1- Caríssimo Eduardo Barroso: a vida, às vezes, tem mesmo coisas estranhas! Quarta-feira passada, a bordo de um avião para Madrid, comecei a ler A BOLA e deparei-me com o teu texto em que a primeira metade me era dedicada e a segunda ao Marcelo Rebelo de Sousa. Li até ao fim e depois passei-o ao passageiro na coxia ao lado, que era...o Marcelo Rebelo de Sousa! Juntos, estávamos a caminho do Chamartin, para assistir ao que iria ser a desgraça de Mourinho e Pepe, correspondendo a um simpático convite do muito simpático António Nieto, do Turismo de Espanha em Lisboa, mais a Prefeitura de Madrid e o Real Madrid - um programa que meteu também um almoço de "cocido madrileno" no "Lúcio", uma visita à exposição do Ribera, no Prado, e uma ceia nocturna no jardim do hotel a seguir ao jogo, ouvindo o Marcelo dissertar sobre o PSD e a cena política e vendo passar a Sharapova e os árbitros alemães a quem José Mourinho atribuíra todas as razões do descalabro real.
Acontece que o Marcelo me ficou com o jornal e, por via disso, tenho de me referir ao teu texto de cor. Primeiro que tudo, agradeço as tuas mais do que generosas palavras, que, vindas de quem vem, de alguém que muito admiro e há muito tempo, melhor ainda me souberam. Como tu, acredito que, por maior que seja a fé, a paixão ou até a irracionalidade entre dois seres amantes de futebol e doentes do seu clube, o essencial das coisas há-de sempre prevalecer sobre tudo o resto. Indo aos factos, eu escrevi que te tinha ouvido dizer que o árbitro que, em lugar de um canto a favor do Sporting, marcou um livre a favor do Porto, deveria, por esse facto, ser internado por razões psiquiátricas. Tu vens dizer que não falaste em razões psiquiátricas, mas sim psicoló gicas, e é possível que eu, leigo, tenha confundido umas e outras - embora desconheça que pudessem existir internamentos por razões psicológicas. Mas lá que te ouvi preconizar o internamento do árbitro, isso ouvi. E foi isso que referi como exemplo da facilidade com que os sportinguistas se atiram aos árbitros sem nenhuma frieza de análise e de como eles lhes servem sempre de desculpas para os fracassos.
Este sábado, por exemplo, caí no Sporting-Portimonense quando faltavam 20 minutos para o fim e o Sporting ganhava por 2-1. Para meu grande espanto, só o Portimonense é que jogava: atacava sem parar, enquanto o Sporting defendia com dez atrás da bola e o Postiga sozinho lá na frente. O empate parecia-me iminente, mas eis que, subitamente, três decisões sucessivas do árbitro pegaram fogo ao Estádio, incendiando os ânimos e conseguindo desconcentrar o Portimonense que, mesmo com um, e depois, dois jogadores a mais, não conseguiu voltar ao jogo. Impressionaram-me os grandes planos dos adeptos do Sporting- jovens, pais, mães e avôs - todos unidos por uma fúria irracional contra o árbitro, as caras desfiguradas de ódio, gestos obscenos, gritos de uma raiva incompreensível. E, afinal, que fez o árbitro? Isto: mostrou um amarelo (que por azar era o segundo) ao André Santos, quando ele, numa das tais faltas chamadas "inteligentes", agarrou o Ivanildo, que se ia a isolar para a baliza - incontestável; mostrou o vermelho directo ao João Pereira, que, excitado pela multidão ululante e depois de não ter conseguido que o árbitro fosse numa simulação dele, o mandou para aquele sítio que se confunde com o órgão genital masculino: não era preciso ser especialista em leitura de lábios para descodificar facilmente a frase do João Pereira: "vai pró c..., pá!". E, não fosse o árbitro não ter ouvido bem, repetiu a amabilidade mais duas vezes e, claro, foi expulso. Enfim, o pobre Duarte Gomes ainda se lembrou, vejam lá, de mostrar apenas um amarelo ao Saleiro, quando ele entrou muito feio e sem bola aos pés de um adversário. E eis mais um "escândalo" de arbitragem, em Alvalade! Eis quanto bastou para que Godinho Lopes tenha vindo também declarar-se arregimentado para o combale pela "verdade desportiva'.
(A propósito: também escreveste que os benfiquistas nem protestaram com o facto de o segundo golo do Porto na Luz, no jogo da Taça, ter nascido de um off-side. Assim como quem diz "acharam que já não vale a pena”. Mas não, caro Eduardo, não foi por isso. Foi porque: primeiro, o off side, ao contrário do que escreveste, só se tomou evidente na televisão e nem sequer foi razão directa do golo, porque quando o Hulk recebeu a bola já tinha dois adversários à frente, os quais contornou; segundo, porque te esqueceste de acrescentar que a seguir o Benfica chegou ao golo num penalty imaginado pelo árbitro (o segundo consecutivo na Luz}, e que, depois ainda, o abalroamento do Jardel ao Hulk, que ia para o golo, foi transformado de penalty em simulação do Hulk; e, finalmente, porque os benfiquistas perceberam que, depois de tudo isso e da tareia de futebol que levaram, virem desculpar se com o árbitro mais pareceria coisa de sportinguistas).
De facto, o que eu não percebo, Eduardo, é que vocês, sportinguistas, em lugar de montarem um escabeche de todo o tamanho contra um árbitro que fez apenas o que tinha a fazer - como se tivessem direito a leis especiais para vos julgar - não achem antes um escândalo que a vossa equipa, depois de quinze dias de descanso, a jogar em casa contra o último e a precisar de lutar pelo terceiro lugar, estivesse, a 20 minutos do fim, a defender uma vitória tangencial, com dez jogadores atrás da linha da bola! Percebo, sim, como é tão mais fácil mandar sempre as culpas para os árbitros! Mas, sinceramente, achas que, além de vocês mesmos, alguém ainda vai nessa conversa?
2- O mesmo fez José Mourinho, no final da derrota contra o Barcelona e na linha do que vem sendo a sua estratégia de há já largos tempos para cá. Eu fui, como se sabe, um grande admirador de Mourinho, nos seus gloriosos tempos do FC Porto e no primeiro ano no Chelsea. Mas, de então para cá, fui constatando como aos poucos ele foi privilegiando sempre os resultados e os títulos sobre a qualidade do futebol das suas equipas - como muito bem notou Cruyff (aqui ridicularizado pelos patrioteiros de serviço, como se fosse um qualquer pateta a falar de futebol). Não desvalorizo, por um momento, a importância dos triunfos que obteve e, dos quais, ter conseguido ser campeão europeu com essa fraca equipa do Inter, terá sido mesmo o maior. E também acredito que ainda iremos voltar a ver o grande Mourinho do FC Porto, com a sua paixão por um futebol de ataque e aventura. Mas o facto é que, de há uns anos para cá e fosse em Inglaterra, em Itália ou agora em Espa nha, o futebol das equipas de Mourinho faz-me adormecer e invariavelmente dar o tempo por mal empregue, de tal forma tudo aquilo é táctico, aborrecido, sem chama de fulgor nem risco. E, tal como se perguntavam os adeptos do Real à saída de Chamartin, quarta-feira passada, também eu me pergunto se o maior clube do mundo, com a mais cara equipa do mundo, não tem estrita obrigação de jogar mais do que aquilo que vamos vendo? Como é que se avança para uma primeira mão de uma meia final da Champions em casa, com os três pontas-de-lança sentados no banco, substituídos por três trincos e um fora-de-série como o Kaká substituído na posição dez por um defesa central, o Pepe, cuja missão era tentar interromper o tiki-taka do Barça, se necessário com violência e correndo o risco de expulsão, como sucedeu? Mourinho entrou em campo borrado de medo do Barça e sem vergonha de o esconder. Por isso, Cristiano Ronaldo desesperava em campo e confessava no final que não gosta de jogar assim. Por isso, o Real teve 28% de posse de bola contra 72% do Barça (!). Por isso, Mourinho se descaiu no final, dizendo que, não fora a expulsão de Pepe e poderiam ter jogado três horas, que o resultado não passaria de 0-0 (pelos vistos, o seu grande objectivo!).
Como se tornou evidente aos olhos de todos, Mourinho não perdeu por causa do poder do Barcelona, da UN1CEF ou da UEFA ou por causa do árbitro: estava na cara, que, com dez ou com onze, mais cedo ou mais tarde, quando Leonel Messi quisesse, o Real ia perder. Perdeu porque levou uma lição de futebol da melhor equipa do mundo e do melhor jogador do mundo de todos os tempos. A derrota nem seria de espantar: o que espantou foi a atitude de auto-humilhação, de falta de respeito pelo púbico e pelo nome do Real. A verdade é que não sei como é que este Real Madrid de José Mourinho conseguiu ir tão longe na Champions. Conheço várias equipas bem melhores por essa Europa fora - a começar por uma, chamada FC Porto, frente à qual este Real não tinha hipótese alguma, nem que jogasse com cinco trincos! Resta a Mourinho fazer o mesmo o que o FC Porto fez há quinze dias para a Taça de Portugal: virar um 0-2 caseiro num 3-1 fora de casa.
3- Também, como já escrevi, esgotaram-se os adjectivos para qualificar esta fulgurante equipa do FC Porto e esta temporada para sempre inesquecível. As vitórias e os títulos já conquistados justificam-se por uma equipa de vários talentos confirmados e outros a despontarem e um treinador que tem a imensa virtude de não complicar, não se pôr em bicos de pés, não se imaginar superior a tudo e todos. Mas as recordes sucessivamente derrubados, a sede insaciável de vitórias, golos e espectáculo, isso é o carácter de um conjunto de jogadores que são profissionais como já não se vê, que não encostam a defender resultados tangenciais a 20 minutos do fim, que não se lamentam da sobrecarga de jogos nem dos penaltis que os árbitros inventam contra eles (mais um em Setúbal!), que não se acomodam, não se saciam, não deixam nunca de acreditar.
Assim foi outra vez contra o Vilarreal, quando virar o jogo de 0-1 para 2-1 e 3-1 não foi suficiente para eles se acomodarem: continuaram a cavalgada até ao 5-1 final e alé sentirem a eliminatória resolvida. Eis o que jamais conseguiriam os que só vivem a queixar-se dos árbitros.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
domingo, junho 03, 2012
sábado, junho 02, 2012
O ANO DO DRAGÃO (26 ABRIL 2011)
1- Há umas semanas atrás, escrevia aqui que o FC Porto tinha acabado de entrar num ciclo infernal de seis jogos em dezoito dias, inaugurado com a memorável vitória que selou a conquista do título em pleno Estádio da Luz. E dizia que, se bem que muito o desejasse, não achava possível completar de forma totalmente vitoriosa todo esse ciclo e vencer as três coisas pelas quais a equipa ainda se batia (e bate): terminar o campeonato in- victo, conseguir vencer a Taça, invertendo uma meia-final já praticamente perdida, e vencer a Liga Europa. Mas o facto é que, saído da noite de euforia da Luz, o FC Porto venceria todos os restantes cinco jogos e todos de forma categórica, juntando às seis vitórias em dezoito dias um total de 21 golos marcados - média de 3,5 por jogo. Depois da Luz, recebemos e limpámos o Spartak de Moscovo com um concludente 5-1, num jogo em que se arriscou e jogou ao mais alto nível; daí, demos um saltinho a Portimão para vencer com categoria por 3-2; novo saltinho a Moscovo e, apesar do sintético, mais uma tareia nos russos por 5-2; seguiu-se, com 48 horas de descanso depois de uma longa viagem, uma concludente vitória sobre um repousado Sporting, que só pecou por ter tido um resultado enganador: não foi jogo de 3-2, mas de 4-1; mais três dias decorridos e a fantástica virada da meia-final da Taça, na Luz, contra um Benfica que apesar de ter andado também a descansar jogadores, foi completamente impotente perante a determinação do dragão.
Ainda não chegámos ao fim, mas esta já é uma das melhores, senão a melhor época de sempre do FC Porto. Parabéns a André Villas Boas, parabéns a um extraordinário conjunto de jogadores, profissionais como raramente tenho visto. Agora, já não digo nada: tudo é possível.
2- Das quatro vitórias, todas elas determinantes, que o FC Porto obteve esta época sobre o Benfica, a de quarta-feira passada foi para mim a mais consistentee aquela em que o conjunto portista melhor exibiu a sua superioridade sobre o rival. Mesmo depois de o Benfica ter reduzido para 1-3 e teoricamente ter reentrado na luta pela eliminatória, só deu Porto até final e as únicas oportunidades de golo voltaram a ser do Porto. A cavalgada do FC Porto na segunda parte, as ondas sucessivas de ataques organizados e variados (jamais em chuveirinho ou ao acaso) deixaram uma estarrecida assistência benfiquista perplexa por perceber que o incrível ia mesmo acontecer. E aconteceu; foi o terceiro título roubado este ano ao Benfica. E, não fosse o impensável frango do Kieszek, no Dragão, num jogo que estava controlado e à beira do fim, e o FC Porto teria acabado a disputar e, quem sabe, também a roubar a Taça da Liga ao Benfica...
