sexta-feira, agosto 31, 2012

NÃO HOUVE CRÓNICA (19 JULHO 2011)

Não houve crónica.

quarta-feira, julho 11, 2012

JÁ TEMOS CAMPEÃO (12 JULHO 2011)

1- Há coisas que são verdadeiramente infalíveis nesta altura do ano, como a implacável nortada que varre 600 dos nossos tão propagandeados 650 quilómetros de costa, os sucessivos orgasmos das revistas sociais com o jet-seis a férias ou o anúncio de que o Benfica vai ser o próximo campeão nacional. Neste último capítulo, e não fosse alguém distrair-se na tradição, foi o próprio Jorge Jesus a anunciá-lo aos emigrantes benfiquistas na Suíça: o próximo campeonato já tem dono e adivinhem quem?

Aparentemente, Jesus pensa chegar ao anunciado título pelo método radical da enxurrada. Enquanto desespera por ver o FC Porto desfalçado de alguns dos seus principais trunfos, o treinador do Benfica vai enchendo os armazéns de contentores de sul-americanos, pretendendo construir um plantel à razão de três jogadores por lugar. E, aparentemente também, o que não lhe falta é dinheiro fresco para satisfazer os seus desejos e legitimar, só à vista, o título que há-de festejar lá para Junho. Actualmente, e a fazer fé nas últimas noticias, o Benfica oferece 10 milhões de euros (!) por um jovem lateral-direito do Santos e ainda procura mais um ponta-de-lança, um central e um defesa-esquerdo. Tudo isto com o dinheiro da venda de Fábio Coentrão? Não, claro que nao. Primeiro, porque os supostos 30 milhões da venda, resultantes da proclamada e aclamada posição inflexível de Luís Filipe Vieira, tão propagandeada de cruz pelos jornalistas da sua corte, não passaram, como bem aqui o demonstrou Ernesto Ferreira da Silva, de 18,5 milhões. O resto, o truque da compra de Garay, que não teria sido abatido ao preço, a parte que vai para o fundo de jogadores e a comissão de Jorge Mendes, se é certo que não entraram para as contas oficiais, também é certo que não vão entrar na conta bancaria do clube. Certo, certo, é que o Benfica perdeu um jogador determinante, embora afinal fosse madridista desde o berço. Depois, porque, como tantas vezes aconteceu igualmente no FC Porto, o encaixe na venda de um grande jogador foi já consumido na comprado um batalhão de eventuais craques, que, de seguro, têm apenas a fatalidade de virem engrossar e bem a folha de pagamentos salarial. Alguns hão-de ser grandes jogadores, agora ou mais adiante; a maioria será apenas uma despesa sem sentido.

Ali ao lado, em Alvalade, comprada já uma dúzia de jogadores estrangeiros, reina também a euforia, que, todavia, deixa a pairar uma sensação de tudo ou nada. Com 244 milhões de dívida reconhecida oficialmente, com um empréstimo obrigacionista de 20 milhões a correr ao juro inacreditável de 9,25% para cobrir necessidades prementes de tesouraria, dá-me ideia que o Sporting jogou a cave. Para bem de uma saudável luta a três, espero bem que os seus sempre brilhantes gestores náo se tenham precipitado, uma vez mais.

No FC Porto, e por enquanto, tudo estranhamente calmo. Vieram quatro reforços que já estavam garantidos há meses (Iturbe, Kelvin, Djalma e Kleber), mais um cuja utilidade não consigo entender (Bracali). É pouco, avisadamente pouco, para a habitual enxurrada desta época do ano. Isso não faz, porém, que o FC Porto não continue com umas seis dezenas de jogadores seniores sob contrato, a que não é fácil dar destino nem oportunidade para eles justificarem o que valem e o clube o que neles investiu e investe. Há muitos para sair, mas, por enquanto, só saiu Mariano Gonzalez e isso não chega: não é com os 15 milhões da traição de Villas Boas que a SAD vai aguentar-se um ano inteiro. Seria, pois, necessário que saíssem alguns, mas só aqueles que nos convêm. À cabeça deles, claro, os dois que igualmente já manifestaram vontade de sair: Rolando e Fernando. Os meus habituais leitores sabem que não chorarei uma lágrima por qualquer um deles - e não por achar que eles são ingratos ou não sentem o clube, porque sobre esse assunto já estamos todos elucidados. Mas por achar, apenas, que eles não valem o que julgam valer e que o seu sonho de voarem mais alto só por um feliz milagre, para eles e para nós, se tornaria realidade. Distingo, todavia: Rolando é um bom jogador. Fernando não. Rolando é um bom jogador mas com limitações a nível de leitura de jogo. Viu-se na época transcorrida como a orfandade de Bruno Alves destapou uma série de insuficiências até ai disfarçadas pela categoria do emigrante na Rússia. Sem Bruno Alves ao lado, Rolando comprometeu vezes de mais, em especial no jogo aéreo, e ficou a milhas da velocidade, da determinação e da classe pura do seu ex-companheiro de sector. Não acredito, sinceramente, que um Chelsea ou uma Juventus possam estar interessados nos seus serviços. Mas oxalá me engane. Já Fernando é um caso completamente diferente e sobre ele já disse o essencial: que o considero um elemento altamente perigoso num lugar determinante do jogo; lento, faltoso, cortando de qualquer maneira sem pensar no que se segue, sem qualidade de passe, incapaz de subir no terreno, incipiente a rematar à baliza. Tem o favor de toda a nossa imprensa desportiva, mas isso não é coisa que me impressione: conheço muito bem o empenho que a imprensa desportiva lisboeta tem em promover e apoiar os jogadores mais fracos do FC Porto. Dizem que a sua cláusula de rescisão de 30 milhões é que tem impedido os inúmeros interessados de chegar a vias de facto. Como se isso alguma vez tivesse sido motivo para desistir de uma compra! Como se alguém acreditasse que Pinto da Costa faria finca pé em receber 30 milhões por Fernando! Eu cá, por três milhões, deixava-o ir e que fosse feliz.

