domingo, novembro 18, 2012

A TAREFA IMPOSSÍVEL DO ADJUNTO DO ADJUNTO DO MESTRE (25 OUTUBRO 2011)

1- Estava-se mais ou menos a meio do FC Porto-Apoel, com o resultado em 1-1 e os portistas a fazerem uma exibição de uma médiocridade assustadora. Lá atrás, na defesa, Rolando acumulava baldas sobre baldas, acabando a contagiar Otamendi; no meio-campo, Moutinho e Guarín arrastavam-se sem sentido nem orientação e, nas alas, nem Sapunaru nem Álvaro Pereira subiam para tentar romper a inabalável estrutura defensiva cipriota (onde jogam mais portugueses que no próprio FCPorto). Estava bom de ver que, enquanto o sérvio treinador do Apoel trazia a lição bem estudada e bem explicada aos seus jogadores, do lado contrário era como se a forma de jogar do adversário fosse uma total novidade. A televisão mostrou então uma imagem de Vítor Pereira que, embora absolutamente reveladora, para mim não foi mais do que a confirmação final daquilo de que aos poucos me vinha dando conta. Sentado no banco, o inútil caderno de apontamento deixado de lado, o olhar perdido no relvado, o treinador portista escutava, calado, uma longa dissertação do seu adjunto. Fiquei esclarecido e estarrecido: o adjunto (como todos os outros e como o próprio Vítor Pereira, um ano antes) chegou directamente da segunda divisão e agora ali estava a aconselhar o seu treinador em pleno jogo da Liga dos Campeões, na orientação de uma equipa que vem de uma época em que conquistou a Liga Europa e um campeonato com 27 vitórias e 3 empates.

Pouco depois, Vítor Pereira, só para fazer qualquer coisa, resolveu substituir. Tirou Fernando, o único médio que estava a jogar, e tirou James, uma das maiores esperanças do futebol mundial e que ele está aos poucos a tentar desmoralizar, incapaz de compreender a excepcionalidade de jogo do miúdo colombiano. Mas manteve Rolando, Moutinho e Guarín. Percebi que não íamos ganhar e dei comigo até a agradecer o empate. E confirmei tudo o resto que já tinha percebido e que não são os circunstanciais 5-0 ao Nacional que modificam. Esperei treze jogos oficiais para poder ter a certeza daquilo que agora vou escrever, mas escrevo-o convicto: com Vítor Pereira, o FC Porto não vai a lado nenhum.

Creio ter sido o primeiro a chamar a atenção para o sistemático desastre que são as substituições operadas por Vítor Pereira durante os jogos. È raro acertar uma e isso diz muito sobre a forma como ele lê o jogo. Um treinador que, sempre que muda, é para igual ou pior, das duas uma: ou não conhece a equipa que treina ou não é capaz de entender um jogo enquanto ele decorre. Mais vale estar quieto. Mas há várias oulras coisas que Vítor Pereira não parece entender: que James é, de facto, um génio e que não serve apenas para ponta esquerda; que Rolando precisa de ser retirado, reciclado e treinado intensamente, sobretudo no jogo aéreo; que Fucile tem de ser disciplinado e ensinado a conter-se; que não é obrigatório jogar sempre com Moutinho, sob pena de ira presidencial, e que, para sair e descansar não é necessário ser o próprio a sugeri-lo; que Guarín precisa de levar banhos de humildade e convencer-se que não é a última Coca Cola do deserto nem o maior rematador do mundo de meia-distância; que o melhor médio construtivo do FC Porto é Belluschi, assim como o melhor médio defensivo é Souza; que é preciso explicar ao Varela que não basta correr e jogar um jogo em cada três, e etc, por aí fora — enfim, alguma atenção e trabalho individual com os jogadores que, mani- festamente não existe, a avaliar pelo facto de todos eles, sem excepção, estarem a jogar pior do que no ano passado. Mas, para além destes dois défices estruturais de Vítor Pereira, há tudo o resto que treze jogos oficiais já deixaram a nu: falta de capacidade física da equipe (um dos seus principais trunfos na época passada); falta de motivação anímica, de vontade de continuar a vencer; falta de disciplina em campo, coisa que não existia com Villas Boas; falta de espírito de conquista, parecendo que nunca há pressa em ganhar os jogos, e, acima de tudo e mais grave que tudo, falta de qualquer ideia de jogo colectivo, em si mesmo.

Dizem algumas vozes compreensivas que Vítor Pereira «é bom a dar o treino» e até houve, no início e, para efeitos de alforria, quem insinuasse que era ele quem, de facto, dava o treino, nos tempos de Villas Boas. Pois, se assim era, isso só confirma a minha ideia de que o principal num treinador não é orientar os treinos, pôr os jogadores em corridinhas à volta do campo ou aos zigue zagues entre estacas, meeinhos e exercícios de defesa contra ataque banais. O essencial é perceber as características de cada jogador e saber aproveitá-las em benefício colectivo, juntando depois 11, 13 ou 15 individualidades num estilo de jogo harmonioso e pensado em função do material humano disponível. Há grandes treinadores que não orientam os treinos: ficam de fora a ver e o que orientam e a forma como os adjuntos orientam o treino. Depois, os grandes treinadores conhecem-se também durante os jogos: um treinador que não consegue ver o que todos vemos lá de cima, da bancada, que mexe na equipa mal ou a despropósito, uma e outra vez, é porque não consegue entender a diferença entre a teoria e a prática. Dizia o Lampard que ficavam impressionados quando percebiam, durante os jogos, que os adversários estavam a jogar exactamente como Mourinho lhes tinha dito que eles iam jogar. Tanto quanto se sabe, esse era, aliás, o grande trabalho específico de Villas Boas, enquanto adjunto de Mourinho. Mas Mourinho actua sobre os jogos com sentido de oportunidade e de lógica. E não actua só por actuar ou porque lhe é sugerido. Em vão lhe suplicou o Derlei, na final de Sevilha, que o tirasse porque estava rebentado: Mourinho não lhe fez vontade e Derlei acabou por marcar o golo que valeu a Taça UEFA ao FC Porto.

Vítor Pereira pode ser um grande treinador de treino e um grande adjunto de um treinador de campo. Até pode vir a ser, num futuro próximo, um grande treinador de campo. Mas, até prova em contrário, não me parece que o adjunto do ajunto do mestre seja, ele próprio, um continuador natural do mestre.

Como já o escrevi, e logo de início, percebo muito bem que, na emergência aberta pela deserção de Villas Roas, três dias antes de começar a época, não restasse outra alternativa a Pinto da Costa. Vítor Pereira foi a escolha natural, quase inevitável, para que o poder, pura e simplesmente, não caísse na rua. Ele teve coragem em aceitar o desafio, sabendo que ia queimar várias etapas e que talvez não estivesse naturalmente preparado para ele. É óbvio que tem feito o mais que pode e com dignidade, mas ninguém lhe pode exigir o que talvez pudesse dar daqui a uns anos, mas não agora. Se alguém é responsável pela desintegração acelerada da equipa-maravilha da época passada, pela descaracterização crescente do seu futebol de encantar, pela desmotivação e falta de confiança dos jogadores, esse alguém é justamente aquele que, tendo montado a ópera, abandonou a companhia antes de esta subir aos grandes palcos mundiais: André Villas Boas.

