Se tivesse que dizer do que mais gosto nas férias de Verão, talvez dissesse que é da rotina destes dias — a qual, sendo sempre igual de ano para ano, é uma espécie de garante da continuidade das coisas, da certeza de que o essencial está em ordem, mesmo que a vida se desordene tantas vezes.
E da rotina destes dias, o que mais gosto é das primeiras horas da manhã, antes de conseguir ir para a praia.
Começa com o canto das rolas no pinhal e os ruídos da manhã, que vêm de longe, transportados à distância, com uma nitidez que só acontece no Verão. Acordo para a manhã cheia de luz e comum calor ainda suportável e apresso-me para chegar ao mercado do peixe quando a escolha ainda é abundante e os olhos se enchem de bancas azuis, prateadas, vermelhas, brancas e no ar há um cheiro a meloa e coentros. Vou e venho pelo vai-vém, a barca que, por 60 cêntimos, nos atravessa de um lado para o outro do rio, à hora em que os barcos de recreio vão saindo e as últimas traineiras vêm chegando da sua noite de pesca. Mas, antes disso, antes de apanhar o barco e atravessar para o lado de lá da cidade, onde fica o mercado, paro invariavelmente num café junto aos barcos para tomar o pequeno-al-moço e ler os jornais do dia, comprados na tabacaria ao lado. E começo pela sagrada leitura da BOLA, com que as manhãs de Verão sempre começam desde que me lembro de haver Verão.
Por estes dias de Julho, a leitura da BOLA também tem a sua imutável rotina. Agora, que as vedetas dos estádios já acabaram também a sua estação algarvia — invariavelmente passada em Vilamoura e no bar do tal Paulo China, onde esperam ser fotografados pelas revistas do jet seis (o jet set não vai para Vilamoura nem frequenta locais onde possa ser fotografado) — vive-se a longa estação da chamada pré-época. Os três grandes partem durante uns dez dias para algum hotel paradisíaco situado nos Alpes ou nos Pirinéus, onde pagam com o corpo os copos bebidos nas férias e o treinador tenta integrar e dar espírito de corpo a uma pequena multinacional de brasileiros, argentinos, colombianos, senegaleses, polacos e portugueses. Por mais esforços que façam os enviados dos jornais, não há muito para contar nem muito para ler desses dias de pasmaceira: há sempre um novo jogador que «é mesmo reforço», um outro que «mostrou pormenores de qualidade» (ou seja, não mostrou nada) e outro, que passou a época anterior sentado no banco de suplentes e que agora se exibe como «inesperado reforço» — mas que logo voltará ao seu patamar de Peter.
E, depois, claro, há a infindável novela dos craques que vão ser comprados e dos que vão ser vendidos. Os primeiros, acabam sempre por se revelar mais caros do que as fracas bolsas dos clubes portugueses desejariam, e as iminentes aquisições arrastam-se com «arestas por limar» ou na expectativa da chegada do empresário que há-de «desbloquear» as negociações. Os segundos, pelo contrário, afinal não encontram compradores pelo preço que era suposto valerem e, claro, sempre muito aquém das célebres «cláusulas de rescisão», com que os adeptos que os não querem ver vendidos são tranquilizados... antes de se verem iludidos. O Benfica, depois de anos e anos em que não via ninguém interessar-se por qualquer jogador seu, tem agora, e como é sabido, «meia-Europa» atrás do Luisão (um clássico de todas as épocas), e do David Luiz e Fábio Coentrão. E, ora incham de orgulho com tanta cobiça relatada, ora descansam impantes com a «intransigência» da SAD em não os vender por menos do que a cláusula de rescisão — como sucedeu com o Di Maria... O Sporting, depois do surpreendente negócio do João Moutinho, desespera agora para que alguém venha e faça também do Miguel Veloso um «traidor», para que a situação financeira, já em alerta vermelho, não entre em alerta negro. E, entretanto, mantendo a prosápia de grande, vai escorregando para os jornais notícias do seu interesse na compra de sucessivos nomes de peso internacionais que, todavia, por esta e aquela razão, acabam sempre não vindo. Mas o que importa é a notícia do «estatuto», poder dizer que «o Sporting está no mercado», mesmo que, depois, tudo se reduza ao novo sportinguista desde pequenino e novo patrão do meio-campo, Maniche. O FC Porto, cuja SAD nunca resiste a comprar uma dúzia de jogadores mais no início de cada época, desespera também para encontrar comprador para o Bruno Alves e o Raul Meireles, nessa meia-Europa que também suspira por eles há tanto tempo. E, embora neste caso, até já se tenha feito saber aos quatro ventos que as cláusulas de rescisão não interessam para nada, começa a crescer a angústia de que não haja dinheiro para pagar as novas aquisições, sem ter de entrar em saldos ou então a ter de vender os que não estavam nos planos: o Álvaro Pereira, o Falcão ou o Hulk. (Já agora, e não sabendo se ainda vou a tempo, gostaria de exprimir um desejo de portista: que a SAD não compre o tal Walter, que tem alimentado um longo romance nestes dias de férias. E por várias razões: porque não gosto do nome nem da cara dele; porque, tão jovem ainda, já arrasta uma fama de indisciplinado e regateiro nas negociações; e porque, embora eu entenda que um miúdo nascido miserável numa favela brasileira não tenha tido condições para ir à escola, já não entendo que, aos 20 anos de idade, já rico e futebolista — isto é, com um horário de trabalho de três horas por dia — não tenha arranjado tempo para aprender a ler e a escrever. E, no futebol de hoje, um jogador analfabeto é uma menos-valia, em todos os aspectos. Mas este meu desejo já deve estar desajustado: naquela casa há uma adição por compras verdadeiramente fatal).
E assim, entre a paz das férias e angústia do mercado de jogadores, vou vivendo este tempo mágico do Verão. Como todos os portistas, habituei-me, nesta altura do ano, a olhar a medo para os cabeçalhos da BOLA, assim que a compro. Nos últimos anos, em Julho, vários dias se estragaram, quando olhei para a primeira página do jornal e vi que tínhamos perdido o Deco, o Pepe, o Quaresma, o Anderson, o Lucho, o Lisandro, etc. Mas, não sei porquê, nunca leio outro tipo de notícias: «perdemos» o Helton, o Stepanov, o Mariano, o Guarín, o Valeri, o Prediger. Nem sequer o Farias, mesmo dado! Li que André Vilas-Boas tem ao seu dispor 37 jogadores — não contando com aqueles que já nem sequer se apresentam no Dragão para se mostrarem ao novo treinador e que por aí andam, dispersos pelo mundo, a engrossar a folha salarial de uma empresa que se dá ao luxo de ter menos trabalhadores ao seu serviço do que aqueles que estão permanentemente dispensados de serviço. E li que, desses 37, ele só queria ficar com 23. Mas, como começa a instalar-se a ideia de que nem Meireles nem Bruno Alves vão encontrar o tão anunciado comprador ao virar da esquina, os 23 já subiram para 25 — limite máximo. O que quer dizer que, queira ou não queira, Villas-Boas vai acabar com 28 a 30, como sempre sucede com os treinadores que por lá passam. O primeiro trabalho de um treinador do FC Porto é gerir a quantidade; só depois é que tem de gerir a qualidade.
Bem, vou voltar para férias. Espero ter boas notícias do Walter, quando abrir o jornal, hoje de manhã.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
terça-feira, junho 28, 2011
BRAVO, ESPANHA! (13 JULHO 2010)
1- Não faço parte daqueles portugueses que vivem a invejar e maldizer a Espanha e a repetir a estafada frase dos maus ventos e maus casamentos. Pelo contrário, até aprendi que Filipe IV foi dos melhores governantes que já tivemos e não invejo a Espanha: admiro-a. Considero a Espanha uma fabulosa pátria de nações, cuja diversidade é a sua força e cuja relação com o poder central não é feita de lamúrias e reivindicações constantes, mas de gestos concretos de vontade e personalidade própria, da comunidade e das regiões. Em Portugal, vive-se a reclamar do poder — subsídios, privilégios, apoios; em Espanha, faz-se e avança-se, sem o poder e, se necessário, contra ele. Nós fizemos as Descobertas através de um monopólio da coroa, em que muitas vezes os capitães, os donatários e os governantes locais eram escolhidos pelo antiquíssimo e sempre actual sistema da «cunha»; os espanhóis descobriram a América com fundos e iniciativa privada, saída dos empresários de Sevilha.
Eu não invejo a Espanha, eu admiro-a. Admiro um país que teve Velásquez, Goya, Dali, Picasso, Miro, Cervantes, Cela, Unamuno, Montalbán, Almodóvar, Penélo-pe Cruz, Joan Manuel Serrat. Que fez e preservou Santiago de Com-postela, Trujillo, Barcelona, Sevilha, o Alhambra, Salamanca, San Sebastian, Córdova. Um país que produz campeões do mundo no golfe, na vela, no basquetebol, no ténis, na equitação, nos ralis, na Fórmula 1 e, agora, no futebol.
Enquanto português e vizinho, não invejo a Espanha: reclamo quando abusam de nós (não por quererem comprar a Vivo, mas quando nos roubam a água, as pescas e nos encostam centrais nucleares junto à fronteira — essa coisas de que os nossos governantes não se atrevem a reclamar). Mas, no resto, só posso admirar um país e um povo que sempre foi «mau aluno» europeu: não acabaram com a sesta nem submeteram o seu calendário ao clima de Bruxelas, não deixaram de fumar mais ou menos onde querem, nem acabaram com as caçadas e as touradas, como querem os Zelotas de europeus, nem deixaram de comer o que gostam, por mais politicamente incorrecto que seja. Por isso, a Espanha tem uma qualidade cada vez mais rara e preciosa: tem personalidade. Los tiene en su sítio. E anteontem, em Joanesburgo, os espanhóis provaram que não é preciso abdicar daquilo que é próprio para conquistar o que se sonha. Mas dá muito trabalho, muito e exaustivo trabalho, conquistar os sonhos.
Como toda a gente já disse, esta equipa de Espanha é o resultado dos dois anos de sucesso da dupla Laporta/Guardiola na construção dessa fabulosa equipa do Barcelona — provavelmente a melhor equipa de futebol de clube jamais vista. E a grande ironia do seu triunfo em África foi que, enquanto que o ex-presidente Laporta, que teve de abandonar o Barcelona FC após o cumprimento do único mandato que os estatutos do clube lhe permitiam fazer (coisa impensável entre nós...), agora se vai dedicar à política, fundando um partido independentista, a facção espanhola do Barcelona queele criou deu um contributo determinante para a vitória da Espanha: sete jogadores do Barça entre os onze titulares habituais (contra dois do Real...) e todos os oito golos da Espanha no Mundial assinados por jogadores que ele contratou para o Barça. Ou seja: sem o Barcelona, sem a cantera futebolística da Catalunha, a Espanha não teria ganho o Mundial. E certamente que Laporta terá estremecido quando viu Puyol agarrado à bandeira de Espanha ou Iniesta agarrado à Rainha Sofia. Mas o que seria também do Barcelona FC sem a Espanha? Jogaria o campeonato da Catalunha, tendo como único opositor o Espanhol de Barcelona? Eis o milagre do futebol: conseguir unir o que a política e a História trazem desunido.
2- Anunciada como a primeira final de um Mundial entre duas monarquias, a final de Joanesburgo foi uma real chatice. Um jogo de «mata-talentos», como escreveu o Vítor Serpa, com 41 faltas, pancadaria sem fim, marcações cerradas, terror do risco, do génio, do imprevisto. Uma péssima propaganda planetária a este jogo outro-ra maravilhoso. Há anos que venho escrevendo que um dia os treinadores ainda hão-de conseguir matar o futebol, de tal forma se deixaram reduzir à escravidão dos resultados para satisfazer os figurões que lhes pagam e não o povo que vai aos estádios. Este Mundial mostrou-nos que já faltou mais.
Quem se lembra das duas gerações fabulosas da Holanda — a de 74, com Cruyff e Neeskens, e a de 78, com Van Basten e Rijkaard —, só podia desejar a derrota desta Holanda. Chegou à final por caminhos simplificados, o que mais acrescentava à sua responsabilidade de mostrar que merecia aquele momento e aquela taça. Mas o que se viu foi uma equipa formada por um bom guarda-redes, um grande médio ofensivo e um grande avançado, acompanhados por oito caceteiros, jogadores de bola quadrada. Mostrou não ter nenhum plano de jogo, que não fosse o de destruir por todos os meios o jogo do adversário. Sem fazer um grande jogo, que nunca fez, a Espanha jogou o suficiente para merecer a vitória e evitar derrota maior do futebol.
