1- Por estranho que pareça, nem o Público nem o Diário de Noticias de ontem referiam o nome do local de estágio onde a Selecção Nacional tinha acabado de chegar na véspera: Magaliesburg. Mas daqui até dia 25, pelo menos, o nome vai-nos entrar nos ouvidos dezenas de vezes ao dia, porque é lá que estarão concentradas também todas as nossas esperanças.
E, antes de mais, um esclarecimento pessoal: num daqueles inquéritos sumaríssimos de que os jornais gostam, o Expresso perguntou-me há dias quem achava eu que iria ser a grande decepção na África do Sul. Respondi com duas palavras apenas: «a própria». Parece-me a mim que a resposta, para qualquer pessoa, só poderia querer dizer a própria selecção sul africana, a anfitriã. E, tendo ainda por cima, a resposta sido dada por escrito, por mail, não consigo entender como é que a minha resposta que apareceu publicada tenha sido «Portugal». Dizem-me tristes experiências anteriores que, anos a fio, eu irei ter de penar por esta coisa que não disse - sobretudo se, como é expectável e desejável, nós não venhamos a ser, obviamente, a grande decepção deste Mundial. Infelizmente, a mentira faz sempre um caminho mais longo e durável do que a verdade que se pretende repor. Ainda hoje, passados quatro anos, eu enfrento um ódio sem fim nos blogues da net por uma suposta frase sobre os professores que nunca disse ou escrevi e a qual já desmenti uma dezena de vezes, em vários lados. Para que conste, então, e apenas para aqueles que se preocupam com esse "pormenor" de distinguir a mentira da verdade: eu não penso isso e não disse isso, sobre a nossa Selecção.
2- Em matéria de expectativas, alias, confesso que não consigo ter nenhumas firmes. Dizia há dias o David Borges que a nossa Selecção é capaz de ganhar a qualquer outra. Bem, eu não direi tanto; acho que só uma vez em dez poderíamos ganhar ao Brasil, à Argentina, à Espanha. Mas é verdade que, num dia de inspiração, podemos ganhar quase a qualquer uma e, uma vez em dez, como disse, também àquelas três.
O problema está em que também acho que, num dia de desispiração, poderemos perder quase com qualquer uma. Aquilo que me causa mais apreensão no nosso jogo é que ele nunca é previsível, nunca sabemos se a Selecção está em dia sim ou em dia não. Falta-lhe uma continuidade exibicional e nao só de jogo para jogo, mas também ao longo de um mesmo jogo. Nunca sabemos se o Cristiano Ronaldo vai soltar o génio ou andar por ali, semi perdido: se o Deco vai abrir linhas de passe que são como riscos do Niemayer (como fez contra a Costa do Marfim), ou se vai parecer um jogador banal, que até os cantos executa mal (como fez contra Cabo Verde). Todos sabemos o que vale a Selecção, jogador por jogador, e ali não há maus Jogadores. O trabalho de Carlos Queiroz, a responsabilidade que é só sua, é justamente pegar neles todos e fazer uma equipa e dar a essa equipa uma identidade e uma continuidade de jogo, que tantas vezes se duvida que exista. Quando a bola começar a rolar a sério, no dia 15, já poderemos tirar uma primeira conclusão e saber se a Covilhã e Magaliesburg foi ou não tempo perdido.
3- A boa e terrível noticia é a lesão de Drogba. Se o «novo produto» de que fala o seu médico, não conseguir o improvável milagre de o pôr apto para nos enfrentar dia 15, pode-se dizer que os deuses começaram connosco este Mundial. E não vale a pena soltar aquelas frases de circunstância de que um jogador não faz a diferença e que, mesmo sem ele, a Costa do Marfim continua a ser uma equipa ameaçadora. Não é verdade e até fica mal disfarça-lo: o Drogba faz muito mais falta à Costa do Marfim do que o Ronaldo nos faz a nós. Basta pensar que foram os golos do Drogba que qualificaram os marfinenses, enquanto que nós nos classificámos sem um único golo da nossa maior estrela.
Entretanto, a lesão do melhor marcador do campeonato inglês, a juntar a várias e recentes outras de jogadores já seleccionados para o Mundial (a ultima foi o Pirlo), confirma a ideia que aqui deixei a semana passada: que esta altura, o prolongamento da época, é má para realizar os Mundiais e Europeus. Não apenas pelas lesões, mas pelo cansaço que vai ser evidente em tantas vedetas de que tanto se espera.
4- E por falar em vedetas e em Cristiano Ronaldo, a sua visita às crianças com cancro do IPO, a maneira como as tratou, como falou com elas, foi um momento lindo - dele e da Selecção. Com tanta operação de marketing que a sua equipa de imagem faz à roda dele, tantas dezenas de supostas ou reais namoradas que lhe atribuem ciclicamente, as Paris Hilton e essa treta toda, a imagem do Ronaldo, em minha opinião, não sai favorecida, mas antes pelo contrário: parece a de alguém que, fora dos relvados, só se preocupa com festas, loiras, Ferraris e íates. Mas a sua simples visita ao IPO e a forma como se comportou devolveram-no à condição humana e mostraram outro lado, bem melhor, de um rapaz predestinado e privilegiado. Nem ele sabe o quanto saiu a ganhar com isso!
Ao invés, a inacreditável viagem de promoção publicitária do autocarro da Selecção entre o hotel e o Aeroporto de Lisboa foi um daqueles fretes que não se imaginariam possíveis naquela que, para todos os efeitos, é uma representação nacional. Se querem que a gente sinta a Selecção como um bocado da Pátria, não a ponham a fazer fretes comerciais a favor da Galp ou do Continente! O dinheiro não é tudo, Dr. Madail!
