segunda-feira, julho 11, 2011

NÃO HOUVE CRÓNICA (24 AGOSTO 2010)

Não houve crónica.

NÃO HOUVE CRÓNICA (17 AGOSTO 2010)

Não houve crónica.

terça-feira, julho 05, 2011

NA HORA EXACTA (10 AGOSTO 2010)

1- Escrevi na semana passada que, pelo que me tinha sido dado ver do jogo do FC Porto contra o Bordéus e pelo que ia lendo das crónicas dos jogos de pré-época do Benfica, me parecia que os portistas não estavam preparados para se baterem contra os encarnados ao nível mais alto e que só um milagre os conseguiria fazer recuperar o atraso numa semana. Na verdade, toda a gente pensava o mesmo, mas eu até nem pensava exactamente assim: tratou-se também de uma provocaçãozinha à equipa, para ajudar a despertar o Dragão e apelar ao espírito de conquista e de brio que é uma das imagens de marca das equipas do FC Porto, venha quem vier, saia quem sair.
Mas nem eu, claro, nem ninguém, estava à espera de tamanha demonstração de superioridade dos azuis sobre os vermelhos. Já em Abril passado, no final do campeonato e com tudo já decidido, o Benfica também fora sovado no Dragão (apesar de jogar metade do jogo contra dez), em outra demonstração de raça e brio dos azuis e brancos. Razão teve o Sílvio Cervan para escrever que estava apreensivo com o jogo de sábado, porque via os portistas descrentes e os benfiquistas eufóricos, para não dizer arrogantes (que ele não diria nunca, claro). Foi, de facto, mais e muito melhor do que se poderia esperar: muito mais futebol, muito melhor qualidade. Até aos 28 minutos, assistiu-se a um massacre dos portistas e, na segunda parte, quando se antevia uma reacção do Benfica e o cansaço dos portistas, aconteceu afinal nova e prolongada demonstração de superioridade azul, com o Benfica a conseguir a sua única oportunidade de golo em todo o jogo a cinco minutos do fim. 2-0 foi pouco, demasiado pouco.

A vitória clara dos portistas significou mais do que a conquista de mais uma Supertaça — a competição em que o FC Porto é o grande açambarcador. Como todos terão percebido, ela funcionou como uma espécie de carta de alforria de André Villas Boas e, simultaneamente, um aviso sério ao excesso de confiança dos benfiquistas e de Jorge Jesus (que teve o fairplay de reconhecer o mérito da vitória do adversário). Depois de uma semana em que foi alvo de muitas dúvidas e das palavras, no mínimo deselegantes, de Mourinho, Villas Boas precisava deste triunfo quase desesperadamente. Ele foi absolutamente decisivo para estabelecer uma base de confiança indispensável entre os adeptos e os jogadores para com o treinador e deste consigo próprio. Ao mesmo tempo, mostrou que as notícias sobre o esplendor benfiquista eram, como de costume, exageradas, e que este Benfica, por melhor que seja (e é, relativamente a épocas passadas), continua ao alcance de um FC Porto a jogar à dragão. Já se tinha visto no final da época passada e voltou a ver-se agora, no início desta. O Benfica ficou a saber que tem adversário no Porto. Pode começar o campeonato e que ganhe o melhor.

2- André Villas Boas derrotou o Benfica com uma equipe em que o único elemento novo era João Moutinho. E de fora ainda ficaram Rúben Micael e os dois jogadores em situação de vai-não-vai: Raul Meireles e Fucile. Dito assim, até parece que o neófito treinador conseguiu já melhor do que Jesualdo Ferreira, mas a observação é injusta. Jesualdo jogou longo tempo sem jogadores como Rodríguez, Hulk, Rúben e, sobretudo, Silvestre Varela, a grande estrela do jogo de Aveiro.

Para mim, aliás, João Moutinho foi, juntamente com Hulk, o mais fraco elemento da equipa. Terei de ser convencido de que a sua compra não foi, de facto, um mau negócio, pois que o seu futebol nunca me convenceu por aí alem. Escreveu-se aqui em A BOLA que, no jogo de Aveiro, ele «foi incansável a jogar sem bola». Tratando-se de um médio, jogando numa zona por onde passa quase todo o jogo obrigatoriamente, aquela frase certeira, para mim, quer apenas dizer que ele foi incansável sem bola, talvez, mas inexistente com ela — e, até ver, o futebol joga-se prioritariamente com bola. É verdade que os adeptos o adoram e que ele já fala à dragão. Peço desculpa para dizer que isso é o que menos me convence: sobre a lealdade dos jogadores aos clubes que lhes pagam e às cores que representam, já todos conhecemos a verdade dos sentimentos. E o João Moutinho é um bom exemplo disso. Se ele falar menos à dragão e for menos incansável a jogar sem bola, eu começarei a ficar mais convencido. Até lá, continuo a pensar isto: que falta que nos faz agora o Nuno André Coelho!