3- Porque foi um Mundial muito mal jogado, talvez o pior de sempre. Todas as grandes vedetas se apagaram e não creio que por acaso. Para além de repetir a minha tese de que os Mundiaissão jogados na pior altura, em final de época e quando os grandes jogadores estão sobrecarregados, acho também um disparate uma competição com 32 selecções, disputando 64 jogos e arrastando-se por um mês inteiro de compe-tição, mais três semanas de preparação e jogos particulares. Não já justificação alguma a não ser a ganância financeira da FIFA, bem exemplificada fisicamente na figura de «padrinho» do sr. Blatter e a sua écharpe branca. O cansaço das vedetas mais as tácticas dos treinadores desaguaram num Mundial insuportavelmente soporífero. E que, pela primeira vez, não ficará para a história para ser lembrado como o Mundial desta ou daquela selecção, deste ou daquele grande jogador. Bem avisado andou o Cristiano Ronaldo, que logo tratou de comprar um filho para poder regressar às bocas do mundo, por outra via — já que, por via futebolística, foi o que se viu.
4- 0 melhor marcador do Mundial foi a Jabulani. Vários jogadores marcaram cinco golos, mas a Jabulani, sozinha, marcou uns dez ou doze. Mais uma vez, os interesses comerciais da FIFA (e agora também os da Liga de Clubes) fizeram-na optar por uma bola que destrói o futebol, tal como o conhecemos — porque, como explicaram os engenheiros da NASA, a mais de 73 kms/hora ganha trajectórias imprevisíveis e absurdas, e a mais de 20 metros de distância da baliza levanta voo. A FIFA dizia que com esta esfera louca iríamos assistir a muito mais golos — mas foi o Mundial com menos golos de sempre. Dizia que os grandes especialistas em livres e remates de meia-distância iriam caprichar — mas nenhum deles conseguiu marcar um só golo. Dizia que os guarda-redes se iriam adaptar rapidamente — mas o que vimos foi que mesmo os guarda-redes mais seguros não se atreviam a agarrar a Jabulani, tratando de a sacudir de qualquer maneira, como a um insecto infeccioso. Tal como as vuvuzelas, a Jabulani veio para dar cabo do futebol, dos seus tempos, da sua elegância, dos seus sons próprios, da participação dos adeptos, das grandes defesas dos guarda-redes. É verdade que marca bastantes golos, mas menos dos que impede, e os que marca são infinitamente mais feios do que aqueles que entrariam se esta danação da Adidas cumprisse minimamente as regras de geometria que fizeram do futebol um jogo de virtuosos.
Não consigo perceber que conspiração é esta para matar um jogo tão bonito.
Eu não invejo a Espanha, eu admiro-a. Admiro um país que teve Velásquez, Goya, Dali, Picasso, Miro, Cervantes, Cela, Unamuno, Montalbán, Almodóvar, Penélo-pe Cruz, Joan Manuel Serrat. Que fez e preservou Santiago de Com-postela, Trujillo, Barcelona, Sevilha, o Alhambra, Salamanca, San Sebastian, Córdova. Um país que produz campeões do mundo no golfe, na vela, no basquetebol, no ténis, na equitação, nos ralis, na Fórmula 1 e, agora, no futebol.
Enquanto português e vizinho, não invejo a Espanha: reclamo quando abusam de nós (não por quererem comprar a Vivo, mas quando nos roubam a água, as pescas e nos encostam centrais nucleares junto à fronteira — essa coisas de que os nossos governantes não se atrevem a reclamar). Mas, no resto, só posso admirar um país e um povo que sempre foi «mau aluno» europeu: não acabaram com a sesta nem submeteram o seu calendário ao clima de Bruxelas, não deixaram de fumar mais ou menos onde querem, nem acabaram com as caçadas e as touradas, como querem os Zelotas de europeus, nem deixaram de comer o que gostam, por mais politicamente incorrecto que seja. Por isso, a Espanha tem uma qualidade cada vez mais rara e preciosa: tem personalidade. Los tiene en su sítio. E anteontem, em Joanesburgo, os espanhóis provaram que não é preciso abdicar daquilo que é próprio para conquistar o que se sonha. Mas dá muito trabalho, muito e exaustivo trabalho, conquistar os sonhos.
Como toda a gente já disse, esta equipa de Espanha é o resultado dos dois anos de sucesso da dupla Laporta/Guardiola na construção dessa fabulosa equipa do Barcelona — provavelmente a melhor equipa de futebol de clube jamais vista. E a grande ironia do seu triunfo em África foi que, enquanto que o ex-presidente Laporta, que teve de abandonar o Barcelona FC após o cumprimento do único mandato que os estatutos do clube lhe permitiam fazer (coisa impensável entre nós...), agora se vai dedicar à política, fundando um partido independentista, a facção espanhola do Barcelona queele criou deu um contributo determinante para a vitória da Espanha: sete jogadores do Barça entre os onze titulares habituais (contra dois do Real...) e todos os oito golos da Espanha no Mundial assinados por jogadores que ele contratou para o Barça. Ou seja: sem o Barcelona, sem a cantera futebolística da Catalunha, a Espanha não teria ganho o Mundial. E certamente que Laporta terá estremecido quando viu Puyol agarrado à bandeira de Espanha ou Iniesta agarrado à Rainha Sofia. Mas o que seria também do Barcelona FC sem a Espanha? Jogaria o campeonato da Catalunha, tendo como único opositor o Espanhol de Barcelona? Eis o milagre do futebol: conseguir unir o que a política e a História trazem desunido.
2- Anunciada como a primeira final de um Mundial entre duas monarquias, a final de Joanesburgo foi uma real chatice. Um jogo de «mata-talentos», como escreveu o Vítor Serpa, com 41 faltas, pancadaria sem fim, marcações cerradas, terror do risco, do génio, do imprevisto. Uma péssima propaganda planetária a este jogo outro-ra maravilhoso. Há anos que venho escrevendo que um dia os treinadores ainda hão-de conseguir matar o futebol, de tal forma se deixaram reduzir à escravidão dos resultados para satisfazer os figurões que lhes pagam e não o povo que vai aos estádios. Este Mundial mostrou-nos que já faltou mais.
Quem se lembra das duas gerações fabulosas da Holanda — a de 74, com Cruyff e Neeskens, e a de 78, com Van Basten e Rijkaard —, só podia desejar a derrota desta Holanda. Chegou à final por caminhos simplificados, o que mais acrescentava à sua responsabilidade de mostrar que merecia aquele momento e aquela taça. Mas o que se viu foi uma equipa formada por um bom guarda-redes, um grande médio ofensivo e um grande avançado, acompanhados por oito caceteiros, jogadores de bola quadrada. Mostrou não ter nenhum plano de jogo, que não fosse o de destruir por todos os meios o jogo do adversário. Sem fazer um grande jogo, que nunca fez, a Espanha jogou o suficiente para merecer a vitória e evitar derrota maior do futebol.
3- Porque foi um Mundial muito mal jogado, talvez o pior de sempre. Todas as grandes vedetas se apagaram e não creio que por acaso. Para além de repetir a minha tese de que os Mundiaissão jogados na pior altura, em final de época e quando os grandes jogadores estão sobrecarregados, acho também um disparate uma competição com 32 selecções, disputando 64 jogos e arrastando-se por um mês inteiro de compe-tição, mais três semanas de preparação e jogos particulares. Não já justificação alguma a não ser a ganância financeira da FIFA, bem exemplificada fisicamente na figura de «padrinho» do sr. Blatter e a sua écharpe branca. O cansaço das vedetas mais as tácticas dos treinadores desaguaram num Mundial insuportavelmente soporífero. E que, pela primeira vez, não ficará para a história para ser lembrado como o Mundial desta ou daquela selecção, deste ou daquele grande jogador. Bem avisado andou o Cristiano Ronaldo, que logo tratou de comprar um filho para poder regressar às bocas do mundo, por outra via — já que, por via futebolística, foi o que se viu.
4- 0 melhor marcador do Mundial foi a Jabulani. Vários jogadores marcaram cinco golos, mas a Jabulani, sozinha, marcou uns dez ou doze. Mais uma vez, os interesses comerciais da FIFA (e agora também os da Liga de Clubes) fizeram-na optar por uma bola que destrói o futebol, tal como o conhecemos — porque, como explicaram os engenheiros da NASA, a mais de 73 kms/hora ganha trajectórias imprevisíveis e absurdas, e a mais de 20 metros de distância da baliza levanta voo. A FIFA dizia que com esta esfera louca iríamos assistir a muito mais golos — mas foi o Mundial com menos golos de sempre. Dizia que os grandes especialistas em livres e remates de meia-distância iriam caprichar — mas nenhum deles conseguiu marcar um só golo. Dizia que os guarda-redes se iriam adaptar rapidamente — mas o que vimos foi que mesmo os guarda-redes mais seguros não se atreviam a agarrar a Jabulani, tratando de a sacudir de qualquer maneira, como a um insecto infeccioso. Tal como as vuvuzelas, a Jabulani veio para dar cabo do futebol, dos seus tempos, da sua elegância, dos seus sons próprios, da participação dos adeptos, das grandes defesas dos guarda-redes. É verdade que marca bastantes golos, mas menos dos que impede, e os que marca são infinitamente mais feios do que aqueles que entrariam se esta danação da Adidas cumprisse minimamente as regras de geometria que fizeram do futebol um jogo de virtuosos.
Não consigo perceber que conspiração é esta para matar um jogo tão bonito.
quarta-feira, junho 22, 2011
UM MAU NEGÓCIO E UMA MÁ DESPEDIDA (06 JULHO 2010)
1- Muitos sportinguistas estão em estado de revolta contra o seu presidente por ter vendido João Moutinho ao FC Porto. Alguns portistas também estão em estado de euforia, pelas razões inversas. Quero confortar os primeiros e acalmar o entusiasmo dos segundos: quem fez um bom negócio foi o Sporting, não o FC Porto.
Primeiro, já se tinha percebido que o ciclo de Moutinho tinha acabado no Sporting, por razões próprias e outras do clube. Ano após ano dado como transferência iminente para um dos tubarões da Europa, João Moutinho (e o Sporting) viram o sonho ir-se esfumando, Verão após Verão, até chegarmos ao momento actual, em que, no horizonte, não havia uma só proposta de compra por um dos «valores seguros» do Sporting. A isso, somou-se a sua não convocação, sem surpresa, para o Mundial, e finalmente a notícia da sua destituição do cargo de capitão de equipa. Sem o conseguir vender, o Sporting preparava-se para, contrariadamente, ter Moutinho, também ele contrariado e desmotivado, para a nova época. Se alguém tem aparecido a dar 11 milhões por Moutinho, não tenho uma dúvida de que marchava logo.
Pois, apareceu FC Porto — que, não só bancou 11 milhões, mais 25% numa futura transferência, como perdoou 2,5 milhões que o Sporting ainda devia de Postiga, e, mais que tudo acrescentou-lhe o passe de Nuno André Coelho. Quanto valerá o passe de Nuno André Coelho? Eu não sei, mas sei isto: o João Moutinho está em regressão há dois ou três anos: é um jogador regular, acertadinho, mas sem rasgo e, até ver, de progressão falhada; quanto a Nuno André Coelho, para mim, é a grande promessa para vir a ser o melhor central português do futuro. Eu não trocaria um pelo outro: o FC Porto trocou e ainda lhe acrescentou 13,5 milhões. Ou seja, por mais que se desvalorize o passe actual de Nuno André Coelho, a verdade é que, contas feitas, Pinto da Costa bateu a cláusula de rescisão de João Moutinho: 22,5 milhões. O Sporting livrou-se de um problema sem solução à vista e ainda conseguiu facturar o que já não podia esperar, nem nos melhores sonhos. E querem a demissão de Bettencourt por causa disto? Bem, há gente ingrata...
Às vezes, há negócios (e só falo dos recentes) feitos pelo FC Porto que eu não consigo entender, que não como súbitos ataques de generosidade. João Moutinho é um deles, mas há mais. Quaresma foi vendido ao Inter ao preço de saldo de 16 milhões, como então aqui escrevi. E, para disfarçar aborla, aceitámos que eles nos mandassem o Pele, valorizado para o efeito em 6 milhões: pois há três anos que o Pele é um encargo e um problema sem solução. Oferecemos, absolutamente de borla, o Alan e o Luis Aguiar ao Braga: o segundo foi logo vendido, com o Braga a empochar tudo, e o primeiro está em vias de o ser também. Em troca, comprámos-lhes (não foi dado...) o Orlando Sá, que chegou magoado e só fez meia-época, na qual marcou um golo na Taça da Liga, e agora vai ser emprestado ao Marítimo, com os salários apagar no Porto. Compramos miúdos prometedores em todo o lado — Colômbia, Argentina, Alcochete — mas os nossos, os Candeias, Helder Barbosas, Ukras, etc, são todos dispensados, emprestados, oferecidos. Somos um clube infinitamente generoso: basta ver o que aí há de treinadores à espera, para fecharem os planteis, dos reforços que hão-de vir das cedências do FC Porto — as quais, depois, até acabam por contribuir directamente para nos roubar pontos no campeonato, como sucedeu este ano. Não sei, sinceramente, se haveria até campeonato sem a nossa generosidade...
