quarta-feira, junho 06, 2012

PARA A ETERNIDADE (24 MAIO 2011)

1- Agora, que vem aí o defeso (que, conforme se sabe, é a época em que só se fala do Benfica e o Benfica é o crónico campeão), eu proponho não deixar que tal aconteça pacificamente. Antes que se escrevam páginas apologéticas sobre o Troféu Guadiana ou a Taça Amizade (também conhecido como Troféu Platini), irei escrever antes sobre coisas verdadeiramente grandes e marcantes como o facto de — com ou sem a anedota de uma coisa chamada Taça Latina, oportunamente desenterrada do baú onde estão também a Taça Eslava, a Taça Escandinava ou a Taça dos Balcãs — o FC Porto ter ultrapassado o SL Benfica como o clube português de futebol que mais títulos conquistou ao longo da sua história. Alô, seis milhões, ouviram bem? Somos o maior clube português em número de títulos conquistados. Parabéns, JNPC!

Proponho-me massacrar os meus leitores as vezes que forem adequadas para que ninguém esqueça que esta época do FC Porto ficará para sempre marcada a ouro como a mais extraordinária época de um clube português, desde mil novecentos e troca o passo até aos dias de hoje. Proponho-me revisitar aqui e analisar detalhadamente aquilo que foram os passos decisivos deste ano do Dragão, os seus jogos mais importantes, os seus jogadores um por um, o seu futebol de luxo, as suas vitórias, os seus títulos. Mas, porque não caberia neste texto, por ora fico-me pelo que foi o resto desta semana que eu tinha escrito que poderia ficar para a eternidade. E ficou.


2- Começou em Dublin, e não começou como todos nós desejaríamos. A grande montra do futebol português montada em Dublin acabou por ser... uma grande oportunidade perdida. Milhões de espectadores no mundo inteiro, ainda perplexos com uma final entre duas equipas portuguesas, entre as mais de cem que disputaram a Liga Europa, esperavam para perceber o segredo dessa proeza. E o que viram foi nada ou quase nada, ao ponto de, justificadamente, se poderem perguntar «mas como é que estas duas equipas chegaram à final?». Pergunta mais do que injusta, porque nós sabemos bem o mérito que, tanto Braga como FC Porto, tiveram em marcar presença em Dublin.

Porém, na hora da verdade, na hora de mostrar ao mundo a razão dos seus méritos, Braga e Porto serviram à plateia mundial um jogo fraco de mais, com um total de quatro remates acertados na baliza, e duas oportunidades de golo para cada lado. Um jogo lento, medroso, quezilento, sem emoção nem grandes jogadas. Eu sei que. como gostam de dizer os treinadores, «as finais são para ganhar», mas, quando uma final é vista planetariamente por dezenas ou centenas de milhões de adeptos do futebol, é preciso começar por justificar porque se mereceu estar ali.

O Braga é o menos culpado: jogou o que sabe e pode. com as armas que tem e, como habitualmente, o seu jogo (para 0-0 ou 1 -0), foi chato, defensivo, sem rasgo algum - estrategicamente adequado, cenicamente feio. As culpas maiores vão para o FC Porto, que terá realizado um dos piores jogos da época, o pior de toda a Liga Europa, com bastante falta de inspiração e demasiada falta de coragem para assaltar a fortaleza defensiva do Braga, como sabe e pode. Esteve toda a primeira parte a fazer cerimónia, deixando-se contagiar pelo engodo do jogo bracarense, não se atrevendo a enfrentar uma equipa que defendeu sempre com dez atrás da linha da bola, inexistente no ataque e sem pudor algum de mostrar que assim poderia continuar eternamente. Mas o grande golo de Falcão ao terminar a primeira parte, fazia prever um segundo tempo menos cauteloso de ambos os lados e, sobretudo, um FC Porto decidido a procurar rapidamente o segundo golo e matar a história do jogo. Porém, tenho para mim que aquela inacreditável oferta de Fernando, salva por Helton, logo a abrir a segunda parte, teve o condão de deixar a equipa assustada: não com o Braga, mas consigo própria e, sobretudo, com a facilidade com que, num abrir e fechar de olhos, o perigo público que é Fernando deitasse tudo a perder.

André Vilas Boas deveria ter tido a coragem de o tirar logo de jogo (como o fez no Jamor), para sossegar a equipa. Aliás, em minha opinião, deveria tê-lo tirado da equipa há muito mais tempo, aí por Outubro ou Novembro, assim que se percebeu que dali jamais viriam melhoras e só calafrios. Mas não teve essa coragem e eu creio que esse facto foi decisivo para que o FC Porto nunca tivesse ousado, depois desse lance, ir à procura do segundo golo, em vez de acabar, como era previsível, a defender-se dos dez minutos finais de chuveirinho inconsequente do Braga — que a mais também não aspirava. No final, a vitória foi justa, graças essencialmente à jogada do golo, mas, ou foi impressão minha ou ficou a sensação que nem jogadores nem adeptos estavam com grande espírito para festejos, de tal forma a vitória e mais um título europeu conquistados tinham deixado um sabor insípido, após tão pálida exibição. Isso mostra, aliás, a grandeza deste clube: enquanto o Braga se lamentava da injustiça da derrota (vá se lá saber porque) ou do árbitro que não tinha mostrado um segundo amarelo ao Sapunaru (absolutamente injustificado, assim como o primeiro), e alguém, além do triste Coroado, viu o umbigo ou a madeixa do Falcão adiantados no golo, os adeptos do FC Porto lamentavam-se que não tivesse sido mais um jogo de mão cheia, como o foi contra o Villarreal ou o Spartak, o CSKA, etc. Quem viveu Sevilha e Geselkirchen, saiu meio frustrado de Dublin. Mas foi mais uma taça europeia conquistada, o sétimo título internacional acumulado, a sétima final internacional vencida em dez já disputadas: sozinhos, temos mais do dobro do que todos os outros clubes portugueses (Benfica e Sporting) juntos. E em Agosto lá estaremos, a disputar mais uma Supertaça Europeia, frente a Barcelona ou Manchester United. Isso é o que fica. Parabéns a todos, jogadores e equipa técnica, for a job well done, por uma competição onde muito cedo fomos apontados como o grande favorito — por mérito próprio, demonstrado em campo, passo a passo, e não por fanfarronice de quem acha que os títulos se conquistam por anúncio prévio.

Mas não foi só a pobreza do futebol exibido por ambas as equipas na Arena de Dublin que se traduziu numa oportunidade perdida para o futebol português afirmar os seus créditos. Doeu-me a alma e o orgulho pátrio ver que, no final, nos festejos da vitória, todos os jogadores estrangeiros do FC Porto tinham à sua disposição uma bandeira nacional do respectivo país, na qual se embrulhavam, e os jogadores portugueses não tinham nada! Vi bandeiras da Argentina, do Uruguai, da Colômbia, do Brasil, da Polónia, da Roménia, e até uma bandeira de Cabo Verde a embrulhar Rolando que, todavia, é internacional português. Só de Portugal não vi bandeira alguma (e vi escrito, mas não vi com os meus olhos, que o Ruben Micael tinha uma bandeira... da Madeira!). E, embora seja tristemente verdade que, tanto o FC Porto como o Braga (e o Benfica e quase todos os clubes portugueses) sejam hoje multinacionais de tendência sul americana, também existe, caramba, ainda alguns portugueses no plantel do FC Porto: Beto, Sereno, Rolando (?), Micael, Moutinho, Varela. Não percebo como é que a sempre infalível organização do FC Porto tinha à mão uma bandeira nacional para cada jogador estrangeiro da equipa, e não tinha nenhuma bandeira nacional para os jogadores portugueses! Dá que pensar!

3- No Jamor, foi uma final espectacular, num relvado seco e pesado, que muito prejudicou a velocidade de jogo do FC Porto. O Vitória teve uma semana de estágio para preparar o jogo, sem baixas, nem desgaste, nem cansaço. O FC Porto teve uma viagem a Dublin no meio da semana, uma final europeia para disputar, dois dias e duas noites de festejos, as baixas de Fucile, Otamendi e Falcão, e, mesmo assim e apesar de nova tentativa de Fernando de entregar a taça ao adversário, o resultado foi o que se viu. Mesmo num relvado lento, entregue o jogo ao contra-ataque dos portistas, à velocidade de Hulk e ao génio cada dia mais aceso de James, o FC Porto desbaratou o Vitória e o jogo bem podia ter acabado 9-3 ou 11-4.