3- Se o FC Porto jogou muito e bem, o Benfica jogou pouco, mal e feio. E este último aspecto merece algumas considerações. Para começar, o antidesportivismo: julgo que a Luz teria vindo abaixo se alguma equipa adversária tivesse lá jogado com a falta de desportivismo com que os benfiquistas jogaram em Aveiro. É difícil entender, por exemplo, como é que a dois minutos do fim e com o jogo decidido, os jogadores do Benfica não põem a bola fora, vendo o Falcão no chão, torcendo-se de dores com uma cãibra. Fizeram o mesmo duas outras vezes antes, pelo que o público da Luz fica já a saber que esta é a regra da sua equipa e não tem que se admirar ou protestar se os adversários lhe fizerem o mesmo.

Feio também foi o festival de pancadaria protagonizado pelo Benfica, perante a complacência de João Ferreira, o árbitro do túnel da Luz. O mesmo indivíduo que, na confusão do túnel da Luz conseguiu descortinar uma pseudo - agressão do Hulk a um segurança, tão grave que justificou uma suspensão de três meses, não conseguiu ver ali, à frente dele, nem a cotovelada do Cardozo no Sapunaru, nem o pontapé do Armar no Belluschi, nem o pontapé por trás do David Luiz no Sapunaru, com o jogo parado, nem a pisadela voluntária do César Peixoto num adversário caído. Mas, sobretudo, não conseguiu ver nada, absolutamente nada, que justificasse um amarelo em todo o jogo ao Carlos Martins, que passou 90 minutos a distribuir pancada por todos os adversários que se cruzavam com ele (sete entradas para amarelo, contei eu!). Se este fosse um jogo do Mundial, o Benfica teria acabado com sete jogadores em campo, aqui acabou com os onze. Mas o mais irónico é que estamos a falar de um campeão nacional que terminou quase metade dos seus jogos na época passada contra equipas em inferioridade numérica, por expulsão de jogadores. A Luz viria abaixo se o critério disciplinar de João Ferreira se aplicasse aos adversários do Benfica, à vista do seu público. Mas a procissão vai ainda antes do adro e, por isso, convém que se pergunte desde já: esta arbitragem foi apenas um erro individual que será devidamente castigado ou pretende fixar um padrão de conduta de todas as arbitragens para os jogos do Benfica? Acho que Vítor Pereira tem obrigação de esclarecer desde já as coisas. A ver se podemos esperar uma época mais tranquila e com menos casos. É que uma coisa é certa: uma arbitragem como a que João Ferreira protagonizou na final da Supertaça não é admissível. E só não está toda a imprensa aos berros com isso porque o beneficiado foi o Benfica.

4- Pouco mais de um mês passado sobre a sua prestação ao serviço do Uruguai no Mundial, e pouco menos de duas semanas depois de se apresentarem ao serviço no Porto, Fucile e Álvaro Pereira, acompanhados por Cristián Rodríguez, já partiram novamente ao serviço da selecção uruguaia— suponho que para um jogo particular. A isto chama-se explorar os clubes, e um dia a FIFA terá de olhar com atenção para o problema, sob pena de um dia os clubes falirem e acabarem as selecções, tal como as conhecemos.

segunda-feira, julho 04, 2011

A FALTA QUE BRUNO E BAÍA FAZEM (03 AGOSTO 2010)

