do Rio (o de São Paulo é a Portuguesa dos Desportos, que, depois de longa travessia do deserto, acaba de assegurar o regresso ao escalão principal, na sequência de uma brilhante conquista do título da 2' Divisão). Arredados do título estão o Flamengo (onde Ronaldinho Gaúcho, mais preocupado com as memoráveis farras na sua vivenda da Barra da Tijuca do que com o trabalho diário, é vaiado pelos adeptos), o Fluminense e o Botafogo. A esses três juntam-se, na luta pelo chamado G-5 (os lugares que dão acesso à Taça Intercontinental), o surpreendente Figueirense e, vindo lá de baixo, o São Paulo (onde um regressado Luís Fabiano, autor de quatro golos nos úllimos dois jogos, nem parece o mesmo que em 2004 era suplente do FC Porto) e o Internacional, de Porto Alegre. Vi o jogo de sábado passado, no São Januário, entre o Vasco e o Avaí: um, lutando pela renovação de um título que conquistou pela última vez em 97, o outro, lutando para sair do último lugar da classificação e reduzido a dez jogadores desde o minuto 20. Mesmo assim, o Vasco só chegou ao golo após uma hora de jogo - um grande golo do veterano Felipe, um número dez cruzado com onze, que forma a coluna mais ofensiva, juntamente com Éder Luís, Fágner e Diego Sousa (assistidos por um Juninho Pernambucano, que nós conhecemos). E só chegou ao golo então, porque na baliza do Avaí estreava-se um guarda-redes que, antes disso, evitou uns cinco golos e foi o melhor em campo. Sabem quem? Pois, o tão controverso Moretto, ex-Benfica. de regresso ao futebol brasileiro após nove anos de transumância. Outro benfiquista a dar nas vistas nesta jornada foi Felipe Menezes, autor de um hat trick na vitória do Ceará na sua difícil deslocação ao outro extremo do Brasil, o Rio Grande do Sul, para defrontar o Grémio (décimo golo de Felipe Menezes no campeonato). E vi também o muito esperado jogo de Florianópolis, entre o sensacional Figueirense e o aristocrático Fluminense: com o Deco em grande forma e o centro-avante Fred inspiradíssimo, o Flu destroçou o Figueirense, cimentou o 3.° lugar e, teoricamente, ainda está na luta pela revalidação do título que ostenta. E muito mais haveria para contar sobre este empolgante campeonato brasileíro, se Vítor Pereira não me tivesse estragado o fim de semana futebolíslico.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
terça-feira, dezembro 11, 2012
sábado, dezembro 08, 2012
FUTEBOL IGUAL AO PAÍS (15 NOVEMBRO 2011)
1- Por mais que lancemos as culpas para cima da Sr.ª Merkel, ou de José Sócrates, ou de Passos Coelho ou dos políticos, Portugal está arruinado porque todos - Estado, empresas, famílias se endividaram alegremente, acreditando poder viver eternamente a crédito e que alguém trataria depois de pagar a conta. O que aconteceu ao país vem acontecendo também ao futebol e aqueles que aqui me seguem há vários anos sabem que não me tenho cansado de mostrar a minha perplexidade com a irresponsabilidade financeira em que vive o futebol português.
À revelia da euforia geral, fui convictamente contra a realização do Euro 2004 em Portugal, porque antecipei o que seria o desperdício de construir estádios condenados ao vazio. Não era preciso ser economista para antecipar que cidades como Aveiro, Coimbra, Leiria, Faro e mesmo Braga, Guimarães e Porto (estádio do Bessa) e os clubes aí sediados não tinham massa crítica desportiva que chegasse para alimentar a dimensão e os custos dos novos estádios, e a solução só poderia ser, como foi e é, um encargo financeiro tremendo e permanente sobre os ombros das autarquias. A teimosia e a euforia nacional com o Euro (Jorge Sampaio, presidente, chegou a declará-lo «desígnio nacional») podem muito bem servir de exemplo eloquente da mentalidade de novo-rico que nos conduziu ao desastre actual.
Mas também sempre manifestei a minha perplexidade para com a forma como os três grandes administravam as suas contas, vivendo eternamente a crédito e a acumular passivo. Na gestão corrente, nunca percebi uma política de comprar por atacado no estrangeiro, levando à formação de plantéis profissionais com uma folha de ordenados reuniudo 50, 60, 70 jogadores sob contrato, ao mesmo tempo que ouvimos os treinadores, invariavelmente, dizer que só querem trabalhar com um máximo de 25. Que empresa pode sobreviver quando, precisando apenas de 25 trabalhadores, paga ordenados a 70? E, com a excepção, este ano interrompida, do Sporting, também nunca entendi porque gastam os grandes dinheiro com a formação e as escolas de jogadores, se depois não aproveitam nada e preferem as razias de Verão no estrangeiro, para mais confiando quase sempre não nos seus olheiros, mas nos catálogos dos empresários.
No sábado, no particular contra o Galatasaray, Miguel Vítor, do Benfica, conseguiu destacar-se, não por ter marcado um golo, mas por ser uma excepção de um jogador que vem da escola do Seixal e por ter sido o primeiro golo português marcado pelo Benfica em oito meses! Nem se vê como poderia ser diferente, se o onze actual e habitual que Jesus põe em campo não contempla um único jogador português, o que ó verdadeiramente arrepiante para um clube que tinha nos seus estatutos originais a proibição de jogar com estrangeiros. Aliás, A Bola trazia ontem uma relação dos jogadores vindos da formação que tinham chegado a jogar como titulares no Benfica, nos últimos dez anos: foram apenas 15, dos quais 12 portugueses. Desses 15 nomes, apenas Moreira, a espaços, João Pereira, muito pouco, e Manuel Fernandes, em transição para o estrangeiro, atingiram o mínimo de relevo com a camisola do Benfica. De facto, para quê ter e manter uma escola? E, se falo do Benfica, é porque, infelizmente, ainda não vi publicada idêntica relação referente ao FC Porto — mas, de memória, parece-me que será ainda pior, pois que, por aquelas bandas, todos os jovens revelados nas escolas são rapidamente emprestados para nunca mais regressarem. Lembro-me de um rol de jovens promessas portislas, emprestados sem regresso ou abandonados à sua sorte, a quem o clube e os seus treinadores jamais deram uma oportunidade a sério para provarem que valeu a pena investir na sua formação. Mas, em contrapartida, não consigo lembrar-me qual terá sido o último jogador vindo das escolas do clube que se afirmou como titular nos seniores — o Fernando Couto, o Vítor Baía? Já o Sporting, tentou durante muito tempo seguir um caminho diferente (e daí o Nani ou o Cristiano Ronaldo), mas este ano parece ter-se rendido à lei do mercado, dir-se-ia que imperativa para conseguir ganhar alguma coisa: actualmente, ver o Sporting jogar com 9 ou 10 estrangeiros também não causa estranheza . Aliás, este é o primeiro campeonato em que os estrangeiros são maioritários na divisão principal. Eu sei que não é caso único no planeta futebol, mas precisamente porque não temos o poderio económico dado por contratos bilionários com televisões, como sucede em Espanha ou Itália, nem sheiks árabes, milionários asiáticos ou semi-mafiosos russos a financiar os nossos clubes, como acontece em Inglaterra, seria de prever que soubéssemos aproveitar melhor os nossos recursos próprios. Aproveitar e segurar, porque é uma verdadeira dor de alma ver todos os nossos bons jogadores saírem para o estrangeiro, abrindo caminho para que uma quantidade de estrangeiros, tanta vezes piores, venham para cá ocupar os seus lugares. Por favor, não vejam nisto nada de xenófobo ou de nacionalismo bacoco, que abomino. Alguns dos melhores jogadores do FC Porto de sempre, sem dúvida a maioria, eram estrangeiros, e até me dá um frémito só de recordar os seus nomes: Cubillas, Aloísio, Jardel, Drulovic, Kostadinov, Branco, Geraldão, Doriva, Zahovic e, claro, Rabah Madjer, o melhor jogador que alguma vez vi vestir a camisola do FC Porto. Mas, e pensando apenas no lado financeiro do futebol actual, na estrutura dos seus custos e receitas, eram outros tempos, que agora não são mais reproduzíveis. No casino de milhões em que se transformou a indústria do futebol, um país pobre e pequeno, mas com o futebol no sangue, como nós somos, ou tira mais partido daquilo que tem ou não sobrevive.
O resultado desta política suicidaria dos três grandes está espelhado no estudo apresentado pelo professor do ISEG António Samagaio. Juntos, os três grandes devem à banca 350 milhões de euros, com o Benfica à cabeça. Juntos, acumulam um passivo de 700 milhões (324 o Benfica, 200 o Sporting, 193 o FC Porto) . Para se financiarem fora da banca, já chegaram ao ponto de emitir empréstimos obrigacionistas a três anos que pagam a melhor rentabilidade do mercado: 8% as obrigações da SAD do Benfica e do FC Porto, 9,5% (!) a do Sporting. Enfim, os déficites de exploração acumulam--se quase todos os anos, com excepção do FC Porto, devido ao volume excepcional de vendas de jogadores no mercado (compensado com uma massa salarial que é 50% superior à do Sporting).
É óbvio que isto não é sustentável durante muito mais tempo, agora sobretudo, que o país está em crise e a banca sem dinheiro. Luís Filipe Vieira, que está habituado a gerir empresas e a ter de pagar salários a muita gente no final de cada mês, já o percebeu e já declarou que vêm aí tempos difíceis e que vai ser preciso desinvestir no futebol, comprando menos lá fora e aproveitando melhor o que tem cá dentro. Mas dificilmente o conseguirá fazer se não encontrar da parte dos rivais a mesma atitude de contenção e alerta — uma espécie de acordo de cavalheiros, não declarado nem assumido, que promova tréguas na loucura colectiva. Se assim não for, por mais assustado que esteja o presidente do Benfica e por mais louváveis que sejam as suas intenções, a massa associativa não quererá saber de relatórios e contas e menos ainda de contenção de despesas, se vir algum dos rivais passar-lhe desportivamente à frente, seguindo uma política oposta. Foi o que sucedeu este ano no Sporting, onde a pressão para obter resultados levou a nova direcção a jogar a cave, sem margem de reserva financeira para falhar ou esperar por resultados.
2- À hora do Portugal-Bósnia estarei num avião sobre o Atlântico e espero, pelo menos, poder seguir o desfecho do jogo por informações da cabine. Mas decerto que será um voo tranquilo, pois não vejo hipóteses de outro resultado que não a nossa vitória. Já sei que, segundo Paulo Bento, há 50% de hipóteses para cada lado, mas isso é conversa de treinador a valorizar a sua missão. Com a defesa e o ataque que tem (mesmo sem um ponta- de-lança ao nível do resto), Portugal é claramente superior à Bósnia, com Dzeko e tudo. Temos, de facto, um ponto fraco no meio-campo — talvez o pior meio-campo que me lembro de ver na Selecção. Talvez fosse melhor apostar num meio-campo claramente ofensivo, fazendo recuar o Nani ou metendo lá o Danny, no lugar do Miguel Veloso. Paulo Bento não o fará, excepto em estado de necessidade, mas, mesmo sem um meio-campo desequilibrador, sobram desequilibradores para nos qualificar sem grandes sobressaltos. Não há desculpas para outro resultado que não a vitória.
À revelia da euforia geral, fui convictamente contra a realização do Euro 2004 em Portugal, porque antecipei o que seria o desperdício de construir estádios condenados ao vazio. Não era preciso ser economista para antecipar que cidades como Aveiro, Coimbra, Leiria, Faro e mesmo Braga, Guimarães e Porto (estádio do Bessa) e os clubes aí sediados não tinham massa crítica desportiva que chegasse para alimentar a dimensão e os custos dos novos estádios, e a solução só poderia ser, como foi e é, um encargo financeiro tremendo e permanente sobre os ombros das autarquias. A teimosia e a euforia nacional com o Euro (Jorge Sampaio, presidente, chegou a declará-lo «desígnio nacional») podem muito bem servir de exemplo eloquente da mentalidade de novo-rico que nos conduziu ao desastre actual.