5- Confesso que também não tenho opinião formada (e quem poderá tê-la?) sobre a aposta de altíssimo risco que Pinto da Costa assumiu para novo treinador do Porto. Não é a juventude dele, propriamente, que me preocupa, é antes a falta de experiência de campo e de comando de homens. Em contrapartida, só pode, e já o provou, ter experiência e conhecimento abundante da observação dos adversários e do uso da estatística - dois instrumentos hoje fundamentais na preparação dos jogos. Quanto à idade, não acho que seja necessariamente um factor negativo: o que não faltam por ai é treinadores com 60 anos que não há maneira de aprenderam nada...
A juventude de Villas Boas encaixa até bem na necessidade por todos os portistas sentida de mudar de ciclo. Como já aqui o escrevi (mas os nossos adversários recusam-se a entender), foi isso, e não a ingratidão ou um "castigo", que levou ao final do ciclo Jesualdo Ferreira, um ano antes do previsto. Mas, como também escreveu aqui Vítor Serpa, e eu subscrevo, esta é, de facto, a aposta mais pessoal e mais arriscada de Pinto da Costa. Se ela falhar, a responsabilidade, não primeira, mas sim única, será dele e não de Villas Boas. E isso dá-me esperança que Pinto da Costa, fazendo, como convém aos tempos e à situação financeira do clube, poucas mas criteriosas aquisições, lhe dê, realmente, uma equipa ganhadora. Jogadores, a começar pelo meio-campo ofensivo,que entrem de caras na equipa, em lugar de virem fazer número, ganhar experiência ou rodar noutras paragens. Enfim, que ele dê a Villas Boas armas iguais para se bater com o Benfica, que este ano não tivemos.
Ah, e há mais um factor de optimismo: é que, não sabendo embora o que vale Villas Boas, constatei que o Ricardo Araújo Pereira lhe dedicou uma crónica inteira, cujo objectivo principal era garantir-nos que ele não é o novo Mourinho – isso, como se sabe e garantiram vários benfiquistas, é o Jorge Jesus (a propósito: alguém, por acaso, acreditou naquela noticia de que Pinto da Costa terá tentado contratar Jesus, em Maio passado? Eu cá fartei-me de rir...). Pois bem: se o RAP se dá ao trabalho de dedicar uma crónica inteira ao novo treinador do FC Porto, esquecendo por uma vez a reminiscência das minhas obras completas e as do Rui Moreira, é porque eles estão preocupados com a nossa escolha. E isso é óptimo sinal.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
sexta-feira, junho 17, 2011
terça-feira, junho 14, 2011
UM POUCO MAIS DE CALMA... (01 JUNHO 2010)
1- Vamos devagar: o resultado do primeiro teste da Selecção contra Cabo Verde foi mau e tristonho, mas é mais do que prematuro começar já a tirar conclusões catastrofistas, como alguns fizeram. É verdade que aquilo que talvez mais tenha deprimido as pessoas foi acharem que estavam a ver mais do mesmo, mais daquilo que tão abundantemente vimos durante a fase de qualificação e os jogos particulares sob a direcção de Carlos Queiroz. Isto é, uma equipa com um futebol triste e desinspirado, sem rasgo ofensivo nem desenvoltura no seu jogo, que às vezes mais parece um aglomerado ad-hoc de jogadores do que uma verdadeira equipa, onde cada um sabe o que tem a fazer e fá-lo. Mas para isso mesmo é que servem os jogos de preparação, para isso é que serve este longo estágio de um mês, antes da entrada em cena: esperemos que já hoje, contra os Camarões, se possa ver resultados palpáveis destes dias de trabalho na Covilhã.
Vamos, pois, com calma. Mas com calma deve ir também o seleccionador, que não pode e não deve, ao escutar as primeiras e tímidas criticas, desatar logo a espingardear contra a «desonestidade intelectual» dos críticos. Eu não fiz parte do imenso coro que pediu a Madail a nomeação de Carlos Queiroz: por escolha minha, não seria ele o seleccionador. Mas, uma vez escolhido, é tocar em frente, desejar-lhe toda a sorte do mundo e confiar que estará ao nível da tarefa (o que, para mim, não significa quimeras como ganhar o Mundial ou chegar à final, mas conquistas mais ao nosso alcance: os oitavos-de-final, certamente, os quartos-de-final, desejavelmente). Mas se Queiroz foi escolhido e com o principesco salário anual de 1.350.000 euros (é notável como, em relação aos escandalosos salários do futebol, já não há indignação popular e ninguém se lembra de reclamar para eles cortes ou contenção...), é porque se entendeu que ele é super-qualificado para a função. Se o seleccionador de Portugal, apesar de ganhar menos do que o seu antecessor, o «patriota» luso Scolari, é, mesmo assim, o sétimo seleccionador mais bem pago dos 32 que vão estar no Mundial (ganhando, por exemplo, 60% mais do que Dunga, à frente da selecção do Brasil, ou Maradona, à frente da Argentina, mais do dobro de Domenech, comandando a França, ou cinco vezes mais do que Bob Bradley, à frente dos Estados Unidos), ele não pode, obviamente, indignar-se porque os críticos da exibição contra Cabo Verde, em sua opinião, ignoram como se desenvolve a preparação de uma equipa para o Mundial. Claro que ignoram: se não ignorassem, onde estaria a superioridade técnica de Queiroz que justificasse um vencimento de 110.000 euros por mês, mais prémios? E o que ele não pode também ignorar é que nem um só dos seus 31 colegas do Mundial escaparia às críticas locais, se empatasse a zero, em casa, contra uma selecção tão modesta como a de Cabo Verde.
Portanto, nem os adeptos devem esperar o impossível e o óptimo logo ao virar da esquina, nem o seleccionador se deve colocar num pedestal onde toda a critica seja vista como um acto de desonestidade ou pior ainda.