Desde o início, também, que eu me preparei para pagar o preço da deserção de Villas Boas: ver esta equipa a perder tudo o que tinha ganho na época passada. Mas há outro preço ainda e é esse que agora mais temo: que, não sentindo um comando à altura das suas capacidades, os principais jogadores do FC Porto entrem num processo acelerado de desmotivação e rapidamente acabem a pensar apenas em ir-se embora, para onde possam voltar a sentir-se triunfadores. O new-look oxigenado do Hulk é um mau sinal: sinal que ele acha que precisa de dar nas vistas de outra forma, de que já não lhe basta o seu futebol espectacular. Será que a seguir vamos ver o James todo tatuado e o Álvaro Pereira de cabelo rapado? Que alguém lhes acuda, antes que eles se percam!

sábado, novembro 17, 2012

FELIZMENTE, HÁ JUSTIÇA! (18 OUTUBRO 2011)

1- Eu bem que me tinha queixado na semana passada que já andava com saudades do futebol a sério! E parece que fui ouvido: ei-lo de regresso, pela mão dessa prestigiadíssima instituição chamada Ministério Público! Sim, digo prestigiadíssima, porque não me ocorre outra qualificação mais adequada: é certo que o BCP vai acabar em nada, o BPN continua com toda a gente em liberdade e todos nós roubados de 13º e 14º mês para pagagarmos os desfalques do banco, o sucateiro de Ovar irá em paz, todos os que assinaram contratos ruinosos para o Estado dormirão o sono dos justos, o Colosso do Atlântico, que, entre outras e inúmeras aventuras, andou a desviar verbas da solidariedade nacional para com as cheias do Funchal para pagar folguedos de Ano Novo e Carnaval, permanecerá impune, nas urnas e na justiça, e, de um modo geral, todos os bandidos feitos comendadores e todos os comendadores feitos bandidos nada têm a temer do zelo justiceiro dessa nobre instituição que é o Ministério Público. Tudo isso é verdade, como de há muito sabemos. Mas, em contrapartida, o zelo persecutório que o MP revela contra o FC Porto deixa-nos sossegados: afinal, a justiça ainda funciona em Portugal, ao contrário do que algumas opiniões de mal intencionados pretendem fazer crer!

Durante dois ou três anos, com base nas revelações de uma famosa e também muito prestigiada escritora, a nobre instituição judicial assanhou-se, como de há muito não se via, para tentar defender a tese dos invejosos de que a razão única para os sucessos continuados do FC Porto, ao longo de trinta anos, era apenas uma: um sistema pérfido de batotas organizadas, através do controlo e corrupção absoluta de todos e cada um dos árbitros de futebol. Não foram nem o calcanhar do Madjer, o voo do Jardel sobre os centrais ou a cabeça do Falcão que ganharam campeonatos aqui e títulos europeus e mundiais além: foram os árbitros, o sistema, a máfia. O zelo foi tanto, que o MP chegou a constituir uma task-force, baptizada de dream team, comandado pela drª Morgado, e que, dia e noite seguiu os indícios, farejou as provas, flagrou os crimes. E chegou mesmo a conseguir, num arroubo de audácia e empenho jamais vistos, inverter o depoimento de uma testemunha da defesa, que virou testemunha de acusação, assinando, às 2 da manhã em Lisboa, um papel, para ser entregue na manha seguinte no Tribunal de Aveiro, a retratar-se de tudo o que antes havia dito. Essa foi uma das grandes vitórias conseguidas pelo MP na investigação do chamado Apito Dourado. Houve outras certamente, se bem que não me ocorram agora, e que se sobrepuseram ao desfecho final de tanto esforço: três processos mandados arquivar pelos juízes de instrução criminal por absoluta falta de indícios de qualquer crime, e um quarto processo levado até julgamento, que terminou, não só com a absolvição de Pinto da Costa mas também com uma sentença que arrasou o espírito aventureiro do MP. Enfim, por esse lado, o Apito Dourado saldou-se, é triste ter de o reconhecer, pela completa humilhação do MP e o gasto em vão de uns largos milhares de euros, suportados pelos contribuintes. Enfim, nada a que essa louvável instituição não esteja habituada.

Mas é apanágio dos verdadeiros justiceiros nunca largar a presa: se não conseguem agarrá-la de uma maneira, tentam doutra. Se não conseguiram chegar a Pinto da Costa, chegam aos jogadores da sua equipa. Se não conseguiram que tribunal algum levasse a sério as suas histórias da balota, tentam agora as das agressões selváticas no túnel da Luz. Prova: as célebres imagens do túnel daLuz – onde, até hoje, ninguém conseguiu ver nada mais do que uma pequena multidão empurrando-se mutuamente. Julgava eu! Porque a srª Procuradora do MP conseguiu distinguir socos pelo ar e pontapés pelo chão (de certo recorrendo a câmaras ocultas no próprio chão do pavilhão). E, não só conseguiu ver, no meio daquele aglomerado, de quem eram as mãos que davam socos e as caras que os encaixavam, como até, numa floresta de pernas e pés, conseguiu distinguir de quem eram os pés que pontapeavam e as canelas que comiam. Mas este notável trabalho de investigação, conduzido ao longo de dois anos, tendo apurado cinco agressores, todos eles jogadores do FC Porto, e duas vítimas (seguranças do Benfica), permitiu apurar também que tudo isso, aquelas selváticas agressões, ocorreram sem nenhum motivo para tal: nem insultos, nem provocações, nem cumprimentos à mãezinha — absolutamente nada. Portanto, a história que a srª Procuradora vai tentar levar a tribunal é a seguinte: estavam os dois seguranças do Benfica postos em absoluto recato e paz no túnel da luz, quando, de repente, se abre a porta da cabina do FC Porto e lá de dentro saem a correr o Helton, o Hulk, o Sapunaru, o Cristian Rodriguez e o Fucile, que, sem mais, desatam a agredir a soco e a pontapé aqueles pacíficos funcionários — a que o dr. Costa, num inesquecível momento de hilariedade jurídica, chamou «agentes desportivos». E, de facto, uma história de pasmar!

E como a missão do dr. Costa, na justiça desportiva, não conseguiu senão alcançar metade dos seus fins (embora com resultados desportivos retumbantes), eis que o MP retoma a missão em mãos, e muda de estratégia: em vez de suspender os jogadores do FC Porto, vai tentar metê-los na cadeia ou, ao menos, incomodá-los tanto, fazendo os vir a Lisboa para interrogatórios, contraditas, etc, que os consiga desconcentrar do seu trabalho habitual, que é o de darem cartas no futebol português. Ah, como eu tinha saudades do nosso futebolzinho a sério!

