segunda-feira, fevereiro 13, 2012

UM PASSEIO DE CAMPEÃO (22 MARÇO 2011)

1- Custa-lhes muito ouvir isto, mas é tão verdade que até dói: este foi dos campeonatos mais fáceis alguma vez ganhos pelo FC Porto ou por Benfica ou Sporting ou qualquer clube por esse mundo fora. Houve apenas uma altura, cerca de mês e meio, entre Dezembro e Janeiro, que o FC Porto, desfalcado de Alvaro Pereira e Falcão, abanou, enquanto o Benfica subia. Mas, por sorte, esse período coincidiu com a ausência de jogos europeus e teve poucos e fáceis jogos para o campeonato, pelo que a factura foi paga apenas na Taça de Portugal e Taça da Liga. Retomada a normalidade, a seis jornadas do fim, falta-nos apenas uma vitória para sermos campeões. Treze pontos de avanço sobre o segundo, 29 sobre o terceiro, 22 vitórias e dois empates em 24 jogos, apenas 8 golos sofridos e 56 marcados, a melhor defesa, o melhor ataque, o melhor marcador. A quarta melhor equipa da actualidade (CNN dixit), o principal favorito, segundo as casas de apostas e a imprensa espanhola, à conquista da Liga Europa (10 vitórias, 1 empate e 1 derrota em doze jogos). É preciso uma imensa, uma despudorada desonestidade intelectual, para contestar o mérito deste campeonato. E, por isso mesmo, é que os nossos campeonatos, têm sempre um duplo sabor a vitória: porque é mais uma conquista para o nosso clube e mais uma derrota para o clube dos invejosos e maledicentes. São vitórias destas, contra a inveja, o despeito e a calúnia, de que o país precisa como exemplo para definitivamente cair em si e mudar de rumo. Para passar a dar mérito a quem o tem, ao trabalho, ao talento, ao esforço, e deixar de premiar os que se acham com direito incontestável a tudo, apenas porque no passado ganharam duas Taças dos Campeões Europeus ou descobriram o caminho marítimo para a índia.

O FC Porto é o maior caso de sucesso, individua ou colectivo, que Portugal protagonizou nos últimos trinta anos. Não cabe na cidade que o viu nascer e cujo presidente de Câmara tudo fez para lhe criar problemas e tanto sofre com as suas vitórias, e não cabe no país de que uma grande e invejosa parte vive a tentar diminuir o seu sucesso e difamá-lo mesmo além fronteiras. Paciência, embrulhem mais este! E registem o que escrevo: não hei-de morrer sem ver o FC Porto ultrapassar o Benfica em número de campeonatos conquistados. Em conhecimento, prestígio e número de títulos internacionais, de há muito que ultrapassámos a marca Benfica. Só falta consegui-lo aqui, mas já faltou bem mais.



2- Agora, com mais um campeonato brilhantemente conquistado, restam as tarefas seguintes e que não são poucas, todavia: acabar o campeonato sem derrotas; virar os 0-2 do Dragão para a Taça de Portugal num 3-1 na Luz; e seguir em frente, até ao limite, na Liga Europa. São sonhos a mais, uma tarefa impossível, eu sei. Mas o que importa é continuar a ter objectivos de vitória e acredito, sim, que esta equipa nunca irá adormecer à sombra do que já conquistou este ano: a Supertaça e o Campeonato. E, depois, há ainda os juniores e o hóquei, o basquete, o andebol. As alegrias não acabam aqui.

3- Palavra, que me custa falar do Sporting e nunca o faço mais do que duas, três vezes, por ano. Por um lado, porque nunca é muito elegante bater em mortos ou moribundos; depois, porque eles são muito susceptíveis, ofendem-se com pouco e, como escreveu o Cesare Pavese, mesmo que possam estar mortos, ainda não o sabem. E não convém dizer-lhes, assim, à bruta.

Há meses, expliquei aqui, delicadamente, esta minha tese da morte iminente, conjuntural e estrutural, do Sporring. Conjuntural, porque, como escrevi, quem quer que perceba um mínimo de futebol olha para aquela equipa e não se pode espantar que esteja a uns espantosos 29 pontos do primeiro lugar: só pode espantar-se é que esteja em terceiro lugar — o que só demonstra como o nosso campeonato é bipolar até ao extremo. Quanto à morte estrutural, não vou agora repetir-me, mas deriva da própria morte lenta a que o Sporting tem sido submetido ao longo de duas décadas, por erros próprios gritantes: a eterna lamúria dos árbitros que sempre serviu para disfarçar os fracassos internos, a atitude de aristocrata que nada precisa de aprender, a pressa em desfazer-se de alguns grandes jogadores formados na academia, o inacreditável estádio que afasta espectadores em lugar de os chamar e os tios-gestores que, regra geral, nada percebem de futebol mas acham-se com um direito de berço a dirigir o clube. Enfim, um clube que nunca teve a humildade para parar e olhar-se ao espelho. Claro, que é sempre possível, como então escrevi, que aconteça um milagre, que algum sheik do petróleo ou patrão da máfia russa resolva apaixonar-se pelas camisolas verdes às riscas ou por aquela espécie de tenda de circo em betão armado, e decida investir ali uns milhões a perder de vista. Talvez isso pudesse, com critério, sorte e paciência, levar à formação de uma grande equipa de futebol. Mas uma boa equipa não chega para fazer um campeão habitual e muitos milhões não chegam para ressuscitar um clube que perdeu a base social de apoio, a capacidade de atrair os jovens e a cultura de vitória. Demoraria uma geração a começar a reconstruir o que se deixou destruir aos poucos.

Lamento dizê-lo, mas esta campanha eleitoral do Sporting, com tantos e tantos candidatos declarados e outros frustrados, em vez de me fazer prova de vida dessa moribunda instituição, antes me confirma que os sinais vitais são mais do que débeis. A abundância de candidatos quer apenas dizer que aquilo está à mercê de qualquer um. Basta dizer que se tem um «fundo», que se reuniu com os bancos e já se falou com o José Maria Ricciardi, que se tem um treinador de «créditos firmados» (como o Van Basten, sem curriculum algum, ou o Scolari, com um curriculum de fiascos e prima-dona até dizer chega) e que se reuniu algumas velhas glórias do clube para fazerem não se sabe o quê, e eis um candidato a presidente do Sporting. Não precisa de entender nada de futebol nem de gestão, nem sequer ter um cadastro limpo e ao nível da fidalguia reclamada. Como, antes de mais, é de dinheiro que se trata, o que interessa é acenar aos sócios com milhões caídos do céu — ou da máfia angolana, ou da russa, ou dos negócios com o Estado, ou da família. Os poucos que não conseguem inventar uma mina de ouro, sustentam que o principal é começar pelos títulos conquistados: logo depois, chegarão as multidões de adeptos e os milhões dos «investidores»: piece of cake. Todos têm um director desportivo consagrado, jogadores de topo já assentes mas que não se podem ainda comprometer publicamente (até o fantasma do Adriano!), e têm um «projecto», um «levantamento», um «estudo», para problemas, que nào parecem ser assim tão graves pois que todos declaram igualmente que não é a dívida à banca que impedirá o Sporting de ser campeão já para o ano. Parece fácil, não é?

Talvez, admito que sim, que eu esteja a ser injusto. Deve haver ali alguém com algumas ideias aproveitáveis, só que, com tão inflamado sportinguismo, tantos ataques mútuos e fratricidas e tanta conversa de treta para incautos, torna-se difícil de o descortinar. Mesmo o juiz (caramba, o juiz desembargador!) sai-se com pérolas destas: «comigo, árbitro que cometa erros grosseiros contra nós, leva logo com um processo-crime!». Ora vejam para o que serve um juiz à frente de um clube de futebol! O meu medo, confesso, não é de o ver à frente do Sporting: é de me ver a mim em frente a um tribunal presidido por ele». Dessa nem o Rui Gomes da Silva se lembrou ainda!


