1- A boa notícia da semana foi a reacção de tantos e tantos adeptos do Benfica, anónimos ou conhecidos, contra a decisão da sua direcção (já não há dúvidas sobre isso...) de mandar apagar as luzes do estádio e regar os jogadores do FC Porto que festejavam um justíssimo título de campeão conquistado na Luz. Esses adeptos representam o melhor do Benlica e a parte saudável do futebol — que. acredito, continua a ser a maioria dos que gostam deste jogo. Sendo reflexo da própria sociedade, todos os clubes tem a sua parte saudável e a sua parte doentia. Infelizmente, a parte saudável tem sido aos poucos afastada, empurrada para fora dos estádios, pela turba selvagem dos arruaceiros, por dirigentes que espalham o ódio para disfarçar a sua incompetência e também, é forçoso dizê-lo, por uma imprensa que privilegia o conflito, as questiúnculas e as discussões idiotas, ao espectáculo em si mesmo. É inadmissível que ir a um estádio num jogo entre os principais rivais se tenha transformado num exercício de alto risco, num ambiente de ódios à solta, incendiadas previamente por dirigentes irresponsáveis e depois consumados à vista de todos por multidões organizadas de vândalos, a quem o futebol, como jogo, nada diz. É inadmissível, por exemplo, que os contribuintes portugueses (todos, até os que não gostam de futebol), tenham de pagar horas extraordinárias a exércitos policiais mobilizados para conterem uma violência programada e transformada tantas vezes no principal acontecimento de um jogo de futebol.
Felizmente, a honra do SL Benfica foi resgatada por tantos e tantos dos seus adeptos, que, apesar do clima de confronto instalado, souberam parar para pensar no que tinham visto no Estádio da Luz. E eu, talvez ingenuamente, gosto de pensar que um dia a parte saudável de todos os clubes conseguirá juntar-se, organizar-se, num movimento de cidadania desportiva que, a benefício de todos, devolva o futebol aos desportistas e devolva ao futebol a alegria que era a sua imagem de marca. Porque uma coisa é a rivalidade, que só faz bem ao jogo; outra é o terrorismo pseudo-desportivo.
2- Agora, gostaria de não ter que falar no rescaldo do Benfica-Porto, mas foram tantos e tão eloquentes os factos ocorridos, foram de tal forma ofensivos para um clube que acaba de se sagrar campeão nacional, que é impossível calá-los, sob pena de amanhã tudo se repetir igual. E é preciso que algumas coisas mudem, é preciso que algumas pessoas sejam corridas do futebol, a bem da sanidade pública.
Tudo começou, logo na segunda feira seguinte, com a prestação televisiva do maior espalha ódios do futebol português, o vice-presidente do Benfica, Rui Gomes da Silva. Interpelado sobre o apagão da Luz, começou logo, em tom arrogante, por dizer que nao era electricista, depois que nao estava no estádio, a seguir que estava no camarote, não tinha visto nada. Perguntado se não tinha sentido vergonha, como tantos benfiquistas, respondeu que vergonha era se o seu presidente tivesse sido condenado pela justiça desportiva. Ou seja, continua ainda a fingir acreditar que aquele desacreditado Conselho de Disciplina da Liga, organizado e comanditado pela direcção do Benfica, representa alguma forma de justiça - mesmo depois de desautorizado em toda a linha por quatro tribunais que se debruçaram sobre os mesmos factos e, entre outras coisas, concluíram que testemunha arregimentada pelo Benfica e acarinhada pelo dr. Costa e pela dr.ª Morgado, era perjura e tinha, ela sim, contas largas que prestar à justiça. Constando que Rui Gomes da Silva é advogado, não deixa de ser notável o conceito que tem de justiça: prefere uma encomenda de tribunal do que um tribunal a sério. A seguir, tentou também justificar o caso com um antecedente idêntico que teria ocorrido no estádio do FC Porto, na noite dos tempos. Mentiu: no Porto, e em dois jogos consecutivos, faltou a luz durante alguns minutos, regressando depois. Foi uma avaria da instalação ou da rede, que nada tem que ver com o acto voluntário de mandar apagar as luzes e ligar a rega para estragar os festejos ao adversário. E depois veio dizer ainda que as provocações tinham começado pelo FC Porto, ao recusar-se a entrar em campo de mão dada com as crianças equipadas à Benfica, conforme é praxe. Esqueceu-se foi de dizer que a recusa do FC Porto se deveu ao facto de toda as crianças estarem equipadas à Benfica, contrariando a praxe que estabelece que as que acompanham as jogadores da casa devem estar equipadas com as cores do adversário, numa provocação gratuita, que o FC Porto, muito bem, não aceitou.
A seguir, entrou em acção o CD da Liga, para castigar os incidentes da Luz. Pelo apagão e rega, deu ao Benfica a astronómica punição de 1.500 euros de multa. Pelo comportamento de parle dos seus adeptos - que atacaram à pedrada e com bolas de golfe, os carros, autocarros e a marcha escoltada dos adeptos azuis; que mantiveram uma batalha campal com a polícia, que resultou em vários feridos e treze presos; que, mal iniciado o jogo, forçaram a sua interrupção com lançamentode bolas de golfe e tudo que tinham à mão para os jogadores portistas — o CD da Liga multou o Benfica em 2.500 euros. E para o FC Porto, pelo comportamento dos seus adeptos — que foram agredidos à pedrada sem reagir, não provocaram, fora ou dentro do Estádio, qualquer incidente com adeptos benfiquistas ou com a polícia e que se mantiveram tranquilos nos seus lugares, nao aproveitando o apagão para causar problemas - toma lá os mesmos 2.500 euros de multa. Deve ser força do hábito.
Seguiu-se a Comissão de Arbitragem, que, através do observador do jogo da Luz, resolveu atribuir ao árbitro a classificação máxima. Não vou repetir a análise de uma arbitragem que todos viram o escândalo que foi. Limito-me a dizer que, quando um árbitro, em dez decisões controversas, erra todas elas e erra sempre para o mesmo lado, não há muitas dúvidas para alimentar: se aquela arbitragem tem sido ao contrário, em prejuízo do Benfica, o país já estava a arder. Só não digo que foi a pior arbitragem que vi neste campeonato, porque essa aconteceu em Coimbra, quando Académica e FC Porto foram forçados pelo árbitro a jogar num terreno absolutamente impossível para um jogo de futebol, mais parecendo um arrozal do Vietname, na época das cheias. É óbvio que, quando tudo o que os jogadores podem fazer é dar pontapés para o ar e para a frente e fazer aquaplaning, uma equipa de terceira divisão tem tanta hipóteses de vencer como uma equipa de topo. Esse árbitro do jogo de Coimbra sabia, pois, muitíssimo bem, que, ao fazer jogar naquelas condições, estava a falsear um jogo que podia vir a ser decisivo para as contas finais do título e estava, sobretudo. a prejudicar a melhor equipa técnicamente, que era o FC Porto. Custou-me muito acreditar que tivesse sido apenas uma má decisão. E custou-me mais ainda depois de ver que esse árbitro de Coimbra foi, afinal, o mesmo árbitro deste jogo da Luz. que conseguiu tomar dez decisões, todas erradas e influentes, e todas contra o FC Porto. Chama- se Duarte Gomes, de Lisboa, e, como aqui escrevi, prevejo-lhe uma carreira de sucesso, apadrinhado pela CA e desculpado pela comunicação social.
E, para acabar, tivemos a anedota final do castigo a Jorge Jesus. A CD da Liga, depois de meses e meses a investigar uma coisa que todas viram e reviram na televisão — o treinador do Benfica a enfiar um estalo num adversário, no final do jogo - resolveu que o testemunho do agredido não contava e que a agressão passava, com o tempo e o esquecimento, a «tentativa de agressão» . O mesmo órgão de disciplina que inventou que os stewards eram agentes desportivos e que aplicou cinco meses de suspensão a Sapunaru e Hulk por supostas agressões passadas no interior do túnel da Luz, e que até hoje ninguém viu, resolveu castigar com uns suaves 11 dias de suspensão uma estalada dada à vista do país inteiro por um treinador a um jogador adversário (que, para o efeito, não deve ter sido considerado agente desportivo). E, para que a anedota fosse completa, o castigo só foi aplicado quando o Benfica já tinha perdido o campeonato e Jesus não faz falta no banco, e acaba precisamente na véspera de voltar a fazer falta — para o jogo da Taça, contra o FC Porto. Sinceramente, não tem mesmo vergonha alguma?
3- Entretanto, o campeão segue: notável jogo contra o Spartak de Moscovo, e mais uma vitória da vontade colectiva, em Portimão. Leva 26 jogos do campeonato, 24 vitórias, 2 empates: nunca lerá havido um campeão mais justo do que este. É preciso ter uma fé inabalável no fanatismo ou na estupidez alheia para dizer, como Luís Filipe Veira, que o Benfica voltará a ganhar quando voltar a haver justiça no futebol.
Mas este ciclo do FC Porto é absolutamente infernal. Repare-se: dia 3 de Abril, foi a vitória do título, na Luz; quatro dias depois, a fantástica vitória de 5-1 sobre o Spartak, num jogo dificílimo; menos de 72 horas depois, o país inteiro atravessado para vencer em Portimão um dos aflitos e manter a invencibilidade no campeonato; mais quatro dias e novo jogo em Moscovo, culminando uma viagem de doze horas, ida e volta, aos confins da Europa; mais três dias e jogo contra um repousadíssimo Sporting, a lutar pelo 3.º lugar; outros três dias e nova viagem à Luz, no ambiente que se prevê, para tentar a proeza de reverter a eliminatória da Taça; e, depois sim, uma semana de tréguas, antes de reentrar no ciclo de dois jogos por semana, com as meias-finais da Liga Europa. Até aí chegar, são 6 jogos em 17 dias, com uma viagem a Moscovo pelo meio. E todos eles a lutar por qualquer coisa: pelo título, por um campeonato invencível, pela Taça, pela Liga Europa.
Realmente, se houvesse Justiça e desportivismo no futebol português, os adversários do FC Porto recebê-lo-iam agora, à entrada em campo, como os jogadores do Real Madrid receberam há dois anos os do arqui-rival Barcelona, entrando em Chamartin depois de conquistado um justíssimo título: entre duas alas a baterem-lhes palmas.
E vice- versa, quando fosse o caso. Sonhar não ofende.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quinta-feira, maio 31, 2012
quarta-feira, maio 30, 2012
NÓS É QUE APAGÁMOS A LUZ! (05 ABRIL 2011)
I – NÃO SABER PERDER
A última recordação que guardo de um jogo que obviamente nunca esquecerei, é da conferencia de imprensa dada por Jorge Jesus, já a frio, mais de meia hora depois do apito final. Perguntaram-lhe se ele achava que o FC Porto tinha sido um justo campeão. E, antes de ele responder, lembrei-me que, em circunstâncias idênticas, na época passada, Jesualdo Ferreira tinha reconhecido o mérito do triunfo do Benfica (e apesar do túnel), tal como o fez André Villas Boas, como o fizeram todos os comentadores portistas, eu incluído. Estaria Jorge Jesus ao nível que se lhe exigia? Não, não esteve; andou à roda da pergunta, fez-se de desentendido, chutou para canto, não respondeu. Daí a pouco, repetiram a pergunta e, antes que ele começasse outra vez a desconversar, interpôs-se o João Gabriel (que, desde que virou assessor, adoptou uma estranha concepção do que é o jornalismo) e impediu a resposta, em tom de quem mete os meninos jornalistas na ordem.
Eis dois dos derrotadas da época, que mostraram não saber perder. Jorge Jesus, que começou por ver fugir a Supertaça e depois levou 5-0 no Dragão, manteve intacta a jactância, avisando que o miúdo não ia aguentar a pressão e que «isto» não era como começava, mas como acabava. Pois acabou com mais uma lição de bola do miúdo em pleno Estádio da Luz, que só por milagre não degenerou em nova humilhação extrema. Mas não foi capaz de reconhecer que perdera para quem fora melhor. Ganhar uma vez, quando se dispõe de uma grande equipa e os adversários estão diminuídos, não é o mais difícil; difícil é ganhar habitualmente. É isso, por exemplo, que distingue Jesus de Mourinho - a quem logo o quiseram comparar, na época passada. Saber perder, reconhecer e aprender com o mérito dos adversários, é uma das condições para progredir. E ele mostrou que não a tem: ou por falta de humildade ou por medo de contrariar a voz do patrão.
Quanto ao João Gabriel, presumo que seja determinante naquilo a que se poderá chamar a estratégia de co-municação do Benfica. Se nao é determinante, é conivente; se não a concebe, executa-a, obediente. Deve, pois ser-lhe assacada uma dose sempre grande de responsabilidade pelo outro campeonato perdido este ano pelo Benfica: o campeonato da imagem e da mensagem. Apesar da entusiástica compreensâo e apoio que sempre goza na imprensa desportiva, o Benfica consumou esta época alguns feitos de haraquiri comunicacional e de imagem que perdurarão - e com danos - anos muitos a fio. Conseguiu ser o primeiro clube do mundo a apelar aos seus adeptos para não irem ver a equipa jogar — um apelo que os próprios adeptos se encarregaram de descartar, expondo a Direcção e os seus conselheiros ao ridículo; conseguiu comprar um jogador adversário na própria manhã do jogo e a tempo de o impedir de jogar à noite; conseguiu, esta semana, inventar o direito de exigir que os adeptos de um clube adversário não entrassem no seu estádio com símbolos desse clube, confirmando que no Estádio da Luz há uma lei especial em vigor que faz com que ali os jogos não sejam um espectáculo público sujeito às regras gerais do país; transformou o speaker de serviço no estádio num hooligan, incitando à arruaça; e rematou com a atitude jamais vista de apagar as luzes do estádio e ligar o sistema de rega para que os jogadores adversários não pudessem festejar a vitória junto dos seus adeptos - mas com isso, e como seria de prever, acabou a proporcionar imagens que ficarão para história do anti desportivismo e, ainda por cima, lindíssimas. E, quando eu achava que já não havia mais tiros no pé a dar, eis que vejo o João Gabriel a exercer o magnânimo e estalinista direito de controlar as perguntas que podem ser feitas ao treinador do Benfica e aquelas a que ele está autorizado a responder. Parabéns à estratégia: foi um êxito retumbante, para recordar durante muito tempo.