Mas também sempre manifestei a minha perplexidade para com a forma como os três grandes administravam as suas contas, vivendo eternamente a crédito e a acumular passivo. Na gestão corrente, nunca percebi uma política de comprar por atacado no estrangeiro, levando à formação de plantéis profissionais com uma folha de ordenados reuniudo 50, 60, 70 jogadores sob contrato, ao mesmo tempo que ouvimos os treinadores, invariavelmente, dizer que só querem trabalhar com um máximo de 25. Que empresa pode sobreviver quando, precisando apenas de 25 trabalhadores, paga ordenados a 70? E, com a excepção, este ano interrompida, do Sporting, também nunca entendi porque gastam os grandes dinheiro com a formação e as escolas de jogadores, se depois não aproveitam nada e preferem as razias de Verão no estrangeiro, para mais confiando quase sempre não nos seus olheiros, mas nos catálogos dos empresários.
No sábado, no particular contra o Galatasaray, Miguel Vítor, do Benfica, conseguiu destacar-se, não por ter marcado um golo, mas por ser uma excepção de um jogador que vem da escola do Seixal e por ter sido o primeiro golo português marcado pelo Benfica em oito meses! Nem se vê como poderia ser diferente, se o onze actual e habitual que Jesus põe em campo não contempla um único jogador português, o que ó verdadeiramente arrepiante para um clube que tinha nos seus estatutos originais a proibição de jogar com estrangeiros. Aliás, A Bola trazia ontem uma relação dos jogadores vindos da formação que tinham chegado a jogar como titulares no Benfica, nos últimos dez anos: foram apenas 15, dos quais 12 portugueses. Desses 15 nomes, apenas Moreira, a espaços, João Pereira, muito pouco, e Manuel Fernandes, em transição para o estrangeiro, atingiram o mínimo de relevo com a camisola do Benfica. De facto, para quê ter e manter uma escola? E, se falo do Benfica, é porque, infelizmente, ainda não vi publicada idêntica relação referente ao FC Porto — mas, de memória, parece-me que será ainda pior, pois que, por aquelas bandas, todos os jovens revelados nas escolas são rapidamente emprestados para nunca mais regressarem. Lembro-me de um rol de jovens promessas portislas, emprestados sem regresso ou abandonados à sua sorte, a quem o clube e os seus treinadores jamais deram uma oportunidade a sério para provarem que valeu a pena investir na sua formação. Mas, em contrapartida, não consigo lembrar-me qual terá sido o último jogador vindo das escolas do clube que se afirmou como titular nos seniores — o Fernando Couto, o Vítor Baía? Já o Sporting, tentou durante muito tempo seguir um caminho diferente (e daí o Nani ou o Cristiano Ronaldo), mas este ano parece ter-se rendido à lei do mercado, dir-se-ia que imperativa para conseguir ganhar alguma coisa: actualmente, ver o Sporting jogar com 9 ou 10 estrangeiros também não causa estranheza . Aliás, este é o primeiro campeonato em que os estrangeiros são maioritários na divisão principal. Eu sei que não é caso único no planeta futebol, mas precisamente porque não temos o poderio económico dado por contratos bilionários com televisões, como sucede em Espanha ou Itália, nem sheiks árabes, milionários asiáticos ou semi-mafiosos russos a financiar os nossos clubes, como acontece em Inglaterra, seria de prever que soubéssemos aproveitar melhor os nossos recursos próprios. Aproveitar e segurar, porque é uma verdadeira dor de alma ver todos os nossos bons jogadores saírem para o estrangeiro, abrindo caminho para que uma quantidade de estrangeiros, tanta vezes piores, venham para cá ocupar os seus lugares. Por favor, não vejam nisto nada de xenófobo ou de nacionalismo bacoco, que abomino. Alguns dos melhores jogadores do FC Porto de sempre, sem dúvida a maioria, eram estrangeiros, e até me dá um frémito só de recordar os seus nomes: Cubillas, Aloísio, Jardel, Drulovic, Kostadinov, Branco, Geraldão, Doriva, Zahovic e, claro, Rabah Madjer, o melhor jogador que alguma vez vi vestir a camisola do FC Porto. Mas, e pensando apenas no lado financeiro do futebol actual, na estrutura dos seus custos e receitas, eram outros tempos, que agora não são mais reproduzíveis. No casino de milhões em que se transformou a indústria do futebol, um país pobre e pequeno, mas com o futebol no sangue, como nós somos, ou tira mais partido daquilo que tem ou não sobrevive.
O resultado desta política suicidaria dos três grandes está espelhado no estudo apresentado pelo professor do ISEG António Samagaio. Juntos, os três grandes devem à banca 350 milhões de euros, com o Benfica à cabeça. Juntos, acumulam um passivo de 700 milhões (324 o Benfica, 200 o Sporting, 193 o FC Porto) . Para se financiarem fora da banca, já chegaram ao ponto de emitir empréstimos obrigacionistas a três anos que pagam a melhor rentabilidade do mercado: 8% as obrigações da SAD do Benfica e do FC Porto, 9,5% (!) a do Sporting. Enfim, os déficites de exploração acumulam--se quase todos os anos, com excepção do FC Porto, devido ao volume excepcional de vendas de jogadores no mercado (compensado com uma massa salarial que é 50% superior à do Sporting).
É óbvio que isto não é sustentável durante muito mais tempo, agora sobretudo, que o país está em crise e a banca sem dinheiro. Luís Filipe Vieira, que está habituado a gerir empresas e a ter de pagar salários a muita gente no final de cada mês, já o percebeu e já declarou que vêm aí tempos difíceis e que vai ser preciso desinvestir no futebol, comprando menos lá fora e aproveitando melhor o que tem cá dentro. Mas dificilmente o conseguirá fazer se não encontrar da parte dos rivais a mesma atitude de contenção e alerta — uma espécie de acordo de cavalheiros, não declarado nem assumido, que promova tréguas na loucura colectiva. Se assim não for, por mais assustado que esteja o presidente do Benfica e por mais louváveis que sejam as suas intenções, a massa associativa não quererá saber de relatórios e contas e menos ainda de contenção de despesas, se vir algum dos rivais passar-lhe desportivamente à frente, seguindo uma política oposta. Foi o que sucedeu este ano no Sporting, onde a pressão para obter resultados levou a nova direcção a jogar a cave, sem margem de reserva financeira para falhar ou esperar por resultados.
2- À hora do Portugal-Bósnia estarei num avião sobre o Atlântico e espero, pelo menos, poder seguir o desfecho do jogo por informações da cabine. Mas decerto que será um voo tranquilo, pois não vejo hipóteses de outro resultado que não a nossa vitória. Já sei que, segundo Paulo Bento, há 50% de hipóteses para cada lado, mas isso é conversa de treinador a valorizar a sua missão. Com a defesa e o ataque que tem (mesmo sem um ponta- de-lança ao nível do resto), Portugal é claramente superior à Bósnia, com Dzeko e tudo. Temos, de facto, um ponto fraco no meio-campo — talvez o pior meio-campo que me lembro de ver na Selecção. Talvez fosse melhor apostar num meio-campo claramente ofensivo, fazendo recuar o Nani ou metendo lá o Danny, no lugar do Miguel Veloso. Paulo Bento não o fará, excepto em estado de necessidade, mas, mesmo sem um meio-campo desequilibrador, sobram desequilibradores para nos qualificar sem grandes sobressaltos. Não há desculpas para outro resultado que não a vitória.
terça-feira, novembro 20, 2012
ANTES QUE FIQUE DEMASIADO FEIO (08 NOVEMBRO 2011)
1- Antes que tudo comece a ficar demasiado feio, Pinto da Costa deve chamar Vítor Pereira, agradecer-Ihe os serviços prestados numa situação de emergência, mas explicar-lhe também, amigávelmente, civilizadamente, que o FC Porto é mais importante do que a carreira de qualquer treinador. Pinto da Costa, que sabe muito mais disto a dormir do que eu acordado, já percebeu obviamente que, tal como aqui escrevi há umas semanas, com Vítor Pereira, o FC Porto não vai a lado nenhum. Não foi preciso para o confirmar nem a miséria da exibição (mais ainda do que do resultado) em Nicosia, nem o empate e nova demonstração de impotência em Olhão. Para se perceber que a experiência falhou e não tem hipóteses de redenção, basta atentar nas declarações do próprio Vítor Pereira. Quando diz que "jogámos à Porto» em Nicosia, ou que “tudo fizemos para ganhar” em Olhão, Vítor Pereira demonstra bem até que ponto ainda não realizou que há uma diferença abissal entre o FC Porto e o Santa Clara, dos Açores. De igual modo, quando insiste em colar-se às vitórias de Villas Boas, como obra sua por igual, ou quando afirma que os resultados desta época são “semelhantes” aos da anterior (como se empatar em casa com o Benfica fosse semelhante a ganhar 5-0, ou empatar a zero em Olhão fosse semelhante a ganhar 3-0), ele mostra como o desespero o leva a invocar uma biografia que não tem para reclamar a confiança alheia num presente que não tem nada que o recomende.
Ora, continuando tudo na mesma e o presidente do FC Porto a fingir que ainda acredita em milagres, o que se vai seguir vai ser feio de ver. Não apenas Vítor Pereira vai continuar a acumular disparates pontuais e erros de estratégia, vai continuar a exibir o seu desconhecimento dos adversários e a ausência de qualquer plano de jogo específico, vai continuar a potenciar a crise individual de todos e cada um dos elementos da equipa, assistindo, impotente, à transformação de grandes jogadores em jogadores banais, como, pior e mais importante, vai continuar a juntar onze jogadores que não fazem uma equipa e que não tem nenhuma ideia de jogo assimilada, treinada e posta em prática: não por acaso, o único jogo em que o FC Porto desta época ainda fez lembrar o da anterior foi o da final da Supertaça Europeia, contra o Barcelona — quando Vítor Pereira ainda não tinha tido tempo de treinar o que quer que fosse e os jogadores jogaram por si sós, com a embalagem trazida dos tempos de André Villas Boas. Mas, assim queo «mister» entrou em funções efectivas, tudo de bom se desvaneceu. Por isso, a segunda coisa feia a que vamos assistir (e que já começa a ser visível em alguns detalhes eloquentes) é ao desrespeito dos jogadores pela autoridade e competência do treinador. E isso é o fim da linha.
Outra coisa feia a que já começá-mos a assistir é o divórcio entre os adeptos e a equipa. O episódio lamentavel da espera feita por algumas dezenas de adeptos, às seis da manhã, à equipa que regressava de Chipre, foi um prenúncio do que aí vem: público ausente do estádio, equipa assobiada em campo, grandes jogadores tratados como diletantes e um treinador em quem os adeptos já não confiam. Há maneiras mais dignas, para todas as partes, de evitar que as coisas cheguem a esse ponto e de recomeçar tudo outra vez - porque, infelizmente, é disso que se trata. E daqui a uns anos, quando Pinto da Costa escrever o prometido prefácio à biografia de André Villas Boas, espero que não se esqueça de escrever isto: «Em Julho de 2011, quando faltavam três dias para a equipa seguir para o estágio da pré-época no estrangeiro, e tendo eu feito todos os esforços para manter, com excepção do Falcão, todos os jogadores titulares e ainda os acrescentar com outros que muito prometiam, fui surpreendido pelo André com a notícia de que accionava a cláusula de rescisão contratual e abandonava a sua “cadeira de sonho” seduzido pelo dinheiro fresco do Sr. Abramovich. Forçado a deitar mão da única solução imediata que me evitasse ter de ir eu próprio treinar os jogadores para estágio, vivi um amargurado Outono a ver como a grande equipa que tudo tinha ganho na época anterior era paulatinamente transformada numa equipa banal, incapaz de vencer um Feirense, um Olhanense ou um Apoel. E percebi assim que, ao contrario do que diziam, eu nao era o fazedor dc treinadores, com o dom infalível de pegar num anónimo e dele fazer um campeão. E percebi também que há uma diferença enorme entre um adjunto do Mourinho e um adjunto do Vllas Boas».