Cheguei a ter pena do Vitória e dos seus fantásticos adeptos - um clube pelo qual tive sempre mais do que simpatia, quase militância - até ao dia em que, aliciado pela Instituição, protagonizou um dos mais feios episódios do nosso futebol, tentando entrar na Liga dos Campeões pela porta do cavalo, à custa do FC Porto e da mais rasca interpretação do que chamavam a verdade desportiva. Bem que devem ter rezado para que o Benfica afastasse o FC Porto da final do Jamor, mas não tiveram sorte nenhuma. O nosso destino é este e o castigo ainda não cessou.

Parem, escutem e olhem: talvez nunca tenha havido, no futebol português, uma equipa com a categoria desta. Nem o Benfica de 63, nem o Porto de 87 ou 2004. André Villas Boas pediu aos portistas que não se esqueçam e que não tenham a memória curta. Tem toda a razão no pedido, mas nenhuma razão para se preocupar: esta foi uma época para a eternidade. E todos o sabemos.

terça-feira, junho 05, 2012

UM CAMPEONATO PARA A HISTORIA,UMA SEMANA PARA A ETERNIDADE (17 MAIO 2011)

1- Um juiz-de-linha particularmente distraído viu um off-side inexistente a James, quando ele entrava isolado pela marca de penalty direito à baliza do Paços de Ferreira, mas depois nào conseguiu ver dois jogadores do Paços em claro off-side, para facturarem o segundo golo da equipa. E, assim, esse juiz-de-linha, sozinho, mexeu com a História e falsificou-a: impediu que o FC Porto tenha terminado o campeonato de 2010/11 igualando a remota proeza de Jimmy Hagan, ainda vivíamos em ditadura, de 28 vitórias, 2 empates e zero derrotas em todo o campeonato. O FC Porto ficou a um golo dessa marca que parecia absolutamente irrepetível: o tal segundo golo do Paços, que nunca deveria ter existido. Isto sim, meus amigos, é dos tais erros de arbitragem que marcam muito mais do que uma época...

Mas não há comparação alguma entre terminar um campeonato de 30 jornadas invicto e com 93% dos pontos possíveis agora ou em 1972. Assim como nào há comparação entre vencer a Taça dos Campeões Europeus em 1962 ou 63 — com um clube por país, sem cabeças-de-série e sorteio de eliminatórias totalmente aberto, podendo-se atingir a final sem encontrar nenhum dos grandes da Europa pelo caminho ou vencer a actual Liga dos Campeões, com três pré-eliminatórias, fase de grupos, as três ou quatro melhores equipas inglesas, espanholas, alemãs e italianas em prova e um afinadíssimo método de progressão que garante que ninguém chega à final sem ter afastado pelos menos dois ou três tubarões europeus.

O FC Porto terminou um campeonato para a História, sem nenhuma derrota e apenas com três empates cedidos (dois deles jogando em inferioridade numérica, grande parte do tempo), com uns inimagináveis 21 pontos de avanço sobre o segundo classificado e 36 sobre o terceiro. Invicto em casa e fora, melhor ataque, melhor defesa (com quase metade dos golos sofridos pelas segundas melhores), melhor marcador (Hulk), e juntado ao que vinha da época passada, 39 jogos do campeonato consecutivamente sem perder e sem ficar em branco. Eu bem tento explicar ao meu jovem filho portista que nunca mais, certamente, voltaremos a ver coisa assim. E, quando ouvimos o Fábio Coentrão a dizer que o Benfica não foi campeão porque lhe faltou sorte e ajuda dos árbitros, eu tenho de lhe explicar que um grande jogador de futebol não é necessariamente a pessoa mais qualificada para analisar as evidências do futebol.

2- Amanhã em Dublin e domingo no Jamor, o FC Porto pode acrescentar a este feito incrível ainda mais um ou dois triunfos que farão desta época uma coisa nunca vista, aqui ou no planeta inteiro. A Europa toda tem os olhos esbugalhados em André Vilas Boas, que entrou no futebol como um meteoro, desafiando as interrogações de muitos (eu, por exemplo) as desconfianças de outros e as previsões de fiasco de um (José Mourinho). E, mais do que o inacreditável registo de vitórias que acumula, é ainda o método para tal: um futebol de ataque, de muitos golos, de posse e circulação de bola em velocidade e movimento constante, alegre, solto, emocionante. E a prova de que não se trata apenas de um tipo de jogo proporcionado por alguns fora-de-série (que, todavia, são, obviamente determinantes), é que quando ele retira algumas peças nucleares mas sem desfazer a equipa, como em Portimão, em Setúbal ou no Funchal, o tipo de jogo e a sua dinâmica são iguais e os resultados também. E dizem que o mesmo acontece com os juniores, que também foram campeões nacionais (com 13 vitórias e uma derrota, nos 14 jogos da fase final). Ou seja, trata-se de uma escola de jogo. Ao contrário do que imagina o Fábio Coentrão e tantos outros maus perdedores, nada acontece por sorte ou por acaso. Vencer assim dá muito trabalho e exige muito talento — coisa a que os portugueses não estão habituados. E infinitamente mais fácil tentar denegrir o mérito alheio do que tentar imitá-lo.

Amanhã em Dublin, vão estar frente a frente dois jovens treinadores, que são grandes portistas e já certezas do nosso futebol. Duas equipas que não se comparam em termos de capacidade financeira e poder associativo e também, julgo, em termos de qualidade futebolística. O FC Porto actual é muito melhor que o Braga e, como e forçoso, tem melhores jogadores - o que nào quer dizer que seja um vencedor antecipado, porque, primeiro, vai ter que dobrar essa extraordinária capacidade de luta e crença que o Braga já demonstrou ser capaz de inventar nos grandes momentos e frente às grandes equipas.

Braga e FC Porto são indiscutivelmente, entre as perto de centena e meia de equipas que disputaram esta Liga Europa, as que mais mereceram estar amanha em Dublin. O Braga, que veio de uma magnífica estreia na fase de grupos da Champions, teve sempre adversários mais difíceis de ultrapassar que o FC Porto (excepto nas meias-finais) e fê-lo com uma vontade e determinação notáveis. O FC Porto, afastado da Champions pelo túnel da Luz, ultrapassou categoricamente todos e cada um dos adversários que lhe saíram pela frente nesta Liga Europa, ao ponto de ter vencido oito dos nove jogos disputados fora.

3- O país que gosta de futebol teria agradecido um FC Porto na Champions e não na Liga Europa. Mas os justiceiros da verdade desportiva não o quiseram e tudo fizeram para o impedir. Eu acho muito bem. aplaudo vivamente, que a direcção da SAD do FC Porto os persiga na Justiça a sério e que, mesmo com resultado incerto, lhes exija uma indemnização por danos morais e materiais resultante da mais vergonhosa decisão alguma vez tomada por um órgão jurisdicional do futebol. Esses e os artistas que congeminaram aquela reunião fantasma do CJ da Liga e depois quiseram justificá-la escudados num parecer encomendado à medida do maior cata-vento jurídico (e politico) da nossa praça. Acho muito bem que persigam nos tribunais esses e o jornalista mentiroso e leviano da Marca, e os que usam, como coisa sua, as escutas cedidas ao jusficeiros do CD pela drª Morgado, delas seleccionado o que lhes interessa, omitindo o que não lhes interessa e esquecendo-se de contar o que os tribunais decidiram sobre isso e porquê. E também todos os Paixões deste futebol e toda essa gentinha que vive ao serviço do sistema - que existe, está montado como tinha sido previamente anunciado, e funciona a favor do seu mentor. Ainda a semana passada aqui escrevi que, na hora de tão retumbante vitória nossa e tão devastadora derrota dos adversários, era preciso ser contido e evitar a humilhação dos vencidos de hoje, que podem muito bem ser os vencedores de amanhã. Mas, depois de assistir a mais uma semana de intrigas e maledicências, de calúnias e montagens para enganar imbecis, vindas lá da central que comanda o sistema, já não sei, sinceramente, se não é melhor e mais pedagógico esfregar-lhes a humilhação na cara. Estamos a ficar fartos do sistema - eu estou, todos os portistas estão! A inveja, bem o sabemos, anda de mãos dadas com a mediocridade e a incompetência. Mas, ao menos, tenham noção do ridículo!