O Benfica não perdeu apenas um jogo e um campeonato ou um jogo e campeonato para o rival no seu próprio estádio. Perdeu muito mais do que isso: perdeu o respeito por si mesmo e, à vista de um país inteiro, cobriu-se de vergonha. E é por não perceber isto que eles vão continuar a perder e nós vamos continuar a ganhar. Mas o Benfica é, de facto, um clube muito maior do que as atitudes, os discursos e os comunicados de alguns dos seus podem fazer crer.
Nunca cometerei a aleivosia de confundir o sol com a nuvem que passa e o tapa.
II – SABER GANHAR
Pela terceira vez esta época, André Villas Boas deu uma lição a Jorge Jesus. Foi muito bem ganho o jogo na sua preparação, foi muito bem ganho em campo. As tarjas dos benfiquistas na bancada diziam eu sou campeão, mas não eram mais do que uma confissão de derrota, uma passagem de testemunho. O FC Porto foi superior em tudo: na estratégia, na atitude, no desempenho individual, na qualidade do jogo, na defesa, no ataque, no meio-campo. Não poderia haver outro vencedor e o resultado, de facto, só pecou por escasso - porque Falcão falhou dois golos em frente a Roberto e Cristian Rodriguez falhou outro. E porque assistimos a uma arbitragem sem pudor do lisboeta Duarte Gomes.
Vale a pena recordar: o sr. Duarte Gomes perdoou o segundo amarelo a Aimar por uma agressão, por trás, às pernas de um adversário; perdoou idêntica agressão e já sem bola ao Javi Garcia, um dos crónicos caceteiros do Benfica; perdoou todas as habituais cotoveladas em que os jogadores do Benfica se tornaram useiros e vezeiros; perdoou nada menos do que duas simulações de agressão (mais a simulação do penalty) e dois cortes de bola com a mão a Franco Jara, nos 45 minutos em que ele esteve em jogo; inventou do nada um penaty para repor em jogo um Benfica até aí inexistente; fez uma curiosa interpretação de uma claríssima regra do jogo para trocar um vermelho por um amarelo no penalty cometido por Roberto; expulsou o Otamendi, com dois amarelos - um, por falta que não cometeu (a do penalty), outro por uma simples obstrução na linha lateral — e, com isso, voltou a repor o Benfica em jogo. Enfim, fez o que pode para que o FC Porto não festejasse o título na Luz. Irá ser castigado, despachado para a jarra? Nao: vai ganhar o prémio de arbitragem Cervan/ Gomes da Silva. É claro que agora, com a vitória portista, já nada disto interessa. Mas convém reter o nome e a memória desta prestação: ou muito me engano ou ele está aprovado e destinado a arbitrar muitos mais clássicos.
III – SABER MODERAR AS EXPECTATIVAS
O FC Porto já conquistou dois dos objectivos da época: o campeonato — objectivo n.º 1 - e a Supertaça. Já é mais do que suficiente para dar os parabéns a André Villas Boas e todo grupo de trabalho, do presidente aos roupeiros, como ele disse. E eu dou-lhes a todos os meus parabéns mais sinceros, onde vai muita alegria, muito orgulho e muita gratidão. Além do mais, porque tem sido um campeonato absolutamente impecável e uma Liga Europa brilhante. Quinta-feira, lá estarei no Dragão, para ver o jogo contra o Spartak e para agradecer aos campeões. Mas sei que os três objectivos que nos faltam — a Liga Europa, um campeonato invencível e a Taça de Portugal - não são racionalmente possíveis nem são legitimamente expectáveis. Se pudesse escolher, eu escolheria, por ordem, a Liga Europa, o campeonato sem derrotas e a Taça. Todos não são possíveis, mas o que me conforta mais é saber, sem uma dúvida, que a equipa se vai bater até ao fim por todos e cada um destes objectivos. E que, quando perdermos, saberemos perder, reconhecendo mérito ao adversário aprendendo com a derrota, sem apagar a luz nem exigir que os nossos adeptos não vão aos jogos ou que os adeptos dos outros só vão disfarçados. E essa grandeza que nos faz grandes, na hora da vitória ou da derrota, que nos enche de orgulho e que nos transforma no alvo a abater no pequeno mundo dos medíocres e invejosos.
Os invejosos e medíocres ladram, o FC Porto passa. Passa, segue e vai em frente. Campeão de Portugal pela 25.ª vez. E a história continua. Se acham que já viram tudo, desiludam-se: a história vai continuar. É este o nosso destino.
A última recordação que guardo de um jogo que obviamente nunca esquecerei, é da conferencia de imprensa dada por Jorge Jesus, já a frio, mais de meia hora depois do apito final. Perguntaram-lhe se ele achava que o FC Porto tinha sido um justo campeão. E, antes de ele responder, lembrei-me que, em circunstâncias idênticas, na época passada, Jesualdo Ferreira tinha reconhecido o mérito do triunfo do Benfica (e apesar do túnel), tal como o fez André Villas Boas, como o fizeram todos os comentadores portistas, eu incluído. Estaria Jorge Jesus ao nível que se lhe exigia? Não, não esteve; andou à roda da pergunta, fez-se de desentendido, chutou para canto, não respondeu. Daí a pouco, repetiram a pergunta e, antes que ele começasse outra vez a desconversar, interpôs-se o João Gabriel (que, desde que virou assessor, adoptou uma estranha concepção do que é o jornalismo) e impediu a resposta, em tom de quem mete os meninos jornalistas na ordem.
Eis dois dos derrotadas da época, que mostraram não saber perder. Jorge Jesus, que começou por ver fugir a Supertaça e depois levou 5-0 no Dragão, manteve intacta a jactância, avisando que o miúdo não ia aguentar a pressão e que «isto» não era como começava, mas como acabava. Pois acabou com mais uma lição de bola do miúdo em pleno Estádio da Luz, que só por milagre não degenerou em nova humilhação extrema. Mas não foi capaz de reconhecer que perdera para quem fora melhor. Ganhar uma vez, quando se dispõe de uma grande equipa e os adversários estão diminuídos, não é o mais difícil; difícil é ganhar habitualmente. É isso, por exemplo, que distingue Jesus de Mourinho - a quem logo o quiseram comparar, na época passada. Saber perder, reconhecer e aprender com o mérito dos adversários, é uma das condições para progredir. E ele mostrou que não a tem: ou por falta de humildade ou por medo de contrariar a voz do patrão.
Quanto ao João Gabriel, presumo que seja determinante naquilo a que se poderá chamar a estratégia de co-municação do Benfica. Se nao é determinante, é conivente; se não a concebe, executa-a, obediente. Deve, pois ser-lhe assacada uma dose sempre grande de responsabilidade pelo outro campeonato perdido este ano pelo Benfica: o campeonato da imagem e da mensagem. Apesar da entusiástica compreensâo e apoio que sempre goza na imprensa desportiva, o Benfica consumou esta época alguns feitos de haraquiri comunicacional e de imagem que perdurarão - e com danos - anos muitos a fio. Conseguiu ser o primeiro clube do mundo a apelar aos seus adeptos para não irem ver a equipa jogar — um apelo que os próprios adeptos se encarregaram de descartar, expondo a Direcção e os seus conselheiros ao ridículo; conseguiu comprar um jogador adversário na própria manhã do jogo e a tempo de o impedir de jogar à noite; conseguiu, esta semana, inventar o direito de exigir que os adeptos de um clube adversário não entrassem no seu estádio com símbolos desse clube, confirmando que no Estádio da Luz há uma lei especial em vigor que faz com que ali os jogos não sejam um espectáculo público sujeito às regras gerais do país; transformou o speaker de serviço no estádio num hooligan, incitando à arruaça; e rematou com a atitude jamais vista de apagar as luzes do estádio e ligar o sistema de rega para que os jogadores adversários não pudessem festejar a vitória junto dos seus adeptos - mas com isso, e como seria de prever, acabou a proporcionar imagens que ficarão para história do anti desportivismo e, ainda por cima, lindíssimas. E, quando eu achava que já não havia mais tiros no pé a dar, eis que vejo o João Gabriel a exercer o magnânimo e estalinista direito de controlar as perguntas que podem ser feitas ao treinador do Benfica e aquelas a que ele está autorizado a responder. Parabéns à estratégia: foi um êxito retumbante, para recordar durante muito tempo.
O Benfica não perdeu apenas um jogo e um campeonato ou um jogo e campeonato para o rival no seu próprio estádio. Perdeu muito mais do que isso: perdeu o respeito por si mesmo e, à vista de um país inteiro, cobriu-se de vergonha. E é por não perceber isto que eles vão continuar a perder e nós vamos continuar a ganhar. Mas o Benfica é, de facto, um clube muito maior do que as atitudes, os discursos e os comunicados de alguns dos seus podem fazer crer.
Nunca cometerei a aleivosia de confundir o sol com a nuvem que passa e o tapa.
II – SABER GANHAR
Pela terceira vez esta época, André Villas Boas deu uma lição a Jorge Jesus. Foi muito bem ganho o jogo na sua preparação, foi muito bem ganho em campo. As tarjas dos benfiquistas na bancada diziam eu sou campeão, mas não eram mais do que uma confissão de derrota, uma passagem de testemunho. O FC Porto foi superior em tudo: na estratégia, na atitude, no desempenho individual, na qualidade do jogo, na defesa, no ataque, no meio-campo. Não poderia haver outro vencedor e o resultado, de facto, só pecou por escasso - porque Falcão falhou dois golos em frente a Roberto e Cristian Rodriguez falhou outro. E porque assistimos a uma arbitragem sem pudor do lisboeta Duarte Gomes.
Vale a pena recordar: o sr. Duarte Gomes perdoou o segundo amarelo a Aimar por uma agressão, por trás, às pernas de um adversário; perdoou idêntica agressão e já sem bola ao Javi Garcia, um dos crónicos caceteiros do Benfica; perdoou todas as habituais cotoveladas em que os jogadores do Benfica se tornaram useiros e vezeiros; perdoou nada menos do que duas simulações de agressão (mais a simulação do penalty) e dois cortes de bola com a mão a Franco Jara, nos 45 minutos em que ele esteve em jogo; inventou do nada um penaty para repor em jogo um Benfica até aí inexistente; fez uma curiosa interpretação de uma claríssima regra do jogo para trocar um vermelho por um amarelo no penalty cometido por Roberto; expulsou o Otamendi, com dois amarelos - um, por falta que não cometeu (a do penalty), outro por uma simples obstrução na linha lateral — e, com isso, voltou a repor o Benfica em jogo. Enfim, fez o que pode para que o FC Porto não festejasse o título na Luz. Irá ser castigado, despachado para a jarra? Nao: vai ganhar o prémio de arbitragem Cervan/ Gomes da Silva. É claro que agora, com a vitória portista, já nada disto interessa. Mas convém reter o nome e a memória desta prestação: ou muito me engano ou ele está aprovado e destinado a arbitrar muitos mais clássicos.
III – SABER MODERAR AS EXPECTATIVAS
O FC Porto já conquistou dois dos objectivos da época: o campeonato — objectivo n.º 1 - e a Supertaça. Já é mais do que suficiente para dar os parabéns a André Villas Boas e todo grupo de trabalho, do presidente aos roupeiros, como ele disse. E eu dou-lhes a todos os meus parabéns mais sinceros, onde vai muita alegria, muito orgulho e muita gratidão. Além do mais, porque tem sido um campeonato absolutamente impecável e uma Liga Europa brilhante. Quinta-feira, lá estarei no Dragão, para ver o jogo contra o Spartak e para agradecer aos campeões. Mas sei que os três objectivos que nos faltam — a Liga Europa, um campeonato invencível e a Taça de Portugal - não são racionalmente possíveis nem são legitimamente expectáveis. Se pudesse escolher, eu escolheria, por ordem, a Liga Europa, o campeonato sem derrotas e a Taça. Todos não são possíveis, mas o que me conforta mais é saber, sem uma dúvida, que a equipa se vai bater até ao fim por todos e cada um destes objectivos. E que, quando perdermos, saberemos perder, reconhecendo mérito ao adversário aprendendo com a derrota, sem apagar a luz nem exigir que os nossos adeptos não vão aos jogos ou que os adeptos dos outros só vão disfarçados. E essa grandeza que nos faz grandes, na hora da vitória ou da derrota, que nos enche de orgulho e que nos transforma no alvo a abater no pequeno mundo dos medíocres e invejosos.
Os invejosos e medíocres ladram, o FC Porto passa. Passa, segue e vai em frente. Campeão de Portugal pela 25.ª vez. E a história continua. Se acham que já viram tudo, desiludam-se: a história vai continuar. É este o nosso destino.
terça-feira, maio 29, 2012
ERA UMA VEZ UM JOGO FUNDADO POR CAVALHEIROS (29 MARÇO 2011)
1- Desejo as maiores felicidades ao novo presidente do Sporting - seja ele quem for. A avaliar pelo nível da campanha eleitoral e da votação em si mesma, quem quer que finalmente ocupe o cargo está condenado a governar uma facção contra todas as outras e, a menos que as coisas comecem logo a correr maravilhosamente bem, a exercer as suas funções num clima de contestação, ódio, insultos e ameaças ou mesmo agressões físicas. Sinceramente, custa a entender que haja quem aspire à função.
De cabeça perdida por anos de frustração desportiva e uma situação de ruína financeira e sem perspectivas de recuperação económica a médio prazo (tal qual o país), os sportinguistas entregaram-se a um desvario eleitoral que alguns, bondosamente, ainda tentaram ver como um sinal de «vitalidade». Foi sim um sinal de desintegração, de desnorte e de irresponsabilidade. Esperemos que o Sporting Clube de Portugal não fique conhecido como o Sporting Igual a Portugal. Esperemos, por Portugal - porque, quanto ao Sporting, não sei ja se terá salvação, neste clima e neste panorama. Os sinais de desvario e irresponsabilidade, o tom de vale tudo com que os candidatos se lançaram uns contra os outros, ficaram bem patentes no jogo perigoso de promessas irreais, discursos disparatados e suspeitas mútuas de toda a ordem. Não sei se, reflectindo ou nao, o sentimento dominante dos sportinguistas, os cinco candidatos revelaram uma notável leviandade na forma como anunciavam nomes aos quatro ventos e como apregoavam fundos e dinheiros, cuja origem ou existência em nada os preocupava, mesmo que viessem de lavagem de dinheiro, de negócios mafiosos ou pior ainda. Apenas Dias Ferreira destoou nessa espiral de populismo, mas já o seu número 2, Paulo Futre, não se conteve em alinhar nesse tsunami de disparates, anunciando mirabolantes negócios da China que não resistiam a uma simples reflexão de bom senso: os «novos-ricos» da China, como lhes chamou, iriam pagar 1,5 milhões de euros por cada jogo do Sporting (a custos chineses, significa um estádio de 60.000 lugares cheio) e à razão de um jogo por dia, durante uma semana! Eis o nível a que chegou o debate!