Resolvido este desagradável e decisivo detalhe do treinador, há que, a seguir, olhar para a equipa. O FCPorto tem uma boa equipa - ao nível da Liga Europa, por exemplo. Mas não tem uma grande equipa, ao nível da l.iga dos Campeões ou que lhe permita assegurar uma superioridade interna até há pouco incontestada. Falta ver o Danilo e o llurbe, um porque ainda não chegou, outro porque Vítor Pereira não deixa, porque tem aquela mania de alguns treinadores portugueses de que «está a preparar o miúdo, fazendo tudo com muita calma, para não o estragar». Mas, do que está à vista, o panorama é este: falla-nos um central de verdadeira categoria para jogar no lugar do Rolando e ao lado do Otamendi; falta-nos um bom trinco, que talvez pudesse ser o Souza, se aproveitado e trabalhado; falta-nos um ponta-de-lança, que não precisa de ser um Falcão mas tem de ser, obviamente, bem mais do que o Kleber ou o Walter; e falta-nos, como não me canso de dizer há mais de um ano, médios de ataque. Quantos médios de ataque - um, dois? Não, todos: três, pelo menos. Belluschi joga umas coisas de vez em quando; Guarín ainda mais de vez em quando e cada vez menos quando começa a mandar o empresário sugerir que ele é um talento desaproveitado; e Moutinho, o tão louvado Moutinho, é um jogador que não vai além de um futebol lateral e curto, de apoio e organização, que pode ser muito útil para quem joga recuado, mas é um peso morto como médio criativo e ofensivo, a quem se deve exigir o contrario disso: um futelol vertical e comprido, capaz de assumir o risco e romper com a organização. E Deffour, até ver e como rezam as críticas, tem, como principal atributo... jogar à Moutinho.
PS1 - Como sempre sustentei, as grandes equipas, os candidatos ao título, não se podem refugiar nas estafadas desculpas dos erros de arbitragem quando não jogam o suficiente para se colocarem ao abrigo deles. Um FC Porto normal tem de ter sempre a capacidade de vencer um Olhanenese, mesmo que eventuais erros de arbitragem tenham influência determinante no desfecho. E foi o que sucedeu em Olhão: Mauricio podia ter sido expulso aos 3 minutos pelas regras vigentes, mas era feio, se sucedesse; podia ter sido marcado um penalty por mão na bola de um defensor algarvio, que cortou um cruzamento para a área, mas eu, pessoalmente, detesto ganhar com estes penalties em que nunca se sabe ao certo se é mão na bola ou bola na mão (embora neste tenham restado poucas dúvidas de que a mão foi voluntária); e, sim, Hulk foi mesmo travado por uma perna alheia atravessada a sua frente no momento decisivo, e era penalty. Pelos critérios dos sportinguistas, o árbitro “roubou” 2 pontos ao Porto em Olhão (a acrescentar aos 2 que ofereceu ao Sporting na última jornada, a vantagem portista dos célebres “7 pontos roubados ao Sporting”, já está reduzida a 3...). Mas, não: nós somos Porto. E isso quer dizer que, quando se joga mal. quando não se joga o suficiente para levar de vencida uma equipa cujo orçamento é vinte vezes inferior ao nosso, não há erros de arbitragem, por mais pertinentes que sejam que, possam servir de desculpa.
PS2 - Julgo que, tal como eu, ninguém terá percebido as pertinentes razões que levam Paulo Bento a continuar a deixar de fora o melhor lateral direito português, Bosingwa, para o Play-off com a Bósnia. E também não percebi se quando fala em falta de condições «mentais e psicológicas» de Bosingua, está a sugerir que ele é burro ou louco. Tudo seria mais transparente se o seleccionador de Portugal deixasse de falar por gargarejos, mentais e linguísticos, e falasse um português tão claro como o futebol que se deseja para esta Selecção. É, alias, o mínimo exigível para um seleccionador de Portugal.
PS3 - Mourinho e Cristiano Ronaldo, juntos na equipa juntos no talento e nas vitórias. Independentemente de algumas manifestações de excesso de vaidade de ambos, eles são um farol de motivação e orgulho neste intenso nevoeiro pátrio. Só resta dizer-lhes obrigado.
Ora, continuando tudo na mesma e o presidente do FC Porto a fingir que ainda acredita em milagres, o que se vai seguir vai ser feio de ver. Não apenas Vítor Pereira vai continuar a acumular disparates pontuais e erros de estratégia, vai continuar a exibir o seu desconhecimento dos adversários e a ausência de qualquer plano de jogo específico, vai continuar a potenciar a crise individual de todos e cada um dos elementos da equipa, assistindo, impotente, à transformação de grandes jogadores em jogadores banais, como, pior e mais importante, vai continuar a juntar onze jogadores que não fazem uma equipa e que não tem nenhuma ideia de jogo assimilada, treinada e posta em prática: não por acaso, o único jogo em que o FC Porto desta época ainda fez lembrar o da anterior foi o da final da Supertaça Europeia, contra o Barcelona — quando Vítor Pereira ainda não tinha tido tempo de treinar o que quer que fosse e os jogadores jogaram por si sós, com a embalagem trazida dos tempos de André Villas Boas. Mas, assim queo «mister» entrou em funções efectivas, tudo de bom se desvaneceu. Por isso, a segunda coisa feia a que vamos assistir (e que já começa a ser visível em alguns detalhes eloquentes) é ao desrespeito dos jogadores pela autoridade e competência do treinador. E isso é o fim da linha.
Outra coisa feia a que já começá-mos a assistir é o divórcio entre os adeptos e a equipa. O episódio lamentavel da espera feita por algumas dezenas de adeptos, às seis da manhã, à equipa que regressava de Chipre, foi um prenúncio do que aí vem: público ausente do estádio, equipa assobiada em campo, grandes jogadores tratados como diletantes e um treinador em quem os adeptos já não confiam. Há maneiras mais dignas, para todas as partes, de evitar que as coisas cheguem a esse ponto e de recomeçar tudo outra vez - porque, infelizmente, é disso que se trata. E daqui a uns anos, quando Pinto da Costa escrever o prometido prefácio à biografia de André Villas Boas, espero que não se esqueça de escrever isto: «Em Julho de 2011, quando faltavam três dias para a equipa seguir para o estágio da pré-época no estrangeiro, e tendo eu feito todos os esforços para manter, com excepção do Falcão, todos os jogadores titulares e ainda os acrescentar com outros que muito prometiam, fui surpreendido pelo André com a notícia de que accionava a cláusula de rescisão contratual e abandonava a sua “cadeira de sonho” seduzido pelo dinheiro fresco do Sr. Abramovich. Forçado a deitar mão da única solução imediata que me evitasse ter de ir eu próprio treinar os jogadores para estágio, vivi um amargurado Outono a ver como a grande equipa que tudo tinha ganho na época anterior era paulatinamente transformada numa equipa banal, incapaz de vencer um Feirense, um Olhanense ou um Apoel. E percebi assim que, ao contrario do que diziam, eu nao era o fazedor dc treinadores, com o dom infalível de pegar num anónimo e dele fazer um campeão. E percebi também que há uma diferença enorme entre um adjunto do Mourinho e um adjunto do Vllas Boas».
Resolvido este desagradável e decisivo detalhe do treinador, há que, a seguir, olhar para a equipa. O FCPorto tem uma boa equipa - ao nível da Liga Europa, por exemplo. Mas não tem uma grande equipa, ao nível da l.iga dos Campeões ou que lhe permita assegurar uma superioridade interna até há pouco incontestada. Falta ver o Danilo e o llurbe, um porque ainda não chegou, outro porque Vítor Pereira não deixa, porque tem aquela mania de alguns treinadores portugueses de que «está a preparar o miúdo, fazendo tudo com muita calma, para não o estragar». Mas, do que está à vista, o panorama é este: falla-nos um central de verdadeira categoria para jogar no lugar do Rolando e ao lado do Otamendi; falta-nos um bom trinco, que talvez pudesse ser o Souza, se aproveitado e trabalhado; falta-nos um ponta-de-lança, que não precisa de ser um Falcão mas tem de ser, obviamente, bem mais do que o Kleber ou o Walter; e falta-nos, como não me canso de dizer há mais de um ano, médios de ataque. Quantos médios de ataque - um, dois? Não, todos: três, pelo menos. Belluschi joga umas coisas de vez em quando; Guarín ainda mais de vez em quando e cada vez menos quando começa a mandar o empresário sugerir que ele é um talento desaproveitado; e Moutinho, o tão louvado Moutinho, é um jogador que não vai além de um futebol lateral e curto, de apoio e organização, que pode ser muito útil para quem joga recuado, mas é um peso morto como médio criativo e ofensivo, a quem se deve exigir o contrario disso: um futelol vertical e comprido, capaz de assumir o risco e romper com a organização. E Deffour, até ver e como rezam as críticas, tem, como principal atributo... jogar à Moutinho.
PS1 - Como sempre sustentei, as grandes equipas, os candidatos ao título, não se podem refugiar nas estafadas desculpas dos erros de arbitragem quando não jogam o suficiente para se colocarem ao abrigo deles. Um FC Porto normal tem de ter sempre a capacidade de vencer um Olhanenese, mesmo que eventuais erros de arbitragem tenham influência determinante no desfecho. E foi o que sucedeu em Olhão: Mauricio podia ter sido expulso aos 3 minutos pelas regras vigentes, mas era feio, se sucedesse; podia ter sido marcado um penalty por mão na bola de um defensor algarvio, que cortou um cruzamento para a área, mas eu, pessoalmente, detesto ganhar com estes penalties em que nunca se sabe ao certo se é mão na bola ou bola na mão (embora neste tenham restado poucas dúvidas de que a mão foi voluntária); e, sim, Hulk foi mesmo travado por uma perna alheia atravessada a sua frente no momento decisivo, e era penalty. Pelos critérios dos sportinguistas, o árbitro “roubou” 2 pontos ao Porto em Olhão (a acrescentar aos 2 que ofereceu ao Sporting na última jornada, a vantagem portista dos célebres “7 pontos roubados ao Sporting”, já está reduzida a 3...). Mas, não: nós somos Porto. E isso quer dizer que, quando se joga mal. quando não se joga o suficiente para levar de vencida uma equipa cujo orçamento é vinte vezes inferior ao nosso, não há erros de arbitragem, por mais pertinentes que sejam que, possam servir de desculpa.
PS2 - Julgo que, tal como eu, ninguém terá percebido as pertinentes razões que levam Paulo Bento a continuar a deixar de fora o melhor lateral direito português, Bosingwa, para o Play-off com a Bósnia. E também não percebi se quando fala em falta de condições «mentais e psicológicas» de Bosingua, está a sugerir que ele é burro ou louco. Tudo seria mais transparente se o seleccionador de Portugal deixasse de falar por gargarejos, mentais e linguísticos, e falasse um português tão claro como o futebol que se deseja para esta Selecção. É, alias, o mínimo exigível para um seleccionador de Portugal.