P.S. E por falar em conceitos muito especiais de justiça, fica aqui, mais uma vez, um esclarecimento ao APV (admitindo que ele quer ser esclarecido daquilo que não quer ver esclarecido): quando a D.ª Carolina Salgado apareceu como «testemunha-chave» do Benfica, da Drª Maria José Morgado e do Dr. Ricardo Costa, contra o FC Porto, eu disse, de facto, que Pinto da Costa se deveria demitir de presidente do clube. Mas acrescentei a razão, que o APV deliberadamente omite: não porque, em algum momento, eu acreditasse que o seu testemunho continha o que quer que fosse de verdade, mas porque, ao conceder -lhe o estatuto que lhe concedeu no FC Porto, ele tinha misturado a sua vida pessoal com a do clube, permitindo depois que alguém desse calibre, por despeito pessoal, nos tivesse vindo enxovalhar a todos. Mas eu percebo que o APV finja não perceber a diferença: quando não se é livre nem independente, é sempre tramado topar com a liberdade e independência alheias. Fim de conversa.

VAMOS LÁ, ENTÃO, AO OUTRO CAMPEONATO (15 MARÇO 2011)

1- A maior força do Benfica no futebol português, aquilo que mais contribui para o seu poder em Portugal, não são nem os supostos seis milhões de adeptos nem o passado, já longínquo, mas indiscutivelmente «glorioso». Não: a maior força do Benfica vem-lhe da comunicação social. São os seus jornalistas militantes, que se disponibilizam infatigavelmente para alimentar as fábulas do «sistema» e das «batotas», com as quais um clube essencialmente mal governado ao longo das últimas décadas, tem tentado disfarçar internamente as razões dos seus fracassos e roubar qualquer mérito ao sucesso do FC Porto. Eles que estão sempre cooperantes para silenciar os gritantes erros de avaliação e de gestão tantas vezes cometidos na Luz e promover indecorosos cultos de personalidade de qualquer presidente benfiquista, nem sequer hesitando em promover um simples bandido, como aquele que se refugia em Londres da justiça portuguesa.

E assim, certo de poder contar com essa infalível cumplicidade da sua imprensa, o Benfica pós-Braga lançou-se naquele que é o seu outro campeonato - aquele em que, de facto, dá cartas como ninguém. Vendo o campeonato perdido para os azuis e brancos; vendo falhada nova tentativa de conseguir ganhar dois campeonatos de seguida, o que já não ocorre há 28 anos; vendo o FC Porto liderar os campeonatos de futebol, andebol, basquete e hóquei em patins (ou seja, todas modalidades profissionais que o clube pratica), ao Benfica só restava regressar ao fado do coitadinho.

Nesse cenário, os invocados incidentes em Braga, as bolas de golfe e a agressão a Rui Gomes da Silva caíram que nem sopa no mel para os interesses mediáticos do Benfica. Para que não reste qualquer dúvida - e como já o fiz com o arremesso de bolas de golfe no Dragão — é óbvio que só encontro uma classificação possível para a cena com o vice- presidente benfiquista: um acto cobarde, cometido por cobardes. Sobre isso, não pode haver qualquer dúvida, nem mas, nem hesitação alguma. E isto que penso e pensarei sempre, independentemente das insinuações do João Gabriel (que julgava ainda soterrado nos escombros do túnel) e das insinuações, em resposta, de Pinto da Costa, Mas é sintomático que umas agressões dêem tanto alarido e outras apenas silêncio.

O chefe da secção de hóquei em patins do Benfica lamentou se por terem ido jogar (e perder) ao pavilhão do FC Porto, há dez dias, e, quando chegaram, estando o pavilhão ocupado com outro jogo, terem-lhes dado a escolher entre esperar 45 minutos no autocarro ou na cabina — onde ficaram «sob pressão». Deduzi que ele se achava com direito a ter um pavilhão desocupado assim que a comitiva do Benfica chegasse. Mas o que é essa «pressão» comparada com outro jogo de hóquei na Luz, onde a equipa do FC Porto, depois de ter vencido o jogo, foi atacada em pleno autocarro do clube, à porta do estádio, por um bando de energúmenos armados de tacos de basebol guardados numa arrecadação do estádio e com tamanha selvajaria que um dos jogadores portistas ficou em coma? Lembram se de alguma reacção de repúdio, um pedido de desculpas da direcção do Benfica, então presidida por Vale e Azevedo? E desta direcção, ouviram alguma coisa quando, há ano e meio, o presidente do FC Porto foi atacado à pedrada de cima dum viaduto da A5, quando se dirigia para um jogo no Estoril — naquilo que foi, obviamente, uma operação muito bem montada e planeada e não para agredir, mas bem pior?

O ambiente à roda do futebol português vem-se degradando, à medida que os estádios se vem esvaziando e à medida que todo o ambiente no país se vem tornando cada vez mais irrespirável. E à medida também, que o FC Porto não perde a sua consistência na liderança e que o Benfica vê constantemente adiado o seu regresso aos gloriosos velhos tempos dos anos 60 e 70 do século passado.

Justamente por isso é que os dirigentes deveriam ter uma atitude, no mínimo de bom senso, e não lançar para o ar constantes insinuações e acusações não provadas, que são um incitamento ao ódio entre partes. Por exemplo: Rui Gomes da Silva (que reúne o absurdo estatuto de vice-presidente de um clube e comentador desportivo), fala sempre do FC Porto num tom de arrogância e despeito que certamente não contribui para serenar ânimos. Quando, como na infeliz entrevista que aqui deu há semanas, diz que o FC Porto só lidera graças às arbitragens, que todos os maus resultados do Benfica no início do campeonato foram obra dos árbitros, que a Académica só ganhou na Luz graças ao árbitro ele está a desprezar e a ofender o mérito, por exemplo, dos jogadores e treinador da Académica, que fizeram um notável jogo na Luz, que mereceram a vitória sem discussão e que a alcançaram com um golo fabuloso (tal como o Braga). E, quando declara, levianamente, que o FC Porto domina há décadas o futebol português graças às batotas e ao «sistema», ele está a ofender, não apenas o clube, os seus sócios e simpatizantes, mas também décadas de grandes treinadores como Bobby Robson, Carlos Alberto Silva, António Oliveira, José Mourinho, Jesualdo Ferreira, ou jogadores como Paulo Futre, Rabah Madjer, Kostadinov, Domingos, Aloísio, Drulovic, Ricardo Carvalho, Deco, Lucho, McCarthy, Jardel, Lisandro Lopez, etc, que fizeram do FC Porto por duas vezes campeão da Europa e do Mundo e deram ao futebol português as suas maiores horas de glória dos últimos trinta anos, O que ele está a dizer é que todo o talento, o esforço, o trabalho, de todos eles não valeu coisa alguma, pois que tudo o que conquistaram foi apenas fruto de batota. Acham que não estamos já fartos desses insultos, desse mau perder, desse ódio não disfarçado?

É isto, esta incapacidade de reconhecer jamais mérito a quem os consiga vencer, a constante invocação de cabalas obscuras que sempre impedem o Benfica de ganhar e retiram qualquer valor ao esforço alheio, que faz com que Luís Filipe Viera exclame, espantado, que não percebe a hostilidade da «cidade de Braga» para com o Benfica. Não percebe? E, quando vem falar dos jagunços do Estádio Axa, não percebe que está a falar da mesma gente que, para efeitos de túnel, na Luz são chamados de agentes desportivos?

Esta paranóia da eterna suspeita sobre tudo aquilo que contrarie as legítimas aspirações dos benfiquistas à vitória, leva a coisas tão absurdas como vermos Bagão Félix (um ex-ministro da nação!) a declarar que é estranho que uma equipe de arbitragem tenha aceite ir a Braga, depois de outras quatro o terem recusado. Veja-se a inversão da lógica das coisas: ele não estranha nem se preocupa que haja quatro árbitros que se recusaram a arbitrar o Benfica (qualquer dia serão todos, porque, se não arbitram como o Benfica entende que deve ser, tornam-se logo suspeitos de corrupção). Não, o que ele estranha, sim, é que tenha havido um árbitro que tenha aceite ir a Braga!