Tudo isto culminou num presidente eleito com um número de votantes significativamente inferior ao candidato que ficou em segundo lugar, mas com uma maioria ridícula de votos, graças a um sistema eleitoral herdado dos tempos em que se queria preservar o club de aventureiros como Bruno de Carvalho. Um presidente eleito, que, mal anunciado, logo foi insultado, empurrado, apedrejado e só não foi sovado porque o protegeram outros, que não os adeptos. E cuja eleição é agora contestada, estatutária e judicialmente, pelo candidato derrotado, que lhe lança o repto de «não se apegar ao poder» e pôr o Sporting em primeiro lugar — como ele próprio, Bruno de Carvalho, tão bem exemplifica...
Na campanha eleitoral do Sporting foram evidentes alguns sinais de que o clube pode ser tomado de assalto pelas claques. Há presidentes que tem medo delas e lhes consentem tudo, e há outros que as usam em benefício de um projecto pessoal de poder. E é sobretudo nos momentos de crise e de desesperança que o perigo de elas tomarem conta dos clubes se torna mais real. Todos estamos lembrados do exemplo extremo de Vale e Azevedo, lançando mãos das claques como instrumento de terror e de intimidação interna e externa, e com as quais (e uma imprensa submissa e conivente), foi disfarçando a sua incompetência e desonestidade, que por pouco não levavam o Benfica à extinção. Não quero de forma alguma sugerir que seja esse o caso da candidatura de Bruno de Carvalho: primeiro, porque desconheço factos que o indiquem, depois porque não vejo nele nenhum Vale e Azevedo — ao contrário do que dele disseram outros candidatos. Mas as cenas que os seus apaniguados protagonizaram à porta de Alvalade fizeram lembrar cenas já vistas mais adiante na Segunda Circular.
2- Domingo que vem bem gostaria de estar na Luz, a ver o FC Porto tentar sair de lá como campeão. Mas, infelizmente, tal não é possível. Porque gosto muito de futebol, não me passa pela cabeça ir ver o jogo para o meio das claques, onde o futebol é o que menos interessa e o que mais interessa é insultar o adversário. E a última vez que fui para a bancada num estádio a Sul do Tejo, foi em Setúbal, num jogo sem história em que o FC Porto começou a ganhar aos cinco minutos e trucidou tranquilamente o Vitória. Mesmo assim, estive à beira de ser espancado por um grupo de corajosos adeptos vitorianos, ofendidos pelo facto de eu me levantar a celebrar os golos do FC Porto. Umas semanas antes, em Alvalade, tinha-me sucedido exactamente o mesmo, quando Domingos de seu nome, de quem agora se fala para treinador do Sporting, destroçou esse clube de cavalheiros.
As claques, que espalham o ódio nos estádios e fora deles, que apedrejam autocarros e carros de dirigentes (na semana passada, foi o de Luis Filipe Vieira, atacado cobardemente), estão a matar o futebol. Clubismo é uma coisa, fanatismo é outra. Eles não gostam de futebol nem sequer gostam dos clubes que apoiam: usam o futebol e o clube como instrumentos de ódio e selvajaria, organizando-se em escolas de crime e actuando a coberto da pior forma de cobardia, que é a das multidões. Dir-me-ão que as claques são essenciais para trazer público aos estádios e apoio aos clubes. É mentira: afastam mais gente do que a que trazem e envergonham mais os clubes do que os ajudam. Dir-me-ão que há excepções entre as claques e eu acredito que sim: há excepções em tudo, mas, muitas vezes, são as boas excepções que servem para tolerar a intolerável maioria.
Seria muito bom que nenhuma declaração de parte a parte e incluindo toda a gente, viesse tornar insuportável o ambiente prévio do Benfica-Porto do próximo domingo. Já sem o campeonato em jogo, não há nenhuma razão para que as duas melhores equipas de Portugal não se entreguem ao jogo pelo jogo, sem que outros o tentem estragar de fora. Por uma vez, agradecia-se silêncio.
Embora sem nada em jogo, em termos de campeonato, o jogo da Luz tem, porém, várias outras coisas importantes em jogo. Já não há nada de determinante a ganhar mas há muito, de orgulho próprio a perder, e especialmente para o Benfica. O Benfica vai ter de impedir que o FC Porto seja campeão no seu estádio — o que seria traumático para os adeptos. Depois, vai ter de passar o testemunho de campeão ao FC Porto e tem bem presente a situação inversa, na época passada, em que um FC Porto sem nenhum favoritismo e reduzido a dez metade do jogo, encontrou talento e motivação para vencer 3-1 e evitar que o Benfica festejasse o titulo no Dragão. Mas o Benfica tem também de tentar interromper o campeonato sem derrotas do FC Porto, para que este não possa ameaçar o seu registo de ter sido o único clube que conseguiu ser campeão invencível, na época vitoriosa de Jimmy Hagam. E tem ainda de vingar os 5-0 da primeira volta no Dragão, que foi onde o FC Porto sentenciou o campeonato. É um caderno de encargos suficiente para que o jogo seja tudo menos a feijões.
Se pudessem concerlar o assunto entre ambos, talvez Andre Villas Boas e Jorge Jesus não se importassem de combinar deixar de fora alguns dos seus mais valiosos trunfos {Eu tiro o Fábio Coentrão e tu tiras o Álvaro Pereira e o Varela; eu tiro o Aimar, o Saviola e o Gaitan e tu tiras o Hulk; eu tiro o Cardozo e tu tiras ...o Walter). E que este, que era para ser o jogo do título, está agora claramente ultrapassado em importância pelos jogos europeus que ambas as equipes terão de enfrentar quinta-feira. E ambas chegam ao jogo da Luz com uma dúzia de jogadores cansados e desgastados pelos inúteis e incompreensíveis jogos amigáveis de selecções, agendados para o momento mais determinante da época dos clubes europeus.
3- Faz pena ver Ricardo Quaresma a jogar, hoje. Ele é mais um exemplo de como o FC Porto é uma grande escola de jogadores. Não o Sporting, que mal os começa a formar, logo os vende, mas o FC Porto, que foi quem transformou o Quaresma num grande jogador — que ele nunca mais voltou a ser depois de se ter ido embora. Eu bem que o avisei, aqui, na altura em que resolveu ir atrás da proposta de Mourinho e do dinheiro do Inter. Alguém que tinha um dom tao fabuloso como ele para jogar à bola, não tinha o direito de o deitar a perder assim.
De cabeça perdida por anos de frustração desportiva e uma situação de ruína financeira e sem perspectivas de recuperação económica a médio prazo (tal qual o país), os sportinguistas entregaram-se a um desvario eleitoral que alguns, bondosamente, ainda tentaram ver como um sinal de «vitalidade». Foi sim um sinal de desintegração, de desnorte e de irresponsabilidade. Esperemos que o Sporting Clube de Portugal não fique conhecido como o Sporting Igual a Portugal. Esperemos, por Portugal - porque, quanto ao Sporting, não sei ja se terá salvação, neste clima e neste panorama. Os sinais de desvario e irresponsabilidade, o tom de vale tudo com que os candidatos se lançaram uns contra os outros, ficaram bem patentes no jogo perigoso de promessas irreais, discursos disparatados e suspeitas mútuas de toda a ordem. Não sei se, reflectindo ou nao, o sentimento dominante dos sportinguistas, os cinco candidatos revelaram uma notável leviandade na forma como anunciavam nomes aos quatro ventos e como apregoavam fundos e dinheiros, cuja origem ou existência em nada os preocupava, mesmo que viessem de lavagem de dinheiro, de negócios mafiosos ou pior ainda. Apenas Dias Ferreira destoou nessa espiral de populismo, mas já o seu número 2, Paulo Futre, não se conteve em alinhar nesse tsunami de disparates, anunciando mirabolantes negócios da China que não resistiam a uma simples reflexão de bom senso: os «novos-ricos» da China, como lhes chamou, iriam pagar 1,5 milhões de euros por cada jogo do Sporting (a custos chineses, significa um estádio de 60.000 lugares cheio) e à razão de um jogo por dia, durante uma semana! Eis o nível a que chegou o debate!
Tudo isto culminou num presidente eleito com um número de votantes significativamente inferior ao candidato que ficou em segundo lugar, mas com uma maioria ridícula de votos, graças a um sistema eleitoral herdado dos tempos em que se queria preservar o club de aventureiros como Bruno de Carvalho. Um presidente eleito, que, mal anunciado, logo foi insultado, empurrado, apedrejado e só não foi sovado porque o protegeram outros, que não os adeptos. E cuja eleição é agora contestada, estatutária e judicialmente, pelo candidato derrotado, que lhe lança o repto de «não se apegar ao poder» e pôr o Sporting em primeiro lugar — como ele próprio, Bruno de Carvalho, tão bem exemplifica...
Na campanha eleitoral do Sporting foram evidentes alguns sinais de que o clube pode ser tomado de assalto pelas claques. Há presidentes que tem medo delas e lhes consentem tudo, e há outros que as usam em benefício de um projecto pessoal de poder. E é sobretudo nos momentos de crise e de desesperança que o perigo de elas tomarem conta dos clubes se torna mais real. Todos estamos lembrados do exemplo extremo de Vale e Azevedo, lançando mãos das claques como instrumento de terror e de intimidação interna e externa, e com as quais (e uma imprensa submissa e conivente), foi disfarçando a sua incompetência e desonestidade, que por pouco não levavam o Benfica à extinção. Não quero de forma alguma sugerir que seja esse o caso da candidatura de Bruno de Carvalho: primeiro, porque desconheço factos que o indiquem, depois porque não vejo nele nenhum Vale e Azevedo — ao contrário do que dele disseram outros candidatos. Mas as cenas que os seus apaniguados protagonizaram à porta de Alvalade fizeram lembrar cenas já vistas mais adiante na Segunda Circular.
2- Domingo que vem bem gostaria de estar na Luz, a ver o FC Porto tentar sair de lá como campeão. Mas, infelizmente, tal não é possível. Porque gosto muito de futebol, não me passa pela cabeça ir ver o jogo para o meio das claques, onde o futebol é o que menos interessa e o que mais interessa é insultar o adversário. E a última vez que fui para a bancada num estádio a Sul do Tejo, foi em Setúbal, num jogo sem história em que o FC Porto começou a ganhar aos cinco minutos e trucidou tranquilamente o Vitória. Mesmo assim, estive à beira de ser espancado por um grupo de corajosos adeptos vitorianos, ofendidos pelo facto de eu me levantar a celebrar os golos do FC Porto. Umas semanas antes, em Alvalade, tinha-me sucedido exactamente o mesmo, quando Domingos de seu nome, de quem agora se fala para treinador do Sporting, destroçou esse clube de cavalheiros.
As claques, que espalham o ódio nos estádios e fora deles, que apedrejam autocarros e carros de dirigentes (na semana passada, foi o de Luis Filipe Vieira, atacado cobardemente), estão a matar o futebol. Clubismo é uma coisa, fanatismo é outra. Eles não gostam de futebol nem sequer gostam dos clubes que apoiam: usam o futebol e o clube como instrumentos de ódio e selvajaria, organizando-se em escolas de crime e actuando a coberto da pior forma de cobardia, que é a das multidões. Dir-me-ão que as claques são essenciais para trazer público aos estádios e apoio aos clubes. É mentira: afastam mais gente do que a que trazem e envergonham mais os clubes do que os ajudam. Dir-me-ão que há excepções entre as claques e eu acredito que sim: há excepções em tudo, mas, muitas vezes, são as boas excepções que servem para tolerar a intolerável maioria.
Seria muito bom que nenhuma declaração de parte a parte e incluindo toda a gente, viesse tornar insuportável o ambiente prévio do Benfica-Porto do próximo domingo. Já sem o campeonato em jogo, não há nenhuma razão para que as duas melhores equipas de Portugal não se entreguem ao jogo pelo jogo, sem que outros o tentem estragar de fora. Por uma vez, agradecia-se silêncio.
Embora sem nada em jogo, em termos de campeonato, o jogo da Luz tem, porém, várias outras coisas importantes em jogo. Já não há nada de determinante a ganhar mas há muito, de orgulho próprio a perder, e especialmente para o Benfica. O Benfica vai ter de impedir que o FC Porto seja campeão no seu estádio — o que seria traumático para os adeptos. Depois, vai ter de passar o testemunho de campeão ao FC Porto e tem bem presente a situação inversa, na época passada, em que um FC Porto sem nenhum favoritismo e reduzido a dez metade do jogo, encontrou talento e motivação para vencer 3-1 e evitar que o Benfica festejasse o titulo no Dragão. Mas o Benfica tem também de tentar interromper o campeonato sem derrotas do FC Porto, para que este não possa ameaçar o seu registo de ter sido o único clube que conseguiu ser campeão invencível, na época vitoriosa de Jimmy Hagam. E tem ainda de vingar os 5-0 da primeira volta no Dragão, que foi onde o FC Porto sentenciou o campeonato. É um caderno de encargos suficiente para que o jogo seja tudo menos a feijões.
Se pudessem concerlar o assunto entre ambos, talvez Andre Villas Boas e Jorge Jesus não se importassem de combinar deixar de fora alguns dos seus mais valiosos trunfos {Eu tiro o Fábio Coentrão e tu tiras o Álvaro Pereira e o Varela; eu tiro o Aimar, o Saviola e o Gaitan e tu tiras o Hulk; eu tiro o Cardozo e tu tiras ...o Walter). E que este, que era para ser o jogo do título, está agora claramente ultrapassado em importância pelos jogos europeus que ambas as equipes terão de enfrentar quinta-feira. E ambas chegam ao jogo da Luz com uma dúzia de jogadores cansados e desgastados pelos inúteis e incompreensíveis jogos amigáveis de selecções, agendados para o momento mais determinante da época dos clubes europeus.