Já Falcão é, claro, um caso à parte, agravado pelos dois golos marcados à Bolívia e pela qualificação da Colômbia para os quartos-de-final da Copa América - para já. Sendo verdade que, depois de muita insistência, o FC Porto conseguiu renegociar o seu contrato, prolongando-o por dois anos e aumentando a cláusula de rescisão para 45 milhões, isso não quer dizer, como é óbvio, que o assunto tenha ficado resolvido por ora e que os portistas possam dormir descansados até 31 de Agosto. Quer dizer apenas que, com a inestimável colaboração do próprio Falcão, o FC Porto terá conseguido, ou talvez não, minimizar um pouco mais as condições da sua saída para já. Porque é minha convicção que ele vai mesmo sair - está apenas dependente da clarificação no mercado de topo dos pontas-de-lança, onde Falcão, a par de Tevez, Drogba, Kun Aguero, Neymar e mais um ou dois, são nomes que apenas esperam que se componha o puzzle de transferências entre os poderosos da Europa. Mas também penso que a SAD se defendeu bem da eventual saída de Falcão. Que ele é insubstituível no curto prazo, é. Mas Walter vai melhorar e Kleber é um potencial grande reforço. E, sem um nem outro, na época passada (um porque não estava li, o outro porque não estava em forma), o FC Porto sobreviveu a dois meses de ausência de Falcão.

Pois que as coisas vão continuando assim no Dragão, devagarinho e tranquilas, sem notícias de entradas e saldas, é o que eu mais desejo. Não são os 17 golos marcados nos dois primeiros particulares, contra equipes bem fraquinhas, que me deixam animado. Mas é, por exemplo, os relatos da fome de bola de Hulk, pronto e disposto a ser, uma vez mais, o expoente máximo do nosso campeonato, a larga distância da concorrência. Alias, perguntem aos sportinguistas e benfiquistas quem é que eles gostariam mais de ver partir do FC Porto, se o Hulk ou o Falcão, e verão que a grande maioria responderá Hulk.

PS: Para descanso desses mesmos leitores, benfiquistas e sportinguistas, entro agora no meu período de defeso anual. Vou em paz e sem guarda-costas, disposto a estudar atentamente todas as propostas que me aparecerem: besugos, sardinhas, lulas ovadas, marés de levante, noites de luar, cheiro a figos e a coentros. A todos os que também vão de férias desejo o mesmo que a mim: que consigam limpar a cabeça.

SOFRER ATÉ 31 DE AGOSTO (05 JULHO 2011)

1- Até 31 de Agosto (data em que fecha o mercado) o Benfica reestrutura-se, o Sporting reinventa-se de cima a baixo, e o FC Porto tenta manter-se o mais próximo possível do quadro de jogadores com que terminou a feliz época passada. O Benfica vai em treze aquisições, das quais doze estrangeiros; o Sporting vai em doze, todos estrangeiros; e o FC Porto vai em cinco novas caras, todas de além-fronteiras e quatro das quais são aquisições já conhecidas há meses (Iturbe, Kelvin, Djalmae Kleber). Mas é certo que as coisas não ficarão por aqui: o Benfica terá de voltar ao mercado, pelo menos, para contratar um central e um lateral-esquerdo, na saída de Coentrão; o Sporting, que está a construir uma equipa nova, irá, muito provavelmente, espreitar ainda a oportunidade de comprar alguém que não seja apenas uma promessa eventual e um ilustre desconhecido, mas sim um valor reconhecido no mercado; e o FC Porto, em ano de excepcional e louvável contenção (por enquanto...), certamente que voltará a comprar se e quando se vir desfalcado de algum dos titulares habituais cuja lista circula dia após dia.

De comum entre todas estas compras dos nossos três maiores clubes, está um facto penoso: a total ausência de aquisições de jogadores portugueses. Existe apenas um pequeno, pequeníssimo, número de jogadores promovidos dos escalões de formação ou recuperados à experiência de clubes onde se encontravam sob empréstimo, mas, no final, deve ser diminuto o número daqueles que ficarão nos plantéis para a nova época. Já muito foi escrito sobre isto e toda a gente conhece as razões, financeiras e desportivas, para que um país que é exportador de jogadores e treinadores seja, simultaneamente, um dos maiores importadores. Não vou acrescentar, assim, uma discussão que, no essencial, já está feita: limito-me a constatar o facto e dizer que ele é triste e preocupante. E desejo que, no FC Porto, se dê este ano uma hipótese de afirmação, pelo menos, a jo-gadores como Castro e Sérgio Oliveira.

