1- Aos 88 minutos do FC Porto-V. Setúbal do outro fim-de-semana, Elmano Santos assinalou penâlty contra o Porto, quando havia 1-0. O penalty caiu do céu para o Setúbal, que até aí não criara uma só ocasião de golo. Durante toda a primeira parte tinha-se limitado a montar um muro de Berlim à frente do ataque do Porto e a distribuir pancadaria à larga, perante a complacência de Elmano Santos e com todo o aspecto de estratégia de intimidação pensada e executada. Isso, mais três ou quatro defesas fantásticas do seu guarda-redes, tinham feito com que se chegasse ao minuto 88 com o FC Porto apenas com a periclitante vantagem de um golo. Para mais, um golo nascido de um penalty que, realmente, ninguém enxergou. Mas quero sossegar o portista Paulo Teixeira Pinto, que escreveu que, não tendo visto o jogo, ficou triste porque o nosso clube, ao que rezaram as crónicas, só tinha ganho graças a um penaify injusto. É verdade que sim, mas também é verdade que não: aos 88 minutos, Elmano Santos compensou esse penalty oferecendo também um ao Vitória, por uma falta que aconteceu sim, mas fora da área. Ou seja: o FC Porto ganhou, de facto, com um penalty que não terá existido, mas só ganhou porque o Vitória, que dispôs da mesma oferta, a desperdiçou e o FC Porto não. E disso o árbitro não teve culpa.
Aconteceu também que Jailson cobrou o penalty a favor do Vitória e fez golo. Mas o árbitro não tinha apitado e, logicamente, mandou repetir - e, na repetição, Jailson atirou por cima. O que eles foram fazer! O árbitro (que apitou 90 minutos sempre e sempre ostensivamente contra o Porto, apenas com o deslize do penalty a seu favor), foi crucificado. Eminentes benfiquistas arrolaram um argumento demolidor: será que, se a primeira cobrança do penâlty tem falhado, o árbitro mandaria repetir? Repare-se: ninguém questiona que, de facto, o árbitro não tinha apitado para a cobrança (e todos sabem que é preciso apitar para a cobrança de um penalty). Ninguém, no estádio ou na televisão, ouviu o apito, não há um registo de som que o comprove. Mas, que importa isso, para eles? Importa que o árbitro mandou repetir e a repetição salvou o Porto. Logo, o árbitro mandou repetir exactamente para salvar o Porto. Mas, se assim é, pergunto eu, porque razão, assinalou ele o penalty, quando a falta não foi evidente e, depois de vista em slow-motion, se percebeu que era fora da área? Se ele queria ajudar o Porto, porque inventou um penalty contra os azuis a dois minutos do fim?
E vivemos com este penalty e o outro a semana toda. Costinha veio declarar qualquer coisa sobre esperar que o Sporting não viesse a ter de pagar pelo prejuízo do Setúbal — uma clássica manobra de dois-em-um: lançar suspeitas sobre um rival no campeonato e preparar a arbitragem para o jogo da Taça com o Vitória. Depois de ver a prestação do Sporting em Setúbal, fica-se a pensar se Costinha não devia preocupar-se mais com o Sporting do que com os árbitros...
Também Jorge Jesus não resistiu a vir teorizar sobre o «critério dos penalties» e a curta distância a que o Benfica estaria do Porto se, segundo ele, o critério fosse uniforme. Pois, ele que fale. Mas o que nenhum penalty explica é aquilo que todos vimos: as duas tareias, sem apelo nem agravo, que o Benfica já levou do Porto, este ano; a vergonhosa campanha do Benfica na Champions; a nulidade do futebol que jogam — como ainda anteontem se viu, a jogar na Luz contra a quase reserva do Braga.
Jorge Jesus devia era tentar explicar que estranho fenómeno se passou com a sua equipa, para que, há seis meses atrás jogasse um futebol de vencedores, por todos reconhecido, e hoje jogue um futebol de vencidos, de gente sem garra e, aparentemente, sem vontade. Devia tentar contrariar isto que disse Jorge Araújo, treinador de basquetebol, que deu ao Benfica vários títulos nacionais, antes de rumar ao F.C Porto: «Deviam pôr os olhos na cultura desportiva do FC Porto. Eu vejo as entrevistas dos jogadores do FC Porto que estão lá há um mês e parece que estão há dez anos; e vejo as entrevistas dos jogadores do Benfica que estão lá há dez anos e parece que estão há um mês».
Pois, os penalties, as arbitragens, o sistema, o Apito Dourado, etc e tal, a lenga-lenga do costume. O problema é que, por mais fanatismo e cegueira que existam, o futebol é um jogo fácil de entender e, quem quer entender, entende. Desculpando-se com as arbitragens, a direcção do Benfica tentou (e fracassou) impedir os próprios adeptos do clube de irem ver os seus jogos, para que eles não vissem a verdade que estava à vista. Agora, pondera transferir a transmissão dos jogos para o espaço reservado do canal Benfica — tal qual as entrevistas do próprio Jorge Jesus, feitas em tranquilo ambiente com serventuários do clube a brincar aos jornalistas. Mas ainda faltam dois anos para que isso seja possível e, até lá, vamos vendo o Benfica em canal aberto ou na Sport TV. E o que vemos, meu caro Jorge Jesus, não dá para disfarçar. Apenas um exemplo: o Benfica-Académica, da 1ªjornada. Os benfiquistas vivem a alimentar a lenda de que houve um penalty por marcar, mais isto e aquilo, e só por isso é que não ganharam o jogo. Pois, talvez sim, talvez não, mas a verdade é que também aconteceu isto que eu vi: a Académica deu um banho de bola ao Benfica e mereceu mil vezes ganhar aquele jogo. Mas é tão mais fácil dizer que se perdeu por causa do árbitro!
2- Insisto: o futebol é um jogo simples de entender. Basta, por exemplo, um mínimo de conhecimento do assunto e um mínimo de experiência de observação para distinguir um bom jogador dum mau jogador, para distinguir um jogador que pode vir a ser um grande jogador de um que nunca passará da cepa torta. Estava a pensar nisso enquanto seguia na televisão o sonolento FC Porto-Juventude de Évora. O Álvaro Pereira não tem que enganar e não engana, desde o primeiro dia: é um fabuloso jogador. Ele, sozinho, mexe com toda a dinâmica atacante da equipa, sendo apenas defesa-es-querdo, tal qual o saudoso Branco, o melhor defesa-esquerdo que até hoje vi com aquela camisola. O Guarin, pelo contrário, jamais ultrapassará o seu Patamar de Peter, que é curto; jamais acertará regularmente um remate na baliza, por mais que tente, jamais será um distribuidor de jogo, por mais oportunidades que lhe dêem. O James Rodriguez, o miúdo que enfim se estreou em full-time, está na cara que tem tudo, todo o talento necessário, para vir a ser um grande jogador — quer como extremo-esquerdo, quer como um 10, as duas posições em que actuou anteontem. Mas isso não quer dizer que o seja, porque ele está naquela idade critica em que muito vai depender do empurrão que lhe der o treinador e da aposta que o clube queira fazer nele. E o FC Porto, infelizmente — e como se vê por tantas apostas adiadas na hora certa e depois desperdiçadas (de que o Candeias é um exemplo gritante)— tem o mau costume de, em lugar de puxar pelos miúdos, integrando-os aos poucos na equipe principal, mandar antes rodá-los em clubes menores, onde as condições de treino e os próprios treinadores são piores, o acompanhamento físico e clínico é débil e o futebol jogado não tem nada a ver com aquele que se exige a um jogador do FC Porto, em termos de cultura táctica e atitude competitiva. E assim se têm perdido grandes talentos potenciais ou já reais, a rodarem clubes e equipas onde eles só podem aprender o que não interessa. Espero bem que não venha a ser o caso deste miúdo James Rodriguez — seriam mais cinco milhões deitados à rua e um talento emergente desperdiçado por falta de coragem de apostar nele, ali e agora.
Como disse, a mim parece-me relativamente fácil distinguir os bons dos maus jogadores. Vejamos o Braga: quem são os grandes jogadores do Braga? Em minha opinião, dois: o central Rodriguez e o avançado Matheus. Mais nenhum. Mas há dois jovens que merecem a pena ser seguidos e estimulados: dois laterais — o Sílvio e este miúdo Guilherme, que vi jogar agora pela primeira vez, na Luz. Em contrapartida, ultrapassa-me a confiança que Domingos tem no Luís Aguiar, um jogador que se dá ares de grande craque, mas que, visto atentamente, não faz nada de bem feito, rigorosamente nada, ao longo de um jogo inteiro - nem sequer a cobrança de um livre ou de um canto.
E, depois, há os jogadores que confundem e não sabemos bem o que pensar deles. Voltando ao FC Porto, é o caso do Rúben Micael. Grande jogador no Nacional, fiquei feliz quando o vi chegar ao Dragão. Mas, fez dois bons primeiros jogos e eclipsou-se: nunca mais fez nada que merecesse registo. Hoje é um suplente, relativamente aproveitado, e parece conformado com esse estatuto. Joga a medo — um medo estampado na cara e no seu jogo, feito de passes para trás e para o lado, como se a bola o queimasse nos pés. Nunca tem um rasgo de ousadia, de inspiração, e raramente de lucidez. Chega atrasado a tudo o que interessa e, quando chega a tempo, é para adiantar de mais a bola e perdê-la. Dir-se-ia que desaprendeu de jogar bem - mas será que isso é possível?
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quinta-feira, setembro 08, 2011
terça-feira, setembro 06, 2011
A LIÇÃO DE VIENA (07 DEZEMBRO 2010)
1- A alegria incontida de André Villas Boas após o apito final do árbitro do terrível jogo de Viena foi compreendida e partilhada em simultâneo por todos os que vivem com paixão este grande clube azul e branco. Várias coisas coincidiram em Viena: a memória da inesquecível vitória contra o Bayern e também a memória da inesquecível vitória contra o Pena-rol, num estádio de Tóquio igualmente coberto de neve — ambas as coisas nessa fabulosa época de 1987. E, depois, a prova que faltava que este FCP de Villas Boas cumpre as melhores tradições da casa, jogando com a mesma vertigem da vitória em qualquer terreno e em qualquer circunstância — na neve do Pratter, na piscina de Coimbra, no vento da Madeira, em quintais de província e até em relvados normais e condições climatéricas normais. A mim, o que mais impressionou foi essa vontade de vencer aquele jogo, que nem sequer era dramaticamente importante, para, entre outras coisas, mostrar à bancada onde, numa feliz iniciativa, estavam os heróis de 87, que o espírito do Dragão continua vivo, inimitável entre nós, e logo motivo de todas as invejas, calúnias e maledicências. Sim, 23 anos depois, a caravana continua a passar e é motivo de orgulho para a cidade do Porto e para o Portugal que não é o dos Pequeninos.
Aliás, folheio os jornais desportivos do fim-de-semana, e o que vejo? Que o FC Porto tem algumas modalidades semi-amadoras, como o atletismo, o bilhar ou a natação (onde acabou de se consagrar campeão nacional feminino e vice-cam-peão masculino); que não tem outras que, por exemplo, tem o nosso principal rival, como o râguebi ou o futebol de salão (pomposamente chamado futsal); e que tem quatro modalidades profissionais e assumidas como tal: o futebol, o basquete, o andebol e o hóquei em patins. E onde estamos, em cada uma delas? No futebol, em primeiro lugar do campeonato, com oito pontos de avanço sobre o Benfica, nos dezaseis-avos da Liga Europa, como primeiro classificado do grupo e já com uma Supertaça na vitrina; no basquete, em primeiro, com sete vitórias e sete jogos — mais duas que o segundo classificado, o Benfica, igualmente; no andebol, em primeiro , com uma vitória a mais que o segundo, o ABC (e o Benfica em sexto); no hóquei, onde somos campeões há uma década, em primeiro, com nove vitórias e um empate e mais um ponto que o segundo — o Benfica, outra vez.
Ou seja: o sistema, como eles dizem, impôs-se aos túneis da verdade desportiva e extravasou as fronteiras do futebol, para abranger também todas as modalidades em que o FC Porto se envolve. Somos um pesadelo, somos uma praga, somos um fantasma inultrapassável. Somos uma nação!
2- Ontem à noite, contra o Setúbal, o FC Porto teve um jogo que acabou por se complicar, mas, a meu ver, não por culpa própria. Aos 15 minutos, já Elmano Santos tinha perdoado dois vermelhos directos a jogadores do Vitória, por duas autênticas agressões. Passado um pouco, permitiu que o Hulk fosse abalroado à ombrada, não percebi se dentro, se fora da área. Das três faltas, só assinalou uma e nem um amarelo mostrou. Aos 42 minutos, por indicação do auxiliar, marcou um penalty a favor do Porto que, para mim, não existiu. Na segunda parte, marcou falta e amarelo a Fucile por um corte em tackle limpíssimo e banal, e, no minuto seguinte, quando Falcão ia a entrar completamente sozinho na área, em posição frontal e com a bola dominada à sua frente, foi agarrado por Valdomiro e Elmano Santos mostrou-lhe o mesmo amarelo. Pelo meio, assinalou várias faltas a favor do Vitória que só existiram na sua imaginação, ao mesmo tempo que perdoava aos de Setúbal um jogo constantemente agressivo, por vezes a atingir a violência. Enfim, a dois minutos do fim, devolveu a única gentileza feita ao FC Porto, assinalando um penalty a favor do Vitória por uma falta ocorrida fora da área.