2- Sempre achei que se devia ponderar a altura em que se disputam Mundiais e Europeus. E que, ponderando, talvez se chegasse à conclusão de que seria melhor fazê-los disputar pouco depois do início da época — lá para Setembro, Outubro — do que no final da época, como acontece. No final da «nossa» época, há muitos jogadores que chegam lesionados ou nem sequer comparecem por isso mesmo; alguns dos melhores chegam desmotivados porque já tiveram, ao longo da época e ao serviço dos seus clubes, êxitos que lhes bastem para um ano só; e quase todos chegam cansados, depois de uma temporada inteira, com 30,40,50 ou mais jogos nas pernas. Poder--se-ia argumentar que essa alteração ainda podia servir para o Europeu, com todas as selecções situadas no mesmo hemisfério norte— logo, na mesma altura competitiva da época —, mas não para um Mundial, reunindo selecções de todos os continentes e ambos os hemisférios. Mas isso, hoje, já não é tão verdade, pois a grande maioria dos jogadores que estão num Mundial, sejam mesmo sul-americanos, africanos ou dos antípodas, jogam em clubes europeus e estão feitos ao calendário europeu.
A actual programação do Europeu e do Mundial tem como consequência, e pelas razões que atrás enumerei, que muito raramente vemos jogos ao nível dos melhores jogos de clubes que vemos na Europa, ao longo da época. Esses factores alteram a lógica previsível das coisas e, por isso mesmo, muitas vezes não são as selecções com melhores jogadores e melhores equipas no papel que se vão destacar mais, mas sim aquelas que conseguem contornar melhor esses factores de perturbação e que têm treinadores mais inteligentes para lidar com isso.
3- Catorze membros da claque benfiquista mais conhecida foram condenados a penas de prisão efectiva pelo Tribunal Criminal de Lisboa, e por um rol de crimes de violência muito sérios. Eu, por exemplo, não sabia e fiquei a saber por uma fotografia do Correio da Manhã, que aquela claque tinha incendiado por completo um autocarro do FC Porto. E fiquei a saber que, apesar do comunicado da Direcção do Benfica, demarcando-se dos condenados, ficou provado em tribunal que era na célebre «casinha» cedida pela Direcção à claque, no Estádio da Luz, que eles guardavam o material com o qual levavam a cabo as suas actividades, seguramente não reveladoras da tal postura de despor-tivismo sempre apregoada por aquelas bandas.
Também na semana passada, ficámos a saber que a PJ identificou indivíduos de várias partes do País, que passaram a época que terminou a ameaçar de morte árbitros e seus familiares. E que todos são adeptos do Benfica.
E escrevo isto, não porque eu ache que o Benfica, ou qualquer clube, seja responsável pela violência e clima de intimidação e terror nos estádios, levado a cabo por alguns elementos de algumas claques. É claro que há clubes que fazem mais para o evitar do que outros, alguns são mais complacentes do que outros. Mas, em rigor, não se pode dizer que sejam as direcções a consentir ou instigar o comportamento das claques. No que todos serão responsáveis é em terem consentido um esquema instalado em que parece que, sem claques organizadas, não há animação nos estádios nem apoio às equipas. E, então, fecha-se os olhos a muitas coisas, em troca desse apoio.
Mas escrevo isto para que se anote bem a diferença de tratamento que a imprensa dedica à claque do Benfica e à do FC Porto. O Benfica foi jogar ao Porto e o autocarro foi apedrejado? Foi, sim senhor. Mas (A Bola até foi excepção) esqueceram-se de referir que o do FC Porto também foi apedrejado no Porto e, seguramente, não por portistas, e que já antes o havia sido a caminho de um jogo da Taça no Estoril, ao passar debaixo de um viaduto da A-5 (o mesmo acontecendo ao carro particular onde viajava o presidente do FC Porto, atingido à pedrada, com o pára-brisas estilhaçado, em plena auto-estrada, fruto de uma emboscada devidamente planeada). Fizeram um charivari com os «violentos incidentes» protagonizados pela claque do FC Porto, no Algarve, aquando da final da Taça da Liga — mas esqueceram-se de dizer que tais incidentes (que até o presidente do Benfica desvalorizou) consistiram apenas em que, quando os autocarros pararam e encostaram na portagem da A-2, após 6oo quilómetros fechados lá dentro, alguns elementos da claque resolveram sair e foram corridos àbastonada de volta aos autocarros. Há vinte anos que nos vendem a «verdade» do clima de intimidação que se viverá em todos os Porto-Benfica lá em cima, e lá vem a recordação de Jorge de Brito a entrar no estádio das Antas, escondido no banco de trás deum carro e do cheiro a lixívia que haveria na cabine do Benfica. Pois bem: digam-me lá quando foram os últimos e «graves incidentes» ocorridos no Porto e com a comitiva ou dirigentes do Benfica — seja no estádio, no túnel ou no hotel? E fizeram um escândalo porque, cumprindo uma tradição anual, os deputados do FC Porto jantaram no Parlamento com a Direcção do clube. Disseram que o Parlamento estava a «branquear crimes», mas os únicos crimes, julgados pelos únicos tribunais habilitados para tal, e que levaram gente à prisão, por causa de very-lights, fogo posto, violência organizada, etc, por acaso só sucederam com adeptos do Benfica. Um pouco mais de pudor não lhes faria mal algum.
E, já agora, podiam lembrar-se que o mesmo José Mourinho, que hoje veneram, é aquele que levou o FC Porto à conquista de um campeonato, uma Taça de Portugal e uma Champions, no ano em que, segundo eles, o FC Porto só ganhou porque um árbitro foi tomar um «cafezinho» a casa de Pinto da Costa, antes de um jogo a feijões. É uma chatice quando a realidade não bate certo com a «verdade»...