2- Muita discussão sobre a nossa Selecção e tudo o que ela não jogou na Dinamarca. É indesmentível que aquilo foi mau de mais. Mau, displicente, inaceitável. Mas também não convém iludirmo-nos demasiadamente: esta não é uma boa selecção. Mesmo que todos os melhores estejam disponíveis, falta um guarda-redes de categoria superior, que Patrício ainda não é; falta-nos um meio campo completo e falta-nos um ponta-de-lança. Depois, acresce ainda a fatal tentação do Ronaldo de jogar sozinho, não conseguindo ocultar o desprezo a que vota os seus parceiros de equipa e as instruções (presume-se que contrárias) que os treinadores se atrevem a dar-lhe, se é que se atrevem. Mesmo assim é de todo inaceitável a tareia de bola que uma selecção apenas banal, como a dinamarquesa, nos deu. Nestes tempos de crise, em que os portugueses sofrem economicamente o que nunca sofreram, a excepção de privilegiados que são os futebolistas profissionais da nossa selecção devem a si próprios e ao País uma reparação: que tal jogarem de borla contra a Bósnia, sem diárias, prémios e ajudas de custo?

3- No desvario de aumentos, impostos e custos acrescidos de todos os serviços públicos, a que este governo se dedica com a persistência dos dementes, o futebol também não escapou: com o IVA a passar de 6% para 23% nos bilhetes, ir ao futebol vai custar mais 17%. Seria bom que, como venho escrevendo, os jogadores se consciencializassem que também alguma coisa vai ter de mudar fatalmente no seu mundo à parte.

4- Ficou bem ao FC Porto distinguir André Vilas Boas com o título de treinador do ano. Demonstra que a nossa gratidão não é igual à dele. Fazemos justiça ao seu mérito, mas não esquecemos a sua traição. Se, por acaso em que não acredito, ele for pessoalmente receber o premio, sugiro aos presentes a única atitude que me parece adequada: nem um aplauso, nem uma vaia. Silêncio absoluto.

sexta-feira, novembro 16, 2012

ENTRE O SONO E A ESPERANÇA (11 OUTUBRO 2011)

1- Vi o Portugal-Islândia ao lado de um benfiquista que adormecia constantemente, acordando com os golos e logo regressando a mais profundas reflexões. Julgava que era só a mim que o futebol da Selecção faz sono, mas afinal não. A interrupção do campeonato para os jogos da Selecção é sempre uma necessidade que recebo como contrariedade — sobretudo, agora, que (e com toda a lógica) os campeonatos param todos ao mesmo tempo para ver jogar as selecções.

Diz a tradição que Portugal joga sempre melhor os jogos mais difíceis e contra adversários mais poderosos: valha-nos isso para esperar um bom jogo e um bom desempenho logo à noite. A menos que ambas as equipas se concertem para jogar para o empate, não espero vir a adormecer durante o jogo desta noite. Mas, jogos contra Chipre, Islândia, Malta, etc... são quase sempre uma sensaboria tremenda, em que a Selecção nunca joga mais do que 20 minutos a sério. Foi o que vimos no jogo contra a Islândia, no Dragão, em que mais uma vez a Selecção defraudou os seus adeptos portuenses, acabando com um resultado melhor do que a exibição: aproveitámos quase todas as oportunidades que tivemos e deixámo-los marcar em todas as que tiveram. Foi um jogo de amigos, unidos pela crise.

Sendo hoje a nossa Selecção largamente constituída por jogadores emigrados, é sempre uma boa oportunidade para pôr a escrita em dia, revendo a condição dos nossos melhores, por essa Europa fora. Tive pena de não ver o Bosingwa, que me parece de novo em grande forma e cuja ausência não percebi. E o Danny, que tão bem jogou, infelizmente, contra o FC Porto em S. Petersburgo e aí ficou retido por um problema de saúde. E, claro, como todos, tive muitas saudades do Ricardo Carvalho e do Pepe, dois valores seguríssimos. Mas, por exemplo, foi uma oportunidade para me actualizar com as mais recentes modas no domínio das tatuagens e dos penteados - onde, como se sabe, os jogadores de futebol vão sempre na vanguarda. Assim pude ver que o Cristiano Ronaldo mudou de penteado, substituindo aqueles penachos tão laboriosamente seguros em pé por uma mais simples risca ao lado. Felizmente, isso não lhe tirou nem qualidade nem a vontade que, honra lhe seja, sempre mostra ao serviço da Selecção. Aliás, o melhor em campo foi um jogador que não cultiva penteados exóticos nem tatuagens por todo o lado: o Nani, este ano em grande forma, como se tem visto no Manchester United. Já quanto aos restantes, deu para confirmar que este ano a moda entre a tribo do futebol é o penteado à sturmbanfuhrer, com o cabelo rapado dos lados e crescido em cima — uma variante do penteado à moicano, ao estilo Neymar (agora envolvido numa polémica à distancia com Cristiano Ronaldo para saber qual dos dois é mais bonito: a votação está em 1-1, cada um deles votando em si mesmo). Ao estilo moicano, temos agora na nossa Selecção a extraordinária variante do Raul Meireles, com uma fantástica escova de sucedâneo de cabelo colada directamente sobre a calva, num equilíbrio que se adivinha instável e propício a um desastre público e anunciado. Vi imagens de um treino dos dinamarqueses e o jogo dos islandeses, e fez-me alguma impressão não ter reparado em nenhum jogador, entre todos esses insípidos nórdicos, a par destas modernas tendências de penteados e tatuagens. É por isso que eles não são vedetas e que, mal pisam o relvado, já estão assustados com os nossos.

Com verdadeiro susto, descobriu agora a nação que o Rolando se deixa bater facilmente no jogo aéreo defensivo — uma tendência de que venho falando há mais de um ano.. Causa também algum constrangimento ver um meioo-campo com jogadores como o Carlos Martins ou o Ruben Micael, jogadores dos quais já se sabe que só há a esperar tudo o que já se esperou longamente e em vão. Ou ver um ataque que, na baixa de Hugo Almeida, só dispõe, para o fulcral lugar de ponta-de-lança, de Hélder Postiga e Nuno Gomes: este já era (e foi bom, enquanto foi), e o outro nunca foi, isto é, nunca foi verdadeiramente um ponta-de-lança, mas sim um jogador para jogar atrás do nº9, à semelhança de Aimar, no Benfica. Mas aí, aí sobretudo, pagamos a factura inevitável de há décadas não formarmos pontas-de-lança para jogar nos clubes portugueses.

Enfim, amanhã acordamos com certeza na fase final do Europeu de 2012 e isso é o que conta. Talvez não se possa exigir que, ainda por cima, o futebol da Selecção nos entusiasme e faça esquecer três fins-de-semana sem futebol a sério, a doer.

2- Outra coisa que venho seguindo, esta sim, sem sombra de interesse, são as eleições para a Federação. Estou tão desactualizado e desinteressado no assunto que vejam lá que nem sequer ainda estou convencido que Gilberto Madail se vá mesmo embora. De resto, não percebi nem me interessa porque razão o Sporting recusou apoiar a candidatura de um seu ex-presidente, nem o porquê de os clubes de Lisboa preferirem um portista e o FC Porto não. A única coisa que vagamente entendo é que há grandes jogadas subterrâneas que têm como objectivo principal colocar peões de confiança nas importantes Comissões de Arbitragem e de Disciplina. Basta ler os benfiquistas aqui do jornal e os seus alertas de que o FC Porto se está a mexer, para perceber que se estão todos a mexer, mas só o FC Porto é que não o pode fazer. Se a arbitragem for parar a um sportánguista (como já está), fica tudo normal — embora, obviamente, isso não acalme a eterna ladainha dos sportinguistas contra as arbitragens. E se a disciplina for parar a um benfiquista, como nos saudosos e decisivos tempos (em termos de resultados práticos) do Dr. Costa, isso será normal e recomendável.