2- Lá acertei na minha previsão de que Portugal não passaria dos oitavos, no Mundial da África do Sul. Não foi preciso grande ciência nem dotes de adivinho. Primeiro que tudo, porque nunca fui adepto de Carlos Queiroz e aqui, expressamente, furei a quase unanimidade nacional, quando ele foi escolhido. Depois, porque, tendo visto a Selecção de Queiroz nas fases de qualificação e de preparação, nunca consegui descortinar ali motivos para tanto entusiasmo com a nossa prestação africana.
Queiroz pode continuar ou não para o Europeu e até adiante, que já todos sabemos o que esperar. Qualificar-nos para a fase final, para ele, é dever cumprido e satisfação quanto baste. Foi isso que se tornou cristalinamente claro na África do Sul: Queiroz nunca quis levar Portugal à glória, nunca quis correr esse risco e sujeitar-se a não passar a fase de grupos. O que ele quis verdadeiramente, o seu objectivo primeiro, foi uma prestação que lhe salvasse a cabeça: conseguir os mínimos exigíveis, chegar aos oitavos e poder dizer a seguir que tinha caído perante a campeã da Europa. Melhor ainda se, de caminho, não perdesse com o Brasil (mesmo um Brasil tão triste) e com a Costa do Marfim (mesmo desfalcada de Drogba), e se a derrota es perada com a Espanha fosse apenas tangencial, como foi. Se todos saímos frustrados da África do Sul, Carlos Queiroz saiu aliviado. Tanto mais que pode dizer que, em matéria de esperanças defraudadas, está em excelentes companhias.
Dos muitos erros que Queiroz cometeu contra a Espanha, e antes contra o Brasil, e que já todos escalpelizaram — deixar Ronaldo sozinho na frente, inventar o Ricardo Costa a defesa-direito e o Pepe a trinco, insistir no Simão, desistir do Deco e do Hugo Almeida —, o pior de todos, para mim, foi a subserviência que ele mostrou, estratégica e pessoalmente, em relação à vedeta da companhia. Já se sabia dessa sua tendência para não se conseguir impor aos grandes jogadores (e por isso falhou no Real Madrid), mas, desta vez, exagerou. Para começar, é injustificável que tenha dado a Ronaldo a braçadeira de capitão, quando tinha na equipa verdadeiros líderes, como Ricardo Carvalho ou Bruno Alves. Depois, é inconcebível que se faça capitão de equipa quem já tinha demonstrado suficientemente que não joga para a equipa, mas para si, para as meninas da bancada e para os seus patrocinadores. É claro que, no Real ou no Manchester, a ganhar um milhão de euros por mês, ele não se pode permitir essas leviandades, nem os treinadores e os adeptos lho consentiriam. Na Selecção, porém, ele acha-se um rei e senhor: só ele é que pode marcar todos os livres (depois de posar devidamente de pernas abertas para os fotógrafos) , pode não passar a bola a ninguém e chutar à baliza a qualquer distância e em qualquer circunstância (e até se pode dar ao luxo de não ter estudado devidamente o comportamento da Jabulani para perceber que, chutada de longe e com força, ela levanta voo e sai sempre por alto). Um treinador que tivesse a coragem dos grandes momentos, teria tirado o Ronaldo ao intervalo do jogo com a Espanha: talvez tivéssemos perdido na mesma (era o mais certo), mas teria mostrado que tinha autoridade para o lugar que ocupa e teria evitado as cenas finais da vedeta zangada. Ao contrário do Francisco José Viegas, eu não entendo que o Ronaldo deva ser poupado e que criticá-lo seja sinal de inveja. Eu não invejo os milhões do Ronaldo, nem a suposta vida de constantes conquistas amorosas que o marketing lhe atribui, nem, seguramente, a roupa ou os adereços do Cristiano Ronaldo. Tenho é muito respeito por jogadores como o Eduardo (de quem esperava pouco...), o Ricardo Carvalho, o Bruno Alves, o Meireles, o Fábio Coentrão, que, esses sim, deram em campo o melhor que tinham e nunca se imaginaram superiores à equipa. Mas o Cristiano Ronaldo, o que lhe deve a Selecção portuguesa, nos últimos quatro anos?
P.S: Vou responder a José Diogo Quintela apenas por razões de honra. Eu escrevi aqui que ele vive a repetir uma mentira na esperança de que ela se torne verdade; ele respondeu todo um texto a chamar-me mentiroso: faz uma diferença e exige uma resposta adequada. Mas espero bem que esta seja a última vez que tenho de lhe responder, pois não tenho o menor gosto em alimentar polémicas públicas com quem não reconheço nível para tal. Como humorista, JDQ vive do talento de Ricardo Araújo Pereira e nada mais; como anunciante, integra aquela patética, indigente e caríssima campanha da MEO, onde os Gatos aparecem a fazer figura de espermatozóides do espaço, repetindo até à náusea gagues sem sombra de piada ou de imaginação; parece que ultimamente também se lançou como escritor, juntando umas insípidas crónicas publicadas numa revista numa coisa a que chamou livro. Talvez com o tempo aprenda que ser escritor requer infinitamente mais trabalho, mais talento e mais seriedade do que, simplesmente, anunciar-se como tal — hoje, qualquer artista de cabaret o faz.
Tenho assim a ideia de que JDQ é alguém que precisa de se alavancar no caminho desbravado por outrem para alcançar os seus 15 minutos de fama. E tenho a noção de que, quando ele chama o meu nome para título garrafal da sua crónica e me promete tareia sem fim, atrai muito mais leitores do que aqueles que habitualmente consegue com as suas deslavadas e totalmente desinteressantes crónicas dos outros dias. Mas não consta da minha lista de boas acções o favor de ajudar a promover o JDQ.
Adiante. Aos factos e em resumo. JDQ anda para aí há um ano a tentar fazer piadas e produzir insinuações baratas — das quais extrai conclusões desonestas e deliberadamente mentirosas — sobre o cafezinho que o ex-árbitro Augusto Duarte foi tomar a casa de Pinto da Costa, na véspera de apitar um Beira-Mar-FC Porto para o campeonato de 2004, jogo que ele classifica como decisivo. Ora, não é preciso ser tão inteligente quanto o próprio JDQ para perceber que o que ele quer dizer entrelinhas é: a)- que o árbitro não foi apenas ao cafezinho, mas também ao envelope; b)- que foi graças a isso que o FCP não perdeu o dramático jogo do dia seguinte, contra o Beira -Mar; c)- e graças a esse precioso empate que ganhou o campeonato; e d)- que foi com jogadas destas que o FCP conquistou também a sua hegemonia dos últimos 25 anos no futebol português.
A isto, eu respondi e respondo: a) a tese do envelope foi literalmente estilhaçada pelo tribunal de Aveiro, quando a única prova de tal — o testemunho da também escritora Carolina Salgado —, apesar de longamente preparado pelo MP, se revelou, como seria de esperar, uma total anedota; b)- ninguém, a começar pelos ex-árbitros que integravam o júri de apreciação de O Jogo, encontrou no desempenho do árbitro quaisquer motivos para poder dizer que ele tinha favorecido o FCP, antes pelo contrário; c) - o jogo era tão decisivo, ou tão pouco, que o FCP se deu ao luxo de dispensar vários titulares e sair de lá, tranquilamente, com dois pontos perdidos; d)- dá-se o caso de, nesse ano de 2004, o FCP ter o campeonato praticamente ganho desde o final da primeira volta e estar apenas preocupado com a Champions, que viria a ganhar daí a semanas, depois de, no ano anterior, ter ganho também campeonato e Taça UEFA. Era, à vista de todos, menos de fanáticos como JDQ, de longe a melhor equipe portuguesa e uma das melhores da Europa, base da Selecção Nacional que seria a seguir vice-campeã europeia, acrescentada de jogadores estrangeiros como Deco, Alenitchev, Carlos Alberto ou McCarthy, e treinada por um tal José Mourinho. Qual é o raciocínio de Quintela? Que, sem o cafezinho, o Porto teria perdido em Aveiro, enquanto o Sporting teria ganho no Bessa (não ganhou, mas por culpa do árbitro, diz ele — claro, como sempre); a seguir, o Porto perdia também em Vila do Conde e mais algures, enquanto o Sporting continuava a ganhar sempre, até ser campeão. E assim se fariam os campeões, pudesse ele. Como não pode, limita-se ao que julga poder: falsificar a história e beneficiar do silêncio e do esquecimento geral, para fazer passar a mentira como verdade.
O que está em discussão é apenas isto. O resto, as coisas onde ele vê mentiras tenebrosas da minha parte, são apenas pormenores igualmente ridículos: saber se o Beira-Mar-Porto acabou num empate a 0-0 ou a 1-1, se aconteceu antes da meia-final da Champions ou antes da final ou se os ex-árbitros de O Jogo eram três ou quatro, não muda rigorosamente em nada o essencial. E o essencial, repito, é que o JDQ vive a alimentar uma mentira, assente em falsas acusações que o tribunal desfez e em opiniões próprias que quem quer que tenha um mínimo de memória sabe que não passam de delírios e desonestidade intelectual.
Para terminar e, mais uma vez, como já sucedeu em relação ao RAP, queria dizer que há duas coisas que me fazem confusão. A primeira, é porque razão escrevem estes tipos num jornal sobre futebol, quando, manifestamente, eles não só não entendem nada de futebol, como nem sequer estão interessados em falar disso: o que lhes interessa do futebol é apenas a intriga, a insinuação, a calúnia, o despeito e a inveja — o futebol de tasca.. E a segunda coisa que me faz confusão é o tempo que estes Gatos dedicam a pesquisar e arquivar tudo o que eu (ou o Rui Moreira) escrevemos, para depois sucumbirem a orgasmos sucessivos de cada vez que acham que nos apanharam em contradição. Francamente, não me imagino a desperdiçar uma hora que seja dos meus preciosos dias a pesquisar as obras completas do JDQ...
Primeiro, já se tinha percebido que o ciclo de Moutinho tinha acabado no Sporting, por razões próprias e outras do clube. Ano após ano dado como transferência iminente para um dos tubarões da Europa, João Moutinho (e o Sporting) viram o sonho ir-se esfumando, Verão após Verão, até chegarmos ao momento actual, em que, no horizonte, não havia uma só proposta de compra por um dos «valores seguros» do Sporting. A isso, somou-se a sua não convocação, sem surpresa, para o Mundial, e finalmente a notícia da sua destituição do cargo de capitão de equipa. Sem o conseguir vender, o Sporting preparava-se para, contrariadamente, ter Moutinho, também ele contrariado e desmotivado, para a nova época. Se alguém tem aparecido a dar 11 milhões por Moutinho, não tenho uma dúvida de que marchava logo.
Pois, apareceu FC Porto — que, não só bancou 11 milhões, mais 25% numa futura transferência, como perdoou 2,5 milhões que o Sporting ainda devia de Postiga, e, mais que tudo acrescentou-lhe o passe de Nuno André Coelho. Quanto valerá o passe de Nuno André Coelho? Eu não sei, mas sei isto: o João Moutinho está em regressão há dois ou três anos: é um jogador regular, acertadinho, mas sem rasgo e, até ver, de progressão falhada; quanto a Nuno André Coelho, para mim, é a grande promessa para vir a ser o melhor central português do futuro. Eu não trocaria um pelo outro: o FC Porto trocou e ainda lhe acrescentou 13,5 milhões. Ou seja, por mais que se desvalorize o passe actual de Nuno André Coelho, a verdade é que, contas feitas, Pinto da Costa bateu a cláusula de rescisão de João Moutinho: 22,5 milhões. O Sporting livrou-se de um problema sem solução à vista e ainda conseguiu facturar o que já não podia esperar, nem nos melhores sonhos. E querem a demissão de Bettencourt por causa disto? Bem, há gente ingrata...
Às vezes, há negócios (e só falo dos recentes) feitos pelo FC Porto que eu não consigo entender, que não como súbitos ataques de generosidade. João Moutinho é um deles, mas há mais. Quaresma foi vendido ao Inter ao preço de saldo de 16 milhões, como então aqui escrevi. E, para disfarçar aborla, aceitámos que eles nos mandassem o Pele, valorizado para o efeito em 6 milhões: pois há três anos que o Pele é um encargo e um problema sem solução. Oferecemos, absolutamente de borla, o Alan e o Luis Aguiar ao Braga: o segundo foi logo vendido, com o Braga a empochar tudo, e o primeiro está em vias de o ser também. Em troca, comprámos-lhes (não foi dado...) o Orlando Sá, que chegou magoado e só fez meia-época, na qual marcou um golo na Taça da Liga, e agora vai ser emprestado ao Marítimo, com os salários apagar no Porto. Compramos miúdos prometedores em todo o lado — Colômbia, Argentina, Alcochete — mas os nossos, os Candeias, Helder Barbosas, Ukras, etc, são todos dispensados, emprestados, oferecidos. Somos um clube infinitamente generoso: basta ver o que aí há de treinadores à espera, para fecharem os planteis, dos reforços que hão-de vir das cedências do FC Porto — as quais, depois, até acabam por contribuir directamente para nos roubar pontos no campeonato, como sucedeu este ano. Não sei, sinceramente, se haveria até campeonato sem a nossa generosidade...