3- No Benfica, faltaram os dois alas habituais, Gaitán e Sálvio; no FC Porto, dois médios construtivos, Belluschi e Guarín. Seria de prever que o Benfica tivesse dificuldadcs atacantes pelos extremos (como teve), e que o FC Porto perdesse a luta do meio-campo, o que não sucedeu. E não sucedeu, porque neste jogo emergiu um João Moutinho novo, surpreendente, uma espécie de cometa em movimento constante. Para dizer a verdade, fiquei um pouco surpreendido (sobretudo, com o remate certeiro para o primeiro golo), mas não totalmente surpreendido. É que, de há uns tempos para cá, e especialmente vendo-o jogar ao vivo, eu fui mudando a opinião que dele tinha e que, como se sabe, estava longe de ser positiva - sobretudo, tendo como comparação o futebol de Raul Meireles, a quem ele veio substituir. Estava-me a guardar para um texto que tenciono escrever no final da época, com apreciação individual de todo plantel portista, mas, sob pena de pa- recer desonestamente teimoso, os factos forçam-me a antecipar o que irei escrever sobre João Moutinho. Continuo a achar que, excepção feita a este jogo da Luz, Moutinho aparece regularmente como um jogador muito pouco decisivo no futebol da equipa: não marca golos, não assiste para golos, não é jogador de virar jogos ou comandar vitórias. Mas quando o espaço em que ele actua à nossa vista se alarga para além do ecrã de televisão, surge um Moutinho até aí invisível e que tem o dom de adivinhar sempre por onde passa o jogo e estar sempre no local certo, funcionando como pivot de toda a gente: se alguém está apertado e tem de atrasar, está lá Moutinho para ajudar; se alguém não tem linha de passe, está lá Moutinho para receber. Não é ele, de facto, que faz os passes de ruptura, mas é ele que faz a maioria dos passes de costura. Escapa-me o conhecimento técnico para saber se um jogador assim é essencial numa equipa que joga quase sempre para a frente, em progressão e ataque. Mas no futebol catalão de Vilas Boas talvez seja: os resultados falam por si e, assim sendo, tenho o maior prazer em meter a viola ao saco e espero não ter de a tirar de lá outra vez.
4 - Por falar em João Moutinho e lembrando o seu clube de origem: mais de uma semana passada sobre a derrota no Dragão e os sportinguistas ainda não deixaram de carpir mágoas sobre a arbitragem que tanto contestam e que vêem como causa única da derrota embora nem um só deles se tenha atrevido a dizer, todavia, que, em jogo jogado, mere- ceram perder. Mas parece que isso — jogar bem, atacar mais, ter mais oportunidades e merecer ganhar - é apenas um detalhe dos jogos. Já nem é tanto o suposto penalty que os teria salvo de uma derrota mais do que justa — e que, para eles e de acordo com a sua doutrina de sempre, já é facto adquirido, pois que assim o determinaram - é ainda o lance do livre assinalado por Soares Dias sobre Helton que eles continuam a discutir acaloradamente, como se aí, num simples canto transformado em livre, se contivesse a chave de todos os segredos do Universo, incluindo os incríveis 35 pontos (!) que levam de distância do FC Porto. Houve quem, à conta disso, ameaçasse o árbitro com um processo-crime (!) e, supõe-se, estivesse disposto a dar-lhe pena de prisão efectiva.
O médico Eduardo Barroso declarou estar-se perante um caso de psiquiatria e recomendou o internamento do árbitro numa unidade de cuidados psiquiátricos. E o meu colega de escrita aqui, Ernesto Ferreira da Silva, conseguiu ver naquele lance uma «jogada de perigo» iminente, cortada pelo árbitro, quando o Helton largou a bola « sobre a linha de golo ». E o país inteiro que julgava ter visto na televisão, repetidamente, que o Helton largara a bola, não sobre linha de golo, mas sobre a linha de fundo e para lá dela pelo que a jogada de perigo se resumia a um canto não assinalado, como tantos outros que em tantos outros jogos o não são!
Não sei porquê, dá-me a impressão que a nova equipa governativa do Sporting, passada a euforia e o orgulho da vitória eleitoral, ainda não teve mais nenhum outro dia feliz, um dia que não fosse de preocupaçôes e apreensões - e que este nervosismo já é reflexo disso. Suspeito que, tal como o país, também a situação financeira deles é pior do que julgavam, que provavelmente já terão tido que avançar com dinheiro próprio para acorrer a alguma emergência, e que o FMI deles também não estará disposto a continuar a financie-los a fundo perdido. Facto é que, da nova equipa anunciada para disputar o primeiro lugar, de igual para igual, no ano que vem, ainda não se viu nem fumo nem fogo - excepto o de há muito anunciado bracarense Rodriguez, e se, entretanto, não lhe aparecer melhor.
O problema, como sempre, é que nada disto se resolve por artes mágicas, do pé para a mão. A situação do Sporting é muito mais grave e mais funda do que aquilo que possa ser voluntaristicamente resolvido por um bom treinador e três ou quatro reforços de qualidade. Veja-se que não é só no futebol sénior que o Sporting está fora da corrida. Também o está nos juniores e também o está em todas as outras principais modalidades profissionais — andebol, hóquei em patins e basquete - onde a luta pelo título é, em todas elas, entre FC Porto e Benfica. Porque será ?
5 - O Benfica-Braga desta quinta-feira vai ser arbitrado por um árbitro internacional; os adeptos do Braga não serão recebidos à pedrada e podem levar bandeiras e símbolos do respectivo clube; e a luz não será apagada enquanto houver gente em campo. Viva a Liga Europa!
Quanto ao FC Porto, a melhor equipa da Europa na actualidade, o jogo de quinta-feira é a primeira das sete finais que nos restam e onde perseguimos o sonho inimaginável de ganhar todas.
Ainda não chegámos ao fim, mas esta já é uma das melhores, senão a melhor época de sempre do FC Porto. Parabéns a André Villas Boas, parabéns a um extraordinário conjunto de jogadores, profissionais como raramente tenho visto. Agora, já não digo nada: tudo é possível.
2- Das quatro vitórias, todas elas determinantes, que o FC Porto obteve esta época sobre o Benfica, a de quarta-feira passada foi para mim a mais consistentee aquela em que o conjunto portista melhor exibiu a sua superioridade sobre o rival. Mesmo depois de o Benfica ter reduzido para 1-3 e teoricamente ter reentrado na luta pela eliminatória, só deu Porto até final e as únicas oportunidades de golo voltaram a ser do Porto. A cavalgada do FC Porto na segunda parte, as ondas sucessivas de ataques organizados e variados (jamais em chuveirinho ou ao acaso) deixaram uma estarrecida assistência benfiquista perplexa por perceber que o incrível ia mesmo acontecer. E aconteceu; foi o terceiro título roubado este ano ao Benfica. E, não fosse o impensável frango do Kieszek, no Dragão, num jogo que estava controlado e à beira do fim, e o FC Porto teria acabado a disputar e, quem sabe, também a roubar a Taça da Liga ao Benfica...
3- No Benfica, faltaram os dois alas habituais, Gaitán e Sálvio; no FC Porto, dois médios construtivos, Belluschi e Guarín. Seria de prever que o Benfica tivesse dificuldadcs atacantes pelos extremos (como teve), e que o FC Porto perdesse a luta do meio-campo, o que não sucedeu. E não sucedeu, porque neste jogo emergiu um João Moutinho novo, surpreendente, uma espécie de cometa em movimento constante. Para dizer a verdade, fiquei um pouco surpreendido (sobretudo, com o remate certeiro para o primeiro golo), mas não totalmente surpreendido. É que, de há uns tempos para cá, e especialmente vendo-o jogar ao vivo, eu fui mudando a opinião que dele tinha e que, como se sabe, estava longe de ser positiva - sobretudo, tendo como comparação o futebol de Raul Meireles, a quem ele veio substituir. Estava-me a guardar para um texto que tenciono escrever no final da época, com apreciação individual de todo plantel portista, mas, sob pena de pa- recer desonestamente teimoso, os factos forçam-me a antecipar o que irei escrever sobre João Moutinho. Continuo a achar que, excepção feita a este jogo da Luz, Moutinho aparece regularmente como um jogador muito pouco decisivo no futebol da equipa: não marca golos, não assiste para golos, não é jogador de virar jogos ou comandar vitórias. Mas quando o espaço em que ele actua à nossa vista se alarga para além do ecrã de televisão, surge um Moutinho até aí invisível e que tem o dom de adivinhar sempre por onde passa o jogo e estar sempre no local certo, funcionando como pivot de toda a gente: se alguém está apertado e tem de atrasar, está lá Moutinho para ajudar; se alguém não tem linha de passe, está lá Moutinho para receber. Não é ele, de facto, que faz os passes de ruptura, mas é ele que faz a maioria dos passes de costura. Escapa-me o conhecimento técnico para saber se um jogador assim é essencial numa equipa que joga quase sempre para a frente, em progressão e ataque. Mas no futebol catalão de Vilas Boas talvez seja: os resultados falam por si e, assim sendo, tenho o maior prazer em meter a viola ao saco e espero não ter de a tirar de lá outra vez.
4 - Por falar em João Moutinho e lembrando o seu clube de origem: mais de uma semana passada sobre a derrota no Dragão e os sportinguistas ainda não deixaram de carpir mágoas sobre a arbitragem que tanto contestam e que vêem como causa única da derrota embora nem um só deles se tenha atrevido a dizer, todavia, que, em jogo jogado, mere- ceram perder. Mas parece que isso — jogar bem, atacar mais, ter mais oportunidades e merecer ganhar - é apenas um detalhe dos jogos. Já nem é tanto o suposto penalty que os teria salvo de uma derrota mais do que justa — e que, para eles e de acordo com a sua doutrina de sempre, já é facto adquirido, pois que assim o determinaram - é ainda o lance do livre assinalado por Soares Dias sobre Helton que eles continuam a discutir acaloradamente, como se aí, num simples canto transformado em livre, se contivesse a chave de todos os segredos do Universo, incluindo os incríveis 35 pontos (!) que levam de distância do FC Porto. Houve quem, à conta disso, ameaçasse o árbitro com um processo-crime (!) e, supõe-se, estivesse disposto a dar-lhe pena de prisão efectiva.
O médico Eduardo Barroso declarou estar-se perante um caso de psiquiatria e recomendou o internamento do árbitro numa unidade de cuidados psiquiátricos. E o meu colega de escrita aqui, Ernesto Ferreira da Silva, conseguiu ver naquele lance uma «jogada de perigo» iminente, cortada pelo árbitro, quando o Helton largou a bola « sobre a linha de golo ». E o país inteiro que julgava ter visto na televisão, repetidamente, que o Helton largara a bola, não sobre linha de golo, mas sobre a linha de fundo e para lá dela pelo que a jogada de perigo se resumia a um canto não assinalado, como tantos outros que em tantos outros jogos o não são!
Não sei porquê, dá-me a impressão que a nova equipa governativa do Sporting, passada a euforia e o orgulho da vitória eleitoral, ainda não teve mais nenhum outro dia feliz, um dia que não fosse de preocupaçôes e apreensões - e que este nervosismo já é reflexo disso. Suspeito que, tal como o país, também a situação financeira deles é pior do que julgavam, que provavelmente já terão tido que avançar com dinheiro próprio para acorrer a alguma emergência, e que o FMI deles também não estará disposto a continuar a financie-los a fundo perdido. Facto é que, da nova equipa anunciada para disputar o primeiro lugar, de igual para igual, no ano que vem, ainda não se viu nem fumo nem fogo - excepto o de há muito anunciado bracarense Rodriguez, e se, entretanto, não lhe aparecer melhor.
O problema, como sempre, é que nada disto se resolve por artes mágicas, do pé para a mão. A situação do Sporting é muito mais grave e mais funda do que aquilo que possa ser voluntaristicamente resolvido por um bom treinador e três ou quatro reforços de qualidade. Veja-se que não é só no futebol sénior que o Sporting está fora da corrida. Também o está nos juniores e também o está em todas as outras principais modalidades profissionais — andebol, hóquei em patins e basquete - onde a luta pelo título é, em todas elas, entre FC Porto e Benfica. Porque será ?
5 - O Benfica-Braga desta quinta-feira vai ser arbitrado por um árbitro internacional; os adeptos do Braga não serão recebidos à pedrada e podem levar bandeiras e símbolos do respectivo clube; e a luz não será apagada enquanto houver gente em campo. Viva a Liga Europa!
Quanto ao FC Porto, a melhor equipa da Europa na actualidade, o jogo de quinta-feira é a primeira das sete finais que nos restam e onde perseguimos o sonho inimaginável de ganhar todas.
sexta-feira, junho 01, 2012
PROVAVELMENTE, A MELHOR EQUIPA DA ACTUALIDADE (19 ABRIL 2011)
1- O novo Sporting, saído do tormentoso parto eleitoral recente, parece-me em tudo e por enquanto, igual ao antigo, ao de sempre: muito pouco futebol, muita prosápia, muitas desculpas e queixinhas de mau perdedor. Por causa de um suposto penalty, que lhes teria caído do céu no último minuto do jogo do Dragão, atiraram-se todos ao árbitro, vendo nele a razão única para uma derrota, que, todavia, só foi tangencial por sorte e mero acaso, conforme o País inteiro viu. Sem papas na língua, o dirigente Carlos Barbosa, por exemplo, sentenciou que este árbitro (por muitos considerado o melhor da actualidade), deveria ser imediatamente banido do futebol e, de caminho, atirou-se também, e vá lá saber-se porquê, ao ex-árbitro Jorge Coroado. Foi infeliz: dos cinco árbitros cujas opiniões sobre o suposto penalty foram até agora conhecidas (incluindo a do próprio Artur Soares Dias), Coroado foi justamente o único que entendeu que era mesmo penalty.
Aqui, em A BOLA, na crónica do jogo, Paulo Montes também entendeu o mesmo, porque «pode o defesa não querer jogar a bola com a mão, mas o seu gesto trava inequivocamente o percurso da mesma». Ah...! digo eu. Três perplexidades numa frase tão curta: a) se não há intenção, não há falta, é a regra do penalty; b) bata onde bater uma bola o seu percurso é sempre alterado, é uma regra da Dinâmica; c) neste caso, porém, qual era o percurso que a bola levava e que terá sido alterado: ia para golo, ia para a baliza, ia em direcção a um jogador do Sporting? Nada disso, nem sequer havia por ali algum jogador do Sporting: a bola estava a saltar à frente de Rolando, que tropeça sozinho e lhe bate com a mão na queda. Penalty? Nem mesmo oferecido pelos mesmos deuses que já haviam oferecido ao Sporting um golo no primeiro e inofensivo remate à baliza.