4- Segundo conta o Diário de Notícias, os jogadores do Sporting festejaram em todo o caminho de regresso de
Braga e pela noite dentro a conquista in extremis do terceiro lugar no campeonato. E por tamanha façanha (ficar a 36 pontos ou treze vitorias de distância do campeão), cada jogador vai receber um prémio de 6.000 euros. Fazem bem em ir buscar um treinador formado no FC Porto: ele vai mudar métodos e objectivos, vai-Ihes ensinar coisas que eles nem sonham. Mas vai ser preciso muito mais tempo e muito mais trabalho para conseguirem assimilar uma atitude à Porto. Perguntem ao João Moutinho do que se trata.

5- Os grandes senhores nao gostam de esperar para ver os seus desejos satisfeitos. Não se detém com pruridos de boas maneiras nem cuidado em não melindrar os mais pequenos. O grande senhor do futebol português, também conhecido por A Instituição, quando quer um jogador de um clube mais pequeno cá da praça, não está com meias medidas: é na hora. E se, em nome da verdade desportiva os puder apalavrar antes dos jogos que contra as seus clubes vai disputar, melhor ainda. Para comprar o Jardel ao pobre do Olhanense, a Instituição tratou do assunto na manhã do dia de um jogo contra o mesmo Olhanense — e com uma cláusula de cavalheiros que logo impediu o Jardel de jogar nessa noite contra o seu futuro patrão. Agora, para comprar o Artur ao SC Braga, a Instituição nem se dispôs a esperar três dias, deixando-o em paz e concentrado até disputar a final da Liga Europa. Mandou-o vir a Lisboa logo a seguir a um treino e antes de entrar em estágio, e um envergonhado Artur, surpreendido no aeroporto da Portela, declarou que tinha vindo «ver uns amigos» e que estava apenas, claro, concentrado no jogo de Dublin. E são estes grandes senhores que aspiram a dar lições de desportivismo e verdade desportiva!

segunda-feira, junho 04, 2012

NÃO HAVIA NECESSIDADE (10 MAIO 2011)

1- Foi uma semana estranha, pois que aqui estou a escrever sobre dois desaires do FC Porto: a derrota em Villarreal e o empate/derrota caseiro com o Paços de Ferreira. Foram dois desaires que nada comprometeram, nem a passagem à final da Liga Europa, nem a possibilidade de terminar invicto o campeonato. Mas estragaram algumas estatísticas: a de chegar ao fim da Liga Europa com nove jogos disputados fora e nove vitórias; a de terminar o campeonato só com vitórias no Dragão; e a de igualar o melhor campeonato de sempre, do Benfica de Jimmy Hagan. Isso doeu um pouco e, sobretudo, pela sensação que ficou de que não havia necessidade: quer em Villarreal, quer no Dragão, o FC Porto desperdiçou duas vitórias completamente adquiridas.

Villas Boas e a equipa foram muito elogiados por terem sobrevivido à fase massacrante de seis jogos terríveis em dezoito dias, sem fazer poupanças e ganhando sempre — enquanto que Jorge Jesus, por exemplo, adoptou estratégia diferente e com resultados péssimos. E, subitamente, Villas Boas mudou de filosofia: correu bem em Setúbal, correu mal a seguir. Mas eu não sou contra as poupanças, quando se está em final de época, os jogadores principais já levam 50 jogos em cima e a equipa ainda luta por títulos em várias frentes. Mas acho que as poupanças devem ser feitas rotativamente, dois ou três jogadores de cada vez e não meia equipa de uma só vez ou todo um sector ao mesmo tempo. Em minha opinião, foi isso que aconteceu em Villarreal e no Dragão e o resultado foi vermos fugir-nos vitórias que já pareciam garantidas. Ambos os jogos deram para confirmar os pontos vulneráveis desta magnífica equipa (que também os tem): Rolando continua a sua mais fraca época desde que chegou ao Dragão, falhando demais em lances decisivos e mostrando como era fácil jogar bem ao lado de Bruno Alves. João Moutinho regressou, em ambas as ocasiões, ao tipo de exibição que eu critiquei — foi absolutamente inexistente e inócuo, quer num, quer noutro jogo. Ruben Micael confirmou que não tem andamento para titular: pensa e executa devagar, falha quatro passes em cada cinco. Com ele e Moutinho no meio-campo, como contra o Paços, o jogo tem de ser directo da defesa para o ataque, porque o meio-campo só joga para trás e para os lados, e isso tornou-se cristalino quando entrou o Belluschi, o melhor médio da equipa, e se começou a ver passos de rasgo, a abrir caminhos na frente. O Fernando (bem, eu sou dos que não se rendem aos talentos dele) foi simplesmente um desastre em Villarreal. Ocupa uma posição de luxo no xadrez da equipa e ainda desfruta de um estatuto de luxo: está dispensado de construir jogo, só se lhe pede que o destrua. E ele fá-lo da forma mais primária, corta de qualquer maneira e para onde está virado, rarissimamente conseguindo um corte que deixe a bola com a equipa. Mas em Villarreal foi pior ainda: não cortou um lance e ainda comprometeu em dois ou três daqueles cortes e passes cegos. Também vimos o Walter falhar um golo de criancinha, no último minuto do jogo do Dragão, e continuamos à espera que ele emagreça para ficar um novo Falcão, porque, por enquanto, é apenas igual... a um Walter. E, depois, enfim, tivemos ainda o caso humano do Mariano Gonzalez, que Villas Boas fez entrar em jogo no Dragão, antes de ter a vitória confirmada e não podendo ignorar que, quando ele entra, passamos a jogar com um a menos, de tal maneira é impressionante o dom que tem para estragar toda e qualquer jogada que lhe passe ao alcance. É um excelente rapaz e um bom profissional, mas espero bem que esta tenha sido a última vez que tivemos de pagar a factura de lhe dar minutos de jogo.

Em contrapartida, confirmou-se que Helton está a fazer uma época notável e, para muitos, inimaginável. Que Otamendi é um central a sério. Que o trio-maravilha Álvaro Pereira-Falcao-Hulk são a alma desta equipa e res ponsáveis por 80% do seu êxito: a saída de qualquer um deles será paga duramente. Confirmou-se ainda que James é já um talento confirmado e deveria ser titular do flanco esquerdo do ataque, por direito próprio, e que Guarín é a maior descoberta desta época e um elemento hoje indispensável no miolo. E, já agora, Souza é muito melhor e mais sólido que Fernando; Fucile ou Sapunaru dão ambos garantias no lado direito da defesa, mesmo Sereno só lhe falta aprender a cruzar melhor para ser também uma revelação a lateral, e Beto pode ocupar a baliza à vontade, que fica bem entregue.

2- Mantenho-me fiel à minha tese; quando uma equipa, prejudicada por um ou dois erros de arbitragem, não mostrou, todavia, futebol para merecer ganhar, desculpar-se com o árbitro é o caminho fácil para esconder responsabilidades próprias. Mas, quando uma equipa jogou o suficiente para merecer ganhar e foi prejudicada decisivamente pela arbitragem, tem razão para se queixar. Dois erros de arbitragem evidentes, por todos reconhecidos e decisivos para o resultado final, foram determinantes para evitar que o FC Porto prosseguisse a sua busca de vários recordes neste campeonato. O problema é que isto tem sido sistemático, nestes últimos jogos: foi assim em Setúbal, foi assim nos dois jogos do Estádio da Luz. Mas como se trata do FC Porto e, mesmo assim, seguimos em trente, tudo está bem, quanto à verdade desportiva. Fosse, porém, com o Benfica ou o Sporting, e eu queria ver o banzé que por aí iria!

3- A triste equipa de arbitragem chefiada por Cosme Machado conseguiu estragar em parte uma festa muito merecida. O título de andebol (tri-campeões) e o de futebol júnior — para não variar, conquistado no terreno do Benfica - acrescentam-se a uma época de esplendor. E ainda lutamos, na ponta final, pelos títulos no basquetebol e no hóquei. Uma época de campeões, um clube de campeões!