2- Lá acertei na minha previsão de que Portugal não passaria dos oitavos, no Mundial da África do Sul. Não foi preciso grande ciência nem dotes de adivinho. Primeiro que tudo, porque nunca fui adepto de Carlos Queiroz e aqui, expressamente, furei a quase unanimidade nacional, quando ele foi escolhido. Depois, porque, tendo visto a Selecção de Queiroz nas fases de qualificação e de preparação, nunca consegui descortinar ali motivos para tanto entusiasmo com a nossa prestação africana.
Queiroz pode continuar ou não para o Europeu e até adiante, que já todos sabemos o que esperar. Qualificar-nos para a fase final, para ele, é dever cumprido e satisfação quanto baste. Foi isso que se tornou cristalinamente claro na África do Sul: Queiroz nunca quis levar Portugal à glória, nunca quis correr esse risco e sujeitar-se a não passar a fase de grupos. O que ele quis verdadeiramente, o seu objectivo primeiro, foi uma prestação que lhe salvasse a cabeça: conseguir os mínimos exigíveis, chegar aos oitavos e poder dizer a seguir que tinha caído perante a campeã da Europa. Melhor ainda se, de caminho, não perdesse com o Brasil (mesmo um Brasil tão triste) e com a Costa do Marfim (mesmo desfalcada de Drogba), e se a derrota es perada com a Espanha fosse apenas tangencial, como foi. Se todos saímos frustrados da África do Sul, Carlos Queiroz saiu aliviado. Tanto mais que pode dizer que, em matéria de esperanças defraudadas, está em excelentes companhias.
Dos muitos erros que Queiroz cometeu contra a Espanha, e antes contra o Brasil, e que já todos escalpelizaram — deixar Ronaldo sozinho na frente, inventar o Ricardo Costa a defesa-direito e o Pepe a trinco, insistir no Simão, desistir do Deco e do Hugo Almeida —, o pior de todos, para mim, foi a subserviência que ele mostrou, estratégica e pessoalmente, em relação à vedeta da companhia. Já se sabia dessa sua tendência para não se conseguir impor aos grandes jogadores (e por isso falhou no Real Madrid), mas, desta vez, exagerou. Para começar, é injustificável que tenha dado a Ronaldo a braçadeira de capitão, quando tinha na equipa verdadeiros líderes, como Ricardo Carvalho ou Bruno Alves. Depois, é inconcebível que se faça capitão de equipa quem já tinha demonstrado suficientemente que não joga para a equipa, mas para si, para as meninas da bancada e para os seus patrocinadores. É claro que, no Real ou no Manchester, a ganhar um milhão de euros por mês, ele não se pode permitir essas leviandades, nem os treinadores e os adeptos lho consentiriam. Na Selecção, porém, ele acha-se um rei e senhor: só ele é que pode marcar todos os livres (depois de posar devidamente de pernas abertas para os fotógrafos) , pode não passar a bola a ninguém e chutar à baliza a qualquer distância e em qualquer circunstância (e até se pode dar ao luxo de não ter estudado devidamente o comportamento da Jabulani para perceber que, chutada de longe e com força, ela levanta voo e sai sempre por alto). Um treinador que tivesse a coragem dos grandes momentos, teria tirado o Ronaldo ao intervalo do jogo com a Espanha: talvez tivéssemos perdido na mesma (era o mais certo), mas teria mostrado que tinha autoridade para o lugar que ocupa e teria evitado as cenas finais da vedeta zangada. Ao contrário do Francisco José Viegas, eu não entendo que o Ronaldo deva ser poupado e que criticá-lo seja sinal de inveja. Eu não invejo os milhões do Ronaldo, nem a suposta vida de constantes conquistas amorosas que o marketing lhe atribui, nem, seguramente, a roupa ou os adereços do Cristiano Ronaldo. Tenho é muito respeito por jogadores como o Eduardo (de quem esperava pouco...), o Ricardo Carvalho, o Bruno Alves, o Meireles, o Fábio Coentrão, que, esses sim, deram em campo o melhor que tinham e nunca se imaginaram superiores à equipa. Mas o Cristiano Ronaldo, o que lhe deve a Selecção portuguesa, nos últimos quatro anos?
P.S: Vou responder a José Diogo Quintela apenas por razões de honra. Eu escrevi aqui que ele vive a repetir uma mentira na esperança de que ela se torne verdade; ele respondeu todo um texto a chamar-me mentiroso: faz uma diferença e exige uma resposta adequada. Mas espero bem que esta seja a última vez que tenho de lhe responder, pois não tenho o menor gosto em alimentar polémicas públicas com quem não reconheço nível para tal. Como humorista, JDQ vive do talento de Ricardo Araújo Pereira e nada mais; como anunciante, integra aquela patética, indigente e caríssima campanha da MEO, onde os Gatos aparecem a fazer figura de espermatozóides do espaço, repetindo até à náusea gagues sem sombra de piada ou de imaginação; parece que ultimamente também se lançou como escritor, juntando umas insípidas crónicas publicadas numa revista numa coisa a que chamou livro. Talvez com o tempo aprenda que ser escritor requer infinitamente mais trabalho, mais talento e mais seriedade do que, simplesmente, anunciar-se como tal — hoje, qualquer artista de cabaret o faz.
Tenho assim a ideia de que JDQ é alguém que precisa de se alavancar no caminho desbravado por outrem para alcançar os seus 15 minutos de fama. E tenho a noção de que, quando ele chama o meu nome para título garrafal da sua crónica e me promete tareia sem fim, atrai muito mais leitores do que aqueles que habitualmente consegue com as suas deslavadas e totalmente desinteressantes crónicas dos outros dias. Mas não consta da minha lista de boas acções o favor de ajudar a promover o JDQ.
Adiante. Aos factos e em resumo. JDQ anda para aí há um ano a tentar fazer piadas e produzir insinuações baratas — das quais extrai conclusões desonestas e deliberadamente mentirosas — sobre o cafezinho que o ex-árbitro Augusto Duarte foi tomar a casa de Pinto da Costa, na véspera de apitar um Beira-Mar-FC Porto para o campeonato de 2004, jogo que ele classifica como decisivo. Ora, não é preciso ser tão inteligente quanto o próprio JDQ para perceber que o que ele quer dizer entrelinhas é: a)- que o árbitro não foi apenas ao cafezinho, mas também ao envelope; b)- que foi graças a isso que o FCP não perdeu o dramático jogo do dia seguinte, contra o Beira -Mar; c)- e graças a esse precioso empate que ganhou o campeonato; e d)- que foi com jogadas destas que o FCP conquistou também a sua hegemonia dos últimos 25 anos no futebol português.
A isto, eu respondi e respondo: a) a tese do envelope foi literalmente estilhaçada pelo tribunal de Aveiro, quando a única prova de tal — o testemunho da também escritora Carolina Salgado —, apesar de longamente preparado pelo MP, se revelou, como seria de esperar, uma total anedota; b)- ninguém, a começar pelos ex-árbitros que integravam o júri de apreciação de O Jogo, encontrou no desempenho do árbitro quaisquer motivos para poder dizer que ele tinha favorecido o FCP, antes pelo contrário; c) - o jogo era tão decisivo, ou tão pouco, que o FCP se deu ao luxo de dispensar vários titulares e sair de lá, tranquilamente, com dois pontos perdidos; d)- dá-se o caso de, nesse ano de 2004, o FCP ter o campeonato praticamente ganho desde o final da primeira volta e estar apenas preocupado com a Champions, que viria a ganhar daí a semanas, depois de, no ano anterior, ter ganho também campeonato e Taça UEFA. Era, à vista de todos, menos de fanáticos como JDQ, de longe a melhor equipe portuguesa e uma das melhores da Europa, base da Selecção Nacional que seria a seguir vice-campeã europeia, acrescentada de jogadores estrangeiros como Deco, Alenitchev, Carlos Alberto ou McCarthy, e treinada por um tal José Mourinho. Qual é o raciocínio de Quintela? Que, sem o cafezinho, o Porto teria perdido em Aveiro, enquanto o Sporting teria ganho no Bessa (não ganhou, mas por culpa do árbitro, diz ele — claro, como sempre); a seguir, o Porto perdia também em Vila do Conde e mais algures, enquanto o Sporting continuava a ganhar sempre, até ser campeão. E assim se fariam os campeões, pudesse ele. Como não pode, limita-se ao que julga poder: falsificar a história e beneficiar do silêncio e do esquecimento geral, para fazer passar a mentira como verdade.
O que está em discussão é apenas isto. O resto, as coisas onde ele vê mentiras tenebrosas da minha parte, são apenas pormenores igualmente ridículos: saber se o Beira-Mar-Porto acabou num empate a 0-0 ou a 1-1, se aconteceu antes da meia-final da Champions ou antes da final ou se os ex-árbitros de O Jogo eram três ou quatro, não muda rigorosamente em nada o essencial. E o essencial, repito, é que o JDQ vive a alimentar uma mentira, assente em falsas acusações que o tribunal desfez e em opiniões próprias que quem quer que tenha um mínimo de memória sabe que não passam de delírios e desonestidade intelectual.
Para terminar e, mais uma vez, como já sucedeu em relação ao RAP, queria dizer que há duas coisas que me fazem confusão. A primeira, é porque razão escrevem estes tipos num jornal sobre futebol, quando, manifestamente, eles não só não entendem nada de futebol, como nem sequer estão interessados em falar disso: o que lhes interessa do futebol é apenas a intriga, a insinuação, a calúnia, o despeito e a inveja — o futebol de tasca.. E a segunda coisa que me faz confusão é o tempo que estes Gatos dedicam a pesquisar e arquivar tudo o que eu (ou o Rui Moreira) escrevemos, para depois sucumbirem a orgasmos sucessivos de cada vez que acham que nos apanharam em contradição. Francamente, não me imagino a desperdiçar uma hora que seja dos meus preciosos dias a pesquisar as obras completas do JDQ...
ESTA NOITE, A VERDADE (29 JUNHO 2010)
1- Logo à noite se saberá se Queiroz fez bem ou mal em ter entrado em campo contra o Brasil para jogar indisfarçadamente para o empate. Ao renunciar a tentar vencer o Brasil e o grupo, Queiroz sabia que as probabilidades de apanhar a Espanha, em vez do Chile, eram muitas. E não se tratava apenas de escolher o Chile em vez da Espanha, escolher a campeã da Europa em vez da equipa macia e acessível que se viu ontem ser tranquilamente passada pelo Brasil. Bastava a Queiroz ter olhado para o esquema do Mundial para perceber que, ficando em segundo lugar, ia parar à metade mais difícil do organigrama. Do que não tenho dúvidas é que ele escolheu deliberadamente, como já o havia feito no jogo inaugural, jogar pelo seguro, correndo um mínimo de riscos no imediato. Por isso, optou por desmontar a equipa que tão bem havia funcionado contra a Coreia do Norte, optou por jogar com seis defesas (embora dois disfarçados de médios); optou por jogar sem ponta-de-lança de raiz, deixando Cristiano Ronaldo isolado em território comanche uma hora a fio, com isso prescindindo também de o ter como lançador do futebol ofensivo da equipe. Parece-me que Queiroz estudou mal e temeu demais este Brasil de Dunga — que é uma equipa que parece cansada, jogando a passo, longe, pelo menos por enquanto, da fantasia que seria de esperar. E que, sem Robinho, Kaká e Elano, estava ao alcance do Portugal que jogou contra a Coreia. Mas, como disse, logo à noite se verá o resultado da sua opção: ao optar por não correr riscos contra o Brasil, ele vai ter o risco por inteiro contra a Espanha. Depois de ter evitado a hora da verdade contra a Costa do Marfim e contra o Brasil, não há agora fuga possível contra a Espanha. Oxalá a inspiração dos jogadores dê a isto uma continuação feliz.