Vamos, pois, com calma. Mas com calma deve ir também o seleccionador, que não pode e não deve, ao escutar as primeiras e tímidas criticas, desatar logo a espingardear contra a «desonestidade intelectual» dos críticos. Eu não fiz parte do imenso coro que pediu a Madail a nomeação de Carlos Queiroz: por escolha minha, não seria ele o seleccionador. Mas, uma vez escolhido, é tocar em frente, desejar-lhe toda a sorte do mundo e confiar que estará ao nível da tarefa (o que, para mim, não significa quimeras como ganhar o Mundial ou chegar à final, mas conquistas mais ao nosso alcance: os oitavos-de-final, certamente, os quartos-de-final, desejavelmente). Mas se Queiroz foi escolhido e com o principesco salário anual de 1.350.000 euros (é notável como, em relação aos escandalosos salários do futebol, já não há indignação popular e ninguém se lembra de reclamar para eles cortes ou contenção...), é porque se entendeu que ele é super-qualificado para a função. Se o seleccionador de Portugal, apesar de ganhar menos do que o seu antecessor, o «patriota» luso Scolari, é, mesmo assim, o sétimo seleccionador mais bem pago dos 32 que vão estar no Mundial (ganhando, por exemplo, 60% mais do que Dunga, à frente da selecção do Brasil, ou Maradona, à frente da Argentina, mais do dobro de Domenech, comandando a França, ou cinco vezes mais do que Bob Bradley, à frente dos Estados Unidos), ele não pode, obviamente, indignar-se porque os críticos da exibição contra Cabo Verde, em sua opinião, ignoram como se desenvolve a preparação de uma equipa para o Mundial. Claro que ignoram: se não ignorassem, onde estaria a superioridade técnica de Queiroz que justificasse um vencimento de 110.000 euros por mês, mais prémios? E o que ele não pode também ignorar é que nem um só dos seus 31 colegas do Mundial escaparia às críticas locais, se empatasse a zero, em casa, contra uma selecção tão modesta como a de Cabo Verde.
Portanto, nem os adeptos devem esperar o impossível e o óptimo logo ao virar da esquina, nem o seleccionador se deve colocar num pedestal onde toda a critica seja vista como um acto de desonestidade ou pior ainda.
2- Sempre achei que se devia ponderar a altura em que se disputam Mundiais e Europeus. E que, ponderando, talvez se chegasse à conclusão de que seria melhor fazê-los disputar pouco depois do início da época — lá para Setembro, Outubro — do que no final da época, como acontece. No final da «nossa» época, há muitos jogadores que chegam lesionados ou nem sequer comparecem por isso mesmo; alguns dos melhores chegam desmotivados porque já tiveram, ao longo da época e ao serviço dos seus clubes, êxitos que lhes bastem para um ano só; e quase todos chegam cansados, depois de uma temporada inteira, com 30,40,50 ou mais jogos nas pernas. Poder--se-ia argumentar que essa alteração ainda podia servir para o Europeu, com todas as selecções situadas no mesmo hemisfério norte— logo, na mesma altura competitiva da época —, mas não para um Mundial, reunindo selecções de todos os continentes e ambos os hemisférios. Mas isso, hoje, já não é tão verdade, pois a grande maioria dos jogadores que estão num Mundial, sejam mesmo sul-americanos, africanos ou dos antípodas, jogam em clubes europeus e estão feitos ao calendário europeu.
A actual programação do Europeu e do Mundial tem como consequência, e pelas razões que atrás enumerei, que muito raramente vemos jogos ao nível dos melhores jogos de clubes que vemos na Europa, ao longo da época. Esses factores alteram a lógica previsível das coisas e, por isso mesmo, muitas vezes não são as selecções com melhores jogadores e melhores equipas no papel que se vão destacar mais, mas sim aquelas que conseguem contornar melhor esses factores de perturbação e que têm treinadores mais inteligentes para lidar com isso.
3- Catorze membros da claque benfiquista mais conhecida foram condenados a penas de prisão efectiva pelo Tribunal Criminal de Lisboa, e por um rol de crimes de violência muito sérios. Eu, por exemplo, não sabia e fiquei a saber por uma fotografia do Correio da Manhã, que aquela claque tinha incendiado por completo um autocarro do FC Porto. E fiquei a saber que, apesar do comunicado da Direcção do Benfica, demarcando-se dos condenados, ficou provado em tribunal que era na célebre «casinha» cedida pela Direcção à claque, no Estádio da Luz, que eles guardavam o material com o qual levavam a cabo as suas actividades, seguramente não reveladoras da tal postura de despor-tivismo sempre apregoada por aquelas bandas.
Também na semana passada, ficámos a saber que a PJ identificou indivíduos de várias partes do País, que passaram a época que terminou a ameaçar de morte árbitros e seus familiares. E que todos são adeptos do Benfica.
E escrevo isto, não porque eu ache que o Benfica, ou qualquer clube, seja responsável pela violência e clima de intimidação e terror nos estádios, levado a cabo por alguns elementos de algumas claques. É claro que há clubes que fazem mais para o evitar do que outros, alguns são mais complacentes do que outros. Mas, em rigor, não se pode dizer que sejam as direcções a consentir ou instigar o comportamento das claques. No que todos serão responsáveis é em terem consentido um esquema instalado em que parece que, sem claques organizadas, não há animação nos estádios nem apoio às equipas. E, então, fecha-se os olhos a muitas coisas, em troca desse apoio.
