1- Eu avisei aqui, na semana passada: este campeonato ia ser do Porto. Não porque duvidasse do valor do Benfica ou da sua extraordinária capacidade de produzir energias quando já ninguém as tem e de, no último suspiro dos jogos, ir buscar a salvação. Mas porque há muitos anos sigo intimamente o FC Porto, conheço-o como se fossemos casados há décadas e, por mais que mudem os jogadores ou os treinadores, há ali um fio condutor, que é uma cultura de vitória e de conquista que se repete ao longo dos tempos e que se aprende a conhecer. E, em Olhão, no outro sábado, houve uma altura chave do jogo onde reconheci essa marca do Porto-campeão.
Mas ainda nem quinze minutos tinham passado sobre a derrota do Benfica em Braga e já o meu telemóvel estava inundado de mensagens de dois jornalistas benfiquistas: «jogo encomendado», «campeonato marcado desde o início», a «fruta», o «sistema», etc. e o costume. Nenhum mérito nosso, nem pensar; como todos vêem, nem o Fucile, o Álvaro Pereira, o Otamendi, o Belluschi, o James, o Falcão, o Hulk ou o Varela fazem uma boa equipa. As 20 vitórias e dois empates em 22 jogos foi tudo obra do «sistema»; os dois golos apenas sofridos fora de casa são «fruta»; os 5-0 do Dragão foi «encomenda» da arbitragem. Nem jamais o homem pousou pé na Lua nem a Terra gira à volta do Sol. Ser benfiquista é uma religião diferente.
2- Nada menos do que quatro árbitros internacionais recusaram apitar o Benfica em Braga. Eu percebo-os: para que correr o risco de uma decisão que, bem ou mal, possa ser tomada como prejudicial ao Benfica e logo ser acusado de todas as desonestidades e malfeitorias do mundo? Eis o que dá a cruzada do Benfica pelo que dizem ser a lula pela «verdade desportiva»: não há quem os queira arbitrar fora da Luz.
Vejam o Carlos Xistra, o único dos contactados que lá aceitou expor-se ao incêndio: logo levou com a insidiosa declaração de Jorge Jesus de que, no seu tempo de treinador em Braga, Xistra era por lá muito bem visto. Pode-se sempre responder que é pena que Jesus não tenho dito isso quando era treinador do Braga - então, ficar-lhe-ia bem; dito agora pareceu quilo que era: uma prévia tentativa de condicionar o árbítro. Mind games? Mind games uma ova: jogo por fora é o que é. Como vir dizer, antes do jogo, que o Braga não tinha razões para ter uma grande motivação, mas já esperava que fizessem deste o jogo do ano; e, depois do jogo, vir-se queixar da «motivação anímica» do Braga. Ou seja, e traduzindo: se eles se esforçam muito contra nós é porque estão pagos pelo Porto para isso. Eis a verdade desportiva: quem não facilitar contra o Benfica é suspeito.
3- A esta hora, Carlos Xistra deve estar mais do que arrependido — se o Benfica não vai ser campeão, a culpa é dele. Não do Benfica - que, sem ter sequer feito um ataque, viu-se a ganhar aos 25 minutos (de livre, claro), e nunca mais, em todo o jogo, teve uma ténue oportunidade de golo que fosse. Também não é mérito do Braga, obviamente — que, onze contra onze ou contra dez, assumiu todas as despesas do jogo e ainda perdeu três golos feitos. Não, o resultado é apenas obra de Xistra. Por exemplo, o golo do empate do Braga: a culpa não é do Roberto, que se deixou sobrevoar por uma bola chutada da lateral a trinta metros de distância. A culpa foi do árbitro, que assinalou mal o livre.
O que fez Xistra, então? Viu um duvidoso livre à entrada da área contra o Braga, de que resultou o golo do Benfica. Premiou uma grosseira simulação de Coentrão com um livre e cartão amarelo contra o Braga. E expulsou mal o Javi Garcia (embora escrevendo direito por linhas tortas, já que compensou todas as cotoveladas e pontapés nos adversários que ele vinha exibindo, sempre impunemente), assinalando mal o tal livre que deu o empate. Dizem também os meus amigos benfiquistas que anulou indevidamente o que teria sido o segundo golo do Benfica, mas o meu televisor, talvez por estar longe de Braga, não me mostrou nenhum golo anulado, mal ou bem, do Braga ou do Benfica.
Xistra é um pretexto, caído do céu. Sempre que o Benfica não ganha, o árbitro transforma-se no personagem central; quando o Benfica ganha, ninguém se lembra dele. A verdade é que o Benfica não fez nada para merecer sair de Braga com outro resultado, jogando com dez ou com onze. E eu já vi, tanto o Benfica como o Porto, ganhar jogos em inferioridade numérica metade do jogo (o Porto contra o Benfica no Dragão, no ano passado, por exemplo). E também não vi ninguém do Benfica tirar mérito ao seu próprio título de campeão em 2010, pelo facto de terem acabado inúmeros jogos em superioridade numérica sobre os adversários. Diz Jorge Jesus que, sem a expulsão de Javi Garcia, o Benfica marcaria a qualquer momento. Visto de fora, não parecia nada, mas, se ele o diz, deve ser verdade. Façamos então o seguinte: estes três pontos não contam e, no final, veremos se o Benfica consegue acabar o campeonato a menos de oito do FC Porto.
4- Há um FC Porto com Hulk e outro sem Hulk. Sem, Hulk, o FC Porto vegetou durante dois terços do jogo, até dar com o caminho da vitória frente ao Guimarães. Não que o Guimarães tenha feito o que quer que fosse para manter o desfecho do jogo suspenso: não criou uma só oportunidade de golo, não obrigou Helton a uma defesa apertada e em toda a segunda parte não fez um remate à baliza. Devemos tomar a declaração de Manuel Machado de que o resultado final foi injusto apenas como uma tentativa de branquear a demissão da sua equipa: o FC Porto fez dois golos e criou, apesar de tudo, oportunidades para mais outros dois; o Guimarães só por milagre chegaria ao golo. O resultado só é injusto na perspectiva de um futebol de pequeninos, que toma o nosso campeonato tão desinteressante. Eis a verdade: o Guimarães não joga nada nem tem razão para aspirar a coisa alguma. Aliás, fora do duelo particular Porto - Benfica, não há uma só equipa que se aproveite no campeonato português. Bazófia muita, futebol nenhum.
A ausência de Hulk, pese ao politicamente correcto a que André Vilas Boas, por inerência de função, deve tributo, só veio confirmar o que já sabíamos: sem ele, o Porto perde metade da alma — não do profissionalismo. Sem Hulk, vê-se melhor e sem disfarce o terror que o Fernando tem em aproximar-se da área adversária e a incrível capacidade que o João Moutinho tem de passar um jogo inteiro e jogos a fio a circular de um lado para o outro, a fazer não se percebe o quê, como se o futebol não fosse um jogo evidente por si e, no caso de um FC Porto, enfrentando quase sempre equipas que só querem defender, não tivesse como objectivo único construir caminhos para chegar ao golo. Moutinho não marca golos, não sabe rematar à baliza, não sabe fazer passes de ruptura nem assistências mortais, não desequilibra, não inventa, não rompe nem rasga: está, como escreveu um dos muitos críticos seus fãs, ocupado «a pensar o jogo ». O que vale é que, enquanto ele pensava o jogo, fazendo passes sem risco para trás e para os lados, o miúdo James Rodriguez, que gosta muito mais de jogar futebol do que ele, pensou para a frente e fez um passe carregado de lucidez e veneno para o Falcão abrir finalmente o caminho para a vitória. Mas felizmente que Hulk regressa já para a semana. Com ele em jogo, o campeonato não nos escapa.
5- Sexta-feira à noite, a meio de uma viagem de carro, paro para jantar num restaurante de província e sento-me numa mesa em frente a um televisor transmitindo o Académica-União de Leiria. Estádio magnífico, novo, feito para o Euro-2004, com capacidade para 30 000 pessoas, conforme o caderno de encargos do Euro. Estão 3 066 espectadores a assistir ao jogo, parecendo querer dar razão ao presidente da Académica, quando ele surgiu com a indecorosa afirmação de que aquele estádio não lhe servia e queria outro novo. Eu também acho: um campo de relva sintética numa escola pública, com lugar para 4 000 espectadores, parece-me suficiente para os espectáculos proporcionados. Frente a frente estavam duas equipas orientadas por treinadores para quem a crítica tem sido fértil em elogios. Uma que está tranquilamente a meio da tabela e sem objectivos visíveis; outra, jogando em casa e com a manutenção quase assegurada. Enfim, ambas com nada a perder e todas as condições para um jogo aberto, sem medo nem tacticismos. Em vez disso, vi duas equipas entregues a um jogo soporífero, renunciando ao risco e ao ataque, enquanto os seus treinadores desenhavam geniais esquemas tácticos no quadro de apontamentos. Uma vergonha de futebol, uma falta de respeito pelo jogo e pelo público.
Depois, queixem-se de que não há espectadores! O que não há é lugar para um campeonato de 16 equipas em que 12 delas apenas jogam sistematicamente para não perder.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
segunda-feira, janeiro 09, 2012
quinta-feira, dezembro 15, 2011
CAMPEÃO À VISTA: AZUL (01 MARÇO 2011)
1- Por três segundos apenas, o Benfica não se despediu definidamente do campeonato, contra o Marítimo. Os finais de jogo do Benfica são sempre demolidores e eu não entendo que os treinadores adversários não preparem as equipas para isso. Desistindo por completo, não só de tentar o contra-ataque, mas também de segurar a bola, após ter chegado à vantagem a 15 minutos do fim, o Marítimo escancarou a porta para sucessivas vagas de bolas despejadas para a área por alto: mal uma era sacudida, logo vinha a segunda vaga e assim sucessivamente até à reviravolla final. Outra coisa que não percebo é como é que não se marca o Fábio Coentrão homem-a-homem, todo o jogo e em todo o campo; deixado sozinho duas vezes, ele resolveu sozinho o jogo. É um jogador fabuloso, com uma alma e um talento incríveis, apenas com um pequeno senão que é o de ter aderido à moda das cotoveladas impunes que se está tornar também uma imagem de marca do futebol do Benfica. Com um juiz de linha com estofo para aguentar a pressão do Estádio da Luz, como disse o treinador do Marítimo, o Fábio Coentrão não teria ficado em campo para ganhar o jogo. Mas, enfim, as coisas são o que são. E não gosto descamotear o essencial: o Benfica mereceu ganhar pelo que atacou na segunda parte.
2- Jorge Jesus devia ter mais contenção, devia, de vez em quando, ver a gravação das figuras que faz em campo. Não se percebe porque razão vai sempre enfiar-se em confusões com os adversários no final dos jogos, tendo de ser os seus jogadores a acalmá-lo; não se percebe como é que numa semana reclama contra os árbitros que mostram cartões amarelos por simples faltas (a propósito do cartão a Maxi, contra o Sporting), e, na semana seguinte, põe-se aos saltos desvairados na lateral a reclamar um cartão para um jogador do Maritimo, após uma falta também banal; não se percebe como pode reclamar penalty num cruzamento que vai ao braço de um adversário que está de costas e nem vê a bola vir; não se percebe como é que, antes de ver as imagens do lance, fez tamanho charivari, incitando as bancadas ao tumulto, pela anulação do golo de Luisão, quase no final; e não se percebe como é que depois, já a frio, com a vitória garantida e as imagens certamente já vistas, consegue insistir em que o golo foi mal anulado, quando toda a gente, comentadores da Sport TV e milhões de espectadores, viram o descarado abalroamento de Cardozo ao guarda-redes do Marítimo, impedindo-o de chegar à bola.
3- Não obstante a vitória inarticulo mortis do Benfica, permitindo-lhe manter a tal distancia de «cinco pontos» para o FC Porto, de que fala Jorge Jesus, tenho uma má notícia para o treinador do Benfica: este sábado em Olhão, não sei se viu ou não, jogou o próximo campeão nacional.
Eu tinha avisado, quando Jesus andava a anunciar, eufórico, que ninguém jogava melhor que o Benfica, que o Porto ia fatalmente perder pontos e que se tratava apenas de recuperar cinco pontos, porque o jogo da Luz seriam favas contadas. Avisei que tivesse calma e que esperasse para ver o que sucederia quando o FC Porto pudesse voltar a dispor de dois dos seus mais influentes jogadores: Álvaro Pereira e Falcão. Pois bem, ei-los de volta, e em Olhão, num dos melhores jogos deste campeonato (muito por mérito também do Olhanense), viu-se a influencia que eles têm na equipa e a falta que lhe faziam.
Se, contra o Sevilha, o FC Porto passou ao lado de unia goleada, num jogo verdadeiramente atípico, em Olhão já vi de volta o FC Porto da primeira metade do campeonato, onde conquistou uma liderança cuja justiça só de má-fé pode ser contestada. Nestes dois meses de ausência de Alvaro e Falcão, o FC Porto foi afastado da Taça da Liga e praticamente afastado da Taça dc Portugal. Foi um preço caro, mas podia ter sido pior, porque nas duas competições mais importantes, campeonato e Liga Europa, nada se perdeu e tudo se consolidou. Hulk andou com a equipa ao colo e vai ser curioso ver como irá Villas Boas resolver o problema da sua ausência no próximo jogo, contra o Guimarães. Hulk foi o factor principal, mas também é justo salientar as grandes contribuições dadas para esse período de damage control de jogadores como Sapunaru, Otamendi, James e Belluschi. Em contrapartida, continuo (devo ser o único) a constatar, jogo após jogo, a inutilidade criativa de João Moutinho (que seria muito bem substituído por James, como um número 10), os calafrios causados por um Fernando sempre precipitado e trapalhão, e a impossibilidade de recuperar alguma utilidade a Ruben Micael ou ao Cristian Rodriguez ou de inventar alguma ao Mariano Gonzalez. O FC Porto caminha para um título disputadíssimo e justíssimo, porque o campeonato são 30 jornadas e não 26. De facto, como diz Pinto da Costa, toda a gente sobrevaloriza as vitórias do Benfica, mas poucos valorizam o fantástico campeonato que o FC Porto está a fazer — a par de uma carreira europeia notável, que só o imerecido desaire contra o Sevilha manchou ligeiramente. São 19 vitórias e 2 empates em 21 jogos; única equipa invencível do campeonato; única equipa com o pleno de pontos em casa; melhor ataque; melhor defesa; melhor marcador; 8 pontos de avanço sobre o segundo classificado e um eloquente 5-0 no jogo da «verdade desportiva» entre ambos. Vá lá que, seguindo as pisadas de Villas Boas, Jorge Jesus finalmente reconheceu isso mesmo, anteontem. Se o Benfica não for campeão este ano, é só porque o FC Porto fez um super-campeonato.