1- Finalmente, tive um primeiro relance sobre o FC Porto 2010/11, de André Villas Boas: vi a última hora do jogo com o Bordéus, em Paris. E o que vi deixou-me naturalmente preocupado: este FC Porto, que acumulou duas derrotas nos dois jogos do Torneio de Paris, ao contrário do que diz o seu treinador, não está minimamente preparado para enfrentar o Benfica, daqui a cinco dias. E muito me espantaria que em cinco dias conseguisse recuperar o atraso para a equipa de Jorge Jesus, que arrancou esta pré-época com a mesma pedalada da anterior e com a vantagem de apenas ter perdido dois elementos: o intermitente Di Maria e o incansável Dr. Ricardo Costa, da Comissão Disciplinar da Liga. Diferentemente da equipa de Jorge Jesus, o FC Porto volta a arrancar com a necessidade de começar muita coisa de novo — agora e sobretudo, a necessidade de se habituar a novo treinador. Como aqui escrevi no final da época passada, era de prever que Pinto da Costa desse ao novo, jovem e iniciado treinador melhores e mais armas do que as que concedeu a Jesualdo Ferreira no ano passado. Porque, sendo a escolha de Villas Boas uma aposta pessoalíssima do presidente portista, o falhanço dele seria visto sobretudo como o falhanço de Pinto da Costa. E, pelo que vi do jogo com o Bordéus, isso parece ter acontecido para já. A equipa está ainda completamente perra, desarticulada e sem ideias assumidas (e não me parece que a aposta na rotação permanente de todos os jogadores ao fim de meia dúzia de jogos de preparação — ao contrário do que Jesus tem feito no Benfica — seja o caminho mais rápido para dar à equipa um fio de jogo). Mas, apesar de não funcionar para já, enquanto conjunto, há ali elementos novos que revelam valor para poderem vir a ser úteis: do pouco que vi, foi o caso de Souza, uma excelente alternativa a um Fernando que passou a época anterior descansado e sonolento, o caso de Castro também, e de Ukra e James Rodriguéz. Não há dúvida de que Villas Boas tem ali mais e melhor matéria prima para fazer melhor do que Jesualdo na época passada (em que ainda teve de enfrentar as lesões prolongadas de Rodriguéz, Varela e Ruben Micael e o castigo de prisão quase perpétua cozinhado para Hulk).

Mas há um problema grave chamado Bruno Alves e que salta à vista de qualquer um. Como se sabe e aqui escrevi a semana passada, a direcção da SAD está desesperada para vender Bruno Alves e também Raul Meireles, talvez igualmente Fucile. Por razões que me escapam, apenas apareceu para Bruno uma proposta do Zenit e ele estará receptivo a aceitá-la: será mais um português a deixar-se iludir pelos dólares russos, sem perceber que vai para um país inóspito, longe de tudo a que está habituado, a fazer deslocações de avião permanentes (só para ir jogar a Vladivostock, no Pacífico, são doze horas de avião!), e que daqui a um ano, fatalmente, estará a suspirar para que alguém o resgate ao campeonato russo. Logicamente que André Villas Boas, confrontado com as notícias diárias que dão conta da iminente venda de Bruno Alves e Raul Meireles, optou por deixar ambos de fora dos jogos de preparação, pois que não faria sentido estar a preparar uma nova equipa para começar a época com jogadores que amanhã podem já não estar ali. E o que tem sido visto e abundantemente comentado deste FC Porto sem Bruno Alves é que toda aquela defesa estremece ao menor sopro. Maicon e Sereno, com muito trabalho, talvez possam vir a ser razoáveis suplentes, mas daí não passarão; e Rolando, que vem de uma época em que regrediu, em lugar de progredir, com várias falhas decisivas, vale metade do habitual sem Bruno Alves ao lado. Ora, vendendo o seu capitão e referência, não apenas defensiva, o FC Porto não irá, por certo, encontrar substituto à altura — a menos que quisesse gastar o mesmo dinheiro que vai ganhar com a venda, o que seria absurdo. E um grande central para futuro precisará de dois, três anos para se afirmar — como sucedeu com o próprio Bruno Alves. Isto quer dizer que, pela primeira vez desde há muitos anos, o FC Porto prepara-se para enfrentar uma época sem nenhum grande central. Foram anos e anos em que esse era um sector sempre bem preenchido entre os azuis e brancos, fosse com dois ou, ao menos, com um grande jogador: Geraldão, Demol, Aloísio, Jorge Andrade, Ricardo Carvalho, Jorge Costa, Pepe, Bruno Alves, enfim, toda uma sequência de grandes centrais que contribuíram decisivamente para duas décadas de domínio inquestionável no futebol português.

Villas Boas poderá, assim, vir a ter mais e melhores soluções que Jesualdo Ferreira, mas com essa imensa e irresolúvel diferença negativa que é não ter um central à altura das aspirações da equipa. E seria milagre que isso não começasse já a pagar um preço no jogo com o Benfica para a Supertaça.

2- Acho que nunca ou quase nunca um tão grande jogador deu tanto a um clube e saiu tão mal tratado dele como Vítor Baía. O acto final do afastamento progressivo de Baía — primeiro, da baliza; depois, do balneário e, finalmente, do clube — viveu-se esta semana, a sós entre ele e Pinto da Costa. Poucos elementos, dos que lá passaram nos últimos vinte anos, foram tão fiéis ao presidente, como o Vítor Baía foi. Não sei, pois, o que terá passado pela cabeça (e pela memória e pela gratidão) de Pinto da Costa, para sacrificar Baía às guerras internas de poder dentro do clube e a personagens incomparavelmente menores — em termos de antiguidade, de lealdade, de dignidade e, sobretudo, de serviço prestado ao clube. Nem sequer é este o padrão de conduta habitual naquela casa: pelo contrário, o reconhecimento do valor dos serviços prestados ao clube foi sempre uma das imagens de marca da gestão de Pinto da Costa. O poder solitário é um mau conselheiro; o poder solitário envelhecido é um péssimo conselheiro.