2- Já não via o Trio de Ataque desde que Rui Moreira se cansou de aturar as encomendas do António Pedro Vasconcelos e resolveu ir-se embora em directo, assim honrando o programa. Na semana passada, vi-o e não dei o tempo por mal empregue. Primeiro que tudo, a repetição das imagens permitiu-me corrigir uma opinião aqui formulada, a propósito do celebre lance em que Javi Garcia é expulso e é assinalado um livre contra o Benfica - que Carlos Xistra, segundo rezam as crónicas, converteu no primeiro golo do Braga. Confirmei que o livre foi mal assinalado, mas que o Javi Garcia agrediu mesmo o Alan: puxou o braço esquerdo atrás e deu-lhe um bofetão na cara, naquilo que o APV classificou como «um gesto de equilíbrio», e que, para melhor esclarecimento, lamentou não poder ser analisado por um «especialista em aerodinâmica». Depois, vi o APV apresentar, como top da semana, um texto do Santiago Segurola, onde o que ele logo promoveu a «um dos mais prestigiados jornalistas espanhóis» dizia que o Porto e a Juventus compravam jogos. Porém, e graças à atenção do Miguel Guedes, ficámos a saber que aquele era mais um dos truques encomendados ao APV — como aquele de apresentar um regulamento disciplinar da Liga para justificar o escândalo do túnel, que, afinal, era reescrito pelo Benfica. Também o texto do Segurola (que nada sabia do assunto e se tinha limitado a ler os takes das agências), era datado de 2008 - quando a campanha mediática do Benfica e do Dr. Costa, do CD da Liga, quase conseguiam convencer a Europa de que a Carolina Salgado era uma escritora prestigiada e uma testemunha acima de qualquer suspeita e os 17 pontos de avanço sobre o Benfica com que o Porto tinha terminado o campeonato eram resultado da viagem ao Brasil de um tal Calheiros, nos idos de 90. A seguir, vi o APV meter a viola ao saco relativamente ao suposto golo mal anulado ao Benfica que, como se demonstrou pelas imagens, nem foi golo anulado nem foi off-side mal assinalado. Idem, quanto às dúvidas que ele levantou sobre a legalidade do primeiro golo do Porto ao Guimarães, e que se revelaram apenas ridículas: Viola, 0-Saco, 2. E ainda tive ocasião de soltar uma genuína gargalhada de gozo e tristeza quando ouvi o APV lamentar-se de que não houvesse gente «isenta», como ele, a analisar estas coisas. Não há dúvida: o Benfica tem muitos e prestimosos defensores na comunicação social. Porém, infelizmente para o Benfica, eles não o defendem, só o prejudicam.

3- Quanto ao resto, quanto ao futebol propriamente dito, ganhámos em Moscovo, numa relva sintética e com dez graus negativos - como já havíamos ganho na pista de ski de Viena ou no lamaçal impróprio de Coimbra, onde o árbitro esperou e confiou que baqueássemos. Nada feito: em seis jogos fora para a Europa, seis vitórias. E ganhámos categoricamente em Leiria, para a Liga, apesar de outro relvado impraticável, outra arbitragem prejudicial e outra equipe que, sem nada a perder e fisicamente repousada, não quis jogar, só defender. E mais uma vez graças a Guarin - que, juntamente com Helton é das maiores transformações a que já assisti. Onze jogos fora, nove vitórias, dois empates. É o «sistema». Bendito sistema, que tantas alegrias me dás!

segunda-feira, janeiro 09, 2012

TUDO COISAS ÓBVIAS (08 MARÇO 2011)

1- Eu avisei aqui, na semana passada: este campeonato ia ser do Porto. Não porque duvidasse do valor do Benfica ou da sua extraordinária capacidade de produzir energias quando já ninguém as tem e de, no último suspiro dos jogos, ir buscar a salvação. Mas porque há muitos anos sigo intimamente o FC Porto, conheço-o como se fossemos casados há décadas e, por mais que mudem os jogadores ou os treinadores, há ali um fio condutor, que é uma cultura de vitória e de conquista que se repete ao longo dos tempos e que se aprende a conhecer. E, em Olhão, no outro sábado, houve uma altura chave do jogo onde reconheci essa marca do Porto-campeão.

Mas ainda nem quinze minutos tinham passado sobre a derrota do Benfica em Braga e já o meu telemóvel estava inundado de mensagens de dois jornalistas benfiquistas: «jogo encomendado», «campeonato marcado desde o início», a «fruta», o «sistema», etc. e o costume. Nenhum mérito nosso, nem pensar; como todos vêem, nem o Fucile, o Álvaro Pereira, o Otamendi, o Belluschi, o James, o Falcão, o Hulk ou o Varela fazem uma boa equipa. As 20 vitórias e dois empates em 22 jogos foi tudo obra do «sistema»; os dois golos apenas sofridos fora de casa são «fruta»; os 5-0 do Dragão foi «encomenda» da arbitragem. Nem jamais o homem pousou pé na Lua nem a Terra gira à volta do Sol. Ser benfiquista é uma religião diferente.

2- Nada menos do que quatro árbitros internacionais recusaram apitar o Benfica em Braga. Eu percebo-os: para que correr o risco de uma decisão que, bem ou mal, possa ser tomada como prejudicial ao Benfica e logo ser acusado de todas as desonestidades e malfeitorias do mundo? Eis o que dá a cruzada do Benfica pelo que dizem ser a lula pela «verdade desportiva»: não há quem os queira arbitrar fora da Luz.

Vejam o Carlos Xistra, o único dos contactados que lá aceitou expor-se ao incêndio: logo levou com a insidiosa declaração de Jorge Jesus de que, no seu tempo de treinador em Braga, Xistra era por lá muito bem visto. Pode-se sempre responder que é pena que Jesus não tenho dito isso quando era treinador do Braga - então, ficar-lhe-ia bem; dito agora pareceu quilo que era: uma prévia tentativa de condicionar o árbítro. Mind games? Mind games uma ova: jogo por fora é o que é. Como vir dizer, antes do jogo, que o Braga não tinha razões para ter uma grande motivação, mas já esperava que fizessem deste o jogo do ano; e, depois do jogo, vir-se queixar da «motivação anímica» do Braga. Ou seja, e traduzindo: se eles se esforçam muito contra nós é porque estão pagos pelo Porto para isso. Eis a verdade desportiva: quem não facilitar contra o Benfica é suspeito.

3- A esta hora, Carlos Xistra deve estar mais do que arrependido — se o Benfica não vai ser campeão, a culpa é dele. Não do Benfica - que, sem ter sequer feito um ataque, viu-se a ganhar aos 25 minutos (de livre, claro), e nunca mais, em todo o jogo, teve uma ténue oportunidade de golo que fosse. Também não é mérito do Braga, obviamente — que, onze contra onze ou contra dez, assumiu todas as despesas do jogo e ainda perdeu três golos feitos. Não, o resultado é apenas obra de Xistra. Por exemplo, o golo do empate do Braga: a culpa não é do Roberto, que se deixou sobrevoar por uma bola chutada da lateral a trinta metros de distância. A culpa foi do árbitro, que assinalou mal o livre.

O que fez Xistra, então? Viu um duvidoso livre à entrada da área contra o Braga, de que resultou o golo do Benfica. Premiou uma grosseira simulação de Coentrão com um livre e cartão amarelo contra o Braga. E expulsou mal o Javi Garcia (embora escrevendo direito por linhas tortas, já que compensou todas as cotoveladas e pontapés nos adversários que ele vinha exibindo, sempre impunemente), assinalando mal o tal livre que deu o empate. Dizem também os meus amigos benfiquistas que anulou indevidamente o que teria sido o segundo golo do Benfica, mas o meu televisor, talvez por estar longe de Braga, não me mostrou nenhum golo anulado, mal ou bem, do Braga ou do Benfica.

Xistra é um pretexto, caído do céu. Sempre que o Benfica não ganha, o árbitro transforma-se no personagem central; quando o Benfica ganha, ninguém se lembra dele. A verdade é que o Benfica não fez nada para merecer sair de Braga com outro resultado, jogando com dez ou com onze. E eu já vi, tanto o Benfica como o Porto, ganhar jogos em inferioridade numérica metade do jogo (o Porto contra o Benfica no Dragão, no ano passado, por exemplo). E também não vi ninguém do Benfica tirar mérito ao seu próprio título de campeão em 2010, pelo facto de terem acabado inúmeros jogos em superioridade numérica sobre os adversários. Diz Jorge Jesus que, sem a expulsão de Javi Garcia, o Benfica marcaria a qualquer momento. Visto de fora, não parecia nada, mas, se ele o diz, deve ser verdade. Façamos então o seguinte: estes três pontos não contam e, no final, veremos se o Benfica consegue acabar o campeonato a menos de oito do FC Porto.