4- Nem todos, claro, pensam assim. Nem todos sabem perder. Rui Gomes da Silva, dirigente do Benfica, acha, obviamente (seria de esperar outra coisa?) que o Porto só vai à frente porque foi ajudado pelos árbitros, enquanto o Benfica foi prejudicado nas quatro primeiras jornadas, onde perdeu três jogos. Não foram os frangos de Roberto, nem algumas estranhas prestações de alguns jogadores, nem nada mais: só os árbitros. (Tivesse ganho no Dragão, em lugar de ser esmagado e humilhado, e estaria a dois pontos de diferença e não a oito. E é curioso que, desde que o Benfica começou a ganhar e voltou a jogar o que sabe desapareceram misteriosamente as más arbitragens de que se queixavam…).
Nas três paginas de pura propaganda sem contraditório que A BOLA lhe concedeu generosamente na edição deste domingo - e onde, por exemplo, o deixaram dissertar livremente sobre a «verdade desportiva», sem lhe perguntar onde esteve a verdade desportiva na contratação de Jardel ao Olhanense, nas vergonhosas circunstâncias em que foi consumada (e isto sem insistir em coisas como o «túnel da Luz», o jogo do Estoril desviado para o Algarve, etc), Rui Gomes da Silva repetiu ad nauseum a cassete benfiquista, desenterrada de cada vez que o Benfica não vai à frente do campeonato. Não sei se os dirigentes do Benfica e os seus apaniguados na comunicação social têm a noção dos danos que este tipo de discurso causa à imagem do seu clube, junto dos não-benfiquistas.
Dou o meu exemplo: eu gosto de ver o futebol do Benfica de Jorge Jesus, quando, como no ano passado ou este ano, eles jogam um futebol de ataque puro, de risco, de velocidade e imaginação: é o futebol de que eu gosto. Até gosto de vê-los ganhar com categoria ao Estugarda, embora saiba que esta equipa do Benfica de portuguesa quase só tem o nome e o Fabio Coentrão. Fui capaz de reconhecer também a justiça do título da época passada, muito embora jamais me possa esquecer da golpada do túnel, porque, esse sim, foi o maior atentado à «verdade desportiva» e ao desportivismo que já presenciei, e muito embora também não esqueça que acabaram metade dos jogos a jogar contra equipas em inferioridade numérica. Mas jogaram o melhor futebol, o mais espectacular, mereceram ganhar. Também disse que mereceram vencer o Marítimo, neste domingo, sem prejuízo de ter vsto as cotoveladas que o assistente não viu ou de ter contado três livres à entrada da área a favor do ataque do Benfica e inventados pelo árbitro (e sabe-se como as bolas paradas são a arma mais poderosa do Benfica, ao contrário do FC Porto, cujos livres e cantos são absolutamente inofensivos). Mas já se viu alguém do Benfica reconhecer algum mérito a um adversário que os vença?
Rui Gomes da Silva insiste na fábula desacreditada das «décadas» de favores de arbitragem ao FCP — como se Portugal, a Europa e o mundo não se tivessem habituado a ver e admirar o futebol do Porto! Isto é tão ofensivo como se eu me atrevesse a declarar que o Benfica de 62,63, o Benfica de Eusébio, só vencia porque era ajudado pelos árbitros. É preciso ter algum decoro!
Algum decoro para não cair nesta declaração elucidativa e extraordinária de Rui Gomes da Silva: «É preciso, repito, que se diga que o nosso adversário teve ajudas…», porque, de outro modo «isso seria reconhecer apenas mérito a quem vai a nossa frente». Está tudo dito, aqui. E está explicado porque razão o Benfica é hoje o clube mais detestado por todos os não-benfiquistas.
Sei que isso em nada os preocupa, mas é pena: é o património do grande Benfica de Eusébio e outros desbaratado por quem não sabe perder nem competir de igual para igual.
2- Jorge Jesus devia ter mais contenção, devia, de vez em quando, ver a gravação das figuras que faz em campo. Não se percebe porque razão vai sempre enfiar-se em confusões com os adversários no final dos jogos, tendo de ser os seus jogadores a acalmá-lo; não se percebe como é que numa semana reclama contra os árbitros que mostram cartões amarelos por simples faltas (a propósito do cartão a Maxi, contra o Sporting), e, na semana seguinte, põe-se aos saltos desvairados na lateral a reclamar um cartão para um jogador do Maritimo, após uma falta também banal; não se percebe como pode reclamar penalty num cruzamento que vai ao braço de um adversário que está de costas e nem vê a bola vir; não se percebe como é que, antes de ver as imagens do lance, fez tamanho charivari, incitando as bancadas ao tumulto, pela anulação do golo de Luisão, quase no final; e não se percebe como é que depois, já a frio, com a vitória garantida e as imagens certamente já vistas, consegue insistir em que o golo foi mal anulado, quando toda a gente, comentadores da Sport TV e milhões de espectadores, viram o descarado abalroamento de Cardozo ao guarda-redes do Marítimo, impedindo-o de chegar à bola.
3- Não obstante a vitória inarticulo mortis do Benfica, permitindo-lhe manter a tal distancia de «cinco pontos» para o FC Porto, de que fala Jorge Jesus, tenho uma má notícia para o treinador do Benfica: este sábado em Olhão, não sei se viu ou não, jogou o próximo campeão nacional.
Eu tinha avisado, quando Jesus andava a anunciar, eufórico, que ninguém jogava melhor que o Benfica, que o Porto ia fatalmente perder pontos e que se tratava apenas de recuperar cinco pontos, porque o jogo da Luz seriam favas contadas. Avisei que tivesse calma e que esperasse para ver o que sucederia quando o FC Porto pudesse voltar a dispor de dois dos seus mais influentes jogadores: Álvaro Pereira e Falcão. Pois bem, ei-los de volta, e em Olhão, num dos melhores jogos deste campeonato (muito por mérito também do Olhanense), viu-se a influencia que eles têm na equipa e a falta que lhe faziam.
Se, contra o Sevilha, o FC Porto passou ao lado de unia goleada, num jogo verdadeiramente atípico, em Olhão já vi de volta o FC Porto da primeira metade do campeonato, onde conquistou uma liderança cuja justiça só de má-fé pode ser contestada. Nestes dois meses de ausência de Alvaro e Falcão, o FC Porto foi afastado da Taça da Liga e praticamente afastado da Taça dc Portugal. Foi um preço caro, mas podia ter sido pior, porque nas duas competições mais importantes, campeonato e Liga Europa, nada se perdeu e tudo se consolidou. Hulk andou com a equipa ao colo e vai ser curioso ver como irá Villas Boas resolver o problema da sua ausência no próximo jogo, contra o Guimarães. Hulk foi o factor principal, mas também é justo salientar as grandes contribuições dadas para esse período de damage control de jogadores como Sapunaru, Otamendi, James e Belluschi. Em contrapartida, continuo (devo ser o único) a constatar, jogo após jogo, a inutilidade criativa de João Moutinho (que seria muito bem substituído por James, como um número 10), os calafrios causados por um Fernando sempre precipitado e trapalhão, e a impossibilidade de recuperar alguma utilidade a Ruben Micael ou ao Cristian Rodriguez ou de inventar alguma ao Mariano Gonzalez. O FC Porto caminha para um título disputadíssimo e justíssimo, porque o campeonato são 30 jornadas e não 26. De facto, como diz Pinto da Costa, toda a gente sobrevaloriza as vitórias do Benfica, mas poucos valorizam o fantástico campeonato que o FC Porto está a fazer — a par de uma carreira europeia notável, que só o imerecido desaire contra o Sevilha manchou ligeiramente. São 19 vitórias e 2 empates em 21 jogos; única equipa invencível do campeonato; única equipa com o pleno de pontos em casa; melhor ataque; melhor defesa; melhor marcador; 8 pontos de avanço sobre o segundo classificado e um eloquente 5-0 no jogo da «verdade desportiva» entre ambos. Vá lá que, seguindo as pisadas de Villas Boas, Jorge Jesus finalmente reconheceu isso mesmo, anteontem. Se o Benfica não for campeão este ano, é só porque o FC Porto fez um super-campeonato.
4- Nem todos, claro, pensam assim. Nem todos sabem perder. Rui Gomes da Silva, dirigente do Benfica, acha, obviamente (seria de esperar outra coisa?) que o Porto só vai à frente porque foi ajudado pelos árbitros, enquanto o Benfica foi prejudicado nas quatro primeiras jornadas, onde perdeu três jogos. Não foram os frangos de Roberto, nem algumas estranhas prestações de alguns jogadores, nem nada mais: só os árbitros. (Tivesse ganho no Dragão, em lugar de ser esmagado e humilhado, e estaria a dois pontos de diferença e não a oito. E é curioso que, desde que o Benfica começou a ganhar e voltou a jogar o que sabe desapareceram misteriosamente as más arbitragens de que se queixavam…).
Nas três paginas de pura propaganda sem contraditório que A BOLA lhe concedeu generosamente na edição deste domingo - e onde, por exemplo, o deixaram dissertar livremente sobre a «verdade desportiva», sem lhe perguntar onde esteve a verdade desportiva na contratação de Jardel ao Olhanense, nas vergonhosas circunstâncias em que foi consumada (e isto sem insistir em coisas como o «túnel da Luz», o jogo do Estoril desviado para o Algarve, etc), Rui Gomes da Silva repetiu ad nauseum a cassete benfiquista, desenterrada de cada vez que o Benfica não vai à frente do campeonato. Não sei se os dirigentes do Benfica e os seus apaniguados na comunicação social têm a noção dos danos que este tipo de discurso causa à imagem do seu clube, junto dos não-benfiquistas.
Dou o meu exemplo: eu gosto de ver o futebol do Benfica de Jorge Jesus, quando, como no ano passado ou este ano, eles jogam um futebol de ataque puro, de risco, de velocidade e imaginação: é o futebol de que eu gosto. Até gosto de vê-los ganhar com categoria ao Estugarda, embora saiba que esta equipa do Benfica de portuguesa quase só tem o nome e o Fabio Coentrão. Fui capaz de reconhecer também a justiça do título da época passada, muito embora jamais me possa esquecer da golpada do túnel, porque, esse sim, foi o maior atentado à «verdade desportiva» e ao desportivismo que já presenciei, e muito embora também não esqueça que acabaram metade dos jogos a jogar contra equipas em inferioridade numérica. Mas jogaram o melhor futebol, o mais espectacular, mereceram ganhar. Também disse que mereceram vencer o Marítimo, neste domingo, sem prejuízo de ter vsto as cotoveladas que o assistente não viu ou de ter contado três livres à entrada da área a favor do ataque do Benfica e inventados pelo árbitro (e sabe-se como as bolas paradas são a arma mais poderosa do Benfica, ao contrário do FC Porto, cujos livres e cantos são absolutamente inofensivos). Mas já se viu alguém do Benfica reconhecer algum mérito a um adversário que os vença?
Rui Gomes da Silva insiste na fábula desacreditada das «décadas» de favores de arbitragem ao FCP — como se Portugal, a Europa e o mundo não se tivessem habituado a ver e admirar o futebol do Porto! Isto é tão ofensivo como se eu me atrevesse a declarar que o Benfica de 62,63, o Benfica de Eusébio, só vencia porque era ajudado pelos árbitros. É preciso ter algum decoro!
Algum decoro para não cair nesta declaração elucidativa e extraordinária de Rui Gomes da Silva: «É preciso, repito, que se diga que o nosso adversário teve ajudas…», porque, de outro modo «isso seria reconhecer apenas mérito a quem vai a nossa frente». Está tudo dito, aqui. E está explicado porque razão o Benfica é hoje o clube mais detestado por todos os não-benfiquistas.
Sei que isso em nada os preocupa, mas é pena: é o património do grande Benfica de Eusébio e outros desbaratado por quem não sabe perder nem competir de igual para igual.
quinta-feira, novembro 17, 2011
TRÊS BANDEIRAS CONTRA A INVEJA, EM IPANEMA (22 FEVEREIRO 2011)
1- Vitória tranquila e justa do Benfica em Alvalade. Não há comparação alguma entre as duas equipas e o momento psicológico que atravessam e não era de esperar outro resultado.
Órfão de Ledson, o seu único jogador de categoria, o Sporting teve também teve a sorte do jogo contra si: Evaldo castigado, Maniche auto-castigado, Daniel Carriço impedido e o próprio treinador suspenso, na bancada. Depois, teve azar nas ocasiões em que bem podia ter empatado, entre o 0-1 e o decisivo 0- 2, e não teve sorte nas decisões da arbitragem. Mas o Benfica entrou para ganhar e chegou rapidamente ao 1-0, tirando partido da falta de ritmo de Grimi para acompanhar Salvio, num momento fatal, chegou ao 2-0, num duplo golpe de sorte; erro de avaliação do árbitro e autogolo de Polga.