Mas estas queixinhas habituais dos maus perdedores tem sempre também o condão de esconder outras coisas. Outras coisas sobre uma arbitragem que, de facto, foi má, mas em prejuízo do FC Porto: nenhuma justificação para os amarelos a Maicon e Álvaro Pereira, quando confrontados com situações idênticas, mas opostas; três livres à entrada da área portista oferecidos ao Sporting sem razão; e, acima de tudo, um off-side muito, muito mal assinalado aos sete minutos, quando Varela já ia seguir isolado para a baliza. Também é verdade que assinalou mal uma falta sobre Helton, mas era canto apenas, em vez de falta, nada que justifique tanta reclamação por esse lance. De pianinho, sem alarido algum, o Sporting voltou a ser esta época talvez a equipa mais beneficiada pelas arbitragens. Só que e por razões à vista, já ninguém se preocupa com o assunto. Mas é só passar em revista o filme dos jogos do Sporting e constatá-lo. Vamos ao jogo.
José Couceiro foi um dos raríssimos erros de casting de Pinto da Costa, um dos raríssimos treinadores que passaram pelo FC Porto nas últimas três décadas e só conseguiu consumar um desastre. A sua curta passagem pelo FC Porto foi de tal forma má, que terá morrido aí, creio, qualquer possibilidade de uma carreira de sucesso como treinador. Como solução de recurso também, ressurgiu agora no comando do Sporting, que herdou em 3.° lugar, a 26 pontos do FC Porto. Seis jogos passados, Couceiro acumula duas vitórias, três empates e uma derrota, está a uns inimagináveis 35 pontos de distancia do líder e só por milagre, e muito injustamente, roubará o terceiro lugar ao Braga. Mas o Sporting, diz ele, está agora «estabilizado».
Frente ao FC Porto, o Sporting batia-se por mais do que os campeões, cujo objectivo no jogo era apenas o de manterem a invencibilidade. Ao Sporting competia lutar pelo crucial terceiro lugar, tentar quebrar essa invencibilidade e, nao salvando a época, salvar a honra. Aliás, dadas as circunstâncias, competia-lhe mesmo ganhar o jogo, ou, mínimo exigível, tentar à vista de todos ganhar o jogo. Porque, para começar, Couceiro tinha todos os jogadores ao seu dispor, incluindo o regressado Izmailov, enquanto Villas Boas tinha as baixas de Belluschi, dos dois laterais-direitos e de jogadores que, antes e durante o jogo, teve de fazer descansar. E, enquanto o Sporting, afastado de todas as outras competições, está há meses no regime tranquilo de banhos de sol em Alcochete, um joguito a meio-gás por semana, entrecortado por uma ou duas folgas semanais, o FC Porto segue num ritmo infernal de jogos de exigência máxima, tendo completado frente ao Sporting o quinto jogo em 14 dias. Quinta-feira, jogou em Moscovo, sob zero graus e em piso sintético, voou seis horas de volta, para desembarcarem todos sexta de manhã, irem dormir e readaptarem-se ao fuso horário. Sábado fizeram treino para descontrair e domingo já tinham o Sporting pela frente. Perguntado então se esse cansaço e sobrecarga de jogos dos portistas não era uma evidente vantagem para o Sporting, Couceiro teve o supremo desplante de responder que, pelo contrário, dada a motivação psicológica, era uma vantagem para o FC Porto!
Logo aí adivinhei qual era a estratégia de José Couceiro para o clássico do Dragão: cautelas defensivas, paninhos quentes e tudo apostar na sorte. Se nada resultasse, atirar-se ao árbitro, no final. Assim foi: nem o golpe de sorte do primeiro golo, mudou a estratégia. Ou porque não podia ou porque não se atrevia, o Sporting só teve mais duas ocasiões de golo em todo o jogo contra meia dúzia do adversário, não obrigou o Helton a fazer uma única defesa, teve 38% de posse de bola contra 62% do FC Porto, menos de metade dos remates e dos ataques, zero cantos contra oito, e só graças ao poste e a Rui Patrício é que não saiu de lá vergado ao peso de uma goleada, como todos reconheceram. Só mesmo alguém que não tenha assistido ao jogo é que podia declarar no final, como José Couceiro:
«Não seria surpreendente se tivéssemos ganho.»
Estão no bom caminho, deixem se estar assim.
2- Em contrapartida, vão faltando os adjectivos para classificar o desempenho desta equipa de André Villas Boas: não apenas os resultados e os recordes que tombam sucessivamente, mas também as exibições e o insaciável espírito de vitória. Sem dar descanso às peças-chave da equipa, ao contrário do que faz (e pode fazer) Jorge Jesus, o FC Porto atira-se a todos os jogos para ganhar e nada mais. Nestes sete dias, foram mais duas brilhantes demonstrações de categoria e vontade, em Moscovo e contra o Sporting. Cinco jogos, cinco vitórias em 14 dias, 18 golos marcados e apenas os centrais a abanarem.
Este fim-de-semana, vi jogar três dos finalistas da Liga dos Campeões, três das equipas que o mundo considera as melhores da actualidade: Barcelona, Real Madrid e Manchester United. Nenhuma delas joga actualmente melhor que o FC Porto, de perto ou de longe. O cansaço acumulado torna o seu jogo estereotipado, lento e previsível, como bem se viu no chatíssimo Real-Barcelona, onde o futebol brilhante do Barça é agora jogado a ritmo de caracol, mais parecendo um simples treino de meiinho — para o qual, todavia, José Mourinho ainda não encontrou antídoto, limitando-se às recorrentes queixas sem razão contra o árbitro e tudo o resto, bem ao estilo de um José Couceiro. Que pena que este FC Porto não esteja antes a disputar as meias-finais da Champions - onde, por direito próprio pertence!
3- É preciso ser-se mentalmente perturbado e antisocial para destruir a instalação desportiva onde cem miúdos jogam à bola todos os dias, só porque ela é a sucursal em Lisboa do Dragon Force, a escola de futebol do FC Porto.
E é preciso não estar a medir bem as consequências do gesto, quando se ameaça não deixar entrar na Luz adeptos do FC Porto portadores de bilhetes válidos, emitidos pelo Benfica e pagos por eles, com a justificação de que se trata de cobrar dívidas entre os clubes. Independentemente de escolher, entre as versões de cada clube, quem é que deve a quem, os que compraram bilhetes para o jogo tem o inalienável direito de o assistir. Se o bom senso não acabar por se impor, como veementemente se espera e acredita, as autoridades terão um sério problema entre mãos: não apenas porque isso seria potenciador de incidentes porventura graves, mas também porque estariam confrontadas com a prática de um crime de burla, em flagrante delito.
Esperemos que desta vez não haja mais do que um jogo de futebol e, de preferência, bom. E que siga em frente quem o tiver merecido. De outro modo ainda acabaremos a desejar que não haja uma final europeia Benfica-Porto em Dublin, porque já basta a vergonha a que estamos expostos, de mão estendida por essa Europa fora.
Aqui, em A BOLA, na crónica do jogo, Paulo Montes também entendeu o mesmo, porque «pode o defesa não querer jogar a bola com a mão, mas o seu gesto trava inequivocamente o percurso da mesma». Ah...! digo eu. Três perplexidades numa frase tão curta: a) se não há intenção, não há falta, é a regra do penalty; b) bata onde bater uma bola o seu percurso é sempre alterado, é uma regra da Dinâmica; c) neste caso, porém, qual era o percurso que a bola levava e que terá sido alterado: ia para golo, ia para a baliza, ia em direcção a um jogador do Sporting? Nada disso, nem sequer havia por ali algum jogador do Sporting: a bola estava a saltar à frente de Rolando, que tropeça sozinho e lhe bate com a mão na queda. Penalty? Nem mesmo oferecido pelos mesmos deuses que já haviam oferecido ao Sporting um golo no primeiro e inofensivo remate à baliza.
Mas estas queixinhas habituais dos maus perdedores tem sempre também o condão de esconder outras coisas. Outras coisas sobre uma arbitragem que, de facto, foi má, mas em prejuízo do FC Porto: nenhuma justificação para os amarelos a Maicon e Álvaro Pereira, quando confrontados com situações idênticas, mas opostas; três livres à entrada da área portista oferecidos ao Sporting sem razão; e, acima de tudo, um off-side muito, muito mal assinalado aos sete minutos, quando Varela já ia seguir isolado para a baliza. Também é verdade que assinalou mal uma falta sobre Helton, mas era canto apenas, em vez de falta, nada que justifique tanta reclamação por esse lance. De pianinho, sem alarido algum, o Sporting voltou a ser esta época talvez a equipa mais beneficiada pelas arbitragens. Só que e por razões à vista, já ninguém se preocupa com o assunto. Mas é só passar em revista o filme dos jogos do Sporting e constatá-lo. Vamos ao jogo.
José Couceiro foi um dos raríssimos erros de casting de Pinto da Costa, um dos raríssimos treinadores que passaram pelo FC Porto nas últimas três décadas e só conseguiu consumar um desastre. A sua curta passagem pelo FC Porto foi de tal forma má, que terá morrido aí, creio, qualquer possibilidade de uma carreira de sucesso como treinador. Como solução de recurso também, ressurgiu agora no comando do Sporting, que herdou em 3.° lugar, a 26 pontos do FC Porto. Seis jogos passados, Couceiro acumula duas vitórias, três empates e uma derrota, está a uns inimagináveis 35 pontos de distancia do líder e só por milagre, e muito injustamente, roubará o terceiro lugar ao Braga. Mas o Sporting, diz ele, está agora «estabilizado».
Frente ao FC Porto, o Sporting batia-se por mais do que os campeões, cujo objectivo no jogo era apenas o de manterem a invencibilidade. Ao Sporting competia lutar pelo crucial terceiro lugar, tentar quebrar essa invencibilidade e, nao salvando a época, salvar a honra. Aliás, dadas as circunstâncias, competia-lhe mesmo ganhar o jogo, ou, mínimo exigível, tentar à vista de todos ganhar o jogo. Porque, para começar, Couceiro tinha todos os jogadores ao seu dispor, incluindo o regressado Izmailov, enquanto Villas Boas tinha as baixas de Belluschi, dos dois laterais-direitos e de jogadores que, antes e durante o jogo, teve de fazer descansar. E, enquanto o Sporting, afastado de todas as outras competições, está há meses no regime tranquilo de banhos de sol em Alcochete, um joguito a meio-gás por semana, entrecortado por uma ou duas folgas semanais, o FC Porto segue num ritmo infernal de jogos de exigência máxima, tendo completado frente ao Sporting o quinto jogo em 14 dias. Quinta-feira, jogou em Moscovo, sob zero graus e em piso sintético, voou seis horas de volta, para desembarcarem todos sexta de manhã, irem dormir e readaptarem-se ao fuso horário. Sábado fizeram treino para descontrair e domingo já tinham o Sporting pela frente. Perguntado então se esse cansaço e sobrecarga de jogos dos portistas não era uma evidente vantagem para o Sporting, Couceiro teve o supremo desplante de responder que, pelo contrário, dada a motivação psicológica, era uma vantagem para o FC Porto!
Logo aí adivinhei qual era a estratégia de José Couceiro para o clássico do Dragão: cautelas defensivas, paninhos quentes e tudo apostar na sorte. Se nada resultasse, atirar-se ao árbitro, no final. Assim foi: nem o golpe de sorte do primeiro golo, mudou a estratégia. Ou porque não podia ou porque não se atrevia, o Sporting só teve mais duas ocasiões de golo em todo o jogo contra meia dúzia do adversário, não obrigou o Helton a fazer uma única defesa, teve 38% de posse de bola contra 62% do FC Porto, menos de metade dos remates e dos ataques, zero cantos contra oito, e só graças ao poste e a Rui Patrício é que não saiu de lá vergado ao peso de uma goleada, como todos reconheceram. Só mesmo alguém que não tenha assistido ao jogo é que podia declarar no final, como José Couceiro:
«Não seria surpreendente se tivéssemos ganho.»
Estão no bom caminho, deixem se estar assim.
2- Em contrapartida, vão faltando os adjectivos para classificar o desempenho desta equipa de André Villas Boas: não apenas os resultados e os recordes que tombam sucessivamente, mas também as exibições e o insaciável espírito de vitória. Sem dar descanso às peças-chave da equipa, ao contrário do que faz (e pode fazer) Jorge Jesus, o FC Porto atira-se a todos os jogos para ganhar e nada mais. Nestes sete dias, foram mais duas brilhantes demonstrações de categoria e vontade, em Moscovo e contra o Sporting. Cinco jogos, cinco vitórias em 14 dias, 18 golos marcados e apenas os centrais a abanarem.
Este fim-de-semana, vi jogar três dos finalistas da Liga dos Campeões, três das equipas que o mundo considera as melhores da actualidade: Barcelona, Real Madrid e Manchester United. Nenhuma delas joga actualmente melhor que o FC Porto, de perto ou de longe. O cansaço acumulado torna o seu jogo estereotipado, lento e previsível, como bem se viu no chatíssimo Real-Barcelona, onde o futebol brilhante do Barça é agora jogado a ritmo de caracol, mais parecendo um simples treino de meiinho — para o qual, todavia, José Mourinho ainda não encontrou antídoto, limitando-se às recorrentes queixas sem razão contra o árbitro e tudo o resto, bem ao estilo de um José Couceiro. Que pena que este FC Porto não esteja antes a disputar as meias-finais da Champions - onde, por direito próprio pertence!
3- É preciso ser-se mentalmente perturbado e antisocial para destruir a instalação desportiva onde cem miúdos jogam à bola todos os dias, só porque ela é a sucursal em Lisboa do Dragon Force, a escola de futebol do FC Porto.