Mas escrevo isto para que se anote bem a diferença de tratamento que a imprensa dedica à claque do Benfica e à do FC Porto. O Benfica foi jogar ao Porto e o autocarro foi apedrejado? Foi, sim senhor. Mas (A Bola até foi excepção) esqueceram-se de referir que o do FC Porto também foi apedrejado no Porto e, seguramente, não por portistas, e que já antes o havia sido a caminho de um jogo da Taça no Estoril, ao passar debaixo de um viaduto da A-5 (o mesmo acontecendo ao carro particular onde viajava o presidente do FC Porto, atingido à pedrada, com o pára-brisas estilhaçado, em plena auto-estrada, fruto de uma emboscada devidamente planeada). Fizeram um charivari com os «violentos incidentes» protagonizados pela claque do FC Porto, no Algarve, aquando da final da Taça da Liga — mas esqueceram-se de dizer que tais incidentes (que até o presidente do Benfica desvalorizou) consistiram apenas em que, quando os autocarros pararam e encostaram na portagem da A-2, após 6oo quilómetros fechados lá dentro, alguns elementos da claque resolveram sair e foram corridos àbastonada de volta aos autocarros. Há vinte anos que nos vendem a «verdade» do clima de intimidação que se viverá em todos os Porto-Benfica lá em cima, e lá vem a recordação de Jorge de Brito a entrar no estádio das Antas, escondido no banco de trás deum carro e do cheiro a lixívia que haveria na cabine do Benfica. Pois bem: digam-me lá quando foram os últimos e «graves incidentes» ocorridos no Porto e com a comitiva ou dirigentes do Benfica — seja no estádio, no túnel ou no hotel? E fizeram um escândalo porque, cumprindo uma tradição anual, os deputados do FC Porto jantaram no Parlamento com a Direcção do clube. Disseram que o Parlamento estava a «branquear crimes», mas os únicos crimes, julgados pelos únicos tribunais habilitados para tal, e que levaram gente à prisão, por causa de very-lights, fogo posto, violência organizada, etc, por acaso só sucederam com adeptos do Benfica. Um pouco mais de pudor não lhes faria mal algum.
E, já agora, podiam lembrar-se que o mesmo José Mourinho, que hoje veneram, é aquele que levou o FC Porto à conquista de um campeonato, uma Taça de Portugal e uma Champions, no ano em que, segundo eles, o FC Porto só ganhou porque um árbitro foi tomar um «cafezinho» a casa de Pinto da Costa, antes de um jogo a feijões. É uma chatice quando a realidade não bate certo com a «verdade»...
segunda-feira, junho 13, 2011
A MINHA ESCOLHA (25 MAIO 2010)
1- Vai demorada a discussão sobre quem será o próximo treinador do F.C.Porto. Com Pinto da Costa de férias, ninguém mais está autorizado, ou é fonte autorizada, para desvendar a ponta do véu. E pode ser até que, quando este texto sair, já haja treinador no Dragão. Ao certo, porém, a única coisa que parece possível de ter como certo é que Jesualdo Ferreira não continua — ou continuará, mas noutras funções. E, pelo que tenho ouvido aos portistas com quem falo do assunto, a saída de Jesualdo está longe de ser consensual, muito embora seja comum a sensação de que ele cumpriu o seu ciclo. Isso, e não o facto de ter perdido este campeonato, é que determinarão o final de uma ligação de quatro anos — ao contrário do que muitos concluem apressadamente. Dos nomes mais falados, Paulo Bento é o que menos convence. André Villas Boas tem defensores, que o vêem como uma possível reencarnação de José Mourinho. Laszlo Boloni não diz nada a ninguém e Co Adriaanse só pode ser uma ideia de mau gosto.
Como aqui salientei ao longo destes anos, Jesualdo revelou muitos méritos, uma grande capacidade de encaixe dos desvarios da própria SAD do clube e, o que não é despiciendo, foi sempre um senhor, dentro e fora do campo. O que mais critico e critiquei nele foi o seu imenso conservadorismo nas escolhas do seu lote de jogadores. Pior ainda, quando essas escolhas envolviam jogadores a que eu, pessoalmente, não vejo qualquer utilidade, actual ou futura — casos de Helton, Mariano, Guarín, Valeri. Em contrapartida, para quem está fora do lote restrito dos eleitos, parece só restar uma eterna travessia do deserto ou o empréstimo a outras cores. Foi assim que jovens como Beto, Nuno André Coelho, Hélder Barbosa, Sérgio Oliveira, Rabiola ou Candeias não dispuseram de oportunidades sérias de evoluir e integrar o grupo de 18 convocados habituais. E, quanto a jovens vindos dos juniores ou do célebre «Projecto 611», zero absoluto. Bem podem bater à porta ou até tentar arrombá-la: com Jesualdo Ferreira só entra quem já está dentro.
E agora que tudo pode ser baralhado e voltado a dar, agora que vem aí a inefável «saison argentina» e a inescapável venda de alguns dos melhores activos para sustentar o exército dos que ninguém quer, vou dedicar-me a classificar a época acabada de fazer por cada um dos que integraram o plantel de 2009/10, terminando o campeonato em 3.º lugar. E com notas de zero a dez. Ora, aí vai:
HELTON (2) - Julgo e espero que tenha assinado a sua definitiva desconvocatória como titular no último jogo da época, a final da Taça, onde mostrou exuberantemente tudo o que torna insustentável o seu posto de n.º 1 — insegurança, nervosismo e desconcentração entre os postes, total incompetência no jogo aéreo e uma irritante espécie de desleixo, mais parecendo às vezes que está a brincar.
NUNO (2) - Em todas as competições, só fez cinco jogos e apenas se deu por ele em duas ocasiões: quando foi porta-voz da revolta dos jogadores para com a Comissão Disciplinar da Liga e quando Jesualdo lhe deu a baliza da final da Taça da Liga e ele começou por responder com um monumental frango ao primeiro e inofensivo remate do Benfica e depois ainda colaborou em mais dois golos.
BETO (7) - Não fosse a lesão de Helton e ainda estaria à espera que Jesualdo lhe desse uma oportunidade... para mostrar que é infinitamente melhor e transmite incomparavelmente mais segurança à defesa do que Helton. Vá lá, que ainda foi a tempo de uma justíssima convocatória para o Mundial. O céu pode esperar, a baliza do F.C.Porto já não.