2- Foi em 2008 que Manches-ter United e Chelsea se encontraram em Moscovo, na final da liga dos Campeões. Tudo começou com um grande golo de cabeça de Cristiano Ronaldo, mas o Chelsea empatou e o jogo seguiu para prolongamento epenalties. E, quando Ronaldo falhou o dele, o Chelsea ficou perante a oportunidade pela qual Roman Abramovich espetou já próximo de mil milhões no Chelsea: ser campeão europeu. Bastava-lhe converter um penalty, e Avram Grant iria conseguir o que Mourinho não conseguiu no Chelsea. Quando, porém, vi que o penalty decisivo estava a cargo de Anelka, saltei na cadeira (eu odeio o Manchester United), ao realizar o tremendo erro que Grant ia cometer. Porque Nicolas Anelka, para mim, é o símbolo do mercenário no futebol: é um jogador que só joga quando lhe apetece, só corre quando está para aí virado, que já passou por variadíssimos clubes, dos melhores do mundo, pago milionariamente, e sempre se achou superior a todos os clubes onde está. Nesse fim de tarde, em Moscovo, ele avançou para bola displicentemente, chutou displicentemente, permitindo uma defesa fácil a Van ser Sar, e virou as costas, indiferente, sem sequer esboçar um gesto de contrariedade. E o Manchester ganhou o desempate nos penalties e a Cham-pions, como estarão lembrados.
Não percebo, pois, que um seleccionador da França assuma o risco de levar Anelka a um Mundial. O risco de levar a um Mundial um jogador que não vive a camisola e que está em campo por desfastio e por dinheiro, nada mais. Domenech correu esse risco e o resultado foi ser insultado na cabina por Anelka, e ainda ter de levar com um levantamento dos jogadores em solidariedade com o companheiro, expulso da Selecção como só podia ser, e acabar, o próprio Domenech, a ler o comunicado da revolta dos jogadores! A FIFA — que, como disse Khadafi e com alguma razão, tem qualquer coisa de organização mafiosa — quer agora que o governo francês não se meta no assunto da vergonha pública que foi a representação francesa neste Mundial. Parece que a FIFA acha que o poder político não deve interferir nos poderes das Federações Nacionais nem no futebol — excepto quando é a própria FIFA a reclamar a intervenção do poder político ou até a fazer negociatas obscuras com ele quando isso lhe convém. Mas é uma pretensão condenada ao fracasso; casos como o de Anelka, numa selecção francesa cujo onze principal chegou a jogar apenas com dois franceses de origem, não podem escapar a um debate político que já está lançado. E, mesmo que esse debate não tenha de resvalar para as posições xenófobas da FN de Le Pen, nem os franceses, nem qualquer outro povo, confrontado com a prestação a vários níveis vergonhosa da sua selecção, poderá deixar de meditar se vale a pena mandar a um Mundial uma Selecção formada por grandes jogadores mas que não sentem o orgulho e a responsabilidade de representar o seu país e estão lá, sobretudo, para se mostrarem e sacarem contratos. Eu, no lugar do director desportivo da selecção francesa, em vez de me demitir e ir embora, tinha esperado pela eliminação da equipa e tinha-os despedido a todos, ali mesmo. Dizia-lhes, logo no fim do jogo: Estão dispensados e despedidos. Acabou-se o hotel pago e não há avião reservado a vossa espera. Voltem para casa como quiserem. De qualquer modo, Laurent Blanc vai ter que recomeçar tudo a partir do nada. E ainda bem que a França foi para casa. E a Itália. E a Inglaterra. Um futebolzeco, cheio de vedetas, cheio de nada.
3- Não consigo perceber como é que, tendo chegado à terceira jornada da fase de grupos, os comentadores das televisões e, em especial da Sport TV, não tinham feito o trabalho de casa mais básico e não conseguiam dizer, face aos resultados de dois jogos que iam decorrendo simultaneamente, quais as equipas que se apuravam e, pior ainda, que revelassem ignorância sobre os próprios critérios de desempate. Ao minuto 6 dos descontos de um jogo, ainda Carlos Manuel e o relator da Sport TV discutiam entre si quais as equipas que passariam com aquele resultado e o da outra partida!
De Carlos Manuel, aliás, notável jogador no seu tempo, retive alguns comentários feitos durante o Argentina-Grécia e o Argentina-México, que mostram a profundidade do seu pensamento, como comentador: «[Na fase de grupos] todos os jogos são importantes. Não é o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro: são todos»; « Uma equipa tanto pode apurar-se ganhando o primeiro jogo, como perdendo ou...ou...empatando»; «É de esperar um golo da Argentina. O que não dizer que a Grécia não possa marcar: o futebol é isto»; «É importante dizer que um Mundial tem a muito a ver com a qualidade dos jogadores»; «Muito por culpa do seu líder [Maradona], os jogadores da Argentina têm qualidade»; «A velocidade do pensamento dele é notável, sabendo de antemão que ia meter a bola ali [sobre um petardo de Tevez ao canto da baliza do México]»; «Continuo a dizer que nós nunca podemos dizer que uma substituição é mal feita. Ela pode é não correr bem».
4- Quando tudo isto acabar, quando o Mundial fechar as portas, vamos voltar ao ram-ram habitual. Vamos saber se o Benfica conseguiu vender um Di Maria apaga-díssimo no Mundial, não, claro, pelos 40 milhões da cláusula de rescisão, como prometeu L.F. Viera, mas por 20, que já não seria nada mau. E se, em contrapartida, não acaba sem o Fábio Coentrão, vendido muito mais cedo e mais barato do que desejavam, face à fantástica campanha que vem fazendo na África do Sul. Vamos ver se o Sporting descobre mais oportunidades para contratar alguns sportinguistas desde pequeninos que por aí têm andado tresmalhados, como o Maniche. E vamos ver se o FC Porto, que agora parece ter desviado as atenções da Argentina para o Rio Grande do Sul, consegue, mais uma vez, juntar dez aquisições, sem conseguir vender um só dos jogadores que não lhe interessa manter (caramba, nem há quem dê um milhão de euros pelo Farias? Porque não tentam o Sporting?).
Mas antes de regressarmos à conversa habitual, lá vamos enchendo a barriga com este festim de futebol do Mundial, agora a chegar à hora da verdade — onde se faz a separação entre os verdadeiros candidatos e os que são só prosápia.
5- Vale a pena reter as palavras de Nuno Espírito Santo, guarda-redes que acaba de deixar o FC Porto: «O FC Porto é muito mais do que um grande clube, é uma escola de valores, como a lealdade, fidelidade, dignidade, honestidade e dedicação, que faz de todos os que passamos por esta casa melhores pessoas. Sinto-me honrado e orgulhoso por pertencer à bela história do FC Porto. Sou e serei Porto». Muitos outros ex-portistas — em especial os vindos do Benfica ou Sporting — disseram o mesmo quando por lá passaram. E é por causa deste espírito e desta atitude que nós ganhamos tantas vezes, enquanto os outros só ganham na inveja, na calúnia e na maledicência.
2- Foi em 2008 que Manches-ter United e Chelsea se encontraram em Moscovo, na final da liga dos Campeões. Tudo começou com um grande golo de cabeça de Cristiano Ronaldo, mas o Chelsea empatou e o jogo seguiu para prolongamento epenalties. E, quando Ronaldo falhou o dele, o Chelsea ficou perante a oportunidade pela qual Roman Abramovich espetou já próximo de mil milhões no Chelsea: ser campeão europeu. Bastava-lhe converter um penalty, e Avram Grant iria conseguir o que Mourinho não conseguiu no Chelsea. Quando, porém, vi que o penalty decisivo estava a cargo de Anelka, saltei na cadeira (eu odeio o Manchester United), ao realizar o tremendo erro que Grant ia cometer. Porque Nicolas Anelka, para mim, é o símbolo do mercenário no futebol: é um jogador que só joga quando lhe apetece, só corre quando está para aí virado, que já passou por variadíssimos clubes, dos melhores do mundo, pago milionariamente, e sempre se achou superior a todos os clubes onde está. Nesse fim de tarde, em Moscovo, ele avançou para bola displicentemente, chutou displicentemente, permitindo uma defesa fácil a Van ser Sar, e virou as costas, indiferente, sem sequer esboçar um gesto de contrariedade. E o Manchester ganhou o desempate nos penalties e a Cham-pions, como estarão lembrados.
Não percebo, pois, que um seleccionador da França assuma o risco de levar Anelka a um Mundial. O risco de levar a um Mundial um jogador que não vive a camisola e que está em campo por desfastio e por dinheiro, nada mais. Domenech correu esse risco e o resultado foi ser insultado na cabina por Anelka, e ainda ter de levar com um levantamento dos jogadores em solidariedade com o companheiro, expulso da Selecção como só podia ser, e acabar, o próprio Domenech, a ler o comunicado da revolta dos jogadores! A FIFA — que, como disse Khadafi e com alguma razão, tem qualquer coisa de organização mafiosa — quer agora que o governo francês não se meta no assunto da vergonha pública que foi a representação francesa neste Mundial. Parece que a FIFA acha que o poder político não deve interferir nos poderes das Federações Nacionais nem no futebol — excepto quando é a própria FIFA a reclamar a intervenção do poder político ou até a fazer negociatas obscuras com ele quando isso lhe convém. Mas é uma pretensão condenada ao fracasso; casos como o de Anelka, numa selecção francesa cujo onze principal chegou a jogar apenas com dois franceses de origem, não podem escapar a um debate político que já está lançado. E, mesmo que esse debate não tenha de resvalar para as posições xenófobas da FN de Le Pen, nem os franceses, nem qualquer outro povo, confrontado com a prestação a vários níveis vergonhosa da sua selecção, poderá deixar de meditar se vale a pena mandar a um Mundial uma Selecção formada por grandes jogadores mas que não sentem o orgulho e a responsabilidade de representar o seu país e estão lá, sobretudo, para se mostrarem e sacarem contratos. Eu, no lugar do director desportivo da selecção francesa, em vez de me demitir e ir embora, tinha esperado pela eliminação da equipa e tinha-os despedido a todos, ali mesmo. Dizia-lhes, logo no fim do jogo: Estão dispensados e despedidos. Acabou-se o hotel pago e não há avião reservado a vossa espera. Voltem para casa como quiserem. De qualquer modo, Laurent Blanc vai ter que recomeçar tudo a partir do nada. E ainda bem que a França foi para casa. E a Itália. E a Inglaterra. Um futebolzeco, cheio de vedetas, cheio de nada.
3- Não consigo perceber como é que, tendo chegado à terceira jornada da fase de grupos, os comentadores das televisões e, em especial da Sport TV, não tinham feito o trabalho de casa mais básico e não conseguiam dizer, face aos resultados de dois jogos que iam decorrendo simultaneamente, quais as equipas que se apuravam e, pior ainda, que revelassem ignorância sobre os próprios critérios de desempate. Ao minuto 6 dos descontos de um jogo, ainda Carlos Manuel e o relator da Sport TV discutiam entre si quais as equipas que passariam com aquele resultado e o da outra partida!
De Carlos Manuel, aliás, notável jogador no seu tempo, retive alguns comentários feitos durante o Argentina-Grécia e o Argentina-México, que mostram a profundidade do seu pensamento, como comentador: «[Na fase de grupos] todos os jogos são importantes. Não é o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro: são todos»; « Uma equipa tanto pode apurar-se ganhando o primeiro jogo, como perdendo ou...ou...empatando»; «É de esperar um golo da Argentina. O que não dizer que a Grécia não possa marcar: o futebol é isto»; «É importante dizer que um Mundial tem a muito a ver com a qualidade dos jogadores»; «Muito por culpa do seu líder [Maradona], os jogadores da Argentina têm qualidade»; «A velocidade do pensamento dele é notável, sabendo de antemão que ia meter a bola ali [sobre um petardo de Tevez ao canto da baliza do México]»; «Continuo a dizer que nós nunca podemos dizer que uma substituição é mal feita. Ela pode é não correr bem».
4- Quando tudo isto acabar, quando o Mundial fechar as portas, vamos voltar ao ram-ram habitual. Vamos saber se o Benfica conseguiu vender um Di Maria apaga-díssimo no Mundial, não, claro, pelos 40 milhões da cláusula de rescisão, como prometeu L.F. Viera, mas por 20, que já não seria nada mau. E se, em contrapartida, não acaba sem o Fábio Coentrão, vendido muito mais cedo e mais barato do que desejavam, face à fantástica campanha que vem fazendo na África do Sul. Vamos ver se o Sporting descobre mais oportunidades para contratar alguns sportinguistas desde pequeninos que por aí têm andado tresmalhados, como o Maniche. E vamos ver se o FC Porto, que agora parece ter desviado as atenções da Argentina para o Rio Grande do Sul, consegue, mais uma vez, juntar dez aquisições, sem conseguir vender um só dos jogadores que não lhe interessa manter (caramba, nem há quem dê um milhão de euros pelo Farias? Porque não tentam o Sporting?).
Mas antes de regressarmos à conversa habitual, lá vamos enchendo a barriga com este festim de futebol do Mundial, agora a chegar à hora da verdade — onde se faz a separação entre os verdadeiros candidatos e os que são só prosápia.