Não há nada a dizer sobre a justiça da vitória do Benfica, alicerçada não num grande jogo, mas no aproveitamento de mais uma manifestação da impotência do Sporting. Mas, se eu fosse como alguns advogados benfiquistas, podia dizer o seguinte: que Artur Soares Dias, um árbitro do Porto com categoria e personalidade, cometeu — como todos os árbitros sempre cometem — erros importantes e sempre em favor do Benfica. Merece o benefício da dúvida num hipotético penalty de Coentrão sobre João Pereira, ainda com 0-0; anulou bem um bonito golo de Matias Fernandez e não pactuou com o tipo de jogo a roçar a violência que o Benfica exibiu entre os dois golos e que ja havia mostrado no Dragão e na final da Supertaça. Mas perdoou uma cotovelada intencional de Cardozo na cara de um adversário, que, no tempo de Deco e Quaresma no FC Porto, daria expulsão ou sumaríssimo, mas que no Benfica passam sempre impunes; perdoou outro vermelho directo a Jardel por uma autêntica agressão à cabeçada sobre Cristiano e, pior que tudo, transformou em livre à entrada da área e amarelo para Polga um corte limpíssimo, que teria merecido, sim, o amarelo a Gaitan por simulação: por ironia das coisas, do livre resultaria o golo que matou o jogo, com pontapé de Gaitan e desvio decisivo de Polga.
Resta um facto que dá que pensar: o Sporting utilizou 14 jogadores, dos quais 10 portugueses; o Benfica utilizou os mesmos 14 jogadores, dos quais 2 portugueses. E o duelo Benfica-Porto segue até final.
2- Como aqui escrevi na semana passada, não consegui ver, no Brasil, nem o Benfica-Guimarães nem o Braga-Porto e confiei nos relatos generalizados e coincidentes de diversas fontes publicadas para extrair a conclusão que os triunfos de benfiquistas e portistas tinham sido justos e incontestáveis. Afinal, precipitei-me: faltava-me a opinião, sempre isenta, de Sílvio Cervan. Por ele, e confiando na sua honestidade intelectual, que não se discute, fiquei a saber que, afinal, a vitória do Porto em Braga foi apenas «mais um jogo ganho por decisões incorrectas da arbitragem». Aliás, acrescenta ele que o mérito da liderança folgada do FC Porto neste campeonato tem de ser dividido «com um vasto plantel da arbitragem portuguesa» (ficará alguém, de fora, algum árbitro sério, aos olhos de um benfiquista sério?). E ainda fiquei a saber que André Villas Boas não passa de um «adjunto de Vítor Pereira» e que sente uma imensa «pena e tristeza» por não ter disputado a Champions e não treinar «um clube da dimensão do Benfica» (dimensão bem patente na sua recente e fulminante carreira na Champions, acrescento eu).
Também li, segundo relato de Rui Moreira, que outro ilustre benfiquista. Rui Gomes da Silva, preferiu atribuir a razão da liderança portista à falta de empenho dos adversários que enfrenta. O último em data, terá sido, presumo o SC Braga, em quem os benfiquistas depositavam tantas esperanças para atrasar o FC Porto. É, de facto, suspeito que se tenham deixado bater pelos portistas em sua própria casa. Já que o mesmo SC Braga se tenha deixado bater este domingo em casa pelo Paços de Ferreira (que já lá linha vencido também para a Taça da Liga), ou que o V, Guimarães se tenha deixado bater tão tranquilamente na Luz, isso, claro que não levanta suspeita alguma.
Já aqui o tenho reconhecido, este ano como no ano anterior, que o Benfica está a jogar bom futebol. Acho, pois, perfeitamente natural que ganhe, mesmo que haja decisões arbitrais que o beneficiem pontualmente: uma equipa que ataca quatro vezes mais do que os adversários, como sucede com o Porto e o Benfica, tem muito mais hipóteses de beneficiar, por exemplo, de golos obtidos em off-side não assinalado ou de penalties mal assinalados. Mas no inicio da época, todos vimos os erros próprios cometidos pelo Benfica, desde os frangos de Roberto aos enganos estratégicos de Jorge Jesus, passando pelo desinteresse de David Luiz e a baixa de forma ou de empenho dos mundialistas e não só. Como resultado disso, o Benfica perdeu nas quatro primeiras jornadas um acervo de pontos para o FC Porto (depois acrescentado com a tareia sofrida no Dragão), que constitui o atraso que hoje tenta desesperadamente recuperar. Mas, para os advogados benfiquistas, a explicação para o atraso é outra e apenas esta: a arbitragem. Que, por coincidência, só os prejudicou quando eles estavam a jogar mal. E agora, que estão de novo a jogar bem, os benfiquistas não aceitam e fingem não perceber como é que, de direito próprio, não vão à frente do campeonato — nem que, para tal, se tenha de apagar dos registos aquelas fatídicas quatro jornadas iniciais.
Já quanto às vitórias do FC Porto, o raciocínio de Rui Gomes da Silva e de Sílvio Cervan é cristalino: ou se devem a erros dos árbitros ou a falta de empenho dos adversários. Mérito próprio é que jamais.
Infelizmente para as verdades benfiquistas, existe um território onde a tão invocada «verdade desportiva» pode ser apreciada sem intermediários de outra espécie: chama-se Europa. E, nessa Europa da verdade desportiva, os factos mostram que o Benfica, depois de uma campanha na Champions que envergonhou o País e não apenas as suas cores, depois de ter conseguido a proeza de perder por 0-3 contra os campeões de Israel e ter estado a dois minutos de até perder para eles o terceiro lugar do grupo, estreou-se na Liga Europa jogando em casa contra o penúltimo do campeonato alemão e o mais que conseguiu foi um tangencial e sofrido 2-1. Já o FC Porto, desfalcado dos árbitros amigos e da amizade colaborante dos adversários, e também e ainda (!) desfalcado de Alvaro Pereira e Falcão, foi a Sevilha ganhar 2-1 e situar o seu registo desta temporada europeia num impressionante conjunto de oito vitórias e um empate em nove jogos disputados. Este é o argumento para o qual, de há vinte e cinco anos para cá, os benfiquistas não conseguem encontrar uma resposta que evite o ridículo em que esbracejam, tentando manter-se à tona.
3- A praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, é um paraíso para os amantes de futebol. Assim que o céu desce no horizonte, acendem-se as luzes da praia e começam sucessivos jogos de futebol de areia e futvólei, balizas contra balizas, redes contra redes, ao longo de seis quilómetros de praia, desde o Arpoador ao Leblon. Nessa altura do dia, já fecharam as barraquinhas de comes e bebes e aluguer de cadeiras e guarda-sóis, separadas umas das outras por uns 50 metros e cada uma delas hasteando ao alto a bandeira do clube do coração do seu dono. Como seria de esperar, abundam as bandeiras dos clubes do Rio - Fla, Flu, Bota, Vasco — mas também do Corinthians ou do Grémio de Porto Alegre. E o mais curioso é que só há um clube estrangeiro representado em toda a praia. E querem acreditar que é um clube português? Quem será - o Sporting? Não, eles só descobriram agora que o Sporting existe e graças à ida do Liedson para o Timão (o Corinthians, de S. Paulo). É o Benfica, claro, o clube dos seis milhões em Portugal e mais doze no mundo inteiro? Não, também não é o Benfica.
Meus caros amigos: tenho a declarar que, neste Verão de 2011, a única bandeira de um clube não brasileiro hasteada na praia de Ipanema, na cidade maravilhosa de S. Sebastião do Rio de Janeiro, é do grande FC Porto, que Deus o tenha assim por muitos e bons anos! E mais, acreditem ou não: não é uma bandeira do FCP, voando ao vento de Ipanema: são três! Três bandeiras em três diferentes barraquinhas de praia! Ora, tomem lá, seus invejosos!
Impõe-se uma urgente visita de uma embaixada benfiquista eloquente, comandada por Luís Filipe Viera e integrando o Cervan, e o Gomes da Silva, o APV, o RAP, o Barbas e a Carolina Salgado para abrir lá, se não existe, uma Casa do Benfica, ou, melhor ainda, para comprar uma barraquinha de praia com direito a bandeira hasteada. Afinal, para que serve o recorde do Guiness Book?
Órfão de Ledson, o seu único jogador de categoria, o Sporting teve também teve a sorte do jogo contra si: Evaldo castigado, Maniche auto-castigado, Daniel Carriço impedido e o próprio treinador suspenso, na bancada. Depois, teve azar nas ocasiões em que bem podia ter empatado, entre o 0-1 e o decisivo 0- 2, e não teve sorte nas decisões da arbitragem. Mas o Benfica entrou para ganhar e chegou rapidamente ao 1-0, tirando partido da falta de ritmo de Grimi para acompanhar Salvio, num momento fatal, chegou ao 2-0, num duplo golpe de sorte; erro de avaliação do árbitro e autogolo de Polga.
Não há nada a dizer sobre a justiça da vitória do Benfica, alicerçada não num grande jogo, mas no aproveitamento de mais uma manifestação da impotência do Sporting. Mas, se eu fosse como alguns advogados benfiquistas, podia dizer o seguinte: que Artur Soares Dias, um árbitro do Porto com categoria e personalidade, cometeu — como todos os árbitros sempre cometem — erros importantes e sempre em favor do Benfica. Merece o benefício da dúvida num hipotético penalty de Coentrão sobre João Pereira, ainda com 0-0; anulou bem um bonito golo de Matias Fernandez e não pactuou com o tipo de jogo a roçar a violência que o Benfica exibiu entre os dois golos e que ja havia mostrado no Dragão e na final da Supertaça. Mas perdoou uma cotovelada intencional de Cardozo na cara de um adversário, que, no tempo de Deco e Quaresma no FC Porto, daria expulsão ou sumaríssimo, mas que no Benfica passam sempre impunes; perdoou outro vermelho directo a Jardel por uma autêntica agressão à cabeçada sobre Cristiano e, pior que tudo, transformou em livre à entrada da área e amarelo para Polga um corte limpíssimo, que teria merecido, sim, o amarelo a Gaitan por simulação: por ironia das coisas, do livre resultaria o golo que matou o jogo, com pontapé de Gaitan e desvio decisivo de Polga.
Resta um facto que dá que pensar: o Sporting utilizou 14 jogadores, dos quais 10 portugueses; o Benfica utilizou os mesmos 14 jogadores, dos quais 2 portugueses. E o duelo Benfica-Porto segue até final.
2- Como aqui escrevi na semana passada, não consegui ver, no Brasil, nem o Benfica-Guimarães nem o Braga-Porto e confiei nos relatos generalizados e coincidentes de diversas fontes publicadas para extrair a conclusão que os triunfos de benfiquistas e portistas tinham sido justos e incontestáveis. Afinal, precipitei-me: faltava-me a opinião, sempre isenta, de Sílvio Cervan. Por ele, e confiando na sua honestidade intelectual, que não se discute, fiquei a saber que, afinal, a vitória do Porto em Braga foi apenas «mais um jogo ganho por decisões incorrectas da arbitragem». Aliás, acrescenta ele que o mérito da liderança folgada do FC Porto neste campeonato tem de ser dividido «com um vasto plantel da arbitragem portuguesa» (ficará alguém, de fora, algum árbitro sério, aos olhos de um benfiquista sério?). E ainda fiquei a saber que André Villas Boas não passa de um «adjunto de Vítor Pereira» e que sente uma imensa «pena e tristeza» por não ter disputado a Champions e não treinar «um clube da dimensão do Benfica» (dimensão bem patente na sua recente e fulminante carreira na Champions, acrescento eu).
Também li, segundo relato de Rui Moreira, que outro ilustre benfiquista. Rui Gomes da Silva, preferiu atribuir a razão da liderança portista à falta de empenho dos adversários que enfrenta. O último em data, terá sido, presumo o SC Braga, em quem os benfiquistas depositavam tantas esperanças para atrasar o FC Porto. É, de facto, suspeito que se tenham deixado bater pelos portistas em sua própria casa. Já que o mesmo SC Braga se tenha deixado bater este domingo em casa pelo Paços de Ferreira (que já lá linha vencido também para a Taça da Liga), ou que o V, Guimarães se tenha deixado bater tão tranquilamente na Luz, isso, claro que não levanta suspeita alguma.
Já aqui o tenho reconhecido, este ano como no ano anterior, que o Benfica está a jogar bom futebol. Acho, pois, perfeitamente natural que ganhe, mesmo que haja decisões arbitrais que o beneficiem pontualmente: uma equipa que ataca quatro vezes mais do que os adversários, como sucede com o Porto e o Benfica, tem muito mais hipóteses de beneficiar, por exemplo, de golos obtidos em off-side não assinalado ou de penalties mal assinalados. Mas no inicio da época, todos vimos os erros próprios cometidos pelo Benfica, desde os frangos de Roberto aos enganos estratégicos de Jorge Jesus, passando pelo desinteresse de David Luiz e a baixa de forma ou de empenho dos mundialistas e não só. Como resultado disso, o Benfica perdeu nas quatro primeiras jornadas um acervo de pontos para o FC Porto (depois acrescentado com a tareia sofrida no Dragão), que constitui o atraso que hoje tenta desesperadamente recuperar. Mas, para os advogados benfiquistas, a explicação para o atraso é outra e apenas esta: a arbitragem. Que, por coincidência, só os prejudicou quando eles estavam a jogar mal. E agora, que estão de novo a jogar bem, os benfiquistas não aceitam e fingem não perceber como é que, de direito próprio, não vão à frente do campeonato — nem que, para tal, se tenha de apagar dos registos aquelas fatídicas quatro jornadas iniciais.