Acredito, como escreveu Rui Moreira, que um dia Vítor Baía há-de voltar ao clube que é seu e onde foi e é estimado como raríssimos outros. Mas, na hora desta sua saída, que se espera e deseja provisória, só tenho duas palavras para ele: «Obrigado, Vítor!».

3- Já disse que Carlos Queiroz não teria sido a minha escolha para seleccionador. Já disse que achei o seu desempenho na África do Sul medroso e medíocre. Já disse que acho escandaloso, quer o prémio pela prestação, quer a indemnização devida em caso de despedimento. Mas o incidente disciplinar agora suscitado contra ele tem todo o ar de ser um pretexto, coxo e preparado, para se verem livres do homem que escolheram livremente, sem ter de lhe pagar, pelo menos, a totalidade do que contrataram com ele. E sem a coragem de lho dizer na cara.

sexta-feira, julho 01, 2011

À ESPERA DO FUTEBOL A SÉRIO (27 JULHO 2010)

1- Arrastamo-nos até 7 de Agosto, dia em que o futebol tem seu pontapé de saída oficial com o Benfica-Porto da Supertaça. Daqui até lá, é a época de todas as esperanças e ilusões, em que tudo é lícito esperar, sem temer as desilusões. Cansado da barrigada de futebol do Mundial, eu confesso que não tenho saudades de futebol e, dos jogos da pré-época, não vi mais do que quinze minutos do Benfica-Mónaco. Foram quinze minutos nos quais o Benfica virou o resultado de 1-2 para 3-2 e que bastaram para ver que os encarnados mantêm a sua impressionante capacidade de futebol ofensivo em pressão constante, que foi a sua arma decisiva no título da época passada. Dizem que sofre muitos golos, que tem um problema sério com o novo guarda-redes, mas as equipas que têm facilidade em chegar ao golo e em manter uma atitude de ataque regular, podem-se permitir abanar cá atrás, porque vão ganhar muitas mais vezes do que perder. Saber defender não é muito difícil; saber atacar, isso sim, já é mais complicado.

O Sporting, estranhamente para mim (que tenho sempre dificuldade em levar a sério as suas crónicas candidaturas a campeão) , anda por aí a acumular, ao que escrevem, bons jogos e bons resultados contra equipas de primeiro plano europeu, como o são indiscutivelmente o Manchester City e o Tottenham. E até conquistaram um torneio internacional de Verão, coisa rara nos últimos anos. Óptimo, tem mais graça uma luta a três do que a dois — ou ao menos, um começo de luta a três. E digo a três e não a quatro, porque, pelas indicações lidas e por experiência adquirida, não me parece que oSporting de Braga este ano consiga repetir o bom desempenho da época passada. Tive ocasião de lamentar aqui que, independentemente do mérito tido nessa campanha, fosse o Sp. Braga e não o FC Porto a disputar um lugar na Champions. Porque o FC Porto já todos sabemos que, em qualquer circunstância, tem capacidade para o fazer e seguir em frente, enquanto que o Braga, oxalá me engane, mas não o estou a ver a conseguir entrar no quadro final da Champions — e assim se desperdiçará a oportunidade de ter duas equipas nacionais entre as 32 principais da Europa.

Quanto ao FC Porto, pois apenas sei o que leio nos jornais, visto que a SAD portista não quis deixar transmitir nenhum dos jogos de preparação que a equipa fez até aqui. Mas, nas entrelinhas do que leio, julgo ter percebido que o grau de preparação da equipa, de habituação aos métodos do novo treinador e de entrosamento dos novos jogadores está numa fase mais atrasada do que a dos seus rivais de Lisboa. Parece também que dos oito novos reforços apenas João Moutinho conquistou de entrada um lugar no onze com mais probabilidades de vir a ser o titular. Mas o principal problema de André Villas-Boas é a indefinição do plantel com que irá ter de trabalhar. Uma coisa é preparar a equipa contando com todos, outra coisa é prepará-la na expectativa de poder ficar sem o Fucile, o Bruno Alves ou o Raul Meireles.