Compreende-se que o FC Porto se tenha praticamente limitado a confirmar, por enquanto, aquisições há muito anunciadas - com a excepção incompreensível da troca de Beto por Rafael Bracali. Nesse aspecto, a mais sonante contratação dos portistas (para além da expectativa de ver em acção, só lá para Setembro, esse menino Iturbe, que dizem prodígio) foi afinal a aquisição longamente adiada do brasileiro Kleber. Ao fim de um ano de discussões amargas com o presidente do Marítimo, não consegui ver explicado em lado algum que razões jurídicas ou contratuais fundamentaram a pretensão de Carlos Pereira a, ainda hoje, manter que lhe assiste o direito de obrigar um jogador a jogar no seu clube, contra a vontade dele e do clube que detém o passe e para além do prazo de empréstimo acordado. Não digo que eventualmente não existam: digo que não as entendo, porque também ninguém as explicou.

Mas se o FC Porto tem todas as razões para, acima de tudo, seguir neste defeso uma politica de guerra de trincheiras, defendendo o que tem e provou tão bem, já os seus rivais Benfica e Sporting, que terminaram o campeonato às impensáveis distâncias de 21 e 36 pontos, respectivamente, não tinham outra saída aparente que não a de começar quase tudo do zero, outra vez. É uma saída complicada, arriscada e que, não concorrendo resultados desportivos com o investimento financeiro, se pode vir a revelar desastrosa a curto prazo. Mais para o Sporting, que não tem grande margem para falhar e que joga agora a cave.

2- A substituição de André Villas Boas teve o mérito de ser rápida, natural e consensual. Pinto da Costa encontrou, de imediato, a única alternativa que garantia, a tão curto prazo de retomar os trabalhos, um mínimo de continuidade e de estabilidade, que tão abaladas foram com a súbita e inesperada deserção de Villas Boas. Como todos os portistas, estou expectante mas tranquilo com a sucessão e disposto a condescender se o arranque não for tão bom como o da época passada — sobretudo se algum dos jogadores determinantes nos forem roubados por cima da trincheira. Devo, porém, confessar que o que mais me procupa é, por um lado, a perda do preparador físico José Mário, que acompanhou Villas Boas e que tão boa conta deu de si no passado; e, por outro lado, que toda a equipa técnica escolhida por Vítor Pereira não tenha qualquer experiência de trabalho na primeira divisão - a acrescentar a um treinador principal que também não a tem, enquanto tal. Mais uma oportunidade para provar que, mais importante que os técnicos, é a estrutura e a organização que eles vêm encontrar...

3- Na sua conferência de imprensa de apresentação em Stamford Bridge, André Villas Boas, como lhe competia, disse que não estava ali pelo dinheiro, mas pelo desafio e que o FC Porto também lhe tinha apresentado uma proposta muito boa (o que, mal traduzido por alguns jornalistas, resultou numa proposta tão boa como a do Chelsea — o que, obviamente, não era de acreditar). Tanto bastou, porém, para que alguns comentadores, sempre compreensivos com as traições aos clubes adversários dos seus, partissem, entusiasmadamente, para a absolvição da traição de Villas Boas ao clube do seu coração.

Isto fez-me lembrar duas citações lidas no último número da revista Sábado, ambas remetendo para a relação entre a ambição pelo dinheiro e o grau de culpabilização social, ou falta dela, dos que fazem dessa ambição um objectivo das suas vidas. A primeira citação é de Jardim Gonçalves, que foi presidente do BCP, com uma gestão já condenada pelo supervisor bancário e ainda sob investigação criminal. Disse ele: «foi totalmente injusto que tivessem utilizado o nome do meu filho para acelerar a minha descredibilização». Ora, o que aconteceu foi que, sob a presidência do Engº Jardim Gonçalves, o BCP financiou uma empresa de um seu filho (a quem não se conheciam nem bens próprios nem qualquer experiência ou talento empresarial) em montantes, sucessivamente renovados ou acrescentados, até atingirem um total de 30 milhões de euros, depois declarados incobráveis. Na altura, o escândalo foi tal que, de facto, apressou a queda em desgraça de Jardim Goncalves e até levou este a anunciar que ia pagar do seu bolso a dívida do filho. Mas parece que agora, afinal, acha que não havia razões para se penitenciar.

A outra citação é de Luis Figo e é verdadeiramente notável. Diz ele que fez uma promessa: «depois do que me aconteceu em Portugal, deixei de acreditar na classe política». Ora» vale a pena recordar o que lhe aconteceu em Portugal e que se tornou razão da sua actual descrença na classe política. Aconteceu que, três dias antes das eleições de 2009, numa acção de campanha que escutas judiciais depois revelaram ter sido montada ao pormenor por alguns boys do PS, como Rui Fedro Soares - Luís Figo compareceu a um pequeno almoço a dois, público e muito mediatizado, com o candidato a PM, José Sócrates, naquilo que só podia ser lido, e foi, como o apoio político de Figo a Sócrates. E, logo nessa tarde, Luís Figo participava num anúncio, para efeitos de divulgação interna, à Taguspark, empresa pública de que Rui Pedro Soares era administrador. Tratou-se de uma curta declaração promocional, que lhe terá ocupado talvez meia-hora e pela qual recebeu, contratualmente, cerca de 350 mil euros, se a memória me não falha. Ou seja: a troco de 350 mil euros, Luís Figo, que sempre se afirmou de direita, aceitou patrocinar a Taguspark e, simultaneamente, a candidatura política do líder do PS.