4- Leonor Pinhão acertou no diagnóstico: Porto e Braga são os finalistas da Liga Europa. E com todo o mérito, após duas brilhantes campanhas europeias e após terem passado nove meses a mostrar que são as duas melhores equipas portuguesas da actualidade, cada uma no seu estilo. Na véspera do jogo da segunda mão, o Benfica ainda tentou duas manobras desesperadas, em abono da verdade desportiva: a invenção, soprada à Marca, do suposto jantar de Pinto da Costa com os árbitros do jogo com o Villarreal da primeira mão, e o estranho caso da fotografia introduzida ao intervalo na cabina do árbitro do Braga-Leiria. Queriam desestabilizar os adversários, mas só conseguiram cobrir-se de ridículo, de tal maneira ficou à vista a mão escondida que atirou as pedras.

No caso da fotografia de Braga, o que mais me chocou foi que se tenha conseguido passar para segundo plano um facto escandaloso: uma agressão de káraté, inacreditável de violência, sobre o Hélder Barbosa, aos 3 minutos, que foi perdoada por esse absoluto incompetente que é Bruno Paixão, que só se mantém no futebol por ser anti-portista e alinhar por cores mais influentes nos meios que decidem. De repente, a agressão deixou de importar e o que passou a importar foi a introdução da fotografia da agressão na cabina do árbitro. A coisa foi vista como uma forma de «pressão» tão grave, que até em Coimbra ressuscitou esse inesquecível Ricardo Costa, a quem a verdade desportiva tanto deve, com mais uma das suas luminosas teses jurídicas - no caso, defendendo nada menos do que a despromoção do SC Braga! Mas esta gente não se enxerga mesmo? Julgarão que somos todos parvos? Julgarão que merece alguma credibilidade a quem quer que seja um Conselho de Disciplina que consegue dar trinta dias de suspensão a um agredido e onze ao agressor, como fizeram com Jorge Jesus, esperando o tempo necessário para lhe aplicar o castigo quando tal era indiferente e terminá-lo na véspera de já não o ser?

Enfim, vai à final quem o mereceu. E, vendo o comportamento dos adeptos do Benfica em Braga, a somar aos seus recentes desempenhos nas recepções ao FC Porto, na Luz, é caso para dizer que ainda bem que não vai haver um Porto-Benfica, em Dublin: seria uma vergonha para o País!

5- E, agora que as últimas ilusões benfiquistas morreram por razões à vista, não é altura de pisar em cima das vencidas, apenas varrer as suas calúnias e, sem embargo, reconhecer que o Benfica, pelo menos, se bateu por melhores resultados e que foi e é ainda o adversário directo do FC Porto em tudo: futebol, andebol, basquetebol, hóquei. É verdade que, no futebol, foi vencido e até humilhado em todas as frentes, mas também uma época como esta do FC Porto não é repetível.

Não me cabe analisar os erros próprios do Benfica, que conduziram a tantas desilusões, num só ano. Apenas constato que o excesso de soberba, a incapacidade de reconhecer méritos alheios e as incansáveis tentativas dos seus advogados e papagaios de tudo reduzirem à falta de verdade desportiva, tiveram o castigo que mereciam. Sinto-me vingado de tanta inveja, tanta calúnia e tanta falta de seriedade, ao imaginar o que irá agora na cabeça desses que vocês sabem quem são. E, por todos, dou-me por satisfeitíssimo ao ler esta frase do José Manuel Delgado, sobre o futebol do Benfica: «Finalmente ficou à vista de todos que o rei ia nu». Eu não diria melhor.


domingo, junho 03, 2012

MOURINHO NA HORA DA DERROTA (03 MAIO 2011)

1- Caríssimo Eduardo Barroso: a vida, às vezes, tem mesmo coisas estranhas! Quarta-feira passada, a bordo de um avião para Madrid, comecei a ler A BOLA e deparei-me com o teu texto em que a primeira metade me era dedicada e a segunda ao Marcelo Rebelo de Sousa. Li até ao fim e depois passei-o ao passageiro na coxia ao lado, que era...o Marcelo Rebelo de Sousa! Juntos, estávamos a caminho do Chamartin, para assistir ao que iria ser a desgraça de Mourinho e Pepe, correspondendo a um simpático convite do muito simpático António Nieto, do Turismo de Espanha em Lisboa, mais a Prefeitura de Madrid e o Real Madrid - um programa que meteu também um almoço de "cocido madrileno" no "Lúcio", uma visita à exposição do Ribera, no Prado, e uma ceia nocturna no jardim do hotel a seguir ao jogo, ouvindo o Marcelo dissertar sobre o PSD e a cena política e vendo passar a Sharapova e os árbitros alemães a quem José Mourinho atribuíra todas as razões do descalabro real.

Acontece que o Marcelo me ficou com o jornal e, por via disso, tenho de me referir ao teu texto de cor. Primeiro que tudo, agradeço as tuas mais do que generosas palavras, que, vindas de quem vem, de alguém que muito admiro e há muito tempo, melhor ainda me souberam. Como tu, acredito que, por maior que seja a fé, a paixão ou até a irracionalidade entre dois seres amantes de futebol e doentes do seu clube, o essencial das coisas há-de sempre prevalecer sobre tudo o resto. Indo aos factos, eu escrevi que te tinha ouvido dizer que o árbitro que, em lugar de um canto a favor do Sporting, marcou um livre a favor do Porto, deveria, por esse facto, ser internado por razões psiquiátricas. Tu vens dizer que não falaste em razões psiquiátricas, mas sim psicoló gicas, e é possível que eu, leigo, tenha confundido umas e outras - embora desconheça que pudessem existir internamentos por razões psicológicas. Mas lá que te ouvi preconizar o internamento do árbitro, isso ouvi. E foi isso que referi como exemplo da facilidade com que os sportinguistas se atiram aos árbitros sem nenhuma frieza de análise e de como eles lhes servem sempre de desculpas para os fracassos.

Este sábado, por exemplo, caí no Sporting-Portimonense quando faltavam 20 minutos para o fim e o Sporting ganhava por 2-1. Para meu grande espanto, só o Portimonense é que jogava: atacava sem parar, enquanto o Sporting defendia com dez atrás da bola e o Postiga sozinho lá na frente. O empate parecia-me iminente, mas eis que, subitamente, três decisões sucessivas do árbitro pegaram fogo ao Estádio, incendiando os ânimos e conseguindo desconcentrar o Portimonense que, mesmo com um, e depois, dois jogadores a mais, não conseguiu voltar ao jogo. Impressionaram-me os grandes planos dos adeptos do Sporting- jovens, pais, mães e avôs - todos unidos por uma fúria irracional contra o árbitro, as caras desfiguradas de ódio, gestos obscenos, gritos de uma raiva incompreensível. E, afinal, que fez o árbitro? Isto: mostrou um amarelo (que por azar era o segundo) ao André Santos, quando ele, numa das tais faltas chamadas "inteligentes", agarrou o Ivanildo, que se ia a isolar para a baliza - incontestável; mostrou o vermelho directo ao João Pereira, que, excitado pela multidão ululante e depois de não ter conseguido que o árbitro fosse numa simulação dele, o mandou para aquele sítio que se confunde com o órgão genital masculino: não era preciso ser especialista em leitura de lábios para descodificar facilmente a frase do João Pereira: "vai pró c..., pá!". E, não fosse o árbitro não ter ouvido bem, repetiu a amabilidade mais duas vezes e, claro, foi expulso. Enfim, o pobre Duarte Gomes ainda se lembrou, vejam lá, de mostrar apenas um amarelo ao Saleiro, quando ele entrou muito feio e sem bola aos pés de um adversário. E eis mais um "escândalo" de arbitragem, em Alvalade! Eis quanto bastou para que Godinho Lopes tenha vindo também declarar-se arregimentado para o combale pela "verdade desportiva'.

(A propósito: também escreveste que os benfiquistas nem protestaram com o facto de o segundo golo do Porto na Luz, no jogo da Taça, ter nascido de um off-side. Assim como quem diz "acharam que já não vale a pena”. Mas não, caro Eduardo, não foi por isso. Foi porque: primeiro, o off side, ao contrário do que escreveste, só se tomou evidente na televisão e nem sequer foi razão directa do golo, porque quando o Hulk recebeu a bola já tinha dois adversários à frente, os quais contornou; segundo, porque te esqueceste de acrescentar que a seguir o Benfica chegou ao golo num penalty imaginado pelo árbitro (o segundo consecutivo na Luz}, e que, depois ainda, o abalroamento do Jardel ao Hulk, que ia para o golo, foi transformado de penalty em simulação do Hulk; e, finalmente, porque os benfiquistas perceberam que, depois de tudo isso e da tareia de futebol que levaram, virem desculpar se com o árbitro mais pareceria coisa de sportinguistas).