5- Vale a pena reter as palavras de Nuno Espírito Santo, guarda-redes que acaba de deixar o FC Porto: «O FC Porto é muito mais do que um grande clube, é uma escola de valores, como a lealdade, fidelidade, dignidade, honestidade e dedicação, que faz de todos os que passamos por esta casa melhores pessoas. Sinto-me honrado e orgulhoso por pertencer à bela história do FC Porto. Sou e serei Porto». Muitos outros ex-portistas — em especial os vindos do Benfica ou Sporting — disseram o mesmo quando por lá passaram. E é por causa deste espírito e desta atitude que nós ganhamos tantas vezes, enquanto os outros só ganham na inveja, na calúnia e na maledicência.
terça-feira, junho 21, 2011
SETE RAZÕES DE ESPERANÇA (22 JUNHO 2010)
1- A bola de saída voltou a ser nossa, mas, desta vez, saímos a jogar para a frente e não para trás ou para os lados. Isso foi o bastante, para mim, para perceber que vínhamos com outro espírito e uma atitude de conquista. Com menos medo de ganhar do que medo de perder. E assim durante o jogo inteiro, mesmo na meia-hora final, quando o resultado e a passagem aos oitavos já estavam decididos, e a equipa optou por continuar a jogar ao ataque, correndo os riscos necessários.
2- Ao contrário das previsões de Carlos Queiroz, manifestadas logo após o jogo contra a Costa do Marfim, a Coreia do Norte não ergueu nenhum muro à nossa frente. Pelo contrário: jogaram no campo todo, desde o primeiro ao último minuto e, quando ainda havia 0 - 0, chegaram a assustar-nos por duas ou três vezes — a pior das quais quando Eduardo defendeu um remate para a frente, permitindo uma recarga fácil que, por sorte, saiu alta. Paradoxalmente, foi a ausência de medo do seleccionador coreano que nos abriu, de par em par, as portas do Paraíso. Porque, se no ataque a Coreia ainda assusta às vezes, na defesa aquilo é manteiga, à espera de uma faca.
3- Tiago e Raul Meireles — eles abriram-nos o jogo. Sobretudo Meireles, o homem imprescindível desta Selecção, o verdadeiro MVP de Portugal. Mas também Fábio Coentrão — grande jogo, grande jogador! — e Hugo Almeida, bem melhor que Liedson. Estes, e os centrais, sem falhas, compensaram os que, na minha opinião, estiveram bastantes furos abaixo: Miguel e Simão, como de costume, e Pedro Mendes.
4- O Ronaldo da segunda parte foi aquele pelo qual uma nação inteira há muito esperava, jogando para a equipa e não para a secção de efeitos especiais da televisão (embora, curiosamente, tenha acabado, finalmente, por marcar um golo que vai correr mundo nos blogues de efeitos especiais).
5- Sabia-se que o mais difícil era chegar ao 2-0: a partir daí, a Coreia fundia-se, por mais que tenham jurado morrer em campo pelo Querido Líder. E assim foi e num ápice: 2-0, 3-0, 4-0, em sete minutos de auto-estrada de prego a fundo. Depois, vieram mais dois e mais outros tantos poderiam ter vindo, quando Cristiano Ronaldo abriu o livro. Tenho pena dos coreanos que não desertarem antes do final do Mundial: será que acabam o ano vivos?
6- É verdade que a Coreia jogou contra nós de uma forma aberta que tudo facilitou e não fez o mesmo contra o Brasil. Mas, para quem viu também o Brasil-Costa do Marfim, onde o resultado foi bem melhor do que a exibição, não é de todo absurdo pensar que podemos vencer esta triste selecção de Dunga, da qual parece desertada, europeizada, toda a antiga fantasia em movimento. Sim, podemos perfeitamente ganhar ao Brasil e terminar em primeiro no grupo. O problema é que a nossa Selecção ninguém sabe como vai jogar a seguir. Um bom jogo não prenuncia necessariamente outro bom e vice-versa, como vimos ontem e felizmente. Fisicamente, estamos bem melhor à vista do que os brasileiros e isso também vai contar.
7- Bem, e last but not least, ganhámos ânimo, reganhámos orgulho e conquistámos um precioso suplemento de alma e de vontade. Sendo como somos, é de prever que a nação já vai toda embandeirar em arco. Não há razão para tanto, há apenas uma nova razão de esperança. Estamos nos oitavos e, afinal, até somos capazes de marcar golos.
2- Ao contrário das previsões de Carlos Queiroz, manifestadas logo após o jogo contra a Costa do Marfim, a Coreia do Norte não ergueu nenhum muro à nossa frente. Pelo contrário: jogaram no campo todo, desde o primeiro ao último minuto e, quando ainda havia 0 - 0, chegaram a assustar-nos por duas ou três vezes — a pior das quais quando Eduardo defendeu um remate para a frente, permitindo uma recarga fácil que, por sorte, saiu alta. Paradoxalmente, foi a ausência de medo do seleccionador coreano que nos abriu, de par em par, as portas do Paraíso. Porque, se no ataque a Coreia ainda assusta às vezes, na defesa aquilo é manteiga, à espera de uma faca.
3- Tiago e Raul Meireles — eles abriram-nos o jogo. Sobretudo Meireles, o homem imprescindível desta Selecção, o verdadeiro MVP de Portugal. Mas também Fábio Coentrão — grande jogo, grande jogador! — e Hugo Almeida, bem melhor que Liedson. Estes, e os centrais, sem falhas, compensaram os que, na minha opinião, estiveram bastantes furos abaixo: Miguel e Simão, como de costume, e Pedro Mendes.
4- O Ronaldo da segunda parte foi aquele pelo qual uma nação inteira há muito esperava, jogando para a equipa e não para a secção de efeitos especiais da televisão (embora, curiosamente, tenha acabado, finalmente, por marcar um golo que vai correr mundo nos blogues de efeitos especiais).
5- Sabia-se que o mais difícil era chegar ao 2-0: a partir daí, a Coreia fundia-se, por mais que tenham jurado morrer em campo pelo Querido Líder. E assim foi e num ápice: 2-0, 3-0, 4-0, em sete minutos de auto-estrada de prego a fundo. Depois, vieram mais dois e mais outros tantos poderiam ter vindo, quando Cristiano Ronaldo abriu o livro. Tenho pena dos coreanos que não desertarem antes do final do Mundial: será que acabam o ano vivos?
6- É verdade que a Coreia jogou contra nós de uma forma aberta que tudo facilitou e não fez o mesmo contra o Brasil. Mas, para quem viu também o Brasil-Costa do Marfim, onde o resultado foi bem melhor do que a exibição, não é de todo absurdo pensar que podemos vencer esta triste selecção de Dunga, da qual parece desertada, europeizada, toda a antiga fantasia em movimento. Sim, podemos perfeitamente ganhar ao Brasil e terminar em primeiro no grupo. O problema é que a nossa Selecção ninguém sabe como vai jogar a seguir. Um bom jogo não prenuncia necessariamente outro bom e vice-versa, como vimos ontem e felizmente. Fisicamente, estamos bem melhor à vista do que os brasileiros e isso também vai contar.
7- Bem, e last but not least, ganhámos ânimo, reganhámos orgulho e conquistámos um precioso suplemento de alma e de vontade. Sendo como somos, é de prever que a nação já vai toda embandeirar em arco. Não há razão para tanto, há apenas uma nova razão de esperança. Estamos nos oitavos e, afinal, até somos capazes de marcar golos.
segunda-feira, junho 20, 2011
POR FAVOR, CALEM AS VUVUZELAS! (15 JUNHO 2010)
1- Corra melhor ou pior, este Mundial irá passar à história, antes de mais, por uma razão literalmente de fundo: o ruído do exército de varejeiras que nos entra pela casa, pelos ouvidos, pela vida adentro, de cada vez que seguimos um jogo na televisão. Nem os comentários do Carlos Manuel na Sport TV conseguem irritar mais do que essa praga das vuvuzelas, inventada por quem não gosta de futebol para ser usada por quem nada percebe de futebol e não está lá para ver o jogo.
De todos os lados, o consenso está estabelecido: não há ninguém que suporte aquilo. Nem jogadores, nem técnicos, nem árbitros, nem repórteres de campo, nem comentadores de televisão, nem espectadores. Porque não se proíbem, então? Porque o sr. Blatter tem medo de ofender os sul-africanos e, com eles, o voto dos africanos, indispensável à sua manutenção no poder dessa máquina de fabricar e ostentar dinheiro que se chama FIFA. A única esperança que resta é que os próprios sul-africanos já começam a interrogar-se se o insuportável ruído das vuvuzelas não acabou, afinal, por ser desfavorável à prestação inaugural da sua selecção — impedida pela manada de elefantes loucos de fazer escutar os seus cânticos e gritos de apoio. A vuvuzela, como me explicaram lá na África do Sul em Agosto passado, é a grande esperança dos bafana-bafana para conseguirem perturbar o futebol das outras equipas. E lá que perturbam, perturbam; disso não há a mais pequena dúvida e só por isso, e se lá estivesse para defender o futebol, o sr. Blatter trataria de as proibir. Mas, não se atrevendo ele a esse gesto politicamente incorrecto, resta então a esperança de que os próprios sul-africanos comecem a duvidar das suas vantagens. Enquanto tal não acontecer, estamos condenados ou ao inferno, ou a assistir a um Mundial em silêncio. Ao que isto chegou!
2- Devemos perguntar-nos para que serve tão extensa comitiva da FPF na África do Sul, tantos dirigentes, adidos de imprensa, etc, quando a gestão do caso Nani foi má de mais, incompreensível de mais. Tão má e tão incompreensível, que logo nasceu o rumor (que ainda se mantém e já quase como verdade estabelecida), que não houve lesão nenhuma impeditiva da prestação do jogador, mas sim um caso de doping abafado desta maneira. Rumor ainda mais alimentado pelas declarações do próprio jogador, no regresso a casa, quando declarou que numa semana estaria bom. Quem e porquê deixou que este boato, atingindo o nome profissional de Nani, alastrasse desta forma? E porquê que não houve jornalistas capazes de fazerem as perguntas que se impunham: porque não vem o médico da Selecção explicar a lesão? Que lesão foi, ao certo? Onde fez Nani os exames que determinaram ô seu afastamento? Porque não os fez antes de seguir para a África do Sul? O que disseram, exactamente, os exames? Foi mandada cópia ao Manchester United? E o que disseram os ingleses? Quanto tempo de recuperação era previsível? Que tipo de tratamento podia ser feito? Como é que o Drogba parte o cúbito, é operado e, se calhar, já joga logo à tarde, e o Nani faz uma luxação no ombro e é declarado irrecuperável para todo o Mundial?
Ainda estão a tempo, senhores responsáveis da Federação: querem dar-nos uma explicação que acabe de vez com as dúvidas, as especulações e os boatos ofensivos, ou regressámos ao espírito de Saltillo?
3- Logo à tarde, não tem que enganar: só a vitorianos interessa. E, para vencer, acabou-se o palavreado de circunstância e as brilhantes explicações técnico-tácticas: é preciso que Queiroz não tenha medo de ganhar, de lutar pela vitória e que saiba transmitir essa atitude aos jogadores.
Acredito firmemente na vitória e um bom prenúncio éque vamos jogar com o equipamento branco — bem mais bonito e bem mais nacio -naláo que o eterno, feio e intragável equipamento à Benfica.
4- A BOLA fez um inquérito onde me perguntaram qual a selecção que eu via como favorita. Respondi a Argentina, mas depois constatei que a generalidade dos respon-dentes enumeravam duas, três e até quatro selecções. Assim, como dizem os brasileiros, fica mais fácil acertar...
5- Como bem sabemos, uma mentira repetidamente dita transforma-se em verdade. Há anos que o José Diogo Quintela anda a repetir que um árbitro foi tomar um cafezinho a casa de Pinto da Costa, na véspera de apitar um jogo decisivo do FC Porto, em 2004. Tirando o facto de não ter sido assim que a coisa ficou provada em tribunal, o mais importante é que esse jogo (um Beira-Mar-FC Porto) não era decisivo, pois que o Porto já tinha o campeonato no bolso — tanto que se dispensou de apresentar vários titulares, que ficaram a descansar para a- eminente final da Cham-pions, em Geselkirchem, que teve lugar daí a dias. O jogo terminou empatado, salvo erro 1-1, e, segundo o trio de analistas de arbitragem do Jogo, o árbitro do cafezinho cometeu, de facto, dois erros, um para cada lado e ambos com possível influência no resultado. Só que, azar, o primeiro erro foi contra o FC Porto — e o primeiro erro é sempre mais importante. Ah, e o treinador, que precisava que dessem cafezinhos aos árbitros para vencer um Beira-Mar, chamava-se José Mourinho e logo, logo, iria ser campeão europeu...