Foi Elmano Santos, com a sua atitude deliberada de permissividade total à agressividade do jogo do Vitória, quem acabou por enervar e desarticular a equipa do FC Porto. E é difícil acreditar que tudo aquilo foi inocente: há muito que não via uma arbitragem tão desequilibrada contra uma equipa. Achei realmente o cúmulo da lata que Manuel Fernandes se tenha vindo queixar da arbitragem no final. Ele, que comandou uma equipa que, tirando o penalty oferecido, só fez um remate perigoso à baliza e da autoria do guarda-redes, costa a costa. Ele, que nos seus tempos de avançado, se tornou o maior especialista do campeonato a arrancar penalties simulados aos árbitros. E não reparei que qualquer das coisas o tenha incomodado.
3- Na semana passada, escrevi aqui que esperava um grande jogo Barcelona-Real e que acreditava que Mourinho conseguiria sair de Camp Nou sem ser derrotado. Arrependi-me depois de ter escrito esta última frase, apenas motivada por razões diplomáticas de patriotismo. Arrependido, vou voltar ao que sempre foi a minha convicção e que, aliás, aqui venho exprimindo há anos:
— José Mourinho é um fantástico treinador, mas, se o que conta são os resultados e o futebol à vista, ele não é o melhor treinador do mundo, nem o foi em 2010. O melhor treinador do mundo, actualmente, é Pep Guardiola, que, em três anos, fez do Barcelona a melhor equipa de clube que eu me lembro de alguma vez ter visto jogar e que, logo no ano de estreia, conseguiu ganhar tudo o que havia para ganhar em Espanha, na Europa e no Mundo: oito títulos.
— O Barcelona é muito melhor equipa do que o Real Madrid: já o era e continua a sê-lo. Guardiola introduziu um estilo de jogo único e nunca visto, que parece um prolongamento do jogo da rabia nos treinos e que, não apenas é capaz de esmagar, mas também de humilhar uma equipa como o Real Madrid.
— O Barcelona é um clube com muito mais dignidade e mérito que o Real. É o produto de uma ética, de uma escola de valores (que, obviamente, e só lhe fica bem, não perdoa aos traidores), e de uma escola de futebol, que se traduz nisto: enquanto que no jogo de Camp Nou, o Barcelona alinhou com oito espanhóis, dos quais sete catalães (os que fizeram da Espanha campeã do mundo), e apenas três estrangeiros (se é que Messi, que ali está desde os 14 anos, já lá vai uma década, pode ser considerado estrangeiro...), o Real alinhou apenas com três espanhóis, sendo o resto a tal colecção internacional de galácticos, iniciada há anos atrás e financiada com as jogadas imobiliárias obscuras de Florentino Pérez em Madrid. Ou seja e como aqui escrevi a semana passada: o Barcelona é o FC Porto de Espanha e o Real Madrid é o Benfica. Não deixa de ser uma coincidência feliz e simbólica que ambos, Barcelona e FC Porto, tenham dado cinco aos seus imperiais adversários...
— E, enfim, não há patriotismo que salve esta evidência: Cristiano Ronaldo é um dos melhores futebolistas e um dos melhores atletas da actualidade, mas, para azar seu, ele coincide no tempo com esse tipo chamado Leonel Messi...e não há comparação possível. Este ano, parece que o título de melhor jogador do ano está reservado a Iniesta, que é, de facto, um jogador fabuloso. Nestes últimos cinco anos, será a quarta vez que o trofeu é negado ao argentino, por razões de justiça comparativa ou politicamente correctas. Não importa. Ele tem sido, nestes cinco anos, e para quem gosta de futebol, o melhor jogador, ano após ano. Se durante muito tempo, tentando não ser influenciado pela memória recente, hesitei entre Cruyff e Messi, agora já não vou tendo grandes dúvidas: o pequenino Messi é o melhor jogador de futebol jamais visto, desde que o mundo é mundo e o futebol existe. Não por acaso, o único que eu acho que podia rivalizar com ele, foi excepcional jogador no Barcelona e um seu treinador determinante, de quem Guardiola hoje diz que o futebol do Barça é ainda tributário.
4- Como toda a gente, achei fantástico o frango de Moretto na Luz. E lembrei-me de como, de cada vez que o FC Porto enfrenta uma equipa onde jogam jogadores seus emprestados ou que é treinada por ex-jogadores seus de referência, logo se levantam as vozes dos benfiquistas a lançar um mar de suspeitas prévio, mas que, depois, nunca encontram correspondência factual nos jogos. O que não se diria se Ventura, guarda-redes emprestado pelo FCP ao Portimonense, tivesse aberto o caminho a uma vitória portista com um frango daqueles? Enfim, adiante...
Mas também achei fantástico que o autogolo de Moretto tenha sido atribuído... a Cardozo. Não sei se foi para disfarçar o embaraço, para relançar a campanha já vivida no último campeonato de "faça de Cardozo o melhor marcador da liga", ou ambas as coisas. E achei fantástico que as últimas imagens do jogo da Luz tenham sido do Moretto a cumprimentar e a ser cumprimentado pelos adeptos benfiquistas na primeira fila da bancada. Não havia necessidade.
5- Aconteceu nos dois últimos jogos em Alvalade, contra FC Porto e Lille: erros favoráveis da arbitragem foram decisivos para os resultados alcançados pelo Sporting. Tem acontecido regularmente nos últimos meses, mas tal não justifica nada de anormal nem nenhuma conclusão ou suspeita. O que já não é normal é que, na primeira ocasião em que o Sporting for prejudicado por um erro de arbitragem, eles desatem aos gritos, em comunicados e manifestações, esquecendo tudo o que ficou para trás.
Aliás, folheio os jornais desportivos do fim-de-semana, e o que vejo? Que o FC Porto tem algumas modalidades semi-amadoras, como o atletismo, o bilhar ou a natação (onde acabou de se consagrar campeão nacional feminino e vice-cam-peão masculino); que não tem outras que, por exemplo, tem o nosso principal rival, como o râguebi ou o futebol de salão (pomposamente chamado futsal); e que tem quatro modalidades profissionais e assumidas como tal: o futebol, o basquete, o andebol e o hóquei em patins. E onde estamos, em cada uma delas? No futebol, em primeiro lugar do campeonato, com oito pontos de avanço sobre o Benfica, nos dezaseis-avos da Liga Europa, como primeiro classificado do grupo e já com uma Supertaça na vitrina; no basquete, em primeiro, com sete vitórias e sete jogos — mais duas que o segundo classificado, o Benfica, igualmente; no andebol, em primeiro , com uma vitória a mais que o segundo, o ABC (e o Benfica em sexto); no hóquei, onde somos campeões há uma década, em primeiro, com nove vitórias e um empate e mais um ponto que o segundo — o Benfica, outra vez.
Ou seja: o sistema, como eles dizem, impôs-se aos túneis da verdade desportiva e extravasou as fronteiras do futebol, para abranger também todas as modalidades em que o FC Porto se envolve. Somos um pesadelo, somos uma praga, somos um fantasma inultrapassável. Somos uma nação!
2- Ontem à noite, contra o Setúbal, o FC Porto teve um jogo que acabou por se complicar, mas, a meu ver, não por culpa própria. Aos 15 minutos, já Elmano Santos tinha perdoado dois vermelhos directos a jogadores do Vitória, por duas autênticas agressões. Passado um pouco, permitiu que o Hulk fosse abalroado à ombrada, não percebi se dentro, se fora da área. Das três faltas, só assinalou uma e nem um amarelo mostrou. Aos 42 minutos, por indicação do auxiliar, marcou um penalty a favor do Porto que, para mim, não existiu. Na segunda parte, marcou falta e amarelo a Fucile por um corte em tackle limpíssimo e banal, e, no minuto seguinte, quando Falcão ia a entrar completamente sozinho na área, em posição frontal e com a bola dominada à sua frente, foi agarrado por Valdomiro e Elmano Santos mostrou-lhe o mesmo amarelo. Pelo meio, assinalou várias faltas a favor do Vitória que só existiram na sua imaginação, ao mesmo tempo que perdoava aos de Setúbal um jogo constantemente agressivo, por vezes a atingir a violência. Enfim, a dois minutos do fim, devolveu a única gentileza feita ao FC Porto, assinalando um penalty a favor do Vitória por uma falta ocorrida fora da área.
Foi Elmano Santos, com a sua atitude deliberada de permissividade total à agressividade do jogo do Vitória, quem acabou por enervar e desarticular a equipa do FC Porto. E é difícil acreditar que tudo aquilo foi inocente: há muito que não via uma arbitragem tão desequilibrada contra uma equipa. Achei realmente o cúmulo da lata que Manuel Fernandes se tenha vindo queixar da arbitragem no final. Ele, que comandou uma equipa que, tirando o penalty oferecido, só fez um remate perigoso à baliza e da autoria do guarda-redes, costa a costa. Ele, que nos seus tempos de avançado, se tornou o maior especialista do campeonato a arrancar penalties simulados aos árbitros. E não reparei que qualquer das coisas o tenha incomodado.
3- Na semana passada, escrevi aqui que esperava um grande jogo Barcelona-Real e que acreditava que Mourinho conseguiria sair de Camp Nou sem ser derrotado. Arrependi-me depois de ter escrito esta última frase, apenas motivada por razões diplomáticas de patriotismo. Arrependido, vou voltar ao que sempre foi a minha convicção e que, aliás, aqui venho exprimindo há anos:
— José Mourinho é um fantástico treinador, mas, se o que conta são os resultados e o futebol à vista, ele não é o melhor treinador do mundo, nem o foi em 2010. O melhor treinador do mundo, actualmente, é Pep Guardiola, que, em três anos, fez do Barcelona a melhor equipa de clube que eu me lembro de alguma vez ter visto jogar e que, logo no ano de estreia, conseguiu ganhar tudo o que havia para ganhar em Espanha, na Europa e no Mundo: oito títulos.
— O Barcelona é muito melhor equipa do que o Real Madrid: já o era e continua a sê-lo. Guardiola introduziu um estilo de jogo único e nunca visto, que parece um prolongamento do jogo da rabia nos treinos e que, não apenas é capaz de esmagar, mas também de humilhar uma equipa como o Real Madrid.
— O Barcelona é um clube com muito mais dignidade e mérito que o Real. É o produto de uma ética, de uma escola de valores (que, obviamente, e só lhe fica bem, não perdoa aos traidores), e de uma escola de futebol, que se traduz nisto: enquanto que no jogo de Camp Nou, o Barcelona alinhou com oito espanhóis, dos quais sete catalães (os que fizeram da Espanha campeã do mundo), e apenas três estrangeiros (se é que Messi, que ali está desde os 14 anos, já lá vai uma década, pode ser considerado estrangeiro...), o Real alinhou apenas com três espanhóis, sendo o resto a tal colecção internacional de galácticos, iniciada há anos atrás e financiada com as jogadas imobiliárias obscuras de Florentino Pérez em Madrid. Ou seja e como aqui escrevi a semana passada: o Barcelona é o FC Porto de Espanha e o Real Madrid é o Benfica. Não deixa de ser uma coincidência feliz e simbólica que ambos, Barcelona e FC Porto, tenham dado cinco aos seus imperiais adversários...
— E, enfim, não há patriotismo que salve esta evidência: Cristiano Ronaldo é um dos melhores futebolistas e um dos melhores atletas da actualidade, mas, para azar seu, ele coincide no tempo com esse tipo chamado Leonel Messi...e não há comparação possível. Este ano, parece que o título de melhor jogador do ano está reservado a Iniesta, que é, de facto, um jogador fabuloso. Nestes últimos cinco anos, será a quarta vez que o trofeu é negado ao argentino, por razões de justiça comparativa ou politicamente correctas. Não importa. Ele tem sido, nestes cinco anos, e para quem gosta de futebol, o melhor jogador, ano após ano. Se durante muito tempo, tentando não ser influenciado pela memória recente, hesitei entre Cruyff e Messi, agora já não vou tendo grandes dúvidas: o pequenino Messi é o melhor jogador de futebol jamais visto, desde que o mundo é mundo e o futebol existe. Não por acaso, o único que eu acho que podia rivalizar com ele, foi excepcional jogador no Barcelona e um seu treinador determinante, de quem Guardiola hoje diz que o futebol do Barça é ainda tributário.
4- Como toda a gente, achei fantástico o frango de Moretto na Luz. E lembrei-me de como, de cada vez que o FC Porto enfrenta uma equipa onde jogam jogadores seus emprestados ou que é treinada por ex-jogadores seus de referência, logo se levantam as vozes dos benfiquistas a lançar um mar de suspeitas prévio, mas que, depois, nunca encontram correspondência factual nos jogos. O que não se diria se Ventura, guarda-redes emprestado pelo FCP ao Portimonense, tivesse aberto o caminho a uma vitória portista com um frango daqueles? Enfim, adiante...
Mas também achei fantástico que o autogolo de Moretto tenha sido atribuído... a Cardozo. Não sei se foi para disfarçar o embaraço, para relançar a campanha já vivida no último campeonato de "faça de Cardozo o melhor marcador da liga", ou ambas as coisas. E achei fantástico que as últimas imagens do jogo da Luz tenham sido do Moretto a cumprimentar e a ser cumprimentado pelos adeptos benfiquistas na primeira fila da bancada. Não havia necessidade.