De facto, o que eu não percebo, Eduardo, é que vocês, sportinguistas, em lugar de montarem um escabeche de todo o tamanho contra um árbitro que fez apenas o que tinha a fazer - como se tivessem direito a leis especiais para vos julgar - não achem antes um escândalo que a vossa equipa, depois de quinze dias de descanso, a jogar em casa contra o último e a precisar de lutar pelo terceiro lugar, estivesse, a 20 minutos do fim, a defender uma vitória tangencial, com dez jogadores atrás da linha da bola! Percebo, sim, como é tão mais fácil mandar sempre as culpas para os árbitros! Mas, sinceramente, achas que, além de vocês mesmos, alguém ainda vai nessa conversa?

2- O mesmo fez José Mourinho, no final da derrota contra o Barcelona e na linha do que vem sendo a sua estratégia de há já largos tempos para cá. Eu fui, como se sabe, um grande admirador de Mourinho, nos seus gloriosos tempos do FC Porto e no primeiro ano no Chelsea. Mas, de então para cá, fui constatando como aos poucos ele foi privilegiando sempre os resultados e os títulos sobre a qualidade do futebol das suas equipas - como muito bem notou Cruyff (aqui ridicularizado pelos patrioteiros de serviço, como se fosse um qualquer pateta a falar de futebol). Não desvalorizo, por um momento, a importância dos triunfos que obteve e, dos quais, ter conseguido ser campeão europeu com essa fraca equipa do Inter, terá sido mesmo o maior. E também acredito que ainda iremos voltar a ver o grande Mourinho do FC Porto, com a sua paixão por um futebol de ataque e aventura. Mas o facto é que, de há uns anos para cá e fosse em Inglaterra, em Itália ou agora em Espa nha, o futebol das equipas de Mourinho faz-me adormecer e invariavelmente dar o tempo por mal empregue, de tal forma tudo aquilo é táctico, aborrecido, sem chama de fulgor nem risco. E, tal como se perguntavam os adeptos do Real à saída de Chamartin, quarta-feira passada, também eu me pergunto se o maior clube do mundo, com a mais cara equipa do mundo, não tem estrita obrigação de jogar mais do que aquilo que vamos vendo? Como é que se avança para uma primeira mão de uma meia final da Champions em casa, com os três pontas-de-lança sentados no banco, substituídos por três trincos e um fora-de-série como o Kaká substituído na posição dez por um defesa central, o Pepe, cuja missão era tentar interromper o tiki-taka do Barça, se necessário com violência e correndo o risco de expulsão, como sucedeu? Mourinho entrou em campo borrado de medo do Barça e sem vergonha de o esconder. Por isso, Cristiano Ronaldo desesperava em campo e confessava no final que não gosta de jogar assim. Por isso, o Real teve 28% de posse de bola contra 72% do Barça (!). Por isso, Mourinho se descaiu no final, dizendo que, não fora a expulsão de Pepe e poderiam ter jogado três horas, que o resultado não passaria de 0-0 (pelos vistos, o seu grande objectivo!).

Como se tornou evidente aos olhos de todos, Mourinho não perdeu por causa do poder do Barcelona, da UN1CEF ou da UEFA ou por causa do árbitro: estava na cara, que, com dez ou com onze, mais cedo ou mais tarde, quando Leonel Messi quisesse, o Real ia perder. Perdeu porque levou uma lição de futebol da melhor equipa do mundo e do melhor jogador do mundo de todos os tempos. A derrota nem seria de espantar: o que espantou foi a atitude de auto-humilhação, de falta de respeito pelo púbico e pelo nome do Real. A verdade é que não sei como é que este Real Madrid de José Mourinho conseguiu ir tão longe na Champions. Conheço várias equipas bem melhores por essa Europa fora - a começar por uma, chamada FC Porto, frente à qual este Real não tinha hipótese alguma, nem que jogasse com cinco trincos! Resta a Mourinho fazer o mesmo o que o FC Porto fez há quinze dias para a Taça de Portugal: virar um 0-2 caseiro num 3-1 fora de casa.

3- Também, como já escrevi, esgotaram-se os adjectivos para qualificar esta fulgurante equipa do FC Porto e esta temporada para sempre inesquecível. As vitórias e os títulos já conquistados justificam-se por uma equipa de vários talentos confirmados e outros a despontarem e um treinador que tem a imensa virtude de não complicar, não se pôr em bicos de pés, não se imaginar superior a tudo e todos. Mas as recordes sucessivamente derrubados, a sede insaciável de vitórias, golos e espectáculo, isso é o carácter de um conjunto de jogadores que são profissionais como já não se vê, que não encostam a defender resultados tangenciais a 20 minutos do fim, que não se lamentam da sobrecarga de jogos nem dos penaltis que os árbitros inventam contra eles (mais um em Setúbal!), que não se acomodam, não se saciam, não deixam nunca de acreditar.

Assim foi outra vez contra o Vilarreal, quando virar o jogo de 0-1 para 2-1 e 3-1 não foi suficiente para eles se acomodarem: continuaram a cavalgada até ao 5-1 final e alé sentirem a eliminatória resolvida. Eis o que jamais conseguiriam os que só vivem a queixar-se dos árbitros.

sábado, junho 02, 2012

O ANO DO DRAGÃO (26 ABRIL 2011)

1- Há umas semanas atrás, escrevia aqui que o FC Porto tinha acabado de entrar num ciclo infernal de seis jogos em dezoito dias, inaugurado com a memorável vitória que selou a conquista do título em pleno Estádio da Luz. E dizia que, se bem que muito o desejasse, não achava possível completar de forma totalmente vitoriosa todo esse ciclo e vencer as três coisas pelas quais a equipa ainda se batia (e bate): terminar o campeonato in- victo, conseguir vencer a Taça, invertendo uma meia-final já praticamente perdida, e vencer a Liga Europa. Mas o facto é que, saído da noite de euforia da Luz, o FC Porto venceria todos os restantes cinco jogos e todos de forma categórica, juntando às seis vitórias em dezoito dias um total de 21 golos marcados - média de 3,5 por jogo. Depois da Luz, recebemos e limpámos o Spartak de Moscovo com um concludente 5-1, num jogo em que se arriscou e jogou ao mais alto nível; daí, demos um saltinho a Portimão para vencer com categoria por 3-2; novo saltinho a Moscovo e, apesar do sintético, mais uma tareia nos russos por 5-2; seguiu-se, com 48 horas de descanso depois de uma longa viagem, uma concludente vitória sobre um repousado Sporting, que só pecou por ter tido um resultado enganador: não foi jogo de 3-2, mas de 4-1; mais três dias decorridos e a fantástica virada da meia-final da Taça, na Luz, contra um Benfica que apesar de ter andado também a descansar jogadores, foi completamente impotente perante a determinação do dragão.

Ainda não chegámos ao fim, mas esta já é uma das melhores, senão a melhor época de sempre do FC Porto. Parabéns a André Villas Boas, parabéns a um extraordinário conjunto de jogadores, profissionais como raramente tenho visto. Agora, já não digo nada: tudo é possível.

2- Das quatro vitórias, todas elas determinantes, que o FC Porto obteve esta época sobre o Benfica, a de quarta-feira passada foi para mim a mais consistentee aquela em que o conjunto portista melhor exibiu a sua superioridade sobre o rival. Mesmo depois de o Benfica ter reduzido para 1-3 e teoricamente ter reentrado na luta pela eliminatória, só deu Porto até final e as únicas oportunidades de golo voltaram a ser do Porto. A cavalgada do FC Porto na segunda parte, as ondas sucessivas de ataques organizados e variados (jamais em chuveirinho ou ao acaso) deixaram uma estarrecida assistência benfiquista perplexa por perceber que o incrível ia mesmo acontecer. E aconteceu; foi o terceiro título roubado este ano ao Benfica. E, não fosse o impensável frango do Kieszek, no Dragão, num jogo que estava controlado e à beira do fim, e o FC Porto teria acabado a disputar e, quem sabe, também a roubar a Taça da Liga ao Benfica...