PS3 - Mourinho e Cristiano Ronaldo, juntos na equipa juntos no talento e nas vitórias. Independentemente de algumas manifestações de excesso de vaidade de ambos, eles são um farol de motivação e orgulho neste intenso nevoeiro pátrio. Só resta dizer-lhes obrigado.
segunda-feira, novembro 19, 2012
NADA MENOS QUE A VITÓRIA (01 NOVEMBRO 2011)
1- Ausente do país durante uns dias, deixei que a 9ª jornada do campeonato me passasse totalmente ao lado: não vi jogo nenhum, tive de acompanhar o FC Porto por sms e vi-me reduzido aos jornais ontem lidos no avião para fazer uma ideia aproximada do que aconteceu. O que não é fácil pois é preciso tirar a bissectriz entre várias opiniões apresentadas como relato factual do que sucedeu.
Por exemplo: actualmente, os jornais desportivos puxam pelo Sporting, o que se compreende. Há que aproveitar a onda vitoriosa dos leões para trazer de volta os leitores afectos ao clube, que de há muito andavam arredios, pois ninguém gosta de ler más notícias e comentários depreciativos sobre aquilo que preza. Nos jornais desportivos de ontem, o Sporting obteve mais uma vitória categórica e todos os lances duvidosos, e determinantes, da arbitragem foram bem julgados a favor do Sporting. O árbitro só terá mesmo errado num penalty que não assinalou a favor do mesmo Sporting. Já nos jornais generalistas, o relato é substancialmente diferente. O penalty reclamado pelo Sporting foi apenas isso: um penalty reclamado. O penalty a favor do Sporting, que inaugurou o marcador, foi descrito como 'no mínimo, forçado' assim como a expulsão de um jogador do Feirense, com dois amarelos em 3 minutos, abrindo o caminho ao triunfo dos leões. Diz-se mesmo que até à expulsão e ao penalty, decorreu mais de uma hora de um jogo equilibrado em que só o Feirense, aliás, dispôs de oportunidades. As fotografias, supostamente reveladoras, das faltas que originaram o penalty e a expulsão parecem de disputas de bola absolutamente banais. Mas pode ser que assim não tenha sido e que, se tem sido ao contrário, desta vez os sportinguistas não tivessem reclamado nada: aceitariam tranquilamente a expulsão de um seu jogador naquelas circunstâncias e não reclamariam de um penalty idêntico assinalado contra eles. Não teriam vindo dizer que já lhes levavam 9 pontos roubados — assim como agora não virão dizer que os 7 pontos roubados baixaram para 5. Assim como também não se queixaram do árbitro francês do jogo contra o Vaslui, que lhes perdoou um penalty e uma expulsão quando havia 0-0 e talvez tudo pudesse ter sido diferente.
Mas, entendam-me bem: eu não tenho opinião nenhuma porque não vi nada. Estou apenas a basear-me em relatos de outros, aliás contraditórios entre si. A única coisa que eu sei — e disso tenho a certeza é que, se não foi esta, haverá, seguramente, outras ocasiões em que o Sporting sairá beneficiado por erros de arbitragem, como sucede com todos os grandes. E sei que isso não entrará nas contas, nas memórias ou nos protestos dos sportinguistas. Quanto ao mais, estou contente por ver o Sporting de regresso à luta: primeiro pelo Domingos, que muito estimo pessoalmente e admiro profissionalmente; segundo, pelos meus amigos sportinguistas; terceiro, pelo campeonato, que sempre anima um pouco (embora, como é óbvio, eu, como qualquer adepto, preferisse ver o FC Porto destacado na frente). Sem dúvida que Domingos está a mudar o jogo e a mentalidade da equipa. Contra o meu vaticínio, conseguiu pegar naquela sociedade das nações, em que quase ninguém conhecia ninguém, e dela fazer uma equipa. E certo que essa equipa ainda não foi verdadeiramente posta à prova, mas Domingos tem sabido aproveitar muito bem a folga concedida por uma longa sequência de jogos fáceis ou acessíveis para forjar o espírito de vitória, que era coisa desconhecida por aquelas paragens há vários anos. O teste de fogo, porém, já não tarda muito e logo saberemos se o Sporting é ou não candidato ao título. Se fosse contra o FC Porto do ano passado, eu apostava já que não. Contra este, a música é outra, mas não é ainda a marcha triunfal que nos querem fazer crer. A ver vamos.
Sobre o meu FC Porto, tive um breve relato oral de um portista que é bem mais exigente do que eu. Diga-se que, estando a viver fora, esta foi apenas a segunda oportunidade que ele teve de ver o FC Porto de Vítor Pereira, embora só através da televisão. A primeira foi o infeliz jogo de S. Petersburgo e o pobre ficou arrasado com o que viu. Agora, tendo vindo de fim-de-semana à Pátria, teve nova oportunidade de avaliar o nosso clube, desta vez num jogo caseiro contra o Paços de Ferreira, e foi a ele que eu pedi uma opinião do que tinha visto. Foi breve e nada optimista: «Uma chatice de um jogo! Não estamos a jogar nada!» Confesso que, mesmo conhecendo o seu grau de exigência, fiquei um pouco abalado. Como abalado fiquei depois de ter lido que o James foi outra vez utilizado apenas como suplente e que substituiu o Hulk que saiu zangado, oxigenado e assobiado, depois de, ao que parece, ter andado a jogar sozinho durante uma hora (coisa que ele costuma fazer quando sente que a equipa não está a jogar nada). Pensei no Falcão, que mais uma vez ficou em branco ao serviço do Atlético de Madrid e na entusiasmante luta pelo 10º lugar do campeonato espanhol. Pensei no André Villas Boas, tão bem recebido como Dragão de Ouro, que encaixou a segunda derrota consecutiva na Pretnier League e que já deve ter dito adeus ao título. E pensei nessa equipa de sonho que todos formavam na época passada e que agora parece um conjunto de solidões dispersas em busca de um esplendor perdido.
Esta noite, em Nicosia, eu espero ardentemente que regresse parte desse esplendor e dessas memórias felizes. Eu sei, já o ouvi suficientemente, que o futebol cipriota (no caso, luso-cipriota) nada tem que ver com a coisa indigente que foi até alguns anos atrás. Mas dêem-se as voltas que se quiser ao texto, não há qualquer comparação possível entre o APOEL de Nicosia e o FC Porto. Não há comparação a nível de historial, de experiência internacional, de jogadores ou de orçamentos. Qualquer outro resultado que não seja a vitória hoje, a resgatar o impensável empate do Dragão, será inaceitável e indesculpável. Eu espero que Vítor Pereira ponha a jogar simplesmente os melhores, que tenha estudado melhor o adversário e tenha aprendido alguma coisa com o que viu no Dragão e que, consequentemente, tenha um plano de jogo definido e que seja um plano de vitória. Uma vitória rápida, convincente e redentora. Até porque qualquer outro resultado, mesmo o empate, levantaria mais do que sérias dúvidas sobre a capacidade de o FC Porto atingir os oitavos-de-final da prova. E escuso de explicar porquê que isso seria desastroso. Espero que, a fazer fé no relato dos jornalistas embedded na organização azul e branca, a breve crise vivida a seguir ao empate caseiro com o APOEL e antecedida dos empates com o Benfica e o Feirense, já seja coisa do passado — diluída, esquecida, ultrapassada pelas duas consecutivas e recentes goleadas caseiras.
Quanto ao Benfica, ganhou curto mas suficiente ao Olhanense e amanhã irá certamente carimbar o passaporte para os oitavos de final da Champions. É curioso como é que não sendo cabeça-de-série na prova, como o FC Porto o foi, o Benfica acabou por apanhar um grupo muito mais acessível e muito mais confortável, em termos de deslocações. Mas o futebol é assim: não é só a bola que entra ou não entra na baliza; é também a bolinha do sorteio que, por mais orientada que já esteja, sempre tem margem para a sorte e o azar.
Por exemplo: actualmente, os jornais desportivos puxam pelo Sporting, o que se compreende. Há que aproveitar a onda vitoriosa dos leões para trazer de volta os leitores afectos ao clube, que de há muito andavam arredios, pois ninguém gosta de ler más notícias e comentários depreciativos sobre aquilo que preza. Nos jornais desportivos de ontem, o Sporting obteve mais uma vitória categórica e todos os lances duvidosos, e determinantes, da arbitragem foram bem julgados a favor do Sporting. O árbitro só terá mesmo errado num penalty que não assinalou a favor do mesmo Sporting. Já nos jornais generalistas, o relato é substancialmente diferente. O penalty reclamado pelo Sporting foi apenas isso: um penalty reclamado. O penalty a favor do Sporting, que inaugurou o marcador, foi descrito como 'no mínimo, forçado' assim como a expulsão de um jogador do Feirense, com dois amarelos em 3 minutos, abrindo o caminho ao triunfo dos leões. Diz-se mesmo que até à expulsão e ao penalty, decorreu mais de uma hora de um jogo equilibrado em que só o Feirense, aliás, dispôs de oportunidades. As fotografias, supostamente reveladoras, das faltas que originaram o penalty e a expulsão parecem de disputas de bola absolutamente banais. Mas pode ser que assim não tenha sido e que, se tem sido ao contrário, desta vez os sportinguistas não tivessem reclamado nada: aceitariam tranquilamente a expulsão de um seu jogador naquelas circunstâncias e não reclamariam de um penalty idêntico assinalado contra eles. Não teriam vindo dizer que já lhes levavam 9 pontos roubados — assim como agora não virão dizer que os 7 pontos roubados baixaram para 5. Assim como também não se queixaram do árbitro francês do jogo contra o Vaslui, que lhes perdoou um penalty e uma expulsão quando havia 0-0 e talvez tudo pudesse ter sido diferente.
Mas, entendam-me bem: eu não tenho opinião nenhuma porque não vi nada. Estou apenas a basear-me em relatos de outros, aliás contraditórios entre si. A única coisa que eu sei — e disso tenho a certeza é que, se não foi esta, haverá, seguramente, outras ocasiões em que o Sporting sairá beneficiado por erros de arbitragem, como sucede com todos os grandes. E sei que isso não entrará nas contas, nas memórias ou nos protestos dos sportinguistas. Quanto ao mais, estou contente por ver o Sporting de regresso à luta: primeiro pelo Domingos, que muito estimo pessoalmente e admiro profissionalmente; segundo, pelos meus amigos sportinguistas; terceiro, pelo campeonato, que sempre anima um pouco (embora, como é óbvio, eu, como qualquer adepto, preferisse ver o FC Porto destacado na frente). Sem dúvida que Domingos está a mudar o jogo e a mentalidade da equipa. Contra o meu vaticínio, conseguiu pegar naquela sociedade das nações, em que quase ninguém conhecia ninguém, e dela fazer uma equipa. E certo que essa equipa ainda não foi verdadeiramente posta à prova, mas Domingos tem sabido aproveitar muito bem a folga concedida por uma longa sequência de jogos fáceis ou acessíveis para forjar o espírito de vitória, que era coisa desconhecida por aquelas paragens há vários anos. O teste de fogo, porém, já não tarda muito e logo saberemos se o Sporting é ou não candidato ao título. Se fosse contra o FC Porto do ano passado, eu apostava já que não. Contra este, a música é outra, mas não é ainda a marcha triunfal que nos querem fazer crer. A ver vamos.
Sobre o meu FC Porto, tive um breve relato oral de um portista que é bem mais exigente do que eu. Diga-se que, estando a viver fora, esta foi apenas a segunda oportunidade que ele teve de ver o FC Porto de Vítor Pereira, embora só através da televisão. A primeira foi o infeliz jogo de S. Petersburgo e o pobre ficou arrasado com o que viu. Agora, tendo vindo de fim-de-semana à Pátria, teve nova oportunidade de avaliar o nosso clube, desta vez num jogo caseiro contra o Paços de Ferreira, e foi a ele que eu pedi uma opinião do que tinha visto. Foi breve e nada optimista: «Uma chatice de um jogo! Não estamos a jogar nada!» Confesso que, mesmo conhecendo o seu grau de exigência, fiquei um pouco abalado. Como abalado fiquei depois de ter lido que o James foi outra vez utilizado apenas como suplente e que substituiu o Hulk que saiu zangado, oxigenado e assobiado, depois de, ao que parece, ter andado a jogar sozinho durante uma hora (coisa que ele costuma fazer quando sente que a equipa não está a jogar nada). Pensei no Falcão, que mais uma vez ficou em branco ao serviço do Atlético de Madrid e na entusiasmante luta pelo 10º lugar do campeonato espanhol. Pensei no André Villas Boas, tão bem recebido como Dragão de Ouro, que encaixou a segunda derrota consecutiva na Pretnier League e que já deve ter dito adeus ao título. E pensei nessa equipa de sonho que todos formavam na época passada e que agora parece um conjunto de solidões dispersas em busca de um esplendor perdido.