E é preciso não estar a medir bem as consequências do gesto, quando se ameaça não deixar entrar na Luz adeptos do FC Porto portadores de bilhetes válidos, emitidos pelo Benfica e pagos por eles, com a justificação de que se trata de cobrar dívidas entre os clubes. Independentemente de escolher, entre as versões de cada clube, quem é que deve a quem, os que compraram bilhetes para o jogo tem o inalienável direito de o assistir. Se o bom senso não acabar por se impor, como veementemente se espera e acredita, as autoridades terão um sério problema entre mãos: não apenas porque isso seria potenciador de incidentes porventura graves, mas também porque estariam confrontadas com a prática de um crime de burla, em flagrante delito.
Esperemos que desta vez não haja mais do que um jogo de futebol e, de preferência, bom. E que siga em frente quem o tiver merecido. De outro modo ainda acabaremos a desejar que não haja uma final europeia Benfica-Porto em Dublin, porque já basta a vergonha a que estamos expostos, de mão estendida por essa Europa fora.
quinta-feira, maio 31, 2012
O LADO BOM DO FUTEBOL (12 ABRIL 2011)
1- A boa notícia da semana foi a reacção de tantos e tantos adeptos do Benfica, anónimos ou conhecidos, contra a decisão da sua direcção (já não há dúvidas sobre isso...) de mandar apagar as luzes do estádio e regar os jogadores do FC Porto que festejavam um justíssimo título de campeão conquistado na Luz. Esses adeptos representam o melhor do Benlica e a parte saudável do futebol — que. acredito, continua a ser a maioria dos que gostam deste jogo. Sendo reflexo da própria sociedade, todos os clubes tem a sua parte saudável e a sua parte doentia. Infelizmente, a parte saudável tem sido aos poucos afastada, empurrada para fora dos estádios, pela turba selvagem dos arruaceiros, por dirigentes que espalham o ódio para disfarçar a sua incompetência e também, é forçoso dizê-lo, por uma imprensa que privilegia o conflito, as questiúnculas e as discussões idiotas, ao espectáculo em si mesmo. É inadmissível que ir a um estádio num jogo entre os principais rivais se tenha transformado num exercício de alto risco, num ambiente de ódios à solta, incendiadas previamente por dirigentes irresponsáveis e depois consumados à vista de todos por multidões organizadas de vândalos, a quem o futebol, como jogo, nada diz. É inadmissível, por exemplo, que os contribuintes portugueses (todos, até os que não gostam de futebol), tenham de pagar horas extraordinárias a exércitos policiais mobilizados para conterem uma violência programada e transformada tantas vezes no principal acontecimento de um jogo de futebol.
Felizmente, a honra do SL Benfica foi resgatada por tantos e tantos dos seus adeptos, que, apesar do clima de confronto instalado, souberam parar para pensar no que tinham visto no Estádio da Luz. E eu, talvez ingenuamente, gosto de pensar que um dia a parte saudável de todos os clubes conseguirá juntar-se, organizar-se, num movimento de cidadania desportiva que, a benefício de todos, devolva o futebol aos desportistas e devolva ao futebol a alegria que era a sua imagem de marca. Porque uma coisa é a rivalidade, que só faz bem ao jogo; outra é o terrorismo pseudo-desportivo.
2- Agora, gostaria de não ter que falar no rescaldo do Benfica-Porto, mas foram tantos e tão eloquentes os factos ocorridos, foram de tal forma ofensivos para um clube que acaba de se sagrar campeão nacional, que é impossível calá-los, sob pena de amanhã tudo se repetir igual. E é preciso que algumas coisas mudem, é preciso que algumas pessoas sejam corridas do futebol, a bem da sanidade pública.
Tudo começou, logo na segunda feira seguinte, com a prestação televisiva do maior espalha ódios do futebol português, o vice-presidente do Benfica, Rui Gomes da Silva. Interpelado sobre o apagão da Luz, começou logo, em tom arrogante, por dizer que nao era electricista, depois que nao estava no estádio, a seguir que estava no camarote, não tinha visto nada. Perguntado se não tinha sentido vergonha, como tantos benfiquistas, respondeu que vergonha era se o seu presidente tivesse sido condenado pela justiça desportiva. Ou seja, continua ainda a fingir acreditar que aquele desacreditado Conselho de Disciplina da Liga, organizado e comanditado pela direcção do Benfica, representa alguma forma de justiça - mesmo depois de desautorizado em toda a linha por quatro tribunais que se debruçaram sobre os mesmos factos e, entre outras coisas, concluíram que testemunha arregimentada pelo Benfica e acarinhada pelo dr. Costa e pela dr.ª Morgado, era perjura e tinha, ela sim, contas largas que prestar à justiça. Constando que Rui Gomes da Silva é advogado, não deixa de ser notável o conceito que tem de justiça: prefere uma encomenda de tribunal do que um tribunal a sério. A seguir, tentou também justificar o caso com um antecedente idêntico que teria ocorrido no estádio do FC Porto, na noite dos tempos. Mentiu: no Porto, e em dois jogos consecutivos, faltou a luz durante alguns minutos, regressando depois. Foi uma avaria da instalação ou da rede, que nada tem que ver com o acto voluntário de mandar apagar as luzes e ligar a rega para estragar os festejos ao adversário. E depois veio dizer ainda que as provocações tinham começado pelo FC Porto, ao recusar-se a entrar em campo de mão dada com as crianças equipadas à Benfica, conforme é praxe. Esqueceu-se foi de dizer que a recusa do FC Porto se deveu ao facto de toda as crianças estarem equipadas à Benfica, contrariando a praxe que estabelece que as que acompanham as jogadores da casa devem estar equipadas com as cores do adversário, numa provocação gratuita, que o FC Porto, muito bem, não aceitou.
A seguir, entrou em acção o CD da Liga, para castigar os incidentes da Luz. Pelo apagão e rega, deu ao Benfica a astronómica punição de 1.500 euros de multa. Pelo comportamento de parle dos seus adeptos - que atacaram à pedrada e com bolas de golfe, os carros, autocarros e a marcha escoltada dos adeptos azuis; que mantiveram uma batalha campal com a polícia, que resultou em vários feridos e treze presos; que, mal iniciado o jogo, forçaram a sua interrupção com lançamentode bolas de golfe e tudo que tinham à mão para os jogadores portistas — o CD da Liga multou o Benfica em 2.500 euros. E para o FC Porto, pelo comportamento dos seus adeptos — que foram agredidos à pedrada sem reagir, não provocaram, fora ou dentro do Estádio, qualquer incidente com adeptos benfiquistas ou com a polícia e que se mantiveram tranquilos nos seus lugares, nao aproveitando o apagão para causar problemas - toma lá os mesmos 2.500 euros de multa. Deve ser força do hábito.
Seguiu-se a Comissão de Arbitragem, que, através do observador do jogo da Luz, resolveu atribuir ao árbitro a classificação máxima. Não vou repetir a análise de uma arbitragem que todos viram o escândalo que foi. Limito-me a dizer que, quando um árbitro, em dez decisões controversas, erra todas elas e erra sempre para o mesmo lado, não há muitas dúvidas para alimentar: se aquela arbitragem tem sido ao contrário, em prejuízo do Benfica, o país já estava a arder. Só não digo que foi a pior arbitragem que vi neste campeonato, porque essa aconteceu em Coimbra, quando Académica e FC Porto foram forçados pelo árbitro a jogar num terreno absolutamente impossível para um jogo de futebol, mais parecendo um arrozal do Vietname, na época das cheias. É óbvio que, quando tudo o que os jogadores podem fazer é dar pontapés para o ar e para a frente e fazer aquaplaning, uma equipa de terceira divisão tem tanta hipóteses de vencer como uma equipa de topo. Esse árbitro do jogo de Coimbra sabia, pois, muitíssimo bem, que, ao fazer jogar naquelas condições, estava a falsear um jogo que podia vir a ser decisivo para as contas finais do título e estava, sobretudo. a prejudicar a melhor equipa técnicamente, que era o FC Porto. Custou-me muito acreditar que tivesse sido apenas uma má decisão. E custou-me mais ainda depois de ver que esse árbitro de Coimbra foi, afinal, o mesmo árbitro deste jogo da Luz. que conseguiu tomar dez decisões, todas erradas e influentes, e todas contra o FC Porto. Chama- se Duarte Gomes, de Lisboa, e, como aqui escrevi, prevejo-lhe uma carreira de sucesso, apadrinhado pela CA e desculpado pela comunicação social.
E, para acabar, tivemos a anedota final do castigo a Jorge Jesus. A CD da Liga, depois de meses e meses a investigar uma coisa que todas viram e reviram na televisão — o treinador do Benfica a enfiar um estalo num adversário, no final do jogo - resolveu que o testemunho do agredido não contava e que a agressão passava, com o tempo e o esquecimento, a «tentativa de agressão» . O mesmo órgão de disciplina que inventou que os stewards eram agentes desportivos e que aplicou cinco meses de suspensão a Sapunaru e Hulk por supostas agressões passadas no interior do túnel da Luz, e que até hoje ninguém viu, resolveu castigar com uns suaves 11 dias de suspensão uma estalada dada à vista do país inteiro por um treinador a um jogador adversário (que, para o efeito, não deve ter sido considerado agente desportivo). E, para que a anedota fosse completa, o castigo só foi aplicado quando o Benfica já tinha perdido o campeonato e Jesus não faz falta no banco, e acaba precisamente na véspera de voltar a fazer falta — para o jogo da Taça, contra o FC Porto. Sinceramente, não tem mesmo vergonha alguma?
3- Entretanto, o campeão segue: notável jogo contra o Spartak de Moscovo, e mais uma vitória da vontade colectiva, em Portimão. Leva 26 jogos do campeonato, 24 vitórias, 2 empates: nunca lerá havido um campeão mais justo do que este. É preciso ter uma fé inabalável no fanatismo ou na estupidez alheia para dizer, como Luís Filipe Veira, que o Benfica voltará a ganhar quando voltar a haver justiça no futebol.
Mas este ciclo do FC Porto é absolutamente infernal. Repare-se: dia 3 de Abril, foi a vitória do título, na Luz; quatro dias depois, a fantástica vitória de 5-1 sobre o Spartak, num jogo dificílimo; menos de 72 horas depois, o país inteiro atravessado para vencer em Portimão um dos aflitos e manter a invencibilidade no campeonato; mais quatro dias e novo jogo em Moscovo, culminando uma viagem de doze horas, ida e volta, aos confins da Europa; mais três dias e jogo contra um repousadíssimo Sporting, a lutar pelo 3.º lugar; outros três dias e nova viagem à Luz, no ambiente que se prevê, para tentar a proeza de reverter a eliminatória da Taça; e, depois sim, uma semana de tréguas, antes de reentrar no ciclo de dois jogos por semana, com as meias-finais da Liga Europa. Até aí chegar, são 6 jogos em 17 dias, com uma viagem a Moscovo pelo meio. E todos eles a lutar por qualquer coisa: pelo título, por um campeonato invencível, pela Taça, pela Liga Europa.
Realmente, se houvesse Justiça e desportivismo no futebol português, os adversários do FC Porto recebê-lo-iam agora, à entrada em campo, como os jogadores do Real Madrid receberam há dois anos os do arqui-rival Barcelona, entrando em Chamartin depois de conquistado um justíssimo título: entre duas alas a baterem-lhes palmas.
E vice- versa, quando fosse o caso. Sonhar não ofende.
Felizmente, a honra do SL Benfica foi resgatada por tantos e tantos dos seus adeptos, que, apesar do clima de confronto instalado, souberam parar para pensar no que tinham visto no Estádio da Luz. E eu, talvez ingenuamente, gosto de pensar que um dia a parte saudável de todos os clubes conseguirá juntar-se, organizar-se, num movimento de cidadania desportiva que, a benefício de todos, devolva o futebol aos desportistas e devolva ao futebol a alegria que era a sua imagem de marca. Porque uma coisa é a rivalidade, que só faz bem ao jogo; outra é o terrorismo pseudo-desportivo.
2- Agora, gostaria de não ter que falar no rescaldo do Benfica-Porto, mas foram tantos e tão eloquentes os factos ocorridos, foram de tal forma ofensivos para um clube que acaba de se sagrar campeão nacional, que é impossível calá-los, sob pena de amanhã tudo se repetir igual. E é preciso que algumas coisas mudem, é preciso que algumas pessoas sejam corridas do futebol, a bem da sanidade pública.
Tudo começou, logo na segunda feira seguinte, com a prestação televisiva do maior espalha ódios do futebol português, o vice-presidente do Benfica, Rui Gomes da Silva. Interpelado sobre o apagão da Luz, começou logo, em tom arrogante, por dizer que nao era electricista, depois que nao estava no estádio, a seguir que estava no camarote, não tinha visto nada. Perguntado se não tinha sentido vergonha, como tantos benfiquistas, respondeu que vergonha era se o seu presidente tivesse sido condenado pela justiça desportiva. Ou seja, continua ainda a fingir acreditar que aquele desacreditado Conselho de Disciplina da Liga, organizado e comanditado pela direcção do Benfica, representa alguma forma de justiça - mesmo depois de desautorizado em toda a linha por quatro tribunais que se debruçaram sobre os mesmos factos e, entre outras coisas, concluíram que testemunha arregimentada pelo Benfica e acarinhada pelo dr. Costa e pela dr.ª Morgado, era perjura e tinha, ela sim, contas largas que prestar à justiça. Constando que Rui Gomes da Silva é advogado, não deixa de ser notável o conceito que tem de justiça: prefere uma encomenda de tribunal do que um tribunal a sério. A seguir, tentou também justificar o caso com um antecedente idêntico que teria ocorrido no estádio do FC Porto, na noite dos tempos. Mentiu: no Porto, e em dois jogos consecutivos, faltou a luz durante alguns minutos, regressando depois. Foi uma avaria da instalação ou da rede, que nada tem que ver com o acto voluntário de mandar apagar as luzes e ligar a rega para estragar os festejos ao adversário. E depois veio dizer ainda que as provocações tinham começado pelo FC Porto, ao recusar-se a entrar em campo de mão dada com as crianças equipadas à Benfica, conforme é praxe. Esqueceu-se foi de dizer que a recusa do FC Porto se deveu ao facto de toda as crianças estarem equipadas à Benfica, contrariando a praxe que estabelece que as que acompanham as jogadores da casa devem estar equipadas com as cores do adversário, numa provocação gratuita, que o FC Porto, muito bem, não aceitou.