5- Aconteceu nos dois últimos jogos em Alvalade, contra FC Porto e Lille: erros favoráveis da arbitragem foram decisivos para os resultados alcançados pelo Sporting. Tem acontecido regularmente nos últimos meses, mas tal não justifica nada de anormal nem nenhuma conclusão ou suspeita. O que já não é normal é que, na primeira ocasião em que o Sporting for prejudicado por um erro de arbitragem, eles desatem aos gritos, em comunicados e manifestações, esquecendo tudo o que ficou para trás.
segunda-feira, setembro 05, 2011
OS DEUSES DO ESTÁDIO (30 NOVEMBRO 2010)
1- À hora a que os deuses vão descer ao estádio, em Camp Nou, eu vou estar a trabalhar e sem hipótese de espreitar a televisão. Espero vê-lo depois em gravação, mas tarde de mais para poder deixar aqui as minhas impressões. E tenho muita pena, porque de certeza que há-de ser um grande jogo, visto por 400 milhões de adeptos do grande futebol em todo o planeta. O negócio universal que é o futebol alimenta-se de jogos destes e é por isso que um jogo assim nunca pode degenerar num mau jogo: seria um suicídio promocional para todos os profissionais pagos a peso de ouro que vão estar em campo.
2- Pois, está bem que terá sido emocionante, como qualquer clássico de resultado incerto sempre é, mas o Sporting-FC Porto foi um mau jogo de futebol. O Sporting deu o que pode e o que tem; o FC Porto deu menos do que pode e do que tem, confirmando as impressões que aqui foi deixando nas últimas duas semanas de que a equipa está em descompressão ou em pausa de forma, após ter passado com distinção o primeiro terço da época — onde garantiu tranquilamente a qualificação para a segunda fase da Liga Europa, uma vantagem confortável na liderança do campeonato e a humilhação infligida ao Benfica.
O FC Porto deste ano, como já sucedia na temporada passada, é uma boa equipa, com um notável e tradicional espírito de conquista, mas uma equipa desequilibrada. Ali coabitam grandes jogadores, como Falcão, Hulk e Álvaro Pereira, bons jogadores intermitentes, como Belluschi, Varela e Fucile, e os restantes, que são apenas razoáveis ou menos até (e fora os que esperam ainda por uma verdadeira oportunidade para se mostrarem plenamente). Para mim, o ponto fraco desta equipa está no centro da defesa — onde Bruno Alves disfarçava as limitações de Rolando e onde Villas Boas tarda a dar entrada de pleno direito àquele que parece o melhor dos centrais existentes: Otamendi. E está no meio-campo, onde apenas existe um médio de ataque à altura das necessidades, o Belluschi, e onde o médio defensivo, Fernando, voltou a dar em Alvalade uma cabal demonstração das suas limitações, defensivas e ofensivas, constituindo, por si só, o maior factor de perigo para a propria equipa, errando passes a fio, alguns permitindo o contra-ataque imediato, e acumulando faltas em locais perigosos para compensar a sua falta de velocidade e capacidade de antecipação.
O resultado acabou por ser bem melhor do que a exibição e penso que não adianta queixarmo-nos do golo precedido de off-side do adversário ou da expulsão de Maicon, que me pareceu forçada, mas que nasce de uma asneira imperdoável do próprio. A verdade é que estamos a jogar bem menos do que há três semanas e, se bem que seja absolutamente legítimo e normal que as equipas atravessem momentos de pausa na forma, o problema aqui é que, quando os motores da equipa descansam, não há quem os substitua em condições. Por isso, pela segunda vez na Liga, o FC Porto viu um jogador expulso numa altura crucial, perdeu pontos e o seu treinador foi mais cedo para a cabina. Porque o mais difícil de digerir são as culpas próprias.
3- Durante os seus anos de FC Porto, defendi sempre que o verdadeiro lugar de Raul Meireles era a trinco. Este fim-de-semana, vi-o jogar nessa posição pelo Liverpool contra o Tottenham. Ele salvou golos lá atrás, carregou todo o jogo para a frente, com passes em profundidade e em constante progressão, marcou os cantos e o livre que deu o golo aos reds. Enfim, jogou box to box — aquilo que um verdadeiro trinco tem de fazer, hoje. E mais: rematou à baliza e querem crer que — ele, que em Portugal tinha fama de grande rematador de meia distância, embora em cada dez remates atirasse nove para a bancada — ali, não só acerta todos na baliza, como o faz sempre com perigo? Qual será o mistério? Não me digam que é trabalho...
4- Trabalho foi o que não se viu na equipa do Benfica, em Israel — ao contrário do Braga contra o Arsenal. Viu-se sim, arrogância, displicência e esse velho convencimento que os benfiquistas têm de que, devido a algum privilégio especial de que gozarão, tudo lhes virá cair à mão sem grande esforço. Anunciaram-se candidatos a campeões europeus e ficaram na primeira fase, num grupo tão fácil que nem de encomenda. Terão aprendido a lição? Qual quê! Isto é o grande Benfica, não tem lições a aprender com ninguém!
5- A tão anunciada reportagem de Nuno Luz, da SIC, sobre José Mourinho, valeu bem a pena. Sempre acreditei que só podemos julgar seriamente os outros através do testemunho de quem lhe é próximo. Nuno Luz fê-lo e, ao ouvirmos o testemunho dos colegas de trabalho de Mourinho ou dos seus antigos jogadores, como Jorge Costa, Costinha e Vítor Baía, pelo FC Porto, ou Didier Drogba, JohnTerry, Paulo Ferreira e Frank Lampard, pelo Chelsea, ou ainda de Stankovic, Javier Zanetti e Marco Materazzi, pelo Inter, deu para entender bem porquê que José Mourinho é um vencedor: porque, como disse Maradona, nenhum jogador que alguma vez tenha trabalhado com ele, disse mal dele. Mourinho é organizado, é inteligente, é metódico, acredita no valor do trabalho duro e sério. Ele é tudo isso, e mais o que faz a diferença: é um líder, um condutor de homens. O treinador com quem John Terry confessou que pela primeira vez desabafou sobre a sua vida privada ou o treinador, que acabado de ganhar a Champions e já de saída do estádio e do Inter, parou o carro quando viu Materazzi sozinho e foi-se abraçar a ele a chorar, numa cena arrepiante de tão humana e simples. «Vai em frente!», disse-lhe então Materazzi. E ele foi, ele vai: em frente eternamente, com esse vício de vencer que é a sua imagem de marca e esse defeito tão pouco português. (Escrevo isto dois dias antes do Barcelona-Real Madrid e convencido de que ele não sairá derrotado de Camp Nou. Mas, mesmo que perca contra esse também grande treinador que é Guardiola ou contra essa que é talvez a melhor equipa de clube de todos os tempos, mesmo até que, como já aconteceu algumas vezes, o futebol dele me desiluda, José Mourinho merece o nosso reconhecimento, num momento em que tantas são as razões de descrença em nós próprios).
6- Há várias maneiras de agredir cobardemente os adversários sem ser arremessando uma bola de golfe. Uma das maneiras é arremessando um boato, uma calúnia, uma falsidade. Porque anda para aí a ser espalhada por essa subespécie de fanáticos benfiquistas a calúnia de que eu teria coberto ou encoberto os lançadores de bolas de golfe contra o autocarro do Benfica, reproduzo o que aqui escrevi sobre isso no passado dia 9, após o jogo do Dragão:
«Só uma pequena nuvem a cobrir um céu absolutamente azul: a presença dos cobardes lançadores de bolas de golfe, que se dizem portistas. Mas é para isto, também, que servem os presidentes: Pinto da Costa tem de dizer, alto e bom som, a esses energúmenos que eles envergonham e prejudicam o clube».
2- Pois, está bem que terá sido emocionante, como qualquer clássico de resultado incerto sempre é, mas o Sporting-FC Porto foi um mau jogo de futebol. O Sporting deu o que pode e o que tem; o FC Porto deu menos do que pode e do que tem, confirmando as impressões que aqui foi deixando nas últimas duas semanas de que a equipa está em descompressão ou em pausa de forma, após ter passado com distinção o primeiro terço da época — onde garantiu tranquilamente a qualificação para a segunda fase da Liga Europa, uma vantagem confortável na liderança do campeonato e a humilhação infligida ao Benfica.
O FC Porto deste ano, como já sucedia na temporada passada, é uma boa equipa, com um notável e tradicional espírito de conquista, mas uma equipa desequilibrada. Ali coabitam grandes jogadores, como Falcão, Hulk e Álvaro Pereira, bons jogadores intermitentes, como Belluschi, Varela e Fucile, e os restantes, que são apenas razoáveis ou menos até (e fora os que esperam ainda por uma verdadeira oportunidade para se mostrarem plenamente). Para mim, o ponto fraco desta equipa está no centro da defesa — onde Bruno Alves disfarçava as limitações de Rolando e onde Villas Boas tarda a dar entrada de pleno direito àquele que parece o melhor dos centrais existentes: Otamendi. E está no meio-campo, onde apenas existe um médio de ataque à altura das necessidades, o Belluschi, e onde o médio defensivo, Fernando, voltou a dar em Alvalade uma cabal demonstração das suas limitações, defensivas e ofensivas, constituindo, por si só, o maior factor de perigo para a propria equipa, errando passes a fio, alguns permitindo o contra-ataque imediato, e acumulando faltas em locais perigosos para compensar a sua falta de velocidade e capacidade de antecipação.
O resultado acabou por ser bem melhor do que a exibição e penso que não adianta queixarmo-nos do golo precedido de off-side do adversário ou da expulsão de Maicon, que me pareceu forçada, mas que nasce de uma asneira imperdoável do próprio. A verdade é que estamos a jogar bem menos do que há três semanas e, se bem que seja absolutamente legítimo e normal que as equipas atravessem momentos de pausa na forma, o problema aqui é que, quando os motores da equipa descansam, não há quem os substitua em condições. Por isso, pela segunda vez na Liga, o FC Porto viu um jogador expulso numa altura crucial, perdeu pontos e o seu treinador foi mais cedo para a cabina. Porque o mais difícil de digerir são as culpas próprias.
3- Durante os seus anos de FC Porto, defendi sempre que o verdadeiro lugar de Raul Meireles era a trinco. Este fim-de-semana, vi-o jogar nessa posição pelo Liverpool contra o Tottenham. Ele salvou golos lá atrás, carregou todo o jogo para a frente, com passes em profundidade e em constante progressão, marcou os cantos e o livre que deu o golo aos reds. Enfim, jogou box to box — aquilo que um verdadeiro trinco tem de fazer, hoje. E mais: rematou à baliza e querem crer que — ele, que em Portugal tinha fama de grande rematador de meia distância, embora em cada dez remates atirasse nove para a bancada — ali, não só acerta todos na baliza, como o faz sempre com perigo? Qual será o mistério? Não me digam que é trabalho...
4- Trabalho foi o que não se viu na equipa do Benfica, em Israel — ao contrário do Braga contra o Arsenal. Viu-se sim, arrogância, displicência e esse velho convencimento que os benfiquistas têm de que, devido a algum privilégio especial de que gozarão, tudo lhes virá cair à mão sem grande esforço. Anunciaram-se candidatos a campeões europeus e ficaram na primeira fase, num grupo tão fácil que nem de encomenda. Terão aprendido a lição? Qual quê! Isto é o grande Benfica, não tem lições a aprender com ninguém!
5- A tão anunciada reportagem de Nuno Luz, da SIC, sobre José Mourinho, valeu bem a pena. Sempre acreditei que só podemos julgar seriamente os outros através do testemunho de quem lhe é próximo. Nuno Luz fê-lo e, ao ouvirmos o testemunho dos colegas de trabalho de Mourinho ou dos seus antigos jogadores, como Jorge Costa, Costinha e Vítor Baía, pelo FC Porto, ou Didier Drogba, JohnTerry, Paulo Ferreira e Frank Lampard, pelo Chelsea, ou ainda de Stankovic, Javier Zanetti e Marco Materazzi, pelo Inter, deu para entender bem porquê que José Mourinho é um vencedor: porque, como disse Maradona, nenhum jogador que alguma vez tenha trabalhado com ele, disse mal dele. Mourinho é organizado, é inteligente, é metódico, acredita no valor do trabalho duro e sério. Ele é tudo isso, e mais o que faz a diferença: é um líder, um condutor de homens. O treinador com quem John Terry confessou que pela primeira vez desabafou sobre a sua vida privada ou o treinador, que acabado de ganhar a Champions e já de saída do estádio e do Inter, parou o carro quando viu Materazzi sozinho e foi-se abraçar a ele a chorar, numa cena arrepiante de tão humana e simples. «Vai em frente!», disse-lhe então Materazzi. E ele foi, ele vai: em frente eternamente, com esse vício de vencer que é a sua imagem de marca e esse defeito tão pouco português. (Escrevo isto dois dias antes do Barcelona-Real Madrid e convencido de que ele não sairá derrotado de Camp Nou. Mas, mesmo que perca contra esse também grande treinador que é Guardiola ou contra essa que é talvez a melhor equipa de clube de todos os tempos, mesmo até que, como já aconteceu algumas vezes, o futebol dele me desiluda, José Mourinho merece o nosso reconhecimento, num momento em que tantas são as razões de descrença em nós próprios).