Ou seja e presumindo: fica um portista com a presidência da Federação, um sportinguista com a arbitragem e um benfiquista com a disciplina. E todos satisfeitos? Bem, duvido que os portistas fiquem lá muito. É que sempre ouvi dizer aos jornalistas de Lisboa que o que interessa é dominar a arbitragem e a disciplina...

3- Falando de sportinguistas e de arbitragens, vi há dias, durante o Sporting-Lazio, uma cena que diz tudo sobre a mentalidade daquela boa gente de Alvalade. Algures durante a primeira parte, um jogador dos leões falhou um passe e chutou a bola contra o árbitro; a bola mudou de direcção e acabou nos pés de um italiano... e Alvalade desatou a assobiar o árbitro! Nada que me tenha admirado, porém: uma vez, durante um Sporting-Porto, assisti cm Alvalade a uma cena que até me deu vontade de rir. Aos 5 minutos de jogo, há um lançamento lateral a meio-campo, a minha frente; o juiz-de-linha diz que é do Sporting, mas o árbitro (e com razão), corrige e diz que é do Porto; acto continuo, a bancada desata aos gritos; «Gatuno! Gatuno!» Aos 5 minutos e por causa de um lançamento lateral! Os sportinguistas são assim, nada os convencerá nunca de que não há uma conspiração global de árbitros contra eles. E escrevem, convictos, que só náo lideram o campeonato porque foram roubados nas três primeiras jornadas — como se isso fosse uma verdade que já nem merece discussão e como se ninguém se lembrasse do futebol paupérrimo que o Sporting exibia nessa altura. Por estas e por outras, é que tenho pena quando se interrompe o futebol a sério! Já nem há matéria para discussão, sem aqueles palpitantes programas televisivos em que se gastam 40 minutos a passar 40 vezes as imagens de uma jogada ao ralenti, para provar que a bola raspou no antebraço ou no cotovelo de um defesa e o malandro do árbitro não marcou penalty. Ah, como sobreviver sem o futebol a sério?

4- Na semana que vem, vou ver se arranjo tempo para ir a Pêro Pinheiro, para finalmente ter uma oportunidade de espreitar o Iturbe, que Vítor Pereira guarda fechado a sete chaves, enquanto, para nos fazer desesperar ainda mais, nos vai dando doses intensas do Cristian Rodriguez. Felizmente, como o Rio Ave é um clube pobre e não pode desprezar nem o que é emprestado, já tenho visto jogar outros dois jovens portistas de quem se anuncia um futuro radioso: Christian e Kelvin. E tenho gostado bastante do que tenho visto.

quinta-feira, novembro 15, 2012

QUASE ESTALINEGRADO (04 OUTUBRO 2011)

1- Em S. Petersburgo, Vítor Pereira esteve a um passo de viver o seu Estalinegrado. Se em lugar de perder por 3-1, tem perdido por 4-1 ou 5-1, como esteve à beira de acontecer, se o próximo jogo não fosse um desafio caseiro contra o modesto Apoel, se, quatro dias depois do desastre russo, o talento de Hulk e James não tivesse resolvido com facilidade o obstáculo de Coimbra, conseguindo um resultado bem melhor que a exibição, Vítor Pereira estaria condenado à mesma sorte do general Von Paulus, depois de ter visto as suas panxerdivisionen exterminadas no cerco de Estalinegrado. E talvez a sorte da guerra, que então começou a mudar para o Reich na antiga Estalinegrado. começasse também agora a mudar para o FC Porto, na rebaptizada S. Petersburgo.

Creio que terei sido o primeiro a chamar a atenção para o facto de o actual treinador do FC Porto vir dando mostras crescentes de sempre falhar todas e cada uma das alterações que promove ao longo dos jogos. Mas, contra o Zenit, isso foi de tal maneira gritante que não houve quem não tivesse visto — e o mundo inteiro não pode estar errado e ele certo. A decisão de manter em jogo um destrambelhado Fucile (como já o havia feito contra o Benfica), mesmo depois de um amarelo bem cedo, foi fatal. A decisão de tirar o James ao intervalo, mantendo em jogo o Varela, que só joga a sério um em cada três jogos, foi inexplicável sob qualquer ponto de vista. E a decisão de tirar o Fernando do apoio ao centro da defesa, abrindo uma Scut ao ataque do Zenit é digna de ser estudada nos cursos de Verão para treinadores, como exemplo de uma alteração desastrada de quem só podia estar a ver outro jogo, que não aquele.

Mas, enfim, agora não vale a pena chorar sobre o leite derramado. E Vítor Pereira não é caso único: vi, por exemplo, a segunda parte do Braga-Club Brugge e constatei como um treinador muito elogiado, Leonardo Jardim, depois de se ter visto a vencer por 1-0, mexeu na equipa de tal maneira que ela se perdeu por completo e acabou a consentir uma reviravolta justíssima. Erros todos cometem, embora alguns - como ter ao dispor um portento como o James Rodriguez e preferir o Varela - se tornem difíceis de entender. Como difícil de entender é o défice físico desta equipa, quando comparada com a da temporada passada. Ou aquilo que parece ser alguma desmotivação de jogadores que antes eram capazes de comer a bola e o adversário. Ou entender como é que se planearam as contratações para a época de forma a que só se tenha podido inscrever 21 jogadores na fase de grupos da Champions e apenas um ponta de lança. São demasiadas perplexidades juntas, ao longo de um desempenho de dez jogos oficiais em que apenas um (contra o Vitória de Setúbal, em casa), fez recordar o FC Porto que varreu o campeonato anterior.

2- A SAD do FC Porto lá se viu obrigada a renegociar o contrato com Alvaro Pereira, aumentando a sua duração por mais um ano, mantendo o valor da cláusula de rescisão em 30 milhões e, obviamente, aumentando-lhe o vencimento. E viu-se obrigada a fazê-lo porque se tornou evidente que, frustrado por o clube não ter aberto mão da totalidade da cláusula de rescisão, facilitando-lhe a sua saída para o Chelsca, o jogador andava a jogar a meio gás e meio-talento. Tenho a maior admiração pelo jogador Álvaro Pereira pelo seu valor e pela sua entrega ao jogo. Já escrevi várias vezes que, na equipa de Villas Boas, ele fazia parte de um póquer de jogadores preciosos, de que os outros três eram Falcão, Hulk e James Rodriguez. Inevitavelmente, estamos condenados a vê-los sair, um a um, porque o seu valor de mercado ultrapassa o valor salarial que o clube lhes pode pagar. Mas, mesmo que a única coisa que acaba por os mover seja o dinheiro (como sucedeu com Falcão, que preferiu ir disputar o 5º ou 6ª lugar do campeonato espanhol, a troco de uma fortuna), ao menos que saiam pelo valor mutuamente acordado na cláusula de rescisão.