A seguir, entrou em acção o CD da Liga, para castigar os incidentes da Luz. Pelo apagão e rega, deu ao Benfica a astronómica punição de 1.500 euros de multa. Pelo comportamento de parle dos seus adeptos - que atacaram à pedrada e com bolas de golfe, os carros, autocarros e a marcha escoltada dos adeptos azuis; que mantiveram uma batalha campal com a polícia, que resultou em vários feridos e treze presos; que, mal iniciado o jogo, forçaram a sua interrupção com lançamentode bolas de golfe e tudo que tinham à mão para os jogadores portistas — o CD da Liga multou o Benfica em 2.500 euros. E para o FC Porto, pelo comportamento dos seus adeptos — que foram agredidos à pedrada sem reagir, não provocaram, fora ou dentro do Estádio, qualquer incidente com adeptos benfiquistas ou com a polícia e que se mantiveram tranquilos nos seus lugares, nao aproveitando o apagão para causar problemas - toma lá os mesmos 2.500 euros de multa. Deve ser força do hábito.
Seguiu-se a Comissão de Arbitragem, que, através do observador do jogo da Luz, resolveu atribuir ao árbitro a classificação máxima. Não vou repetir a análise de uma arbitragem que todos viram o escândalo que foi. Limito-me a dizer que, quando um árbitro, em dez decisões controversas, erra todas elas e erra sempre para o mesmo lado, não há muitas dúvidas para alimentar: se aquela arbitragem tem sido ao contrário, em prejuízo do Benfica, o país já estava a arder. Só não digo que foi a pior arbitragem que vi neste campeonato, porque essa aconteceu em Coimbra, quando Académica e FC Porto foram forçados pelo árbitro a jogar num terreno absolutamente impossível para um jogo de futebol, mais parecendo um arrozal do Vietname, na época das cheias. É óbvio que, quando tudo o que os jogadores podem fazer é dar pontapés para o ar e para a frente e fazer aquaplaning, uma equipa de terceira divisão tem tanta hipóteses de vencer como uma equipa de topo. Esse árbitro do jogo de Coimbra sabia, pois, muitíssimo bem, que, ao fazer jogar naquelas condições, estava a falsear um jogo que podia vir a ser decisivo para as contas finais do título e estava, sobretudo. a prejudicar a melhor equipa técnicamente, que era o FC Porto. Custou-me muito acreditar que tivesse sido apenas uma má decisão. E custou-me mais ainda depois de ver que esse árbitro de Coimbra foi, afinal, o mesmo árbitro deste jogo da Luz. que conseguiu tomar dez decisões, todas erradas e influentes, e todas contra o FC Porto. Chama- se Duarte Gomes, de Lisboa, e, como aqui escrevi, prevejo-lhe uma carreira de sucesso, apadrinhado pela CA e desculpado pela comunicação social.
E, para acabar, tivemos a anedota final do castigo a Jorge Jesus. A CD da Liga, depois de meses e meses a investigar uma coisa que todas viram e reviram na televisão — o treinador do Benfica a enfiar um estalo num adversário, no final do jogo - resolveu que o testemunho do agredido não contava e que a agressão passava, com o tempo e o esquecimento, a «tentativa de agressão» . O mesmo órgão de disciplina que inventou que os stewards eram agentes desportivos e que aplicou cinco meses de suspensão a Sapunaru e Hulk por supostas agressões passadas no interior do túnel da Luz, e que até hoje ninguém viu, resolveu castigar com uns suaves 11 dias de suspensão uma estalada dada à vista do país inteiro por um treinador a um jogador adversário (que, para o efeito, não deve ter sido considerado agente desportivo). E, para que a anedota fosse completa, o castigo só foi aplicado quando o Benfica já tinha perdido o campeonato e Jesus não faz falta no banco, e acaba precisamente na véspera de voltar a fazer falta — para o jogo da Taça, contra o FC Porto. Sinceramente, não tem mesmo vergonha alguma?
3- Entretanto, o campeão segue: notável jogo contra o Spartak de Moscovo, e mais uma vitória da vontade colectiva, em Portimão. Leva 26 jogos do campeonato, 24 vitórias, 2 empates: nunca lerá havido um campeão mais justo do que este. É preciso ter uma fé inabalável no fanatismo ou na estupidez alheia para dizer, como Luís Filipe Veira, que o Benfica voltará a ganhar quando voltar a haver justiça no futebol.
Mas este ciclo do FC Porto é absolutamente infernal. Repare-se: dia 3 de Abril, foi a vitória do título, na Luz; quatro dias depois, a fantástica vitória de 5-1 sobre o Spartak, num jogo dificílimo; menos de 72 horas depois, o país inteiro atravessado para vencer em Portimão um dos aflitos e manter a invencibilidade no campeonato; mais quatro dias e novo jogo em Moscovo, culminando uma viagem de doze horas, ida e volta, aos confins da Europa; mais três dias e jogo contra um repousadíssimo Sporting, a lutar pelo 3.º lugar; outros três dias e nova viagem à Luz, no ambiente que se prevê, para tentar a proeza de reverter a eliminatória da Taça; e, depois sim, uma semana de tréguas, antes de reentrar no ciclo de dois jogos por semana, com as meias-finais da Liga Europa. Até aí chegar, são 6 jogos em 17 dias, com uma viagem a Moscovo pelo meio. E todos eles a lutar por qualquer coisa: pelo título, por um campeonato invencível, pela Taça, pela Liga Europa.
Realmente, se houvesse Justiça e desportivismo no futebol português, os adversários do FC Porto recebê-lo-iam agora, à entrada em campo, como os jogadores do Real Madrid receberam há dois anos os do arqui-rival Barcelona, entrando em Chamartin depois de conquistado um justíssimo título: entre duas alas a baterem-lhes palmas.
E vice- versa, quando fosse o caso. Sonhar não ofende.
quarta-feira, maio 30, 2012
NÓS É QUE APAGÁMOS A LUZ! (05 ABRIL 2011)
I – NÃO SABER PERDER
A última recordação que guardo de um jogo que obviamente nunca esquecerei, é da conferencia de imprensa dada por Jorge Jesus, já a frio, mais de meia hora depois do apito final. Perguntaram-lhe se ele achava que o FC Porto tinha sido um justo campeão. E, antes de ele responder, lembrei-me que, em circunstâncias idênticas, na época passada, Jesualdo Ferreira tinha reconhecido o mérito do triunfo do Benfica (e apesar do túnel), tal como o fez André Villas Boas, como o fizeram todos os comentadores portistas, eu incluído. Estaria Jorge Jesus ao nível que se lhe exigia? Não, não esteve; andou à roda da pergunta, fez-se de desentendido, chutou para canto, não respondeu. Daí a pouco, repetiram a pergunta e, antes que ele começasse outra vez a desconversar, interpôs-se o João Gabriel (que, desde que virou assessor, adoptou uma estranha concepção do que é o jornalismo) e impediu a resposta, em tom de quem mete os meninos jornalistas na ordem.
Eis dois dos derrotadas da época, que mostraram não saber perder. Jorge Jesus, que começou por ver fugir a Supertaça e depois levou 5-0 no Dragão, manteve intacta a jactância, avisando que o miúdo não ia aguentar a pressão e que «isto» não era como começava, mas como acabava. Pois acabou com mais uma lição de bola do miúdo em pleno Estádio da Luz, que só por milagre não degenerou em nova humilhação extrema. Mas não foi capaz de reconhecer que perdera para quem fora melhor. Ganhar uma vez, quando se dispõe de uma grande equipa e os adversários estão diminuídos, não é o mais difícil; difícil é ganhar habitualmente. É isso, por exemplo, que distingue Jesus de Mourinho - a quem logo o quiseram comparar, na época passada. Saber perder, reconhecer e aprender com o mérito dos adversários, é uma das condições para progredir. E ele mostrou que não a tem: ou por falta de humildade ou por medo de contrariar a voz do patrão.
Quanto ao João Gabriel, presumo que seja determinante naquilo a que se poderá chamar a estratégia de co-municação do Benfica. Se nao é determinante, é conivente; se não a concebe, executa-a, obediente. Deve, pois ser-lhe assacada uma dose sempre grande de responsabilidade pelo outro campeonato perdido este ano pelo Benfica: o campeonato da imagem e da mensagem. Apesar da entusiástica compreensâo e apoio que sempre goza na imprensa desportiva, o Benfica consumou esta época alguns feitos de haraquiri comunicacional e de imagem que perdurarão - e com danos - anos muitos a fio. Conseguiu ser o primeiro clube do mundo a apelar aos seus adeptos para não irem ver a equipa jogar — um apelo que os próprios adeptos se encarregaram de descartar, expondo a Direcção e os seus conselheiros ao ridículo; conseguiu comprar um jogador adversário na própria manhã do jogo e a tempo de o impedir de jogar à noite; conseguiu, esta semana, inventar o direito de exigir que os adeptos de um clube adversário não entrassem no seu estádio com símbolos desse clube, confirmando que no Estádio da Luz há uma lei especial em vigor que faz com que ali os jogos não sejam um espectáculo público sujeito às regras gerais do país; transformou o speaker de serviço no estádio num hooligan, incitando à arruaça; e rematou com a atitude jamais vista de apagar as luzes do estádio e ligar o sistema de rega para que os jogadores adversários não pudessem festejar a vitória junto dos seus adeptos - mas com isso, e como seria de prever, acabou a proporcionar imagens que ficarão para história do anti desportivismo e, ainda por cima, lindíssimas. E, quando eu achava que já não havia mais tiros no pé a dar, eis que vejo o João Gabriel a exercer o magnânimo e estalinista direito de controlar as perguntas que podem ser feitas ao treinador do Benfica e aquelas a que ele está autorizado a responder. Parabéns à estratégia: foi um êxito retumbante, para recordar durante muito tempo.
O Benfica não perdeu apenas um jogo e um campeonato ou um jogo e campeonato para o rival no seu próprio estádio. Perdeu muito mais do que isso: perdeu o respeito por si mesmo e, à vista de um país inteiro, cobriu-se de vergonha. E é por não perceber isto que eles vão continuar a perder e nós vamos continuar a ganhar. Mas o Benfica é, de facto, um clube muito maior do que as atitudes, os discursos e os comunicados de alguns dos seus podem fazer crer.
Nunca cometerei a aleivosia de confundir o sol com a nuvem que passa e o tapa.
II – SABER GANHAR
Pela terceira vez esta época, André Villas Boas deu uma lição a Jorge Jesus. Foi muito bem ganho o jogo na sua preparação, foi muito bem ganho em campo. As tarjas dos benfiquistas na bancada diziam eu sou campeão, mas não eram mais do que uma confissão de derrota, uma passagem de testemunho. O FC Porto foi superior em tudo: na estratégia, na atitude, no desempenho individual, na qualidade do jogo, na defesa, no ataque, no meio-campo. Não poderia haver outro vencedor e o resultado, de facto, só pecou por escasso - porque Falcão falhou dois golos em frente a Roberto e Cristian Rodriguez falhou outro. E porque assistimos a uma arbitragem sem pudor do lisboeta Duarte Gomes.
Vale a pena recordar: o sr. Duarte Gomes perdoou o segundo amarelo a Aimar por uma agressão, por trás, às pernas de um adversário; perdoou idêntica agressão e já sem bola ao Javi Garcia, um dos crónicos caceteiros do Benfica; perdoou todas as habituais cotoveladas em que os jogadores do Benfica se tornaram useiros e vezeiros; perdoou nada menos do que duas simulações de agressão (mais a simulação do penalty) e dois cortes de bola com a mão a Franco Jara, nos 45 minutos em que ele esteve em jogo; inventou do nada um penaty para repor em jogo um Benfica até aí inexistente; fez uma curiosa interpretação de uma claríssima regra do jogo para trocar um vermelho por um amarelo no penalty cometido por Roberto; expulsou o Otamendi, com dois amarelos - um, por falta que não cometeu (a do penalty), outro por uma simples obstrução na linha lateral — e, com isso, voltou a repor o Benfica em jogo. Enfim, fez o que pode para que o FC Porto não festejasse o título na Luz. Irá ser castigado, despachado para a jarra? Nao: vai ganhar o prémio de arbitragem Cervan/ Gomes da Silva. É claro que agora, com a vitória portista, já nada disto interessa. Mas convém reter o nome e a memória desta prestação: ou muito me engano ou ele está aprovado e destinado a arbitrar muitos mais clássicos.
III – SABER MODERAR AS EXPECTATIVAS
O FC Porto já conquistou dois dos objectivos da época: o campeonato — objectivo n.º 1 - e a Supertaça. Já é mais do que suficiente para dar os parabéns a André Villas Boas e todo grupo de trabalho, do presidente aos roupeiros, como ele disse. E eu dou-lhes a todos os meus parabéns mais sinceros, onde vai muita alegria, muito orgulho e muita gratidão. Além do mais, porque tem sido um campeonato absolutamente impecável e uma Liga Europa brilhante. Quinta-feira, lá estarei no Dragão, para ver o jogo contra o Spartak e para agradecer aos campeões. Mas sei que os três objectivos que nos faltam — a Liga Europa, um campeonato invencível e a Taça de Portugal - não são racionalmente possíveis nem são legitimamente expectáveis. Se pudesse escolher, eu escolheria, por ordem, a Liga Europa, o campeonato sem derrotas e a Taça. Todos não são possíveis, mas o que me conforta mais é saber, sem uma dúvida, que a equipa se vai bater até ao fim por todos e cada um destes objectivos. E que, quando perdermos, saberemos perder, reconhecendo mérito ao adversário aprendendo com a derrota, sem apagar a luz nem exigir que os nossos adeptos não vão aos jogos ou que os adeptos dos outros só vão disfarçados. E essa grandeza que nos faz grandes, na hora da vitória ou da derrota, que nos enche de orgulho e que nos transforma no alvo a abater no pequeno mundo dos medíocres e invejosos.