Esta noite, em Nicosia, eu espero ardentemente que regresse parte desse esplendor e dessas memórias felizes. Eu sei, já o ouvi suficientemente, que o futebol cipriota (no caso, luso-cipriota) nada tem que ver com a coisa indigente que foi até alguns anos atrás. Mas dêem-se as voltas que se quiser ao texto, não há qualquer comparação possível entre o APOEL de Nicosia e o FC Porto. Não há comparação a nível de historial, de experiência internacional, de jogadores ou de orçamentos. Qualquer outro resultado que não seja a vitória hoje, a resgatar o impensável empate do Dragão, será inaceitável e indesculpável. Eu espero que Vítor Pereira ponha a jogar simplesmente os melhores, que tenha estudado melhor o adversário e tenha aprendido alguma coisa com o que viu no Dragão e que, consequentemente, tenha um plano de jogo definido e que seja um plano de vitória. Uma vitória rápida, convincente e redentora. Até porque qualquer outro resultado, mesmo o empate, levantaria mais do que sérias dúvidas sobre a capacidade de o FC Porto atingir os oitavos-de-final da prova. E escuso de explicar porquê que isso seria desastroso. Espero que, a fazer fé no relato dos jornalistas embedded na organização azul e branca, a breve crise vivida a seguir ao empate caseiro com o APOEL e antecedida dos empates com o Benfica e o Feirense, já seja coisa do passado — diluída, esquecida, ultrapassada pelas duas consecutivas e recentes goleadas caseiras.
Quanto ao Benfica, ganhou curto mas suficiente ao Olhanense e amanhã irá certamente carimbar o passaporte para os oitavos de final da Champions. É curioso como é que não sendo cabeça-de-série na prova, como o FC Porto o foi, o Benfica acabou por apanhar um grupo muito mais acessível e muito mais confortável, em termos de deslocações. Mas o futebol é assim: não é só a bola que entra ou não entra na baliza; é também a bolinha do sorteio que, por mais orientada que já esteja, sempre tem margem para a sorte e o azar.
domingo, novembro 18, 2012
A TAREFA IMPOSSÍVEL DO ADJUNTO DO ADJUNTO DO MESTRE (25 OUTUBRO 2011)
1- Estava-se mais ou menos a meio do FC Porto-Apoel, com o resultado em 1-1 e os portistas a fazerem uma exibição de uma médiocridade assustadora. Lá atrás, na defesa, Rolando acumulava baldas sobre baldas, acabando a contagiar Otamendi; no meio-campo, Moutinho e Guarín arrastavam-se sem sentido nem orientação e, nas alas, nem Sapunaru nem Álvaro Pereira subiam para tentar romper a inabalável estrutura defensiva cipriota (onde jogam mais portugueses que no próprio FCPorto). Estava bom de ver que, enquanto o sérvio treinador do Apoel trazia a lição bem estudada e bem explicada aos seus jogadores, do lado contrário era como se a forma de jogar do adversário fosse uma total novidade. A televisão mostrou então uma imagem de Vítor Pereira que, embora absolutamente reveladora, para mim não foi mais do que a confirmação final daquilo de que aos poucos me vinha dando conta. Sentado no banco, o inútil caderno de apontamento deixado de lado, o olhar perdido no relvado, o treinador portista escutava, calado, uma longa dissertação do seu adjunto. Fiquei esclarecido e estarrecido: o adjunto (como todos os outros e como o próprio Vítor Pereira, um ano antes) chegou directamente da segunda divisão e agora ali estava a aconselhar o seu treinador em pleno jogo da Liga dos Campeões, na orientação de uma equipa que vem de uma época em que conquistou a Liga Europa e um campeonato com 27 vitórias e 3 empates.
Pouco depois, Vítor Pereira, só para fazer qualquer coisa, resolveu substituir. Tirou Fernando, o único médio que estava a jogar, e tirou James, uma das maiores esperanças do futebol mundial e que ele está aos poucos a tentar desmoralizar, incapaz de compreender a excepcionalidade de jogo do miúdo colombiano. Mas manteve Rolando, Moutinho e Guarín. Percebi que não íamos ganhar e dei comigo até a agradecer o empate. E confirmei tudo o resto que já tinha percebido e que não são os circunstanciais 5-0 ao Nacional que modificam. Esperei treze jogos oficiais para poder ter a certeza daquilo que agora vou escrever, mas escrevo-o convicto: com Vítor Pereira, o FC Porto não vai a lado nenhum.
Creio ter sido o primeiro a chamar a atenção para o sistemático desastre que são as substituições operadas por Vítor Pereira durante os jogos. È raro acertar uma e isso diz muito sobre a forma como ele lê o jogo. Um treinador que, sempre que muda, é para igual ou pior, das duas uma: ou não conhece a equipa que treina ou não é capaz de entender um jogo enquanto ele decorre. Mais vale estar quieto. Mas há várias oulras coisas que Vítor Pereira não parece entender: que James é, de facto, um génio e que não serve apenas para ponta esquerda; que Rolando precisa de ser retirado, reciclado e treinado intensamente, sobretudo no jogo aéreo; que Fucile tem de ser disciplinado e ensinado a conter-se; que não é obrigatório jogar sempre com Moutinho, sob pena de ira presidencial, e que, para sair e descansar não é necessário ser o próprio a sugeri-lo; que Guarín precisa de levar banhos de humildade e convencer-se que não é a última Coca Cola do deserto nem o maior rematador do mundo de meia-distância; que o melhor médio construtivo do FC Porto é Belluschi, assim como o melhor médio defensivo é Souza; que é preciso explicar ao Varela que não basta correr e jogar um jogo em cada três, e etc, por aí fora — enfim, alguma atenção e trabalho individual com os jogadores que, mani- festamente não existe, a avaliar pelo facto de todos eles, sem excepção, estarem a jogar pior do que no ano passado. Mas, para além destes dois défices estruturais de Vítor Pereira, há tudo o resto que treze jogos oficiais já deixaram a nu: falta de capacidade física da equipe (um dos seus principais trunfos na época passada); falta de motivação anímica, de vontade de continuar a vencer; falta de disciplina em campo, coisa que não existia com Villas Boas; falta de espírito de conquista, parecendo que nunca há pressa em ganhar os jogos, e, acima de tudo e mais grave que tudo, falta de qualquer ideia de jogo colectivo, em si mesmo.
Dizem algumas vozes compreensivas que Vítor Pereira «é bom a dar o treino» e até houve, no início e, para efeitos de alforria, quem insinuasse que era ele quem, de facto, dava o treino, nos tempos de Villas Boas. Pois, se assim era, isso só confirma a minha ideia de que o principal num treinador não é orientar os treinos, pôr os jogadores em corridinhas à volta do campo ou aos zigue zagues entre estacas, meeinhos e exercícios de defesa contra ataque banais. O essencial é perceber as características de cada jogador e saber aproveitá-las em benefício colectivo, juntando depois 11, 13 ou 15 individualidades num estilo de jogo harmonioso e pensado em função do material humano disponível. Há grandes treinadores que não orientam os treinos: ficam de fora a ver e o que orientam e a forma como os adjuntos orientam o treino. Depois, os grandes treinadores conhecem-se também durante os jogos: um treinador que não consegue ver o que todos vemos lá de cima, da bancada, que mexe na equipa mal ou a despropósito, uma e outra vez, é porque não consegue entender a diferença entre a teoria e a prática. Dizia o Lampard que ficavam impressionados quando percebiam, durante os jogos, que os adversários estavam a jogar exactamente como Mourinho lhes tinha dito que eles iam jogar. Tanto quanto se sabe, esse era, aliás, o grande trabalho específico de Villas Boas, enquanto adjunto de Mourinho. Mas Mourinho actua sobre os jogos com sentido de oportunidade e de lógica. E não actua só por actuar ou porque lhe é sugerido. Em vão lhe suplicou o Derlei, na final de Sevilha, que o tirasse porque estava rebentado: Mourinho não lhe fez vontade e Derlei acabou por marcar o golo que valeu a Taça UEFA ao FC Porto.
Vítor Pereira pode ser um grande treinador de treino e um grande adjunto de um treinador de campo. Até pode vir a ser, num futuro próximo, um grande treinador de campo. Mas, até prova em contrário, não me parece que o adjunto do ajunto do mestre seja, ele próprio, um continuador natural do mestre.
Como já o escrevi, e logo de início, percebo muito bem que, na emergência aberta pela deserção de Villas Roas, três dias antes de começar a época, não restasse outra alternativa a Pinto da Costa. Vítor Pereira foi a escolha natural, quase inevitável, para que o poder, pura e simplesmente, não caísse na rua. Ele teve coragem em aceitar o desafio, sabendo que ia queimar várias etapas e que talvez não estivesse naturalmente preparado para ele. É óbvio que tem feito o mais que pode e com dignidade, mas ninguém lhe pode exigir o que talvez pudesse dar daqui a uns anos, mas não agora. Se alguém é responsável pela desintegração acelerada da equipa-maravilha da época passada, pela descaracterização crescente do seu futebol de encantar, pela desmotivação e falta de confiança dos jogadores, esse alguém é justamente aquele que, tendo montado a ópera, abandonou a companhia antes de esta subir aos grandes palcos mundiais: André Villas Boas.
Desde o início, também, que eu me preparei para pagar o preço da deserção de Villas Boas: ver esta equipa a perder tudo o que tinha ganho na época passada. Mas há outro preço ainda e é esse que agora mais temo: que, não sentindo um comando à altura das suas capacidades, os principais jogadores do FC Porto entrem num processo acelerado de desmotivação e rapidamente acabem a pensar apenas em ir-se embora, para onde possam voltar a sentir-se triunfadores. O new-look oxigenado do Hulk é um mau sinal: sinal que ele acha que precisa de dar nas vistas de outra forma, de que já não lhe basta o seu futebol espectacular. Será que a seguir vamos ver o James todo tatuado e o Álvaro Pereira de cabelo rapado? Que alguém lhes acuda, antes que eles se percam!
Pouco depois, Vítor Pereira, só para fazer qualquer coisa, resolveu substituir. Tirou Fernando, o único médio que estava a jogar, e tirou James, uma das maiores esperanças do futebol mundial e que ele está aos poucos a tentar desmoralizar, incapaz de compreender a excepcionalidade de jogo do miúdo colombiano. Mas manteve Rolando, Moutinho e Guarín. Percebi que não íamos ganhar e dei comigo até a agradecer o empate. E confirmei tudo o resto que já tinha percebido e que não são os circunstanciais 5-0 ao Nacional que modificam. Esperei treze jogos oficiais para poder ter a certeza daquilo que agora vou escrever, mas escrevo-o convicto: com Vítor Pereira, o FC Porto não vai a lado nenhum.