Deixo aqui as duas citações e o enquadramento factual a que elas respeitam, sem comentários, que julgo inúteis. E só extraio uma moral destas histórias (se é que elas ainda precisam de uma moral): não se pode ter tudo. Muito dinheiro, ganho de qualquer maneira, e muito bom nome, ganho a custo - entre outras coisas, de renúncias várias.

NÃO HOUVE CRÓNICA (28 JUNHO 2011)

Não houve crónica.

domingo, junho 10, 2012

É FÁCIL SER TREINADOR DO CHELSEA (21 JUNHO 2011)

1- Quando Mikhail Gorbachov dinamitou por dentro a URSS e o seu falido socialismo de Estado, o maior país do mundo entrou na chamada economia de mercado numa situação inédita: não havia empresários independentes e muito menos grupos económicos estabelecidos para herdarem o vastíssimo arquipélago das empresas públicas, até então geridas por quadros de confiança do Partido Comunista (com os resultados desastrosos que ditaram o fim do sistema). A nova Rússia queria privatizar rapidamente, para que a sua economia aprendesse a viver com práticas de gestão assentes nos resultados, na competitividade e na concorrência. Só que havia desde logo um problema a resolver: excluindo a entrega das empresas a grupos estrangeiros, para quem é que se podia privatizar, se não existiam empresários nem grupos económícos privados na própria Rússia e ninguém, obviamente dispunha do capital suficiente para acorrer às privatizaçoes? A solução encontrada ainda hoje é fonte de abusos de toda a ordem, corrupção, nepotismo, favorecimento político: privatizou-se a favor dos amigos do regime, deixando-os compras as empresas com o pêlo do próprio cão. Ou seja, alguns felizes escolhidos concorreram sem oposição às privatizaçoes, ficando de pagar mais tarde, com o lucro gerado pelas próprias empresas compradas. Assim se fizeram milionários da noite para o dia e nasceu a célebre classe dos oligarcas russos, que disputam com os sheiks árabes, os piratas asiáticos, os ditadores africanos e os amigos do Texas do ex-presidente Bush esse particular campeonato do exibicionismo novo rico. Os que ficaram com regime, sobretudo com Putin, contínuaram a prosperar;os que ousaram soltar voo por conta própria e desafiar o senhor todo poderoso da Rússia, foram expropriados, perseguidos até, como no tempo de Staline, enviados para a Sibéria – como sucedeu com o infeliz Kho-dorkovsky, outrora proprietário do grupo Yukos e um dos homens mais ricos da Rússia.

O nosso estimado Roman Abramovich, esse benfeitor da mãe Rússia e da humanidade, não cometeu tal fatal erro. Ele manteve-se fiel a Putin e os seus milh~es foram aumentando, os seus iates foram crescendo em tamanho, a sua cobica de ter tudo o que o dinheiro pode comprar foi crescendo, sem limites. Por cada Villas Boas que Abramovich compra, por cada estrela de futebol que rouba (pagando, é claro) aos outros, há muitos cidadãos na Rússia que estão a ser roubados. Mas essa é a regra do jogo: o dinheiro faz dinheiro, o dinheir manda e faz estragos.

Desde que chegou ao selectíssimo Chelsea Football Club, de Londres, outrora refúgio de uma elite aristocrata de adeptos da capital do império post-vitoriano, o novo rico Abramovích já gastou 570 milhões de euros a dizimar a concorrência para conseguir dois objectivos: o de ser campeão de Inglaterra (o que conseguiu duas vezes com José Mourinho), e o de ser campeão europeu (o que ainda não conseguiu, apesar de todo o dinheiro gasto). Mais de 90 milhões foram gastos em razias ao FC Porto, cujo exemplo de sucesso europeu com um vigésimo dos seus investimentos ele tanto deve invejar e tanto o deve intrigar. Porque, tal como aprendeu fazendo negócio na Rússia, competir e concorrer em pé de igualdade é uma perda de tempo. A concorrência existe para ser comprada ou dizimada, nada mais. Mais vala, como disse o Rui Moreira, pensar em comprar de uma vez só o próprio FC Porto, em lugar de andar a tentar captar-lhe o segredo, roubo a roubo, convencido que assim decifrará o enigma. Porque a estratégia de gestão desportiva (se assim lhe pudemos chamar) do oligarca do Chelsea é simples e nada tem de edificante: ele e os que trabalham para si não perdem tempo a formar jogadores nem a procurá-los, ainda por potenciar, noutras paragens; não perdem tempo a criar uma escola de jogo e escolher treinadores para ela; não perdem tempo à espera que os jogadores que contratam cresçam e evoluam; não perdem tempo a criar um espírito de vitoria e de conquista que sobreviva, para além dos jogadores que partem ou chegam. Não: ele limita-se a comprar o que já está feito, pelo trabalho ou mérito dos outros. Ele gosta do que vê ou do que lhe dizem que é bom, ele compra. É fácil gerir o Chelsea.

Pessoalmente, desejo que jamais o sr Abrahamovich e o Chelsea sejam campeões europeus, porque gosto de pensar que nem tudo o dinheiro consegue comprar. Por isso, renovo os meus votos de total infelicidade desportiva a André Villas Boas, na sua estadia aos comandos do brinquedo futebolístico do sr. Abramovich. Quanto a este, desejo-lhe que caia em desgraça junto de Vladimir Putin e que tenha uma carreira de sucesso a gerir um clube de futebol de um campo de detenção algures na Sibéria. Quem não acredita na justiça divina, às vezes a consola-se pensando que ainda pode existir justiça neste mundo...