Os invejosos e medíocres ladram, o FC Porto passa. Passa, segue e vai em frente. Campeão de Portugal pela 25.ª vez. E a história continua. Se acham que já viram tudo, desiludam-se: a história vai continuar. É este o nosso destino.
A última recordação que guardo de um jogo que obviamente nunca esquecerei, é da conferencia de imprensa dada por Jorge Jesus, já a frio, mais de meia hora depois do apito final. Perguntaram-lhe se ele achava que o FC Porto tinha sido um justo campeão. E, antes de ele responder, lembrei-me que, em circunstâncias idênticas, na época passada, Jesualdo Ferreira tinha reconhecido o mérito do triunfo do Benfica (e apesar do túnel), tal como o fez André Villas Boas, como o fizeram todos os comentadores portistas, eu incluído. Estaria Jorge Jesus ao nível que se lhe exigia? Não, não esteve; andou à roda da pergunta, fez-se de desentendido, chutou para canto, não respondeu. Daí a pouco, repetiram a pergunta e, antes que ele começasse outra vez a desconversar, interpôs-se o João Gabriel (que, desde que virou assessor, adoptou uma estranha concepção do que é o jornalismo) e impediu a resposta, em tom de quem mete os meninos jornalistas na ordem.
Eis dois dos derrotadas da época, que mostraram não saber perder. Jorge Jesus, que começou por ver fugir a Supertaça e depois levou 5-0 no Dragão, manteve intacta a jactância, avisando que o miúdo não ia aguentar a pressão e que «isto» não era como começava, mas como acabava. Pois acabou com mais uma lição de bola do miúdo em pleno Estádio da Luz, que só por milagre não degenerou em nova humilhação extrema. Mas não foi capaz de reconhecer que perdera para quem fora melhor. Ganhar uma vez, quando se dispõe de uma grande equipa e os adversários estão diminuídos, não é o mais difícil; difícil é ganhar habitualmente. É isso, por exemplo, que distingue Jesus de Mourinho - a quem logo o quiseram comparar, na época passada. Saber perder, reconhecer e aprender com o mérito dos adversários, é uma das condições para progredir. E ele mostrou que não a tem: ou por falta de humildade ou por medo de contrariar a voz do patrão.
Quanto ao João Gabriel, presumo que seja determinante naquilo a que se poderá chamar a estratégia de co-municação do Benfica. Se nao é determinante, é conivente; se não a concebe, executa-a, obediente. Deve, pois ser-lhe assacada uma dose sempre grande de responsabilidade pelo outro campeonato perdido este ano pelo Benfica: o campeonato da imagem e da mensagem. Apesar da entusiástica compreensâo e apoio que sempre goza na imprensa desportiva, o Benfica consumou esta época alguns feitos de haraquiri comunicacional e de imagem que perdurarão - e com danos - anos muitos a fio. Conseguiu ser o primeiro clube do mundo a apelar aos seus adeptos para não irem ver a equipa jogar — um apelo que os próprios adeptos se encarregaram de descartar, expondo a Direcção e os seus conselheiros ao ridículo; conseguiu comprar um jogador adversário na própria manhã do jogo e a tempo de o impedir de jogar à noite; conseguiu, esta semana, inventar o direito de exigir que os adeptos de um clube adversário não entrassem no seu estádio com símbolos desse clube, confirmando que no Estádio da Luz há uma lei especial em vigor que faz com que ali os jogos não sejam um espectáculo público sujeito às regras gerais do país; transformou o speaker de serviço no estádio num hooligan, incitando à arruaça; e rematou com a atitude jamais vista de apagar as luzes do estádio e ligar o sistema de rega para que os jogadores adversários não pudessem festejar a vitória junto dos seus adeptos - mas com isso, e como seria de prever, acabou a proporcionar imagens que ficarão para história do anti desportivismo e, ainda por cima, lindíssimas. E, quando eu achava que já não havia mais tiros no pé a dar, eis que vejo o João Gabriel a exercer o magnânimo e estalinista direito de controlar as perguntas que podem ser feitas ao treinador do Benfica e aquelas a que ele está autorizado a responder. Parabéns à estratégia: foi um êxito retumbante, para recordar durante muito tempo.
O Benfica não perdeu apenas um jogo e um campeonato ou um jogo e campeonato para o rival no seu próprio estádio. Perdeu muito mais do que isso: perdeu o respeito por si mesmo e, à vista de um país inteiro, cobriu-se de vergonha. E é por não perceber isto que eles vão continuar a perder e nós vamos continuar a ganhar. Mas o Benfica é, de facto, um clube muito maior do que as atitudes, os discursos e os comunicados de alguns dos seus podem fazer crer.
Nunca cometerei a aleivosia de confundir o sol com a nuvem que passa e o tapa.
II – SABER GANHAR
Pela terceira vez esta época, André Villas Boas deu uma lição a Jorge Jesus. Foi muito bem ganho o jogo na sua preparação, foi muito bem ganho em campo. As tarjas dos benfiquistas na bancada diziam eu sou campeão, mas não eram mais do que uma confissão de derrota, uma passagem de testemunho. O FC Porto foi superior em tudo: na estratégia, na atitude, no desempenho individual, na qualidade do jogo, na defesa, no ataque, no meio-campo. Não poderia haver outro vencedor e o resultado, de facto, só pecou por escasso - porque Falcão falhou dois golos em frente a Roberto e Cristian Rodriguez falhou outro. E porque assistimos a uma arbitragem sem pudor do lisboeta Duarte Gomes.
Vale a pena recordar: o sr. Duarte Gomes perdoou o segundo amarelo a Aimar por uma agressão, por trás, às pernas de um adversário; perdoou idêntica agressão e já sem bola ao Javi Garcia, um dos crónicos caceteiros do Benfica; perdoou todas as habituais cotoveladas em que os jogadores do Benfica se tornaram useiros e vezeiros; perdoou nada menos do que duas simulações de agressão (mais a simulação do penalty) e dois cortes de bola com a mão a Franco Jara, nos 45 minutos em que ele esteve em jogo; inventou do nada um penaty para repor em jogo um Benfica até aí inexistente; fez uma curiosa interpretação de uma claríssima regra do jogo para trocar um vermelho por um amarelo no penalty cometido por Roberto; expulsou o Otamendi, com dois amarelos - um, por falta que não cometeu (a do penalty), outro por uma simples obstrução na linha lateral — e, com isso, voltou a repor o Benfica em jogo. Enfim, fez o que pode para que o FC Porto não festejasse o título na Luz. Irá ser castigado, despachado para a jarra? Nao: vai ganhar o prémio de arbitragem Cervan/ Gomes da Silva. É claro que agora, com a vitória portista, já nada disto interessa. Mas convém reter o nome e a memória desta prestação: ou muito me engano ou ele está aprovado e destinado a arbitrar muitos mais clássicos.
III – SABER MODERAR AS EXPECTATIVAS
O FC Porto já conquistou dois dos objectivos da época: o campeonato — objectivo n.º 1 - e a Supertaça. Já é mais do que suficiente para dar os parabéns a André Villas Boas e todo grupo de trabalho, do presidente aos roupeiros, como ele disse. E eu dou-lhes a todos os meus parabéns mais sinceros, onde vai muita alegria, muito orgulho e muita gratidão. Além do mais, porque tem sido um campeonato absolutamente impecável e uma Liga Europa brilhante. Quinta-feira, lá estarei no Dragão, para ver o jogo contra o Spartak e para agradecer aos campeões. Mas sei que os três objectivos que nos faltam — a Liga Europa, um campeonato invencível e a Taça de Portugal - não são racionalmente possíveis nem são legitimamente expectáveis. Se pudesse escolher, eu escolheria, por ordem, a Liga Europa, o campeonato sem derrotas e a Taça. Todos não são possíveis, mas o que me conforta mais é saber, sem uma dúvida, que a equipa se vai bater até ao fim por todos e cada um destes objectivos. E que, quando perdermos, saberemos perder, reconhecendo mérito ao adversário aprendendo com a derrota, sem apagar a luz nem exigir que os nossos adeptos não vão aos jogos ou que os adeptos dos outros só vão disfarçados. E essa grandeza que nos faz grandes, na hora da vitória ou da derrota, que nos enche de orgulho e que nos transforma no alvo a abater no pequeno mundo dos medíocres e invejosos.
Os invejosos e medíocres ladram, o FC Porto passa. Passa, segue e vai em frente. Campeão de Portugal pela 25.ª vez. E a história continua. Se acham que já viram tudo, desiludam-se: a história vai continuar. É este o nosso destino.
terça-feira, maio 29, 2012
ERA UMA VEZ UM JOGO FUNDADO POR CAVALHEIROS (29 MARÇO 2011)
1- Desejo as maiores felicidades ao novo presidente do Sporting - seja ele quem for. A avaliar pelo nível da campanha eleitoral e da votação em si mesma, quem quer que finalmente ocupe o cargo está condenado a governar uma facção contra todas as outras e, a menos que as coisas comecem logo a correr maravilhosamente bem, a exercer as suas funções num clima de contestação, ódio, insultos e ameaças ou mesmo agressões físicas. Sinceramente, custa a entender que haja quem aspire à função.
De cabeça perdida por anos de frustração desportiva e uma situação de ruína financeira e sem perspectivas de recuperação económica a médio prazo (tal qual o país), os sportinguistas entregaram-se a um desvario eleitoral que alguns, bondosamente, ainda tentaram ver como um sinal de «vitalidade». Foi sim um sinal de desintegração, de desnorte e de irresponsabilidade. Esperemos que o Sporting Clube de Portugal não fique conhecido como o Sporting Igual a Portugal. Esperemos, por Portugal - porque, quanto ao Sporting, não sei ja se terá salvação, neste clima e neste panorama. Os sinais de desvario e irresponsabilidade, o tom de vale tudo com que os candidatos se lançaram uns contra os outros, ficaram bem patentes no jogo perigoso de promessas irreais, discursos disparatados e suspeitas mútuas de toda a ordem. Não sei se, reflectindo ou nao, o sentimento dominante dos sportinguistas, os cinco candidatos revelaram uma notável leviandade na forma como anunciavam nomes aos quatro ventos e como apregoavam fundos e dinheiros, cuja origem ou existência em nada os preocupava, mesmo que viessem de lavagem de dinheiro, de negócios mafiosos ou pior ainda. Apenas Dias Ferreira destoou nessa espiral de populismo, mas já o seu número 2, Paulo Futre, não se conteve em alinhar nesse tsunami de disparates, anunciando mirabolantes negócios da China que não resistiam a uma simples reflexão de bom senso: os «novos-ricos» da China, como lhes chamou, iriam pagar 1,5 milhões de euros por cada jogo do Sporting (a custos chineses, significa um estádio de 60.000 lugares cheio) e à razão de um jogo por dia, durante uma semana! Eis o nível a que chegou o debate!
Tudo isto culminou num presidente eleito com um número de votantes significativamente inferior ao candidato que ficou em segundo lugar, mas com uma maioria ridícula de votos, graças a um sistema eleitoral herdado dos tempos em que se queria preservar o club de aventureiros como Bruno de Carvalho. Um presidente eleito, que, mal anunciado, logo foi insultado, empurrado, apedrejado e só não foi sovado porque o protegeram outros, que não os adeptos. E cuja eleição é agora contestada, estatutária e judicialmente, pelo candidato derrotado, que lhe lança o repto de «não se apegar ao poder» e pôr o Sporting em primeiro lugar — como ele próprio, Bruno de Carvalho, tão bem exemplifica...
Na campanha eleitoral do Sporting foram evidentes alguns sinais de que o clube pode ser tomado de assalto pelas claques. Há presidentes que tem medo delas e lhes consentem tudo, e há outros que as usam em benefício de um projecto pessoal de poder. E é sobretudo nos momentos de crise e de desesperança que o perigo de elas tomarem conta dos clubes se torna mais real. Todos estamos lembrados do exemplo extremo de Vale e Azevedo, lançando mãos das claques como instrumento de terror e de intimidação interna e externa, e com as quais (e uma imprensa submissa e conivente), foi disfarçando a sua incompetência e desonestidade, que por pouco não levavam o Benfica à extinção. Não quero de forma alguma sugerir que seja esse o caso da candidatura de Bruno de Carvalho: primeiro, porque desconheço factos que o indiquem, depois porque não vejo nele nenhum Vale e Azevedo — ao contrário do que dele disseram outros candidatos. Mas as cenas que os seus apaniguados protagonizaram à porta de Alvalade fizeram lembrar cenas já vistas mais adiante na Segunda Circular.
2- Domingo que vem bem gostaria de estar na Luz, a ver o FC Porto tentar sair de lá como campeão. Mas, infelizmente, tal não é possível. Porque gosto muito de futebol, não me passa pela cabeça ir ver o jogo para o meio das claques, onde o futebol é o que menos interessa e o que mais interessa é insultar o adversário. E a última vez que fui para a bancada num estádio a Sul do Tejo, foi em Setúbal, num jogo sem história em que o FC Porto começou a ganhar aos cinco minutos e trucidou tranquilamente o Vitória. Mesmo assim, estive à beira de ser espancado por um grupo de corajosos adeptos vitorianos, ofendidos pelo facto de eu me levantar a celebrar os golos do FC Porto. Umas semanas antes, em Alvalade, tinha-me sucedido exactamente o mesmo, quando Domingos de seu nome, de quem agora se fala para treinador do Sporting, destroçou esse clube de cavalheiros.