SAPUNARU (4) - Estava a prometer uma época melhor, quando atravessou o túnel da Luz e Ricardo Costa o devolveu à Roménia.
FUCILE (5) - Pior do que no ano passado, mas ainda um valor seguro, com intermitências. O pior, claro, foi o desastre do Estádio Emirates, onde conseguiu oferecer quatro golos num só jogo. Acabaria por ser um dos raríssimos a quem Jesualdo pôs de castigo por causa de uma má exibição.
MIGUEL LOPES (5) - Agarrou a oportunidade e provou bem. Bom a defender, mas pior a atacar do que Fucile.
ÁLVARO PEREIRA (8) - Ele e o também recém-chegado Falcao foram as revelações da época. Esteve em praticamente todos os jogos e foi o jogador mais utilizado do plantel (46 jogos). Sempre com uma pedalada, um pulmão e um coração imensos. Foi o segundo jogador da equipe com mais assistências para golo e o melhor do campeonato, na sua posição.
BRUNO ALVES (7) - Dois terços da época em grande estilo, com alguns golos e exibições notáveis. Depois, no último terço e como vem sendo habitual, o pai encarregou-se de o destabilizar e isso foi bem patente na final da Taça. Tem de resolver, de uma vez por todas, se quer sair ou ficar e, querendo sair, se tem quem pague o que o clube tem o direito de exigir.
ROLANDO (4) - Uma época claramente abaixo da anterior, às vezes mesmo desastrosa. Como se dá pouco por ele, muitas vezes escapam à vista os seus erros graves de marcação. Mas eles estão lá e resta saber como se desenvencilhará sem Bruno ao lado.
NUNO ANDRÉ COELHO (5) - Ando há um ano a escrever que ele tem tudo para ser o central do futuro no F.C.Porto. Pode ser que me engane, mas sem oportunidades nenhumas, nunca o saberemos.
MAICON (4) - Jesualdo preferiu apostar nele (utilizou-o mais do dobro das vezes do que Nuno André Coelho), mas não demonstrou porquê a preferência.
FERNANDO (3) - Mais ainda do que Rolando, fez uma época gritantemente pior do que a anterior. Desapareceram os seus cortes científicos, no limite — substituídos por constantes faltas, muitas da quais em zonas proibidas. E não melhorou nada o seu pior defeito — a falta de qualidade do passe e a incapacidade de sair a jogar para a frente, empurrando o jogo.
TOMÁS COSTA (4) - Tem boa vontade, mas isso não chega.
VALERI (0) - Um erro de casting. Parece que ainda ponderam mais uma época de empréstimo...
BELLUSCHI (4) - Tem bons pés e boa leitura de jogo. Mas também falta de força, de combatividade e excesso de tiques de vedeta — para o que lhe faltam bastantes mais e melhores provas.
FREDDY GUARÍN (3) - É, a par de Mariano, um dos queridos da critica (decerto benfiquista...). Lá porque tem um remate forte e marcou uns golos no final da época, não passou a disfarçar o indisfarçável: má qualidade de passe, ausência total de visão de jogo, dificuldades técnicas patentes e tacticamente perdido no jogo, seja qual for a posição que lhe distribuam.
PREDIGER (0) - O nome não prenunciava nada de bom e ele encarregou-se de o confirmar. Tem mais cinco anos de contrato (quem terá sido a luminária que o contratou?). É por estas e muitas outras que todos os anos é preciso vender os melhores.
RÚBEN MICAEL (4) - Muito desejado (por mim, inclusive), entrou na equipa como um furacão e foi perdendo gás aos poucos, até se lesionar. É um mistério saber como regressará.
RAUL MEIRELES (5) - Foi outro que assinou uma época bem mais fraca do que a anterior. A sair, esta é a altura certa. Mas este sector — o dos médios criativos, ofensivos — é onde a equipa já está mais débil.
CRISTIÁN RODRÍQUEZ (3) - Uma época para esquecer, entre lesões, cansaço e baixas de forma. Longe ainda de provar a valia da sua contratação e aquele que dizem ser um dos mais elevados salários da equipa.
MARIANO GONZÁLEZ (3) - Bem, já sabem o que eu penso... Foi, apesar de tudo, melhor do que no ano passado, beneficiou do castigo de Hulk e depois também teve o azar de uma lesão grave (a terceira lesão grave de um jogador nos treinos, esta época!).
HULK (6) - Também não atingiu o brilho do ano passado nem corrigiu os seus maiores defeitos. Apesar de tudo, e desmentindo as palavras de Luís Filipe Viera, que sugeriu que ele não fazia falta à equipa, quando regressou, o F.C. Porto venceu todos os nove jogos disputados até final da época. E, mesmo com três meses de castigo, ainda foi o jogador azul-e-branco com mais assistências para golo e o quarto do campeonato. Para o ano, fica só um apelo: deixem jogar o Hulk!
SILVESTRE VARELA (8) - Começou logo por se transformar numa das revelações da equipa, até se lesionar e falhar meia dúzia de jogos. Voltou e de novo em grande forma, sucumbindo a nova lesão no aquecimento para o jogo com o Benfica da final da Taça da Liga. Terá perdido um lugar no Mundial e fez tremenda falta à equipa.
FALCAO (8) - Foi a grande revelação do ano e o melhor marcador do campeonato, embora roubado do respectivo título. Um grande jogador de área, completo, inteligente. E um senhor dentro do campo.
FARÍAS (4) - O inútil mais útil do plantel.
ORLANDO SÁ (3) - Mais um a quem as lesões roubaram a época. No pouco que sobrou, pouco aproveitou para mostrar dotes à altura do lugar.
SÉRGIO OLIVEIRA, YERO, ADDY, ALEX, DIAS - Alguém os viu?