Ora, é aqui que eu começo a perder o respeito pelos jogadores - não o respeito como atletas, mas como profissionais. Volto a dizer que a única coisa que distingue estes privilegiados do comum dos mortais é o talento para dar pontapés e cabeçadas numa bola de futebol. E, por favor, compreendam que há muitos outros talentos bem mais difíceis, trabalhosos e úteis às sociedades e bem mais dignos de admiração. Mas que, ao contrário deles, não ganham fortunas pornográficas, pagam impostos a sério e não a fingir, descontam normalmente para a segurança social, trabalham dez a doze horas por dia e não apenas duas num treino matinal, e, quando assinam contratos de trabalho, são para valer. Mas as prima-donas do futebol não são assim. Quando chegam aos clubes de topo portugueses, senão declaram logo que se trata de «um trampolim para mais altos voos» (como fez o Bruno César ao chegar ao Benfica) vêm muito contentes por serem resgatados de um relativo ou total anónimato e darem logo o «salto» que lhes permite, aos vinte anos de idade, ganhar salários mensais entre 15 e 25 mil euros. Nessa altura é tudo rosas e eles e os seus agentes assinam, sem hesitação, as cláusulas de rescisão que o clube lhes propõe. Mas, depois tudo muda, no espaço de um a dois anos. Se começam a dar nas vistas, exigem logo aumento de salário, ainda nem o contrato vai a meio, e, se porventura aparece um dos tubarões da Europa a querer comprá-los e obviamente a pretender baixar a cláusula de rescisão, ficam contrariados e revoltados se o clube não lhes faz a vontade e os vende abaixo da cláusula. E, então, para evitar que os meninos fiquem a jogar com má cara, não resta ao clube que os projectou no futebol e que, com a toda a legitimidade não quer abrir mão deles a meio do contrato, outra alternativa a que não voltar a aumentar-lhes o ordenado. Mas, também pode suceder o contrário: pode suceder que o investimento do clube se revele um fiasco, que o jogador que tanto parecia prometer, afinal não o confirmou. Nesse caso. o que eles fazem é ficar no clube, mesmo sem jogar nunca, até ao último dia do contrato, recusando todas as propôstas de venda que impliquem uma redução dos seus milionários vencimentos: não se importam nada de serem um peso morto, nem sequer de perderem anos das suas carreiras sem fazer aquilo que é suposto gostarem mais do que tudo. Mas, perder dinheiro, para voltar a jogar, isso é que não!

Estou convencido que um dia isto muda, porque o futebol não sobreviverá eternamente com clubes arruinados a sustentar estas vedetas insaciáveis. Mas, até lá, parece que não há volta a dar. Pois assim seja, mas não venham é falar-me de amor à camisola e outras mentiras que tais, porque isso é conversa de outro campeonato onde eles não entram.

3- A caminho do Sul, parei num restaurante para jantar e vi uma hora do Setúbal-Rio Ave. Fiquei impressionado, quase revoltado: poucas vezes vi um resultado tão mentiroso e tão injusto como a vitória do Vitória por 2-1. Já contra o Sporting, o Rio Ave tinha sido derrotado apenas e só porque um gigante americano chegou com a cabeça onde nenhum ser humano normal consegue chegar e ganhou o jogo para o Sporting. Há muitos anos que sinto simpatia e admiração pelo trabalho de Carlos Brito e por vezes até me tenho interrogado o que não faria ele no FC Porto, por exemplo. A verdade e que nunca teve uma oportunidade para treinar grandes jogadores num clube com todas as condições. E merecia-o: as suas equipas nunca jogam à toa, o seu futebol é tão bonito e corajoso quanto possível e ele é sempre um cavalheiro a falar. Ninguém merece menos o último lugar do que este Rio Ave de Carlos Brito.

sábado, outubro 20, 2012

AFINAL, JÁ NÃO SEI… (20 SETEMBRO 2011)

1- Contrariando as opiniões gerais, acho que tanto o FC Porto como o Benfica poderiam e deveriam ter feito melhor do que fizeram no primeiro jogo da Liga dos Campeões.

O FC Porto é verdade que teve um inicio de jogo de um azar incrível e que foi capaz de dar a volta ao texto e contrariar a fortuna. Mas, depois de se ter visto a jogar uma hora contra dez e quinze minutos contra nove, é difícil compreender o excesso de cautelas de que deu mostras. Eu sei muito bem como é importante entrar na Champions com uma vitória - mais ainda se o treinador é completamente neófito nestas andanças. Mas na Champions não se pode jogar com medo, porque não compensa: não compensa contra os grandes nem contra os outros. Em superioridade numérica tanto tempo, o FC Porto deveria ter ido à procura do terceiro golo, sabendo que o primeiro lugar do grupo pode muito bem vir a ser decidido pela diferença de golos. E ser primeiro ou segundo no grupo é completamente diverso: ser segundo é quase uma sentença de morte a seguir, às mãos dos tubarões europeus. De tal forma que nem sei se não é melhor ser terceiro do que segundo, e seguir pela Liga Furopa, como aconteceu com Braga e Benfica na edição passada.

Mas, como disse, o que se viu foi um FC Porto com medo da própria sombra, preguiçoso e desinspirado, que ficou a dever a vitória exclusivamente a dois rasgos individuais de Hulk e James (quem mais poderia ser?).

Já os benfiquistas, que acham que fizeram um jogo fantástico, ficam muito amofados se lhes dizem que jogaram contra a reserva do Manchester. Mas, quem viu o Manchester-Chclsea, sabe que foi praticamente o que sucedeu, com Ferguson a vir à I.uz jogar para o empate, garantido pelo terceiro guarda-redes e pelos pés do veterano Giggs.

O Benfica deveria ter aproveitado a oportunidade para tentar baralhar as contas pelo primeiro lugar. Para mais, sabendo que o segundo é quase garantido pelo sorteio, deveria ter jogado para vencer, o que não fez. Embalados pela arbitragem de Duarte Gomes e pelas «minudências» (como lhes chamou o Fernando Guerra) dos três supostos penalties de mão na bola contra o Guimarães, também apostaram mais nessa táctica do que em tentar ganhar o jogo pelas vias normais. Por ironia das coisas, valeu-lhes o critério de um árbitro da Champions não ser igual ao de Duarte Gomes, quando uma bola centrada para a sua área foi de encontro ao braço de um defesa benfiquista - e nem os ingleses tugiram, nem o árbitro mugiu. O futebol a sério é bem mais sério!

2- Cinco dias depois da exibição pífia contra o Shakhtar, o FC Porto foi a Aveiro assinar uma exibição miserável contra o Feirense. Sem desculpas: o campo era neutro, o relvado de dimensões máximas e em bom estado, o tempo magnífíco, o adversário um primodivisionário com uma equipa só de portugueses e um orçamento de 2 milhões, contra os 95 milhões do orçamento do Porto. E o que se viu dá que pensar.

Primeiro que tudo, dá que pensar que o Porto sem o Hulk, praticamente não exista, ofensivamente. Mas, com o Hulk na equipa, qualquer um faz figura. O que precisamos é de ter uma alternativa, quando, como é o caso, ele fica na enfermaria, vítima da pancada que leva em todos os jogos.