Eu, no lugar do José Diogo Quintela preocupava-me antes (porque é mesmo de andar preocupado) com o espectáculo lastimável de ver o Sporting andar há um mês a anunciar iminentes reforços que nunca se confirmam e fabulosas vendas de jogadores que ninguém quer comprar. Preocupava-me com as contas apresentadas pela SAD leonina e com o facto de ela não ser capaz de apresentar, em mais de três semanas, uma simples garantia bancária de três ou quatro milhões para comprar o tal de Petrovic. Ou de andar a formar grandes promessas em Alcochete que se vê à rasca para colocar a rodar noutros clubes porque quer que sejam eles a pagar os ordenados. Ou de cada vez ter menos adeptos no estádio e mais passivo nas contas, ou de ter terminado o campeonato a 27 pontos do Benfica, etc... e tal. Enfim, não vou bater no ceguinho, só não consigo é entender o descaramento de continuar a insistir naquilo que todos os tribunais deram como não provado e continuar a tentar que o povo acredite que tudo o que o FC Porto ganhou nos últimos anos (enquanto o Sporting celebrava segundos lugares como grandes conquistas) foi com cafezinhos ou as férias do Calheiros no Brasil, já depois de reformado. Se neste país houvesse uma cultura de responsabilidade, se cada um fosse responsabilizado pelo que diz e faz, não se continuaria a insistir em mentiras desmascaradas pela justiça. Pelo contrário, o que se perguntaria é quem responde pelos milhões de euros de dinheiro dos contribuintes gastos pelo dream team do Ministério Público numa operação de perseguição ao FC Porto, desenterrando processos arquivados, acusando com falta de provas, arregimentando testemunhos que toda a gente via que eram falsos e pessoalmente motivados. Quem responde por isso?
6- E, recordando as palavras do Hulk sobre os incidentes do túnel da Luz («Acredito que foi uma situação armada, combinada») — graças à qual ele perdeu, além do mais, toda a esperança de poder estar no Mundial) —, quero saudar aqui o tardio desaparecimento do dr. Ricardo Costa do CD da Liga e do futebol português. Espero bem que seja definitivo, pois que, há muitos anos a seguir o futebol, não me lembro de prestação tão negra como a sua, no dirigismo desportivo. Claro que vai deixar saudades em muita gente, mas por razões que ele muito bem sabe e que eu, no lugar dele, dispensaria.
7- A Naide Gomes tem razão: o título feminino de atletismo conquistado pelo FC Porto, graças a uma armada de atletas do Leste, contratadas para tal, prejudica o atletismo nacional, falseia o desportivismo e não honra o clube. Qual é o orgulho, o sentido, de ser campeão assim, numa modalidade amadora? Só para ter mais uma taça na vitrina?
De todos os lados, o consenso está estabelecido: não há ninguém que suporte aquilo. Nem jogadores, nem técnicos, nem árbitros, nem repórteres de campo, nem comentadores de televisão, nem espectadores. Porque não se proíbem, então? Porque o sr. Blatter tem medo de ofender os sul-africanos e, com eles, o voto dos africanos, indispensável à sua manutenção no poder dessa máquina de fabricar e ostentar dinheiro que se chama FIFA. A única esperança que resta é que os próprios sul-africanos já começam a interrogar-se se o insuportável ruído das vuvuzelas não acabou, afinal, por ser desfavorável à prestação inaugural da sua selecção — impedida pela manada de elefantes loucos de fazer escutar os seus cânticos e gritos de apoio. A vuvuzela, como me explicaram lá na África do Sul em Agosto passado, é a grande esperança dos bafana-bafana para conseguirem perturbar o futebol das outras equipas. E lá que perturbam, perturbam; disso não há a mais pequena dúvida e só por isso, e se lá estivesse para defender o futebol, o sr. Blatter trataria de as proibir. Mas, não se atrevendo ele a esse gesto politicamente incorrecto, resta então a esperança de que os próprios sul-africanos comecem a duvidar das suas vantagens. Enquanto tal não acontecer, estamos condenados ou ao inferno, ou a assistir a um Mundial em silêncio. Ao que isto chegou!
2- Devemos perguntar-nos para que serve tão extensa comitiva da FPF na África do Sul, tantos dirigentes, adidos de imprensa, etc, quando a gestão do caso Nani foi má de mais, incompreensível de mais. Tão má e tão incompreensível, que logo nasceu o rumor (que ainda se mantém e já quase como verdade estabelecida), que não houve lesão nenhuma impeditiva da prestação do jogador, mas sim um caso de doping abafado desta maneira. Rumor ainda mais alimentado pelas declarações do próprio jogador, no regresso a casa, quando declarou que numa semana estaria bom. Quem e porquê deixou que este boato, atingindo o nome profissional de Nani, alastrasse desta forma? E porquê que não houve jornalistas capazes de fazerem as perguntas que se impunham: porque não vem o médico da Selecção explicar a lesão? Que lesão foi, ao certo? Onde fez Nani os exames que determinaram ô seu afastamento? Porque não os fez antes de seguir para a África do Sul? O que disseram, exactamente, os exames? Foi mandada cópia ao Manchester United? E o que disseram os ingleses? Quanto tempo de recuperação era previsível? Que tipo de tratamento podia ser feito? Como é que o Drogba parte o cúbito, é operado e, se calhar, já joga logo à tarde, e o Nani faz uma luxação no ombro e é declarado irrecuperável para todo o Mundial?
Ainda estão a tempo, senhores responsáveis da Federação: querem dar-nos uma explicação que acabe de vez com as dúvidas, as especulações e os boatos ofensivos, ou regressámos ao espírito de Saltillo?
3- Logo à tarde, não tem que enganar: só a vitorianos interessa. E, para vencer, acabou-se o palavreado de circunstância e as brilhantes explicações técnico-tácticas: é preciso que Queiroz não tenha medo de ganhar, de lutar pela vitória e que saiba transmitir essa atitude aos jogadores.
Acredito firmemente na vitória e um bom prenúncio éque vamos jogar com o equipamento branco — bem mais bonito e bem mais nacio -naláo que o eterno, feio e intragável equipamento à Benfica.
4- A BOLA fez um inquérito onde me perguntaram qual a selecção que eu via como favorita. Respondi a Argentina, mas depois constatei que a generalidade dos respon-dentes enumeravam duas, três e até quatro selecções. Assim, como dizem os brasileiros, fica mais fácil acertar...
5- Como bem sabemos, uma mentira repetidamente dita transforma-se em verdade. Há anos que o José Diogo Quintela anda a repetir que um árbitro foi tomar um cafezinho a casa de Pinto da Costa, na véspera de apitar um jogo decisivo do FC Porto, em 2004. Tirando o facto de não ter sido assim que a coisa ficou provada em tribunal, o mais importante é que esse jogo (um Beira-Mar-FC Porto) não era decisivo, pois que o Porto já tinha o campeonato no bolso — tanto que se dispensou de apresentar vários titulares, que ficaram a descansar para a- eminente final da Cham-pions, em Geselkirchem, que teve lugar daí a dias. O jogo terminou empatado, salvo erro 1-1, e, segundo o trio de analistas de arbitragem do Jogo, o árbitro do cafezinho cometeu, de facto, dois erros, um para cada lado e ambos com possível influência no resultado. Só que, azar, o primeiro erro foi contra o FC Porto — e o primeiro erro é sempre mais importante. Ah, e o treinador, que precisava que dessem cafezinhos aos árbitros para vencer um Beira-Mar, chamava-se José Mourinho e logo, logo, iria ser campeão europeu...
Eu, no lugar do José Diogo Quintela preocupava-me antes (porque é mesmo de andar preocupado) com o espectáculo lastimável de ver o Sporting andar há um mês a anunciar iminentes reforços que nunca se confirmam e fabulosas vendas de jogadores que ninguém quer comprar. Preocupava-me com as contas apresentadas pela SAD leonina e com o facto de ela não ser capaz de apresentar, em mais de três semanas, uma simples garantia bancária de três ou quatro milhões para comprar o tal de Petrovic. Ou de andar a formar grandes promessas em Alcochete que se vê à rasca para colocar a rodar noutros clubes porque quer que sejam eles a pagar os ordenados. Ou de cada vez ter menos adeptos no estádio e mais passivo nas contas, ou de ter terminado o campeonato a 27 pontos do Benfica, etc... e tal. Enfim, não vou bater no ceguinho, só não consigo é entender o descaramento de continuar a insistir naquilo que todos os tribunais deram como não provado e continuar a tentar que o povo acredite que tudo o que o FC Porto ganhou nos últimos anos (enquanto o Sporting celebrava segundos lugares como grandes conquistas) foi com cafezinhos ou as férias do Calheiros no Brasil, já depois de reformado. Se neste país houvesse uma cultura de responsabilidade, se cada um fosse responsabilizado pelo que diz e faz, não se continuaria a insistir em mentiras desmascaradas pela justiça. Pelo contrário, o que se perguntaria é quem responde pelos milhões de euros de dinheiro dos contribuintes gastos pelo dream team do Ministério Público numa operação de perseguição ao FC Porto, desenterrando processos arquivados, acusando com falta de provas, arregimentando testemunhos que toda a gente via que eram falsos e pessoalmente motivados. Quem responde por isso?
6- E, recordando as palavras do Hulk sobre os incidentes do túnel da Luz («Acredito que foi uma situação armada, combinada») — graças à qual ele perdeu, além do mais, toda a esperança de poder estar no Mundial) —, quero saudar aqui o tardio desaparecimento do dr. Ricardo Costa do CD da Liga e do futebol português. Espero bem que seja definitivo, pois que, há muitos anos a seguir o futebol, não me lembro de prestação tão negra como a sua, no dirigismo desportivo. Claro que vai deixar saudades em muita gente, mas por razões que ele muito bem sabe e que eu, no lugar dele, dispensaria.
7- A Naide Gomes tem razão: o título feminino de atletismo conquistado pelo FC Porto, graças a uma armada de atletas do Leste, contratadas para tal, prejudica o atletismo nacional, falseia o desportivismo e não honra o clube. Qual é o orgulho, o sentido, de ser campeão assim, numa modalidade amadora? Só para ter mais uma taça na vitrina?
sexta-feira, junho 17, 2011
MAGALIESBURG (08 JUNHO 2010)
1- Por estranho que pareça, nem o Público nem o Diário de Noticias de ontem referiam o nome do local de estágio onde a Selecção Nacional tinha acabado de chegar na véspera: Magaliesburg. Mas daqui até dia 25, pelo menos, o nome vai-nos entrar nos ouvidos dezenas de vezes ao dia, porque é lá que estarão concentradas também todas as nossas esperanças.
E, antes de mais, um esclarecimento pessoal: num daqueles inquéritos sumaríssimos de que os jornais gostam, o Expresso perguntou-me há dias quem achava eu que iria ser a grande decepção na África do Sul. Respondi com duas palavras apenas: «a própria». Parece-me a mim que a resposta, para qualquer pessoa, só poderia querer dizer a própria selecção sul africana, a anfitriã. E, tendo ainda por cima, a resposta sido dada por escrito, por mail, não consigo entender como é que a minha resposta que apareceu publicada tenha sido «Portugal». Dizem-me tristes experiências anteriores que, anos a fio, eu irei ter de penar por esta coisa que não disse - sobretudo se, como é expectável e desejável, nós não venhamos a ser, obviamente, a grande decepção deste Mundial. Infelizmente, a mentira faz sempre um caminho mais longo e durável do que a verdade que se pretende repor. Ainda hoje, passados quatro anos, eu enfrento um ódio sem fim nos blogues da net por uma suposta frase sobre os professores que nunca disse ou escrevi e a qual já desmenti uma dezena de vezes, em vários lados. Para que conste, então, e apenas para aqueles que se preocupam com esse "pormenor" de distinguir a mentira da verdade: eu não penso isso e não disse isso, sobre a nossa Selecção.
2- Em matéria de expectativas, alias, confesso que não consigo ter nenhumas firmes. Dizia há dias o David Borges que a nossa Selecção é capaz de ganhar a qualquer outra. Bem, eu não direi tanto; acho que só uma vez em dez poderíamos ganhar ao Brasil, à Argentina, à Espanha. Mas é verdade que, num dia de inspiração, podemos ganhar quase a qualquer uma e, uma vez em dez, como disse, também àquelas três.
O problema está em que também acho que, num dia de desispiração, poderemos perder quase com qualquer uma. Aquilo que me causa mais apreensão no nosso jogo é que ele nunca é previsível, nunca sabemos se a Selecção está em dia sim ou em dia não. Falta-lhe uma continuidade exibicional e nao só de jogo para jogo, mas também ao longo de um mesmo jogo. Nunca sabemos se o Cristiano Ronaldo vai soltar o génio ou andar por ali, semi perdido: se o Deco vai abrir linhas de passe que são como riscos do Niemayer (como fez contra a Costa do Marfim), ou se vai parecer um jogador banal, que até os cantos executa mal (como fez contra Cabo Verde). Todos sabemos o que vale a Selecção, jogador por jogador, e ali não há maus Jogadores. O trabalho de Carlos Queiroz, a responsabilidade que é só sua, é justamente pegar neles todos e fazer uma equipa e dar a essa equipa uma identidade e uma continuidade de jogo, que tantas vezes se duvida que exista. Quando a bola começar a rolar a sério, no dia 15, já poderemos tirar uma primeira conclusão e saber se a Covilhã e Magaliesburg foi ou não tempo perdido.