Mas consta, intensamenie todos os dias, que a traição de André Villas Boas ao clube do seu coração não se ficará pela deserção a cinco dias do inicio da nova época. Um intenso blitz informativo, todo ele convergente no mesmo sentido, diz-nos também que, a conselho ou desejo de André, O sr Abramovich se prepara para nos roubar o Falcão e talvez também o Hulk, o Moutinho, o James e, quem sabe, o Álvaro Pereira. O Falcão, asseguram-nos, está apenas à espera que o grande empresário - atarefado como deve estar, sempre a ter de decidir se dorme no iate grande ou no iate gigante, no palácio da Côte d'Azur ou na mansão de Chelsea — encontre tempo para assinar a ordem de depósito de trinta milhões na conta do FC Porto. Quanto ao Hulk, que já custa bem mais, estarão apenas à espera que, num momento de inspiração alguém o convença e ele se sinta tentado por mais uma loucura. Quanto aos outros,é só uma questão de mais ou menos amendoins, que é como ele chama a cada milhão de euros.

Se tudo isto é verdade, e parece que sim, significa que o homem que, ainda há um mês atrás, eu e todos os portislas cumulávamos de agradecimentos e elogios, não só desertou à primeira oportunidade de ser coberto de ouro, como ainda se dedicará agora a desmantelar à distância e em beneficio proprio a equipa que comandava ainda há trinta dias. Note-se: a equipa que ele, apesar de tudo, apenas comandou — não descobriu, não formou, veio encontrar feita e pronta a vencer.

E assim, reunindo em Londres alguns dos melhores que lhe deram para comandar no FC Porto, Àndre Villas Boas,de uma só penada, trata de assegurar condições pata resolver dois problema: trazer para o serviço do seu novo patrão gente que ele sabe que o dinheiro ainda não estragou por completo (como esse vaidoso do Anelka,por exemplo); e tratar de enfraquecer decisivamente um dos potenciais rivais na próxima Champions (que vergonha que seria para ele ser afastado pelo FC Porto!). Como é fácil ser treinador do Chelseal.

Quando se díspõe de um ataque com o Anelka, o Drogba, o Fernando Torres, o Kalou, e ainda se acha indispensável o Falcao e o Hulk,é porque o terror de perder é bem maior do que o prazer de ganhar com mérito. Se o risco consiste em saber gastar os 170 milhões que se diz que Abramovich tem disponíveis para que Villas Boas defina a sua estratégia no Chelsea, não há Pateta nem Pato Donald que não consigam ser campeões europeus assim! Ou haverá? Será que Villas Boas não consegue dormir com medo do Real do Mourinho? OU será que as suas noites (pagas a 13.000 euros cada por Abramovích) são atormentadas por pesadelos do tiki-taka do Barcelona,de Guardíola? Ó deuses, aliviai-lhe um pouco o peso das arrecadas de ouro sobre a cons ciência, suavizai-lhe os medos que tamanha ambição fez despertar!

sábado, junho 09, 2012

DESERÇÃO (14 JUNHO 2011)

1- Não há palavras que possam classificar a deserção de André Villas Boas para o Chelsea. Não há palavras, só um número: cinco milhões de euros por ano. Não vale a pena virem com as habituais considerações sobre a proposta irrecusável, sobre o direito que lhe assiste de partir para outro desafio ou fazer o contrato da sua vida, etc e tal. Não vale a pena, porque não chega. Não é verdade que não haja propostas irrecusáveis, assim como não é verdade que todos tenham o seu preço: conheço gente, sem dúvida que excepções, mas que não têm preço de venda nem aceitam uma proposta, por mais aliciante que seja, se isso ofender aquilo que são os seus valores éticas ou a palavra dada. Acho perfeitamente legitimo que quem ganha 500,1000 ou mesmo 5000 euros por mês aceite mudar-se por uma proposta melhor, em termos profissionais ou financeiros. Não aceito nem compreendo, porém, que quem assina um contrato a prazo curto, com determinados objectivos que aceitou contra um salário milionário de 50 ou 100 ou 150 mil euros por mês, se comporte como uma “ Maria-vai-com-quem- der mais.”

Acresce que, no caso de Villas Boas, tudo concorre para tornar a sua deserção ainda mais lastimável. Há um ano atrás, ele não era ninguém, apenas uma potencial promessa que Pinto da Costa resolveu assumir, chamando a si todos os riscos e dando-lhe a ele uma oportunidade com a qual tão cedo, pelo menos, jamais poderia sonhar. Se a aposta tem falhado, a responsabilidade seria inteira de Pinto da Costa; Villas Boas teria, quando muito, de esperar mais e provar mais até ter segunda oportunidade. Depois, e por maiores que sejam, e são, os méritos próprios de André Villas Boas na fantástica época do FC Porto, ele nada teria conseguido se não tivesse vindo encontrar uma organizarão, uma estrutura, uma cultura e um ambiente de vitória instalados de há muito, e até uma equipa formada e pronta a triunfar. E, enfim, porque estamos a falar de alguém que ali chegou por se afirmar portista de coração e alguém com educação e cultura muito acima do nível médio dos seus pares - o que acarreta obrigações e não direitos. A forma como ele abandona o tal clube do seu coração, a oito dias do início do estágio e da prepararão da época, com diversas alternativas de treinador agora fechadas, e deixando aos jogadores mais cobiçados do clube um exemplo que se traduz numa espécie de grito de debandada "agora é cada um por si e o clube que se lixe!" , não é, seguramente a forma como foi educado nem traduz os valores em que todos acreditávamos que ele acreditava. Gostaria de saber o que tem André Villas Boas a dizer agora aos adeptos cujo apoio pediu ao longo do ano: queria o nosso apoio para a equipa ou para si próprio, para o ajudar a dar "o grande salto em frente"?