Depois, dá que pensar que um treinador de futebol não entenda coisas óbvias, como o facto de o Sousa ser muito melhor jogador que o Fernando (o que não veio ao caso), ou de o Cristian Rodriguez ser uma aposta garantidamente sem retorno - em termos de custo/benefício é talvez a pior aquisição da última década. Tam-bem me custa a entender como é que, com tantos extremos-esquerdos adquiridos, emprestados, dispensados ou disponíveis nos últimos tempos, ninguém achou necessário ter um - apenas um! - extremo-direito. Não há um extremo direito no FC Porto: há esquerdinos adaptados à direita, dos quais só o Hulk funciona, porque é um génio. E também não entendo, a não ser por masoquismo, que, faltando o Hulk ou o James, não haja nada de melhor para meter em jogo do que o Cristian Rodriguéz. E, finalmente, não entendo que um treinador, depois de passar toda uma parte a ver o Cristian a perder todos e cada um dos lances em que intervinha, sem velocidade para a ponta e a refugiar-se no meio só para atrapalhar, precise ainda de mais 25 minutos da segunda parte para, enfim, o mandar a caminho do merecido descanso.

Até agora, não me pronunciei sobre Vítor Pereira. Compreendo que, na situação de emergência absoluta causada pela deserção de Vilas Boas, Pinto da Costa se tenha voltado para o que estava mais à mâo. Não questiono a escolha, mas é evidente que o seu valor tem ainda de ser demonstrado, e só há um local onde isso se pode fazer, no terreno de jogo. Constato que, dando continuidade a uma tendência que pode ser apenas fruto do azar, em Aveiro, ele falhou, uma por uma, todas as substituições. Primeiro, demorou tempo de mais a fazê- las - e sempre me custou entender por que razão um treinador, ao ver que a sua equipa não está a funcionar e que há jogadores que só estão a atrapalhar, precisa de esperar uma hora inteira para reagir. Já aqui escrevi que uma das coisas que eu gostava no António Oliveira, quando ele treinava o FC Porto, é que não se ensaiava nada para começar as substituições aos 20 minutos de jogo, quando via que a equipa tinha entrado mal: e mudava sempre para melhor. Já o Vítor Pereira passou uma hora do jogo de Aveiro a ver aquela tristeza e desinspiração e a única coisa que fazia era trocar ideias com o adjunto e tirar apontamentos (não pode fazê-lo depois, com o vídeo? De que lhe serve tirar apontamentos no decorrer do jogo, a não ser para se distrair e passar por moderno?). E, enquanto ele congeminava e escrevinhava, a equipa ia desperdiçando tempo precioso, acumulando asneiras sobre asneiras, sem uma única ideia inteligente ao serviço do jogo.

Ao intervalo, resolveu-se, enfim, a fazer qualquer coisa, mas essa coisa qualquer coisa foi tirar o único ponta-de-lança (que não estava a jogar nada, é facto), mas que assim deve ter ficado motivadíssimo para futuro. E, em lugar de substituir o Kleber pelo Walter, ponta-de-lança por ponta-de-lança, resolveu também arrasar com a confiança do Walter, preferindo o Varela e ficando com um ataque composto por... três extremos-esquerdos! Mudou outra vez e finalmente libertou a equipa do peso morto do Cristian Rodriguez, mas, quando se espe- rava o ponta-de-lança que gritantemente faltava naquela confusão ofensiva...meteu um médio! E, já em desespero, tirou o defesa direito e meteu... outro ponta-esquerda, que foi jogar... a defesa direito!

Meu caro Vítor Pereira: eu espero sinceramente - por si, mas sobretudo por nós - que você se saia bem desta dificílima empreitada que lhe veio parar às maos. Talvez você gostasse, e precisasse, de ter tido mais tempo até chegar onde chegou: nada mais humano. Mas, às vezes, não há como fugir - o momento faz (ou desfaz) o ho- mem. Se não fugiu à responsabilidade, não desperdice o momento, procurando uma paz e um tempo que, aqui, não vai encontrar nunca. Não pode ficar apenas sentado, a tirar apontamentos, à espera que as coisas aconteçam: tem de ir atrás do destino, sem medo de falhar, como fez o André. Ideias claras e coragem: não pode fugir disto. É o que espero de si para o jogo com o Benfica (onde e como prémio ao antijogo do Rabiola e à precipitação de um árbitro, vamos estar privados do James).

3- Dizem os sportinguistas que tudo lhes acontece - erros de arbitragem, azares de jogo, etc. Não é verdade: acontece a todos, mas eles só reparam quando lhes convém. Por acaso aconteceu ao Sporting, como ao FC Porto, terem rematado oito bolas aos postes nos últimos três jogos? Não, o que lhes aconteceu foi terem levado com dois remates do Zurique aos postes. Dizia o Eduardo Barroso que esse jogo ia ser fácil porque não haveria um árbitro a julgar mal um atraso ao guarda redes, como julgou o árbitro de Paços de Ferreira, segundo eles. E não é que sucedeu exactamente o mesmo, com um árbitro internacional a marcar também livre, numa jogada idêntica? Será uma conspiração internacional contra o Sporting ou será antes que o Rui Patrício tem de ser proibido de não agarrar bolas atrasadas pelos defesas, que não o sejam com a cabeça ou o peito? Por que razão tudo o que de mal acontece ao Sporting nunca é responsabilidade do Sporting?

sexta-feira, outubro 19, 2012

QUEREM FALAR DE “PENALTIES”? (13 SETEMBRO 2011)

1- Por um excelente e irónico motivo - o casamento de uma amiga minha com um amigo que é administrador da SAD do Benfica - tive de seguir o FC Porto-Vitória de Setúbal através de sms, lidos à socapa, na mesa do jantar. No final, interpelado sobre o resultado por um dos ilustres benfiquistas ali presentes, respondi que tínhamos ganho 3-0. Ele perguntou "e quantos penalties?", e eu respondi que, segundo as minhas informações, tinham sido três magníficos golos e todos de bola corrida - o que, a juntar aos outros cinco facturados em Leiria, quatro dias atrás, fazia oito golos consecutivos no campeonato de bola corrida. Nem de penalty, nem de livre, nem de canto, nem sequer de lançamento lateral - esse lance de ataque que o Benfica tanto treina e pratica, sem que os treinadores adversários se lembrem de mandar colocar um jogador sobre a linha lateral, em frente ao local do lançamento.

Longe estávamos nós os dois de imaginar que, no dia seguinte e à conta dos penalties, o Benfica voltaria a figurar no Guiness Book of Records. Não porque tenha visto um árbitro conceder-lhe dois penalties em dois minutos, ou três penalties em quinze minutos, ou até por ter um treinador que, depois de tanta festança, ainda teve a ingratidão de reclamar mais um - seriam quatro em vinte minutos de jogo. Não, o Benfica entrou para o Guiness porque conseguiu ter meia parte de um jogo em que só rematou três vezes à baliza e as três da marca de penalty!

O primeiro penalty, compreendo muito bem que um árbitro português o marque, sobretudo no Estádio da Luz e a favor do Benfica. Mas um árbitro internacional provavelmente não o marcaria: não se deixaria levar pela premeditação com que o Saviola fez tudo, adiantando-se ao defesa, travando para sofrer o encosto dele, ati- rando-se para a frente para parecer empurrado voluntariamente, e assim transformando em penalty uma bola perdida. O penalty "extra", que Jorge Jesus teve o mau gosto de reclamar, foi um remate à queima roupa que roçou a mão de um adversário, que não conseguiu amputá-la a tempo; o segundo assinalado por Duarte Gomes, foi uma bomba que acertou no peito de um vimaranense, que nem se mexeu, a não ser para cair derru- bado pela violência do tiro; e o terceiro assinalado foi uma anedota: um remate a meio metro de distância que acertou na cabeça do infeliz N'Diaye.