3- No Benfica, faltaram os dois alas habituais, Gaitán e Sálvio; no FC Porto, dois médios construtivos, Belluschi e Guarín. Seria de prever que o Benfica tivesse dificuldadcs atacantes pelos extremos (como teve), e que o FC Porto perdesse a luta do meio-campo, o que não sucedeu. E não sucedeu, porque neste jogo emergiu um João Moutinho novo, surpreendente, uma espécie de cometa em movimento constante. Para dizer a verdade, fiquei um pouco surpreendido (sobretudo, com o remate certeiro para o primeiro golo), mas não totalmente surpreendido. É que, de há uns tempos para cá, e especialmente vendo-o jogar ao vivo, eu fui mudando a opinião que dele tinha e que, como se sabe, estava longe de ser positiva - sobretudo, tendo como comparação o futebol de Raul Meireles, a quem ele veio substituir. Estava-me a guardar para um texto que tenciono escrever no final da época, com apreciação individual de todo plantel portista, mas, sob pena de pa- recer desonestamente teimoso, os factos forçam-me a antecipar o que irei escrever sobre João Moutinho. Continuo a achar que, excepção feita a este jogo da Luz, Moutinho aparece regularmente como um jogador muito pouco decisivo no futebol da equipa: não marca golos, não assiste para golos, não é jogador de virar jogos ou comandar vitórias. Mas quando o espaço em que ele actua à nossa vista se alarga para além do ecrã de televisão, surge um Moutinho até aí invisível e que tem o dom de adivinhar sempre por onde passa o jogo e estar sempre no local certo, funcionando como pivot de toda a gente: se alguém está apertado e tem de atrasar, está lá Moutinho para ajudar; se alguém não tem linha de passe, está lá Moutinho para receber. Não é ele, de facto, que faz os passes de ruptura, mas é ele que faz a maioria dos passes de costura. Escapa-me o conhecimento técnico para saber se um jogador assim é essencial numa equipa que joga quase sempre para a frente, em progressão e ataque. Mas no futebol catalão de Vilas Boas talvez seja: os resultados falam por si e, assim sendo, tenho o maior prazer em meter a viola ao saco e espero não ter de a tirar de lá outra vez.

4 - Por falar em João Moutinho e lembrando o seu clube de origem: mais de uma semana passada sobre a derrota no Dragão e os sportinguistas ainda não deixaram de carpir mágoas sobre a arbitragem que tanto contestam e que vêem como causa única da derrota embora nem um só deles se tenha atrevido a dizer, todavia, que, em jogo jogado, mere- ceram perder. Mas parece que isso — jogar bem, atacar mais, ter mais oportunidades e merecer ganhar - é apenas um detalhe dos jogos. Já nem é tanto o suposto penalty que os teria salvo de uma derrota mais do que justa — e que, para eles e de acordo com a sua doutrina de sempre, já é facto adquirido, pois que assim o determinaram - é ainda o lance do livre assinalado por Soares Dias sobre Helton que eles continuam a discutir acaloradamente, como se aí, num simples canto transformado em livre, se contivesse a chave de todos os segredos do Universo, incluindo os incríveis 35 pontos (!) que levam de distância do FC Porto. Houve quem, à conta disso, ameaçasse o árbitro com um processo-crime (!) e, supõe-se, estivesse disposto a dar-lhe pena de prisão efectiva.

O médico Eduardo Barroso declarou estar-se perante um caso de psiquiatria e recomendou o internamento do árbitro numa unidade de cuidados psiquiátricos. E o meu colega de escrita aqui, Ernesto Ferreira da Silva, conseguiu ver naquele lance uma «jogada de perigo» iminente, cortada pelo árbitro, quando o Helton largou a bola « sobre a linha de golo ». E o país inteiro que julgava ter visto na televisão, repetidamente, que o Helton largara a bola, não sobre linha de golo, mas sobre a linha de fundo e para lá dela pelo que a jogada de perigo se resumia a um canto não assinalado, como tantos outros que em tantos outros jogos o não são!

Não sei porquê, dá-me a impressão que a nova equipa governativa do Sporting, passada a euforia e o orgulho da vitória eleitoral, ainda não teve mais nenhum outro dia feliz, um dia que não fosse de preocupaçôes e apreensões - e que este nervosismo já é reflexo disso. Suspeito que, tal como o país, também a situação financeira deles é pior do que julgavam, que provavelmente já terão tido que avançar com dinheiro próprio para acorrer a alguma emergência, e que o FMI deles também não estará disposto a continuar a financie-los a fundo perdido. Facto é que, da nova equipa anunciada para disputar o primeiro lugar, de igual para igual, no ano que vem, ainda não se viu nem fumo nem fogo - excepto o de há muito anunciado bracarense Rodriguez, e se, entretanto, não lhe aparecer melhor.

O problema, como sempre, é que nada disto se resolve por artes mágicas, do pé para a mão. A situação do Sporting é muito mais grave e mais funda do que aquilo que possa ser voluntaristicamente resolvido por um bom treinador e três ou quatro reforços de qualidade. Veja-se que não é só no futebol sénior que o Sporting está fora da corrida. Também o está nos juniores e também o está em todas as outras principais modalidades profissionais — andebol, hóquei em patins e basquete - onde a luta pelo título é, em todas elas, entre FC Porto e Benfica. Porque será ?

5 - O Benfica-Braga desta quinta-feira vai ser arbitrado por um árbitro internacional; os adeptos do Braga não serão recebidos à pedrada e podem levar bandeiras e símbolos do respectivo clube; e a luz não será apagada enquanto houver gente em campo. Viva a Liga Europa!

Quanto ao FC Porto, a melhor equipa da Europa na actualidade, o jogo de quinta-feira é a primeira das sete finais que nos restam e onde perseguimos o sonho inimaginável de ganhar todas.

sexta-feira, junho 01, 2012

PROVAVELMENTE, A MELHOR EQUIPA DA ACTUALIDADE (19 ABRIL 2011)

1- O novo Sporting, saído do tormentoso parto eleitoral recente, parece-me em tudo e por enquanto, igual ao antigo, ao de sempre: muito pouco futebol, muita prosápia, muitas desculpas e queixinhas de mau perdedor. Por causa de um suposto penalty, que lhes teria caído do céu no último minuto do jogo do Dragão, atiraram-se todos ao árbitro, vendo nele a razão única para uma derrota, que, todavia, só foi tangencial por sorte e mero acaso, conforme o País inteiro viu. Sem papas na língua, o dirigente Carlos Barbosa, por exemplo, sentenciou que este árbitro (por muitos considerado o melhor da actualidade), deveria ser imediatamente banido do futebol e, de caminho, atirou-se também, e vá lá saber-se porquê, ao ex-árbitro Jorge Coroado. Foi infeliz: dos cinco árbitros cujas opiniões sobre o suposto penalty foram até agora conhecidas (incluindo a do próprio Artur Soares Dias), Coroado foi justamente o único que entendeu que era mesmo penalty.

Aqui, em A BOLA, na crónica do jogo, Paulo Montes também entendeu o mesmo, porque «pode o defesa não querer jogar a bola com a mão, mas o seu gesto trava inequivocamente o percurso da mesma». Ah...! digo eu. Três perplexidades numa frase tão curta: a) se não há intenção, não há falta, é a regra do penalty; b) bata onde bater uma bola o seu percurso é sempre alterado, é uma regra da Dinâmica; c) neste caso, porém, qual era o percurso que a bola levava e que terá sido alterado: ia para golo, ia para a baliza, ia em direcção a um jogador do Sporting? Nada disso, nem sequer havia por ali algum jogador do Sporting: a bola estava a saltar à frente de Rolando, que tropeça sozinho e lhe bate com a mão na queda. Penalty? Nem mesmo oferecido pelos mesmos deuses que já haviam oferecido ao Sporting um golo no primeiro e inofensivo remate à baliza.

Mas estas queixinhas habituais dos maus perdedores tem sempre também o condão de esconder outras coisas. Outras coisas sobre uma arbitragem que, de facto, foi má, mas em prejuízo do FC Porto: nenhuma justificação para os amarelos a Maicon e Álvaro Pereira, quando confrontados com situações idênticas, mas opostas; três livres à entrada da área portista oferecidos ao Sporting sem razão; e, acima de tudo, um off-side muito, muito mal assinalado aos sete minutos, quando Varela já ia seguir isolado para a baliza. Também é verdade que assinalou mal uma falta sobre Helton, mas era canto apenas, em vez de falta, nada que justifique tanta reclamação por esse lance. De pianinho, sem alarido algum, o Sporting voltou a ser esta época talvez a equipa mais beneficiada pelas arbitragens. Só que e por razões à vista, já ninguém se preocupa com o assunto. Mas é só passar em revista o filme dos jogos do Sporting e constatá-lo. Vamos ao jogo.