O arrastar desta indefinição tem reflexos de vária ordem e não deve ser estranho ao facto de nada se consumar também nas tão anunciadas transferências de Kleber e Walter— que, em circunstâncias normais, de há muito que a SAD teria resolvido, de uma maneira ou de outra. A SAD tem um problema real entre mãos: precisa de vender, não um, mas dois jogadores, pelo menos. Precisa de realizar 40 milhões de euros em vendas: 20 para repor o investimento já feito na compra daqueles oito jogadores e mais os que ainda quer comprar, e 20 para salvaguardar a cobertura financeira dos crónicos défices de gestão, sempre cobertos pela venda de alguns dos melhores jogadores. Como aqui o escrevi há dias, esta espera por ofertas de compra comporta dois riscos efectivos: que acabe por vender algum daqueles jogadores a preço de saldo, em desespero de causa; ou que, confrontada com uma proposta envolvendo algum dos jogadores cuja venda não estava prevista (Álvaro Pereira, Hulk, Falcão), acabe por ter de os vender para realizar dinheiro de alguma maneira.

Entretanto, o braço-de-ferro com o presidente do Marítimo, a propósito de Kleber, tem sido o mais inexplicável folhetim deste defeso. Ainda não consegui perceber ao certo o que anda a emperrar o negócio, mas parece-me que ele tem três perspectivas pelas quais pode ser analisado: a perspectiva de facto, a perspectiva de direito e a perspectiva moral. Sobre a perspectiva de direito, as coisas afiguram-se claras: o Marítimo recebeu o jogador de empréstimo do Cruzeiro por um período de dois anos, que podia ser interrompido contra indemnização a favor do Marítimo Sendo essa a vontade do Cruzeiro e do jogador, não há dúvida de que o Marítimo tem direito a essa indemnização. Surge então a questão de facto, verdadeiramente misteriosa: o Cruzeiro diz que já pagou essa verba e o Marítimo diz que não a recebeu. Um dos dois está a mentir e não deve ser difícil aos brasileiros provarem que pagaram, se, de facto, o fizeram. Sob a perspectiva moral, porém, aposição do Marítimo, mesmo que juridicamente coberta, é insustentável. Se um amigo me emprestar um carro por dois anos mas, ao fim de um ano, mo pedir de volta antecipadamente porque tem um comprador para ele, eu devolvo-lho, agradecendo o empréstimo. O Marítimo, porém, só devolve contra dinheiro, não se envergonhando de fazer dinheiro com a generosidade alheia. Porque o Marítimo não comprou o jogador, não o formou: limitou-se a recebê-lo de graça durante um ano. E é um bocado chocante que mantenha cativo um jogador que não é seu, contra a vontade de quem lho emprestou e, sobretudo, contra a vontade do próprio jogador, que não lhe pertence. Espero que, quando tudo isto terminar, de uma forma ou de outra, a SAD do FC Porto tenha aprendido a lição: empréstimos de jogadores ao Marítimo ou relações privilegiadas, nunca mais.

2- Alberto Contador ganhou o Tour de França, Fernando Alonso ganhou o Grande Prémio da Alemanha em Fórmula 1. A Espanha prossegue a sua incrível colheita de triunfos planetários em diversas modalidades desportivas, muito para além do que a sua capitação normal, em função da população e do PIB, lhe reservaria. Decerto que isto tem um segredo e talvez fosse bom descobri-lo e tentar imitá-lo.

terça-feira, junho 28, 2011

OS DIAS DE VERÃO (20 JULHO 2010)

Se tivesse que dizer do que mais gosto nas férias de Verão, talvez dissesse que é da rotina destes dias — a qual, sendo sempre igual de ano para ano, é uma espécie de garante da continuidade das coisas, da certeza de que o essencial está em ordem, mesmo que a vida se desordene tantas vezes.

E da rotina destes dias, o que mais gosto é das primeiras horas da manhã, antes de conseguir ir para a praia.

Começa com o canto das rolas no pinhal e os ruídos da manhã, que vêm de longe, transportados à distância, com uma nitidez que só acontece no Verão. Acordo para a manhã cheia de luz e comum calor ainda suportável e apresso-me para chegar ao mercado do peixe quando a escolha ainda é abundante e os olhos se enchem de bancas azuis, prateadas, vermelhas, brancas e no ar há um cheiro a meloa e coentros. Vou e venho pelo vai-vém, a barca que, por 60 cêntimos, nos atravessa de um lado para o outro do rio, à hora em que os barcos de recreio vão saindo e as últimas traineiras vêm chegando da sua noite de pesca. Mas, antes disso, antes de apanhar o barco e atravessar para o lado de lá da cidade, onde fica o mercado, paro invariavelmente num café junto aos barcos para tomar o pequeno-al-moço e ler os jornais do dia, comprados na tabacaria ao lado. E começo pela sagrada leitura da BOLA, com que as manhãs de Verão sempre começam desde que me lembro de haver Verão.