4- Há um FC Porto com Hulk e outro sem Hulk. Sem, Hulk, o FC Porto vegetou durante dois terços do jogo, até dar com o caminho da vitória frente ao Guimarães. Não que o Guimarães tenha feito o que quer que fosse para manter o desfecho do jogo suspenso: não criou uma só oportunidade de golo, não obrigou Helton a uma defesa apertada e em toda a segunda parte não fez um remate à baliza. Devemos tomar a declaração de Manuel Machado de que o resultado final foi injusto apenas como uma tentativa de branquear a demissão da sua equipa: o FC Porto fez dois golos e criou, apesar de tudo, oportunidades para mais outros dois; o Guimarães só por milagre chegaria ao golo. O resultado só é injusto na perspectiva de um futebol de pequeninos, que toma o nosso campeonato tão desinteressante. Eis a verdade: o Guimarães não joga nada nem tem razão para aspirar a coisa alguma. Aliás, fora do duelo particular Porto - Benfica, não há uma só equipa que se aproveite no campeonato português. Bazófia muita, futebol nenhum.

A ausência de Hulk, pese ao politicamente correcto a que André Vilas Boas, por inerência de função, deve tributo, só veio confirmar o que já sabíamos: sem ele, o Porto perde metade da alma — não do profissionalismo. Sem Hulk, vê-se melhor e sem disfarce o terror que o Fernando tem em aproximar-se da área adversária e a incrível capacidade que o João Moutinho tem de passar um jogo inteiro e jogos a fio a circular de um lado para o outro, a fazer não se percebe o quê, como se o futebol não fosse um jogo evidente por si e, no caso de um FC Porto, enfrentando quase sempre equipas que só querem defender, não tivesse como objectivo único construir caminhos para chegar ao golo. Moutinho não marca golos, não sabe rematar à baliza, não sabe fazer passes de ruptura nem assistências mortais, não desequilibra, não inventa, não rompe nem rasga: está, como escreveu um dos muitos críticos seus fãs, ocupado «a pensar o jogo ». O que vale é que, enquanto ele pensava o jogo, fazendo passes sem risco para trás e para os lados, o miúdo James Rodriguez, que gosta muito mais de jogar futebol do que ele, pensou para a frente e fez um passe carregado de lucidez e veneno para o Falcão abrir finalmente o caminho para a vitória. Mas felizmente que Hulk regressa já para a semana. Com ele em jogo, o campeonato não nos escapa.


5- Sexta-feira à noite, a meio de uma viagem de carro, paro para jantar num restaurante de província e sento-me numa mesa em frente a um televisor transmitindo o Académica-União de Leiria. Estádio magnífico, novo, feito para o Euro-2004, com capacidade para 30 000 pessoas, conforme o caderno de encargos do Euro. Estão 3 066 espectadores a assistir ao jogo, parecendo querer dar razão ao presidente da Académica, quando ele surgiu com a indecorosa afirmação de que aquele estádio não lhe servia e queria outro novo. Eu também acho: um campo de relva sintética numa escola pública, com lugar para 4 000 espectadores, parece-me suficiente para os espectáculos proporcionados. Frente a frente estavam duas equipas orientadas por treinadores para quem a crítica tem sido fértil em elogios. Uma que está tranquilamente a meio da tabela e sem objectivos visíveis; outra, jogando em casa e com a manutenção quase assegurada. Enfim, ambas com nada a perder e todas as condições para um jogo aberto, sem medo nem tacticismos. Em vez disso, vi duas equipas entregues a um jogo soporífero, renunciando ao risco e ao ataque, enquanto os seus treinadores desenhavam geniais esquemas tácticos no quadro de apontamentos. Uma vergonha de futebol, uma falta de respeito pelo jogo e pelo público.

Depois, queixem-se de que não há espectadores! O que não há é lugar para um campeonato de 16 equipas em que 12 delas apenas jogam sistematicamente para não perder.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

CAMPEÃO À VISTA: AZUL (01 MARÇO 2011)

1- Por três segundos apenas, o Benfica não se despediu definidamente do campeonato, contra o Marítimo. Os finais de jogo do Benfica são sempre demolidores e eu não entendo que os treinadores adversários não preparem as equipas para isso. Desistindo por completo, não só de tentar o contra-ataque, mas também de segurar a bola, após ter chegado à vantagem a 15 minutos do fim, o Marítimo escancarou a porta para sucessivas vagas de bolas despejadas para a área por alto: mal uma era sacudida, logo vinha a segunda vaga e assim sucessivamente até à reviravolla final. Outra coisa que não percebo é como é que não se marca o Fábio Coentrão homem-a-homem, todo o jogo e em todo o campo; deixado sozinho duas vezes, ele resolveu sozinho o jogo. É um jogador fabuloso, com uma alma e um talento incríveis, apenas com um pequeno senão que é o de ter aderido à moda das cotoveladas impunes que se está tornar também uma imagem de marca do futebol do Benfica. Com um juiz de linha com estofo para aguentar a pressão do Estádio da Luz, como disse o treinador do Marítimo, o Fábio Coentrão não teria ficado em campo para ganhar o jogo. Mas, enfim, as coisas são o que são. E não gosto descamotear o essencial: o Benfica mereceu ganhar pelo que atacou na segunda parte.

2- Jorge Jesus devia ter mais contenção, devia, de vez em quando, ver a gravação das figuras que faz em campo. Não se percebe porque razão vai sempre enfiar-se em confusões com os adversários no final dos jogos, tendo de ser os seus jogadores a acalmá-lo; não se percebe como é que numa semana reclama contra os árbitros que mostram cartões amarelos por simples faltas (a propósito do cartão a Maxi, contra o Sporting), e, na semana seguinte, põe-se aos saltos desvairados na lateral a reclamar um cartão para um jogador do Maritimo, após uma falta também banal; não se percebe como pode reclamar penalty num cruzamento que vai ao braço de um adversário que está de costas e nem vê a bola vir; não se percebe como é que, antes de ver as imagens do lance, fez tamanho charivari, incitando as bancadas ao tumulto, pela anulação do golo de Luisão, quase no final; e não se percebe como é que depois, já a frio, com a vitória garantida e as imagens certamente já vistas, consegue insistir em que o golo foi mal anulado, quando toda a gente, comentadores da Sport TV e milhões de espectadores, viram o descarado abalroamento de Cardozo ao guarda-redes do Marítimo, impedindo-o de chegar à bola.


3- Não obstante a vitória inarticulo mortis do Benfica, permitindo-lhe manter a tal distancia de «cinco pontos» para o FC Porto, de que fala Jorge Jesus, tenho uma má notícia para o treinador do Benfica: este sábado em Olhão, não sei se viu ou não, jogou o próximo campeão nacional.

Eu tinha avisado, quando Jesus andava a anunciar, eufórico, que ninguém jogava melhor que o Benfica, que o Porto ia fatalmente perder pontos e que se tratava apenas de recuperar cinco pontos, porque o jogo da Luz seriam favas contadas. Avisei que tivesse calma e que esperasse para ver o que sucederia quando o FC Porto pudesse voltar a dispor de dois dos seus mais influentes jogadores: Álvaro Pereira e Falcão. Pois bem, ei-los de volta, e em Olhão, num dos melhores jogos deste campeonato (muito por mérito também do Olhanense), viu-se a influencia que eles têm na equipa e a falta que lhe faziam.