Não é inocentemente que em Portugal se caiu na total deturpação da lei do penalty, acabando-se a marcar muito mais penalties por suposta mão na bola do que pelos outros motivos bem mais frequentes: empurrões, pontapés, rasteiras, cotoveladas no momento do salto (o penalty assinalado contra o Braga foi outra anedota). Há treinadores que instruem os jogadores a procurar cruzar ou rematar contra o corpo dos adversários, propositadamente para ver se conseguem que a bola lhes acerte na fatal mão ou braço; há equipas que jogam deliberadamente à procura disto; há um público de adeptos acríticos e a quem interessa tudo menos a qualidade do jogo, que já estão mobilizados para desatar aos gritos de cada vez que algum defesa adversário corta a bola sem ser com o pé ou a cabeça, e há comentadores que, inocentemente ou nem tanto, fingem esquecer a regra essencial: não há penalty quando a bola acerta no braço ou na mão, mas quando o braço ou a mão acertam na bola. De contrário, os únicos defesas seguros seriam os manetas, amputados de ambos os braços pelo ombro. Infelizmente, esta batota - ensaiada, treinada, consentida pelos árbitros estimulada pelo público - estraga jogos, deturpa resultados e até pode dar campeonatos (foi assim que o Benfica, de Trapat- toni, chegou a campeão, com o Simão Sabrosa tornado especialista em cruzar e rematar contra os braços dos adversários). Pessoalmente, acho esta "'táctica" uma forma de batota cobarde, que revela fraqueza de quem a ensaia, pratica, arbitra e apoia nas bancadas.

E assim, já lá vão quatro jornadas do campeonato e, em três delas, o Benfica deve os resultados a, digamos, "erros de arbitragem". Se as minhas contas estão certas, caíram-lhe do céu tantos pontos quantos os que lhe caíram do relvado: cinco. Agora é que eu gostava de ver os dirigentes do Sporting a protestaram indignados!

2- Pois eu lá assisti, penosamente, à morte lenta do Sporting em Paços de Ferreira, seguida da ressurreição súbita. Devo, todavia, confessar que acho as noticias da súbita prova de vida do Sporting manifestamente exageradas. A mim parece-me que a morte foi apenas adiada por um milagre que não se repetirá muitas vezes.

Eu sei que jogar naquele terreno (um dos quintais onde a Liga permite que se jogue qualquer coisa vagamente parecida com futebol), não ajuda as melhores equipes. O problema é que eu não sei, no caso, quem será a melhor equipe: se o Sporting, se o Paços. Lamento se isto soa ofensivo aos sportinguistas e, pela minha saúde, juro que não é essa a minha intenção. Apenas acho que, se me pagam para dar a minha opinião, é a minha opinião que tenho de dar. Por exemplo: eu posso achar que o Benfica tem sido, como dizer, "amparado", pelos árbitros, neste arranque de campeonato. Mas, em todos os jogos que beneficiou de favores de arbitragem, mereceu ganhar. Jogue bem ou mal, ganhe com penalties imaginados ou lançamentos laterais, vê-se que o Benfica tem jogo e jogadores. E o Sporting, não: nem uma coisa nem outra. Em jogo jogado, chega a ser confrangedor, e, no que respeita às 16 novas aquisições, onde investiu 30 milhões de euros, tirando o Jéffren, que ainda não vi jogar, e o Elias, que preciso de ver mais... valha nos Deus! Se aquilo é «a grande equipa» de que fala Godinho Lopes, eu só posso dizer que se confirma a minha tese de que, para dirigir um clube de futebol, convém que se perceba alguma coisa de futebol - da mesma maneira que, para dirigir uma imobiliária, convém perceber alguma coisa de terrenos, construção e mercados. Talvez seja por isso que, Pinto da Costa (que não deve distinguir uma estaca de uma sapata), ganha tantas vezes mais do que os outros...

Em minha modesta opinião (que, repito, pretende tudo menos ofender quem quer que seja), este novo Sporting é, quanto muito, candidato a bater-se por um lugar na l.iga Europa do ano que vem. E também penso que, em lugar de jogar a cave num autocarro de jogadores estrangeiros sem valor demonstrado, teria sido mais prudente começar por comprar este ano apenas três ou quatro, mas daqueles que fazem verdadeiramente a diferença e entrariam de caras na equipa, melhorando-a logo. E para o ano voltariam a comprar outros dois ou três de categoria indiscutível e o mesmo no ano seguinte: daqui a três anos, gastando menos, escolhendo bem melhor e integrando os novos aos poucos, o Sporting teria, de facto, formado uma equipa e poderia, talvez, lutar pelo título. Assim, é de temer que se limite a lutar pela simples sobrevivência. Desportiva e financeira.

3- Na terça feira passada, na antevisão ao Leiria-Porto, um desses jornalistas embbeded no FC. Porto, que seguem todo o dia-a-dia do clube e que é suposto estarem melhor informados do que qualquer mortal cidadão, garantia que a grande estrela em ascensão no Dragão era o Cristian Rodriguez, e que o FC Porto iria jogar em Leiria com ele e Hulk nos flancos, ou, na impossibilidade de Hulk alinhar, jogariam Varela e Rodriguez. E eu perguntei-me: então e o James, esse menino que integrava o fenomenal póquer de ases de Vilas Boas (Álvaro, Falcão, Hulk e James)? Será que o jornalista acha que o Vitor Pereira é cego ou incompetente? Felizmente, não é, como se viu. James Rodriguez só não é o melhor jogador do campeonato por que existe também o Hulk. Mas vai ser rapidamente um dos melhores jogadores do mundo, porque tem tudo para isso. Com o regresso dele e do Alvaro Pereira, tivemos de volta a decisiva asa esquerda do grande FC Porto da época passada. O Deffour também deixou grandes sinais e ainda falta ver o Iturbe e o Danilo. Cheira-me a outra grande época. E espero que já esta noite, contra a dificílima equipa ucraniano-brasileira do Shakhtar, o cheiro a fumo se transforme em labareda. O Shaklar é a chave do grupo - um grupo incomparavelmente mais difícil e cansativo que aquele que saiu em sorte ao Benfica. Mas o caminho dos campeões é sempre mais complicado.

quinta-feira, outubro 18, 2012

O FUTEBOL PORTUGUÊS AINDA EXISTIRÁ? (06 SETEMBRO 2011)

1- O mais português de todos os clubes profissionais de futebol é o Cluj, da Roménia. Nele jogam quinze futebolistas portugueses, treinados por um outro português. Quanto mais não fosse por curiosidade, para nos voltarmos a lembrar o que é um clube português, o Cluj deveria ser convidado de honra para disputar a Liga portuguesa.

O ultimo português a juntar-se ao Cluj foi o jovem Mateus Fonseca, que assinou contrato por cinco anos, tendo saído directamente da academia leonina de Alcochete, onde entrara aos nove anos de idade. Ele foi o último de um lote de treze jogadores portugueses, jovens e menos jovens, que o Sporting dispensou esta epoca, incluindo os titulares Yannick c Hélder Postiga, vendidos a preço de saldo. Em contrapartida, e apesar da tão louvada Academia de Alcochete, o clube gastou trinta milhões de euros a comprar dezasseis jogadores estrangeiros. Juntos, Benfica, Sporting e Porto gastaram cem milhões a reforçarem-se com 34 novos jogadores, dos quais nem um só é português! É notável, se não se considerar antes que é criminoso.