3- Faz pena ver Ricardo Quaresma a jogar, hoje. Ele é mais um exemplo de como o FC Porto é uma grande escola de jogadores. Não o Sporting, que mal os começa a formar, logo os vende, mas o FC Porto, que foi quem transformou o Quaresma num grande jogador — que ele nunca mais voltou a ser depois de se ter ido embora. Eu bem que o avisei, aqui, na altura em que resolveu ir atrás da proposta de Mourinho e do dinheiro do Inter. Alguém que tinha um dom tao fabuloso como ele para jogar à bola, não tinha o direito de o deitar a perder assim.
segunda-feira, fevereiro 13, 2012
UM PASSEIO DE CAMPEÃO (22 MARÇO 2011)
1- Custa-lhes muito ouvir isto, mas é tão verdade que até dói: este foi dos campeonatos mais fáceis alguma vez ganhos pelo FC Porto ou por Benfica ou Sporting ou qualquer clube por esse mundo fora. Houve apenas uma altura, cerca de mês e meio, entre Dezembro e Janeiro, que o FC Porto, desfalcado de Alvaro Pereira e Falcão, abanou, enquanto o Benfica subia. Mas, por sorte, esse período coincidiu com a ausência de jogos europeus e teve poucos e fáceis jogos para o campeonato, pelo que a factura foi paga apenas na Taça de Portugal e Taça da Liga. Retomada a normalidade, a seis jornadas do fim, falta-nos apenas uma vitória para sermos campeões. Treze pontos de avanço sobre o segundo, 29 sobre o terceiro, 22 vitórias e dois empates em 24 jogos, apenas 8 golos sofridos e 56 marcados, a melhor defesa, o melhor ataque, o melhor marcador. A quarta melhor equipa da actualidade (CNN dixit), o principal favorito, segundo as casas de apostas e a imprensa espanhola, à conquista da Liga Europa (10 vitórias, 1 empate e 1 derrota em doze jogos). É preciso uma imensa, uma despudorada desonestidade intelectual, para contestar o mérito deste campeonato. E, por isso mesmo, é que os nossos campeonatos, têm sempre um duplo sabor a vitória: porque é mais uma conquista para o nosso clube e mais uma derrota para o clube dos invejosos e maledicentes. São vitórias destas, contra a inveja, o despeito e a calúnia, de que o país precisa como exemplo para definitivamente cair em si e mudar de rumo. Para passar a dar mérito a quem o tem, ao trabalho, ao talento, ao esforço, e deixar de premiar os que se acham com direito incontestável a tudo, apenas porque no passado ganharam duas Taças dos Campeões Europeus ou descobriram o caminho marítimo para a índia.
O FC Porto é o maior caso de sucesso, individua ou colectivo, que Portugal protagonizou nos últimos trinta anos. Não cabe na cidade que o viu nascer e cujo presidente de Câmara tudo fez para lhe criar problemas e tanto sofre com as suas vitórias, e não cabe no país de que uma grande e invejosa parte vive a tentar diminuir o seu sucesso e difamá-lo mesmo além fronteiras. Paciência, embrulhem mais este! E registem o que escrevo: não hei-de morrer sem ver o FC Porto ultrapassar o Benfica em número de campeonatos conquistados. Em conhecimento, prestígio e número de títulos internacionais, de há muito que ultrapassámos a marca Benfica. Só falta consegui-lo aqui, mas já faltou bem mais.
2- Agora, com mais um campeonato brilhantemente conquistado, restam as tarefas seguintes e que não são poucas, todavia: acabar o campeonato sem derrotas; virar os 0-2 do Dragão para a Taça de Portugal num 3-1 na Luz; e seguir em frente, até ao limite, na Liga Europa. São sonhos a mais, uma tarefa impossível, eu sei. Mas o que importa é continuar a ter objectivos de vitória e acredito, sim, que esta equipa nunca irá adormecer à sombra do que já conquistou este ano: a Supertaça e o Campeonato. E, depois, há ainda os juniores e o hóquei, o basquete, o andebol. As alegrias não acabam aqui.
3- Palavra, que me custa falar do Sporting e nunca o faço mais do que duas, três vezes, por ano. Por um lado, porque nunca é muito elegante bater em mortos ou moribundos; depois, porque eles são muito susceptíveis, ofendem-se com pouco e, como escreveu o Cesare Pavese, mesmo que possam estar mortos, ainda não o sabem. E não convém dizer-lhes, assim, à bruta.
Há meses, expliquei aqui, delicadamente, esta minha tese da morte iminente, conjuntural e estrutural, do Sporring. Conjuntural, porque, como escrevi, quem quer que perceba um mínimo de futebol olha para aquela equipa e não se pode espantar que esteja a uns espantosos 29 pontos do primeiro lugar: só pode espantar-se é que esteja em terceiro lugar — o que só demonstra como o nosso campeonato é bipolar até ao extremo. Quanto à morte estrutural, não vou agora repetir-me, mas deriva da própria morte lenta a que o Sporting tem sido submetido ao longo de duas décadas, por erros próprios gritantes: a eterna lamúria dos árbitros que sempre serviu para disfarçar os fracassos internos, a atitude de aristocrata que nada precisa de aprender, a pressa em desfazer-se de alguns grandes jogadores formados na academia, o inacreditável estádio que afasta espectadores em lugar de os chamar e os tios-gestores que, regra geral, nada percebem de futebol mas acham-se com um direito de berço a dirigir o clube. Enfim, um clube que nunca teve a humildade para parar e olhar-se ao espelho. Claro, que é sempre possível, como então escrevi, que aconteça um milagre, que algum sheik do petróleo ou patrão da máfia russa resolva apaixonar-se pelas camisolas verdes às riscas ou por aquela espécie de tenda de circo em betão armado, e decida investir ali uns milhões a perder de vista. Talvez isso pudesse, com critério, sorte e paciência, levar à formação de uma grande equipa de futebol. Mas uma boa equipa não chega para fazer um campeão habitual e muitos milhões não chegam para ressuscitar um clube que perdeu a base social de apoio, a capacidade de atrair os jovens e a cultura de vitória. Demoraria uma geração a começar a reconstruir o que se deixou destruir aos poucos.
Lamento dizê-lo, mas esta campanha eleitoral do Sporting, com tantos e tantos candidatos declarados e outros frustrados, em vez de me fazer prova de vida dessa moribunda instituição, antes me confirma que os sinais vitais são mais do que débeis. A abundância de candidatos quer apenas dizer que aquilo está à mercê de qualquer um. Basta dizer que se tem um «fundo», que se reuniu com os bancos e já se falou com o José Maria Ricciardi, que se tem um treinador de «créditos firmados» (como o Van Basten, sem curriculum algum, ou o Scolari, com um curriculum de fiascos e prima-dona até dizer chega) e que se reuniu algumas velhas glórias do clube para fazerem não se sabe o quê, e eis um candidato a presidente do Sporting. Não precisa de entender nada de futebol nem de gestão, nem sequer ter um cadastro limpo e ao nível da fidalguia reclamada. Como, antes de mais, é de dinheiro que se trata, o que interessa é acenar aos sócios com milhões caídos do céu — ou da máfia angolana, ou da russa, ou dos negócios com o Estado, ou da família. Os poucos que não conseguem inventar uma mina de ouro, sustentam que o principal é começar pelos títulos conquistados: logo depois, chegarão as multidões de adeptos e os milhões dos «investidores»: piece of cake. Todos têm um director desportivo consagrado, jogadores de topo já assentes mas que não se podem ainda comprometer publicamente (até o fantasma do Adriano!), e têm um «projecto», um «levantamento», um «estudo», para problemas, que nào parecem ser assim tão graves pois que todos declaram igualmente que não é a dívida à banca que impedirá o Sporting de ser campeão já para o ano. Parece fácil, não é?
Talvez, admito que sim, que eu esteja a ser injusto. Deve haver ali alguém com algumas ideias aproveitáveis, só que, com tão inflamado sportinguismo, tantos ataques mútuos e fratricidas e tanta conversa de treta para incautos, torna-se difícil de o descortinar. Mesmo o juiz (caramba, o juiz desembargador!) sai-se com pérolas destas: «comigo, árbitro que cometa erros grosseiros contra nós, leva logo com um processo-crime!». Ora vejam para o que serve um juiz à frente de um clube de futebol! O meu medo, confesso, não é de o ver à frente do Sporting: é de me ver a mim em frente a um tribunal presidido por ele». Dessa nem o Rui Gomes da Silva se lembrou ainda!
P.S. E por falar em conceitos muito especiais de justiça, fica aqui, mais uma vez, um esclarecimento ao APV (admitindo que ele quer ser esclarecido daquilo que não quer ver esclarecido): quando a D.ª Carolina Salgado apareceu como «testemunha-chave» do Benfica, da Drª Maria José Morgado e do Dr. Ricardo Costa, contra o FC Porto, eu disse, de facto, que Pinto da Costa se deveria demitir de presidente do clube. Mas acrescentei a razão, que o APV deliberadamente omite: não porque, em algum momento, eu acreditasse que o seu testemunho continha o que quer que fosse de verdade, mas porque, ao conceder -lhe o estatuto que lhe concedeu no FC Porto, ele tinha misturado a sua vida pessoal com a do clube, permitindo depois que alguém desse calibre, por despeito pessoal, nos tivesse vindo enxovalhar a todos. Mas eu percebo que o APV finja não perceber a diferença: quando não se é livre nem independente, é sempre tramado topar com a liberdade e independência alheias. Fim de conversa.
O FC Porto é o maior caso de sucesso, individua ou colectivo, que Portugal protagonizou nos últimos trinta anos. Não cabe na cidade que o viu nascer e cujo presidente de Câmara tudo fez para lhe criar problemas e tanto sofre com as suas vitórias, e não cabe no país de que uma grande e invejosa parte vive a tentar diminuir o seu sucesso e difamá-lo mesmo além fronteiras. Paciência, embrulhem mais este! E registem o que escrevo: não hei-de morrer sem ver o FC Porto ultrapassar o Benfica em número de campeonatos conquistados. Em conhecimento, prestígio e número de títulos internacionais, de há muito que ultrapassámos a marca Benfica. Só falta consegui-lo aqui, mas já faltou bem mais.
2- Agora, com mais um campeonato brilhantemente conquistado, restam as tarefas seguintes e que não são poucas, todavia: acabar o campeonato sem derrotas; virar os 0-2 do Dragão para a Taça de Portugal num 3-1 na Luz; e seguir em frente, até ao limite, na Liga Europa. São sonhos a mais, uma tarefa impossível, eu sei. Mas o que importa é continuar a ter objectivos de vitória e acredito, sim, que esta equipa nunca irá adormecer à sombra do que já conquistou este ano: a Supertaça e o Campeonato. E, depois, há ainda os juniores e o hóquei, o basquete, o andebol. As alegrias não acabam aqui.
3- Palavra, que me custa falar do Sporting e nunca o faço mais do que duas, três vezes, por ano. Por um lado, porque nunca é muito elegante bater em mortos ou moribundos; depois, porque eles são muito susceptíveis, ofendem-se com pouco e, como escreveu o Cesare Pavese, mesmo que possam estar mortos, ainda não o sabem. E não convém dizer-lhes, assim, à bruta.
Há meses, expliquei aqui, delicadamente, esta minha tese da morte iminente, conjuntural e estrutural, do Sporring. Conjuntural, porque, como escrevi, quem quer que perceba um mínimo de futebol olha para aquela equipa e não se pode espantar que esteja a uns espantosos 29 pontos do primeiro lugar: só pode espantar-se é que esteja em terceiro lugar — o que só demonstra como o nosso campeonato é bipolar até ao extremo. Quanto à morte estrutural, não vou agora repetir-me, mas deriva da própria morte lenta a que o Sporting tem sido submetido ao longo de duas décadas, por erros próprios gritantes: a eterna lamúria dos árbitros que sempre serviu para disfarçar os fracassos internos, a atitude de aristocrata que nada precisa de aprender, a pressa em desfazer-se de alguns grandes jogadores formados na academia, o inacreditável estádio que afasta espectadores em lugar de os chamar e os tios-gestores que, regra geral, nada percebem de futebol mas acham-se com um direito de berço a dirigir o clube. Enfim, um clube que nunca teve a humildade para parar e olhar-se ao espelho. Claro, que é sempre possível, como então escrevi, que aconteça um milagre, que algum sheik do petróleo ou patrão da máfia russa resolva apaixonar-se pelas camisolas verdes às riscas ou por aquela espécie de tenda de circo em betão armado, e decida investir ali uns milhões a perder de vista. Talvez isso pudesse, com critério, sorte e paciência, levar à formação de uma grande equipa de futebol. Mas uma boa equipa não chega para fazer um campeão habitual e muitos milhões não chegam para ressuscitar um clube que perdeu a base social de apoio, a capacidade de atrair os jovens e a cultura de vitória. Demoraria uma geração a começar a reconstruir o que se deixou destruir aos poucos.
Lamento dizê-lo, mas esta campanha eleitoral do Sporting, com tantos e tantos candidatos declarados e outros frustrados, em vez de me fazer prova de vida dessa moribunda instituição, antes me confirma que os sinais vitais são mais do que débeis. A abundância de candidatos quer apenas dizer que aquilo está à mercê de qualquer um. Basta dizer que se tem um «fundo», que se reuniu com os bancos e já se falou com o José Maria Ricciardi, que se tem um treinador de «créditos firmados» (como o Van Basten, sem curriculum algum, ou o Scolari, com um curriculum de fiascos e prima-dona até dizer chega) e que se reuniu algumas velhas glórias do clube para fazerem não se sabe o quê, e eis um candidato a presidente do Sporting. Não precisa de entender nada de futebol nem de gestão, nem sequer ter um cadastro limpo e ao nível da fidalguia reclamada. Como, antes de mais, é de dinheiro que se trata, o que interessa é acenar aos sócios com milhões caídos do céu — ou da máfia angolana, ou da russa, ou dos negócios com o Estado, ou da família. Os poucos que não conseguem inventar uma mina de ouro, sustentam que o principal é começar pelos títulos conquistados: logo depois, chegarão as multidões de adeptos e os milhões dos «investidores»: piece of cake. Todos têm um director desportivo consagrado, jogadores de topo já assentes mas que não se podem ainda comprometer publicamente (até o fantasma do Adriano!), e têm um «projecto», um «levantamento», um «estudo», para problemas, que nào parecem ser assim tão graves pois que todos declaram igualmente que não é a dívida à banca que impedirá o Sporting de ser campeão já para o ano. Parece fácil, não é?