Se, contra o Sevilha, o FC Porto passou ao lado de unia goleada, num jogo verdadeiramente atípico, em Olhão já vi de volta o FC Porto da primeira metade do campeonato, onde conquistou uma liderança cuja justiça só de má-fé pode ser contestada. Nestes dois meses de ausência de Alvaro e Falcão, o FC Porto foi afastado da Taça da Liga e praticamente afastado da Taça dc Portugal. Foi um preço caro, mas podia ter sido pior, porque nas duas competições mais importantes, campeonato e Liga Europa, nada se perdeu e tudo se consolidou. Hulk andou com a equipa ao colo e vai ser curioso ver como irá Villas Boas resolver o problema da sua ausência no próximo jogo, contra o Guimarães. Hulk foi o factor principal, mas também é justo salientar as grandes contribuições dadas para esse período de damage control de jogadores como Sapunaru, Otamendi, James e Belluschi. Em contrapartida, continuo (devo ser o único) a constatar, jogo após jogo, a inutilidade criativa de João Moutinho (que seria muito bem substituído por James, como um número 10), os calafrios causados por um Fernando sempre precipitado e trapalhão, e a impossibilidade de recuperar alguma utilidade a Ruben Micael ou ao Cristian Rodriguez ou de inventar alguma ao Mariano Gonzalez. O FC Porto caminha para um título disputadíssimo e justíssimo, porque o campeonato são 30 jornadas e não 26. De facto, como diz Pinto da Costa, toda a gente sobrevaloriza as vitórias do Benfica, mas poucos valorizam o fantástico campeonato que o FC Porto está a fazer — a par de uma carreira europeia notável, que só o imerecido desaire contra o Sevilha manchou ligeiramente. São 19 vitórias e 2 empates em 21 jogos; única equipa invencível do campeonato; única equipa com o pleno de pontos em casa; melhor ataque; melhor defesa; melhor marcador; 8 pontos de avanço sobre o segundo classificado e um eloquente 5-0 no jogo da «verdade desportiva» entre ambos. Vá lá que, seguindo as pisadas de Villas Boas, Jorge Jesus finalmente reconheceu isso mesmo, anteontem. Se o Benfica não for campeão este ano, é só porque o FC Porto fez um super-campeonato.


4- Nem todos, claro, pensam assim. Nem todos sabem perder. Rui Gomes da Silva, dirigente do Benfica, acha, obviamente (seria de esperar outra coisa?) que o Porto só vai à frente porque foi ajudado pelos árbitros, enquanto o Benfica foi prejudicado nas quatro primeiras jornadas, onde perdeu três jogos. Não foram os frangos de Roberto, nem algumas estranhas prestações de alguns jogadores, nem nada mais: só os árbitros. (Tivesse ganho no Dragão, em lugar de ser esmagado e humilhado, e estaria a dois pontos de diferença e não a oito. E é curioso que, desde que o Benfica começou a ganhar e voltou a jogar o que sabe desapareceram misteriosamente as más arbitragens de que se queixavam…).

Nas três paginas de pura propaganda sem contraditório que A BOLA lhe concedeu generosamente na edição deste domingo - e onde, por exemplo, o deixaram dissertar livremente sobre a «verdade desportiva», sem lhe perguntar onde esteve a verdade desportiva na contratação de Jardel ao Olhanense, nas vergonhosas circunstâncias em que foi consumada (e isto sem insistir em coisas como o «túnel da Luz», o jogo do Estoril desviado para o Algarve, etc), Rui Gomes da Silva repetiu ad nauseum a cassete benfiquista, desenterrada de cada vez que o Benfica não vai à frente do campeonato. Não sei se os dirigentes do Benfica e os seus apaniguados na comunicação social têm a noção dos danos que este tipo de discurso causa à imagem do seu clube, junto dos não-benfiquistas.

Dou o meu exemplo: eu gosto de ver o futebol do Benfica de Jorge Jesus, quando, como no ano passado ou este ano, eles jogam um futebol de ataque puro, de risco, de velocidade e imaginação: é o futebol de que eu gosto. Até gosto de vê-los ganhar com categoria ao Estugarda, embora saiba que esta equipa do Benfica de portuguesa quase só tem o nome e o Fabio Coentrão. Fui capaz de reconhecer também a justiça do título da época passada, muito embora jamais me possa esquecer da golpada do túnel, porque, esse sim, foi o maior atentado à «verdade desportiva» e ao desportivismo que já presenciei, e muito embora também não esqueça que acabaram metade dos jogos a jogar contra equipas em inferioridade numérica. Mas jogaram o melhor futebol, o mais espectacular, mereceram ganhar. Também disse que mereceram vencer o Marítimo, neste domingo, sem prejuízo de ter vsto as cotoveladas que o assistente não viu ou de ter contado três livres à entrada da área a favor do ataque do Benfica e inventados pelo árbitro (e sabe-se como as bolas paradas são a arma mais poderosa do Benfica, ao contrário do FC Porto, cujos livres e cantos são absolutamente inofensivos). Mas já se viu alguém do Benfica reconhecer algum mérito a um adversário que os vença?

Rui Gomes da Silva insiste na fábula desacreditada das «décadas» de favores de arbitragem ao FCP — como se Portugal, a Europa e o mundo não se tivessem habituado a ver e admirar o futebol do Porto! Isto é tão ofensivo como se eu me atrevesse a declarar que o Benfica de 62,63, o Benfica de Eusébio, só vencia porque era ajudado pelos árbitros. É preciso ter algum decoro!

Algum decoro para não cair nesta declaração elucidativa e extraordinária de Rui Gomes da Silva: «É preciso, repito, que se diga que o nosso adversário teve ajudas…», porque, de outro modo «isso seria reconhecer apenas mérito a quem vai a nossa frente». Está tudo dito, aqui. E está explicado porque razão o Benfica é hoje o clube mais detestado por todos os não-benfiquistas.

Sei que isso em nada os preocupa, mas é pena: é o património do grande Benfica de Eusébio e outros desbaratado por quem não sabe perder nem competir de igual para igual.

quinta-feira, novembro 17, 2011

TRÊS BANDEIRAS CONTRA A INVEJA, EM IPANEMA (22 FEVEREIRO 2011)

1- Vitória tranquila e justa do Benfica em Alvalade. Não há comparação alguma entre as duas equipas e o momento psicológico que atravessam e não era de esperar outro resultado.

Órfão de Ledson, o seu único jogador de categoria, o Sporting teve também teve a sorte do jogo contra si: Evaldo castigado, Maniche auto-castigado, Daniel Carriço impedido e o próprio treinador suspenso, na bancada. Depois, teve azar nas ocasiões em que bem podia ter empatado, entre o 0-1 e o decisivo 0- 2, e não teve sorte nas decisões da arbitragem. Mas o Benfica entrou para ganhar e chegou rapidamente ao 1-0, tirando partido da falta de ritmo de Grimi para acompanhar Salvio, num momento fatal, chegou ao 2-0, num duplo golpe de sorte; erro de avaliação do árbitro e autogolo de Polga.

Não há nada a dizer sobre a justiça da vitória do Benfica, alicerçada não num grande jogo, mas no aproveitamento de mais uma manifestação da impotência do Sporting. Mas, se eu fosse como alguns advogados benfiquistas, podia dizer o seguinte: que Artur Soares Dias, um árbitro do Porto com categoria e personalidade, cometeu — como todos os árbitros sempre cometem — erros importantes e sempre em favor do Benfica. Merece o benefício da dúvida num hipotético penalty de Coentrão sobre João Pereira, ainda com 0-0; anulou bem um bonito golo de Matias Fernandez e não pactuou com o tipo de jogo a roçar a violência que o Benfica exibiu entre os dois golos e que ja havia mostrado no Dragão e na final da Supertaça. Mas perdoou uma cotovelada intencional de Cardozo na cara de um adversário, que, no tempo de Deco e Quaresma no FC Porto, daria expulsão ou sumaríssimo, mas que no Benfica passam sempre impunes; perdoou outro vermelho directo a Jardel por uma autêntica agressão à cabeçada sobre Cristiano e, pior que tudo, transformou em livre à entrada da área e amarelo para Polga um corte limpíssimo, que teria merecido, sim, o amarelo a Gaitan por simulação: por ironia das coisas, do livre resultaria o golo que matou o jogo, com pontapé de Gaitan e desvio decisivo de Polga.

Resta um facto que dá que pensar: o Sporting utilizou 14 jogadores, dos quais 10 portugueses; o Benfica utilizou os mesmos 14 jogadores, dos quais 2 portugueses. E o duelo Benfica-Porto segue até final.