Por estes dias de Julho, a leitura da BOLA também tem a sua imutável rotina. Agora, que as vedetas dos estádios já acabaram também a sua estação algarvia — invariavelmente passada em Vilamoura e no bar do tal Paulo China, onde esperam ser fotografados pelas revistas do jet seis (o jet set não vai para Vilamoura nem frequenta locais onde possa ser fotografado) — vive-se a longa estação da chamada pré-época. Os três grandes partem durante uns dez dias para algum hotel paradisíaco situado nos Alpes ou nos Pirinéus, onde pagam com o corpo os copos bebidos nas férias e o treinador tenta integrar e dar espírito de corpo a uma pequena multinacional de brasileiros, argentinos, colombianos, senegaleses, polacos e portugueses. Por mais esforços que façam os enviados dos jornais, não há muito para contar nem muito para ler desses dias de pasmaceira: há sempre um novo jogador que «é mesmo reforço», um outro que «mostrou pormenores de qualidade» (ou seja, não mostrou nada) e outro, que passou a época anterior sentado no banco de suplentes e que agora se exibe como «inesperado reforço» — mas que logo voltará ao seu patamar de Peter.

E, depois, claro, há a infindável novela dos craques que vão ser comprados e dos que vão ser vendidos. Os primeiros, acabam sempre por se revelar mais caros do que as fracas bolsas dos clubes portugueses desejariam, e as iminentes aquisições arrastam-se com «arestas por limar» ou na expectativa da chegada do empresário que há-de «desbloquear» as negociações. Os segundos, pelo contrário, afinal não encontram compradores pelo preço que era suposto valerem e, claro, sempre muito aquém das célebres «cláusulas de rescisão», com que os adeptos que os não querem ver vendidos são tranquilizados... antes de se verem iludidos. O Benfica, depois de anos e anos em que não via ninguém interessar-se por qualquer jogador seu, tem agora, e como é sabido, «meia-Europa» atrás do Luisão (um clássico de todas as épocas), e do David Luiz e Fábio Coentrão. E, ora incham de orgulho com tanta cobiça relatada, ora descansam impantes com a «intransigência» da SAD em não os vender por menos do que a cláusula de rescisão — como sucedeu com o Di Maria... O Sporting, depois do surpreendente negócio do João Moutinho, desespera agora para que alguém venha e faça também do Miguel Veloso um «traidor», para que a situação financeira, já em alerta vermelho, não entre em alerta negro. E, entretanto, mantendo a prosápia de grande, vai escorregando para os jornais notícias do seu interesse na compra de sucessivos nomes de peso internacionais que, todavia, por esta e aquela razão, acabam sempre não vindo. Mas o que importa é a notícia do «estatuto», poder dizer que «o Sporting está no mercado», mesmo que, depois, tudo se reduza ao novo sportinguista desde pequenino e novo patrão do meio-campo, Maniche. O FC Porto, cuja SAD nunca resiste a comprar uma dúzia de jogadores mais no início de cada época, desespera também para encontrar comprador para o Bruno Alves e o Raul Meireles, nessa meia-Europa que também suspira por eles há tanto tempo. E, embora neste caso, até já se tenha feito saber aos quatro ventos que as cláusulas de rescisão não interessam para nada, começa a crescer a angústia de que não haja dinheiro para pagar as novas aquisições, sem ter de entrar em saldos ou então a ter de vender os que não estavam nos planos: o Álvaro Pereira, o Falcão ou o Hulk. (Já agora, e não sabendo se ainda vou a tempo, gostaria de exprimir um desejo de portista: que a SAD não compre o tal Walter, que tem alimentado um longo romance nestes dias de férias. E por várias razões: porque não gosto do nome nem da cara dele; porque, tão jovem ainda, já arrasta uma fama de indisciplinado e regateiro nas negociações; e porque, embora eu entenda que um miúdo nascido miserável numa favela brasileira não tenha tido condições para ir à escola, já não entendo que, aos 20 anos de idade, já rico e futebolista — isto é, com um horário de trabalho de três horas por dia — não tenha arranjado tempo para aprender a ler e a escrever. E, no futebol de hoje, um jogador analfabeto é uma menos-valia, em todos os aspectos. Mas este meu desejo já deve estar desajustado: naquela casa há uma adição por compras verdadeiramente fatal).