José Couceiro foi um dos raríssimos erros de casting de Pinto da Costa, um dos raríssimos treinadores que passaram pelo FC Porto nas últimas três décadas e só conseguiu consumar um desastre. A sua curta passagem pelo FC Porto foi de tal forma má, que terá morrido aí, creio, qualquer possibilidade de uma carreira de sucesso como treinador. Como solução de recurso também, ressurgiu agora no comando do Sporting, que herdou em 3.° lugar, a 26 pontos do FC Porto. Seis jogos passados, Couceiro acumula duas vitórias, três empates e uma derrota, está a uns inimagináveis 35 pontos de distancia do líder e só por milagre, e muito injustamente, roubará o terceiro lugar ao Braga. Mas o Sporting, diz ele, está agora «estabilizado».

Frente ao FC Porto, o Sporting batia-se por mais do que os campeões, cujo objectivo no jogo era apenas o de manterem a invencibilidade. Ao Sporting competia lutar pelo crucial terceiro lugar, tentar quebrar essa invencibilidade e, nao salvando a época, salvar a honra. Aliás, dadas as circunstâncias, competia-lhe mesmo ganhar o jogo, ou, mínimo exigível, tentar à vista de todos ganhar o jogo. Porque, para começar, Couceiro tinha todos os jogadores ao seu dispor, incluindo o regressado Izmailov, enquanto Villas Boas tinha as baixas de Belluschi, dos dois laterais-direitos e de jogadores que, antes e durante o jogo, teve de fazer descansar. E, enquanto o Sporting, afastado de todas as outras competições, está há meses no regime tranquilo de banhos de sol em Alcochete, um joguito a meio-gás por semana, entrecortado por uma ou duas folgas semanais, o FC Porto segue num ritmo infernal de jogos de exigência máxima, tendo completado frente ao Sporting o quinto jogo em 14 dias. Quinta-feira, jogou em Moscovo, sob zero graus e em piso sintético, voou seis horas de volta, para desembarcarem todos sexta de manhã, irem dormir e readaptarem-se ao fuso horário. Sábado fizeram treino para descontrair e domingo já tinham o Sporting pela frente. Perguntado então se esse cansaço e sobrecarga de jogos dos portistas não era uma evidente vantagem para o Sporting, Couceiro teve o supremo desplante de responder que, pelo contrário, dada a motivação psicológica, era uma vantagem para o FC Porto!

Logo aí adivinhei qual era a estratégia de José Couceiro para o clássico do Dragão: cautelas defensivas, paninhos quentes e tudo apostar na sorte. Se nada resultasse, atirar-se ao árbitro, no final. Assim foi: nem o golpe de sorte do primeiro golo, mudou a estratégia. Ou porque não podia ou porque não se atrevia, o Sporting só teve mais duas ocasiões de golo em todo o jogo contra meia dúzia do adversário, não obrigou o Helton a fazer uma única defesa, teve 38% de posse de bola contra 62% do FC Porto, menos de metade dos remates e dos ataques, zero cantos contra oito, e só graças ao poste e a Rui Patrício é que não saiu de lá vergado ao peso de uma goleada, como todos reconheceram. Só mesmo alguém que não tenha assistido ao jogo é que podia declarar no final, como José Couceiro:

«Não seria surpreendente se tivéssemos ganho.»

Estão no bom caminho, deixem se estar assim.



2- Em contrapartida, vão faltando os adjectivos para classificar o desempenho desta equipa de André Villas Boas: não apenas os resultados e os recordes que tombam sucessivamente, mas também as exibições e o insaciável espírito de vitória. Sem dar descanso às peças-chave da equipa, ao contrário do que faz (e pode fazer) Jorge Jesus, o FC Porto atira-se a todos os jogos para ganhar e nada mais. Nestes sete dias, foram mais duas brilhantes demonstrações de categoria e vontade, em Moscovo e contra o Sporting. Cinco jogos, cinco vitórias em 14 dias, 18 golos marcados e apenas os centrais a abanarem.

Este fim-de-semana, vi jogar três dos finalistas da Liga dos Campeões, três das equipas que o mundo considera as melhores da actualidade: Barcelona, Real Madrid e Manchester United. Nenhuma delas joga actualmente melhor que o FC Porto, de perto ou de longe. O cansaço acumulado torna o seu jogo estereotipado, lento e previsível, como bem se viu no chatíssimo Real-Barcelona, onde o futebol brilhante do Barça é agora jogado a ritmo de caracol, mais parecendo um simples treino de meiinho — para o qual, todavia, José Mourinho ainda não encontrou antídoto, limitando-se às recorrentes queixas sem razão contra o árbitro e tudo o resto, bem ao estilo de um José Couceiro. Que pena que este FC Porto não esteja antes a disputar as meias-finais da Champions - onde, por direito próprio pertence!

3- É preciso ser-se mentalmente perturbado e antisocial para destruir a instalação desportiva onde cem miúdos jogam à bola todos os dias, só porque ela é a sucursal em Lisboa do Dragon Force, a escola de futebol do FC Porto.

E é preciso não estar a medir bem as consequências do gesto, quando se ameaça não deixar entrar na Luz adeptos do FC Porto portadores de bilhetes válidos, emitidos pelo Benfica e pagos por eles, com a justificação de que se trata de cobrar dívidas entre os clubes. Independentemente de escolher, entre as versões de cada clube, quem é que deve a quem, os que compraram bilhetes para o jogo tem o inalienável direito de o assistir. Se o bom senso não acabar por se impor, como veementemente se espera e acredita, as autoridades terão um sério problema entre mãos: não apenas porque isso seria potenciador de incidentes porventura graves, mas também porque estariam confrontadas com a prática de um crime de burla, em flagrante delito.

Esperemos que desta vez não haja mais do que um jogo de futebol e, de preferência, bom. E que siga em frente quem o tiver merecido. De outro modo ainda acabaremos a desejar que não haja uma final europeia Benfica-Porto em Dublin, porque já basta a vergonha a que estamos expostos, de mão estendida por essa Europa fora.


quinta-feira, maio 31, 2012

O LADO BOM DO FUTEBOL (12 ABRIL 2011)

1- A boa notícia da semana foi a reacção de tantos e tantos adeptos do Benfica, anónimos ou conhecidos, contra a decisão da sua direcção (já não há dúvidas sobre isso...) de mandar apagar as luzes do estádio e regar os jogadores do FC Porto que festejavam um justíssimo título de campeão conquistado na Luz. Esses adeptos representam o melhor do Benlica e a parte saudável do futebol — que. acredito, continua a ser a maioria dos que gostam deste jogo. Sendo reflexo da própria sociedade, todos os clubes tem a sua parte saudável e a sua parte doentia. Infelizmente, a parte saudável tem sido aos poucos afastada, empurrada para fora dos estádios, pela turba selvagem dos arruaceiros, por dirigentes que espalham o ódio para disfarçar a sua incompetência e também, é forçoso dizê-lo, por uma imprensa que privilegia o conflito, as questiúnculas e as discussões idiotas, ao espectáculo em si mesmo. É inadmissível que ir a um estádio num jogo entre os principais rivais se tenha transformado num exercício de alto risco, num ambiente de ódios à solta, incendiadas previamente por dirigentes irresponsáveis e depois consumados à vista de todos por multidões organizadas de vândalos, a quem o futebol, como jogo, nada diz. É inadmissível, por exemplo, que os contribuintes portugueses (todos, até os que não gostam de futebol), tenham de pagar horas extraordinárias a exércitos policiais mobilizados para conterem uma violência programada e transformada tantas vezes no principal acontecimento de um jogo de futebol.

Felizmente, a honra do SL Benfica foi resgatada por tantos e tantos dos seus adeptos, que, apesar do clima de confronto instalado, souberam parar para pensar no que tinham visto no Estádio da Luz. E eu, talvez ingenuamente, gosto de pensar que um dia a parte saudável de todos os clubes conseguirá juntar-se, organizar-se, num movimento de cidadania desportiva que, a benefício de todos, devolva o futebol aos desportistas e devolva ao futebol a alegria que era a sua imagem de marca. Porque uma coisa é a rivalidade, que só faz bem ao jogo; outra é o terrorismo pseudo-desportivo.