2- Como aqui escrevi na semana passada, não consegui ver, no Brasil, nem o Benfica-Guimarães nem o Braga-Porto e confiei nos relatos generalizados e coincidentes de diversas fontes publicadas para extrair a conclusão que os triunfos de benfiquistas e portistas tinham sido justos e incontestáveis. Afinal, precipitei-me: faltava-me a opinião, sempre isenta, de Sílvio Cervan. Por ele, e confiando na sua honestidade intelectual, que não se discute, fiquei a saber que, afinal, a vitória do Porto em Braga foi apenas «mais um jogo ganho por decisões incorrectas da arbitragem». Aliás, acrescenta ele que o mérito da liderança folgada do FC Porto neste campeonato tem de ser dividido «com um vasto plantel da arbitragem portuguesa» (ficará alguém, de fora, algum árbitro sério, aos olhos de um benfiquista sério?). E ainda fiquei a saber que André Villas Boas não passa de um «adjunto de Vítor Pereira» e que sente uma imensa «pena e tristeza» por não ter disputado a Champions e não treinar «um clube da dimensão do Benfica» (dimensão bem patente na sua recente e fulminante carreira na Champions, acrescento eu).

Também li, segundo relato de Rui Moreira, que outro ilustre benfiquista. Rui Gomes da Silva, preferiu atribuir a razão da liderança portista à falta de empenho dos adversários que enfrenta. O último em data, terá sido, presumo o SC Braga, em quem os benfiquistas depositavam tantas esperanças para atrasar o FC Porto. É, de facto, suspeito que se tenham deixado bater pelos portistas em sua própria casa. Já que o mesmo SC Braga se tenha deixado bater este domingo em casa pelo Paços de Ferreira (que já lá linha vencido também para a Taça da Liga), ou que o V, Guimarães se tenha deixado bater tão tranquilamente na Luz, isso, claro que não levanta suspeita alguma.

Já aqui o tenho reconhecido, este ano como no ano anterior, que o Benfica está a jogar bom futebol. Acho, pois, perfeitamente natural que ganhe, mesmo que haja decisões arbitrais que o beneficiem pontualmente: uma equipa que ataca quatro vezes mais do que os adversários, como sucede com o Porto e o Benfica, tem muito mais hipóteses de beneficiar, por exemplo, de golos obtidos em off-side não assinalado ou de penalties mal assinalados. Mas no inicio da época, todos vimos os erros próprios cometidos pelo Benfica, desde os frangos de Roberto aos enganos estratégicos de Jorge Jesus, passando pelo desinteresse de David Luiz e a baixa de forma ou de empenho dos mundialistas e não só. Como resultado disso, o Benfica perdeu nas quatro primeiras jornadas um acervo de pontos para o FC Porto (depois acrescentado com a tareia sofrida no Dragão), que constitui o atraso que hoje tenta desesperadamente recuperar. Mas, para os advogados benfiquistas, a explicação para o atraso é outra e apenas esta: a arbitragem. Que, por coincidência, só os prejudicou quando eles estavam a jogar mal. E agora, que estão de novo a jogar bem, os benfiquistas não aceitam e fingem não perceber como é que, de direito próprio, não vão à frente do campeonato — nem que, para tal, se tenha de apagar dos registos aquelas fatídicas quatro jornadas iniciais.

Já quanto às vitórias do FC Porto, o raciocínio de Rui Gomes da Silva e de Sílvio Cervan é cristalino: ou se devem a erros dos árbitros ou a falta de empenho dos adversários. Mérito próprio é que jamais.

Infelizmente para as verdades benfiquistas, existe um território onde a tão invocada «verdade desportiva» pode ser apreciada sem intermediários de outra espécie: chama-se Europa. E, nessa Europa da verdade desportiva, os factos mostram que o Benfica, depois de uma campanha na Champions que envergonhou o País e não apenas as suas cores, depois de ter conseguido a proeza de perder por 0-3 contra os campeões de Israel e ter estado a dois minutos de até perder para eles o terceiro lugar do grupo, estreou-se na Liga Europa jogando em casa contra o penúltimo do campeonato alemão e o mais que conseguiu foi um tangencial e sofrido 2-1. Já o FC Porto, desfalcado dos árbitros amigos e da amizade colaborante dos adversários, e também e ainda (!) desfalcado de Alvaro Pereira e Falcão, foi a Sevilha ganhar 2-1 e situar o seu registo desta temporada europeia num impressionante conjunto de oito vitórias e um empate em nove jogos disputados. Este é o argumento para o qual, de há vinte e cinco anos para cá, os benfiquistas não conseguem encontrar uma resposta que evite o ridículo em que esbracejam, tentando manter-se à tona.


3- A praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, é um paraíso para os amantes de futebol. Assim que o céu desce no horizonte, acendem-se as luzes da praia e começam sucessivos jogos de futebol de areia e futvólei, balizas contra balizas, redes contra redes, ao longo de seis quilómetros de praia, desde o Arpoador ao Leblon. Nessa altura do dia, já fecharam as barraquinhas de comes e bebes e aluguer de cadeiras e guarda-sóis, separadas umas das outras por uns 50 metros e cada uma delas hasteando ao alto a bandeira do clube do coração do seu dono. Como seria de esperar, abundam as bandeiras dos clubes do Rio - Fla, Flu, Bota, Vasco — mas também do Corinthians ou do Grémio de Porto Alegre. E o mais curioso é que só há um clube estrangeiro representado em toda a praia. E querem acreditar que é um clube português? Quem será - o Sporting? Não, eles só descobriram agora que o Sporting existe e graças à ida do Liedson para o Timão (o Corinthians, de S. Paulo). É o Benfica, claro, o clube dos seis milhões em Portugal e mais doze no mundo inteiro? Não, também não é o Benfica.

Meus caros amigos: tenho a declarar que, neste Verão de 2011, a única bandeira de um clube não brasileiro hasteada na praia de Ipanema, na cidade maravilhosa de S. Sebastião do Rio de Janeiro, é do grande FC Porto, que Deus o tenha assim por muitos e bons anos! E mais, acreditem ou não: não é uma bandeira do FCP, voando ao vento de Ipanema: são três! Três bandeiras em três diferentes barraquinhas de praia! Ora, tomem lá, seus invejosos!

Impõe-se uma urgente visita de uma embaixada benfiquista eloquente, comandada por Luís Filipe Viera e integrando o Cervan, e o Gomes da Silva, o APV, o RAP, o Barbas e a Carolina Salgado para abrir lá, se não existe, uma Casa do Benfica, ou, melhor ainda, para comprar uma barraquinha de praia com direito a bandeira hasteada. Afinal, para que serve o recorde do Guiness Book?

terça-feira, novembro 08, 2011

VISTO DE FORA (15 FEVEREIRO 2011)

1- A Sport TV, que já chegou ao Brasil, transmitindo os jogos do campeonato português, infelizmente não se encontra em nenhum lugar público, como hotéis, bares, restaurantes. E assim, como me acontece já há longos anos, de cada vez que estou no Brasil perco sempre um ou dois ou mais jogos do meu FC Porto. Este fim-de-semana, tive de perder o Braga-Porto, que acompanhei à distância, entre o nervoso e a esperança, através de sms primeiro, e depois através dos sites de relato escrito minuto a minuto. Nestes, o que mais me custa, aquilo que se torna repugnante mesmo, é acompanhar também os comentários dos frequentadores do site que vão sendo feitos em simultâneo. O menos de tudo ainda acaba por ser o facciosismo doentio de todas as clubites, sem excepção, revelando gente que não é capaz de ver e apreciar um jogo de futebol por si mesmo. O pior porém, é a linguagem desbragada de ódio, de insulto, de miséria moral que ali se encontra. Eu sei que não é multo diferente dos comentadores dos sites de política, de sociedade, do que quer que seja.

Vive na net a coberto do anonimato, uma mu1tidão do seres doentios, cobardes, transtornados pela raiva e que, a salvo de qualquer consequência, dão largas aos seus instintos de autênticos animais. Qualquer tentativa de os identificar, para efeitos processuais, junto dos servidores americanos, encontra fatalmente a oposição das autoridades judiciais dos Estados Unidos, invocando a hipócrita razão da liberdade de pensamento. Como se a liberdade se confundisse com o direito ao insulto e à calúnia, sem riscos nem consequências! Enfim, adiante.