As claques, que espalham o ódio nos estádios e fora deles, que apedrejam autocarros e carros de dirigentes (na semana passada, foi o de Luis Filipe Vieira, atacado cobardemente), estão a matar o futebol. Clubismo é uma coisa, fanatismo é outra. Eles não gostam de futebol nem sequer gostam dos clubes que apoiam: usam o futebol e o clube como instrumentos de ódio e selvajaria, organizando-se em escolas de crime e actuando a coberto da pior forma de cobardia, que é a das multidões. Dir-me-ão que as claques são essenciais para trazer público aos estádios e apoio aos clubes. É mentira: afastam mais gente do que a que trazem e envergonham mais os clubes do que os ajudam. Dir-me-ão que há excepções entre as claques e eu acredito que sim: há excepções em tudo, mas, muitas vezes, são as boas excepções que servem para tolerar a intolerável maioria.
Seria muito bom que nenhuma declaração de parte a parte e incluindo toda a gente, viesse tornar insuportável o ambiente prévio do Benfica-Porto do próximo domingo. Já sem o campeonato em jogo, não há nenhuma razão para que as duas melhores equipas de Portugal não se entreguem ao jogo pelo jogo, sem que outros o tentem estragar de fora. Por uma vez, agradecia-se silêncio.
Embora sem nada em jogo, em termos de campeonato, o jogo da Luz tem, porém, várias outras coisas importantes em jogo. Já não há nada de determinante a ganhar mas há muito, de orgulho próprio a perder, e especialmente para o Benfica. O Benfica vai ter de impedir que o FC Porto seja campeão no seu estádio — o que seria traumático para os adeptos. Depois, vai ter de passar o testemunho de campeão ao FC Porto e tem bem presente a situação inversa, na época passada, em que um FC Porto sem nenhum favoritismo e reduzido a dez metade do jogo, encontrou talento e motivação para vencer 3-1 e evitar que o Benfica festejasse o titulo no Dragão. Mas o Benfica tem também de tentar interromper o campeonato sem derrotas do FC Porto, para que este não possa ameaçar o seu registo de ter sido o único clube que conseguiu ser campeão invencível, na época vitoriosa de Jimmy Hagam. E tem ainda de vingar os 5-0 da primeira volta no Dragão, que foi onde o FC Porto sentenciou o campeonato. É um caderno de encargos suficiente para que o jogo seja tudo menos a feijões.
Se pudessem concerlar o assunto entre ambos, talvez Andre Villas Boas e Jorge Jesus não se importassem de combinar deixar de fora alguns dos seus mais valiosos trunfos {Eu tiro o Fábio Coentrão e tu tiras o Álvaro Pereira e o Varela; eu tiro o Aimar, o Saviola e o Gaitan e tu tiras o Hulk; eu tiro o Cardozo e tu tiras ...o Walter). E que este, que era para ser o jogo do título, está agora claramente ultrapassado em importância pelos jogos europeus que ambas as equipes terão de enfrentar quinta-feira. E ambas chegam ao jogo da Luz com uma dúzia de jogadores cansados e desgastados pelos inúteis e incompreensíveis jogos amigáveis de selecções, agendados para o momento mais determinante da época dos clubes europeus.
3- Faz pena ver Ricardo Quaresma a jogar, hoje. Ele é mais um exemplo de como o FC Porto é uma grande escola de jogadores. Não o Sporting, que mal os começa a formar, logo os vende, mas o FC Porto, que foi quem transformou o Quaresma num grande jogador — que ele nunca mais voltou a ser depois de se ter ido embora. Eu bem que o avisei, aqui, na altura em que resolveu ir atrás da proposta de Mourinho e do dinheiro do Inter. Alguém que tinha um dom tao fabuloso como ele para jogar à bola, não tinha o direito de o deitar a perder assim.
De cabeça perdida por anos de frustração desportiva e uma situação de ruína financeira e sem perspectivas de recuperação económica a médio prazo (tal qual o país), os sportinguistas entregaram-se a um desvario eleitoral que alguns, bondosamente, ainda tentaram ver como um sinal de «vitalidade». Foi sim um sinal de desintegração, de desnorte e de irresponsabilidade. Esperemos que o Sporting Clube de Portugal não fique conhecido como o Sporting Igual a Portugal. Esperemos, por Portugal - porque, quanto ao Sporting, não sei ja se terá salvação, neste clima e neste panorama. Os sinais de desvario e irresponsabilidade, o tom de vale tudo com que os candidatos se lançaram uns contra os outros, ficaram bem patentes no jogo perigoso de promessas irreais, discursos disparatados e suspeitas mútuas de toda a ordem. Não sei se, reflectindo ou nao, o sentimento dominante dos sportinguistas, os cinco candidatos revelaram uma notável leviandade na forma como anunciavam nomes aos quatro ventos e como apregoavam fundos e dinheiros, cuja origem ou existência em nada os preocupava, mesmo que viessem de lavagem de dinheiro, de negócios mafiosos ou pior ainda. Apenas Dias Ferreira destoou nessa espiral de populismo, mas já o seu número 2, Paulo Futre, não se conteve em alinhar nesse tsunami de disparates, anunciando mirabolantes negócios da China que não resistiam a uma simples reflexão de bom senso: os «novos-ricos» da China, como lhes chamou, iriam pagar 1,5 milhões de euros por cada jogo do Sporting (a custos chineses, significa um estádio de 60.000 lugares cheio) e à razão de um jogo por dia, durante uma semana! Eis o nível a que chegou o debate!
Tudo isto culminou num presidente eleito com um número de votantes significativamente inferior ao candidato que ficou em segundo lugar, mas com uma maioria ridícula de votos, graças a um sistema eleitoral herdado dos tempos em que se queria preservar o club de aventureiros como Bruno de Carvalho. Um presidente eleito, que, mal anunciado, logo foi insultado, empurrado, apedrejado e só não foi sovado porque o protegeram outros, que não os adeptos. E cuja eleição é agora contestada, estatutária e judicialmente, pelo candidato derrotado, que lhe lança o repto de «não se apegar ao poder» e pôr o Sporting em primeiro lugar — como ele próprio, Bruno de Carvalho, tão bem exemplifica...
Na campanha eleitoral do Sporting foram evidentes alguns sinais de que o clube pode ser tomado de assalto pelas claques. Há presidentes que tem medo delas e lhes consentem tudo, e há outros que as usam em benefício de um projecto pessoal de poder. E é sobretudo nos momentos de crise e de desesperança que o perigo de elas tomarem conta dos clubes se torna mais real. Todos estamos lembrados do exemplo extremo de Vale e Azevedo, lançando mãos das claques como instrumento de terror e de intimidação interna e externa, e com as quais (e uma imprensa submissa e conivente), foi disfarçando a sua incompetência e desonestidade, que por pouco não levavam o Benfica à extinção. Não quero de forma alguma sugerir que seja esse o caso da candidatura de Bruno de Carvalho: primeiro, porque desconheço factos que o indiquem, depois porque não vejo nele nenhum Vale e Azevedo — ao contrário do que dele disseram outros candidatos. Mas as cenas que os seus apaniguados protagonizaram à porta de Alvalade fizeram lembrar cenas já vistas mais adiante na Segunda Circular.
2- Domingo que vem bem gostaria de estar na Luz, a ver o FC Porto tentar sair de lá como campeão. Mas, infelizmente, tal não é possível. Porque gosto muito de futebol, não me passa pela cabeça ir ver o jogo para o meio das claques, onde o futebol é o que menos interessa e o que mais interessa é insultar o adversário. E a última vez que fui para a bancada num estádio a Sul do Tejo, foi em Setúbal, num jogo sem história em que o FC Porto começou a ganhar aos cinco minutos e trucidou tranquilamente o Vitória. Mesmo assim, estive à beira de ser espancado por um grupo de corajosos adeptos vitorianos, ofendidos pelo facto de eu me levantar a celebrar os golos do FC Porto. Umas semanas antes, em Alvalade, tinha-me sucedido exactamente o mesmo, quando Domingos de seu nome, de quem agora se fala para treinador do Sporting, destroçou esse clube de cavalheiros.
As claques, que espalham o ódio nos estádios e fora deles, que apedrejam autocarros e carros de dirigentes (na semana passada, foi o de Luis Filipe Vieira, atacado cobardemente), estão a matar o futebol. Clubismo é uma coisa, fanatismo é outra. Eles não gostam de futebol nem sequer gostam dos clubes que apoiam: usam o futebol e o clube como instrumentos de ódio e selvajaria, organizando-se em escolas de crime e actuando a coberto da pior forma de cobardia, que é a das multidões. Dir-me-ão que as claques são essenciais para trazer público aos estádios e apoio aos clubes. É mentira: afastam mais gente do que a que trazem e envergonham mais os clubes do que os ajudam. Dir-me-ão que há excepções entre as claques e eu acredito que sim: há excepções em tudo, mas, muitas vezes, são as boas excepções que servem para tolerar a intolerável maioria.
Seria muito bom que nenhuma declaração de parte a parte e incluindo toda a gente, viesse tornar insuportável o ambiente prévio do Benfica-Porto do próximo domingo. Já sem o campeonato em jogo, não há nenhuma razão para que as duas melhores equipas de Portugal não se entreguem ao jogo pelo jogo, sem que outros o tentem estragar de fora. Por uma vez, agradecia-se silêncio.
Embora sem nada em jogo, em termos de campeonato, o jogo da Luz tem, porém, várias outras coisas importantes em jogo. Já não há nada de determinante a ganhar mas há muito, de orgulho próprio a perder, e especialmente para o Benfica. O Benfica vai ter de impedir que o FC Porto seja campeão no seu estádio — o que seria traumático para os adeptos. Depois, vai ter de passar o testemunho de campeão ao FC Porto e tem bem presente a situação inversa, na época passada, em que um FC Porto sem nenhum favoritismo e reduzido a dez metade do jogo, encontrou talento e motivação para vencer 3-1 e evitar que o Benfica festejasse o titulo no Dragão. Mas o Benfica tem também de tentar interromper o campeonato sem derrotas do FC Porto, para que este não possa ameaçar o seu registo de ter sido o único clube que conseguiu ser campeão invencível, na época vitoriosa de Jimmy Hagam. E tem ainda de vingar os 5-0 da primeira volta no Dragão, que foi onde o FC Porto sentenciou o campeonato. É um caderno de encargos suficiente para que o jogo seja tudo menos a feijões.
Se pudessem concerlar o assunto entre ambos, talvez Andre Villas Boas e Jorge Jesus não se importassem de combinar deixar de fora alguns dos seus mais valiosos trunfos {Eu tiro o Fábio Coentrão e tu tiras o Álvaro Pereira e o Varela; eu tiro o Aimar, o Saviola e o Gaitan e tu tiras o Hulk; eu tiro o Cardozo e tu tiras ...o Walter). E que este, que era para ser o jogo do título, está agora claramente ultrapassado em importância pelos jogos europeus que ambas as equipes terão de enfrentar quinta-feira. E ambas chegam ao jogo da Luz com uma dúzia de jogadores cansados e desgastados pelos inúteis e incompreensíveis jogos amigáveis de selecções, agendados para o momento mais determinante da época dos clubes europeus.
3- Faz pena ver Ricardo Quaresma a jogar, hoje. Ele é mais um exemplo de como o FC Porto é uma grande escola de jogadores. Não o Sporting, que mal os começa a formar, logo os vende, mas o FC Porto, que foi quem transformou o Quaresma num grande jogador — que ele nunca mais voltou a ser depois de se ter ido embora. Eu bem que o avisei, aqui, na altura em que resolveu ir atrás da proposta de Mourinho e do dinheiro do Inter. Alguém que tinha um dom tao fabuloso como ele para jogar à bola, não tinha o direito de o deitar a perder assim.
segunda-feira, fevereiro 13, 2012
UM PASSEIO DE CAMPEÃO (22 MARÇO 2011)
1- Custa-lhes muito ouvir isto, mas é tão verdade que até dói: este foi dos campeonatos mais fáceis alguma vez ganhos pelo FC Porto ou por Benfica ou Sporting ou qualquer clube por esse mundo fora. Houve apenas uma altura, cerca de mês e meio, entre Dezembro e Janeiro, que o FC Porto, desfalcado de Alvaro Pereira e Falcão, abanou, enquanto o Benfica subia. Mas, por sorte, esse período coincidiu com a ausência de jogos europeus e teve poucos e fáceis jogos para o campeonato, pelo que a factura foi paga apenas na Taça de Portugal e Taça da Liga. Retomada a normalidade, a seis jornadas do fim, falta-nos apenas uma vitória para sermos campeões. Treze pontos de avanço sobre o segundo, 29 sobre o terceiro, 22 vitórias e dois empates em 24 jogos, apenas 8 golos sofridos e 56 marcados, a melhor defesa, o melhor ataque, o melhor marcador. A quarta melhor equipa da actualidade (CNN dixit), o principal favorito, segundo as casas de apostas e a imprensa espanhola, à conquista da Liga Europa (10 vitórias, 1 empate e 1 derrota em doze jogos). É preciso uma imensa, uma despudorada desonestidade intelectual, para contestar o mérito deste campeonato. E, por isso mesmo, é que os nossos campeonatos, têm sempre um duplo sabor a vitória: porque é mais uma conquista para o nosso clube e mais uma derrota para o clube dos invejosos e maledicentes. São vitórias destas, contra a inveja, o despeito e a calúnia, de que o país precisa como exemplo para definitivamente cair em si e mudar de rumo. Para passar a dar mérito a quem o tem, ao trabalho, ao talento, ao esforço, e deixar de premiar os que se acham com direito incontestável a tudo, apenas porque no passado ganharam duas Taças dos Campeões Europeus ou descobriram o caminho marítimo para a índia.