Talvez, admito que sim, que eu esteja a ser injusto. Deve haver ali alguém com algumas ideias aproveitáveis, só que, com tão inflamado sportinguismo, tantos ataques mútuos e fratricidas e tanta conversa de treta para incautos, torna-se difícil de o descortinar. Mesmo o juiz (caramba, o juiz desembargador!) sai-se com pérolas destas: «comigo, árbitro que cometa erros grosseiros contra nós, leva logo com um processo-crime!». Ora vejam para o que serve um juiz à frente de um clube de futebol! O meu medo, confesso, não é de o ver à frente do Sporting: é de me ver a mim em frente a um tribunal presidido por ele». Dessa nem o Rui Gomes da Silva se lembrou ainda!
P.S. E por falar em conceitos muito especiais de justiça, fica aqui, mais uma vez, um esclarecimento ao APV (admitindo que ele quer ser esclarecido daquilo que não quer ver esclarecido): quando a D.ª Carolina Salgado apareceu como «testemunha-chave» do Benfica, da Drª Maria José Morgado e do Dr. Ricardo Costa, contra o FC Porto, eu disse, de facto, que Pinto da Costa se deveria demitir de presidente do clube. Mas acrescentei a razão, que o APV deliberadamente omite: não porque, em algum momento, eu acreditasse que o seu testemunho continha o que quer que fosse de verdade, mas porque, ao conceder -lhe o estatuto que lhe concedeu no FC Porto, ele tinha misturado a sua vida pessoal com a do clube, permitindo depois que alguém desse calibre, por despeito pessoal, nos tivesse vindo enxovalhar a todos. Mas eu percebo que o APV finja não perceber a diferença: quando não se é livre nem independente, é sempre tramado topar com a liberdade e independência alheias. Fim de conversa.
VAMOS LÁ, ENTÃO, AO OUTRO CAMPEONATO (15 MARÇO 2011)
1- A maior força do Benfica no futebol português, aquilo que mais contribui para o seu poder em Portugal, não são nem os supostos seis milhões de adeptos nem o passado, já longínquo, mas indiscutivelmente «glorioso». Não: a maior força do Benfica vem-lhe da comunicação social. São os seus jornalistas militantes, que se disponibilizam infatigavelmente para alimentar as fábulas do «sistema» e das «batotas», com as quais um clube essencialmente mal governado ao longo das últimas décadas, tem tentado disfarçar internamente as razões dos seus fracassos e roubar qualquer mérito ao sucesso do FC Porto. Eles que estão sempre cooperantes para silenciar os gritantes erros de avaliação e de gestão tantas vezes cometidos na Luz e promover indecorosos cultos de personalidade de qualquer presidente benfiquista, nem sequer hesitando em promover um simples bandido, como aquele que se refugia em Londres da justiça portuguesa.
E assim, certo de poder contar com essa infalível cumplicidade da sua imprensa, o Benfica pós-Braga lançou-se naquele que é o seu outro campeonato - aquele em que, de facto, dá cartas como ninguém. Vendo o campeonato perdido para os azuis e brancos; vendo falhada nova tentativa de conseguir ganhar dois campeonatos de seguida, o que já não ocorre há 28 anos; vendo o FC Porto liderar os campeonatos de futebol, andebol, basquete e hóquei em patins (ou seja, todas modalidades profissionais que o clube pratica), ao Benfica só restava regressar ao fado do coitadinho.
Nesse cenário, os invocados incidentes em Braga, as bolas de golfe e a agressão a Rui Gomes da Silva caíram que nem sopa no mel para os interesses mediáticos do Benfica. Para que não reste qualquer dúvida - e como já o fiz com o arremesso de bolas de golfe no Dragão — é óbvio que só encontro uma classificação possível para a cena com o vice- presidente benfiquista: um acto cobarde, cometido por cobardes. Sobre isso, não pode haver qualquer dúvida, nem mas, nem hesitação alguma. E isto que penso e pensarei sempre, independentemente das insinuações do João Gabriel (que julgava ainda soterrado nos escombros do túnel) e das insinuações, em resposta, de Pinto da Costa, Mas é sintomático que umas agressões dêem tanto alarido e outras apenas silêncio.
O chefe da secção de hóquei em patins do Benfica lamentou se por terem ido jogar (e perder) ao pavilhão do FC Porto, há dez dias, e, quando chegaram, estando o pavilhão ocupado com outro jogo, terem-lhes dado a escolher entre esperar 45 minutos no autocarro ou na cabina — onde ficaram «sob pressão». Deduzi que ele se achava com direito a ter um pavilhão desocupado assim que a comitiva do Benfica chegasse. Mas o que é essa «pressão» comparada com outro jogo de hóquei na Luz, onde a equipa do FC Porto, depois de ter vencido o jogo, foi atacada em pleno autocarro do clube, à porta do estádio, por um bando de energúmenos armados de tacos de basebol guardados numa arrecadação do estádio e com tamanha selvajaria que um dos jogadores portistas ficou em coma? Lembram se de alguma reacção de repúdio, um pedido de desculpas da direcção do Benfica, então presidida por Vale e Azevedo? E desta direcção, ouviram alguma coisa quando, há ano e meio, o presidente do FC Porto foi atacado à pedrada de cima dum viaduto da A5, quando se dirigia para um jogo no Estoril — naquilo que foi, obviamente, uma operação muito bem montada e planeada e não para agredir, mas bem pior?
O ambiente à roda do futebol português vem-se degradando, à medida que os estádios se vem esvaziando e à medida que todo o ambiente no país se vem tornando cada vez mais irrespirável. E à medida também, que o FC Porto não perde a sua consistência na liderança e que o Benfica vê constantemente adiado o seu regresso aos gloriosos velhos tempos dos anos 60 e 70 do século passado.
Justamente por isso é que os dirigentes deveriam ter uma atitude, no mínimo de bom senso, e não lançar para o ar constantes insinuações e acusações não provadas, que são um incitamento ao ódio entre partes. Por exemplo: Rui Gomes da Silva (que reúne o absurdo estatuto de vice-presidente de um clube e comentador desportivo), fala sempre do FC Porto num tom de arrogância e despeito que certamente não contribui para serenar ânimos. Quando, como na infeliz entrevista que aqui deu há semanas, diz que o FC Porto só lidera graças às arbitragens, que todos os maus resultados do Benfica no início do campeonato foram obra dos árbitros, que a Académica só ganhou na Luz graças ao árbitro ele está a desprezar e a ofender o mérito, por exemplo, dos jogadores e treinador da Académica, que fizeram um notável jogo na Luz, que mereceram a vitória sem discussão e que a alcançaram com um golo fabuloso (tal como o Braga). E, quando declara, levianamente, que o FC Porto domina há décadas o futebol português graças às batotas e ao «sistema», ele está a ofender, não apenas o clube, os seus sócios e simpatizantes, mas também décadas de grandes treinadores como Bobby Robson, Carlos Alberto Silva, António Oliveira, José Mourinho, Jesualdo Ferreira, ou jogadores como Paulo Futre, Rabah Madjer, Kostadinov, Domingos, Aloísio, Drulovic, Ricardo Carvalho, Deco, Lucho, McCarthy, Jardel, Lisandro Lopez, etc, que fizeram do FC Porto por duas vezes campeão da Europa e do Mundo e deram ao futebol português as suas maiores horas de glória dos últimos trinta anos, O que ele está a dizer é que todo o talento, o esforço, o trabalho, de todos eles não valeu coisa alguma, pois que tudo o que conquistaram foi apenas fruto de batota. Acham que não estamos já fartos desses insultos, desse mau perder, desse ódio não disfarçado?
É isto, esta incapacidade de reconhecer jamais mérito a quem os consiga vencer, a constante invocação de cabalas obscuras que sempre impedem o Benfica de ganhar e retiram qualquer valor ao esforço alheio, que faz com que Luís Filipe Viera exclame, espantado, que não percebe a hostilidade da «cidade de Braga» para com o Benfica. Não percebe? E, quando vem falar dos jagunços do Estádio Axa, não percebe que está a falar da mesma gente que, para efeitos de túnel, na Luz são chamados de agentes desportivos?
Esta paranóia da eterna suspeita sobre tudo aquilo que contrarie as legítimas aspirações dos benfiquistas à vitória, leva a coisas tão absurdas como vermos Bagão Félix (um ex-ministro da nação!) a declarar que é estranho que uma equipe de arbitragem tenha aceite ir a Braga, depois de outras quatro o terem recusado. Veja-se a inversão da lógica das coisas: ele não estranha nem se preocupa que haja quatro árbitros que se recusaram a arbitrar o Benfica (qualquer dia serão todos, porque, se não arbitram como o Benfica entende que deve ser, tornam-se logo suspeitos de corrupção). Não, o que ele estranha, sim, é que tenha havido um árbitro que tenha aceite ir a Braga!
2- Já não via o Trio de Ataque desde que Rui Moreira se cansou de aturar as encomendas do António Pedro Vasconcelos e resolveu ir-se embora em directo, assim honrando o programa. Na semana passada, vi-o e não dei o tempo por mal empregue. Primeiro que tudo, a repetição das imagens permitiu-me corrigir uma opinião aqui formulada, a propósito do celebre lance em que Javi Garcia é expulso e é assinalado um livre contra o Benfica - que Carlos Xistra, segundo rezam as crónicas, converteu no primeiro golo do Braga. Confirmei que o livre foi mal assinalado, mas que o Javi Garcia agrediu mesmo o Alan: puxou o braço esquerdo atrás e deu-lhe um bofetão na cara, naquilo que o APV classificou como «um gesto de equilíbrio», e que, para melhor esclarecimento, lamentou não poder ser analisado por um «especialista em aerodinâmica». Depois, vi o APV apresentar, como top da semana, um texto do Santiago Segurola, onde o que ele logo promoveu a «um dos mais prestigiados jornalistas espanhóis» dizia que o Porto e a Juventus compravam jogos. Porém, e graças à atenção do Miguel Guedes, ficámos a saber que aquele era mais um dos truques encomendados ao APV — como aquele de apresentar um regulamento disciplinar da Liga para justificar o escândalo do túnel, que, afinal, era reescrito pelo Benfica. Também o texto do Segurola (que nada sabia do assunto e se tinha limitado a ler os takes das agências), era datado de 2008 - quando a campanha mediática do Benfica e do Dr. Costa, do CD da Liga, quase conseguiam convencer a Europa de que a Carolina Salgado era uma escritora prestigiada e uma testemunha acima de qualquer suspeita e os 17 pontos de avanço sobre o Benfica com que o Porto tinha terminado o campeonato eram resultado da viagem ao Brasil de um tal Calheiros, nos idos de 90. A seguir, vi o APV meter a viola ao saco relativamente ao suposto golo mal anulado ao Benfica que, como se demonstrou pelas imagens, nem foi golo anulado nem foi off-side mal assinalado. Idem, quanto às dúvidas que ele levantou sobre a legalidade do primeiro golo do Porto ao Guimarães, e que se revelaram apenas ridículas: Viola, 0-Saco, 2. E ainda tive ocasião de soltar uma genuína gargalhada de gozo e tristeza quando ouvi o APV lamentar-se de que não houvesse gente «isenta», como ele, a analisar estas coisas. Não há dúvida: o Benfica tem muitos e prestimosos defensores na comunicação social. Porém, infelizmente para o Benfica, eles não o defendem, só o prejudicam.
3- Quanto ao resto, quanto ao futebol propriamente dito, ganhámos em Moscovo, numa relva sintética e com dez graus negativos - como já havíamos ganho na pista de ski de Viena ou no lamaçal impróprio de Coimbra, onde o árbitro esperou e confiou que baqueássemos. Nada feito: em seis jogos fora para a Europa, seis vitórias. E ganhámos categoricamente em Leiria, para a Liga, apesar de outro relvado impraticável, outra arbitragem prejudicial e outra equipe que, sem nada a perder e fisicamente repousada, não quis jogar, só defender. E mais uma vez graças a Guarin - que, juntamente com Helton é das maiores transformações a que já assisti. Onze jogos fora, nove vitórias, dois empates. É o «sistema». Bendito sistema, que tantas alegrias me dás!
E assim, certo de poder contar com essa infalível cumplicidade da sua imprensa, o Benfica pós-Braga lançou-se naquele que é o seu outro campeonato - aquele em que, de facto, dá cartas como ninguém. Vendo o campeonato perdido para os azuis e brancos; vendo falhada nova tentativa de conseguir ganhar dois campeonatos de seguida, o que já não ocorre há 28 anos; vendo o FC Porto liderar os campeonatos de futebol, andebol, basquete e hóquei em patins (ou seja, todas modalidades profissionais que o clube pratica), ao Benfica só restava regressar ao fado do coitadinho.
Nesse cenário, os invocados incidentes em Braga, as bolas de golfe e a agressão a Rui Gomes da Silva caíram que nem sopa no mel para os interesses mediáticos do Benfica. Para que não reste qualquer dúvida - e como já o fiz com o arremesso de bolas de golfe no Dragão — é óbvio que só encontro uma classificação possível para a cena com o vice- presidente benfiquista: um acto cobarde, cometido por cobardes. Sobre isso, não pode haver qualquer dúvida, nem mas, nem hesitação alguma. E isto que penso e pensarei sempre, independentemente das insinuações do João Gabriel (que julgava ainda soterrado nos escombros do túnel) e das insinuações, em resposta, de Pinto da Costa, Mas é sintomático que umas agressões dêem tanto alarido e outras apenas silêncio.