6- Há várias maneiras de agredir cobardemente os adversários sem ser arremessando uma bola de golfe. Uma das maneiras é arremessando um boato, uma calúnia, uma falsidade. Porque anda para aí a ser espalhada por essa subespécie de fanáticos benfiquistas a calúnia de que eu teria coberto ou encoberto os lançadores de bolas de golfe contra o autocarro do Benfica, reproduzo o que aqui escrevi sobre isso no passado dia 9, após o jogo do Dragão:
«Só uma pequena nuvem a cobrir um céu absolutamente azul: a presença dos cobardes lançadores de bolas de golfe, que se dizem portistas. Mas é para isto, também, que servem os presidentes: Pinto da Costa tem de dizer, alto e bom som, a esses energúmenos que eles envergonham e prejudicam o clube».
segunda-feira, agosto 29, 2011
VÉSPERA DAS GRANDES BATALHAS (23 NOVEMBRO 2010)
1- Por cá, Benfica e Braga aproveitaram a cimeira da NATO para adiarem o jogo entre ambos para a Taça de Portugal, marcado para a Luz. E aproveitaram também para folgar e recuperar jogadores antes dos importantes encontros de hoje e amanhã para a Liga dos Campeões: em Israel, o Benfica poderá aproximar-se, com uma vitória, da passagem à fase seguinte, os oitavos-de-final; em Braga e contra o Arsenal, um empate já será bom mas não altera a já assegurada transferência para a Liga Europa — o melhor objectivo a que os minhotos poderiam aspirar, com realismo.
Enquanto isso, a uma semana de se encontrarem em Alvalade para o campeonato, Sporting e FC Porto ultrapassaram com dificuldades semelhantes os seus obstáculos na Taça de Portugal. Agora é altura de assentar todas as baterias nesse jogo que pode definitivamente lançar os portistas numa rota imparável rumo ao título e mergulhar os sportinguistas em mais uma crise existencial de Natal, ou inversamente, repor alguma incerteza no campeonato e pelo menos, manter o Sporting na luta pelo segundo lugar. À partida, o favoritismo é do FC Porto, que tem melhor equipa e melhores jogadores, mas o Sporting tem alguns trunfos que equilibram os prognósticos: joga em casa, joga o tudo por tudo e tem todos os jogadores operacionais, enquanto o FC Porto tem abaixa confirmada de Álvaro Pereira (e que falta que ele faz!), e ainda tem de tentar recuperar Silvestre Varela e Fernando.
2- Em Moreira de Cónegos, assistiu-se, como era inevitável, a um mau jogo de futebol. Volto a insistir nesta tecla já tão gasta, mesmo correndo o risco de me tornar obsessivo e aborrecido: não é possível jogar bom futebol em campos de dimensões reduzidas — especialmente, se em campo estiver uma equipa com o objectivo principal de defender e evitar o golo adversário. Não é por acaso que nos grandes campeonatos — os de Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha — não se vê um único estádio cujo relvado não tenha as dimensões máximas. Aqui, porém, continua a consentir-se essa ficção das «dimensões legais», que compreende a máxima e a mínima — sendo esta a que, infalivelmente, adoptam todos os clubes com vocação para pequenos. Pequeno clube-pequeno relvado: eis a regra do jogo. Que saudades do Campomaiorense, um pequeno clube da raia alentejana, tornado realidade apenas pela vontade um homem notável, chamado Rui Nabeiro, e que, modesto como era, tinha um relvado de dimensões e qualidade máximas! O Campomaiorense desapareceu do mapa do futebol profissional por falta de sustentabilidade financeira e porque, precisamente, o clube não tentou manter-se no topo da primeira divisão graças a um terreno de jogo que favorecesse o anti-jogo ou graças a apoios financeiros com dinheiros públicos — como é, por exemplo, o caso do Marítimo, financiado por Alberto João Jardim com o nosso dinheiro.
Dito isto, e sendo inevitável esperar um mau espectáculo no Moreirense-FC Porto, não era fatal ter de levar com um tão mau espectáculo . Espartilhada num terreno sem espaços e num relvado demasiado macio e lento, a equipa não soube adaptar-se ao futebol feio e eficiente que as circunstâncias requeriam — como tão bem o fez em Coimbra, quando foi obrigada, de forma escandalosa, a jogar num lago de água disfarçado de relvado de futebol. Apesar das condições adversas, este foi o segundo jogo consecutivo dos portistas, a seguir ao jogo contra o Portimonense, em que não consegui reter uma só exibição individual que fosse aceitável (segundo padrões de avaliação que não sejam, obviamente, os utilizados pelos magistrados nas suas auto-classificações). E eu não sei se dois jogos consecutivos de muito mau futebol é um bom ou um mau sinal para Alvalade. Oxalá seja bom sinal, oxalá os próprios jogadores achem que já chega de jogar mal!
Enfim, salvou-se o resultado e nada mais. Diz a crítica que o golo anulado ao Moreirense afinal não era off-side, como pareceu na jogada corrida (eu não vi a repetição) . Mas também não ficaram dúvidas a ninguém, excepto a dúvida incompreensível do árbitro, sobre a existência de um penalty por marcar sobre o Hulk, antes desse golo mal anulado ao Moreirense. Mas foi preciso meter o Falcão para resolver o assunto — depois de mais de uma hora, e mais uma oportunidade, sem se conseguir perceber porque razão o FC Porto se bateu tanto e deu tanto dinheiro pelo Walter. Já sei que ainda está em fase de adaptação ao futebol europeu (o chavão do costume, desmentido por jogadores como o Falcão, que parece que já vêm adaptados), mas, a menos que ele perca peso, ganhe velocidade, aprenda a jogar entre os escassos espaços que as defesas concedem e a executar rápido, prevejo uma loooooonga adaptação...
Da mesma forma, continuo, infelizmente, a não conseguir enxergar o génio do João Moutinho, de que toda a imprensa fala e amigos meus portistas garantem ser imprescindível na equipa. Por razões pessoais e profissionais, não tive ocasião de assistir ao histórico Portugal-Espanha, em que, segundo as crónicas, ele jogou muito bem. Atenho-me aos jogos feitos ao serviço do FC Porto e, para além das opiniões, sempre subjectivas, fico-me por esta estatística: em 19 jogos oficiais, não marcou um golo nem deu um golo a marcar; não conseguiu melhor do que um remate à trave, no meio de vários remates sem sentido; não teve, que me lembre, uma jogada brilhante, um passe sublime de rasgo, à Lucho González. Para um médio de ataque, custa-me perceber como é que, com um registo destes, pode ser considerado imprescindível. Mas pode ser (oxalá, outra vez!) que eu esteja errado na minha velha crença de que o futebol não é tão complicado de entender como o fazem e que os grandes jogadores são evidentes por si mesmos. E pode ser também que um dia eu consiga, enfim, entender, a razão pela qual Freddy Guarin era um jogador tão querido de Jesualdo Ferreira e agora de André Villas Boas.
3- E se por cá esta foi uma semana vivida numa espécie de stand-by antes dos jogos a doer, também o foi nos dois campeonatos estrangeiros que eu sigo com mais atenção e entusiasmo: o brasileiro e o espanhol.
No Brasil, a duas jornadas do final, o Fluminense, do Rio de Janeiro, retomou o comando ao Timão, o Corinthians, de S. Paulo. Tem um ponto a mais, mas dois jogos mais difíceis pela frente, um deles em S. Paulo, contra o Palmeiras, de Sco-lari. No terceiro lugar e ainda na corrida pelo título, está o Cruzeiro, de Belo Horizonte, a dois pontos de distância do Flu. E em quarto lugar, já afastado do título, vem o Grémio, de Porto Alegre. Bela distribuição geográfico-económico-desportiva: nos quatro primeiros lugares, um representante de cada uma das quatro regiões e estados mais poderosos do Brasil: Rio, S. Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O Fluminense é o Sporting do Brasil, enquanto o Flamengo (campeão em título, após vinte anos afastado do topo), é o Benfica. Já o Corinthians é o FC Porto de lá e, por isso, o meu coração, no Brasil, pertence ao Timão. Mas a verdade é que também tenho bons amigos no Flu e há muitos anos também que eles não vibram com o título maior do Brasil — ao contrário dos adeptos do Corinthians, que, tal como os seus geminados adeptos do FC Porto, estão habituados a vencer recente e frequentemente.
E em Espanha, então, está tudo ao rubro para um dos dois jogos do ano: o Barcelona-Real Madrid, de segunda-feira. O meu sentimento patriótico está com o Real, com Mourinho, Ronaldo, Ricardo Carvalho e Pepe. Mas o meu coração em Espanha, esse, é do Barça — o FC Porto de Espanha — e hoje, talvez a melhor equipa que eu alguma vez vi e onde joga o que eu considero, de há cinco anos para cá e ano após ano, o melhor jogador do mundo e talvez o melhor de sempre. Esse rapaz tímido, chamado Leonel Messi, de quem não se conhece coisa alguma da vida privada, nem namoradas espampanantes, nem bombas automobilísticas de dezenas ou centenas de milhões de euros, nem anúncios de publicidade a tudo e mais alguma coisa, nem roupas estrambólicas ou penteados de gel que demoram meia hora a ser aprontados. Apenas um génio e uma inteligência de jogo absolutamente incompreensíveis.
Enquanto isso, a uma semana de se encontrarem em Alvalade para o campeonato, Sporting e FC Porto ultrapassaram com dificuldades semelhantes os seus obstáculos na Taça de Portugal. Agora é altura de assentar todas as baterias nesse jogo que pode definitivamente lançar os portistas numa rota imparável rumo ao título e mergulhar os sportinguistas em mais uma crise existencial de Natal, ou inversamente, repor alguma incerteza no campeonato e pelo menos, manter o Sporting na luta pelo segundo lugar. À partida, o favoritismo é do FC Porto, que tem melhor equipa e melhores jogadores, mas o Sporting tem alguns trunfos que equilibram os prognósticos: joga em casa, joga o tudo por tudo e tem todos os jogadores operacionais, enquanto o FC Porto tem abaixa confirmada de Álvaro Pereira (e que falta que ele faz!), e ainda tem de tentar recuperar Silvestre Varela e Fernando.
2- Em Moreira de Cónegos, assistiu-se, como era inevitável, a um mau jogo de futebol. Volto a insistir nesta tecla já tão gasta, mesmo correndo o risco de me tornar obsessivo e aborrecido: não é possível jogar bom futebol em campos de dimensões reduzidas — especialmente, se em campo estiver uma equipa com o objectivo principal de defender e evitar o golo adversário. Não é por acaso que nos grandes campeonatos — os de Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha — não se vê um único estádio cujo relvado não tenha as dimensões máximas. Aqui, porém, continua a consentir-se essa ficção das «dimensões legais», que compreende a máxima e a mínima — sendo esta a que, infalivelmente, adoptam todos os clubes com vocação para pequenos. Pequeno clube-pequeno relvado: eis a regra do jogo. Que saudades do Campomaiorense, um pequeno clube da raia alentejana, tornado realidade apenas pela vontade um homem notável, chamado Rui Nabeiro, e que, modesto como era, tinha um relvado de dimensões e qualidade máximas! O Campomaiorense desapareceu do mapa do futebol profissional por falta de sustentabilidade financeira e porque, precisamente, o clube não tentou manter-se no topo da primeira divisão graças a um terreno de jogo que favorecesse o anti-jogo ou graças a apoios financeiros com dinheiros públicos — como é, por exemplo, o caso do Marítimo, financiado por Alberto João Jardim com o nosso dinheiro.
Dito isto, e sendo inevitável esperar um mau espectáculo no Moreirense-FC Porto, não era fatal ter de levar com um tão mau espectáculo . Espartilhada num terreno sem espaços e num relvado demasiado macio e lento, a equipa não soube adaptar-se ao futebol feio e eficiente que as circunstâncias requeriam — como tão bem o fez em Coimbra, quando foi obrigada, de forma escandalosa, a jogar num lago de água disfarçado de relvado de futebol. Apesar das condições adversas, este foi o segundo jogo consecutivo dos portistas, a seguir ao jogo contra o Portimonense, em que não consegui reter uma só exibição individual que fosse aceitável (segundo padrões de avaliação que não sejam, obviamente, os utilizados pelos magistrados nas suas auto-classificações). E eu não sei se dois jogos consecutivos de muito mau futebol é um bom ou um mau sinal para Alvalade. Oxalá seja bom sinal, oxalá os próprios jogadores achem que já chega de jogar mal!
Enfim, salvou-se o resultado e nada mais. Diz a crítica que o golo anulado ao Moreirense afinal não era off-side, como pareceu na jogada corrida (eu não vi a repetição) . Mas também não ficaram dúvidas a ninguém, excepto a dúvida incompreensível do árbitro, sobre a existência de um penalty por marcar sobre o Hulk, antes desse golo mal anulado ao Moreirense. Mas foi preciso meter o Falcão para resolver o assunto — depois de mais de uma hora, e mais uma oportunidade, sem se conseguir perceber porque razão o FC Porto se bateu tanto e deu tanto dinheiro pelo Walter. Já sei que ainda está em fase de adaptação ao futebol europeu (o chavão do costume, desmentido por jogadores como o Falcão, que parece que já vêm adaptados), mas, a menos que ele perca peso, ganhe velocidade, aprenda a jogar entre os escassos espaços que as defesas concedem e a executar rápido, prevejo uma loooooonga adaptação...