A resposta a esta pergunta envolve um mal-estar de que há muito dou conta aos meus leitores. Nós, os adeptos doa clubes, somos os únicos que apenas pagamos e nada recebemos, os únicos que não traímos, que ficamos, de ano para ano e de geração para geração, a apoiar, em boas e más horas, um grupo que julgamos serem o nosso clube, mas que, no essencial, mais não são do que um conjunto de profissionais reunidos ad hoc e que ali estão provisoriamente à espera da primeira oportunidade em que lhes ofereçam bom dinheiro para trocarem de cores, de clubes e de auto-proclama das fidelidades. Já não há Maldinis no futebol! Vejam o Fábio Coentrão, tão benfiquista que ele é, e que a nada mais aspira do que mudar-se para Madrid. Vejam o Bruno César, a nova grande aposta brasileira do Benfica, que, antes mesmo de chegar, já estava a declarar que o Benfica podia ser um bom trampolim para outros voos. Não sei o que pensam os leitores, eu estou a ficar farto de servir de chão para o trampolim destes rapazes.

Depois da deserção de Villas Boas, a porta fica escancarada para o desmembramento desta fantástica equipa. Quando o capitão abandona o navio a meio da viagem, à tripulação resta seguir o antiquíssimo grito de "salve-se quem puder!". Infelizmente, não vão ser nem o Rolando,nem o Fernando, nem o Cristian Rodriguez. Neste mar de piratas em que navega o futebol dos milhões, os grandes predadores dos mares sabem muito bem a quem apontar as mandíbulas. No FC Porto de hoje, é a Hulk, Falcão, Alvaro Pereira, Guarin, Otamendi e James. Não tenho dúvidas de que Pinto da Costa vai resistir e bater-se enquanto puder. Mas nunca a sua tarefa foi tão difícil: o homem a quem ele confiou o corpo e a alma da equipa, a quem ele deu tudo o que um jovem e absolutamente inexperiente treinador podia sonhar ter, agradeceu espetando-lhe a faca nas costas.

Não há palavras, apenas uma grande tristeza e mesmo vergonha por outrem. Não desejo felicidades algumas a André Villas Boas, no Chelsea. Sempre achei que um dia ele iria para Inglaterra - o destino natural do seu perfil e talento. Mas não agora, nem assim. Escolheu, e a vida é feita de escolhas. São elas que, mais do que tudo, qualificam as pessoas e revelam os seus valores e as suas regras de vida. Cinco milhões são cinco milhões mais do que consigo imaginar. Mas eu ainda acredito que os valores de cada um não se medem a milhões, assim como a vida não se joga a feijões. Por isso, porque isto não é feijões, ele parte rico mas imensamente empobrecido. Coberto de milhões, descoberto de razões. Que viva em paz com os seus milhões.

2- Agora, Michel Hatini, se quisesse falar a sério, podia perceber como foi deslocada, e até patológica, a sua condenação de um FC Porto estrangeirado. Também eu senti como uma ofensa (e dela aqui dei conta) o espectáculo dos jogadores do FC Porto no final do jogo de Dublin, cada um embrulhado na respectiva bandeira nacional e até Rolando e Ruben Micael (tanto quanto sei jogadores da Selecção de Portugal) embrulhados nas bandeiras de Cabo Verde e Madeira - como se Portugal não existisse ali, representado por um jogador que fosse.

Mas dai até Platini dar o FC Porto como um exemplo de uma equipa europeia sul-americanizada e estrangeirada, vai uma grande distância. Porque outra coisa não são o Braga ou o Benfica, o Nacional da Madeira e tantos outras equipas do nosso futebol... que joga com as armas que tem. Se Fábio Coentrão sair mesmo para o Real Madrid, vai-se embora o último grande jogador português a jogar em Portugal, e isso quer dizer alguma coisa. Quer dizer que nós não temos capacidade para segurar os valores que criamos, restando-nos lançar mão dos mercados alternativos que melhor trabalhamos, indo buscar jogadores novos para os formar, valorizar e revender com lucros. E o que faz o FC Porto desde há muito e o que faz agora também o Benfica.

Mas se isto é assim, se gente como Roman Abramovic consegue, com a maior das facilidades, estoirar com todos os contratos em vigor entre os clubes portugueses e os seus melhores jogadores (ou treinadores), é porque as regras da UEFA, de que Platini é responsável, o consentem e promovem. Ele não se devia escandalizar porque o FC Porto tem organização e capacidade de trabalho suficientes para descobrir um Lisandro, um Lucho, um Anderson, um Falcão, um Hulk, um James Rodriguez - que os tubarões da Europa depois sacam quando querem. Ou descobrir e potenciar, com condições de trabalho que todos elogiam, um José Mourinho ou um André Villas Boas - que depois o grande dinheiro de lavagens ou outras proveniências duvidosas compra e aproveita tranquilamente. O que o devia procupar é ver um Arsenal sem um único jogador inglês, ver o Manchester ou o Chelsea recheado de estrangeiros e sul-americanos que não descobriram nem valorizaram, apenas aproveitaram após o trabalho alheio. Ou ver os clubes franceses, ou a sua Selecção, cheios de jogadores franceses que, de franceses, só têm a alcunha e não são mais do que uma manifestação imperial francesa em Africa. Platini preside a uma organização para a qual, tal como a FIFA, o dinheiro é quase tudo. E o grande dinheiro está nos dez grandes clubes europeus que, financiados por paraquedistas do futebol, se comportam como predadores dos mais pequenos.