Há cinco jogos consecutivos, pelo menos, que o glorioso Sport Lisboa e Benfica entra em campo sem um único jogador português. Foi assim que assegurou a entrada na fase de grupos da Champions e foi assim que, dizem-nos, conseguiu assegurar ter de volta o grande futebol. Parece que o grande futebol só é possível sem portugueses em campo e é decerto um absurdo que os sub-20 se tenham tornado vice-campeões do mundo e que a FIFA considere Portugal a 8ª Selecção do mundo. Vistos de fora, os nossos jogadores são óptimos; vistos de dentro, são inúteis.

Já o meu querido FC Porto, que na temporada passada tinha arrumado sumariamente promessas como Hélder Barbosa, Rabiola, Candeias ou Nuno André Coelho, este ano começou logo por dispensar os campeões nacionais de juniores que atingiram o limite de idade na categoria (ao mesmo tempo que comprava meia dúzia de miúdos estrangeiros da mesma idade), e a seguir livrou-se por venda, dispensa ou empréstimo, de mais uma serie de portugueses: Ukra, Castro, Sereno, Orlando Sã, Rúben Micael, Miguel Lopes, Rui Pedro, Sérgio Oliveira e Beto. Todos descartáveis. O tão apregoado projecto Dragon Force, que visava, como em qualquer clube verdadeiramente grande, fazer passar todas as épocas um ou dois jogadores para a equipa principal, está morto e enterrado por evidente falia de interesse da direcção do clube.

As escolas do FC Porto, que este ano ganharam dois títulos de campeões nacionais entre as três categorias etárias existentes, estão a formar campeões e a gastar dinheiro para nada: os dirigentes preferem, às vezes até sem olhar, ir buscar lá fora todos os jovens que os empresários lhes garantem ser apostas de futuro. A consequência desta politica seguida até ao absurdo está já à vista na Liga dos Campeões, onde o clube apenas pode inscrever 21 jogadores, e não os 25 da ordem, porque a tal está limitado pelas regras da UEFA e visto que apenas tem 4 portugueses no plantel e nenhum jogador formado nas suas escolas! Forçado, por exemplo, a deixar de fora a mais falada promessa de todas — o argentino Iturbe - o FC Porto vai ter de disputar uma sé- rie de seis jogos ao mais alto nível competitivo com apenas 21 jogadores. E basta imaginar três deles lesionados e dois castigados (o que será banal), para concluir que poderá haver jogos em que Vítor Pereira apenas disponha de 15 jogadores de campo! Para jogar a Champions, a competição em que tudo se aposta, este ano...

Por outro lado. tanto no FC Porto como no Benfica, e menos no Sporting, o constante recurso a jogadores oriundos da America do Sul, faz com que eles, ao serviço das suas selecções principais ou das dos escalões etários mais baixos, passem a época em desgastantes viagens jogos intercontinentais.

No FC Porto, o exemplo extremo é o de Hulk, escalado para o Brasil-Gana de ontem à noite e também para o Leiria-Porto de hoje à noite. Mas há outros casos de jogadores que só fizeram parte da pré-época e chegaram com a época a decorrer, como James, outros que não fizeram pré-época alguma, como o Iturbe, que esteve a jogar o Mundial de sub-20 e está seleccionado para os Pan-Americanos em Outubro, e outro, o Danilo, que só chegará em Janeiro. Aliás, virá o dia em que os jogadores de selecção sul-americanos, para defenderem as próprias carreiras na Europa, se revoltarão contra o excesso de jogos amigáveis e de competição a que sào sujeitos pelas selecções dos seus países.

Que sentido faz investir num jogador como o Iturbe, mesmo anunciado como novo Messi, se está ausente três semanas ao serviço do seu pais, falhando a decisiva pré-temporada onde se conhecem companheiros, clube, treinador e métodos de trabalho e jogo, e, depois de vir finalmente passar um mês ao clube, logo volta a partir para mais três semanas ao serviço do seu pais, falhando a Liga dos Campeões e a Liga portuguesa — e sempre com o FC Porto a pagar-lhe? Se os dirigentes dessas Federações não abdicam de ter uma vida de luxo, financiada pelos jogos das novas competições que estão sempre a inventar e, na sua falta, pelos jogos de preparação no Extremo Oriente, enquanto os clubes que pagam aos jogadores se vêm privados deles em momentos decisivos, não seria mais inteligente apostar antes mais na prata da casa e menos nesses craques planetários?

2- Não sei se haverá relação entre uma coisa e outra, mas o facto é que, com raras excepções, o futebol da nossa Selecção aborrece-me de morte. Seja com Paulo Bento, com Queiroz e antes com Scolari, não consigo entender como é que formando uma equipa só com jogadores super (tanto que jogam quase todos lá fora), o futebol que eles jogam nem sequer tenha identidade própria. Tanto podemos jogar bem, como mal, tanto podemos ganhar contra boas equipas como sofrer impensadamente contra equipas de terceira. Assim foi mais uma vez, contra dez jogadores do Chipre e um árbitro amigo a jogar por nós. Se quisermos estar na fase final do Europeu, vamos ter de fazer bem melhor no último e decisivo jogo em Copenhaga.

3- O campeonato espanhol abriu com uma semana de atraso devido à greve dos jogadores. Em causa estavam cinco milhões de euros de dívidas dos clubes pequenos a alguns jogadores e foi bonito ver Casillas a liderar a contestação em apoio a colegas menos afortunados. Porém, o cerne da questão é outro, que os jogadores não querem enfrentar: com a repartição desequilibrada dos dinheiros da televisão, o campeonato espanhol é cada vez mais um duelo e, para tentarem dar luta, há outros clubes que se endividam para além das possibilidades, a pagar o que não têm a jogadores que tudo têm.

Em Itália, os jogadores também ameaçaram com greve porque entendem que o novo imposto extraordinário aprovado pelo governo de Berlusconi - para, também, ele, sossegar os mercados e enfrentar a críse - não lhes deve ser aplicado. Ou seja: eles, que são os mais bem pagos entre os mais bem pagos, querem receber tudo sem pagar um euro de imposto e ainda beneficiarem de um sistema excepcional de segurança social, pago com os impostos dos outros. É, aliás, absolutamente incompreensível que os portugueses, por exemplo, achem muito bem que o governo leve 60% do produto do trabalho de um casal de ricos, que ganha em conjunto 153 000 euros por ano, mas ninguém se incomoda que se paguem ordenados mensais de 153 000 euros a um só jogador e que ele não pague impostos alguns. E, afinal, o que tem a mais um profissional de futebol do que, por exemplo, um médico que salva vidas alheias? O profissional de futebol tem jeito para dar chutos numa bola, e preocupa-se essencialmente com três coisas: ganhar cada vez mais, seja no clube onde está ou noutro para o qual exige partir a meio do contrato; fazer mais tatuagens e inventar um penteado em que ainda ninguém tinha pensado.