Da mesma forma, continuo, infelizmente, a não conseguir enxergar o génio do João Moutinho, de que toda a imprensa fala e amigos meus portistas garantem ser imprescindível na equipa. Por razões pessoais e profissionais, não tive ocasião de assistir ao histórico Portugal-Espanha, em que, segundo as crónicas, ele jogou muito bem. Atenho-me aos jogos feitos ao serviço do FC Porto e, para além das opiniões, sempre subjectivas, fico-me por esta estatística: em 19 jogos oficiais, não marcou um golo nem deu um golo a marcar; não conseguiu melhor do que um remate à trave, no meio de vários remates sem sentido; não teve, que me lembre, uma jogada brilhante, um passe sublime de rasgo, à Lucho González. Para um médio de ataque, custa-me perceber como é que, com um registo destes, pode ser considerado imprescindível. Mas pode ser (oxalá, outra vez!) que eu esteja errado na minha velha crença de que o futebol não é tão complicado de entender como o fazem e que os grandes jogadores são evidentes por si mesmos. E pode ser também que um dia eu consiga, enfim, entender, a razão pela qual Freddy Guarin era um jogador tão querido de Jesualdo Ferreira e agora de André Villas Boas.
3- E se por cá esta foi uma semana vivida numa espécie de stand-by antes dos jogos a doer, também o foi nos dois campeonatos estrangeiros que eu sigo com mais atenção e entusiasmo: o brasileiro e o espanhol.
No Brasil, a duas jornadas do final, o Fluminense, do Rio de Janeiro, retomou o comando ao Timão, o Corinthians, de S. Paulo. Tem um ponto a mais, mas dois jogos mais difíceis pela frente, um deles em S. Paulo, contra o Palmeiras, de Sco-lari. No terceiro lugar e ainda na corrida pelo título, está o Cruzeiro, de Belo Horizonte, a dois pontos de distância do Flu. E em quarto lugar, já afastado do título, vem o Grémio, de Porto Alegre. Bela distribuição geográfico-económico-desportiva: nos quatro primeiros lugares, um representante de cada uma das quatro regiões e estados mais poderosos do Brasil: Rio, S. Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O Fluminense é o Sporting do Brasil, enquanto o Flamengo (campeão em título, após vinte anos afastado do topo), é o Benfica. Já o Corinthians é o FC Porto de lá e, por isso, o meu coração, no Brasil, pertence ao Timão. Mas a verdade é que também tenho bons amigos no Flu e há muitos anos também que eles não vibram com o título maior do Brasil — ao contrário dos adeptos do Corinthians, que, tal como os seus geminados adeptos do FC Porto, estão habituados a vencer recente e frequentemente.
E em Espanha, então, está tudo ao rubro para um dos dois jogos do ano: o Barcelona-Real Madrid, de segunda-feira. O meu sentimento patriótico está com o Real, com Mourinho, Ronaldo, Ricardo Carvalho e Pepe. Mas o meu coração em Espanha, esse, é do Barça — o FC Porto de Espanha — e hoje, talvez a melhor equipa que eu alguma vez vi e onde joga o que eu considero, de há cinco anos para cá e ano após ano, o melhor jogador do mundo e talvez o melhor de sempre. Esse rapaz tímido, chamado Leonel Messi, de quem não se conhece coisa alguma da vida privada, nem namoradas espampanantes, nem bombas automobilísticas de dezenas ou centenas de milhões de euros, nem anúncios de publicidade a tudo e mais alguma coisa, nem roupas estrambólicas ou penteados de gel que demoram meia hora a ser aprontados. Apenas um génio e uma inteligência de jogo absolutamente incompreensíveis.
quarta-feira, agosto 24, 2011
HÁ TRAUMAS DIFÍCEIS DE ULTRAPASSAR (16 NOVEMBRO 2010)
1- Mais de oito dias depois, ainda continuo nas nuvens com o 5-0. É que foram muitas coisas juntas, muitos motivos de alegria e também de desforra. Ora, anotem: l) vencemos o nosso principal rival na luta pelo título; 2) alargámos a distância para uns já quase irrecuperáveis 10 pontos de avanço, que, na prática, são 11; 3) conquistámos um resultado para a História, que já não se usa hoje em dia e, menos ainda, num clássico nacional; 4) foi a terceira vitória contundente e consecutiva sobre o Benfica, nos últimos seis meses e nos últimos três encontros — uma espécie de tira-teimas sobre quem é a melhor equipa portuguesa da actualidade; 5) para além do resultado esmagador, foi um banho de bola em todos os capítulos (tudo o que o Benfica conseguiu no jogo foi um remate perigoso quando já havia 4-0); 6) foi um arraso para as vedetas do Benfica, de quem se diz que o planeta inteiro anda atrás: o Fábio Coentrão (grande jogador) e o David Luís (grande exagero); 7) com outra exibição demolidora do Hulk, foi mais uma demonstração prática das razões que estiveram por trás da emboscada no túnel da Luz e do jeito que isso deu ao Benfica no campeonato passado; 8) foi uma exemplar lição táctica do rookie André Villas Boas ao catedrático Jorge Jesus — o «novo Mourinho», segundo alguns clarividentes benfiquistas; 9) foi (mais uma!) demonstração do que é, realmente, a verdade desportiva: enquanto eles se gastaram, como habitualmente, em mensagens para o árbitro, queixinhas ao ministro, temores sobre a sua segurança e até ameaças de falta de comparência ao jogo (que jeito que lhes teria dado!), nós esperámos por eles, calmamente e em silêncio, e, na hora e meia da verdade, ali, no único campo da verdade desportiva, até os comemos! Ah, grande Porto, ainda não recuperei de tanta felicidade!
2- E, se nós ainda não recuperámos de tanta felicidade, eles, coitados, tão cedo não recuperam de tanta frustração, tamanha humilhação. Passaram a semana toda em auto-recriminações, tentando reduzir tudo a uma má opção táctica do treinador ou então, como escreveu o notável Malheiro, a tentar explicar o desastre por uns quinze minutos felizes do Porto, mais «uma expulsão forçada e um penalty inexistente ».
Sábado de manhã, cem adeptos de uma claque «não oficial» do Benfica invadiram o treino no Seixal e foram pedir explicações aos jogadores e ao treinador. Relatou 'A Bola' que se «viveram momentos de grande tensão», com «agressões verbais» e alguns jogadores muito impressionados (que é como quem diz...). Já no relato do próprio Jorge Jesus, tudo não passou de «uma conversa breve, de cinco minutos, com alguns benfiquistas educados, ordeiros e com sentido de responsabilidade». Fiquemos por esta última versão e antes assim: só faltava ao Benfica ter de se preocupar com os seus próprios adeptos...
Valeu que no domingo, oito dias depois da sova levada no antro dos dragões (como escreveu o director do Record), o Benfica teve ocasião de se redimir num jogo caseiro contra o último da classificação e onde tudo lhe saiu bem. O jogo valeu para pacificar os espíritos e calar as especulações de tantos benfiquistas, escutadas em surdina ao longo da semana, acerca da curiosa expedição a Angola entre dois jogos do campeonato. E serviu para outra coisa que até a um portista empedernido comoveu: o golo e as lágrimas de Nuno Gomes. Afinal, os jogadores também choram, não são só os adeptos.
3- Já o FC Porto, ainda nas nuvens, meteu folga contra o Portimonense. Percebe-se, aceita-se, tem de se viver com isso de vez em quando, embora não seja bonito de ver. Mas era escusada tanta displicência, tanta negligência, que às vezes sai cara. Até ao último minuto, mergulhados num torpor indolente e medíocre, os portistas estiveram à mercê de um golpe de sorte do adversário. Não aconteceu nem esteve próximo de acontecer, mas não havia necessidade de jogar tão pouco e tão mal. E havia 40.000 portistas nas bancadas, numa noite de chuva e frio e antes de um dia de trabalho...
4- Como se esperava (o próprio Ministério Público pediu em julgamento a sua absolvição), Nuno Cardoso, ex-presidente da CMP foi absolvido do pretenso crime dos «terrenos das Antas» — que serviu ao seu sucessor, Rui Rio, de pretexto para uma campanha anti-FC Porto, muito aplaudida pela inteligentsia lisboeta e que dura até hoje. Sempre achei extraordinário como é que a interpretação de um inspector das Finanças, determinando que a CMP tinha avaliado em mais 2,5 milhões de euros que o seu valor real terrenos permutados entre o FCP e a CMP, tivesse dado origem a tanta especulação e tanta maledicência, só terminadas com a sentença que agora julgou a acusação «absurda» e concluiu que a CMP tinha «defendido o interesse público». Isto, enquanto que para a construção do novo Estádio da Luz e do Alvalade XXI, a câmara de Lisboa não permutou terrenos com o Benfica e o Sporting: deu-lhes sim, terrenos, bombas de gasolina, direitos de construção excepcional e dinheiro, muito dinheiro. Tudo dado. Mas disso, ninguém se ocupou, ninguém suspeitou de crime ou escândalo algum.
5- Vítor Pereira fez o seu anunciado balanço das arbitragens entre a 6ª e a 10ª jornadas. Tudo azul. Ou melhor, tudo vermelho, tudo pacífico: como o Benfica não teve quaisquer razões de queixa (antes pelo contrário, vide jogo com o Paços de Ferreira), não houve problema algum, está tudo óptimo. Mas, pelo menos e como fez notar André Villas Boas, é inconcebível que Vítor Pereira ache que o Académica-FC Porto foi um jogo sem história e com condições para ser disputado. Se o FC Porto tem perdido um jogo que era de absoluta lotaria (mas que acabou por ganhar muito bem), o jogo com o Benfica ter-se-ia disputado em condições psicológicas bem diferentes. Hoje, depois dos 5-0 e da banhada ao Benfica, é difícil imaginar que uma derrota aleatória na piscina de Coimbra tivesse feito alguma diferença. Mas a verdade é que podia tê-lo feito, podia ter sido um turningpoint no campeonato e através de um jogo que nunca se deveria ter disputado. Achar isso normal é preocupante.
6- Soube por uma entrevista do próprio, que o FC Porto rescindiu o contrato com Candeias. Não se limitou a emprestá-lo ao Portimonense: libertou-o, de graça, sem ver nele valor algum para o manter. Como aqui escrevi diversas vezes, tenho a opinião contrária: acho que o jovem Candeias é um valor seguro nas mãos de um clube e de um treinador que o saiba reconhecer e promover — coisa que Jesualdo Ferreira não quis fazer. Agora, ele diz sonhar com o Benfica e, sobretudo, em mostrar aos responsáveis do FC Porto que se enganaram a seu respeito. É mais um de uma série impressionante de miúdos que o FC Porto tem desaproveitado e que têm em comum três coisas: serem da cantera do clube, serem portugueses e serem sempre menos valorizados do que qualquer jovem sul-americano desembarcado em Pedras Rubras. Os próximos espero que não sejam o Ukra e o Castro.
7- 0 derby do Minho, pese às queixas absurdas do presidente do SC Braga, foi, sobretudo um muito mau jogo, disputado por duas más equipas praticamente sem um único bom jogador. Não adianta queixar-se do árbitro, quando se vê que o Luis Aguiar, por exemplo, dispondo de dois livres no final do jogo, daqueles em que a única coisa que importa é levantar a bola para a confusão da área, não foi sequer capaz de a elevar acima dos rins do defesa mais próximo.
2- E, se nós ainda não recuperámos de tanta felicidade, eles, coitados, tão cedo não recuperam de tanta frustração, tamanha humilhação. Passaram a semana toda em auto-recriminações, tentando reduzir tudo a uma má opção táctica do treinador ou então, como escreveu o notável Malheiro, a tentar explicar o desastre por uns quinze minutos felizes do Porto, mais «uma expulsão forçada e um penalty inexistente ».
Sábado de manhã, cem adeptos de uma claque «não oficial» do Benfica invadiram o treino no Seixal e foram pedir explicações aos jogadores e ao treinador. Relatou 'A Bola' que se «viveram momentos de grande tensão», com «agressões verbais» e alguns jogadores muito impressionados (que é como quem diz...). Já no relato do próprio Jorge Jesus, tudo não passou de «uma conversa breve, de cinco minutos, com alguns benfiquistas educados, ordeiros e com sentido de responsabilidade». Fiquemos por esta última versão e antes assim: só faltava ao Benfica ter de se preocupar com os seus próprios adeptos...
Valeu que no domingo, oito dias depois da sova levada no antro dos dragões (como escreveu o director do Record), o Benfica teve ocasião de se redimir num jogo caseiro contra o último da classificação e onde tudo lhe saiu bem. O jogo valeu para pacificar os espíritos e calar as especulações de tantos benfiquistas, escutadas em surdina ao longo da semana, acerca da curiosa expedição a Angola entre dois jogos do campeonato. E serviu para outra coisa que até a um portista empedernido comoveu: o golo e as lágrimas de Nuno Gomes. Afinal, os jogadores também choram, não são só os adeptos.
3- Já o FC Porto, ainda nas nuvens, meteu folga contra o Portimonense. Percebe-se, aceita-se, tem de se viver com isso de vez em quando, embora não seja bonito de ver. Mas era escusada tanta displicência, tanta negligência, que às vezes sai cara. Até ao último minuto, mergulhados num torpor indolente e medíocre, os portistas estiveram à mercê de um golpe de sorte do adversário. Não aconteceu nem esteve próximo de acontecer, mas não havia necessidade de jogar tão pouco e tão mal. E havia 40.000 portistas nas bancadas, numa noite de chuva e frio e antes de um dia de trabalho...