Creio ter sido o primeiro a chamar a atenção para o sistemático desastre que são as substituições operadas por Vítor Pereira durante os jogos. È raro acertar uma e isso diz muito sobre a forma como ele lê o jogo. Um treinador que, sempre que muda, é para igual ou pior, das duas uma: ou não conhece a equipa que treina ou não é capaz de entender um jogo enquanto ele decorre. Mais vale estar quieto. Mas há várias oulras coisas que Vítor Pereira não parece entender: que James é, de facto, um génio e que não serve apenas para ponta esquerda; que Rolando precisa de ser retirado, reciclado e treinado intensamente, sobretudo no jogo aéreo; que Fucile tem de ser disciplinado e ensinado a conter-se; que não é obrigatório jogar sempre com Moutinho, sob pena de ira presidencial, e que, para sair e descansar não é necessário ser o próprio a sugeri-lo; que Guarín precisa de levar banhos de humildade e convencer-se que não é a última Coca Cola do deserto nem o maior rematador do mundo de meia-distância; que o melhor médio construtivo do FC Porto é Belluschi, assim como o melhor médio defensivo é Souza; que é preciso explicar ao Varela que não basta correr e jogar um jogo em cada três, e etc, por aí fora — enfim, alguma atenção e trabalho individual com os jogadores que, mani- festamente não existe, a avaliar pelo facto de todos eles, sem excepção, estarem a jogar pior do que no ano passado. Mas, para além destes dois défices estruturais de Vítor Pereira, há tudo o resto que treze jogos oficiais já deixaram a nu: falta de capacidade física da equipe (um dos seus principais trunfos na época passada); falta de motivação anímica, de vontade de continuar a vencer; falta de disciplina em campo, coisa que não existia com Villas Boas; falta de espírito de conquista, parecendo que nunca há pressa em ganhar os jogos, e, acima de tudo e mais grave que tudo, falta de qualquer ideia de jogo colectivo, em si mesmo.
Dizem algumas vozes compreensivas que Vítor Pereira «é bom a dar o treino» e até houve, no início e, para efeitos de alforria, quem insinuasse que era ele quem, de facto, dava o treino, nos tempos de Villas Boas. Pois, se assim era, isso só confirma a minha ideia de que o principal num treinador não é orientar os treinos, pôr os jogadores em corridinhas à volta do campo ou aos zigue zagues entre estacas, meeinhos e exercícios de defesa contra ataque banais. O essencial é perceber as características de cada jogador e saber aproveitá-las em benefício colectivo, juntando depois 11, 13 ou 15 individualidades num estilo de jogo harmonioso e pensado em função do material humano disponível. Há grandes treinadores que não orientam os treinos: ficam de fora a ver e o que orientam e a forma como os adjuntos orientam o treino. Depois, os grandes treinadores conhecem-se também durante os jogos: um treinador que não consegue ver o que todos vemos lá de cima, da bancada, que mexe na equipa mal ou a despropósito, uma e outra vez, é porque não consegue entender a diferença entre a teoria e a prática. Dizia o Lampard que ficavam impressionados quando percebiam, durante os jogos, que os adversários estavam a jogar exactamente como Mourinho lhes tinha dito que eles iam jogar. Tanto quanto se sabe, esse era, aliás, o grande trabalho específico de Villas Boas, enquanto adjunto de Mourinho. Mas Mourinho actua sobre os jogos com sentido de oportunidade e de lógica. E não actua só por actuar ou porque lhe é sugerido. Em vão lhe suplicou o Derlei, na final de Sevilha, que o tirasse porque estava rebentado: Mourinho não lhe fez vontade e Derlei acabou por marcar o golo que valeu a Taça UEFA ao FC Porto.
Vítor Pereira pode ser um grande treinador de treino e um grande adjunto de um treinador de campo. Até pode vir a ser, num futuro próximo, um grande treinador de campo. Mas, até prova em contrário, não me parece que o adjunto do ajunto do mestre seja, ele próprio, um continuador natural do mestre.
Como já o escrevi, e logo de início, percebo muito bem que, na emergência aberta pela deserção de Villas Roas, três dias antes de começar a época, não restasse outra alternativa a Pinto da Costa. Vítor Pereira foi a escolha natural, quase inevitável, para que o poder, pura e simplesmente, não caísse na rua. Ele teve coragem em aceitar o desafio, sabendo que ia queimar várias etapas e que talvez não estivesse naturalmente preparado para ele. É óbvio que tem feito o mais que pode e com dignidade, mas ninguém lhe pode exigir o que talvez pudesse dar daqui a uns anos, mas não agora. Se alguém é responsável pela desintegração acelerada da equipa-maravilha da época passada, pela descaracterização crescente do seu futebol de encantar, pela desmotivação e falta de confiança dos jogadores, esse alguém é justamente aquele que, tendo montado a ópera, abandonou a companhia antes de esta subir aos grandes palcos mundiais: André Villas Boas.
Desde o início, também, que eu me preparei para pagar o preço da deserção de Villas Boas: ver esta equipa a perder tudo o que tinha ganho na época passada. Mas há outro preço ainda e é esse que agora mais temo: que, não sentindo um comando à altura das suas capacidades, os principais jogadores do FC Porto entrem num processo acelerado de desmotivação e rapidamente acabem a pensar apenas em ir-se embora, para onde possam voltar a sentir-se triunfadores. O new-look oxigenado do Hulk é um mau sinal: sinal que ele acha que precisa de dar nas vistas de outra forma, de que já não lhe basta o seu futebol espectacular. Será que a seguir vamos ver o James todo tatuado e o Álvaro Pereira de cabelo rapado? Que alguém lhes acuda, antes que eles se percam!
sábado, novembro 17, 2012
FELIZMENTE, HÁ JUSTIÇA! (18 OUTUBRO 2011)
1- Eu bem que me tinha queixado na semana passada que já andava com saudades do futebol a sério! E parece que fui ouvido: ei-lo de regresso, pela mão dessa prestigiadíssima instituição chamada Ministério Público! Sim, digo prestigiadíssima, porque não me ocorre outra qualificação mais adequada: é certo que o BCP vai acabar em nada, o BPN continua com toda a gente em liberdade e todos nós roubados de 13º e 14º mês para pagagarmos os desfalques do banco, o sucateiro de Ovar irá em paz, todos os que assinaram contratos ruinosos para o Estado dormirão o sono dos justos, o Colosso do Atlântico, que, entre outras e inúmeras aventuras, andou a desviar verbas da solidariedade nacional para com as cheias do Funchal para pagar folguedos de Ano Novo e Carnaval, permanecerá impune, nas urnas e na justiça, e, de um modo geral, todos os bandidos feitos comendadores e todos os comendadores feitos bandidos nada têm a temer do zelo justiceiro dessa nobre instituição que é o Ministério Público. Tudo isso é verdade, como de há muito sabemos. Mas, em contrapartida, o zelo persecutório que o MP revela contra o FC Porto deixa-nos sossegados: afinal, a justiça ainda funciona em Portugal, ao contrário do que algumas opiniões de mal intencionados pretendem fazer crer!
Durante dois ou três anos, com base nas revelações de uma famosa e também muito prestigiada escritora, a nobre instituição judicial assanhou-se, como de há muito não se via, para tentar defender a tese dos invejosos de que a razão única para os sucessos continuados do FC Porto, ao longo de trinta anos, era apenas uma: um sistema pérfido de batotas organizadas, através do controlo e corrupção absoluta de todos e cada um dos árbitros de futebol. Não foram nem o calcanhar do Madjer, o voo do Jardel sobre os centrais ou a cabeça do Falcão que ganharam campeonatos aqui e títulos europeus e mundiais além: foram os árbitros, o sistema, a máfia. O zelo foi tanto, que o MP chegou a constituir uma task-force, baptizada de dream team, comandado pela drª Morgado, e que, dia e noite seguiu os indícios, farejou as provas, flagrou os crimes. E chegou mesmo a conseguir, num arroubo de audácia e empenho jamais vistos, inverter o depoimento de uma testemunha da defesa, que virou testemunha de acusação, assinando, às 2 da manhã em Lisboa, um papel, para ser entregue na manha seguinte no Tribunal de Aveiro, a retratar-se de tudo o que antes havia dito. Essa foi uma das grandes vitórias conseguidas pelo MP na investigação do chamado Apito Dourado. Houve outras certamente, se bem que não me ocorram agora, e que se sobrepuseram ao desfecho final de tanto esforço: três processos mandados arquivar pelos juízes de instrução criminal por absoluta falta de indícios de qualquer crime, e um quarto processo levado até julgamento, que terminou, não só com a absolvição de Pinto da Costa mas também com uma sentença que arrasou o espírito aventureiro do MP. Enfim, por esse lado, o Apito Dourado saldou-se, é triste ter de o reconhecer, pela completa humilhação do MP e o gasto em vão de uns largos milhares de euros, suportados pelos contribuintes. Enfim, nada a que essa louvável instituição não esteja habituada.
Mas é apanágio dos verdadeiros justiceiros nunca largar a presa: se não conseguem agarrá-la de uma maneira, tentam doutra. Se não conseguiram chegar a Pinto da Costa, chegam aos jogadores da sua equipa. Se não conseguiram que tribunal algum levasse a sério as suas histórias da balota, tentam agora as das agressões selváticas no túnel da Luz. Prova: as célebres imagens do túnel daLuz – onde, até hoje, ninguém conseguiu ver nada mais do que uma pequena multidão empurrando-se mutuamente. Julgava eu! Porque a srª Procuradora do MP conseguiu distinguir socos pelo ar e pontapés pelo chão (de certo recorrendo a câmaras ocultas no próprio chão do pavilhão). E, não só conseguiu ver, no meio daquele aglomerado, de quem eram as mãos que davam socos e as caras que os encaixavam, como até, numa floresta de pernas e pés, conseguiu distinguir de quem eram os pés que pontapeavam e as canelas que comiam. Mas este notável trabalho de investigação, conduzido ao longo de dois anos, tendo apurado cinco agressores, todos eles jogadores do FC Porto, e duas vítimas (seguranças do Benfica), permitiu apurar também que tudo isso, aquelas selváticas agressões, ocorreram sem nenhum motivo para tal: nem insultos, nem provocações, nem cumprimentos à mãezinha — absolutamente nada. Portanto, a história que a srª Procuradora vai tentar levar a tribunal é a seguinte: estavam os dois seguranças do Benfica postos em absoluto recato e paz no túnel da luz, quando, de repente, se abre a porta da cabina do FC Porto e lá de dentro saem a correr o Helton, o Hulk, o Sapunaru, o Cristian Rodriguez e o Fucile, que, sem mais, desatam a agredir a soco e a pontapé aqueles pacíficos funcionários — a que o dr. Costa, num inesquecível momento de hilariedade jurídica, chamou «agentes desportivos». E, de facto, uma história de pasmar!
E como a missão do dr. Costa, na justiça desportiva, não conseguiu senão alcançar metade dos seus fins (embora com resultados desportivos retumbantes), eis que o MP retoma a missão em mãos, e muda de estratégia: em vez de suspender os jogadores do FC Porto, vai tentar metê-los na cadeia ou, ao menos, incomodá-los tanto, fazendo os vir a Lisboa para interrogatórios, contraditas, etc, que os consiga desconcentrar do seu trabalho habitual, que é o de darem cartas no futebol português. Ah, como eu tinha saudades do nosso futebolzinho a sério!
2- Muita discussão sobre a nossa Selecção e tudo o que ela não jogou na Dinamarca. É indesmentível que aquilo foi mau de mais. Mau, displicente, inaceitável. Mas também não convém iludirmo-nos demasiadamente: esta não é uma boa selecção. Mesmo que todos os melhores estejam disponíveis, falta um guarda-redes de categoria superior, que Patrício ainda não é; falta-nos um meio campo completo e falta-nos um ponta-de-lança. Depois, acresce ainda a fatal tentação do Ronaldo de jogar sozinho, não conseguindo ocultar o desprezo a que vota os seus parceiros de equipa e as instruções (presume-se que contrárias) que os treinadores se atrevem a dar-lhe, se é que se atrevem. Mesmo assim é de todo inaceitável a tareia de bola que uma selecção apenas banal, como a dinamarquesa, nos deu. Nestes tempos de crise, em que os portugueses sofrem economicamente o que nunca sofreram, a excepção de privilegiados que são os futebolistas profissionais da nossa selecção devem a si próprios e ao País uma reparação: que tal jogarem de borla contra a Bósnia, sem diárias, prémios e ajudas de custo?