Pelo que vi e li, posteriormente, não ficaram dúvidas algumas sobre a justiça dos triunfos do Benfica e FC Porto. O Benfica ganhou por três, mas ainda atirou duas bolas à barra e falhou um penalty. Dizia um conformado Manuel Machado, no final, que «tentámos dar a posse de bola ao Benfica, mas eles marcaram». Bem, tentar, e conseguir, dar a posse de bola ao adversário não custa muito e normalmente acaba com ele a marcar e a ganhar. Se era essa a táctica para evitar a derrota...

Quanto ao FC Porto, dizia o site do Record, aos 74 minutos, que já havia feito dez remates à baliza contra nenhum do SC Braga. Mas, logo no minuto seguinte, escrevia que o Helton tinha acabado de fazer uma fantástica defesa - a primeira que teve de fazer nos últimos três jogos do campeonato. E, pelo relato do jogo, também deu para perceber que o resultado de 2-0 só pecou por escasso. Semi-desmantelado no mercado de Janeiro, o SC Braga também já deixou de ser um obstáculo à caminhada a dois que é este campeonato: Benfica e Porto estão muito longe de todos os outros.

Na véspera, Jorge Jesus tinha vindo repetir a sua afirmação de que ninguém joga melhor do que o Benfica, actualmente. Eu concordo, claro — é o que está vista. Mas, se quisesse ser justo, Jesus teria dito que este FC Porto, que há mais de um mês e nove jogos está desfalcado de Álvaro Pereira e Falcao, só poderia ser comparado, no momento actual, a um Benfica desfalcado de Fábio Coentrão, Saviola e Cardozo. Aí, sim, poder-se-ia comparar. Porque, quando ambas as equipas estavam completas, sabe-se o que foi…

Jesus está a ficar nervoso porque o FC Porto abana mas no cai e os 8/11 pontos de avanço já começam a parecer demasiados à medida que caminhamos para o final: mais duas ou três vitórias consecutivas e ponto final. Com declarações daquelas ou semelhantes, Jorge pretende duas coisas: uma, pôr pressão na equipa do FC Porto, a atravessar um período difícil marcado por sucessivas lesões e agora com mais a frente europeia. Outra, a de ir preparando os adeptos do Benfica para o segundo lugar no campeonato. «Não ganhámos, mas fomos a melhor equipa» - é o que ele provavelmente dirá daqui a dois meses, recuperando a estratégia em que o Benfica sempre foi bom nos últimos anos: justificar a objectividade das derrotas com a subjectividade das opiniões. Pois que se console com isso: a oportunidade de Braga, em que os benfiquistas depositavam tantas esperanças, já a perdeu.


2- A não ser por razões absolutamente excepcionais, percebe-se mal que os dirigentes do futebol retirem o protagonismo aos jogadores, aos treinadores, ao próprio jogo. E que um presidente de clube possa fazer toda uma gigantesca manchete de primeira página, como fez o presidente do Marítimo, Carlos Pereira, na edição de sábado deste jornal.

Em pose e atitude de ‘agarrem-me que eu não tenho medo de ninguém!’, Carlos Pereira aproveitou mal os seus dez minutos de fama. A dita «coragem» ficou-se por insinuações não concretizadas, bois sem nomes e bravatas sem interesse nem sentido. Em contrapartida, mostrou saber bem a que devia a honra da primeira página de A BOLA e colocou-se à altura do encargo: dizer mal do FC Porto — coisa que sempre garante audiência na imprensa desportiva de Lisboa, Imagine-se que ele queria antes dizer mal do Benfica ou do seu presidente: acredita que lhe dessem toda essa atenção?

Tudo isto, claro, a propósito do interminável folhetim Kléber. Ora, eu percebo que o presidente do Marítimo tenha, como direito e obrigação, defender o que entende serem os interesses do clube a que preside. Também percebo que, tendo-se criado um imbróglio jurídico a propósito da situação contratual de Kléber, ele tenha feito valer as suas razões, enquanto o assunto não se esclarece na FIFA. No impede que ele está como alguém a quem um amigo empresta por dois anos uma casa de que não precisa e, quando ao fim de um ano, o amigo lhe vem pedir a devolução da casa, porque tem uma excelente proposta para a vender, responde: «Não quero saber disso, foi-me emprestada por dois anos e só a largo aí.» Pode ter toda a razão jurídica e até contratual, mas não é propriamente uma atitude de louvar. Acontece até que, no caso, entrava em jogo o interesse e a vontade de uma terceira pessoa, por acaso a mais importante: o próprio jogador. Kléber, o Atlético de Minas Gerais, proprietário do seu passe, e o FC Porto, todos estavam interessados e de acordo com o seu ingresso nos azuis-e-brancos. O Marítimo boicotou e atrasou tudo isso um ano. Como disse, está no seu direito, mas é provável que, daqui para a frente, qualquer outro clube pense duas vezes antes de emprestar um jogador ao Marítimo.

Mas as coisas tornaram-se ainda mais claras, quando Carlos Pereira não resistiu a abusar da sua posição e tentou agora, à papo-seco, uma manobra para desviar o jogador para o Sporting, mostrando assim que, mais do que conservar Kléber enquanto pudesse, o que passou a interessar foi impedir que ele fosse para o FC Porto. Quando agora vem dizer que a proposta do FC Porto ao Atlético Mineiro não era superior à do Sporting, está a ser ridículo, metendo-se naquilo a que não é chamado: por acaso é ele dono do passe do jogador? O que tem a ver com o negócio entre Atlético e o FC Porto? Há dias, ouvi na rádio o sportinguista Alfredo Barroso dizer que, mais uma vez, o FC Porto tinha boicotado um negócio ao Sporting. Achei extraordinário: então não foi o Sporting que tentou boicotar o negócio ao FC Porto? Não sabiam que ele estava desde Junho a tentar comprar o Kléber?

Isto merecia um castigo e claro que Pinto da Costa não perdoou: na próxima época, além de perder Kléber, Carlos Pereira vai perder também o Djalma. Terá de ir pedir ajuda ao Benfica.

O mais irónico de isto tudo é que, apesar da sua pose de homem livre, independente e sem medo de ninguém, Carlos Pereira dirige o clube menos livre e independente de Portugal e vive no permanente terror dos achaques do Dr. Jardim, que é o verdadeiro dono do Marítimo.

Sem o Dr. Jardim a decidir quanto do dinheiro dos nossos impostos é que vai para sustentar o Marítimo, o Marítimo (clube histórico do futebol português, que respeito) não existiria na primeira divisão. Tanto o Marítimo, como o Nacional, mas mais aquele, são dois casos de autentica concorrência desleal. Agravado pelo facto de o Marítimo, na composição das suas equipas, ser o menos português de todos os clubes portugueses, É fácil dirigir um clube nestas condições. Veja-se o fantástico exemplo do novo Estádio dos Barreiros, que Carlos Pereira tão bem explica nesta entrevista. O luxo vai custar 39 milhões de euros, das quais o Governo Regional avaliza 31 milhões. Ou seja, vai pagar 31 mi1hões, porque é evidente que o Marítimo, por si, nunca os pagará. A obra está, alias, interrompida porque, segundo se percebe, o Marítimo não consegue que os bancos lhe emprestem dinheiro para os 8 milhões que lhe cabem — tamanha é a independência do clube. Mas, sem se desmanchar a rir, Carlos Pereira diz que fez contas e que, calculando o «tempo de vida útil do estádio», o Fisco ainda acabará a arrecadar 79 milhões, em troca dos 31 ou 39 que os contribuintes (do continente, claro) agora lá vão ter de enfiar, a fundo perdido. Fantástico raciocínio: olha se todas as empresas portuguesas propusessem semelhantes negócios ao Estado!

Carlos Pereira perdeu uma excelente oportunidade para estar calado e não mostrar exuberância o que é um dirigente desportivo português no seu melhor.

quarta-feira, novembro 02, 2011

UM DRAMA SÉRIO, OUTRO MENOR (08 FEVEREIRO 2011)

1- O drama sério é do Sporting. Estará o Sporting em vias de extinção ou de definitiva subalternização? Eu acho que sim e já aqui o escrevi: por razões objectivas, de ordem sociológica, desportiva, financeira. O mundo pula e avança e o Sporting ficou para trás, enquanto o mundo fugia à sua frente. Duvido que o atraso seja já recuperável.