4- Como se esperava (o próprio Ministério Público pediu em julgamento a sua absolvição), Nuno Cardoso, ex-presidente da CMP foi absolvido do pretenso crime dos «terrenos das Antas» — que serviu ao seu sucessor, Rui Rio, de pretexto para uma campanha anti-FC Porto, muito aplaudida pela inteligentsia lisboeta e que dura até hoje. Sempre achei extraordinário como é que a interpretação de um inspector das Finanças, determinando que a CMP tinha avaliado em mais 2,5 milhões de euros que o seu valor real terrenos permutados entre o FCP e a CMP, tivesse dado origem a tanta especulação e tanta maledicência, só terminadas com a sentença que agora julgou a acusação «absurda» e concluiu que a CMP tinha «defendido o interesse público». Isto, enquanto que para a construção do novo Estádio da Luz e do Alvalade XXI, a câmara de Lisboa não permutou terrenos com o Benfica e o Sporting: deu-lhes sim, terrenos, bombas de gasolina, direitos de construção excepcional e dinheiro, muito dinheiro. Tudo dado. Mas disso, ninguém se ocupou, ninguém suspeitou de crime ou escândalo algum.
5- Vítor Pereira fez o seu anunciado balanço das arbitragens entre a 6ª e a 10ª jornadas. Tudo azul. Ou melhor, tudo vermelho, tudo pacífico: como o Benfica não teve quaisquer razões de queixa (antes pelo contrário, vide jogo com o Paços de Ferreira), não houve problema algum, está tudo óptimo. Mas, pelo menos e como fez notar André Villas Boas, é inconcebível que Vítor Pereira ache que o Académica-FC Porto foi um jogo sem história e com condições para ser disputado. Se o FC Porto tem perdido um jogo que era de absoluta lotaria (mas que acabou por ganhar muito bem), o jogo com o Benfica ter-se-ia disputado em condições psicológicas bem diferentes. Hoje, depois dos 5-0 e da banhada ao Benfica, é difícil imaginar que uma derrota aleatória na piscina de Coimbra tivesse feito alguma diferença. Mas a verdade é que podia tê-lo feito, podia ter sido um turningpoint no campeonato e através de um jogo que nunca se deveria ter disputado. Achar isso normal é preocupante.
6- Soube por uma entrevista do próprio, que o FC Porto rescindiu o contrato com Candeias. Não se limitou a emprestá-lo ao Portimonense: libertou-o, de graça, sem ver nele valor algum para o manter. Como aqui escrevi diversas vezes, tenho a opinião contrária: acho que o jovem Candeias é um valor seguro nas mãos de um clube e de um treinador que o saiba reconhecer e promover — coisa que Jesualdo Ferreira não quis fazer. Agora, ele diz sonhar com o Benfica e, sobretudo, em mostrar aos responsáveis do FC Porto que se enganaram a seu respeito. É mais um de uma série impressionante de miúdos que o FC Porto tem desaproveitado e que têm em comum três coisas: serem da cantera do clube, serem portugueses e serem sempre menos valorizados do que qualquer jovem sul-americano desembarcado em Pedras Rubras. Os próximos espero que não sejam o Ukra e o Castro.
7- 0 derby do Minho, pese às queixas absurdas do presidente do SC Braga, foi, sobretudo um muito mau jogo, disputado por duas más equipas praticamente sem um único bom jogador. Não adianta queixar-se do árbitro, quando se vê que o Luis Aguiar, por exemplo, dispondo de dois livres no final do jogo, daqueles em que a única coisa que importa é levantar a bola para a confusão da área, não foi sequer capaz de a elevar acima dos rins do defesa mais próximo.
quarta-feira, agosto 17, 2011
ESPLENDOR NA RELVA (09 NOVEMBRO 2010)
1- Meus senhores, todos os que gostam de futebol: o que vocês viram domingo à noite no Dragão é o melhor que o nosso futebol tem para apresentar. Só não foi um jogo inesquecível porque apenas uma equipa jogou: a outra foi sovada, cilindrada, reduzida ao estado de zombie. Mas que bem que jogou o FC Porto, caramba!
Eu sei que para os nossos inimigos (não adversários, que isso é coisa diferente e mais digna), estes 5-0 não vão servir de nada, nem ensinar coisa alguma nem ajudá-los a meter viola alguma ao saco. Vai passar-se o mesmo que se passou sempre, apesar dos quinze campeonatos ganhos no último quarto de século, dos dois títulos de campeão europeu e campeão do mundo, da Taça UEFA e de tantas e tantas noites de glória azul e branca: assente a poeira deste jogo, disfarçada a vergonha e presumindo esquecida a evidência que todos viram, vão voltar ao disco rachado há vinte e cinco anos — a viagem do Calheiros ao Brasil, a fruta e o chocolate, o árbitro que foi beber um cafezinho antes do palpitante Beira-Mar-FC Porto de 2004 (tão palpitante que até pusemos a reserva a jogar), o sistema, mais as influências e tudo o resto que já estamos carecas de ouvir. Por um lado, fico contente: é sinal que o seu ódio vesgo é tamanho, que nunca irão aprender a lição e nós iremos continuar a ganhar. Mas, por outro lado, fico preocupado, porque sei que esta incapacidade dos nossos inimigos reconhecerem o mérito do FC Porto, mesmo depois de serem cabazados com 5-0, é um decalque do país que hoje somos e das razões da sua falência: os medíocres odeiam a competição, a competitividade, a necessidade de se baterem contra adversários que não conseguem acompanhar. Preferem os direitos adquiridos, o tempo em que tudo lhes vinha parar à mão sem concorrência. Então, vá de desqualificar, caluniar, tentar manchar o sucesso dos intrometidos.
2- Jorge Jesus foi injusto quando quis reduzir tudo o que se viu à «noite inspirada do Hulk» (melhor do que isso, só o site oficial do Benfica, esse jornalismo de referência, resumindo o massacre a uma questão de «falta de sorte»). Para começar, não foi uma noite inspirada do Hulk (mais uma!): foi uma noite de sonho. Depois, por mais fantástica que tenha sido a exibição desse fantástico brasileiro descoberto na obscuridade do futebol japonês e revelado na grande escola de sucesso que é o FC Porto, a verdade é que ele não fez tudo sozinho. Inventou e assistiu o primeiro golo, construiu e cobrou o quarto e inventou sozinho o quinto. Mas, no intervalo, um novo Belluschi foi genial a assistir o Falcão para o segundo e terceiro golos, e o Falcão foi fabuloso a cobrar o segundo de calcanhar e o terceiro à matador. E, no intervalo, a defesa do FC Porto foi absolutamente inultrapassável, com o Sapunaru a fazer a melhor exibição que já lhe vi, o Álvaro Pereira sublime, como de costume, o Helton a fazer uma grande defesa àúnica oportunidade e remate à baliza do Benfica (na sequência, é claro, de uma bola parada), o Guarín a fazer também o melhor jogo de sempre. Não houve um jogador a destoar, não houve uma má exibição individual, e houve, acima de tudo, uma grande equipa, muitíssimo bem preparada.
3- Parabéns, André Villas Boas! Muitos e muitos parabéns! Antes, durante e depois do jogo, fez um trabalho simplesmente perfeito. Antes, preparando o Sapunaru para que ele conseguisse secarpor completo o Fábio Coentrão, na hipótese de este aparecer a jogar adiantado, como sucedeu na primeira parte, e preparando a equipa para jogar sempre próxima, concentradíssima na pressão alta e rapidíssima a explorar os espaços na retaguarda do Benfica. E impecável ainda no elogio que fez ao mérito do Benfica campeão de 2010, sem esquecer o jeito que lhe deu o miserável episódio do túnel da Luz — hoje, e por razões bem à vista de todos, uma das mais vergonhosas páginas do futebol português. Impecável ainda, porque, ao contrário do que é habitual nos nossos treinadores em situações semelhantes, não tratou de se precaver com a desculpa dos dois dias a menos de descanso que a equipa do FC Porto teve em relação à do Benfica, antes dizendo logo que isso não iria servir de desculpa, corressem mal as coisas. E impecável no final, pela forma comedida e cavalheiresca com que tratou uma histórica vitória.
Jorge Jesus tinha um dilema de todos conhecido: recuar o Coentrão para defesa esquerdo de forma a tentar travar o furacão Hulk, mas diminuindo drasticamente o poder ofensivo da equipa; ou adiantá-lo e, prescindindo do César Peixoto a defesa (o que seria um suicídio à partida), inventar outra solução para ali. Inventou o David Luís a defesa esquerdo... e foi cilindrado. Não só pelo Hulk, mas também pelo Belluschi: os três primeiros golos do FC Porto, naqueles estonteantes trinta minutos iniciais, aconteceram todos na zona à guarda de David Luís (pode ser que o rapaz, agora com nova cor de cabelo, se dê também a uma coloração de humildade , que bem precisa). Trocou o esquema na segunda parte, mas não foi melhor: o Hulk fez o quarto e quinto golos na cara do Coentrão. Acontece... Agora, e também com grande dose de injustiça, Jesus está transformado no saco de pancada de todos os benfiquistas.
Mas o que já parece mais difícil de justificar é que tenha caído na tentação habitual dos treinadores portugueses, quando se vêm confrontados com os mais difíceis jogos : mexer na equipa habitual para reforçar a defesa e diminuir o seu poder ofensivo. Num jogo que precisava de ganhar, Jesus tirou o Saviola, inventou um novo esquema defensivo, e entrou no Dragão mostrando a todos, e também aos seus jogadores, que estava com medo. Já vi este filme vezes sem fim — e, invariavelmente, acaba mal.
4- Tal como tinha previsto, durante toda a semana os benfiquistas ocuparam-se previamente da arbitragem do jogo. Nenhum árbitro serve ao Benfica: os que não são benfiquistas porque merecem natural desconfiança; os que, como Pedro Proença, são benfiquistas, porque, como explicou Luís Filipe Vieira, ainda são mais de desconfiar. No caso de Pedro Proença, logo trataram de lembrar que, há dois anos atrás, assinalou um penalty numa simulação de Lisandro López, que deu ao Porto o empate final 1-1. É verdade que sim, mas esqueceram-se de acrescentar duas coisas: uma, que toda a gente que estava no estádio ou a seguir o jogo em directo na televisão, ficou convencida de que era mesmo penalty e só o slow-motion posterior mostrou que não era; e que, antes disso e com 0-0, perdoou um penalty incontestado ao Benfica, por derrube de Lucho González. São assim estes arquivistas da verdade desportiva... Também se esqueceram de lembrar que, na jornada anterior deste campeonato, contra o Paços de Ferreira na Luz, um jovem e promissor árbitro, cujo nome sinceramente não fixei, fez apenas isto: perdoou um penal tye amarelo ao Maxi Pereira (que já não jogaria no Dragão) ; perdoou outro penalty e amarelo, por mão intencional, ao Javi Garcia; perdoou o vermelho directo ao David Luiz (que também não jogaria no Dragão), por mais uma das suas impunes agressões à cotovelada; e assinalou um penalty, com consequente expulsão de um jogador do Paços, e que deu o 2-0 final ao Benfica, por uma simulação do Fábio Coentrão — que também deveria ter visto o amarelo. Caramba, é um promissor árbitro!
Já quanto a Pedro Proença, não há nada a dizer, da parte dos benfiquistas: perdoou o segundo amarelo a Maxi Pereira e talvez um penalty ao Salvio por outra mão na bola que pareceu intencional. E, tanto quanto vi, quando o Coentrão derruba o Hulk na área, este está já isolado e só com Roberto pela frente: ouvi dizer que, neste casos, é o vermelho que se mostra e não o amarelo. Enfim, na dúvida ou até sem dúvida, decidiu sempre, sempre e sempre a favor do Benfica. Acontece.
5- E foi um fim-de-semana perfeito e raro. Um dia de caça fantástico, a convite de um grande senhor e um grande benfiquista (não um adepto normal, mas alguém a quem o SL Benfica muito deve). Um homem simples, generoso como raríssimos, a quem devo inúmeras provas de estima e a capacidade de elogiar o FC Porto, quando acha que é justo. Disse-me: «o Porto vai ganhar, porque está a jogar muito mais do que o Benfica».
Depois, outro dia luminoso de caça, céu azul, o campo lindo, com a melhor companhia possível e um almoço de amigos felizes, reunidos num barracão após a caçada, a quem nada — nem o futebol nem a politica — consegue separar. Domingo, ao final do dia, pensei que, de facto, só faltava a vitória do Porto para ser um fim-de-semana perfeito. Mas 5-0 ao Benfica foi de mais! Não era preciso tanto para sentir que vale a pena estar vivo.
6- Só uma pequena nuvem a toldar um céu absolutamente azul: a presença dos cobardes lançadores de bolas de golfe, que se dizem portistas. Mas é para isto, também, que servem os presidentes: Pinto da Costa tem de dizer, alto e bom som, a esses energúmenos que eles envergonham e prejudicam o clube. E para quê atacar um adversário com bolas de golfe quando o destroçamos com as bolas do jogo?