Já quanto às vitórias do FC Porto, o raciocínio de Rui Gomes da Silva e de Sílvio Cervan é cristalino: ou se devem a erros dos árbitros ou a falta de empenho dos adversários. Mérito próprio é que jamais.
Infelizmente para as verdades benfiquistas, existe um território onde a tão invocada «verdade desportiva» pode ser apreciada sem intermediários de outra espécie: chama-se Europa. E, nessa Europa da verdade desportiva, os factos mostram que o Benfica, depois de uma campanha na Champions que envergonhou o País e não apenas as suas cores, depois de ter conseguido a proeza de perder por 0-3 contra os campeões de Israel e ter estado a dois minutos de até perder para eles o terceiro lugar do grupo, estreou-se na Liga Europa jogando em casa contra o penúltimo do campeonato alemão e o mais que conseguiu foi um tangencial e sofrido 2-1. Já o FC Porto, desfalcado dos árbitros amigos e da amizade colaborante dos adversários, e também e ainda (!) desfalcado de Alvaro Pereira e Falcão, foi a Sevilha ganhar 2-1 e situar o seu registo desta temporada europeia num impressionante conjunto de oito vitórias e um empate em nove jogos disputados. Este é o argumento para o qual, de há vinte e cinco anos para cá, os benfiquistas não conseguem encontrar uma resposta que evite o ridículo em que esbracejam, tentando manter-se à tona.
3- A praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, é um paraíso para os amantes de futebol. Assim que o céu desce no horizonte, acendem-se as luzes da praia e começam sucessivos jogos de futebol de areia e futvólei, balizas contra balizas, redes contra redes, ao longo de seis quilómetros de praia, desde o Arpoador ao Leblon. Nessa altura do dia, já fecharam as barraquinhas de comes e bebes e aluguer de cadeiras e guarda-sóis, separadas umas das outras por uns 50 metros e cada uma delas hasteando ao alto a bandeira do clube do coração do seu dono. Como seria de esperar, abundam as bandeiras dos clubes do Rio - Fla, Flu, Bota, Vasco — mas também do Corinthians ou do Grémio de Porto Alegre. E o mais curioso é que só há um clube estrangeiro representado em toda a praia. E querem acreditar que é um clube português? Quem será - o Sporting? Não, eles só descobriram agora que o Sporting existe e graças à ida do Liedson para o Timão (o Corinthians, de S. Paulo). É o Benfica, claro, o clube dos seis milhões em Portugal e mais doze no mundo inteiro? Não, também não é o Benfica.
Meus caros amigos: tenho a declarar que, neste Verão de 2011, a única bandeira de um clube não brasileiro hasteada na praia de Ipanema, na cidade maravilhosa de S. Sebastião do Rio de Janeiro, é do grande FC Porto, que Deus o tenha assim por muitos e bons anos! E mais, acreditem ou não: não é uma bandeira do FCP, voando ao vento de Ipanema: são três! Três bandeiras em três diferentes barraquinhas de praia! Ora, tomem lá, seus invejosos!
Impõe-se uma urgente visita de uma embaixada benfiquista eloquente, comandada por Luís Filipe Viera e integrando o Cervan, e o Gomes da Silva, o APV, o RAP, o Barbas e a Carolina Salgado para abrir lá, se não existe, uma Casa do Benfica, ou, melhor ainda, para comprar uma barraquinha de praia com direito a bandeira hasteada. Afinal, para que serve o recorde do Guiness Book?
terça-feira, novembro 08, 2011
VISTO DE FORA (15 FEVEREIRO 2011)
1- A Sport TV, que já chegou ao Brasil, transmitindo os jogos do campeonato português, infelizmente não se encontra em nenhum lugar público, como hotéis, bares, restaurantes. E assim, como me acontece já há longos anos, de cada vez que estou no Brasil perco sempre um ou dois ou mais jogos do meu FC Porto. Este fim-de-semana, tive de perder o Braga-Porto, que acompanhei à distância, entre o nervoso e a esperança, através de sms primeiro, e depois através dos sites de relato escrito minuto a minuto. Nestes, o que mais me custa, aquilo que se torna repugnante mesmo, é acompanhar também os comentários dos frequentadores do site que vão sendo feitos em simultâneo. O menos de tudo ainda acaba por ser o facciosismo doentio de todas as clubites, sem excepção, revelando gente que não é capaz de ver e apreciar um jogo de futebol por si mesmo. O pior porém, é a linguagem desbragada de ódio, de insulto, de miséria moral que ali se encontra. Eu sei que não é multo diferente dos comentadores dos sites de política, de sociedade, do que quer que seja.
Vive na net a coberto do anonimato, uma mu1tidão do seres doentios, cobardes, transtornados pela raiva e que, a salvo de qualquer consequência, dão largas aos seus instintos de autênticos animais. Qualquer tentativa de os identificar, para efeitos processuais, junto dos servidores americanos, encontra fatalmente a oposição das autoridades judiciais dos Estados Unidos, invocando a hipócrita razão da liberdade de pensamento. Como se a liberdade se confundisse com o direito ao insulto e à calúnia, sem riscos nem consequências! Enfim, adiante.
Pelo que vi e li, posteriormente, não ficaram dúvidas algumas sobre a justiça dos triunfos do Benfica e FC Porto. O Benfica ganhou por três, mas ainda atirou duas bolas à barra e falhou um penalty. Dizia um conformado Manuel Machado, no final, que «tentámos dar a posse de bola ao Benfica, mas eles marcaram». Bem, tentar, e conseguir, dar a posse de bola ao adversário não custa muito e normalmente acaba com ele a marcar e a ganhar. Se era essa a táctica para evitar a derrota...
Quanto ao FC Porto, dizia o site do Record, aos 74 minutos, que já havia feito dez remates à baliza contra nenhum do SC Braga. Mas, logo no minuto seguinte, escrevia que o Helton tinha acabado de fazer uma fantástica defesa - a primeira que teve de fazer nos últimos três jogos do campeonato. E, pelo relato do jogo, também deu para perceber que o resultado de 2-0 só pecou por escasso. Semi-desmantelado no mercado de Janeiro, o SC Braga também já deixou de ser um obstáculo à caminhada a dois que é este campeonato: Benfica e Porto estão muito longe de todos os outros.
Na véspera, Jorge Jesus tinha vindo repetir a sua afirmação de que ninguém joga melhor do que o Benfica, actualmente. Eu concordo, claro — é o que está vista. Mas, se quisesse ser justo, Jesus teria dito que este FC Porto, que há mais de um mês e nove jogos está desfalcado de Álvaro Pereira e Falcao, só poderia ser comparado, no momento actual, a um Benfica desfalcado de Fábio Coentrão, Saviola e Cardozo. Aí, sim, poder-se-ia comparar. Porque, quando ambas as equipas estavam completas, sabe-se o que foi…
Jesus está a ficar nervoso porque o FC Porto abana mas no cai e os 8/11 pontos de avanço já começam a parecer demasiados à medida que caminhamos para o final: mais duas ou três vitórias consecutivas e ponto final. Com declarações daquelas ou semelhantes, Jorge pretende duas coisas: uma, pôr pressão na equipa do FC Porto, a atravessar um período difícil marcado por sucessivas lesões e agora com mais a frente europeia. Outra, a de ir preparando os adeptos do Benfica para o segundo lugar no campeonato. «Não ganhámos, mas fomos a melhor equipa» - é o que ele provavelmente dirá daqui a dois meses, recuperando a estratégia em que o Benfica sempre foi bom nos últimos anos: justificar a objectividade das derrotas com a subjectividade das opiniões. Pois que se console com isso: a oportunidade de Braga, em que os benfiquistas depositavam tantas esperanças, já a perdeu.
2- A não ser por razões absolutamente excepcionais, percebe-se mal que os dirigentes do futebol retirem o protagonismo aos jogadores, aos treinadores, ao próprio jogo. E que um presidente de clube possa fazer toda uma gigantesca manchete de primeira página, como fez o presidente do Marítimo, Carlos Pereira, na edição de sábado deste jornal.
Em pose e atitude de ‘agarrem-me que eu não tenho medo de ninguém!’, Carlos Pereira aproveitou mal os seus dez minutos de fama. A dita «coragem» ficou-se por insinuações não concretizadas, bois sem nomes e bravatas sem interesse nem sentido. Em contrapartida, mostrou saber bem a que devia a honra da primeira página de A BOLA e colocou-se à altura do encargo: dizer mal do FC Porto — coisa que sempre garante audiência na imprensa desportiva de Lisboa, Imagine-se que ele queria antes dizer mal do Benfica ou do seu presidente: acredita que lhe dessem toda essa atenção?
Tudo isto, claro, a propósito do interminável folhetim Kléber. Ora, eu percebo que o presidente do Marítimo tenha, como direito e obrigação, defender o que entende serem os interesses do clube a que preside. Também percebo que, tendo-se criado um imbróglio jurídico a propósito da situação contratual de Kléber, ele tenha feito valer as suas razões, enquanto o assunto não se esclarece na FIFA. No impede que ele está como alguém a quem um amigo empresta por dois anos uma casa de que não precisa e, quando ao fim de um ano, o amigo lhe vem pedir a devolução da casa, porque tem uma excelente proposta para a vender, responde: «Não quero saber disso, foi-me emprestada por dois anos e só a largo aí.» Pode ter toda a razão jurídica e até contratual, mas não é propriamente uma atitude de louvar. Acontece até que, no caso, entrava em jogo o interesse e a vontade de uma terceira pessoa, por acaso a mais importante: o próprio jogador. Kléber, o Atlético de Minas Gerais, proprietário do seu passe, e o FC Porto, todos estavam interessados e de acordo com o seu ingresso nos azuis-e-brancos. O Marítimo boicotou e atrasou tudo isso um ano. Como disse, está no seu direito, mas é provável que, daqui para a frente, qualquer outro clube pense duas vezes antes de emprestar um jogador ao Marítimo.
Mas as coisas tornaram-se ainda mais claras, quando Carlos Pereira não resistiu a abusar da sua posição e tentou agora, à papo-seco, uma manobra para desviar o jogador para o Sporting, mostrando assim que, mais do que conservar Kléber enquanto pudesse, o que passou a interessar foi impedir que ele fosse para o FC Porto. Quando agora vem dizer que a proposta do FC Porto ao Atlético Mineiro não era superior à do Sporting, está a ser ridículo, metendo-se naquilo a que não é chamado: por acaso é ele dono do passe do jogador? O que tem a ver com o negócio entre Atlético e o FC Porto? Há dias, ouvi na rádio o sportinguista Alfredo Barroso dizer que, mais uma vez, o FC Porto tinha boicotado um negócio ao Sporting. Achei extraordinário: então não foi o Sporting que tentou boicotar o negócio ao FC Porto? Não sabiam que ele estava desde Junho a tentar comprar o Kléber?
Isto merecia um castigo e claro que Pinto da Costa não perdoou: na próxima época, além de perder Kléber, Carlos Pereira vai perder também o Djalma. Terá de ir pedir ajuda ao Benfica.
O mais irónico de isto tudo é que, apesar da sua pose de homem livre, independente e sem medo de ninguém, Carlos Pereira dirige o clube menos livre e independente de Portugal e vive no permanente terror dos achaques do Dr. Jardim, que é o verdadeiro dono do Marítimo.
Sem o Dr. Jardim a decidir quanto do dinheiro dos nossos impostos é que vai para sustentar o Marítimo, o Marítimo (clube histórico do futebol português, que respeito) não existiria na primeira divisão. Tanto o Marítimo, como o Nacional, mas mais aquele, são dois casos de autentica concorrência desleal. Agravado pelo facto de o Marítimo, na composição das suas equipas, ser o menos português de todos os clubes portugueses, É fácil dirigir um clube nestas condições. Veja-se o fantástico exemplo do novo Estádio dos Barreiros, que Carlos Pereira tão bem explica nesta entrevista. O luxo vai custar 39 milhões de euros, das quais o Governo Regional avaliza 31 milhões. Ou seja, vai pagar 31 mi1hões, porque é evidente que o Marítimo, por si, nunca os pagará. A obra está, alias, interrompida porque, segundo se percebe, o Marítimo não consegue que os bancos lhe emprestem dinheiro para os 8 milhões que lhe cabem — tamanha é a independência do clube. Mas, sem se desmanchar a rir, Carlos Pereira diz que fez contas e que, calculando o «tempo de vida útil do estádio», o Fisco ainda acabará a arrecadar 79 milhões, em troca dos 31 ou 39 que os contribuintes (do continente, claro) agora lá vão ter de enfiar, a fundo perdido. Fantástico raciocínio: olha se todas as empresas portuguesas propusessem semelhantes negócios ao Estado!
Carlos Pereira perdeu uma excelente oportunidade para estar calado e não mostrar exuberância o que é um dirigente desportivo português no seu melhor.
Vive na net a coberto do anonimato, uma mu1tidão do seres doentios, cobardes, transtornados pela raiva e que, a salvo de qualquer consequência, dão largas aos seus instintos de autênticos animais. Qualquer tentativa de os identificar, para efeitos processuais, junto dos servidores americanos, encontra fatalmente a oposição das autoridades judiciais dos Estados Unidos, invocando a hipócrita razão da liberdade de pensamento. Como se a liberdade se confundisse com o direito ao insulto e à calúnia, sem riscos nem consequências! Enfim, adiante.
Pelo que vi e li, posteriormente, não ficaram dúvidas algumas sobre a justiça dos triunfos do Benfica e FC Porto. O Benfica ganhou por três, mas ainda atirou duas bolas à barra e falhou um penalty. Dizia um conformado Manuel Machado, no final, que «tentámos dar a posse de bola ao Benfica, mas eles marcaram». Bem, tentar, e conseguir, dar a posse de bola ao adversário não custa muito e normalmente acaba com ele a marcar e a ganhar. Se era essa a táctica para evitar a derrota...