3- No desvario de aumentos, impostos e custos acrescidos de todos os serviços públicos, a que este governo se dedica com a persistência dos dementes, o futebol também não escapou: com o IVA a passar de 6% para 23% nos bilhetes, ir ao futebol vai custar mais 17%. Seria bom que, como venho escrevendo, os jogadores se consciencializassem que também alguma coisa vai ter de mudar fatalmente no seu mundo à parte.
4- Ficou bem ao FC Porto distinguir André Vilas Boas com o título de treinador do ano. Demonstra que a nossa gratidão não é igual à dele. Fazemos justiça ao seu mérito, mas não esquecemos a sua traição. Se, por acaso em que não acredito, ele for pessoalmente receber o premio, sugiro aos presentes a única atitude que me parece adequada: nem um aplauso, nem uma vaia. Silêncio absoluto.
Durante dois ou três anos, com base nas revelações de uma famosa e também muito prestigiada escritora, a nobre instituição judicial assanhou-se, como de há muito não se via, para tentar defender a tese dos invejosos de que a razão única para os sucessos continuados do FC Porto, ao longo de trinta anos, era apenas uma: um sistema pérfido de batotas organizadas, através do controlo e corrupção absoluta de todos e cada um dos árbitros de futebol. Não foram nem o calcanhar do Madjer, o voo do Jardel sobre os centrais ou a cabeça do Falcão que ganharam campeonatos aqui e títulos europeus e mundiais além: foram os árbitros, o sistema, a máfia. O zelo foi tanto, que o MP chegou a constituir uma task-force, baptizada de dream team, comandado pela drª Morgado, e que, dia e noite seguiu os indícios, farejou as provas, flagrou os crimes. E chegou mesmo a conseguir, num arroubo de audácia e empenho jamais vistos, inverter o depoimento de uma testemunha da defesa, que virou testemunha de acusação, assinando, às 2 da manhã em Lisboa, um papel, para ser entregue na manha seguinte no Tribunal de Aveiro, a retratar-se de tudo o que antes havia dito. Essa foi uma das grandes vitórias conseguidas pelo MP na investigação do chamado Apito Dourado. Houve outras certamente, se bem que não me ocorram agora, e que se sobrepuseram ao desfecho final de tanto esforço: três processos mandados arquivar pelos juízes de instrução criminal por absoluta falta de indícios de qualquer crime, e um quarto processo levado até julgamento, que terminou, não só com a absolvição de Pinto da Costa mas também com uma sentença que arrasou o espírito aventureiro do MP. Enfim, por esse lado, o Apito Dourado saldou-se, é triste ter de o reconhecer, pela completa humilhação do MP e o gasto em vão de uns largos milhares de euros, suportados pelos contribuintes. Enfim, nada a que essa louvável instituição não esteja habituada.
Mas é apanágio dos verdadeiros justiceiros nunca largar a presa: se não conseguem agarrá-la de uma maneira, tentam doutra. Se não conseguiram chegar a Pinto da Costa, chegam aos jogadores da sua equipa. Se não conseguiram que tribunal algum levasse a sério as suas histórias da balota, tentam agora as das agressões selváticas no túnel da Luz. Prova: as célebres imagens do túnel daLuz – onde, até hoje, ninguém conseguiu ver nada mais do que uma pequena multidão empurrando-se mutuamente. Julgava eu! Porque a srª Procuradora do MP conseguiu distinguir socos pelo ar e pontapés pelo chão (de certo recorrendo a câmaras ocultas no próprio chão do pavilhão). E, não só conseguiu ver, no meio daquele aglomerado, de quem eram as mãos que davam socos e as caras que os encaixavam, como até, numa floresta de pernas e pés, conseguiu distinguir de quem eram os pés que pontapeavam e as canelas que comiam. Mas este notável trabalho de investigação, conduzido ao longo de dois anos, tendo apurado cinco agressores, todos eles jogadores do FC Porto, e duas vítimas (seguranças do Benfica), permitiu apurar também que tudo isso, aquelas selváticas agressões, ocorreram sem nenhum motivo para tal: nem insultos, nem provocações, nem cumprimentos à mãezinha — absolutamente nada. Portanto, a história que a srª Procuradora vai tentar levar a tribunal é a seguinte: estavam os dois seguranças do Benfica postos em absoluto recato e paz no túnel da luz, quando, de repente, se abre a porta da cabina do FC Porto e lá de dentro saem a correr o Helton, o Hulk, o Sapunaru, o Cristian Rodriguez e o Fucile, que, sem mais, desatam a agredir a soco e a pontapé aqueles pacíficos funcionários — a que o dr. Costa, num inesquecível momento de hilariedade jurídica, chamou «agentes desportivos». E, de facto, uma história de pasmar!
E como a missão do dr. Costa, na justiça desportiva, não conseguiu senão alcançar metade dos seus fins (embora com resultados desportivos retumbantes), eis que o MP retoma a missão em mãos, e muda de estratégia: em vez de suspender os jogadores do FC Porto, vai tentar metê-los na cadeia ou, ao menos, incomodá-los tanto, fazendo os vir a Lisboa para interrogatórios, contraditas, etc, que os consiga desconcentrar do seu trabalho habitual, que é o de darem cartas no futebol português. Ah, como eu tinha saudades do nosso futebolzinho a sério!
2- Muita discussão sobre a nossa Selecção e tudo o que ela não jogou na Dinamarca. É indesmentível que aquilo foi mau de mais. Mau, displicente, inaceitável. Mas também não convém iludirmo-nos demasiadamente: esta não é uma boa selecção. Mesmo que todos os melhores estejam disponíveis, falta um guarda-redes de categoria superior, que Patrício ainda não é; falta-nos um meio campo completo e falta-nos um ponta-de-lança. Depois, acresce ainda a fatal tentação do Ronaldo de jogar sozinho, não conseguindo ocultar o desprezo a que vota os seus parceiros de equipa e as instruções (presume-se que contrárias) que os treinadores se atrevem a dar-lhe, se é que se atrevem. Mesmo assim é de todo inaceitável a tareia de bola que uma selecção apenas banal, como a dinamarquesa, nos deu. Nestes tempos de crise, em que os portugueses sofrem economicamente o que nunca sofreram, a excepção de privilegiados que são os futebolistas profissionais da nossa selecção devem a si próprios e ao País uma reparação: que tal jogarem de borla contra a Bósnia, sem diárias, prémios e ajudas de custo?
3- No desvario de aumentos, impostos e custos acrescidos de todos os serviços públicos, a que este governo se dedica com a persistência dos dementes, o futebol também não escapou: com o IVA a passar de 6% para 23% nos bilhetes, ir ao futebol vai custar mais 17%. Seria bom que, como venho escrevendo, os jogadores se consciencializassem que também alguma coisa vai ter de mudar fatalmente no seu mundo à parte.
4- Ficou bem ao FC Porto distinguir André Vilas Boas com o título de treinador do ano. Demonstra que a nossa gratidão não é igual à dele. Fazemos justiça ao seu mérito, mas não esquecemos a sua traição. Se, por acaso em que não acredito, ele for pessoalmente receber o premio, sugiro aos presentes a única atitude que me parece adequada: nem um aplauso, nem uma vaia. Silêncio absoluto.
sexta-feira, novembro 16, 2012
ENTRE O SONO E A ESPERANÇA (11 OUTUBRO 2011)
1- Vi o Portugal-Islândia ao lado de um benfiquista que adormecia constantemente, acordando com os golos e logo regressando a mais profundas reflexões. Julgava que era só a mim que o futebol da Selecção faz sono, mas afinal não. A interrupção do campeonato para os jogos da Selecção é sempre uma necessidade que recebo como contrariedade — sobretudo, agora, que (e com toda a lógica) os campeonatos param todos ao mesmo tempo para ver jogar as selecções.
Diz a tradição que Portugal joga sempre melhor os jogos mais difíceis e contra adversários mais poderosos: valha-nos isso para esperar um bom jogo e um bom desempenho logo à noite. A menos que ambas as equipas se concertem para jogar para o empate, não espero vir a adormecer durante o jogo desta noite. Mas, jogos contra Chipre, Islândia, Malta, etc... são quase sempre uma sensaboria tremenda, em que a Selecção nunca joga mais do que 20 minutos a sério. Foi o que vimos no jogo contra a Islândia, no Dragão, em que mais uma vez a Selecção defraudou os seus adeptos portuenses, acabando com um resultado melhor do que a exibição: aproveitámos quase todas as oportunidades que tivemos e deixámo-los marcar em todas as que tiveram. Foi um jogo de amigos, unidos pela crise.
Sendo hoje a nossa Selecção largamente constituída por jogadores emigrados, é sempre uma boa oportunidade para pôr a escrita em dia, revendo a condição dos nossos melhores, por essa Europa fora. Tive pena de não ver o Bosingwa, que me parece de novo em grande forma e cuja ausência não percebi. E o Danny, que tão bem jogou, infelizmente, contra o FC Porto em S. Petersburgo e aí ficou retido por um problema de saúde. E, claro, como todos, tive muitas saudades do Ricardo Carvalho e do Pepe, dois valores seguríssimos. Mas, por exemplo, foi uma oportunidade para me actualizar com as mais recentes modas no domínio das tatuagens e dos penteados - onde, como se sabe, os jogadores de futebol vão sempre na vanguarda. Assim pude ver que o Cristiano Ronaldo mudou de penteado, substituindo aqueles penachos tão laboriosamente seguros em pé por uma mais simples risca ao lado. Felizmente, isso não lhe tirou nem qualidade nem a vontade que, honra lhe seja, sempre mostra ao serviço da Selecção. Aliás, o melhor em campo foi um jogador que não cultiva penteados exóticos nem tatuagens por todo o lado: o Nani, este ano em grande forma, como se tem visto no Manchester United. Já quanto aos restantes, deu para confirmar que este ano a moda entre a tribo do futebol é o penteado à sturmbanfuhrer, com o cabelo rapado dos lados e crescido em cima — uma variante do penteado à moicano, ao estilo Neymar (agora envolvido numa polémica à distancia com Cristiano Ronaldo para saber qual dos dois é mais bonito: a votação está em 1-1, cada um deles votando em si mesmo). Ao estilo moicano, temos agora na nossa Selecção a extraordinária variante do Raul Meireles, com uma fantástica escova de sucedâneo de cabelo colada directamente sobre a calva, num equilíbrio que se adivinha instável e propício a um desastre público e anunciado. Vi imagens de um treino dos dinamarqueses e o jogo dos islandeses, e fez-me alguma impressão não ter reparado em nenhum jogador, entre todos esses insípidos nórdicos, a par destas modernas tendências de penteados e tatuagens. É por isso que eles não são vedetas e que, mal pisam o relvado, já estão assustados com os nossos.
Com verdadeiro susto, descobriu agora a nação que o Rolando se deixa bater facilmente no jogo aéreo defensivo — uma tendência de que venho falando há mais de um ano.. Causa também algum constrangimento ver um meioo-campo com jogadores como o Carlos Martins ou o Ruben Micael, jogadores dos quais já se sabe que só há a esperar tudo o que já se esperou longamente e em vão. Ou ver um ataque que, na baixa de Hugo Almeida, só dispõe, para o fulcral lugar de ponta-de-lança, de Hélder Postiga e Nuno Gomes: este já era (e foi bom, enquanto foi), e o outro nunca foi, isto é, nunca foi verdadeiramente um ponta-de-lança, mas sim um jogador para jogar atrás do nº9, à semelhança de Aimar, no Benfica. Mas aí, aí sobretudo, pagamos a factura inevitável de há décadas não formarmos pontas-de-lança para jogar nos clubes portugueses.