Eu sei que para os nossos inimigos (não adversários, que isso é coisa diferente e mais digna), estes 5-0 não vão servir de nada, nem ensinar coisa alguma nem ajudá-los a meter viola alguma ao saco. Vai passar-se o mesmo que se passou sempre, apesar dos quinze campeonatos ganhos no último quarto de século, dos dois títulos de campeão europeu e campeão do mundo, da Taça UEFA e de tantas e tantas noites de glória azul e branca: assente a poeira deste jogo, disfarçada a vergonha e presumindo esquecida a evidência que todos viram, vão voltar ao disco rachado há vinte e cinco anos — a viagem do Calheiros ao Brasil, a fruta e o chocolate, o árbitro que foi beber um cafezinho antes do palpitante Beira-Mar-FC Porto de 2004 (tão palpitante que até pusemos a reserva a jogar), o sistema, mais as influências e tudo o resto que já estamos carecas de ouvir. Por um lado, fico contente: é sinal que o seu ódio vesgo é tamanho, que nunca irão aprender a lição e nós iremos continuar a ganhar. Mas, por outro lado, fico preocupado, porque sei que esta incapacidade dos nossos inimigos reconhecerem o mérito do FC Porto, mesmo depois de serem cabazados com 5-0, é um decalque do país que hoje somos e das razões da sua falência: os medíocres odeiam a competição, a competitividade, a necessidade de se baterem contra adversários que não conseguem acompanhar. Preferem os direitos adquiridos, o tempo em que tudo lhes vinha parar à mão sem concorrência. Então, vá de desqualificar, caluniar, tentar manchar o sucesso dos intrometidos.
2- Jorge Jesus foi injusto quando quis reduzir tudo o que se viu à «noite inspirada do Hulk» (melhor do que isso, só o site oficial do Benfica, esse jornalismo de referência, resumindo o massacre a uma questão de «falta de sorte»). Para começar, não foi uma noite inspirada do Hulk (mais uma!): foi uma noite de sonho. Depois, por mais fantástica que tenha sido a exibição desse fantástico brasileiro descoberto na obscuridade do futebol japonês e revelado na grande escola de sucesso que é o FC Porto, a verdade é que ele não fez tudo sozinho. Inventou e assistiu o primeiro golo, construiu e cobrou o quarto e inventou sozinho o quinto. Mas, no intervalo, um novo Belluschi foi genial a assistir o Falcão para o segundo e terceiro golos, e o Falcão foi fabuloso a cobrar o segundo de calcanhar e o terceiro à matador. E, no intervalo, a defesa do FC Porto foi absolutamente inultrapassável, com o Sapunaru a fazer a melhor exibição que já lhe vi, o Álvaro Pereira sublime, como de costume, o Helton a fazer uma grande defesa àúnica oportunidade e remate à baliza do Benfica (na sequência, é claro, de uma bola parada), o Guarín a fazer também o melhor jogo de sempre. Não houve um jogador a destoar, não houve uma má exibição individual, e houve, acima de tudo, uma grande equipa, muitíssimo bem preparada.
3- Parabéns, André Villas Boas! Muitos e muitos parabéns! Antes, durante e depois do jogo, fez um trabalho simplesmente perfeito. Antes, preparando o Sapunaru para que ele conseguisse secarpor completo o Fábio Coentrão, na hipótese de este aparecer a jogar adiantado, como sucedeu na primeira parte, e preparando a equipa para jogar sempre próxima, concentradíssima na pressão alta e rapidíssima a explorar os espaços na retaguarda do Benfica. E impecável ainda no elogio que fez ao mérito do Benfica campeão de 2010, sem esquecer o jeito que lhe deu o miserável episódio do túnel da Luz — hoje, e por razões bem à vista de todos, uma das mais vergonhosas páginas do futebol português. Impecável ainda, porque, ao contrário do que é habitual nos nossos treinadores em situações semelhantes, não tratou de se precaver com a desculpa dos dois dias a menos de descanso que a equipa do FC Porto teve em relação à do Benfica, antes dizendo logo que isso não iria servir de desculpa, corressem mal as coisas. E impecável no final, pela forma comedida e cavalheiresca com que tratou uma histórica vitória.
Jorge Jesus tinha um dilema de todos conhecido: recuar o Coentrão para defesa esquerdo de forma a tentar travar o furacão Hulk, mas diminuindo drasticamente o poder ofensivo da equipa; ou adiantá-lo e, prescindindo do César Peixoto a defesa (o que seria um suicídio à partida), inventar outra solução para ali. Inventou o David Luís a defesa esquerdo... e foi cilindrado. Não só pelo Hulk, mas também pelo Belluschi: os três primeiros golos do FC Porto, naqueles estonteantes trinta minutos iniciais, aconteceram todos na zona à guarda de David Luís (pode ser que o rapaz, agora com nova cor de cabelo, se dê também a uma coloração de humildade , que bem precisa). Trocou o esquema na segunda parte, mas não foi melhor: o Hulk fez o quarto e quinto golos na cara do Coentrão. Acontece... Agora, e também com grande dose de injustiça, Jesus está transformado no saco de pancada de todos os benfiquistas.
Mas o que já parece mais difícil de justificar é que tenha caído na tentação habitual dos treinadores portugueses, quando se vêm confrontados com os mais difíceis jogos : mexer na equipa habitual para reforçar a defesa e diminuir o seu poder ofensivo. Num jogo que precisava de ganhar, Jesus tirou o Saviola, inventou um novo esquema defensivo, e entrou no Dragão mostrando a todos, e também aos seus jogadores, que estava com medo. Já vi este filme vezes sem fim — e, invariavelmente, acaba mal.
4- Tal como tinha previsto, durante toda a semana os benfiquistas ocuparam-se previamente da arbitragem do jogo. Nenhum árbitro serve ao Benfica: os que não são benfiquistas porque merecem natural desconfiança; os que, como Pedro Proença, são benfiquistas, porque, como explicou Luís Filipe Vieira, ainda são mais de desconfiar. No caso de Pedro Proença, logo trataram de lembrar que, há dois anos atrás, assinalou um penalty numa simulação de Lisandro López, que deu ao Porto o empate final 1-1. É verdade que sim, mas esqueceram-se de acrescentar duas coisas: uma, que toda a gente que estava no estádio ou a seguir o jogo em directo na televisão, ficou convencida de que era mesmo penalty e só o slow-motion posterior mostrou que não era; e que, antes disso e com 0-0, perdoou um penalty incontestado ao Benfica, por derrube de Lucho González. São assim estes arquivistas da verdade desportiva... Também se esqueceram de lembrar que, na jornada anterior deste campeonato, contra o Paços de Ferreira na Luz, um jovem e promissor árbitro, cujo nome sinceramente não fixei, fez apenas isto: perdoou um penal tye amarelo ao Maxi Pereira (que já não jogaria no Dragão) ; perdoou outro penalty e amarelo, por mão intencional, ao Javi Garcia; perdoou o vermelho directo ao David Luiz (que também não jogaria no Dragão), por mais uma das suas impunes agressões à cotovelada; e assinalou um penalty, com consequente expulsão de um jogador do Paços, e que deu o 2-0 final ao Benfica, por uma simulação do Fábio Coentrão — que também deveria ter visto o amarelo. Caramba, é um promissor árbitro!
Já quanto a Pedro Proença, não há nada a dizer, da parte dos benfiquistas: perdoou o segundo amarelo a Maxi Pereira e talvez um penalty ao Salvio por outra mão na bola que pareceu intencional. E, tanto quanto vi, quando o Coentrão derruba o Hulk na área, este está já isolado e só com Roberto pela frente: ouvi dizer que, neste casos, é o vermelho que se mostra e não o amarelo. Enfim, na dúvida ou até sem dúvida, decidiu sempre, sempre e sempre a favor do Benfica. Acontece.
5- E foi um fim-de-semana perfeito e raro. Um dia de caça fantástico, a convite de um grande senhor e um grande benfiquista (não um adepto normal, mas alguém a quem o SL Benfica muito deve). Um homem simples, generoso como raríssimos, a quem devo inúmeras provas de estima e a capacidade de elogiar o FC Porto, quando acha que é justo. Disse-me: «o Porto vai ganhar, porque está a jogar muito mais do que o Benfica».
Depois, outro dia luminoso de caça, céu azul, o campo lindo, com a melhor companhia possível e um almoço de amigos felizes, reunidos num barracão após a caçada, a quem nada — nem o futebol nem a politica — consegue separar. Domingo, ao final do dia, pensei que, de facto, só faltava a vitória do Porto para ser um fim-de-semana perfeito. Mas 5-0 ao Benfica foi de mais! Não era preciso tanto para sentir que vale a pena estar vivo.
6- Só uma pequena nuvem a toldar um céu absolutamente azul: a presença dos cobardes lançadores de bolas de golfe, que se dizem portistas. Mas é para isto, também, que servem os presidentes: Pinto da Costa tem de dizer, alto e bom som, a esses energúmenos que eles envergonham e prejudicam o clube. E para quê atacar um adversário com bolas de golfe quando o destroçamos com as bolas do jogo?
sábado, agosto 13, 2011
O TESTE DO DILÚVIO TAMBÉM JÁ ESTÁ (02 NOVEMBRO 2010)
1- É absolutamente inacreditável como é que Duarte Gomes deixou que se disputasse o Académica-FCPorto naquelas condições dantescas do Municipal de Coimbra. Tanto quanto conheço das regras (e gostaria de as ver confirmadas ou não pelos especialistas), no Cidade de Coimbra estavam reunidas em simultâneo as duas condições que a lei prevê para que o árbitro não dê início ao jogo ou não o deixe prosseguir: as marcações não eram visíveis (bem tentaram reforçá-las ao intervalo...) e a bola não deslizava em nenhuma parte do campo. Ao deixar que o jogo se disputasse assim, Duarte Gomes sabia que não podia acontecer nenhum jogo de futebol; sabia que o público, que tinha pago bilhete e arrostado com aquele dilúvio, ia ser frustrado na sua esperança de assistir a um jogo de futebol entre os dois primeiros classificados do campeonato; e sabia também, obviamente, que, naquele terreno, o resultado do jogo seria uma lotaria e que era o FC Porto, a equipa mais técnica, quem tinha mais a arriscar e a perder. Em última análise, um não-jogo poderia vir a assumir uma importância quem sabe se decisiva para as contas finais do título: bastaria que a Académica, num golpe de sorte, um ressalto, uma bola presa no charco e aproveitada, conseguisse marcar um golo e não sofrer nenhum, e o FC Porto sairia dali com a primeira derrota da época ou com um empate, muito estimulante para o Benfica, a uma semana do jogo do Dragão.
É impossível que o árbitro não tenha pensado em tudo isso e, mesmo assim, resolveu levar o jogo até ao fim. Durante os noventa minutos de pesadelo surreal que se seguiram, Duarte Gomes teve, aliás, várias outras decisões que todas igualmente prejudicaram o FC Porto: perdoou um penalty à Académica com 0-0, anulou um golo a Falcão, pretextando falta de Hulk antes do passe para golo e porque um jogador dos estudantes tinha feito um pião à frente do brasileiro, tentando assim tirar-lhe a bola, sem o conseguir; inventou dois livres à entrada da área do Porto, já depois dos 90 minutos — o primeiro dos quais ia proporcionando o empate e o segundo, originado numa falta descarada cometida por um jogador de Coimbra sobre o Guarin e transformada em falta contra o Porto, originou uma confusão extrema que deu para os da casa reclamarem um penalty que ninguém viu e acabarem... a queixar-se da arbitragem!
Durante 90 minutos eu senti que ali o FC Porto estava a jogar contra todos os factores e que iria precisar de muita sorte para escapar sem danos. Teve sorte, de facto, em não sair de Coimbra com nenhum lesionado grave. Mas, no resto, teve grande mérito na forma como se adaptou às condições impossíveis do terreno, como chegou ao golo num pontapé espectacular de Varela, e como teve ainda forças para dominar toda a segunda parte — apenas pecando nas quatro oportunidades flagrantes de golo desperdiçadas. Obrigado a jogar sem poder mostrar o seu futebol, a equipa mostrou a fibra e a vontade de vencer, contra tudo e todos, que são a imagem de marca dos campeões. O empate de Guimarães, cedido por sobranceria e desleixo, parece ter sido um mal que veio por bem: de então para cá, a equipa absorveu a lição: não basta ser melhor, não basta jogar melhor. Há muitos outros factores, como a arbitragem de Istambul ou o futebol de praia (à beira-mar) imposto por Duarte Gomes em Coimbra, que também entram em jogo quando não se espera. A forma como o incrível obstáculo de Coimbra foi ultrapassado foi simplesmente brilhante.
2- Tenho uma profunda irritação pela obsessão dos repórteres de serviço aos flash interview em tentar sempre encontrar casos de arbitragem onde eles não existiram, pondo na boca dos entrevistados aquilo que mais não são do que desejos ou opiniões dos próprios entrevistadores. Em Coimbra, o repórter Pedro Neves de Sousa, a pretexto do tal lance de confusão em que nada se conseguiu ver ou perceber, acontecido na área do FC Porto aos 90+3 minutos e resultante de uma falta marcada ao contrário, conseguiu pôr na boca de um jogador da Académica e do seu treinador reclamações sobre uma pretensa mão e invisível penalty e queixas da arbitragem absolutamente ridículas e até intelectualmente desonestas. Achei graça que não lhe ocorresse também perguntar a Villas Boas pelo penalty não marcado a favor do Porto, pelo golo mal anulado ou por esse livre inventado três minutos depois da hora. Ou perguntar-lhe se ele não achava que a decisão de fazer o jogo naquele relvado tinha sido objectivamente uma decisão que prejudicava gravemente e logo à partida o FC Porto. Ou perguntar a Jorge Costa como é que ele podia considerar o resultado injusto se, a perder por 0-1 desde os 43 minutos, a sua equipa só voltara a fazer um ataque e um remate abaliza, de livre, aos 90 minutos, enquanto o FC Porto, nesse intervalo de tempo, desperdiçara três remates de baliza aberta e um penalty. São critérios — jornalísticos, certamente.