O chefe da secção de hóquei em patins do Benfica lamentou se por terem ido jogar (e perder) ao pavilhão do FC Porto, há dez dias, e, quando chegaram, estando o pavilhão ocupado com outro jogo, terem-lhes dado a escolher entre esperar 45 minutos no autocarro ou na cabina — onde ficaram «sob pressão». Deduzi que ele se achava com direito a ter um pavilhão desocupado assim que a comitiva do Benfica chegasse. Mas o que é essa «pressão» comparada com outro jogo de hóquei na Luz, onde a equipa do FC Porto, depois de ter vencido o jogo, foi atacada em pleno autocarro do clube, à porta do estádio, por um bando de energúmenos armados de tacos de basebol guardados numa arrecadação do estádio e com tamanha selvajaria que um dos jogadores portistas ficou em coma? Lembram se de alguma reacção de repúdio, um pedido de desculpas da direcção do Benfica, então presidida por Vale e Azevedo? E desta direcção, ouviram alguma coisa quando, há ano e meio, o presidente do FC Porto foi atacado à pedrada de cima dum viaduto da A5, quando se dirigia para um jogo no Estoril — naquilo que foi, obviamente, uma operação muito bem montada e planeada e não para agredir, mas bem pior?
O ambiente à roda do futebol português vem-se degradando, à medida que os estádios se vem esvaziando e à medida que todo o ambiente no país se vem tornando cada vez mais irrespirável. E à medida também, que o FC Porto não perde a sua consistência na liderança e que o Benfica vê constantemente adiado o seu regresso aos gloriosos velhos tempos dos anos 60 e 70 do século passado.
Justamente por isso é que os dirigentes deveriam ter uma atitude, no mínimo de bom senso, e não lançar para o ar constantes insinuações e acusações não provadas, que são um incitamento ao ódio entre partes. Por exemplo: Rui Gomes da Silva (que reúne o absurdo estatuto de vice-presidente de um clube e comentador desportivo), fala sempre do FC Porto num tom de arrogância e despeito que certamente não contribui para serenar ânimos. Quando, como na infeliz entrevista que aqui deu há semanas, diz que o FC Porto só lidera graças às arbitragens, que todos os maus resultados do Benfica no início do campeonato foram obra dos árbitros, que a Académica só ganhou na Luz graças ao árbitro ele está a desprezar e a ofender o mérito, por exemplo, dos jogadores e treinador da Académica, que fizeram um notável jogo na Luz, que mereceram a vitória sem discussão e que a alcançaram com um golo fabuloso (tal como o Braga). E, quando declara, levianamente, que o FC Porto domina há décadas o futebol português graças às batotas e ao «sistema», ele está a ofender, não apenas o clube, os seus sócios e simpatizantes, mas também décadas de grandes treinadores como Bobby Robson, Carlos Alberto Silva, António Oliveira, José Mourinho, Jesualdo Ferreira, ou jogadores como Paulo Futre, Rabah Madjer, Kostadinov, Domingos, Aloísio, Drulovic, Ricardo Carvalho, Deco, Lucho, McCarthy, Jardel, Lisandro Lopez, etc, que fizeram do FC Porto por duas vezes campeão da Europa e do Mundo e deram ao futebol português as suas maiores horas de glória dos últimos trinta anos, O que ele está a dizer é que todo o talento, o esforço, o trabalho, de todos eles não valeu coisa alguma, pois que tudo o que conquistaram foi apenas fruto de batota. Acham que não estamos já fartos desses insultos, desse mau perder, desse ódio não disfarçado?
É isto, esta incapacidade de reconhecer jamais mérito a quem os consiga vencer, a constante invocação de cabalas obscuras que sempre impedem o Benfica de ganhar e retiram qualquer valor ao esforço alheio, que faz com que Luís Filipe Viera exclame, espantado, que não percebe a hostilidade da «cidade de Braga» para com o Benfica. Não percebe? E, quando vem falar dos jagunços do Estádio Axa, não percebe que está a falar da mesma gente que, para efeitos de túnel, na Luz são chamados de agentes desportivos?
Esta paranóia da eterna suspeita sobre tudo aquilo que contrarie as legítimas aspirações dos benfiquistas à vitória, leva a coisas tão absurdas como vermos Bagão Félix (um ex-ministro da nação!) a declarar que é estranho que uma equipe de arbitragem tenha aceite ir a Braga, depois de outras quatro o terem recusado. Veja-se a inversão da lógica das coisas: ele não estranha nem se preocupa que haja quatro árbitros que se recusaram a arbitrar o Benfica (qualquer dia serão todos, porque, se não arbitram como o Benfica entende que deve ser, tornam-se logo suspeitos de corrupção). Não, o que ele estranha, sim, é que tenha havido um árbitro que tenha aceite ir a Braga!
2- Já não via o Trio de Ataque desde que Rui Moreira se cansou de aturar as encomendas do António Pedro Vasconcelos e resolveu ir-se embora em directo, assim honrando o programa. Na semana passada, vi-o e não dei o tempo por mal empregue. Primeiro que tudo, a repetição das imagens permitiu-me corrigir uma opinião aqui formulada, a propósito do celebre lance em que Javi Garcia é expulso e é assinalado um livre contra o Benfica - que Carlos Xistra, segundo rezam as crónicas, converteu no primeiro golo do Braga. Confirmei que o livre foi mal assinalado, mas que o Javi Garcia agrediu mesmo o Alan: puxou o braço esquerdo atrás e deu-lhe um bofetão na cara, naquilo que o APV classificou como «um gesto de equilíbrio», e que, para melhor esclarecimento, lamentou não poder ser analisado por um «especialista em aerodinâmica». Depois, vi o APV apresentar, como top da semana, um texto do Santiago Segurola, onde o que ele logo promoveu a «um dos mais prestigiados jornalistas espanhóis» dizia que o Porto e a Juventus compravam jogos. Porém, e graças à atenção do Miguel Guedes, ficámos a saber que aquele era mais um dos truques encomendados ao APV — como aquele de apresentar um regulamento disciplinar da Liga para justificar o escândalo do túnel, que, afinal, era reescrito pelo Benfica. Também o texto do Segurola (que nada sabia do assunto e se tinha limitado a ler os takes das agências), era datado de 2008 - quando a campanha mediática do Benfica e do Dr. Costa, do CD da Liga, quase conseguiam convencer a Europa de que a Carolina Salgado era uma escritora prestigiada e uma testemunha acima de qualquer suspeita e os 17 pontos de avanço sobre o Benfica com que o Porto tinha terminado o campeonato eram resultado da viagem ao Brasil de um tal Calheiros, nos idos de 90. A seguir, vi o APV meter a viola ao saco relativamente ao suposto golo mal anulado ao Benfica que, como se demonstrou pelas imagens, nem foi golo anulado nem foi off-side mal assinalado. Idem, quanto às dúvidas que ele levantou sobre a legalidade do primeiro golo do Porto ao Guimarães, e que se revelaram apenas ridículas: Viola, 0-Saco, 2. E ainda tive ocasião de soltar uma genuína gargalhada de gozo e tristeza quando ouvi o APV lamentar-se de que não houvesse gente «isenta», como ele, a analisar estas coisas. Não há dúvida: o Benfica tem muitos e prestimosos defensores na comunicação social. Porém, infelizmente para o Benfica, eles não o defendem, só o prejudicam.
3- Quanto ao resto, quanto ao futebol propriamente dito, ganhámos em Moscovo, numa relva sintética e com dez graus negativos - como já havíamos ganho na pista de ski de Viena ou no lamaçal impróprio de Coimbra, onde o árbitro esperou e confiou que baqueássemos. Nada feito: em seis jogos fora para a Europa, seis vitórias. E ganhámos categoricamente em Leiria, para a Liga, apesar de outro relvado impraticável, outra arbitragem prejudicial e outra equipe que, sem nada a perder e fisicamente repousada, não quis jogar, só defender. E mais uma vez graças a Guarin - que, juntamente com Helton é das maiores transformações a que já assisti. Onze jogos fora, nove vitórias, dois empates. É o «sistema». Bendito sistema, que tantas alegrias me dás!
segunda-feira, janeiro 09, 2012
TUDO COISAS ÓBVIAS (08 MARÇO 2011)
1- Eu avisei aqui, na semana passada: este campeonato ia ser do Porto. Não porque duvidasse do valor do Benfica ou da sua extraordinária capacidade de produzir energias quando já ninguém as tem e de, no último suspiro dos jogos, ir buscar a salvação. Mas porque há muitos anos sigo intimamente o FC Porto, conheço-o como se fossemos casados há décadas e, por mais que mudem os jogadores ou os treinadores, há ali um fio condutor, que é uma cultura de vitória e de conquista que se repete ao longo dos tempos e que se aprende a conhecer. E, em Olhão, no outro sábado, houve uma altura chave do jogo onde reconheci essa marca do Porto-campeão.
Mas ainda nem quinze minutos tinham passado sobre a derrota do Benfica em Braga e já o meu telemóvel estava inundado de mensagens de dois jornalistas benfiquistas: «jogo encomendado», «campeonato marcado desde o início», a «fruta», o «sistema», etc. e o costume. Nenhum mérito nosso, nem pensar; como todos vêem, nem o Fucile, o Álvaro Pereira, o Otamendi, o Belluschi, o James, o Falcão, o Hulk ou o Varela fazem uma boa equipa. As 20 vitórias e dois empates em 22 jogos foi tudo obra do «sistema»; os dois golos apenas sofridos fora de casa são «fruta»; os 5-0 do Dragão foi «encomenda» da arbitragem. Nem jamais o homem pousou pé na Lua nem a Terra gira à volta do Sol. Ser benfiquista é uma religião diferente.
2- Nada menos do que quatro árbitros internacionais recusaram apitar o Benfica em Braga. Eu percebo-os: para que correr o risco de uma decisão que, bem ou mal, possa ser tomada como prejudicial ao Benfica e logo ser acusado de todas as desonestidades e malfeitorias do mundo? Eis o que dá a cruzada do Benfica pelo que dizem ser a lula pela «verdade desportiva»: não há quem os queira arbitrar fora da Luz.
Vejam o Carlos Xistra, o único dos contactados que lá aceitou expor-se ao incêndio: logo levou com a insidiosa declaração de Jorge Jesus de que, no seu tempo de treinador em Braga, Xistra era por lá muito bem visto. Pode-se sempre responder que é pena que Jesus não tenho dito isso quando era treinador do Braga - então, ficar-lhe-ia bem; dito agora pareceu quilo que era: uma prévia tentativa de condicionar o árbítro. Mind games? Mind games uma ova: jogo por fora é o que é. Como vir dizer, antes do jogo, que o Braga não tinha razões para ter uma grande motivação, mas já esperava que fizessem deste o jogo do ano; e, depois do jogo, vir-se queixar da «motivação anímica» do Braga. Ou seja, e traduzindo: se eles se esforçam muito contra nós é porque estão pagos pelo Porto para isso. Eis a verdade desportiva: quem não facilitar contra o Benfica é suspeito.
3- A esta hora, Carlos Xistra deve estar mais do que arrependido — se o Benfica não vai ser campeão, a culpa é dele. Não do Benfica - que, sem ter sequer feito um ataque, viu-se a ganhar aos 25 minutos (de livre, claro), e nunca mais, em todo o jogo, teve uma ténue oportunidade de golo que fosse. Também não é mérito do Braga, obviamente — que, onze contra onze ou contra dez, assumiu todas as despesas do jogo e ainda perdeu três golos feitos. Não, o resultado é apenas obra de Xistra. Por exemplo, o golo do empate do Braga: a culpa não é do Roberto, que se deixou sobrevoar por uma bola chutada da lateral a trinta metros de distância. A culpa foi do árbitro, que assinalou mal o livre.
O que fez Xistra, então? Viu um duvidoso livre à entrada da área contra o Braga, de que resultou o golo do Benfica. Premiou uma grosseira simulação de Coentrão com um livre e cartão amarelo contra o Braga. E expulsou mal o Javi Garcia (embora escrevendo direito por linhas tortas, já que compensou todas as cotoveladas e pontapés nos adversários que ele vinha exibindo, sempre impunemente), assinalando mal o tal livre que deu o empate. Dizem também os meus amigos benfiquistas que anulou indevidamente o que teria sido o segundo golo do Benfica, mas o meu televisor, talvez por estar longe de Braga, não me mostrou nenhum golo anulado, mal ou bem, do Braga ou do Benfica.
Xistra é um pretexto, caído do céu. Sempre que o Benfica não ganha, o árbitro transforma-se no personagem central; quando o Benfica ganha, ninguém se lembra dele. A verdade é que o Benfica não fez nada para merecer sair de Braga com outro resultado, jogando com dez ou com onze. E eu já vi, tanto o Benfica como o Porto, ganhar jogos em inferioridade numérica metade do jogo (o Porto contra o Benfica no Dragão, no ano passado, por exemplo). E também não vi ninguém do Benfica tirar mérito ao seu próprio título de campeão em 2010, pelo facto de terem acabado inúmeros jogos em superioridade numérica sobre os adversários. Diz Jorge Jesus que, sem a expulsão de Javi Garcia, o Benfica marcaria a qualquer momento. Visto de fora, não parecia nada, mas, se ele o diz, deve ser verdade. Façamos então o seguinte: estes três pontos não contam e, no final, veremos se o Benfica consegue acabar o campeonato a menos de oito do FC Porto.
4- Há um FC Porto com Hulk e outro sem Hulk. Sem, Hulk, o FC Porto vegetou durante dois terços do jogo, até dar com o caminho da vitória frente ao Guimarães. Não que o Guimarães tenha feito o que quer que fosse para manter o desfecho do jogo suspenso: não criou uma só oportunidade de golo, não obrigou Helton a uma defesa apertada e em toda a segunda parte não fez um remate à baliza. Devemos tomar a declaração de Manuel Machado de que o resultado final foi injusto apenas como uma tentativa de branquear a demissão da sua equipa: o FC Porto fez dois golos e criou, apesar de tudo, oportunidades para mais outros dois; o Guimarães só por milagre chegaria ao golo. O resultado só é injusto na perspectiva de um futebol de pequeninos, que toma o nosso campeonato tão desinteressante. Eis a verdade: o Guimarães não joga nada nem tem razão para aspirar a coisa alguma. Aliás, fora do duelo particular Porto - Benfica, não há uma só equipa que se aproveite no campeonato português. Bazófia muita, futebol nenhum.