E assim, entre a paz das férias e angústia do mercado de jogadores, vou vivendo este tempo mágico do Verão. Como todos os portistas, habituei-me, nesta altura do ano, a olhar a medo para os cabeçalhos da BOLA, assim que a compro. Nos últimos anos, em Julho, vários dias se estragaram, quando olhei para a primeira página do jornal e vi que tínhamos perdido o Deco, o Pepe, o Quaresma, o Anderson, o Lucho, o Lisandro, etc. Mas, não sei porquê, nunca leio outro tipo de notícias: «perdemos» o Helton, o Stepanov, o Mariano, o Guarín, o Valeri, o Prediger. Nem sequer o Farias, mesmo dado! Li que André Vilas-Boas tem ao seu dispor 37 jogadores — não contando com aqueles que já nem sequer se apresentam no Dragão para se mostrarem ao novo treinador e que por aí andam, dispersos pelo mundo, a engrossar a folha salarial de uma empresa que se dá ao luxo de ter menos trabalhadores ao seu serviço do que aqueles que estão permanentemente dispensados de serviço. E li que, desses 37, ele só queria ficar com 23. Mas, como começa a instalar-se a ideia de que nem Meireles nem Bruno Alves vão encontrar o tão anunciado comprador ao virar da esquina, os 23 já subiram para 25 — limite máximo. O que quer dizer que, queira ou não queira, Villas-Boas vai acabar com 28 a 30, como sempre sucede com os treinadores que por lá passam. O primeiro trabalho de um treinador do FC Porto é gerir a quantidade; só depois é que tem de gerir a qualidade.

Bem, vou voltar para férias. Espero ter boas notícias do Walter, quando abrir o jornal, hoje de manhã.

BRAVO, ESPANHA! (13 JULHO 2010)

1- Não faço parte daqueles portugueses que vivem a invejar e maldizer a Espanha e a repetir a estafada frase dos maus ventos e maus casamentos. Pelo contrário, até aprendi que Filipe IV foi dos melhores governantes que já tivemos e não invejo a Espanha: admiro-a. Considero a Espanha uma fabulosa pátria de nações, cuja diversidade é a sua força e cuja relação com o poder central não é feita de lamúrias e reivindicações constantes, mas de gestos concretos de vontade e personalidade própria, da comunidade e das regiões. Em Portugal, vive-se a reclamar do poder — subsídios, privilégios, apoios; em Espanha, faz-se e avança-se, sem o poder e, se necessário, contra ele. Nós fizemos as Descobertas através de um monopólio da coroa, em que muitas vezes os capitães, os donatários e os governantes locais eram escolhidos pelo antiquíssimo e sempre actual sistema da «cunha»; os espanhóis descobriram a América com fundos e iniciativa privada, saída dos empresários de Sevilha.
Eu não invejo a Espanha, eu admiro-a. Admiro um país que teve Velásquez, Goya, Dali, Picasso, Miro, Cervantes, Cela, Unamuno, Montalbán, Almodóvar, Penélo-pe Cruz, Joan Manuel Serrat. Que fez e preservou Santiago de Com-postela, Trujillo, Barcelona, Sevilha, o Alhambra, Salamanca, San Sebastian, Córdova. Um país que produz campeões do mundo no golfe, na vela, no basquetebol, no ténis, na equitação, nos ralis, na Fórmula 1 e, agora, no futebol.
Enquanto português e vizinho, não invejo a Espanha: reclamo quando abusam de nós (não por quererem comprar a Vivo, mas quando nos roubam a água, as pescas e nos encostam centrais nucleares junto à fronteira — essa coisas de que os nossos governantes não se atrevem a reclamar). Mas, no resto, só posso admirar um país e um povo que sempre foi «mau aluno» europeu: não acabaram com a sesta nem submeteram o seu calendário ao clima de Bruxelas, não deixaram de fumar mais ou menos onde querem, nem acabaram com as caçadas e as touradas, como querem os Zelotas de europeus, nem deixaram de comer o que gostam, por mais politicamente incorrecto que seja. Por isso, a Espanha tem uma qualidade cada vez mais rara e preciosa: tem personalidade. Los tiene en su sítio. E anteontem, em Joanesburgo, os espanhóis provaram que não é preciso abdicar daquilo que é próprio para conquistar o que se sonha. Mas dá muito trabalho, muito e exaustivo trabalho, conquistar os sonhos.
Como toda a gente já disse, esta equipa de Espanha é o resultado dos dois anos de sucesso da dupla Laporta/Guardiola na construção dessa fabulosa equipa do Barcelona — provavelmente a melhor equipa de futebol de clube jamais vista. E a grande ironia do seu triunfo em África foi que, enquanto que o ex-presidente Laporta, que teve de abandonar o Barcelona FC após o cumprimento do único mandato que os estatutos do clube lhe permitiam fazer (coisa impensável entre nós...), agora se vai dedicar à política, fundando um partido independentista, a facção espanhola do Barcelona queele criou deu um contributo determinante para a vitória da Espanha: sete jogadores do Barça entre os onze titulares habituais (contra dois do Real...) e todos os oito golos da Espanha no Mundial assinados por jogadores que ele contratou para o Barça. Ou seja: sem o Barcelona, sem a cantera futebolística da Catalunha, a Espanha não teria ganho o Mundial. E certamente que Laporta terá estremecido quando viu Puyol agarrado à bandeira de Espanha ou Iniesta agarrado à Rainha Sofia. Mas o que seria também do Barcelona FC sem a Espanha? Jogaria o campeonato da Catalunha, tendo como único opositor o Espanhol de Barcelona? Eis o milagre do futebol: conseguir unir o que a política e a História trazem desunido.