3- Durante esta semana vamos escutar vários recados dos benfiquistas com destino à arbitragem do jogo do Dragão. Já começaram, aliás, e na perspectiva de haver greve dos árbitros, a dizer que, para eles, até era melhor vir um árbitro da bancada. Pergunto: são capazes de recordar quando foi a última vez que o Benfica teve queixas de arbitragem de um jogo no Dragão ou nas Antas? E quando foi a última vez que o FC Porto teve queixas?
P.S - A Declaração de Independência dos Estados Unidos é parte integrante da Constituição americana, escrita oito anos depois, e funciona como texto interpretativo e remissivo desta. A Declaração contém os princípios fundamentais da democracia americana (que os tribunais aplicam em caso de conflito de interpretação constitucional), e a Constituição contém as regras de organização do sistema político da União.
Julgo que o ex-árbitro Calheiros já tinha saído do activo quando da sua célebre viagem num avião do FC Porto ao Brasil. Mas não o posso jurar, nem isso interessa: interessaria era provar que essa viagem, foi o preço pago pelo FC Porto em troca de um favor de arbitragem concreto—e isso ninguém o fez.
Sim, é possível que, escrevendo sobre futebol — o que não é propriamente nem uma ciência exacta nem uma escrita determinante — me escapem pormenores de facto ou acontecimentos passados irrelevantes. Não tenho tempo de, ao contrário do que fazem o Quintela e o Ricardo Araújo Pereira, passar a vida a vasculhar arquivos de inutilidades. Quando vejo alguém a citar uma arbitragem que terá prejudicado o seu clube em 1989, um penalty que ficou por marcar em 2003 ou coisa semelhante, fico sempre a pensar se não terão nada de mais útil de que se ocuparem. É claro que há árbitros que também não esqueci, de tal forma as suas arbitragens ao longo dos anos foram sempre em prejuízo do meu clube: Lucílio Baptista, Bruno Paixão, Jorge Coroado ou o inesquecível Carlos Valente, a quem o Benfica tanto deve. Mas nem sequer fixei o nome do árbitro que este fim-de-semana perdoou um penalty ao Benfica contra o Paços de Ferreira, numa altura em que havia 1-0 e o Paços dominava por completo o Benfica. Mas sei, com toda a certeza, que esse facto não entrará no próximo relatório benfiquista sobre as malfeitorias dos árbitros. Sei que os que citam o que lhes interessa, convictos que os outros já não se lembram, também se esquecem de citar o que não lhes interessa — o que torna a sua suposta sabedoria enciclopédica numa ciência desonesta.
Mas, de facto, não tenho tempo nem vocação ou paciência para manter actualizado um arquivo de casos do nosso futebol. Acontece que trabalho bem e tenho coisas bem mais interessantes para fazer. E, como é sabido, não ganho dinheiro fácil a fazer publicidade e menos ainda em papéis de espermatozóide do espaço em anúncios publicitários que são um atentado à inteligência de qualquer um.
O que agora me interessa é isto: começo a ficar farto de viver aqui neste jornal com dois rafeiros atiçados permanentemente às canelas, dois censores encartados do que escrevo, obcecados em fazer a exegese completa dos milhares de páginas que em todo o lado escrevi nos últimos anos, para depois, citarem coisas truncadas, descontextualizadas e sobre assuntos totalmente diferentes, a fim de tentarem provar nem sei bem o quê. Embora haja que distinguir (reconheço que o RAP é um tipo com talento e piada, enquanto o Quintela não se lhe conhece dom algum que não o de fazer de Sancho Pança dele), ambos funcionam em matilha Benfica/Sporting, organizada apenas para tentar que eu e o Rui Moreira um dia enchamos o saco e nos vamos embora. Sei que é isso que eles querem, mas também não é isso que me impedirá de um dia me fartar de vez de os aturar. Se todas as semanas há dois colaboradores do jornal onde eu também escrevo cuja única função é a actividade pidesca de vasculhar tudo o que eu escrevi ou escrevo, a fim de me tentarem intimidar ou silenciar, talvez não faça sentido algum coincidirmos aqui.
Há cerca de ano e meio atrás, antes da dupla Quintela/RAP ter feito de mim o objecto principal das suas esforçadas tentativas de aliviarem as desilusões futebolísticas dos seus clubes de estimação, tive a honra de ser por eles convidado para ir aos Gatos Fedorentos e tive o desplante de ser, juntamente com o actual Presidente da República (e este por dever de função) o único de todos os convidados a recusar o convite. Verdadeira contradição é terem convidado um tipo a quem depois transformaram num alvo a abater. Verdadeira não-contradição foi o facto de eu já então ter optado por recusar um convite tão honroso que, do primeiro-ministro à líder da oposição, não houve Zé Careca neste país que se recusasse a ir lá a correr. Hoje, eles dirão que foi um erro terem-me convidado e não sabem porque o fizeram. Mas eu sei bem porque recusei.
É impossível que o árbitro não tenha pensado em tudo isso e, mesmo assim, resolveu levar o jogo até ao fim. Durante os noventa minutos de pesadelo surreal que se seguiram, Duarte Gomes teve, aliás, várias outras decisões que todas igualmente prejudicaram o FC Porto: perdoou um penalty à Académica com 0-0, anulou um golo a Falcão, pretextando falta de Hulk antes do passe para golo e porque um jogador dos estudantes tinha feito um pião à frente do brasileiro, tentando assim tirar-lhe a bola, sem o conseguir; inventou dois livres à entrada da área do Porto, já depois dos 90 minutos — o primeiro dos quais ia proporcionando o empate e o segundo, originado numa falta descarada cometida por um jogador de Coimbra sobre o Guarin e transformada em falta contra o Porto, originou uma confusão extrema que deu para os da casa reclamarem um penalty que ninguém viu e acabarem... a queixar-se da arbitragem!
Durante 90 minutos eu senti que ali o FC Porto estava a jogar contra todos os factores e que iria precisar de muita sorte para escapar sem danos. Teve sorte, de facto, em não sair de Coimbra com nenhum lesionado grave. Mas, no resto, teve grande mérito na forma como se adaptou às condições impossíveis do terreno, como chegou ao golo num pontapé espectacular de Varela, e como teve ainda forças para dominar toda a segunda parte — apenas pecando nas quatro oportunidades flagrantes de golo desperdiçadas. Obrigado a jogar sem poder mostrar o seu futebol, a equipa mostrou a fibra e a vontade de vencer, contra tudo e todos, que são a imagem de marca dos campeões. O empate de Guimarães, cedido por sobranceria e desleixo, parece ter sido um mal que veio por bem: de então para cá, a equipa absorveu a lição: não basta ser melhor, não basta jogar melhor. Há muitos outros factores, como a arbitragem de Istambul ou o futebol de praia (à beira-mar) imposto por Duarte Gomes em Coimbra, que também entram em jogo quando não se espera. A forma como o incrível obstáculo de Coimbra foi ultrapassado foi simplesmente brilhante.
2- Tenho uma profunda irritação pela obsessão dos repórteres de serviço aos flash interview em tentar sempre encontrar casos de arbitragem onde eles não existiram, pondo na boca dos entrevistados aquilo que mais não são do que desejos ou opiniões dos próprios entrevistadores. Em Coimbra, o repórter Pedro Neves de Sousa, a pretexto do tal lance de confusão em que nada se conseguiu ver ou perceber, acontecido na área do FC Porto aos 90+3 minutos e resultante de uma falta marcada ao contrário, conseguiu pôr na boca de um jogador da Académica e do seu treinador reclamações sobre uma pretensa mão e invisível penalty e queixas da arbitragem absolutamente ridículas e até intelectualmente desonestas. Achei graça que não lhe ocorresse também perguntar a Villas Boas pelo penalty não marcado a favor do Porto, pelo golo mal anulado ou por esse livre inventado três minutos depois da hora. Ou perguntar-lhe se ele não achava que a decisão de fazer o jogo naquele relvado tinha sido objectivamente uma decisão que prejudicava gravemente e logo à partida o FC Porto. Ou perguntar a Jorge Costa como é que ele podia considerar o resultado injusto se, a perder por 0-1 desde os 43 minutos, a sua equipa só voltara a fazer um ataque e um remate abaliza, de livre, aos 90 minutos, enquanto o FC Porto, nesse intervalo de tempo, desperdiçara três remates de baliza aberta e um penalty. São critérios — jornalísticos, certamente.
3- Durante esta semana vamos escutar vários recados dos benfiquistas com destino à arbitragem do jogo do Dragão. Já começaram, aliás, e na perspectiva de haver greve dos árbitros, a dizer que, para eles, até era melhor vir um árbitro da bancada. Pergunto: são capazes de recordar quando foi a última vez que o Benfica teve queixas de arbitragem de um jogo no Dragão ou nas Antas? E quando foi a última vez que o FC Porto teve queixas?
P.S - A Declaração de Independência dos Estados Unidos é parte integrante da Constituição americana, escrita oito anos depois, e funciona como texto interpretativo e remissivo desta. A Declaração contém os princípios fundamentais da democracia americana (que os tribunais aplicam em caso de conflito de interpretação constitucional), e a Constituição contém as regras de organização do sistema político da União.
Julgo que o ex-árbitro Calheiros já tinha saído do activo quando da sua célebre viagem num avião do FC Porto ao Brasil. Mas não o posso jurar, nem isso interessa: interessaria era provar que essa viagem, foi o preço pago pelo FC Porto em troca de um favor de arbitragem concreto—e isso ninguém o fez.
Sim, é possível que, escrevendo sobre futebol — o que não é propriamente nem uma ciência exacta nem uma escrita determinante — me escapem pormenores de facto ou acontecimentos passados irrelevantes. Não tenho tempo de, ao contrário do que fazem o Quintela e o Ricardo Araújo Pereira, passar a vida a vasculhar arquivos de inutilidades. Quando vejo alguém a citar uma arbitragem que terá prejudicado o seu clube em 1989, um penalty que ficou por marcar em 2003 ou coisa semelhante, fico sempre a pensar se não terão nada de mais útil de que se ocuparem. É claro que há árbitros que também não esqueci, de tal forma as suas arbitragens ao longo dos anos foram sempre em prejuízo do meu clube: Lucílio Baptista, Bruno Paixão, Jorge Coroado ou o inesquecível Carlos Valente, a quem o Benfica tanto deve. Mas nem sequer fixei o nome do árbitro que este fim-de-semana perdoou um penalty ao Benfica contra o Paços de Ferreira, numa altura em que havia 1-0 e o Paços dominava por completo o Benfica. Mas sei, com toda a certeza, que esse facto não entrará no próximo relatório benfiquista sobre as malfeitorias dos árbitros. Sei que os que citam o que lhes interessa, convictos que os outros já não se lembram, também se esquecem de citar o que não lhes interessa — o que torna a sua suposta sabedoria enciclopédica numa ciência desonesta.
Mas, de facto, não tenho tempo nem vocação ou paciência para manter actualizado um arquivo de casos do nosso futebol. Acontece que trabalho bem e tenho coisas bem mais interessantes para fazer. E, como é sabido, não ganho dinheiro fácil a fazer publicidade e menos ainda em papéis de espermatozóide do espaço em anúncios publicitários que são um atentado à inteligência de qualquer um.
O que agora me interessa é isto: começo a ficar farto de viver aqui neste jornal com dois rafeiros atiçados permanentemente às canelas, dois censores encartados do que escrevo, obcecados em fazer a exegese completa dos milhares de páginas que em todo o lado escrevi nos últimos anos, para depois, citarem coisas truncadas, descontextualizadas e sobre assuntos totalmente diferentes, a fim de tentarem provar nem sei bem o quê. Embora haja que distinguir (reconheço que o RAP é um tipo com talento e piada, enquanto o Quintela não se lhe conhece dom algum que não o de fazer de Sancho Pança dele), ambos funcionam em matilha Benfica/Sporting, organizada apenas para tentar que eu e o Rui Moreira um dia enchamos o saco e nos vamos embora. Sei que é isso que eles querem, mas também não é isso que me impedirá de um dia me fartar de vez de os aturar. Se todas as semanas há dois colaboradores do jornal onde eu também escrevo cuja única função é a actividade pidesca de vasculhar tudo o que eu escrevi ou escrevo, a fim de me tentarem intimidar ou silenciar, talvez não faça sentido algum coincidirmos aqui.
Há cerca de ano e meio atrás, antes da dupla Quintela/RAP ter feito de mim o objecto principal das suas esforçadas tentativas de aliviarem as desilusões futebolísticas dos seus clubes de estimação, tive a honra de ser por eles convidado para ir aos Gatos Fedorentos e tive o desplante de ser, juntamente com o actual Presidente da República (e este por dever de função) o único de todos os convidados a recusar o convite. Verdadeira contradição é terem convidado um tipo a quem depois transformaram num alvo a abater. Verdadeira não-contradição foi o facto de eu já então ter optado por recusar um convite tão honroso que, do primeiro-ministro à líder da oposição, não houve Zé Careca neste país que se recusasse a ir lá a correr. Hoje, eles dirão que foi um erro terem-me convidado e não sabem porque o fizeram. Mas eu sei bem porque recusei.