E verdade que esse negócio, como todos os negócios, é bilateral e também aproveita aos clubes portugueses - e serve-lhes, muitas vezes, para cobrir prejuízos crónicos de má gestão. Mas que outra alternativa têm os nossos chamados "grandes" face aos verdadeiramente grandes da Europa?

A facilidade com que o Sr. Abramovic atacou Villas Boas, se dispôs a pagar sem pestanejar os 15 milhões de indemnização pela rescisão unilateral do contrato com o FC Porto e de seguida se propõe, a conselho de Villas Boas ou não, continuar a desmantelar a equipa do FC Porto que para o ano vai atacar a Champions, é ilustrativa da desigualdade competitiva em que vive o futebol europeu. E isso é que devia preocupar Michel Flatini. Em lugar de alimentar um ódio ao FC Porto, feito de arrogância e ignorância, ele devia era elogiar um clube que consegue estar todos os anos entre os oito melhores da Europa, apesar das condições de desigualdade financeira que enfrenta, numa luta de sobrevivência contra o dinheiro novo dos magnatas russos, sheiks árabes e tycoons asiáticos - a quem o futebol nada deve e nada ficará a dever, quando eles se forem embora para outro ramo de negócio. Mas perceber isso é demais para a cabeça de um francês arrogante.

sexta-feira, junho 08, 2012

E TUDO O PORTO LEVOU (07 JUNHO 2011)

1- Uma embaixada constituída pelos novos presidentes dos órgãos directivos do Sporting foi recebida pelo Presidente da República para uma cerimónia de apresentação de cumprimentos. Mesmo sabendo que, no quardo da nossa Constituição, um Presidente pouco tem com que se ocupar para preencher os dias não deixa de ser ridículo que um Chefe de Estado conceda audiências aos novos dirigentes de um clube desportivo para eles se lhe apresentarem. Alguém imagina o presidente Sarkozy a receber os novos dirigentes do PSG, o rei Juan Carlos os do Atlético de Madrid ou a rainha de Inglaterra os do Tottenham?

Porém, parece que não se tratou apenas de apresentar cumprimentos. Segundo confidenciou Godinho Lopes, o Sporting também lá foi sensibilizar Cavaco Silva para a sacrossanta questão da «verdade desportiva». E disse isto sem se desmanchar a rir! E não era caso para menos: o FC Porto ganhou os títulos nacionais de todas as modalidades colectivas nas quais está inscrito e que constituem tambem as quatro principais modalidades desportivas profissionalizadas. Foi campeão nacional de futebol (em três das quatro categorias: seniores, juniores e iniciados), campeão nacional de basquetebol, de andebol e de hóquei em patins (pelo 10.° ano consecutivo). E em nenhum desses campeonatos e modalidades encontrou oposição que se visse do Sporting -todos foram disputados e ganhos ao Benfica e palmo a palmo no basquetebol e no hóquei. O Sporting estava lá, participava do campeonato mas nunca constituiu ameaça alguma às pretensões portistas. E, no futebol, então, é melhor nem falar: 36 pontos de atraso em relação ao FC Porto no campeonato (12 derrotas de diferença!) e nem sombra de possibilidade de ter arrecadado qualquer outro título, que não o campeonato, face aos quatro títulos conquistados pelo FC Porto, incluindo a Liga Europa. Verdade desportiva? Não, o que os dirigentes do Sporting não suportam é a realidade desportiva actual - e, nisso, eu compreendo-os.

Já muitas vezes comentei este discurso da verdade desportiva, inventado por Filipe Vieira e adoptado, antes ainda e entusiasticamente, pelos sportinguistas. E já várias vezes expliquei o quanto este discurso tem o dom de motivar o FC Porto, ao mesmo tempo que serve de autodesculpabilização para os inúmeros erros cometidos pelos adversários — a começar por erros de gestão, de planeamento, de discernimento dos seus dirigentes. Basta atentar nas trapalhadas que são as épocas de contratação do Sporting, esta incluída, para se perceber que ali tudo é feito ao deus-dará, sem profissionalismo, sem conhecimento de causa, sem uma estratégia negocial que se entenda. Mas eles acham, sempre acharam e continuarão a achar, que basta anunciarem as suas ambições, aliás legítimas, para que tudo se concretize imediatamente. E se tal não acontece, é porque falhou a tal verdade desportiva.

Há dias, um amigo sportinguista, entusiasmado com a nova liderança e com a notícia da contratação de um portista, Domingos, como treinador, mensajou-me: «Prepara-te, porque acabou a vossa festança. Para o ano. tudo vai ser diferente.» Ao que eu respondi: «Ah, sim? Porquê — o Sporting vai roubar-nos o Hulk e o Falcão?»