Quanto ao FC Porto, dizia o site do Record, aos 74 minutos, que já havia feito dez remates à baliza contra nenhum do SC Braga. Mas, logo no minuto seguinte, escrevia que o Helton tinha acabado de fazer uma fantástica defesa - a primeira que teve de fazer nos últimos três jogos do campeonato. E, pelo relato do jogo, também deu para perceber que o resultado de 2-0 só pecou por escasso. Semi-desmantelado no mercado de Janeiro, o SC Braga também já deixou de ser um obstáculo à caminhada a dois que é este campeonato: Benfica e Porto estão muito longe de todos os outros.
Na véspera, Jorge Jesus tinha vindo repetir a sua afirmação de que ninguém joga melhor do que o Benfica, actualmente. Eu concordo, claro — é o que está vista. Mas, se quisesse ser justo, Jesus teria dito que este FC Porto, que há mais de um mês e nove jogos está desfalcado de Álvaro Pereira e Falcao, só poderia ser comparado, no momento actual, a um Benfica desfalcado de Fábio Coentrão, Saviola e Cardozo. Aí, sim, poder-se-ia comparar. Porque, quando ambas as equipas estavam completas, sabe-se o que foi…
Jesus está a ficar nervoso porque o FC Porto abana mas no cai e os 8/11 pontos de avanço já começam a parecer demasiados à medida que caminhamos para o final: mais duas ou três vitórias consecutivas e ponto final. Com declarações daquelas ou semelhantes, Jorge pretende duas coisas: uma, pôr pressão na equipa do FC Porto, a atravessar um período difícil marcado por sucessivas lesões e agora com mais a frente europeia. Outra, a de ir preparando os adeptos do Benfica para o segundo lugar no campeonato. «Não ganhámos, mas fomos a melhor equipa» - é o que ele provavelmente dirá daqui a dois meses, recuperando a estratégia em que o Benfica sempre foi bom nos últimos anos: justificar a objectividade das derrotas com a subjectividade das opiniões. Pois que se console com isso: a oportunidade de Braga, em que os benfiquistas depositavam tantas esperanças, já a perdeu.
2- A não ser por razões absolutamente excepcionais, percebe-se mal que os dirigentes do futebol retirem o protagonismo aos jogadores, aos treinadores, ao próprio jogo. E que um presidente de clube possa fazer toda uma gigantesca manchete de primeira página, como fez o presidente do Marítimo, Carlos Pereira, na edição de sábado deste jornal.
Em pose e atitude de ‘agarrem-me que eu não tenho medo de ninguém!’, Carlos Pereira aproveitou mal os seus dez minutos de fama. A dita «coragem» ficou-se por insinuações não concretizadas, bois sem nomes e bravatas sem interesse nem sentido. Em contrapartida, mostrou saber bem a que devia a honra da primeira página de A BOLA e colocou-se à altura do encargo: dizer mal do FC Porto — coisa que sempre garante audiência na imprensa desportiva de Lisboa, Imagine-se que ele queria antes dizer mal do Benfica ou do seu presidente: acredita que lhe dessem toda essa atenção?
Tudo isto, claro, a propósito do interminável folhetim Kléber. Ora, eu percebo que o presidente do Marítimo tenha, como direito e obrigação, defender o que entende serem os interesses do clube a que preside. Também percebo que, tendo-se criado um imbróglio jurídico a propósito da situação contratual de Kléber, ele tenha feito valer as suas razões, enquanto o assunto não se esclarece na FIFA. No impede que ele está como alguém a quem um amigo empresta por dois anos uma casa de que não precisa e, quando ao fim de um ano, o amigo lhe vem pedir a devolução da casa, porque tem uma excelente proposta para a vender, responde: «Não quero saber disso, foi-me emprestada por dois anos e só a largo aí.» Pode ter toda a razão jurídica e até contratual, mas não é propriamente uma atitude de louvar. Acontece até que, no caso, entrava em jogo o interesse e a vontade de uma terceira pessoa, por acaso a mais importante: o próprio jogador. Kléber, o Atlético de Minas Gerais, proprietário do seu passe, e o FC Porto, todos estavam interessados e de acordo com o seu ingresso nos azuis-e-brancos. O Marítimo boicotou e atrasou tudo isso um ano. Como disse, está no seu direito, mas é provável que, daqui para a frente, qualquer outro clube pense duas vezes antes de emprestar um jogador ao Marítimo.
Mas as coisas tornaram-se ainda mais claras, quando Carlos Pereira não resistiu a abusar da sua posição e tentou agora, à papo-seco, uma manobra para desviar o jogador para o Sporting, mostrando assim que, mais do que conservar Kléber enquanto pudesse, o que passou a interessar foi impedir que ele fosse para o FC Porto. Quando agora vem dizer que a proposta do FC Porto ao Atlético Mineiro não era superior à do Sporting, está a ser ridículo, metendo-se naquilo a que não é chamado: por acaso é ele dono do passe do jogador? O que tem a ver com o negócio entre Atlético e o FC Porto? Há dias, ouvi na rádio o sportinguista Alfredo Barroso dizer que, mais uma vez, o FC Porto tinha boicotado um negócio ao Sporting. Achei extraordinário: então não foi o Sporting que tentou boicotar o negócio ao FC Porto? Não sabiam que ele estava desde Junho a tentar comprar o Kléber?
Isto merecia um castigo e claro que Pinto da Costa não perdoou: na próxima época, além de perder Kléber, Carlos Pereira vai perder também o Djalma. Terá de ir pedir ajuda ao Benfica.
O mais irónico de isto tudo é que, apesar da sua pose de homem livre, independente e sem medo de ninguém, Carlos Pereira dirige o clube menos livre e independente de Portugal e vive no permanente terror dos achaques do Dr. Jardim, que é o verdadeiro dono do Marítimo.
Sem o Dr. Jardim a decidir quanto do dinheiro dos nossos impostos é que vai para sustentar o Marítimo, o Marítimo (clube histórico do futebol português, que respeito) não existiria na primeira divisão. Tanto o Marítimo, como o Nacional, mas mais aquele, são dois casos de autentica concorrência desleal. Agravado pelo facto de o Marítimo, na composição das suas equipas, ser o menos português de todos os clubes portugueses, É fácil dirigir um clube nestas condições. Veja-se o fantástico exemplo do novo Estádio dos Barreiros, que Carlos Pereira tão bem explica nesta entrevista. O luxo vai custar 39 milhões de euros, das quais o Governo Regional avaliza 31 milhões. Ou seja, vai pagar 31 mi1hões, porque é evidente que o Marítimo, por si, nunca os pagará. A obra está, alias, interrompida porque, segundo se percebe, o Marítimo não consegue que os bancos lhe emprestem dinheiro para os 8 milhões que lhe cabem — tamanha é a independência do clube. Mas, sem se desmanchar a rir, Carlos Pereira diz que fez contas e que, calculando o «tempo de vida útil do estádio», o Fisco ainda acabará a arrecadar 79 milhões, em troca dos 31 ou 39 que os contribuintes (do continente, claro) agora lá vão ter de enfiar, a fundo perdido. Fantástico raciocínio: olha se todas as empresas portuguesas propusessem semelhantes negócios ao Estado!
Carlos Pereira perdeu uma excelente oportunidade para estar calado e não mostrar exuberância o que é um dirigente desportivo português no seu melhor.
quarta-feira, novembro 02, 2011
UM DRAMA SÉRIO, OUTRO MENOR (08 FEVEREIRO 2011)
1- O drama sério é do Sporting. Estará o Sporting em vias de extinção ou de definitiva subalternização? Eu acho que sim e já aqui o escrevi: por razões objectivas, de ordem sociológica, desportiva, financeira. O mundo pula e avança e o Sporting ficou para trás, enquanto o mundo fugia à sua frente. Duvido que o atraso seja já recuperável.
Sexta-feira passada, na minha qualidade de adepto de futebol, quis assistir ao último jogo de Liedson com a camisola do Sporting, por respeito ao grande jogador que ele foi no campeonato português. E, tal como me comovi com o último jogo de Rui Costa pelo Benfica, também me comovi agora com a dramática despedida de Liedson de Alvalade. Uma despedida que mais parecia a despedida do próprio Sporting de qualquer ilusão que ainda pudesse alimentar sobre o seu regresso a curto ou médio prazo aos tempos idos de glória. Sejamos francos: mesmo aos 33 anos de idade, Liedson era o único bom jogador que restava ao Sporting. O resto é tudo banal e não há treinador algum que possa dar a volta a essa incon-tornável evidência: não fosse a capacidade de Liedson de pela última vez resolver, e o Sporting ter-se-ia despedido dele com uma derrota caseira frente à Naval, o último do campeonato. E uma derrota que teria sido mais do que justa, face ao futebol mostrado por ambas as equipas.
Mas o drama vai muito para além disso: passa pelo horrendo novo Estádio José Alvalade, onde o clube acabou por se arruinar, por um relvado que nem sequer consegue ser ele verde e que até já se congemina tornar artificial (!), continua pela insustentável situação financeira de curto prazo, que obriga a vender Liedson para pagar salários aos outros e dívidas ao próprio, e acaba com o lastimável folhetim dos candidatos ao lugar maldito de presidente do clube.
Todos os dias aparecem novos candidatos ou putativos candidatos ao cargo de presidente do Sporting, alguns dos quais, manifestamente, apenas para viverem os seus trinta minutos de fama, projectando-se à conta do nome do clube. Há dias, por exemplo, vi a entrevista à TVI desse tal candidato-empresário de quem tanto se fala, com ligações a Angola e milhões para investir. Fiquei impressionado: o candidato, pose e prosápia à parte, nem sequer conseguiu exprimir uma ideia que se entendesse, e em português fluente. Nem ao menos conseguiu explicar o que era o tal fundo — quanto seria, quem investiria nele, como é que se propunha gastar o suposto dinheiro do fundo a comprar jogadores sem pagar as dívidas à banca e continuar a ter crédito. O projecto (palavra mágica que todos usam), era apenas uma amálgama de lugares comuns, disparates sem sentido e grandezas imaginadas, tais como «os milhões de sportinguistas que agora nos escutam» ou «as centenas de milhar de sócios do Sporting». De fora, estas coisas vêm-se melhor e eu também vi assim Vale e Azevedo tomar conta do Benfica, perante o entusiasmo dos sócios e o delírio incontinente dos jornalistas benfiquistas.
Temo que o desespero acabe por ditar o, suicídio por parte dos sócios do Sporting. E, embora sabendo que irão interpretar isto que escrevo de má-fé, ou atribuindo-me a mim má-fé, digo, para que conste, que tenho pena que isso suceda. Faz falta uma terceira parte na guerra pela hegemonia do futebol português.
2- O drama menor é o do actual FC Porto. Escrevi aqui há quinze dias: «O desfecho próximo e feliz desta equipa do FC Porto está nas mãos do departamento médico: quanto mais tempo demorarem a devolver Falcão e Álvaro Pereira, maiores são as hipóteses de o FC Porto não passar incólume pelo conturbado mês de Fevereiro. Ao menos a tempo do joguinho do dia 2...»
De facto, o que mais ou menos tem safado o FC Porto, é que, durante as longas ausências de Álvaro Pereira e Falcão, nos arrastados meses de Dezembro e Janeiro, apanhámos um calendário excepcionalmente favorável, com três quartos dos jogos disputados em casa e três quartos deles contra equipas fáceis. Isso, mais o génio à solta de Hulk, serviu para disfarçar tanto quanto foi possível os erros de contratações da pré-época: não se preencheu o imenso lugar vazio de Bruno Alves no centro da defesa; sem Álvaro Pereira, não há quem faça o corredor esquerdo; falta um verdadeiro médio de ataque ao lado do Belluschi, que não seja o inócuo João Moutinho ou o triste e deprimido Rúben Micael; não há quem nos livre dos constantes sobressaltos e baldas de Fernando; e não há, claro, nem sombra de alternativa a Falcão (e pensar que pagaram seis milhões por 75% do passe de Walter, enquanto Liedson foi vendido por dois milhões e Matheus por milhão e meio!).
Mas, chegados ao tal joguinho do dia 2, o primeiro a doer, o departamento médico do FC Porto não conseguiu recuperar nem Álvaro Pereira, nem Falcão e ainda deu baixa ao único central de jeito que por lá anda — Otamendi. E foi o que se viu: em 25 minutos, o eixo do mal — Helton, Rolando, Maicon e Fernando — tinha entregue a eliminatória da Taça ao Benfica. Os quatro têm em comum várias coisas: serem o eixo frontal da defesa, aquele que não pode falhar; serem todos altos, mas lentos e simultaneamente precipitados, sem pensar antes de executar; terem todos imensas dificuldades em fazer passes de meia-distância e em sair com a bola jogável da defesa. Escreveu-se que Jesus deu um banho de táctica a Villas Boas, com a estratégia da «pressão alta». Bom, não digo que não, mas, alta ou baixa, basta pôr pressão naquele quarteto e algum ou alguns deles hão-de falhar. Para azar nosso, naquela noite falharam todos ao mesmo tempo. Acontece que, tirando o jogo com o Benfica, há três ou quatro jogos, há um mês, que Helton não tem de fazer uma única defesa, porque os adversários, pura e simplesmente, não rematam à nossa baliza. O Benfica rematou três vezes e marcou dois golos. Não foi o Benfica que ganhou o jogo, foi o Porto que o entregou. A tal «pressão alta» só existiu até ao 0-2: a partir daí, o Benfica só defendeu — defendeu bem e em pressão baixíssima, mas nada mais. E Villas Boas ainda deu uma ajuda, com três substituições a despropósito e a destempo. É verdade que o banco é uma tristeza, mas tirar James para pôr Rodriguez e tirar Belluschi para pôr Guarín foi entregar o resto do ouro ao bandido. Extraordinária a sua declaração, quando o questionaram sobre a ausência de um ponta-de-lança no banco- podia ter dito, e todos o percebiam, que, entre Walter e ninguém, tinha preferido ninguém, apostando em como não iria precisar de um ponta-de-lança. Mas, em vez disso, saiu-se com a inimaginável explicação de que Guarín, Rúben Micael, Rodriguez e Mariano (!) lhe davam «garantias de profundidade ofensiva». Viu-se: nem uma oportunidade de golo em toda a segunda parte!