O FC Porto é o maior caso de sucesso, individua ou colectivo, que Portugal protagonizou nos últimos trinta anos. Não cabe na cidade que o viu nascer e cujo presidente de Câmara tudo fez para lhe criar problemas e tanto sofre com as suas vitórias, e não cabe no país de que uma grande e invejosa parte vive a tentar diminuir o seu sucesso e difamá-lo mesmo além fronteiras. Paciência, embrulhem mais este! E registem o que escrevo: não hei-de morrer sem ver o FC Porto ultrapassar o Benfica em número de campeonatos conquistados. Em conhecimento, prestígio e número de títulos internacionais, de há muito que ultrapassámos a marca Benfica. Só falta consegui-lo aqui, mas já faltou bem mais.
2- Agora, com mais um campeonato brilhantemente conquistado, restam as tarefas seguintes e que não são poucas, todavia: acabar o campeonato sem derrotas; virar os 0-2 do Dragão para a Taça de Portugal num 3-1 na Luz; e seguir em frente, até ao limite, na Liga Europa. São sonhos a mais, uma tarefa impossível, eu sei. Mas o que importa é continuar a ter objectivos de vitória e acredito, sim, que esta equipa nunca irá adormecer à sombra do que já conquistou este ano: a Supertaça e o Campeonato. E, depois, há ainda os juniores e o hóquei, o basquete, o andebol. As alegrias não acabam aqui.
3- Palavra, que me custa falar do Sporting e nunca o faço mais do que duas, três vezes, por ano. Por um lado, porque nunca é muito elegante bater em mortos ou moribundos; depois, porque eles são muito susceptíveis, ofendem-se com pouco e, como escreveu o Cesare Pavese, mesmo que possam estar mortos, ainda não o sabem. E não convém dizer-lhes, assim, à bruta.
Há meses, expliquei aqui, delicadamente, esta minha tese da morte iminente, conjuntural e estrutural, do Sporring. Conjuntural, porque, como escrevi, quem quer que perceba um mínimo de futebol olha para aquela equipa e não se pode espantar que esteja a uns espantosos 29 pontos do primeiro lugar: só pode espantar-se é que esteja em terceiro lugar — o que só demonstra como o nosso campeonato é bipolar até ao extremo. Quanto à morte estrutural, não vou agora repetir-me, mas deriva da própria morte lenta a que o Sporting tem sido submetido ao longo de duas décadas, por erros próprios gritantes: a eterna lamúria dos árbitros que sempre serviu para disfarçar os fracassos internos, a atitude de aristocrata que nada precisa de aprender, a pressa em desfazer-se de alguns grandes jogadores formados na academia, o inacreditável estádio que afasta espectadores em lugar de os chamar e os tios-gestores que, regra geral, nada percebem de futebol mas acham-se com um direito de berço a dirigir o clube. Enfim, um clube que nunca teve a humildade para parar e olhar-se ao espelho. Claro, que é sempre possível, como então escrevi, que aconteça um milagre, que algum sheik do petróleo ou patrão da máfia russa resolva apaixonar-se pelas camisolas verdes às riscas ou por aquela espécie de tenda de circo em betão armado, e decida investir ali uns milhões a perder de vista. Talvez isso pudesse, com critério, sorte e paciência, levar à formação de uma grande equipa de futebol. Mas uma boa equipa não chega para fazer um campeão habitual e muitos milhões não chegam para ressuscitar um clube que perdeu a base social de apoio, a capacidade de atrair os jovens e a cultura de vitória. Demoraria uma geração a começar a reconstruir o que se deixou destruir aos poucos.
Lamento dizê-lo, mas esta campanha eleitoral do Sporting, com tantos e tantos candidatos declarados e outros frustrados, em vez de me fazer prova de vida dessa moribunda instituição, antes me confirma que os sinais vitais são mais do que débeis. A abundância de candidatos quer apenas dizer que aquilo está à mercê de qualquer um. Basta dizer que se tem um «fundo», que se reuniu com os bancos e já se falou com o José Maria Ricciardi, que se tem um treinador de «créditos firmados» (como o Van Basten, sem curriculum algum, ou o Scolari, com um curriculum de fiascos e prima-dona até dizer chega) e que se reuniu algumas velhas glórias do clube para fazerem não se sabe o quê, e eis um candidato a presidente do Sporting. Não precisa de entender nada de futebol nem de gestão, nem sequer ter um cadastro limpo e ao nível da fidalguia reclamada. Como, antes de mais, é de dinheiro que se trata, o que interessa é acenar aos sócios com milhões caídos do céu — ou da máfia angolana, ou da russa, ou dos negócios com o Estado, ou da família. Os poucos que não conseguem inventar uma mina de ouro, sustentam que o principal é começar pelos títulos conquistados: logo depois, chegarão as multidões de adeptos e os milhões dos «investidores»: piece of cake. Todos têm um director desportivo consagrado, jogadores de topo já assentes mas que não se podem ainda comprometer publicamente (até o fantasma do Adriano!), e têm um «projecto», um «levantamento», um «estudo», para problemas, que nào parecem ser assim tão graves pois que todos declaram igualmente que não é a dívida à banca que impedirá o Sporting de ser campeão já para o ano. Parece fácil, não é?
Talvez, admito que sim, que eu esteja a ser injusto. Deve haver ali alguém com algumas ideias aproveitáveis, só que, com tão inflamado sportinguismo, tantos ataques mútuos e fratricidas e tanta conversa de treta para incautos, torna-se difícil de o descortinar. Mesmo o juiz (caramba, o juiz desembargador!) sai-se com pérolas destas: «comigo, árbitro que cometa erros grosseiros contra nós, leva logo com um processo-crime!». Ora vejam para o que serve um juiz à frente de um clube de futebol! O meu medo, confesso, não é de o ver à frente do Sporting: é de me ver a mim em frente a um tribunal presidido por ele». Dessa nem o Rui Gomes da Silva se lembrou ainda!
P.S. E por falar em conceitos muito especiais de justiça, fica aqui, mais uma vez, um esclarecimento ao APV (admitindo que ele quer ser esclarecido daquilo que não quer ver esclarecido): quando a D.ª Carolina Salgado apareceu como «testemunha-chave» do Benfica, da Drª Maria José Morgado e do Dr. Ricardo Costa, contra o FC Porto, eu disse, de facto, que Pinto da Costa se deveria demitir de presidente do clube. Mas acrescentei a razão, que o APV deliberadamente omite: não porque, em algum momento, eu acreditasse que o seu testemunho continha o que quer que fosse de verdade, mas porque, ao conceder -lhe o estatuto que lhe concedeu no FC Porto, ele tinha misturado a sua vida pessoal com a do clube, permitindo depois que alguém desse calibre, por despeito pessoal, nos tivesse vindo enxovalhar a todos. Mas eu percebo que o APV finja não perceber a diferença: quando não se é livre nem independente, é sempre tramado topar com a liberdade e independência alheias. Fim de conversa.
O FC Porto é o maior caso de sucesso, individua ou colectivo, que Portugal protagonizou nos últimos trinta anos. Não cabe na cidade que o viu nascer e cujo presidente de Câmara tudo fez para lhe criar problemas e tanto sofre com as suas vitórias, e não cabe no país de que uma grande e invejosa parte vive a tentar diminuir o seu sucesso e difamá-lo mesmo além fronteiras. Paciência, embrulhem mais este! E registem o que escrevo: não hei-de morrer sem ver o FC Porto ultrapassar o Benfica em número de campeonatos conquistados. Em conhecimento, prestígio e número de títulos internacionais, de há muito que ultrapassámos a marca Benfica. Só falta consegui-lo aqui, mas já faltou bem mais.
2- Agora, com mais um campeonato brilhantemente conquistado, restam as tarefas seguintes e que não são poucas, todavia: acabar o campeonato sem derrotas; virar os 0-2 do Dragão para a Taça de Portugal num 3-1 na Luz; e seguir em frente, até ao limite, na Liga Europa. São sonhos a mais, uma tarefa impossível, eu sei. Mas o que importa é continuar a ter objectivos de vitória e acredito, sim, que esta equipa nunca irá adormecer à sombra do que já conquistou este ano: a Supertaça e o Campeonato. E, depois, há ainda os juniores e o hóquei, o basquete, o andebol. As alegrias não acabam aqui.
3- Palavra, que me custa falar do Sporting e nunca o faço mais do que duas, três vezes, por ano. Por um lado, porque nunca é muito elegante bater em mortos ou moribundos; depois, porque eles são muito susceptíveis, ofendem-se com pouco e, como escreveu o Cesare Pavese, mesmo que possam estar mortos, ainda não o sabem. E não convém dizer-lhes, assim, à bruta.
Há meses, expliquei aqui, delicadamente, esta minha tese da morte iminente, conjuntural e estrutural, do Sporring. Conjuntural, porque, como escrevi, quem quer que perceba um mínimo de futebol olha para aquela equipa e não se pode espantar que esteja a uns espantosos 29 pontos do primeiro lugar: só pode espantar-se é que esteja em terceiro lugar — o que só demonstra como o nosso campeonato é bipolar até ao extremo. Quanto à morte estrutural, não vou agora repetir-me, mas deriva da própria morte lenta a que o Sporting tem sido submetido ao longo de duas décadas, por erros próprios gritantes: a eterna lamúria dos árbitros que sempre serviu para disfarçar os fracassos internos, a atitude de aristocrata que nada precisa de aprender, a pressa em desfazer-se de alguns grandes jogadores formados na academia, o inacreditável estádio que afasta espectadores em lugar de os chamar e os tios-gestores que, regra geral, nada percebem de futebol mas acham-se com um direito de berço a dirigir o clube. Enfim, um clube que nunca teve a humildade para parar e olhar-se ao espelho. Claro, que é sempre possível, como então escrevi, que aconteça um milagre, que algum sheik do petróleo ou patrão da máfia russa resolva apaixonar-se pelas camisolas verdes às riscas ou por aquela espécie de tenda de circo em betão armado, e decida investir ali uns milhões a perder de vista. Talvez isso pudesse, com critério, sorte e paciência, levar à formação de uma grande equipa de futebol. Mas uma boa equipa não chega para fazer um campeão habitual e muitos milhões não chegam para ressuscitar um clube que perdeu a base social de apoio, a capacidade de atrair os jovens e a cultura de vitória. Demoraria uma geração a começar a reconstruir o que se deixou destruir aos poucos.
Lamento dizê-lo, mas esta campanha eleitoral do Sporting, com tantos e tantos candidatos declarados e outros frustrados, em vez de me fazer prova de vida dessa moribunda instituição, antes me confirma que os sinais vitais são mais do que débeis. A abundância de candidatos quer apenas dizer que aquilo está à mercê de qualquer um. Basta dizer que se tem um «fundo», que se reuniu com os bancos e já se falou com o José Maria Ricciardi, que se tem um treinador de «créditos firmados» (como o Van Basten, sem curriculum algum, ou o Scolari, com um curriculum de fiascos e prima-dona até dizer chega) e que se reuniu algumas velhas glórias do clube para fazerem não se sabe o quê, e eis um candidato a presidente do Sporting. Não precisa de entender nada de futebol nem de gestão, nem sequer ter um cadastro limpo e ao nível da fidalguia reclamada. Como, antes de mais, é de dinheiro que se trata, o que interessa é acenar aos sócios com milhões caídos do céu — ou da máfia angolana, ou da russa, ou dos negócios com o Estado, ou da família. Os poucos que não conseguem inventar uma mina de ouro, sustentam que o principal é começar pelos títulos conquistados: logo depois, chegarão as multidões de adeptos e os milhões dos «investidores»: piece of cake. Todos têm um director desportivo consagrado, jogadores de topo já assentes mas que não se podem ainda comprometer publicamente (até o fantasma do Adriano!), e têm um «projecto», um «levantamento», um «estudo», para problemas, que nào parecem ser assim tão graves pois que todos declaram igualmente que não é a dívida à banca que impedirá o Sporting de ser campeão já para o ano. Parece fácil, não é?
Talvez, admito que sim, que eu esteja a ser injusto. Deve haver ali alguém com algumas ideias aproveitáveis, só que, com tão inflamado sportinguismo, tantos ataques mútuos e fratricidas e tanta conversa de treta para incautos, torna-se difícil de o descortinar. Mesmo o juiz (caramba, o juiz desembargador!) sai-se com pérolas destas: «comigo, árbitro que cometa erros grosseiros contra nós, leva logo com um processo-crime!». Ora vejam para o que serve um juiz à frente de um clube de futebol! O meu medo, confesso, não é de o ver à frente do Sporting: é de me ver a mim em frente a um tribunal presidido por ele». Dessa nem o Rui Gomes da Silva se lembrou ainda!
P.S. E por falar em conceitos muito especiais de justiça, fica aqui, mais uma vez, um esclarecimento ao APV (admitindo que ele quer ser esclarecido daquilo que não quer ver esclarecido): quando a D.ª Carolina Salgado apareceu como «testemunha-chave» do Benfica, da Drª Maria José Morgado e do Dr. Ricardo Costa, contra o FC Porto, eu disse, de facto, que Pinto da Costa se deveria demitir de presidente do clube. Mas acrescentei a razão, que o APV deliberadamente omite: não porque, em algum momento, eu acreditasse que o seu testemunho continha o que quer que fosse de verdade, mas porque, ao conceder -lhe o estatuto que lhe concedeu no FC Porto, ele tinha misturado a sua vida pessoal com a do clube, permitindo depois que alguém desse calibre, por despeito pessoal, nos tivesse vindo enxovalhar a todos. Mas eu percebo que o APV finja não perceber a diferença: quando não se é livre nem independente, é sempre tramado topar com a liberdade e independência alheias. Fim de conversa.