Enfim, amanhã acordamos com certeza na fase final do Europeu de 2012 e isso é o que conta. Talvez não se possa exigir que, ainda por cima, o futebol da Selecção nos entusiasme e faça esquecer três fins-de-semana sem futebol a sério, a doer.
2- Outra coisa que venho seguindo, esta sim, sem sombra de interesse, são as eleições para a Federação. Estou tão desactualizado e desinteressado no assunto que vejam lá que nem sequer ainda estou convencido que Gilberto Madail se vá mesmo embora. De resto, não percebi nem me interessa porque razão o Sporting recusou apoiar a candidatura de um seu ex-presidente, nem o porquê de os clubes de Lisboa preferirem um portista e o FC Porto não. A única coisa que vagamente entendo é que há grandes jogadas subterrâneas que têm como objectivo principal colocar peões de confiança nas importantes Comissões de Arbitragem e de Disciplina. Basta ler os benfiquistas aqui do jornal e os seus alertas de que o FC Porto se está a mexer, para perceber que se estão todos a mexer, mas só o FC Porto é que não o pode fazer. Se a arbitragem for parar a um sportánguista (como já está), fica tudo normal — embora, obviamente, isso não acalme a eterna ladainha dos sportinguistas contra as arbitragens. E se a disciplina for parar a um benfiquista, como nos saudosos e decisivos tempos (em termos de resultados práticos) do Dr. Costa, isso será normal e recomendável.
Ou seja e presumindo: fica um portista com a presidência da Federação, um sportinguista com a arbitragem e um benfiquista com a disciplina. E todos satisfeitos? Bem, duvido que os portistas fiquem lá muito. É que sempre ouvi dizer aos jornalistas de Lisboa que o que interessa é dominar a arbitragem e a disciplina...
3- Falando de sportinguistas e de arbitragens, vi há dias, durante o Sporting-Lazio, uma cena que diz tudo sobre a mentalidade daquela boa gente de Alvalade. Algures durante a primeira parte, um jogador dos leões falhou um passe e chutou a bola contra o árbitro; a bola mudou de direcção e acabou nos pés de um italiano... e Alvalade desatou a assobiar o árbitro! Nada que me tenha admirado, porém: uma vez, durante um Sporting-Porto, assisti cm Alvalade a uma cena que até me deu vontade de rir. Aos 5 minutos de jogo, há um lançamento lateral a meio-campo, a minha frente; o juiz-de-linha diz que é do Sporting, mas o árbitro (e com razão), corrige e diz que é do Porto; acto continuo, a bancada desata aos gritos; «Gatuno! Gatuno!» Aos 5 minutos e por causa de um lançamento lateral! Os sportinguistas são assim, nada os convencerá nunca de que não há uma conspiração global de árbitros contra eles. E escrevem, convictos, que só náo lideram o campeonato porque foram roubados nas três primeiras jornadas — como se isso fosse uma verdade que já nem merece discussão e como se ninguém se lembrasse do futebol paupérrimo que o Sporting exibia nessa altura. Por estas e por outras, é que tenho pena quando se interrompe o futebol a sério! Já nem há matéria para discussão, sem aqueles palpitantes programas televisivos em que se gastam 40 minutos a passar 40 vezes as imagens de uma jogada ao ralenti, para provar que a bola raspou no antebraço ou no cotovelo de um defesa e o malandro do árbitro não marcou penalty. Ah, como sobreviver sem o futebol a sério?
4- Na semana que vem, vou ver se arranjo tempo para ir a Pêro Pinheiro, para finalmente ter uma oportunidade de espreitar o Iturbe, que Vítor Pereira guarda fechado a sete chaves, enquanto, para nos fazer desesperar ainda mais, nos vai dando doses intensas do Cristian Rodriguez. Felizmente, como o Rio Ave é um clube pobre e não pode desprezar nem o que é emprestado, já tenho visto jogar outros dois jovens portistas de quem se anuncia um futuro radioso: Christian e Kelvin. E tenho gostado bastante do que tenho visto.
Diz a tradição que Portugal joga sempre melhor os jogos mais difíceis e contra adversários mais poderosos: valha-nos isso para esperar um bom jogo e um bom desempenho logo à noite. A menos que ambas as equipas se concertem para jogar para o empate, não espero vir a adormecer durante o jogo desta noite. Mas, jogos contra Chipre, Islândia, Malta, etc... são quase sempre uma sensaboria tremenda, em que a Selecção nunca joga mais do que 20 minutos a sério. Foi o que vimos no jogo contra a Islândia, no Dragão, em que mais uma vez a Selecção defraudou os seus adeptos portuenses, acabando com um resultado melhor do que a exibição: aproveitámos quase todas as oportunidades que tivemos e deixámo-los marcar em todas as que tiveram. Foi um jogo de amigos, unidos pela crise.
Sendo hoje a nossa Selecção largamente constituída por jogadores emigrados, é sempre uma boa oportunidade para pôr a escrita em dia, revendo a condição dos nossos melhores, por essa Europa fora. Tive pena de não ver o Bosingwa, que me parece de novo em grande forma e cuja ausência não percebi. E o Danny, que tão bem jogou, infelizmente, contra o FC Porto em S. Petersburgo e aí ficou retido por um problema de saúde. E, claro, como todos, tive muitas saudades do Ricardo Carvalho e do Pepe, dois valores seguríssimos. Mas, por exemplo, foi uma oportunidade para me actualizar com as mais recentes modas no domínio das tatuagens e dos penteados - onde, como se sabe, os jogadores de futebol vão sempre na vanguarda. Assim pude ver que o Cristiano Ronaldo mudou de penteado, substituindo aqueles penachos tão laboriosamente seguros em pé por uma mais simples risca ao lado. Felizmente, isso não lhe tirou nem qualidade nem a vontade que, honra lhe seja, sempre mostra ao serviço da Selecção. Aliás, o melhor em campo foi um jogador que não cultiva penteados exóticos nem tatuagens por todo o lado: o Nani, este ano em grande forma, como se tem visto no Manchester United. Já quanto aos restantes, deu para confirmar que este ano a moda entre a tribo do futebol é o penteado à sturmbanfuhrer, com o cabelo rapado dos lados e crescido em cima — uma variante do penteado à moicano, ao estilo Neymar (agora envolvido numa polémica à distancia com Cristiano Ronaldo para saber qual dos dois é mais bonito: a votação está em 1-1, cada um deles votando em si mesmo). Ao estilo moicano, temos agora na nossa Selecção a extraordinária variante do Raul Meireles, com uma fantástica escova de sucedâneo de cabelo colada directamente sobre a calva, num equilíbrio que se adivinha instável e propício a um desastre público e anunciado. Vi imagens de um treino dos dinamarqueses e o jogo dos islandeses, e fez-me alguma impressão não ter reparado em nenhum jogador, entre todos esses insípidos nórdicos, a par destas modernas tendências de penteados e tatuagens. É por isso que eles não são vedetas e que, mal pisam o relvado, já estão assustados com os nossos.
Com verdadeiro susto, descobriu agora a nação que o Rolando se deixa bater facilmente no jogo aéreo defensivo — uma tendência de que venho falando há mais de um ano.. Causa também algum constrangimento ver um meioo-campo com jogadores como o Carlos Martins ou o Ruben Micael, jogadores dos quais já se sabe que só há a esperar tudo o que já se esperou longamente e em vão. Ou ver um ataque que, na baixa de Hugo Almeida, só dispõe, para o fulcral lugar de ponta-de-lança, de Hélder Postiga e Nuno Gomes: este já era (e foi bom, enquanto foi), e o outro nunca foi, isto é, nunca foi verdadeiramente um ponta-de-lança, mas sim um jogador para jogar atrás do nº9, à semelhança de Aimar, no Benfica. Mas aí, aí sobretudo, pagamos a factura inevitável de há décadas não formarmos pontas-de-lança para jogar nos clubes portugueses.
Enfim, amanhã acordamos com certeza na fase final do Europeu de 2012 e isso é o que conta. Talvez não se possa exigir que, ainda por cima, o futebol da Selecção nos entusiasme e faça esquecer três fins-de-semana sem futebol a sério, a doer.
2- Outra coisa que venho seguindo, esta sim, sem sombra de interesse, são as eleições para a Federação. Estou tão desactualizado e desinteressado no assunto que vejam lá que nem sequer ainda estou convencido que Gilberto Madail se vá mesmo embora. De resto, não percebi nem me interessa porque razão o Sporting recusou apoiar a candidatura de um seu ex-presidente, nem o porquê de os clubes de Lisboa preferirem um portista e o FC Porto não. A única coisa que vagamente entendo é que há grandes jogadas subterrâneas que têm como objectivo principal colocar peões de confiança nas importantes Comissões de Arbitragem e de Disciplina. Basta ler os benfiquistas aqui do jornal e os seus alertas de que o FC Porto se está a mexer, para perceber que se estão todos a mexer, mas só o FC Porto é que não o pode fazer. Se a arbitragem for parar a um sportánguista (como já está), fica tudo normal — embora, obviamente, isso não acalme a eterna ladainha dos sportinguistas contra as arbitragens. E se a disciplina for parar a um benfiquista, como nos saudosos e decisivos tempos (em termos de resultados práticos) do Dr. Costa, isso será normal e recomendável.
Ou seja e presumindo: fica um portista com a presidência da Federação, um sportinguista com a arbitragem e um benfiquista com a disciplina. E todos satisfeitos? Bem, duvido que os portistas fiquem lá muito. É que sempre ouvi dizer aos jornalistas de Lisboa que o que interessa é dominar a arbitragem e a disciplina...
3- Falando de sportinguistas e de arbitragens, vi há dias, durante o Sporting-Lazio, uma cena que diz tudo sobre a mentalidade daquela boa gente de Alvalade. Algures durante a primeira parte, um jogador dos leões falhou um passe e chutou a bola contra o árbitro; a bola mudou de direcção e acabou nos pés de um italiano... e Alvalade desatou a assobiar o árbitro! Nada que me tenha admirado, porém: uma vez, durante um Sporting-Porto, assisti cm Alvalade a uma cena que até me deu vontade de rir. Aos 5 minutos de jogo, há um lançamento lateral a meio-campo, a minha frente; o juiz-de-linha diz que é do Sporting, mas o árbitro (e com razão), corrige e diz que é do Porto; acto continuo, a bancada desata aos gritos; «Gatuno! Gatuno!» Aos 5 minutos e por causa de um lançamento lateral! Os sportinguistas são assim, nada os convencerá nunca de que não há uma conspiração global de árbitros contra eles. E escrevem, convictos, que só náo lideram o campeonato porque foram roubados nas três primeiras jornadas — como se isso fosse uma verdade que já nem merece discussão e como se ninguém se lembrasse do futebol paupérrimo que o Sporting exibia nessa altura. Por estas e por outras, é que tenho pena quando se interrompe o futebol a sério! Já nem há matéria para discussão, sem aqueles palpitantes programas televisivos em que se gastam 40 minutos a passar 40 vezes as imagens de uma jogada ao ralenti, para provar que a bola raspou no antebraço ou no cotovelo de um defesa e o malandro do árbitro não marcou penalty. Ah, como sobreviver sem o futebol a sério?
4- Na semana que vem, vou ver se arranjo tempo para ir a Pêro Pinheiro, para finalmente ter uma oportunidade de espreitar o Iturbe, que Vítor Pereira guarda fechado a sete chaves, enquanto, para nos fazer desesperar ainda mais, nos vai dando doses intensas do Cristian Rodriguez. Felizmente, como o Rio Ave é um clube pobre e não pode desprezar nem o que é emprestado, já tenho visto jogar outros dois jovens portistas de quem se anuncia um futuro radioso: Christian e Kelvin. E tenho gostado bastante do que tenho visto.