2- Agora, gostaria de não ter que falar no rescaldo do Benfica-Porto, mas foram tantos e tão eloquentes os factos ocorridos, foram de tal forma ofensivos para um clube que acaba de se sagrar campeão nacional, que é impossível calá-los, sob pena de amanhã tudo se repetir igual. E é preciso que algumas coisas mudem, é preciso que algumas pessoas sejam corridas do futebol, a bem da sanidade pública.

Tudo começou, logo na segunda feira seguinte, com a prestação televisiva do maior espalha ódios do futebol português, o vice-presidente do Benfica, Rui Gomes da Silva. Interpelado sobre o apagão da Luz, começou logo, em tom arrogante, por dizer que nao era electricista, depois que nao estava no estádio, a seguir que estava no camarote, não tinha visto nada. Perguntado se não tinha sentido vergonha, como tantos benfiquistas, respondeu que vergonha era se o seu presidente tivesse sido condenado pela justiça desportiva. Ou seja, continua ainda a fingir acreditar que aquele desacreditado Conselho de Disciplina da Liga, organizado e comanditado pela direcção do Benfica, representa alguma forma de justiça - mesmo depois de desautorizado em toda a linha por quatro tribunais que se debruçaram sobre os mesmos factos e, entre outras coisas, concluíram que testemunha arregimentada pelo Benfica e acarinhada pelo dr. Costa e pela dr.ª Morgado, era perjura e tinha, ela sim, contas largas que prestar à justiça. Constando que Rui Gomes da Silva é advogado, não deixa de ser notável o conceito que tem de justiça: prefere uma encomenda de tribunal do que um tribunal a sério. A seguir, tentou também justificar o caso com um antecedente idêntico que teria ocorrido no estádio do FC Porto, na noite dos tempos. Mentiu: no Porto, e em dois jogos consecutivos, faltou a luz durante alguns minutos, regressando depois. Foi uma avaria da instalação ou da rede, que nada tem que ver com o acto voluntário de mandar apagar as luzes e ligar a rega para estragar os festejos ao adversário. E depois veio dizer ainda que as provocações tinham começado pelo FC Porto, ao recusar-se a entrar em campo de mão dada com as crianças equipadas à Benfica, conforme é praxe. Esqueceu-se foi de dizer que a recusa do FC Porto se deveu ao facto de toda as crianças estarem equipadas à Benfica, contrariando a praxe que estabelece que as que acompanham as jogadores da casa devem estar equipadas com as cores do adversário, numa provocação gratuita, que o FC Porto, muito bem, não aceitou.

A seguir, entrou em acção o CD da Liga, para castigar os incidentes da Luz. Pelo apagão e rega, deu ao Benfica a astronómica punição de 1.500 euros de multa. Pelo comportamento de parle dos seus adeptos - que atacaram à pedrada e com bolas de golfe, os carros, autocarros e a marcha escoltada dos adeptos azuis; que mantiveram uma batalha campal com a polícia, que resultou em vários feridos e treze presos; que, mal iniciado o jogo, forçaram a sua interrupção com lançamentode bolas de golfe e tudo que tinham à mão para os jogadores portistas — o CD da Liga multou o Benfica em 2.500 euros. E para o FC Porto, pelo comportamento dos seus adeptos — que foram agredidos à pedrada sem reagir, não provocaram, fora ou dentro do Estádio, qualquer incidente com adeptos benfiquistas ou com a polícia e que se mantiveram tranquilos nos seus lugares, nao aproveitando o apagão para causar problemas - toma lá os mesmos 2.500 euros de multa. Deve ser força do hábito.

Seguiu-se a Comissão de Arbitragem, que, através do observador do jogo da Luz, resolveu atribuir ao árbitro a classificação máxima. Não vou repetir a análise de uma arbitragem que todos viram o escândalo que foi. Limito-me a dizer que, quando um árbitro, em dez decisões controversas, erra todas elas e erra sempre para o mesmo lado, não há muitas dúvidas para alimentar: se aquela arbitragem tem sido ao contrário, em prejuízo do Benfica, o país já estava a arder. Só não digo que foi a pior arbitragem que vi neste campeonato, porque essa aconteceu em Coimbra, quando Académica e FC Porto foram forçados pelo árbitro a jogar num terreno absolutamente impossível para um jogo de futebol, mais parecendo um arrozal do Vietname, na época das cheias. É óbvio que, quando tudo o que os jogadores podem fazer é dar pontapés para o ar e para a frente e fazer aquaplaning, uma equipa de terceira divisão tem tanta hipóteses de vencer como uma equipa de topo. Esse árbitro do jogo de Coimbra sabia, pois, muitíssimo bem, que, ao fazer jogar naquelas condições, estava a falsear um jogo que podia vir a ser decisivo para as contas finais do título e estava, sobretudo. a prejudicar a melhor equipa técnicamente, que era o FC Porto. Custou-me muito acreditar que tivesse sido apenas uma má decisão. E custou-me mais ainda depois de ver que esse árbitro de Coimbra foi, afinal, o mesmo árbitro deste jogo da Luz. que conseguiu tomar dez decisões, todas erradas e influentes, e todas contra o FC Porto. Chama- se Duarte Gomes, de Lisboa, e, como aqui escrevi, prevejo-lhe uma carreira de sucesso, apadrinhado pela CA e desculpado pela comunicação social.

E, para acabar, tivemos a anedota final do castigo a Jorge Jesus. A CD da Liga, depois de meses e meses a investigar uma coisa que todas viram e reviram na televisão — o treinador do Benfica a enfiar um estalo num adversário, no final do jogo - resolveu que o testemunho do agredido não contava e que a agressão passava, com o tempo e o esquecimento, a «tentativa de agressão» . O mesmo órgão de disciplina que inventou que os stewards eram agentes desportivos e que aplicou cinco meses de suspensão a Sapunaru e Hulk por supostas agressões passadas no interior do túnel da Luz, e que até hoje ninguém viu, resolveu castigar com uns suaves 11 dias de suspensão uma estalada dada à vista do país inteiro por um treinador a um jogador adversário (que, para o efeito, não deve ter sido considerado agente desportivo). E, para que a anedota fosse completa, o castigo só foi aplicado quando o Benfica já tinha perdido o campeonato e Jesus não faz falta no banco, e acaba precisamente na véspera de voltar a fazer falta — para o jogo da Taça, contra o FC Porto. Sinceramente, não tem mesmo vergonha alguma?

3- Entretanto, o campeão segue: notável jogo contra o Spartak de Moscovo, e mais uma vitória da vontade colectiva, em Portimão. Leva 26 jogos do campeonato, 24 vitórias, 2 empates: nunca lerá havido um campeão mais justo do que este. É preciso ter uma fé inabalável no fanatismo ou na estupidez alheia para dizer, como Luís Filipe Veira, que o Benfica voltará a ganhar quando voltar a haver justiça no futebol.

Mas este ciclo do FC Porto é absolutamente infernal. Repare-se: dia 3 de Abril, foi a vitória do título, na Luz; quatro dias depois, a fantástica vitória de 5-1 sobre o Spartak, num jogo dificílimo; menos de 72 horas depois, o país inteiro atravessado para vencer em Portimão um dos aflitos e manter a invencibilidade no campeonato; mais quatro dias e novo jogo em Moscovo, culminando uma viagem de doze horas, ida e volta, aos confins da Europa; mais três dias e jogo contra um repousadíssimo Sporting, a lutar pelo 3.º lugar; outros três dias e nova viagem à Luz, no ambiente que se prevê, para tentar a proeza de reverter a eliminatória da Taça; e, depois sim, uma semana de tréguas, antes de reentrar no ciclo de dois jogos por semana, com as meias-finais da Liga Europa. Até aí chegar, são 6 jogos em 17 dias, com uma viagem a Moscovo pelo meio. E todos eles a lutar por qualquer coisa: pelo título, por um campeonato invencível, pela Taça, pela Liga Europa.

Realmente, se houvesse Justiça e desportivismo no futebol português, os adversários do FC Porto recebê-lo-iam agora, à entrada em campo, como os jogadores do Real Madrid receberam há dois anos os do arqui-rival Barcelona, entrando em Chamartin depois de conquistado um justíssimo título: entre duas alas a baterem-lhes palmas.

E vice- versa, quando fosse o caso. Sonhar não ofende.