3- A boa e terrível noticia é a lesão de Drogba. Se o «novo produto» de que fala o seu médico, não conseguir o improvável milagre de o pôr apto para nos enfrentar dia 15, pode-se dizer que os deuses começaram connosco este Mundial. E não vale a pena soltar aquelas frases de circunstância de que um jogador não faz a diferença e que, mesmo sem ele, a Costa do Marfim continua a ser uma equipa ameaçadora. Não é verdade e até fica mal disfarça-lo: o Drogba faz muito mais falta à Costa do Marfim do que o Ronaldo nos faz a nós. Basta pensar que foram os golos do Drogba que qualificaram os marfinenses, enquanto que nós nos classificámos sem um único golo da nossa maior estrela.
Entretanto, a lesão do melhor marcador do campeonato inglês, a juntar a várias e recentes outras de jogadores já seleccionados para o Mundial (a ultima foi o Pirlo), confirma a ideia que aqui deixei a semana passada: que esta altura, o prolongamento da época, é má para realizar os Mundiais e Europeus. Não apenas pelas lesões, mas pelo cansaço que vai ser evidente em tantas vedetas de que tanto se espera.
4- E por falar em vedetas e em Cristiano Ronaldo, a sua visita às crianças com cancro do IPO, a maneira como as tratou, como falou com elas, foi um momento lindo - dele e da Selecção. Com tanta operação de marketing que a sua equipa de imagem faz à roda dele, tantas dezenas de supostas ou reais namoradas que lhe atribuem ciclicamente, as Paris Hilton e essa treta toda, a imagem do Ronaldo, em minha opinião, não sai favorecida, mas antes pelo contrário: parece a de alguém que, fora dos relvados, só se preocupa com festas, loiras, Ferraris e íates. Mas a sua simples visita ao IPO e a forma como se comportou devolveram-no à condição humana e mostraram outro lado, bem melhor, de um rapaz predestinado e privilegiado. Nem ele sabe o quanto saiu a ganhar com isso!
Ao invés, a inacreditável viagem de promoção publicitária do autocarro da Selecção entre o hotel e o Aeroporto de Lisboa foi um daqueles fretes que não se imaginariam possíveis naquela que, para todos os efeitos, é uma representação nacional. Se querem que a gente sinta a Selecção como um bocado da Pátria, não a ponham a fazer fretes comerciais a favor da Galp ou do Continente! O dinheiro não é tudo, Dr. Madail!
5- Confesso que também não tenho opinião formada (e quem poderá tê-la?) sobre a aposta de altíssimo risco que Pinto da Costa assumiu para novo treinador do Porto. Não é a juventude dele, propriamente, que me preocupa, é antes a falta de experiência de campo e de comando de homens. Em contrapartida, só pode, e já o provou, ter experiência e conhecimento abundante da observação dos adversários e do uso da estatística - dois instrumentos hoje fundamentais na preparação dos jogos. Quanto à idade, não acho que seja necessariamente um factor negativo: o que não faltam por ai é treinadores com 60 anos que não há maneira de aprenderam nada...
A juventude de Villas Boas encaixa até bem na necessidade por todos os portistas sentida de mudar de ciclo. Como já aqui o escrevi (mas os nossos adversários recusam-se a entender), foi isso, e não a ingratidão ou um "castigo", que levou ao final do ciclo Jesualdo Ferreira, um ano antes do previsto. Mas, como também escreveu aqui Vítor Serpa, e eu subscrevo, esta é, de facto, a aposta mais pessoal e mais arriscada de Pinto da Costa. Se ela falhar, a responsabilidade, não primeira, mas sim única, será dele e não de Villas Boas. E isso dá-me esperança que Pinto da Costa, fazendo, como convém aos tempos e à situação financeira do clube, poucas mas criteriosas aquisições, lhe dê, realmente, uma equipa ganhadora. Jogadores, a começar pelo meio-campo ofensivo,que entrem de caras na equipa, em lugar de virem fazer número, ganhar experiência ou rodar noutras paragens. Enfim, que ele dê a Villas Boas armas iguais para se bater com o Benfica, que este ano não tivemos.
Ah, e há mais um factor de optimismo: é que, não sabendo embora o que vale Villas Boas, constatei que o Ricardo Araújo Pereira lhe dedicou uma crónica inteira, cujo objectivo principal era garantir-nos que ele não é o novo Mourinho – isso, como se sabe e garantiram vários benfiquistas, é o Jorge Jesus (a propósito: alguém, por acaso, acreditou naquela noticia de que Pinto da Costa terá tentado contratar Jesus, em Maio passado? Eu cá fartei-me de rir...). Pois bem: se o RAP se dá ao trabalho de dedicar uma crónica inteira ao novo treinador do FC Porto, esquecendo por uma vez a reminiscência das minhas obras completas e as do Rui Moreira, é porque eles estão preocupados com a nossa escolha. E isso é óptimo sinal.
E, antes de mais, um esclarecimento pessoal: num daqueles inquéritos sumaríssimos de que os jornais gostam, o Expresso perguntou-me há dias quem achava eu que iria ser a grande decepção na África do Sul. Respondi com duas palavras apenas: «a própria». Parece-me a mim que a resposta, para qualquer pessoa, só poderia querer dizer a própria selecção sul africana, a anfitriã. E, tendo ainda por cima, a resposta sido dada por escrito, por mail, não consigo entender como é que a minha resposta que apareceu publicada tenha sido «Portugal». Dizem-me tristes experiências anteriores que, anos a fio, eu irei ter de penar por esta coisa que não disse - sobretudo se, como é expectável e desejável, nós não venhamos a ser, obviamente, a grande decepção deste Mundial. Infelizmente, a mentira faz sempre um caminho mais longo e durável do que a verdade que se pretende repor. Ainda hoje, passados quatro anos, eu enfrento um ódio sem fim nos blogues da net por uma suposta frase sobre os professores que nunca disse ou escrevi e a qual já desmenti uma dezena de vezes, em vários lados. Para que conste, então, e apenas para aqueles que se preocupam com esse "pormenor" de distinguir a mentira da verdade: eu não penso isso e não disse isso, sobre a nossa Selecção.
2- Em matéria de expectativas, alias, confesso que não consigo ter nenhumas firmes. Dizia há dias o David Borges que a nossa Selecção é capaz de ganhar a qualquer outra. Bem, eu não direi tanto; acho que só uma vez em dez poderíamos ganhar ao Brasil, à Argentina, à Espanha. Mas é verdade que, num dia de inspiração, podemos ganhar quase a qualquer uma e, uma vez em dez, como disse, também àquelas três.
O problema está em que também acho que, num dia de desispiração, poderemos perder quase com qualquer uma. Aquilo que me causa mais apreensão no nosso jogo é que ele nunca é previsível, nunca sabemos se a Selecção está em dia sim ou em dia não. Falta-lhe uma continuidade exibicional e nao só de jogo para jogo, mas também ao longo de um mesmo jogo. Nunca sabemos se o Cristiano Ronaldo vai soltar o génio ou andar por ali, semi perdido: se o Deco vai abrir linhas de passe que são como riscos do Niemayer (como fez contra a Costa do Marfim), ou se vai parecer um jogador banal, que até os cantos executa mal (como fez contra Cabo Verde). Todos sabemos o que vale a Selecção, jogador por jogador, e ali não há maus Jogadores. O trabalho de Carlos Queiroz, a responsabilidade que é só sua, é justamente pegar neles todos e fazer uma equipa e dar a essa equipa uma identidade e uma continuidade de jogo, que tantas vezes se duvida que exista. Quando a bola começar a rolar a sério, no dia 15, já poderemos tirar uma primeira conclusão e saber se a Covilhã e Magaliesburg foi ou não tempo perdido.
3- A boa e terrível noticia é a lesão de Drogba. Se o «novo produto» de que fala o seu médico, não conseguir o improvável milagre de o pôr apto para nos enfrentar dia 15, pode-se dizer que os deuses começaram connosco este Mundial. E não vale a pena soltar aquelas frases de circunstância de que um jogador não faz a diferença e que, mesmo sem ele, a Costa do Marfim continua a ser uma equipa ameaçadora. Não é verdade e até fica mal disfarça-lo: o Drogba faz muito mais falta à Costa do Marfim do que o Ronaldo nos faz a nós. Basta pensar que foram os golos do Drogba que qualificaram os marfinenses, enquanto que nós nos classificámos sem um único golo da nossa maior estrela.
Entretanto, a lesão do melhor marcador do campeonato inglês, a juntar a várias e recentes outras de jogadores já seleccionados para o Mundial (a ultima foi o Pirlo), confirma a ideia que aqui deixei a semana passada: que esta altura, o prolongamento da época, é má para realizar os Mundiais e Europeus. Não apenas pelas lesões, mas pelo cansaço que vai ser evidente em tantas vedetas de que tanto se espera.
4- E por falar em vedetas e em Cristiano Ronaldo, a sua visita às crianças com cancro do IPO, a maneira como as tratou, como falou com elas, foi um momento lindo - dele e da Selecção. Com tanta operação de marketing que a sua equipa de imagem faz à roda dele, tantas dezenas de supostas ou reais namoradas que lhe atribuem ciclicamente, as Paris Hilton e essa treta toda, a imagem do Ronaldo, em minha opinião, não sai favorecida, mas antes pelo contrário: parece a de alguém que, fora dos relvados, só se preocupa com festas, loiras, Ferraris e íates. Mas a sua simples visita ao IPO e a forma como se comportou devolveram-no à condição humana e mostraram outro lado, bem melhor, de um rapaz predestinado e privilegiado. Nem ele sabe o quanto saiu a ganhar com isso!
Ao invés, a inacreditável viagem de promoção publicitária do autocarro da Selecção entre o hotel e o Aeroporto de Lisboa foi um daqueles fretes que não se imaginariam possíveis naquela que, para todos os efeitos, é uma representação nacional. Se querem que a gente sinta a Selecção como um bocado da Pátria, não a ponham a fazer fretes comerciais a favor da Galp ou do Continente! O dinheiro não é tudo, Dr. Madail!
5- Confesso que também não tenho opinião formada (e quem poderá tê-la?) sobre a aposta de altíssimo risco que Pinto da Costa assumiu para novo treinador do Porto. Não é a juventude dele, propriamente, que me preocupa, é antes a falta de experiência de campo e de comando de homens. Em contrapartida, só pode, e já o provou, ter experiência e conhecimento abundante da observação dos adversários e do uso da estatística - dois instrumentos hoje fundamentais na preparação dos jogos. Quanto à idade, não acho que seja necessariamente um factor negativo: o que não faltam por ai é treinadores com 60 anos que não há maneira de aprenderam nada...
A juventude de Villas Boas encaixa até bem na necessidade por todos os portistas sentida de mudar de ciclo. Como já aqui o escrevi (mas os nossos adversários recusam-se a entender), foi isso, e não a ingratidão ou um "castigo", que levou ao final do ciclo Jesualdo Ferreira, um ano antes do previsto. Mas, como também escreveu aqui Vítor Serpa, e eu subscrevo, esta é, de facto, a aposta mais pessoal e mais arriscada de Pinto da Costa. Se ela falhar, a responsabilidade, não primeira, mas sim única, será dele e não de Villas Boas. E isso dá-me esperança que Pinto da Costa, fazendo, como convém aos tempos e à situação financeira do clube, poucas mas criteriosas aquisições, lhe dê, realmente, uma equipa ganhadora. Jogadores, a começar pelo meio-campo ofensivo,que entrem de caras na equipa, em lugar de virem fazer número, ganhar experiência ou rodar noutras paragens. Enfim, que ele dê a Villas Boas armas iguais para se bater com o Benfica, que este ano não tivemos.
Ah, e há mais um factor de optimismo: é que, não sabendo embora o que vale Villas Boas, constatei que o Ricardo Araújo Pereira lhe dedicou uma crónica inteira, cujo objectivo principal era garantir-nos que ele não é o novo Mourinho – isso, como se sabe e garantiram vários benfiquistas, é o Jorge Jesus (a propósito: alguém, por acaso, acreditou naquela noticia de que Pinto da Costa terá tentado contratar Jesus, em Maio passado? Eu cá fartei-me de rir...). Pois bem: se o RAP se dá ao trabalho de dedicar uma crónica inteira ao novo treinador do FC Porto, esquecendo por uma vez a reminiscência das minhas obras completas e as do Rui Moreira, é porque eles estão preocupados com a nossa escolha. E isso é óptimo sinal.