2- Anunciada como a primeira final de um Mundial entre duas monarquias, a final de Joanesburgo foi uma real chatice. Um jogo de «mata-talentos», como escreveu o Vítor Serpa, com 41 faltas, pancadaria sem fim, marcações cerradas, terror do risco, do génio, do imprevisto. Uma péssima propaganda planetária a este jogo outro-ra maravilhoso. Há anos que venho escrevendo que um dia os treinadores ainda hão-de conseguir matar o futebol, de tal forma se deixaram reduzir à escravidão dos resultados para satisfazer os figurões que lhes pagam e não o povo que vai aos estádios. Este Mundial mostrou-nos que já faltou mais.
Quem se lembra das duas gerações fabulosas da Holanda — a de 74, com Cruyff e Neeskens, e a de 78, com Van Basten e Rijkaard —, só podia desejar a derrota desta Holanda. Chegou à final por caminhos simplificados, o que mais acrescentava à sua responsabilidade de mostrar que merecia aquele momento e aquela taça. Mas o que se viu foi uma equipa formada por um bom guarda-redes, um grande médio ofensivo e um grande avançado, acompanhados por oito caceteiros, jogadores de bola quadrada. Mostrou não ter nenhum plano de jogo, que não fosse o de destruir por todos os meios o jogo do adversário. Sem fazer um grande jogo, que nunca fez, a Espanha jogou o suficiente para merecer a vitória e evitar derrota maior do futebol.

3- Porque foi um Mundial muito mal jogado, talvez o pior de sempre. Todas as grandes vedetas se apagaram e não creio que por acaso. Para além de repetir a minha tese de que os Mundiaissão jogados na pior altura, em final de época e quando os grandes jogadores estão sobrecarregados, acho também um disparate uma competição com 32 selecções, disputando 64 jogos e arrastando-se por um mês inteiro de compe-tição, mais três semanas de preparação e jogos particulares. Não já justificação alguma a não ser a ganância financeira da FIFA, bem exemplificada fisicamente na figura de «padrinho» do sr. Blatter e a sua écharpe branca. O cansaço das vedetas mais as tácticas dos treinadores desaguaram num Mundial insuportavelmente soporífero. E que, pela primeira vez, não ficará para a história para ser lembrado como o Mundial desta ou daquela selecção, deste ou daquele grande jogador. Bem avisado andou o Cristiano Ronaldo, que logo tratou de comprar um filho para poder regressar às bocas do mundo, por outra via — já que, por via futebolística, foi o que se viu.

4- 0 melhor marcador do Mundial foi a Jabulani. Vários jogadores marcaram cinco golos, mas a Jabulani, sozinha, marcou uns dez ou doze. Mais uma vez, os interesses comerciais da FIFA (e agora também os da Liga de Clubes) fizeram-na optar por uma bola que destrói o futebol, tal como o conhecemos — porque, como explicaram os engenheiros da NASA, a mais de 73 kms/hora ganha trajectórias imprevisíveis e absurdas, e a mais de 20 metros de distância da baliza levanta voo. A FIFA dizia que com esta esfera louca iríamos assistir a muito mais golos — mas foi o Mundial com menos golos de sempre. Dizia que os grandes especialistas em livres e remates de meia-distância iriam caprichar — mas nenhum deles conseguiu marcar um só golo. Dizia que os guarda-redes se iriam adaptar rapidamente — mas o que vimos foi que mesmo os guarda-redes mais seguros não se atreviam a agarrar a Jabulani, tratando de a sacudir de qualquer maneira, como a um insecto infeccioso. Tal como as vuvuzelas, a Jabulani veio para dar cabo do futebol, dos seus tempos, da sua elegância, dos seus sons próprios, da participação dos adeptos, das grandes defesas dos guarda-redes. É verdade que marca bastantes golos, mas menos dos que impede, e os que marca são infinitamente mais feios do que aqueles que entrariam se esta danação da Adidas cumprisse minimamente as regras de geometria que fizeram do futebol um jogo de virtuosos.
Não consigo perceber que conspiração é esta para matar um jogo tão bonito.