2- Grande, grandíssimo, José Mourinho. Esta vitória em Madrid, sim, foi Mourinho no seu melhor: tudo estudado, tudo previsto, em nenhum momento deu a sensação de que o Inter deixaria fugir a oportunidade por que esperava há 46 anos. É verdade que a inspiração de Milito resolveu o assunto, mas mesmo isso Mourinho parecia ter previsto. E o «triplete» em Itália fez dele, certamente, uma lenda eterna para lá dos Alpes.
Como aqui salientei ao longo destes anos, Jesualdo revelou muitos méritos, uma grande capacidade de encaixe dos desvarios da própria SAD do clube e, o que não é despiciendo, foi sempre um senhor, dentro e fora do campo. O que mais critico e critiquei nele foi o seu imenso conservadorismo nas escolhas do seu lote de jogadores. Pior ainda, quando essas escolhas envolviam jogadores a que eu, pessoalmente, não vejo qualquer utilidade, actual ou futura — casos de Helton, Mariano, Guarín, Valeri. Em contrapartida, para quem está fora do lote restrito dos eleitos, parece só restar uma eterna travessia do deserto ou o empréstimo a outras cores. Foi assim que jovens como Beto, Nuno André Coelho, Hélder Barbosa, Sérgio Oliveira, Rabiola ou Candeias não dispuseram de oportunidades sérias de evoluir e integrar o grupo de 18 convocados habituais. E, quanto a jovens vindos dos juniores ou do célebre «Projecto 611», zero absoluto. Bem podem bater à porta ou até tentar arrombá-la: com Jesualdo Ferreira só entra quem já está dentro.
E agora que tudo pode ser baralhado e voltado a dar, agora que vem aí a inefável «saison argentina» e a inescapável venda de alguns dos melhores activos para sustentar o exército dos que ninguém quer, vou dedicar-me a classificar a época acabada de fazer por cada um dos que integraram o plantel de 2009/10, terminando o campeonato em 3.º lugar. E com notas de zero a dez. Ora, aí vai:
HELTON (2) - Julgo e espero que tenha assinado a sua definitiva desconvocatória como titular no último jogo da época, a final da Taça, onde mostrou exuberantemente tudo o que torna insustentável o seu posto de n.º 1 — insegurança, nervosismo e desconcentração entre os postes, total incompetência no jogo aéreo e uma irritante espécie de desleixo, mais parecendo às vezes que está a brincar.
NUNO (2) - Em todas as competições, só fez cinco jogos e apenas se deu por ele em duas ocasiões: quando foi porta-voz da revolta dos jogadores para com a Comissão Disciplinar da Liga e quando Jesualdo lhe deu a baliza da final da Taça da Liga e ele começou por responder com um monumental frango ao primeiro e inofensivo remate do Benfica e depois ainda colaborou em mais dois golos.
BETO (7) - Não fosse a lesão de Helton e ainda estaria à espera que Jesualdo lhe desse uma oportunidade... para mostrar que é infinitamente melhor e transmite incomparavelmente mais segurança à defesa do que Helton. Vá lá, que ainda foi a tempo de uma justíssima convocatória para o Mundial. O céu pode esperar, a baliza do F.C.Porto já não.
SAPUNARU (4) - Estava a prometer uma época melhor, quando atravessou o túnel da Luz e Ricardo Costa o devolveu à Roménia.
FUCILE (5) - Pior do que no ano passado, mas ainda um valor seguro, com intermitências. O pior, claro, foi o desastre do Estádio Emirates, onde conseguiu oferecer quatro golos num só jogo. Acabaria por ser um dos raríssimos a quem Jesualdo pôs de castigo por causa de uma má exibição.
MIGUEL LOPES (5) - Agarrou a oportunidade e provou bem. Bom a defender, mas pior a atacar do que Fucile.
ÁLVARO PEREIRA (8) - Ele e o também recém-chegado Falcao foram as revelações da época. Esteve em praticamente todos os jogos e foi o jogador mais utilizado do plantel (46 jogos). Sempre com uma pedalada, um pulmão e um coração imensos. Foi o segundo jogador da equipe com mais assistências para golo e o melhor do campeonato, na sua posição.
BRUNO ALVES (7) - Dois terços da época em grande estilo, com alguns golos e exibições notáveis. Depois, no último terço e como vem sendo habitual, o pai encarregou-se de o destabilizar e isso foi bem patente na final da Taça. Tem de resolver, de uma vez por todas, se quer sair ou ficar e, querendo sair, se tem quem pague o que o clube tem o direito de exigir.
ROLANDO (4) - Uma época claramente abaixo da anterior, às vezes mesmo desastrosa. Como se dá pouco por ele, muitas vezes escapam à vista os seus erros graves de marcação. Mas eles estão lá e resta saber como se desenvencilhará sem Bruno ao lado.
NUNO ANDRÉ COELHO (5) - Ando há um ano a escrever que ele tem tudo para ser o central do futuro no F.C.Porto. Pode ser que me engane, mas sem oportunidades nenhumas, nunca o saberemos.
MAICON (4) - Jesualdo preferiu apostar nele (utilizou-o mais do dobro das vezes do que Nuno André Coelho), mas não demonstrou porquê a preferência.
FERNANDO (3) - Mais ainda do que Rolando, fez uma época gritantemente pior do que a anterior. Desapareceram os seus cortes científicos, no limite — substituídos por constantes faltas, muitas da quais em zonas proibidas. E não melhorou nada o seu pior defeito — a falta de qualidade do passe e a incapacidade de sair a jogar para a frente, empurrando o jogo.
TOMÁS COSTA (4) - Tem boa vontade, mas isso não chega.
VALERI (0) - Um erro de casting. Parece que ainda ponderam mais uma época de empréstimo...
BELLUSCHI (4) - Tem bons pés e boa leitura de jogo. Mas também falta de força, de combatividade e excesso de tiques de vedeta — para o que lhe faltam bastantes mais e melhores provas.