2- FALCÃO é justamente o jogador portista de quem mais se fala neste defeso. Os seus dezassete golos na Liga Europa, que fizeram dele o maior marcador de sempre numa competição europeia ao longo de uma época, despertaram as atenções para este extraordinário ponta de lança que o FC Porto desviou do Benfica. Aparentemente, a intenção do FC Porto é recusar vendè-lo - antes prorrogar e melhorar o seu contrato, aumentando também a cláusula de rescisão. O mesmo já foi feito com Hulk e a política de aquisições para a época que vem parece centrar-se sobretudo na manutenção dos jogadores nucleares do plantel - política que eu aplaudo a mãos ambas. Falcão é, indiscutivelmente, um dos jogadores nucleares desta equipa, mas, para mim, o jogador decisivo, o desequilibrador total, o génio à solta, é HULK. O número ontem revelado por A BOLA é elucidativo: a cada 63 minutos, Hulk construiu um golo, ou assistindo ou marcando. Olhemos agora para o resto do plantel que respondeu por uma das mais brilhantes, se não a mais brilhante época de sempre, de uma equipa do FC Porto.

HELTON foi uma das boas surpresas da época: se ainda não é impecável nas saídas aéreas, melhorou imenso nesse capítulo e concluiu toda a época sem dar um frango, antes salvando golos iminentes em momentos de jogo decisivos, como na final de Dublin. Sempre que chamado, BETO mostrou também classe e categoria su-ficientes para um dia assumir aquela baliza. KIESZEK teve a infelicidade de, numa das raras oportunidades de que dispôs, oferecer o golo que nos afastou da Taça da Liga, a única competição perdida.

Na defesa, boas prestações de FUCII.E e SAPUNARU no lado direito, excelente a época de ÁLVARO PEREIRA, à esquerda, e óptima surpresa de SERENO, quando chamado a jogar. No centro, o mais utilizado, mas também o mais fraco, para mim, foi ROLANDO, bastas vezes batido em circunstâncias que comprometeram; OTAMENDI é o melhor tecnicamente e foi uma boa aquisição, ainda com muito para progredir, e MAICON está naquela linha de fronteira em que tanto pode tornar-se um excelente central, como ser incapaz de dar o salto de categoria que a titularidade no FC Porto exige. Penso que mais um central viria a calhar (o Nuno André Coelho, que o Sporting não soube aproveitar...)

No meio-campo está a grande revelação da época, para mim e para tantos outros que pouco ou nada dávamos por ele: GUARÍN. Parece um jogador novo, outro, completamente diferente em tudo e, se continuar assim, a caminho de se tornar um caso sério (e um grande rematador de meia-distância, o que é sempre uma mais-valia num médio). BELLUSCHI continua a ser o mais fino tecnicamente e fez também uma boa época, dividindo o lugar com Guarín, visto que Villas Boas não prescinde de Moutinho. E MOUTINHO é, para mim, o caso mais difícil de classificar: é um jogador diferente visto na televisão ou ao vivo, no estádio. É magnífico no jogo posicional e como elemento de sustentação de todo o jogo da equipa. Mas muito pouco criativo, mau rematador e incapaz de rasgar o jogo: dois golos e duas assistências em toda a época é demasiado curto para um médio ofensivo. FERNANDO, no meu ponto de vista, é a ovelha negra da equipa, com a agravante de actuar numa posição fulcral. Atacar não sabe, é absolutamente inoperante; e, a defender, é lento no pensamento e na execução, o que o torna perigosamente faltoso. Precipitado, corta para onde está virado, várias vezes entrega a bola aos adversários e, nas duas finais da época, em Dublin e no Jamor, ofereceu dois golos, que só não se consumaram porque Helton e Beto não deixaram. Curiosamente, é o único jogador que mostra vontade de sair e acredita que para melhor. Eu rezo para que tal aconteça, mas não acredito, é claro, que equipas como uma Juventus o queiram. O seu substituto, SOUZA, nas raras vezes em que foi utilizado mostrou ser incomparavelmente melhor que Fernando e com uma margem de evolução imensa.

Na frente, e para além de Hulk e Falcão, o terceiro titular habitual, VARELA teve uma época assim-assim: começou muito bem, depois lesionou se já não regressou igual. Na sua ausência, os adeptos portistas puderam ver o novato JAMES - e eu, desde a primeira vez que o vi, fiquei entusiasmado com o futebol deste miúdo. Parece-me bem que nada o conseguirá travar no caminho para se tornar um grande jogador do planeta futebol. CRISTIAN RODRIGUEZ teve suficientes oportunidades para tentar um comeback em força: não esteve mal, mas também não mostrou argumentos para disputar um dos lugares mais povoados e bem preenchidos nesta equipa (e ainda vêm aí o Djalma, o Iturbe e há o miúdo Christian à espreita, e Ukra de regresso). Enfim, WALTER: no início pareceu um puro erro de casting, mas com o tempo foi mostrando alguns argumentos, todavia ainda não convincentes, para ser o suplente oficial de Falcão. E houve ainda o MARIANO GONZALEZ, que Deus proteja.

3- A Selecção Nacional em mais um dos seus jogos--tipo: vitória por um magro 1-0, grandes dificuldades de construir oportunidades, Cristiano Ronaldo apagado e parecendo jogar só para si. Assim, é difícil contrariar o pouco entusiasmo popular de que falava Vítor Serpa, no sábado passado.