A ausência de Hulk, pese ao politicamente correcto a que André Vilas Boas, por inerência de função, deve tributo, só veio confirmar o que já sabíamos: sem ele, o Porto perde metade da alma — não do profissionalismo. Sem Hulk, vê-se melhor e sem disfarce o terror que o Fernando tem em aproximar-se da área adversária e a incrível capacidade que o João Moutinho tem de passar um jogo inteiro e jogos a fio a circular de um lado para o outro, a fazer não se percebe o quê, como se o futebol não fosse um jogo evidente por si e, no caso de um FC Porto, enfrentando quase sempre equipas que só querem defender, não tivesse como objectivo único construir caminhos para chegar ao golo. Moutinho não marca golos, não sabe rematar à baliza, não sabe fazer passes de ruptura nem assistências mortais, não desequilibra, não inventa, não rompe nem rasga: está, como escreveu um dos muitos críticos seus fãs, ocupado «a pensar o jogo ». O que vale é que, enquanto ele pensava o jogo, fazendo passes sem risco para trás e para os lados, o miúdo James Rodriguez, que gosta muito mais de jogar futebol do que ele, pensou para a frente e fez um passe carregado de lucidez e veneno para o Falcão abrir finalmente o caminho para a vitória. Mas felizmente que Hulk regressa já para a semana. Com ele em jogo, o campeonato não nos escapa.
5- Sexta-feira à noite, a meio de uma viagem de carro, paro para jantar num restaurante de província e sento-me numa mesa em frente a um televisor transmitindo o Académica-União de Leiria. Estádio magnífico, novo, feito para o Euro-2004, com capacidade para 30 000 pessoas, conforme o caderno de encargos do Euro. Estão 3 066 espectadores a assistir ao jogo, parecendo querer dar razão ao presidente da Académica, quando ele surgiu com a indecorosa afirmação de que aquele estádio não lhe servia e queria outro novo. Eu também acho: um campo de relva sintética numa escola pública, com lugar para 4 000 espectadores, parece-me suficiente para os espectáculos proporcionados. Frente a frente estavam duas equipas orientadas por treinadores para quem a crítica tem sido fértil em elogios. Uma que está tranquilamente a meio da tabela e sem objectivos visíveis; outra, jogando em casa e com a manutenção quase assegurada. Enfim, ambas com nada a perder e todas as condições para um jogo aberto, sem medo nem tacticismos. Em vez disso, vi duas equipas entregues a um jogo soporífero, renunciando ao risco e ao ataque, enquanto os seus treinadores desenhavam geniais esquemas tácticos no quadro de apontamentos. Uma vergonha de futebol, uma falta de respeito pelo jogo e pelo público.
Depois, queixem-se de que não há espectadores! O que não há é lugar para um campeonato de 16 equipas em que 12 delas apenas jogam sistematicamente para não perder.
Mas ainda nem quinze minutos tinham passado sobre a derrota do Benfica em Braga e já o meu telemóvel estava inundado de mensagens de dois jornalistas benfiquistas: «jogo encomendado», «campeonato marcado desde o início», a «fruta», o «sistema», etc. e o costume. Nenhum mérito nosso, nem pensar; como todos vêem, nem o Fucile, o Álvaro Pereira, o Otamendi, o Belluschi, o James, o Falcão, o Hulk ou o Varela fazem uma boa equipa. As 20 vitórias e dois empates em 22 jogos foi tudo obra do «sistema»; os dois golos apenas sofridos fora de casa são «fruta»; os 5-0 do Dragão foi «encomenda» da arbitragem. Nem jamais o homem pousou pé na Lua nem a Terra gira à volta do Sol. Ser benfiquista é uma religião diferente.
2- Nada menos do que quatro árbitros internacionais recusaram apitar o Benfica em Braga. Eu percebo-os: para que correr o risco de uma decisão que, bem ou mal, possa ser tomada como prejudicial ao Benfica e logo ser acusado de todas as desonestidades e malfeitorias do mundo? Eis o que dá a cruzada do Benfica pelo que dizem ser a lula pela «verdade desportiva»: não há quem os queira arbitrar fora da Luz.
Vejam o Carlos Xistra, o único dos contactados que lá aceitou expor-se ao incêndio: logo levou com a insidiosa declaração de Jorge Jesus de que, no seu tempo de treinador em Braga, Xistra era por lá muito bem visto. Pode-se sempre responder que é pena que Jesus não tenho dito isso quando era treinador do Braga - então, ficar-lhe-ia bem; dito agora pareceu quilo que era: uma prévia tentativa de condicionar o árbítro. Mind games? Mind games uma ova: jogo por fora é o que é. Como vir dizer, antes do jogo, que o Braga não tinha razões para ter uma grande motivação, mas já esperava que fizessem deste o jogo do ano; e, depois do jogo, vir-se queixar da «motivação anímica» do Braga. Ou seja, e traduzindo: se eles se esforçam muito contra nós é porque estão pagos pelo Porto para isso. Eis a verdade desportiva: quem não facilitar contra o Benfica é suspeito.
3- A esta hora, Carlos Xistra deve estar mais do que arrependido — se o Benfica não vai ser campeão, a culpa é dele. Não do Benfica - que, sem ter sequer feito um ataque, viu-se a ganhar aos 25 minutos (de livre, claro), e nunca mais, em todo o jogo, teve uma ténue oportunidade de golo que fosse. Também não é mérito do Braga, obviamente — que, onze contra onze ou contra dez, assumiu todas as despesas do jogo e ainda perdeu três golos feitos. Não, o resultado é apenas obra de Xistra. Por exemplo, o golo do empate do Braga: a culpa não é do Roberto, que se deixou sobrevoar por uma bola chutada da lateral a trinta metros de distância. A culpa foi do árbitro, que assinalou mal o livre.
O que fez Xistra, então? Viu um duvidoso livre à entrada da área contra o Braga, de que resultou o golo do Benfica. Premiou uma grosseira simulação de Coentrão com um livre e cartão amarelo contra o Braga. E expulsou mal o Javi Garcia (embora escrevendo direito por linhas tortas, já que compensou todas as cotoveladas e pontapés nos adversários que ele vinha exibindo, sempre impunemente), assinalando mal o tal livre que deu o empate. Dizem também os meus amigos benfiquistas que anulou indevidamente o que teria sido o segundo golo do Benfica, mas o meu televisor, talvez por estar longe de Braga, não me mostrou nenhum golo anulado, mal ou bem, do Braga ou do Benfica.
Xistra é um pretexto, caído do céu. Sempre que o Benfica não ganha, o árbitro transforma-se no personagem central; quando o Benfica ganha, ninguém se lembra dele. A verdade é que o Benfica não fez nada para merecer sair de Braga com outro resultado, jogando com dez ou com onze. E eu já vi, tanto o Benfica como o Porto, ganhar jogos em inferioridade numérica metade do jogo (o Porto contra o Benfica no Dragão, no ano passado, por exemplo). E também não vi ninguém do Benfica tirar mérito ao seu próprio título de campeão em 2010, pelo facto de terem acabado inúmeros jogos em superioridade numérica sobre os adversários. Diz Jorge Jesus que, sem a expulsão de Javi Garcia, o Benfica marcaria a qualquer momento. Visto de fora, não parecia nada, mas, se ele o diz, deve ser verdade. Façamos então o seguinte: estes três pontos não contam e, no final, veremos se o Benfica consegue acabar o campeonato a menos de oito do FC Porto.
4- Há um FC Porto com Hulk e outro sem Hulk. Sem, Hulk, o FC Porto vegetou durante dois terços do jogo, até dar com o caminho da vitória frente ao Guimarães. Não que o Guimarães tenha feito o que quer que fosse para manter o desfecho do jogo suspenso: não criou uma só oportunidade de golo, não obrigou Helton a uma defesa apertada e em toda a segunda parte não fez um remate à baliza. Devemos tomar a declaração de Manuel Machado de que o resultado final foi injusto apenas como uma tentativa de branquear a demissão da sua equipa: o FC Porto fez dois golos e criou, apesar de tudo, oportunidades para mais outros dois; o Guimarães só por milagre chegaria ao golo. O resultado só é injusto na perspectiva de um futebol de pequeninos, que toma o nosso campeonato tão desinteressante. Eis a verdade: o Guimarães não joga nada nem tem razão para aspirar a coisa alguma. Aliás, fora do duelo particular Porto - Benfica, não há uma só equipa que se aproveite no campeonato português. Bazófia muita, futebol nenhum.
A ausência de Hulk, pese ao politicamente correcto a que André Vilas Boas, por inerência de função, deve tributo, só veio confirmar o que já sabíamos: sem ele, o Porto perde metade da alma — não do profissionalismo. Sem Hulk, vê-se melhor e sem disfarce o terror que o Fernando tem em aproximar-se da área adversária e a incrível capacidade que o João Moutinho tem de passar um jogo inteiro e jogos a fio a circular de um lado para o outro, a fazer não se percebe o quê, como se o futebol não fosse um jogo evidente por si e, no caso de um FC Porto, enfrentando quase sempre equipas que só querem defender, não tivesse como objectivo único construir caminhos para chegar ao golo. Moutinho não marca golos, não sabe rematar à baliza, não sabe fazer passes de ruptura nem assistências mortais, não desequilibra, não inventa, não rompe nem rasga: está, como escreveu um dos muitos críticos seus fãs, ocupado «a pensar o jogo ». O que vale é que, enquanto ele pensava o jogo, fazendo passes sem risco para trás e para os lados, o miúdo James Rodriguez, que gosta muito mais de jogar futebol do que ele, pensou para a frente e fez um passe carregado de lucidez e veneno para o Falcão abrir finalmente o caminho para a vitória. Mas felizmente que Hulk regressa já para a semana. Com ele em jogo, o campeonato não nos escapa.
5- Sexta-feira à noite, a meio de uma viagem de carro, paro para jantar num restaurante de província e sento-me numa mesa em frente a um televisor transmitindo o Académica-União de Leiria. Estádio magnífico, novo, feito para o Euro-2004, com capacidade para 30 000 pessoas, conforme o caderno de encargos do Euro. Estão 3 066 espectadores a assistir ao jogo, parecendo querer dar razão ao presidente da Académica, quando ele surgiu com a indecorosa afirmação de que aquele estádio não lhe servia e queria outro novo. Eu também acho: um campo de relva sintética numa escola pública, com lugar para 4 000 espectadores, parece-me suficiente para os espectáculos proporcionados. Frente a frente estavam duas equipas orientadas por treinadores para quem a crítica tem sido fértil em elogios. Uma que está tranquilamente a meio da tabela e sem objectivos visíveis; outra, jogando em casa e com a manutenção quase assegurada. Enfim, ambas com nada a perder e todas as condições para um jogo aberto, sem medo nem tacticismos. Em vez disso, vi duas equipas entregues a um jogo soporífero, renunciando ao risco e ao ataque, enquanto os seus treinadores desenhavam geniais esquemas tácticos no quadro de apontamentos. Uma vergonha de futebol, uma falta de respeito pelo jogo e pelo público.
Depois, queixem-se de que não há espectadores! O que não há é lugar para um campeonato de 16 equipas em que 12 delas apenas jogam sistematicamente para não perder.
quinta-feira, dezembro 15, 2011
CAMPEÃO À VISTA: AZUL (01 MARÇO 2011)
1- Por três segundos apenas, o Benfica não se despediu definidamente do campeonato, contra o Marítimo. Os finais de jogo do Benfica são sempre demolidores e eu não entendo que os treinadores adversários não preparem as equipas para isso. Desistindo por completo, não só de tentar o contra-ataque, mas também de segurar a bola, após ter chegado à vantagem a 15 minutos do fim, o Marítimo escancarou a porta para sucessivas vagas de bolas despejadas para a área por alto: mal uma era sacudida, logo vinha a segunda vaga e assim sucessivamente até à reviravolla final. Outra coisa que não percebo é como é que não se marca o Fábio Coentrão homem-a-homem, todo o jogo e em todo o campo; deixado sozinho duas vezes, ele resolveu sozinho o jogo. É um jogador fabuloso, com uma alma e um talento incríveis, apenas com um pequeno senão que é o de ter aderido à moda das cotoveladas impunes que se está tornar também uma imagem de marca do futebol do Benfica. Com um juiz de linha com estofo para aguentar a pressão do Estádio da Luz, como disse o treinador do Marítimo, o Fábio Coentrão não teria ficado em campo para ganhar o jogo. Mas, enfim, as coisas são o que são. E não gosto descamotear o essencial: o Benfica mereceu ganhar pelo que atacou na segunda parte.
2- Jorge Jesus devia ter mais contenção, devia, de vez em quando, ver a gravação das figuras que faz em campo. Não se percebe porque razão vai sempre enfiar-se em confusões com os adversários no final dos jogos, tendo de ser os seus jogadores a acalmá-lo; não se percebe como é que numa semana reclama contra os árbitros que mostram cartões amarelos por simples faltas (a propósito do cartão a Maxi, contra o Sporting), e, na semana seguinte, põe-se aos saltos desvairados na lateral a reclamar um cartão para um jogador do Maritimo, após uma falta também banal; não se percebe como pode reclamar penalty num cruzamento que vai ao braço de um adversário que está de costas e nem vê a bola vir; não se percebe como é que, antes de ver as imagens do lance, fez tamanho charivari, incitando as bancadas ao tumulto, pela anulação do golo de Luisão, quase no final; e não se percebe como é que depois, já a frio, com a vitória garantida e as imagens certamente já vistas, consegue insistir em que o golo foi mal anulado, quando toda a gente, comentadores da Sport TV e milhões de espectadores, viram o descarado abalroamento de Cardozo ao guarda-redes do Marítimo, impedindo-o de chegar à bola.
3- Não obstante a vitória inarticulo mortis do Benfica, permitindo-lhe manter a tal distancia de «cinco pontos» para o FC Porto, de que fala Jorge Jesus, tenho uma má notícia para o treinador do Benfica: este sábado em Olhão, não sei se viu ou não, jogou o próximo campeão nacional.
Eu tinha avisado, quando Jesus andava a anunciar, eufórico, que ninguém jogava melhor que o Benfica, que o Porto ia fatalmente perder pontos e que se tratava apenas de recuperar cinco pontos, porque o jogo da Luz seriam favas contadas. Avisei que tivesse calma e que esperasse para ver o que sucederia quando o FC Porto pudesse voltar a dispor de dois dos seus mais influentes jogadores: Álvaro Pereira e Falcão. Pois bem, ei-los de volta, e em Olhão, num dos melhores jogos deste campeonato (muito por mérito também do Olhanense), viu-se a influencia que eles têm na equipa e a falta que lhe faziam.