A seguir, ainda houve que suportar o penoso jogo contra o Rio Ave, onde Hulk se apagou (também tem direito a um dia de folga!), e o Porto se reduziu à condição de equipa banalíssima. «Sobrecarga de jogos», explicou André Villas Boas. Como? Contra o Gil Vicente, o Beira-Mar, o Nacional, o Tou-rizense ou o Rio Ave («uma excelente equipa», como sentenciou Varela) — tudo no Dragão? Bem, a seguir vem o Braga, fora, e o Sevilha. Felizmente, não vou estar cá para ver, vou apenas sofrer à distância, de muito longe. E angustiado por saber que temos apenas três grandes jogadores — Hulk, Álvaro e Falcão — e outros três bons, mas intermitentes — Belluschi, James e Varela. E que, quem de três tira dois, fica absolutamente exposto, que é o que nós estamos agora. Oxalá esta curta manta consiga ainda ir encobrindo os pés e tapando a cabeça!
3- Vendido por 25 milhões (35 é cosmética para jornalistas amigos), David Luiz foi muito bem vendido. Muito embora longe dos 50 milhões que Luís Filipe Vieira se gabava de ter como oferta há um ano, a verdade é que, em minha opinião, David Luiz não vale 25 milhões: Bruno Alves é bem melhor do que ele e foi vendido por menos. E as suas abundantes cotoveladas na cara dos adversários não gozarão em Inglaterra da mesma impunidade que aqui sempre foi lei.
Sexta-feira passada, na minha qualidade de adepto de futebol, quis assistir ao último jogo de Liedson com a camisola do Sporting, por respeito ao grande jogador que ele foi no campeonato português. E, tal como me comovi com o último jogo de Rui Costa pelo Benfica, também me comovi agora com a dramática despedida de Liedson de Alvalade. Uma despedida que mais parecia a despedida do próprio Sporting de qualquer ilusão que ainda pudesse alimentar sobre o seu regresso a curto ou médio prazo aos tempos idos de glória. Sejamos francos: mesmo aos 33 anos de idade, Liedson era o único bom jogador que restava ao Sporting. O resto é tudo banal e não há treinador algum que possa dar a volta a essa incon-tornável evidência: não fosse a capacidade de Liedson de pela última vez resolver, e o Sporting ter-se-ia despedido dele com uma derrota caseira frente à Naval, o último do campeonato. E uma derrota que teria sido mais do que justa, face ao futebol mostrado por ambas as equipas.
Mas o drama vai muito para além disso: passa pelo horrendo novo Estádio José Alvalade, onde o clube acabou por se arruinar, por um relvado que nem sequer consegue ser ele verde e que até já se congemina tornar artificial (!), continua pela insustentável situação financeira de curto prazo, que obriga a vender Liedson para pagar salários aos outros e dívidas ao próprio, e acaba com o lastimável folhetim dos candidatos ao lugar maldito de presidente do clube.
Todos os dias aparecem novos candidatos ou putativos candidatos ao cargo de presidente do Sporting, alguns dos quais, manifestamente, apenas para viverem os seus trinta minutos de fama, projectando-se à conta do nome do clube. Há dias, por exemplo, vi a entrevista à TVI desse tal candidato-empresário de quem tanto se fala, com ligações a Angola e milhões para investir. Fiquei impressionado: o candidato, pose e prosápia à parte, nem sequer conseguiu exprimir uma ideia que se entendesse, e em português fluente. Nem ao menos conseguiu explicar o que era o tal fundo — quanto seria, quem investiria nele, como é que se propunha gastar o suposto dinheiro do fundo a comprar jogadores sem pagar as dívidas à banca e continuar a ter crédito. O projecto (palavra mágica que todos usam), era apenas uma amálgama de lugares comuns, disparates sem sentido e grandezas imaginadas, tais como «os milhões de sportinguistas que agora nos escutam» ou «as centenas de milhar de sócios do Sporting». De fora, estas coisas vêm-se melhor e eu também vi assim Vale e Azevedo tomar conta do Benfica, perante o entusiasmo dos sócios e o delírio incontinente dos jornalistas benfiquistas.
Temo que o desespero acabe por ditar o, suicídio por parte dos sócios do Sporting. E, embora sabendo que irão interpretar isto que escrevo de má-fé, ou atribuindo-me a mim má-fé, digo, para que conste, que tenho pena que isso suceda. Faz falta uma terceira parte na guerra pela hegemonia do futebol português.
2- O drama menor é o do actual FC Porto. Escrevi aqui há quinze dias: «O desfecho próximo e feliz desta equipa do FC Porto está nas mãos do departamento médico: quanto mais tempo demorarem a devolver Falcão e Álvaro Pereira, maiores são as hipóteses de o FC Porto não passar incólume pelo conturbado mês de Fevereiro. Ao menos a tempo do joguinho do dia 2...»
De facto, o que mais ou menos tem safado o FC Porto, é que, durante as longas ausências de Álvaro Pereira e Falcão, nos arrastados meses de Dezembro e Janeiro, apanhámos um calendário excepcionalmente favorável, com três quartos dos jogos disputados em casa e três quartos deles contra equipas fáceis. Isso, mais o génio à solta de Hulk, serviu para disfarçar tanto quanto foi possível os erros de contratações da pré-época: não se preencheu o imenso lugar vazio de Bruno Alves no centro da defesa; sem Álvaro Pereira, não há quem faça o corredor esquerdo; falta um verdadeiro médio de ataque ao lado do Belluschi, que não seja o inócuo João Moutinho ou o triste e deprimido Rúben Micael; não há quem nos livre dos constantes sobressaltos e baldas de Fernando; e não há, claro, nem sombra de alternativa a Falcão (e pensar que pagaram seis milhões por 75% do passe de Walter, enquanto Liedson foi vendido por dois milhões e Matheus por milhão e meio!).
Mas, chegados ao tal joguinho do dia 2, o primeiro a doer, o departamento médico do FC Porto não conseguiu recuperar nem Álvaro Pereira, nem Falcão e ainda deu baixa ao único central de jeito que por lá anda — Otamendi. E foi o que se viu: em 25 minutos, o eixo do mal — Helton, Rolando, Maicon e Fernando — tinha entregue a eliminatória da Taça ao Benfica. Os quatro têm em comum várias coisas: serem o eixo frontal da defesa, aquele que não pode falhar; serem todos altos, mas lentos e simultaneamente precipitados, sem pensar antes de executar; terem todos imensas dificuldades em fazer passes de meia-distância e em sair com a bola jogável da defesa. Escreveu-se que Jesus deu um banho de táctica a Villas Boas, com a estratégia da «pressão alta». Bom, não digo que não, mas, alta ou baixa, basta pôr pressão naquele quarteto e algum ou alguns deles hão-de falhar. Para azar nosso, naquela noite falharam todos ao mesmo tempo. Acontece que, tirando o jogo com o Benfica, há três ou quatro jogos, há um mês, que Helton não tem de fazer uma única defesa, porque os adversários, pura e simplesmente, não rematam à nossa baliza. O Benfica rematou três vezes e marcou dois golos. Não foi o Benfica que ganhou o jogo, foi o Porto que o entregou. A tal «pressão alta» só existiu até ao 0-2: a partir daí, o Benfica só defendeu — defendeu bem e em pressão baixíssima, mas nada mais. E Villas Boas ainda deu uma ajuda, com três substituições a despropósito e a destempo. É verdade que o banco é uma tristeza, mas tirar James para pôr Rodriguez e tirar Belluschi para pôr Guarín foi entregar o resto do ouro ao bandido. Extraordinária a sua declaração, quando o questionaram sobre a ausência de um ponta-de-lança no banco- podia ter dito, e todos o percebiam, que, entre Walter e ninguém, tinha preferido ninguém, apostando em como não iria precisar de um ponta-de-lança. Mas, em vez disso, saiu-se com a inimaginável explicação de que Guarín, Rúben Micael, Rodriguez e Mariano (!) lhe davam «garantias de profundidade ofensiva». Viu-se: nem uma oportunidade de golo em toda a segunda parte!
A seguir, ainda houve que suportar o penoso jogo contra o Rio Ave, onde Hulk se apagou (também tem direito a um dia de folga!), e o Porto se reduziu à condição de equipa banalíssima. «Sobrecarga de jogos», explicou André Villas Boas. Como? Contra o Gil Vicente, o Beira-Mar, o Nacional, o Tou-rizense ou o Rio Ave («uma excelente equipa», como sentenciou Varela) — tudo no Dragão? Bem, a seguir vem o Braga, fora, e o Sevilha. Felizmente, não vou estar cá para ver, vou apenas sofrer à distância, de muito longe. E angustiado por saber que temos apenas três grandes jogadores — Hulk, Álvaro e Falcão — e outros três bons, mas intermitentes — Belluschi, James e Varela. E que, quem de três tira dois, fica absolutamente exposto, que é o que nós estamos agora. Oxalá esta curta manta consiga ainda ir encobrindo os pés e tapando a cabeça!
3- Vendido por 25 milhões (35 é cosmética para jornalistas amigos), David Luiz foi muito bem vendido. Muito embora longe dos 50 milhões que Luís Filipe Vieira se gabava de ter como oferta há um ano, a verdade é que, em minha opinião, David Luiz não vale 25 milhões: Bruno Alves é bem melhor do que ele e foi vendido por menos. E as suas abundantes cotoveladas na cara dos adversários não gozarão em Inglaterra da mesma impunidade que aqui sempre foi lei.
terça-feira, outubro 18, 2011
O PIRÓMANO, O QUEIMADO E OS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS (01 FEVEREIRO 2011)
1- “Vieira aquece o clássico”, titulava A BOLA na edição de domingo, acrescentando a abrir o texto:”Filipe Vieira ao ataque, a poucos dias do Benfica visitar o Dragão.” Ora, se não estou enganado, este é o terceiro Benfica-Porto consecutivo que é antecedido por declarações do presidente do Benfica, destinadas a aquecer o clássico – e que, felizmente, têm sempre encontrado do outro lado, por parte de Pinto da Costa, uma resposta de absoluto silêncio.
Salvo melhor opinião, o clássico não precisa de ser aquecido, previamente e fora do estádio, e os resultados do voluntarismo térmico do presidente do Benfica têm sido, aliás, contraproducentes para as suas cores: 1-3, para o campeonato na época passada; 0-2 na Supertaça, já esta época; e 0-5, para o campeonato deste ano. Os únicos resultados previsíveis e visíveis dos ataques prévios do presidente do Benfica são as reacções correspondentes de alguns adeptos do Porto, que acham que atacando à pedrada o autocarro do Benfica ou atirando bolas de golfe ao seu guarda-redes, também estão a contribuir saudavelmente para aquecer o espectáculo. Mas a verdade é que quem chega o fósforo à palha, não pode depois vir queixar-se do incêndio.
Luís Filipe Vieira não é nenhum incendiário: é uma pessoa normal, civilizada e cordata. Não tem de comprar guerras extra-futebol, que nada de bom trazem ao futebol ou até ao seu clube. Nunca é de mais lembrar o exemplo do seu antecessor Vale e Azevedo, que chegou a presidente do Benfica apenas com um programa de governo: o ódio ao FC Porto. E o que conseguiu ele? Títulos, zero. Prestígio para o clube, zero. Conseguiu sim, um ódio generalizado ao Benfica da parte de todos os não benfiquistas, o encobrimento que precisava para as suas manobras de esbulho ao próprio clube e a divisão interna.
Vieira não tem nada a ver com isso e devia fugir das semelhanças de atitude. Não tem de se queixar da hipocrisia da Comissão Disciplinar da Liga, mandando instaurar um inquérito ao treinador do Benfica e ao jogador do Nacional, porque ele sabe que o País inteiro viu o murro de Jorge Jesus a Luís Alberto, enquanto Hulk e Sapunaru, emboscados no túnel da Luz, foram logo previamente suspensos por agressões que, até hoje, ninguém viu claramente. E estou à vontade para dizer isto, porque ainda a semana passada aqui defendi, e mantenho, que o assunto deve ser passado adiante, com um aviso ou uma multa simbólica. Mas não deve nem pode ser alvo do tratamento, esse sim hipócrita, que defende que o presidente do Benfica: como, se todos vimos? Uma coisa é defender, como eu defendo, que o incidente, ocorrido a quente, não deve ser tratado como uma falta disciplinar gravíssima; outra coisa é passar da posição de réu à de acusador, como se o Benfica estivesse acima e fora da tão invocada justiça desportiva.
E também não entendo, francamente, como é que Vieira pode falar, sem concretizar, no “aliciamento de um jogador” por parte de “um clube”, queixando-se que a CD da Liga nada fez. De quem estaria ele a falar? Com certeza que não era dos recentes e inqulificáveis aliciamentos levados a cabo pelo Benfica, junto do jogador Nuno Coelho, da Académica, poucos dias antes do jogo entre ambos, ou do aliciamento de Jardel, do Olhanense, no próprio dia do jogo entre os dois clubes. Aí, sim, é que o silêncio e a passividade da CD se tornaram ensurdecedores e escandalosos.