Sexta-feira passada, na minha qualidade de adepto de futebol, quis assistir ao último jogo de Liedson com a camisola do Sporting, por respeito ao grande jogador que ele foi no campeonato português. E, tal como me comovi com o último jogo de Rui Costa pelo Benfica, também me comovi agora com a dramática despedida de Liedson de Alvalade. Uma despedida que mais parecia a despedida do próprio Sporting de qualquer ilusão que ainda pudesse alimentar sobre o seu regresso a curto ou médio prazo aos tempos idos de glória. Sejamos francos: mesmo aos 33 anos de idade, Liedson era o único bom jogador que restava ao Sporting. O resto é tudo banal e não há treinador algum que possa dar a volta a essa incon-tornável evidência: não fosse a capacidade de Liedson de pela última vez resolver, e o Sporting ter-se-ia despedido dele com uma derrota caseira frente à Naval, o último do campeonato. E uma derrota que teria sido mais do que justa, face ao futebol mostrado por ambas as equipas.

Mas o drama vai muito para além disso: passa pelo horrendo novo Estádio José Alvalade, onde o clube acabou por se arruinar, por um relvado que nem sequer consegue ser ele verde e que até já se congemina tornar artificial (!), continua pela insustentável situação financeira de curto prazo, que obriga a vender Liedson para pagar salários aos outros e dívidas ao próprio, e acaba com o lastimável folhetim dos candidatos ao lugar maldito de presidente do clube.

Todos os dias aparecem novos candidatos ou putativos candidatos ao cargo de presidente do Sporting, alguns dos quais, manifestamente, apenas para viverem os seus trinta minutos de fama, projectando-se à conta do nome do clube. Há dias, por exemplo, vi a entrevista à TVI desse tal candidato-empresário de quem tanto se fala, com ligações a Angola e milhões para investir. Fiquei impressionado: o candidato, pose e prosápia à parte, nem sequer conseguiu exprimir uma ideia que se entendesse, e em português fluente. Nem ao menos conseguiu explicar o que era o tal fundo — quanto seria, quem investiria nele, como é que se propunha gastar o suposto dinheiro do fundo a comprar jogadores sem pagar as dívidas à banca e continuar a ter crédito. O projecto (palavra mágica que todos usam), era apenas uma amálgama de lugares comuns, disparates sem sentido e grandezas imaginadas, tais como «os milhões de sportinguistas que agora nos escutam» ou «as centenas de milhar de sócios do Sporting». De fora, estas coisas vêm-se melhor e eu também vi assim Vale e Azevedo tomar conta do Benfica, perante o entusiasmo dos sócios e o delírio incontinente dos jornalistas benfiquistas.

Temo que o desespero acabe por ditar o, suicídio por parte dos sócios do Sporting. E, embora sabendo que irão interpretar isto que escrevo de má-fé, ou atribuindo-me a mim má-fé, digo, para que conste, que tenho pena que isso suceda. Faz falta uma terceira parte na guerra pela hegemonia do futebol português.

2- O drama menor é o do actual FC Porto. Escrevi aqui há quinze dias: «O desfecho próximo e feliz desta equipa do FC Porto está nas mãos do departamento médico: quanto mais tempo demorarem a devolver Falcão e Álvaro Pereira, maiores são as hipóteses de o FC Porto não passar incólume pelo conturbado mês de Fevereiro. Ao menos a tempo do joguinho do dia 2...»

De facto, o que mais ou menos tem safado o FC Porto, é que, durante as longas ausências de Álvaro Pereira e Falcão, nos arrastados meses de Dezembro e Janeiro, apanhámos um calendário excepcionalmente favorável, com três quartos dos jogos disputados em casa e três quartos deles contra equipas fáceis. Isso, mais o génio à solta de Hulk, serviu para disfarçar tanto quanto foi possível os erros de contratações da pré-época: não se preencheu o imenso lugar vazio de Bruno Alves no centro da defesa; sem Álvaro Pereira, não há quem faça o corredor esquerdo; falta um verdadeiro médio de ataque ao lado do Belluschi, que não seja o inócuo João Moutinho ou o triste e deprimido Rúben Micael; não há quem nos livre dos constantes sobressaltos e baldas de Fernando; e não há, claro, nem sombra de alternativa a Falcão (e pensar que pagaram seis milhões por 75% do passe de Walter, enquanto Liedson foi vendido por dois milhões e Matheus por milhão e meio!).

Mas, chegados ao tal joguinho do dia 2, o primeiro a doer, o departamento médico do FC Porto não conseguiu recuperar nem Álvaro Pereira, nem Falcão e ainda deu baixa ao único central de jeito que por lá anda — Otamendi. E foi o que se viu: em 25 minutos, o eixo do mal — Helton, Rolando, Maicon e Fernando — tinha entregue a eliminatória da Taça ao Benfica. Os quatro têm em comum várias coisas: serem o eixo frontal da defesa, aquele que não pode falhar; serem todos altos, mas lentos e simultaneamente precipitados, sem pensar antes de executar; terem todos imensas dificuldades em fazer passes de meia-distância e em sair com a bola jogável da defesa. Escreveu-se que Jesus deu um banho de táctica a Villas Boas, com a estratégia da «pressão alta». Bom, não digo que não, mas, alta ou baixa, basta pôr pressão naquele quarteto e algum ou alguns deles hão-de falhar. Para azar nosso, naquela noite falharam todos ao mesmo tempo. Acontece que, tirando o jogo com o Benfica, há três ou quatro jogos, há um mês, que Helton não tem de fazer uma única defesa, porque os adversários, pura e simplesmente, não rematam à nossa baliza. O Benfica rematou três vezes e marcou dois golos. Não foi o Benfica que ganhou o jogo, foi o Porto que o entregou. A tal «pressão alta» só existiu até ao 0-2: a partir daí, o Benfica só defendeu — defendeu bem e em pressão baixíssima, mas nada mais. E Villas Boas ainda deu uma ajuda, com três substituições a despropósito e a destempo. É verdade que o banco é uma tristeza, mas tirar James para pôr Rodriguez e tirar Belluschi para pôr Guarín foi entregar o resto do ouro ao bandido. Extraordinária a sua declaração, quando o questionaram sobre a ausência de um ponta-de-lança no banco- podia ter dito, e todos o percebiam, que, entre Walter e ninguém, tinha preferido ninguém, apostando em como não iria precisar de um ponta-de-lança. Mas, em vez disso, saiu-se com a inimaginável explicação de que Guarín, Rúben Micael, Rodriguez e Mariano (!) lhe davam «garantias de profundidade ofensiva». Viu-se: nem uma oportunidade de golo em toda a segunda parte!

A seguir, ainda houve que suportar o penoso jogo contra o Rio Ave, onde Hulk se apagou (também tem direito a um dia de folga!), e o Porto se reduziu à condição de equipa banalíssima. «Sobrecarga de jogos», explicou André Villas Boas. Como? Contra o Gil Vicente, o Beira-Mar, o Nacional, o Tou-rizense ou o Rio Ave («uma excelente equipa», como sentenciou Varela) — tudo no Dragão? Bem, a seguir vem o Braga, fora, e o Sevilha. Felizmente, não vou estar cá para ver, vou apenas sofrer à distância, de muito longe. E angustiado por saber que temos apenas três grandes jogadores — Hulk, Álvaro e Falcão — e outros três bons, mas intermitentes — Belluschi, James e Varela. E que, quem de três tira dois, fica absolutamente exposto, que é o que nós estamos agora. Oxalá esta curta manta consiga ainda ir encobrindo os pés e tapando a cabeça!

3- Vendido por 25 milhões (35 é cosmética para jornalistas amigos), David Luiz foi muito bem vendido. Muito embora longe dos 50 milhões que Luís Filipe Vieira se gabava de ter como oferta há um ano, a verdade é que, em minha opinião, David Luiz não vale 25 milhões: Bruno Alves é bem melhor do que ele e foi vendido por menos. E as suas abundantes cotoveladas na cara dos adversários não gozarão em Inglaterra da mesma impunidade que aqui sempre foi lei.