Se, contra o Sevilha, o FC Porto passou ao lado de unia goleada, num jogo verdadeiramente atípico, em Olhão já vi de volta o FC Porto da primeira metade do campeonato, onde conquistou uma liderança cuja justiça só de má-fé pode ser contestada. Nestes dois meses de ausência de Alvaro e Falcão, o FC Porto foi afastado da Taça da Liga e praticamente afastado da Taça dc Portugal. Foi um preço caro, mas podia ter sido pior, porque nas duas competições mais importantes, campeonato e Liga Europa, nada se perdeu e tudo se consolidou. Hulk andou com a equipa ao colo e vai ser curioso ver como irá Villas Boas resolver o problema da sua ausência no próximo jogo, contra o Guimarães. Hulk foi o factor principal, mas também é justo salientar as grandes contribuições dadas para esse período de damage control de jogadores como Sapunaru, Otamendi, James e Belluschi. Em contrapartida, continuo (devo ser o único) a constatar, jogo após jogo, a inutilidade criativa de João Moutinho (que seria muito bem substituído por James, como um número 10), os calafrios causados por um Fernando sempre precipitado e trapalhão, e a impossibilidade de recuperar alguma utilidade a Ruben Micael ou ao Cristian Rodriguez ou de inventar alguma ao Mariano Gonzalez. O FC Porto caminha para um título disputadíssimo e justíssimo, porque o campeonato são 30 jornadas e não 26. De facto, como diz Pinto da Costa, toda a gente sobrevaloriza as vitórias do Benfica, mas poucos valorizam o fantástico campeonato que o FC Porto está a fazer — a par de uma carreira europeia notável, que só o imerecido desaire contra o Sevilha manchou ligeiramente. São 19 vitórias e 2 empates em 21 jogos; única equipa invencível do campeonato; única equipa com o pleno de pontos em casa; melhor ataque; melhor defesa; melhor marcador; 8 pontos de avanço sobre o segundo classificado e um eloquente 5-0 no jogo da «verdade desportiva» entre ambos. Vá lá que, seguindo as pisadas de Villas Boas, Jorge Jesus finalmente reconheceu isso mesmo, anteontem. Se o Benfica não for campeão este ano, é só porque o FC Porto fez um super-campeonato.
4- Nem todos, claro, pensam assim. Nem todos sabem perder. Rui Gomes da Silva, dirigente do Benfica, acha, obviamente (seria de esperar outra coisa?) que o Porto só vai à frente porque foi ajudado pelos árbitros, enquanto o Benfica foi prejudicado nas quatro primeiras jornadas, onde perdeu três jogos. Não foram os frangos de Roberto, nem algumas estranhas prestações de alguns jogadores, nem nada mais: só os árbitros. (Tivesse ganho no Dragão, em lugar de ser esmagado e humilhado, e estaria a dois pontos de diferença e não a oito. E é curioso que, desde que o Benfica começou a ganhar e voltou a jogar o que sabe desapareceram misteriosamente as más arbitragens de que se queixavam…).
Nas três paginas de pura propaganda sem contraditório que A BOLA lhe concedeu generosamente na edição deste domingo - e onde, por exemplo, o deixaram dissertar livremente sobre a «verdade desportiva», sem lhe perguntar onde esteve a verdade desportiva na contratação de Jardel ao Olhanense, nas vergonhosas circunstâncias em que foi consumada (e isto sem insistir em coisas como o «túnel da Luz», o jogo do Estoril desviado para o Algarve, etc), Rui Gomes da Silva repetiu ad nauseum a cassete benfiquista, desenterrada de cada vez que o Benfica não vai à frente do campeonato. Não sei se os dirigentes do Benfica e os seus apaniguados na comunicação social têm a noção dos danos que este tipo de discurso causa à imagem do seu clube, junto dos não-benfiquistas.
Dou o meu exemplo: eu gosto de ver o futebol do Benfica de Jorge Jesus, quando, como no ano passado ou este ano, eles jogam um futebol de ataque puro, de risco, de velocidade e imaginação: é o futebol de que eu gosto. Até gosto de vê-los ganhar com categoria ao Estugarda, embora saiba que esta equipa do Benfica de portuguesa quase só tem o nome e o Fabio Coentrão. Fui capaz de reconhecer também a justiça do título da época passada, muito embora jamais me possa esquecer da golpada do túnel, porque, esse sim, foi o maior atentado à «verdade desportiva» e ao desportivismo que já presenciei, e muito embora também não esqueça que acabaram metade dos jogos a jogar contra equipas em inferioridade numérica. Mas jogaram o melhor futebol, o mais espectacular, mereceram ganhar. Também disse que mereceram vencer o Marítimo, neste domingo, sem prejuízo de ter vsto as cotoveladas que o assistente não viu ou de ter contado três livres à entrada da área a favor do ataque do Benfica e inventados pelo árbitro (e sabe-se como as bolas paradas são a arma mais poderosa do Benfica, ao contrário do FC Porto, cujos livres e cantos são absolutamente inofensivos). Mas já se viu alguém do Benfica reconhecer algum mérito a um adversário que os vença?
Rui Gomes da Silva insiste na fábula desacreditada das «décadas» de favores de arbitragem ao FCP — como se Portugal, a Europa e o mundo não se tivessem habituado a ver e admirar o futebol do Porto! Isto é tão ofensivo como se eu me atrevesse a declarar que o Benfica de 62,63, o Benfica de Eusébio, só vencia porque era ajudado pelos árbitros. É preciso ter algum decoro!
Algum decoro para não cair nesta declaração elucidativa e extraordinária de Rui Gomes da Silva: «É preciso, repito, que se diga que o nosso adversário teve ajudas…», porque, de outro modo «isso seria reconhecer apenas mérito a quem vai a nossa frente». Está tudo dito, aqui. E está explicado porque razão o Benfica é hoje o clube mais detestado por todos os não-benfiquistas.
Sei que isso em nada os preocupa, mas é pena: é o património do grande Benfica de Eusébio e outros desbaratado por quem não sabe perder nem competir de igual para igual.
2- Jorge Jesus devia ter mais contenção, devia, de vez em quando, ver a gravação das figuras que faz em campo. Não se percebe porque razão vai sempre enfiar-se em confusões com os adversários no final dos jogos, tendo de ser os seus jogadores a acalmá-lo; não se percebe como é que numa semana reclama contra os árbitros que mostram cartões amarelos por simples faltas (a propósito do cartão a Maxi, contra o Sporting), e, na semana seguinte, põe-se aos saltos desvairados na lateral a reclamar um cartão para um jogador do Maritimo, após uma falta também banal; não se percebe como pode reclamar penalty num cruzamento que vai ao braço de um adversário que está de costas e nem vê a bola vir; não se percebe como é que, antes de ver as imagens do lance, fez tamanho charivari, incitando as bancadas ao tumulto, pela anulação do golo de Luisão, quase no final; e não se percebe como é que depois, já a frio, com a vitória garantida e as imagens certamente já vistas, consegue insistir em que o golo foi mal anulado, quando toda a gente, comentadores da Sport TV e milhões de espectadores, viram o descarado abalroamento de Cardozo ao guarda-redes do Marítimo, impedindo-o de chegar à bola.
3- Não obstante a vitória inarticulo mortis do Benfica, permitindo-lhe manter a tal distancia de «cinco pontos» para o FC Porto, de que fala Jorge Jesus, tenho uma má notícia para o treinador do Benfica: este sábado em Olhão, não sei se viu ou não, jogou o próximo campeão nacional.
Eu tinha avisado, quando Jesus andava a anunciar, eufórico, que ninguém jogava melhor que o Benfica, que o Porto ia fatalmente perder pontos e que se tratava apenas de recuperar cinco pontos, porque o jogo da Luz seriam favas contadas. Avisei que tivesse calma e que esperasse para ver o que sucederia quando o FC Porto pudesse voltar a dispor de dois dos seus mais influentes jogadores: Álvaro Pereira e Falcão. Pois bem, ei-los de volta, e em Olhão, num dos melhores jogos deste campeonato (muito por mérito também do Olhanense), viu-se a influencia que eles têm na equipa e a falta que lhe faziam.
Se, contra o Sevilha, o FC Porto passou ao lado de unia goleada, num jogo verdadeiramente atípico, em Olhão já vi de volta o FC Porto da primeira metade do campeonato, onde conquistou uma liderança cuja justiça só de má-fé pode ser contestada. Nestes dois meses de ausência de Alvaro e Falcão, o FC Porto foi afastado da Taça da Liga e praticamente afastado da Taça dc Portugal. Foi um preço caro, mas podia ter sido pior, porque nas duas competições mais importantes, campeonato e Liga Europa, nada se perdeu e tudo se consolidou. Hulk andou com a equipa ao colo e vai ser curioso ver como irá Villas Boas resolver o problema da sua ausência no próximo jogo, contra o Guimarães. Hulk foi o factor principal, mas também é justo salientar as grandes contribuições dadas para esse período de damage control de jogadores como Sapunaru, Otamendi, James e Belluschi. Em contrapartida, continuo (devo ser o único) a constatar, jogo após jogo, a inutilidade criativa de João Moutinho (que seria muito bem substituído por James, como um número 10), os calafrios causados por um Fernando sempre precipitado e trapalhão, e a impossibilidade de recuperar alguma utilidade a Ruben Micael ou ao Cristian Rodriguez ou de inventar alguma ao Mariano Gonzalez. O FC Porto caminha para um título disputadíssimo e justíssimo, porque o campeonato são 30 jornadas e não 26. De facto, como diz Pinto da Costa, toda a gente sobrevaloriza as vitórias do Benfica, mas poucos valorizam o fantástico campeonato que o FC Porto está a fazer — a par de uma carreira europeia notável, que só o imerecido desaire contra o Sevilha manchou ligeiramente. São 19 vitórias e 2 empates em 21 jogos; única equipa invencível do campeonato; única equipa com o pleno de pontos em casa; melhor ataque; melhor defesa; melhor marcador; 8 pontos de avanço sobre o segundo classificado e um eloquente 5-0 no jogo da «verdade desportiva» entre ambos. Vá lá que, seguindo as pisadas de Villas Boas, Jorge Jesus finalmente reconheceu isso mesmo, anteontem. Se o Benfica não for campeão este ano, é só porque o FC Porto fez um super-campeonato.
4- Nem todos, claro, pensam assim. Nem todos sabem perder. Rui Gomes da Silva, dirigente do Benfica, acha, obviamente (seria de esperar outra coisa?) que o Porto só vai à frente porque foi ajudado pelos árbitros, enquanto o Benfica foi prejudicado nas quatro primeiras jornadas, onde perdeu três jogos. Não foram os frangos de Roberto, nem algumas estranhas prestações de alguns jogadores, nem nada mais: só os árbitros. (Tivesse ganho no Dragão, em lugar de ser esmagado e humilhado, e estaria a dois pontos de diferença e não a oito. E é curioso que, desde que o Benfica começou a ganhar e voltou a jogar o que sabe desapareceram misteriosamente as más arbitragens de que se queixavam…).
Nas três paginas de pura propaganda sem contraditório que A BOLA lhe concedeu generosamente na edição deste domingo - e onde, por exemplo, o deixaram dissertar livremente sobre a «verdade desportiva», sem lhe perguntar onde esteve a verdade desportiva na contratação de Jardel ao Olhanense, nas vergonhosas circunstâncias em que foi consumada (e isto sem insistir em coisas como o «túnel da Luz», o jogo do Estoril desviado para o Algarve, etc), Rui Gomes da Silva repetiu ad nauseum a cassete benfiquista, desenterrada de cada vez que o Benfica não vai à frente do campeonato. Não sei se os dirigentes do Benfica e os seus apaniguados na comunicação social têm a noção dos danos que este tipo de discurso causa à imagem do seu clube, junto dos não-benfiquistas.
Dou o meu exemplo: eu gosto de ver o futebol do Benfica de Jorge Jesus, quando, como no ano passado ou este ano, eles jogam um futebol de ataque puro, de risco, de velocidade e imaginação: é o futebol de que eu gosto. Até gosto de vê-los ganhar com categoria ao Estugarda, embora saiba que esta equipa do Benfica de portuguesa quase só tem o nome e o Fabio Coentrão. Fui capaz de reconhecer também a justiça do título da época passada, muito embora jamais me possa esquecer da golpada do túnel, porque, esse sim, foi o maior atentado à «verdade desportiva» e ao desportivismo que já presenciei, e muito embora também não esqueça que acabaram metade dos jogos a jogar contra equipas em inferioridade numérica. Mas jogaram o melhor futebol, o mais espectacular, mereceram ganhar. Também disse que mereceram vencer o Marítimo, neste domingo, sem prejuízo de ter vsto as cotoveladas que o assistente não viu ou de ter contado três livres à entrada da área a favor do ataque do Benfica e inventados pelo árbitro (e sabe-se como as bolas paradas são a arma mais poderosa do Benfica, ao contrário do FC Porto, cujos livres e cantos são absolutamente inofensivos). Mas já se viu alguém do Benfica reconhecer algum mérito a um adversário que os vença?
Rui Gomes da Silva insiste na fábula desacreditada das «décadas» de favores de arbitragem ao FCP — como se Portugal, a Europa e o mundo não se tivessem habituado a ver e admirar o futebol do Porto! Isto é tão ofensivo como se eu me atrevesse a declarar que o Benfica de 62,63, o Benfica de Eusébio, só vencia porque era ajudado pelos árbitros. É preciso ter algum decoro!
Algum decoro para não cair nesta declaração elucidativa e extraordinária de Rui Gomes da Silva: «É preciso, repito, que se diga que o nosso adversário teve ajudas…», porque, de outro modo «isso seria reconhecer apenas mérito a quem vai a nossa frente». Está tudo dito, aqui. E está explicado porque razão o Benfica é hoje o clube mais detestado por todos os não-benfiquistas.
Sei que isso em nada os preocupa, mas é pena: é o património do grande Benfica de Eusébio e outros desbaratado por quem não sabe perder nem competir de igual para igual.