Curioso é que, na época passada, Luís Filipe Vieira usou de uma inabitual continência nos seus habitualmente tumultuosos discursos, de cada vez que visita uma casa do Benfica (como se o povo lhe pedisse sangue e ele não conseguisse resistir. E, enquanto ele ficava calado, o Benfica ia ganhando e jogando bem, à vista de todos. Pelo que, seria talvez digno de estudo perceber se é por ele se calar que o Benfica ganha ou se é por o Benfica não ganhar que ele não se cala. Seja qual for a verdadeira relação de causa-efeito, o que eu sei é que, se amanhã o Benfica se calar no Dragão, como eu tanto desejo, Vieira ficará a falar sozinho. E isso é sempre triste.
2- José António Camacho voltou a ser desmancha-prazeres de José Mourinho e, desta vez, deixou o português metido num sarilho – para o qual, reconheça-se, ele próprio muito contribuiu. Com a derrota em Navarra, Mourinho ficou a sete pontos do Barça e, pior ainda, com a dificuldade de explicar como é que um ataque que dispõe de Ronaldo, Di Maria, Ozil, Benzema, e, no banco, Kaká (e agora o tão exigido segundo ponta-de-lança, Adebayor) não consegue marcar um golo ao 16º do campeonato espanhol e só consegue marcar dois golos nos últimos três jogos. Vamos ser imparciais – (coisa que muito poucos portugueses conseguem, tratando-se de José Mourinho): ganhar um campeonato a esta equipa do Barcelona, talvez a melhor da história do futebol de todos os tempos, é missão praticamente impossível, com ou sem Hihuaín. É certo que Mourinho conseguiu, no ano passado, não ganhar-lhes o campeonato, mas afastá-los nas meias-finais da Champions, e por isso Florentino Pérez o foi buscar, deitando fora um treinador que, todavia, havia feito um notável campeonato à frente do Madrid. Mas, se bem que se vá tornando uma obsessão madrilista derrotar o Barça, põr-lhe fim ao reinado, os reais pergaminhos do Real também não consentem que, para tal, Mourinho aplique ali a receita de sucesso usada no Inter. Valdano viu o jogo de Camp Nou, onde um Inter menor afastou a melhor equipa do mundo da Champions: viu e, como milhões de adeptos do futebol no mundo inteiro, não gostou do que viu e disse-o. Mourinho jamais lhe perdoou isso, viu em Valdano o potencial chefe dos críticos ao tipo de futebol a que, para ganhar, ele sabia que um dia teria de recorrer. Mourinho foi contratado para fazer aquilo que ele faz melhor que ninguém: ganhar, ganhar sempre. Só que ganhar sempre, sempre, é impossível: nenhum treinador do mundo ganharia um campeonato a este Barcelona. Pode haver sorte, ciência, circunstâncias momentâneas, que permitam derrotar o Barça num ou dois jogos a eliminar; mas, numa competição de fundo, como um campeonato, é impossível.
Tendo esticado a corda contra tudo e contra todos – Valdano, Benzema, os árbitros, os jornalistas, os outros treinadores -, José Mourinho lançou-se ao arrepio das tradições majestáticas do grande Real Madrid, semeando uma floresta de inimigos a perder de vista. E, nesse combate desesperado, só lhe resta uma saída, que é ganhar sozinho, contra todos. A partir de domingo, com a derrota frente ao Osasuna, tornou-se quase inevitável não o conseguir. E o que fará ele se, pela primeira vez na vida, experimentar o amargo sabor da derrota?
3- Confesso que tenho lido distraidamente a infindável e insondável querela da renovação dos estatutos da Federação. Do que percebi, o politicamente correcto está do lado dos renovadores, que tentam impor a modernidade a umas velhas carcassas do norte, que, francamente, já há muito deveriam ter ido para casa. Parecia-me, pois, fácil de decidir de que lado estava a razão. Mas, depois, comecei a estranhar algumas coisas: que alguns daqueles que tanto escreveram sobre a imperiosa necessidade de deixar os governos fora do futebol, agora apoiem com entusiasmo o que, boa ou má, é claramente uma ingerência do Governo na regulação própria das estruturas do futebol; depois, percebi que, renovados os estatutos e atingida a modernidade, afinal a coisa continuaria tal e qual, com Gilberto Madaíl, agora renovado, a dirigir a Federação; e, enfim, dei-me conta de que os advogados benfiquistas habituais são todos entusiásticos defensores da regeneração. E aí, confesso, já comecei a suspeitar que pode acontecer que nem tudo seja o que parece.
Salvo melhor opinião, o clássico não precisa de ser aquecido, previamente e fora do estádio, e os resultados do voluntarismo térmico do presidente do Benfica têm sido, aliás, contraproducentes para as suas cores: 1-3, para o campeonato na época passada; 0-2 na Supertaça, já esta época; e 0-5, para o campeonato deste ano. Os únicos resultados previsíveis e visíveis dos ataques prévios do presidente do Benfica são as reacções correspondentes de alguns adeptos do Porto, que acham que atacando à pedrada o autocarro do Benfica ou atirando bolas de golfe ao seu guarda-redes, também estão a contribuir saudavelmente para aquecer o espectáculo. Mas a verdade é que quem chega o fósforo à palha, não pode depois vir queixar-se do incêndio.
Luís Filipe Vieira não é nenhum incendiário: é uma pessoa normal, civilizada e cordata. Não tem de comprar guerras extra-futebol, que nada de bom trazem ao futebol ou até ao seu clube. Nunca é de mais lembrar o exemplo do seu antecessor Vale e Azevedo, que chegou a presidente do Benfica apenas com um programa de governo: o ódio ao FC Porto. E o que conseguiu ele? Títulos, zero. Prestígio para o clube, zero. Conseguiu sim, um ódio generalizado ao Benfica da parte de todos os não benfiquistas, o encobrimento que precisava para as suas manobras de esbulho ao próprio clube e a divisão interna.
Vieira não tem nada a ver com isso e devia fugir das semelhanças de atitude. Não tem de se queixar da hipocrisia da Comissão Disciplinar da Liga, mandando instaurar um inquérito ao treinador do Benfica e ao jogador do Nacional, porque ele sabe que o País inteiro viu o murro de Jorge Jesus a Luís Alberto, enquanto Hulk e Sapunaru, emboscados no túnel da Luz, foram logo previamente suspensos por agressões que, até hoje, ninguém viu claramente. E estou à vontade para dizer isto, porque ainda a semana passada aqui defendi, e mantenho, que o assunto deve ser passado adiante, com um aviso ou uma multa simbólica. Mas não deve nem pode ser alvo do tratamento, esse sim hipócrita, que defende que o presidente do Benfica: como, se todos vimos? Uma coisa é defender, como eu defendo, que o incidente, ocorrido a quente, não deve ser tratado como uma falta disciplinar gravíssima; outra coisa é passar da posição de réu à de acusador, como se o Benfica estivesse acima e fora da tão invocada justiça desportiva.
E também não entendo, francamente, como é que Vieira pode falar, sem concretizar, no “aliciamento de um jogador” por parte de “um clube”, queixando-se que a CD da Liga nada fez. De quem estaria ele a falar? Com certeza que não era dos recentes e inqulificáveis aliciamentos levados a cabo pelo Benfica, junto do jogador Nuno Coelho, da Académica, poucos dias antes do jogo entre ambos, ou do aliciamento de Jardel, do Olhanense, no próprio dia do jogo entre os dois clubes. Aí, sim, é que o silêncio e a passividade da CD se tornaram ensurdecedores e escandalosos.
Curioso é que, na época passada, Luís Filipe Vieira usou de uma inabitual continência nos seus habitualmente tumultuosos discursos, de cada vez que visita uma casa do Benfica (como se o povo lhe pedisse sangue e ele não conseguisse resistir. E, enquanto ele ficava calado, o Benfica ia ganhando e jogando bem, à vista de todos. Pelo que, seria talvez digno de estudo perceber se é por ele se calar que o Benfica ganha ou se é por o Benfica não ganhar que ele não se cala. Seja qual for a verdadeira relação de causa-efeito, o que eu sei é que, se amanhã o Benfica se calar no Dragão, como eu tanto desejo, Vieira ficará a falar sozinho. E isso é sempre triste.
2- José António Camacho voltou a ser desmancha-prazeres de José Mourinho e, desta vez, deixou o português metido num sarilho – para o qual, reconheça-se, ele próprio muito contribuiu. Com a derrota em Navarra, Mourinho ficou a sete pontos do Barça e, pior ainda, com a dificuldade de explicar como é que um ataque que dispõe de Ronaldo, Di Maria, Ozil, Benzema, e, no banco, Kaká (e agora o tão exigido segundo ponta-de-lança, Adebayor) não consegue marcar um golo ao 16º do campeonato espanhol e só consegue marcar dois golos nos últimos três jogos. Vamos ser imparciais – (coisa que muito poucos portugueses conseguem, tratando-se de José Mourinho): ganhar um campeonato a esta equipa do Barcelona, talvez a melhor da história do futebol de todos os tempos, é missão praticamente impossível, com ou sem Hihuaín. É certo que Mourinho conseguiu, no ano passado, não ganhar-lhes o campeonato, mas afastá-los nas meias-finais da Champions, e por isso Florentino Pérez o foi buscar, deitando fora um treinador que, todavia, havia feito um notável campeonato à frente do Madrid. Mas, se bem que se vá tornando uma obsessão madrilista derrotar o Barça, põr-lhe fim ao reinado, os reais pergaminhos do Real também não consentem que, para tal, Mourinho aplique ali a receita de sucesso usada no Inter. Valdano viu o jogo de Camp Nou, onde um Inter menor afastou a melhor equipa do mundo da Champions: viu e, como milhões de adeptos do futebol no mundo inteiro, não gostou do que viu e disse-o. Mourinho jamais lhe perdoou isso, viu em Valdano o potencial chefe dos críticos ao tipo de futebol a que, para ganhar, ele sabia que um dia teria de recorrer. Mourinho foi contratado para fazer aquilo que ele faz melhor que ninguém: ganhar, ganhar sempre. Só que ganhar sempre, sempre, é impossível: nenhum treinador do mundo ganharia um campeonato a este Barcelona. Pode haver sorte, ciência, circunstâncias momentâneas, que permitam derrotar o Barça num ou dois jogos a eliminar; mas, numa competição de fundo, como um campeonato, é impossível.
Tendo esticado a corda contra tudo e contra todos – Valdano, Benzema, os árbitros, os jornalistas, os outros treinadores -, José Mourinho lançou-se ao arrepio das tradições majestáticas do grande Real Madrid, semeando uma floresta de inimigos a perder de vista. E, nesse combate desesperado, só lhe resta uma saída, que é ganhar sozinho, contra todos. A partir de domingo, com a derrota frente ao Osasuna, tornou-se quase inevitável não o conseguir. E o que fará ele se, pela primeira vez na vida, experimentar o amargo sabor da derrota?
3- Confesso que tenho lido distraidamente a infindável e insondável querela da renovação dos estatutos da Federação. Do que percebi, o politicamente correcto está do lado dos renovadores, que tentam impor a modernidade a umas velhas carcassas do norte, que, francamente, já há muito deveriam ter ido para casa. Parecia-me, pois, fácil de decidir de que lado estava a razão. Mas, depois, comecei a estranhar algumas coisas: que alguns daqueles que tanto escreveram sobre a imperiosa necessidade de deixar os governos fora do futebol, agora apoiem com entusiasmo o que, boa ou má, é claramente uma ingerência do Governo na regulação própria das estruturas do futebol; depois, percebi que, renovados os estatutos e atingida a modernidade, afinal a coisa continuaria tal e qual, com Gilberto Madaíl, agora renovado, a dirigir a Federação; e, enfim, dei-me conta de que os advogados benfiquistas habituais são todos entusiásticos defensores da regeneração. E aí, confesso, já comecei a suspeitar que pode acontecer que nem tudo seja o que parece.
terça-feira, outubro 11, 2011
AS TRÉGUAS ESTÃO A CHEGAR AO FIM (25 JANEIRO 2011)
1- Nos últimos dez jogos, o FC Porto só disputou dois fora de casa e ambos para o campeonato: em Paços de Ferreira (vitória por 3-0, justa mas com resultado enganador) e o do último sábado, em Aveiro. Pelo meio, não saiu do conforto do Dragão, para mais recebendo equipas fracas e até de divisões inferiores, em jogos de relativa importância. Desde o fantástico desempenho contra o Rapid, num relvado transformado em ringue de patinagem no gelo, no já distante 2 de Dezembro, é possível dizer que nunca mais a equipa do FC Porto foi posta verdadeiramente à prova. E o que é curioso é que se até aí a equipa tinha revelado solidez e qualidade crescentes, ultrapassando com brilho os adversários internos e externos, foi a partir daí, quando entrou num período de quase dois meses do que se poderia classificar como descanso activo (um luxo que não existe lá fora, onde qualquer competição interna é a doer), que o FC Porto começou a acusar debilidades e a revelar zonas de mediocridade preocupantes.
Em vão se recorrerá aos chavões habituais de que a equipa é «coerente», está «coesa» ou revela «competência» — esse palavreado de que os treinadores tanto gostam e que não quer dizer nada. À vista de todos e das progressivamente despidas bancadas do Dragão, basta retirar do jogo algum dos três elementos de luxo desta equipa, e toda a estrutura abana, de trás para a frente. Vai-se ganhando, mas já só quase à custa do desequilíbrio fundamental que um jogador de excepção como o Hulk consegue meter no jogo e que compensa, por enquanto, um futebol sem velocidade e rasgo, sem tensão nem urgência de vitória, revelando alguns casos de absoluta incompetência e outros de incapacidade de manter um nível exibicional alto mais do que um mês de seguida. De bom, apenas a revelação de James Rodriguez, a confirmação do valor de Otamendi e a melhor época do Helton, desde que lá está. E, vá lá, um Guarín mais esclarecido e útil do que aquilo que se lhe conhecia. A hipótese boa é que este ciclo de mediocridade sobrevivente foi cientificamente planeado para coincidir com um período anormalmente favorável do calendário desportivo, permitindo à equipa recuperar forças para depois reaparecer no pleno das suas qualidades já antes vistas, e justamente quando tal for mais necessário. Estaria assim a aproveitar estas tréguas competitivas e a administrar os lucros amealhados, aqui e na Europa, por um começo de época ao seu melhor nível. Segue-se o jogo antecipado para o campeonato, contra o Nacional, amanhã no Dragão (que, dado o recente desaire, já saiu da categoria de jogo fácil) e a deslocação a Barcelos, para a Taça da Liga, já sem grandes motivações. E ponto final nas tréguas competitivas: no mês que se segue, a iniciar em 2 de Fevereiro, poderá vir logo o jogo do Dragão com o Benfica (caso este ultrapasse nos quartos-de-final o Rio Ave, dia 26), para a meia-final da Taça de Portugal; depois, recepção ao Rio Ave e deslocação a Braga, para a Liga; a seguir, os dois jogos com o Sevilha, e, finalmente, no espaço de 4 dias, uma descida a Olhão, para o campeonato, e outra (provável) à Luz, para decidir a presença no Jamor.
Tal como eu vejo as coisas, quer isto dizer que, neste momento, o desfecho próximo e feliz desta equipa está nas mãos do departamento médico: quanto mais tempo demorarem a devolver o Falcão e o Álvaro Pereira maiores são as hipóteses de o FC Porto não passar incólume pelo conturbado mês de Fevereiro. Porque uma coisa é seguramente certa: não é com o Walter ou o Emídio Rafael que vamos caçar águias e dançar sevilhanas.
Este sábado, vendo o FC Porto jogar em Aveiro, na companhia de três apaixonados portistas, constatei que estava longe de ser o único apreensivo com o que vamos vendo. A vitória, de facto, nunca esteve em dúvida, conforme toda a imprensa salientou (enfim, não li o Jornal do Benfica...): o Beira-Mar não criou nada que remotamente se pudesse assemelhar a uma ocasião de golo e o Helton não teve de fazer uma só defesa; em contrapartida, o James, o Cristian Rodriguez e o Varela desperdiçaram quatro oportunidades para outro desfecho que não o de magra vitória por 1-0, de penalty; e o penalty, como qualquer pessoa que algum dia jogou futebol, ou percebe um mínimo do assunto, viu, foi mesmo real e não inventado, excepto para os fanáticos adversários habituais. Mas se a vitória foi incontestável, o diagnóstico unânime desta pequena assembleia de quatro portistas também o foi: não jogámos nada. Mais uma vez — sim, mais uma vez. Houve o caso gritante do Varela, que, não se percebeu porquê, André Villas Boas seviciou durante 75 minutos, obrigando-o a jogar um jogo que manifestamente não queria disputar; houve a incompreensível aposta em Rafael, em vez de Fucile, no lado esquerdo da defesa, que apenas serviu para tentar trazer alguma emoção ao jogo, proporcionando ao Beira-Mar uma série de livres, aproveitando as sucessivas faltas cometidas por ele para conseguir enviar a bola para a área azul; houve a recorrente lentidão do Rolando, a pensar, a correr, a cortar e a passar, mostrando como a presença tutelar do Bruno Alves encobria tanta coisa; e houve, do meu ponto de vista, o também habitual génio escondido do João Moutinho, com o qual e sem o qual nada de essencial acontece. E houve, sobretudo, mais uma meia hora inicial desperdiçada em coisa alguma, como se não houvesse pressa em ganhar os jogos; uma grande posse de bola com sucessivos passes transviados e sem uma ideia estratégica; cantos e mais cantos invariavelmente cobrados a meia altura para a defesa próxima afastar sem problemas; e, com excepção de Hulk, uma ausência de vontade, já não digo de nos dar ópera, mas de mostrar que ali está o líder merecido deste campeonato, um conjunto de jogadores «unidos para vencer/ ansiosos por fazer/ deste Porto campeão».
Volto à tese optimista: é apenas um mal passageiro, uma gestão estratégica da temporada, feita de ciclos, de avanços e recuos, até à vitória final. Sinceramente, é o que eu acredito. Mas está na hora de mudar de ciclo e nada melhor do que o departamento médico estar consciente disso.
2- A pequena assembleia de portistas, confrontada a seguir com o dilema entre ver o jogo do Benfica ou fazer as honras a um empadão de perdizes, caçadas nas terras baixas do Guadiana, optou por este, após vinte minutos de visionamento do jogo dos rivais. Não porque desta vez, devo confessá-lo, o futebol do Benfica me tenha causado um sono irresistível, mas justamente pelo contrário, e não só: deu-nos a fome e uma indisfarçável apreensão ao constatar o contraste entre a nossa pasmaceira habitual e inicial e a cavalgada com que os encarnados se atiraram logo ao jogo deles, em vagas sucessivas de desvairados atacantes e com tal fúria que eu desafio os descodificadores tácticos do futebol a dizerem-me que raio de esquema de jogo é aquele: será o 4x2x3x1, o 4x1x3x2 ou o todos prá frente até que a bola entre? Verdade, verdadinha, é que eles estão a jogar bem mais do que nós. O que nos safa é que tudo isto é passageiro e estratégico. Logo, logo, regressa a normalidade. Mas, mesmo assim, se o departamento médico...(ao menos a tempo do provável joguinho de dia 2...).
3- Talvez Jorge Jesus tenha dado um murro ao Luís Alberto, do Nacional, e talvez este tenha devolvido o murro. Ou talvez tudo não tenha passado de uns «empurrões». De certeza que não é importante, são coisas que acontecem a quente, depois dos jogos. Não vale a pena arranjar mais um folhetim, com ameaças de suspensões que vão de quinze dias a dois anos! Já bastou o túnel do ano passado e a imbecilidade de uma justiça desportiva — que, à semelhança de toda a justiça deste pais, é adjectiva e formalista em lugar de ser substantiva e lógica — para perceber que o que mais interessa é que jogadores e treinadores, salvo situações verdadeiramente graves e inultrapassáveis, estejam no seu lugar, no terreno de jogo e os juizes desportivos que vão dar uma volta ao bilhar grande.
Em vão se recorrerá aos chavões habituais de que a equipa é «coerente», está «coesa» ou revela «competência» — esse palavreado de que os treinadores tanto gostam e que não quer dizer nada. À vista de todos e das progressivamente despidas bancadas do Dragão, basta retirar do jogo algum dos três elementos de luxo desta equipa, e toda a estrutura abana, de trás para a frente. Vai-se ganhando, mas já só quase à custa do desequilíbrio fundamental que um jogador de excepção como o Hulk consegue meter no jogo e que compensa, por enquanto, um futebol sem velocidade e rasgo, sem tensão nem urgência de vitória, revelando alguns casos de absoluta incompetência e outros de incapacidade de manter um nível exibicional alto mais do que um mês de seguida. De bom, apenas a revelação de James Rodriguez, a confirmação do valor de Otamendi e a melhor época do Helton, desde que lá está. E, vá lá, um Guarín mais esclarecido e útil do que aquilo que se lhe conhecia. A hipótese boa é que este ciclo de mediocridade sobrevivente foi cientificamente planeado para coincidir com um período anormalmente favorável do calendário desportivo, permitindo à equipa recuperar forças para depois reaparecer no pleno das suas qualidades já antes vistas, e justamente quando tal for mais necessário. Estaria assim a aproveitar estas tréguas competitivas e a administrar os lucros amealhados, aqui e na Europa, por um começo de época ao seu melhor nível. Segue-se o jogo antecipado para o campeonato, contra o Nacional, amanhã no Dragão (que, dado o recente desaire, já saiu da categoria de jogo fácil) e a deslocação a Barcelos, para a Taça da Liga, já sem grandes motivações. E ponto final nas tréguas competitivas: no mês que se segue, a iniciar em 2 de Fevereiro, poderá vir logo o jogo do Dragão com o Benfica (caso este ultrapasse nos quartos-de-final o Rio Ave, dia 26), para a meia-final da Taça de Portugal; depois, recepção ao Rio Ave e deslocação a Braga, para a Liga; a seguir, os dois jogos com o Sevilha, e, finalmente, no espaço de 4 dias, uma descida a Olhão, para o campeonato, e outra (provável) à Luz, para decidir a presença no Jamor.
Tal como eu vejo as coisas, quer isto dizer que, neste momento, o desfecho próximo e feliz desta equipa está nas mãos do departamento médico: quanto mais tempo demorarem a devolver o Falcão e o Álvaro Pereira maiores são as hipóteses de o FC Porto não passar incólume pelo conturbado mês de Fevereiro. Porque uma coisa é seguramente certa: não é com o Walter ou o Emídio Rafael que vamos caçar águias e dançar sevilhanas.
Este sábado, vendo o FC Porto jogar em Aveiro, na companhia de três apaixonados portistas, constatei que estava longe de ser o único apreensivo com o que vamos vendo. A vitória, de facto, nunca esteve em dúvida, conforme toda a imprensa salientou (enfim, não li o Jornal do Benfica...): o Beira-Mar não criou nada que remotamente se pudesse assemelhar a uma ocasião de golo e o Helton não teve de fazer uma só defesa; em contrapartida, o James, o Cristian Rodriguez e o Varela desperdiçaram quatro oportunidades para outro desfecho que não o de magra vitória por 1-0, de penalty; e o penalty, como qualquer pessoa que algum dia jogou futebol, ou percebe um mínimo do assunto, viu, foi mesmo real e não inventado, excepto para os fanáticos adversários habituais. Mas se a vitória foi incontestável, o diagnóstico unânime desta pequena assembleia de quatro portistas também o foi: não jogámos nada. Mais uma vez — sim, mais uma vez. Houve o caso gritante do Varela, que, não se percebeu porquê, André Villas Boas seviciou durante 75 minutos, obrigando-o a jogar um jogo que manifestamente não queria disputar; houve a incompreensível aposta em Rafael, em vez de Fucile, no lado esquerdo da defesa, que apenas serviu para tentar trazer alguma emoção ao jogo, proporcionando ao Beira-Mar uma série de livres, aproveitando as sucessivas faltas cometidas por ele para conseguir enviar a bola para a área azul; houve a recorrente lentidão do Rolando, a pensar, a correr, a cortar e a passar, mostrando como a presença tutelar do Bruno Alves encobria tanta coisa; e houve, do meu ponto de vista, o também habitual génio escondido do João Moutinho, com o qual e sem o qual nada de essencial acontece. E houve, sobretudo, mais uma meia hora inicial desperdiçada em coisa alguma, como se não houvesse pressa em ganhar os jogos; uma grande posse de bola com sucessivos passes transviados e sem uma ideia estratégica; cantos e mais cantos invariavelmente cobrados a meia altura para a defesa próxima afastar sem problemas; e, com excepção de Hulk, uma ausência de vontade, já não digo de nos dar ópera, mas de mostrar que ali está o líder merecido deste campeonato, um conjunto de jogadores «unidos para vencer/ ansiosos por fazer/ deste Porto campeão».
Volto à tese optimista: é apenas um mal passageiro, uma gestão estratégica da temporada, feita de ciclos, de avanços e recuos, até à vitória final. Sinceramente, é o que eu acredito. Mas está na hora de mudar de ciclo e nada melhor do que o departamento médico estar consciente disso.
2- A pequena assembleia de portistas, confrontada a seguir com o dilema entre ver o jogo do Benfica ou fazer as honras a um empadão de perdizes, caçadas nas terras baixas do Guadiana, optou por este, após vinte minutos de visionamento do jogo dos rivais. Não porque desta vez, devo confessá-lo, o futebol do Benfica me tenha causado um sono irresistível, mas justamente pelo contrário, e não só: deu-nos a fome e uma indisfarçável apreensão ao constatar o contraste entre a nossa pasmaceira habitual e inicial e a cavalgada com que os encarnados se atiraram logo ao jogo deles, em vagas sucessivas de desvairados atacantes e com tal fúria que eu desafio os descodificadores tácticos do futebol a dizerem-me que raio de esquema de jogo é aquele: será o 4x2x3x1, o 4x1x3x2 ou o todos prá frente até que a bola entre? Verdade, verdadinha, é que eles estão a jogar bem mais do que nós. O que nos safa é que tudo isto é passageiro e estratégico. Logo, logo, regressa a normalidade. Mas, mesmo assim, se o departamento médico...(ao menos a tempo do provável joguinho de dia 2...).
3- Talvez Jorge Jesus tenha dado um murro ao Luís Alberto, do Nacional, e talvez este tenha devolvido o murro. Ou talvez tudo não tenha passado de uns «empurrões». De certeza que não é importante, são coisas que acontecem a quente, depois dos jogos. Não vale a pena arranjar mais um folhetim, com ameaças de suspensões que vão de quinze dias a dois anos! Já bastou o túnel do ano passado e a imbecilidade de uma justiça desportiva — que, à semelhança de toda a justiça deste pais, é adjectiva e formalista em lugar de ser substantiva e lógica — para perceber que o que mais interessa é que jogadores e treinadores, salvo situações verdadeiramente graves e inultrapassáveis, estejam no seu lugar, no terreno de jogo e os juizes desportivos que vão dar uma volta ao bilhar grande.