FREDDY GUARÍN (3) - É, a par de Mariano, um dos queridos da critica (decerto benfiquista...). Lá porque tem um remate forte e marcou uns golos no final da época, não passou a disfarçar o indisfarçável: má qualidade de passe, ausência total de visão de jogo, dificuldades técnicas patentes e tacticamente perdido no jogo, seja qual for a posição que lhe distribuam.
PREDIGER (0) - O nome não prenunciava nada de bom e ele encarregou-se de o confirmar. Tem mais cinco anos de contrato (quem terá sido a luminária que o contratou?). É por estas e muitas outras que todos os anos é preciso vender os melhores.
RÚBEN MICAEL (4) - Muito desejado (por mim, inclusive), entrou na equipa como um furacão e foi perdendo gás aos poucos, até se lesionar. É um mistério saber como regressará.
RAUL MEIRELES (5) - Foi outro que assinou uma época bem mais fraca do que a anterior. A sair, esta é a altura certa. Mas este sector — o dos médios criativos, ofensivos — é onde a equipa já está mais débil.
CRISTIÁN RODRÍQUEZ (3) - Uma época para esquecer, entre lesões, cansaço e baixas de forma. Longe ainda de provar a valia da sua contratação e aquele que dizem ser um dos mais elevados salários da equipa.
MARIANO GONZÁLEZ (3) - Bem, já sabem o que eu penso... Foi, apesar de tudo, melhor do que no ano passado, beneficiou do castigo de Hulk e depois também teve o azar de uma lesão grave (a terceira lesão grave de um jogador nos treinos, esta época!).
HULK (6) - Também não atingiu o brilho do ano passado nem corrigiu os seus maiores defeitos. Apesar de tudo, e desmentindo as palavras de Luís Filipe Viera, que sugeriu que ele não fazia falta à equipa, quando regressou, o F.C. Porto venceu todos os nove jogos disputados até final da época. E, mesmo com três meses de castigo, ainda foi o jogador azul-e-branco com mais assistências para golo e o quarto do campeonato. Para o ano, fica só um apelo: deixem jogar o Hulk!
SILVESTRE VARELA (8) - Começou logo por se transformar numa das revelações da equipa, até se lesionar e falhar meia dúzia de jogos. Voltou e de novo em grande forma, sucumbindo a nova lesão no aquecimento para o jogo com o Benfica da final da Taça da Liga. Terá perdido um lugar no Mundial e fez tremenda falta à equipa.
FALCAO (8) - Foi a grande revelação do ano e o melhor marcador do campeonato, embora roubado do respectivo título. Um grande jogador de área, completo, inteligente. E um senhor dentro do campo.
FARÍAS (4) - O inútil mais útil do plantel.
ORLANDO SÁ (3) - Mais um a quem as lesões roubaram a época. No pouco que sobrou, pouco aproveitou para mostrar dotes à altura do lugar.
SÉRGIO OLIVEIRA, YERO, ADDY, ALEX, DIAS - Alguém os viu?
2- Grande, grandíssimo, José Mourinho. Esta vitória em Madrid, sim, foi Mourinho no seu melhor: tudo estudado, tudo previsto, em nenhum momento deu a sensação de que o Inter deixaria fugir a oportunidade por que esperava há 46 anos. É verdade que a inspiração de Milito resolveu o assunto, mas mesmo isso Mourinho parecia ter previsto. E o «triplete» em Itália fez dele, certamente, uma lenda eterna para lá dos Alpes.
sábado, junho 11, 2011
UMA TARDE MAL PASSADA (18 MAIO 2010)
1- Não vale a pena reabrir a discussão sobre o local da final da Taça, mas, já que tanto se quer manter o Jamor como palco tradicional e mais digno para a final, o mínimo exigível é que o relvado esteja em condições para um bom jogo — o que não foi o caso desta final, jogada num tapete ondulado.
No final do jogo e muito mal disposto (só podia...), Jesualdo Ferreira queixou-se da imprensa desportiva, que não deu ao jogo a importância que ele tinha. É verdade que não, mas também não sei de que estaria ele à espera: como é que uma final sem clubes de Lisboa, entre o Porto e o Chaves, poderia interessar à imprensa desportiva da capital, ainda a viver em plenos festejos do título do Benfica? É óbvio que a excursão a Timor do presidente do Benfica tinha muito mais importância do que o encerramento da época no Jamor — sem Benfica. Convém recordar a Jesualdo que, na véspera do F.C. Porto conquistar em Geselkirchen o segundo título europeu da sua história, a primeira página da nossa imprensa desportiva era a notícia de que o Benfica (então em 4º lugar), iria mudar de treinador no ano seguinte!
O problema, porém, é que, depois de assistir à exibição da equipe do F.C. Porto no Jamor, é caso para dizer que Jesualdo deveria ter começado por lamentar e se indignar com os seus jogadores pela falta de respeito que eles mostraram para com a final, com o adversário e com o público. Vi adeptos portistas regressados do Jamor envergonhados como se tivessem sido vencidos e sem vontade alguma para comemorar a 15.ª Taça de Portugal levada para casa. De facto, a equipa parece ter feito questão de se despedir da época e dos adeptos com uma demonstração de sobranceria, indiferença e falta de profissionalismo que, não sendo costume nela, mais me chocou. Começou tudo em Helton, esforçando-se por oferecer três golos apenas na primeira parte, o primeiro deles numa daquelas atitudes de displicência que o caracterizam e que tanto irritam os adeptos (espero que, se Jesualdo continuar, tenha finalmente percebido que não há mais lugar para o Helton na baliza). Depois, foi Hulk, esbanjando três golos também nos primeiros 45 minutos, acompanhado em mais uma ocasião por Falcao. E um jogo que podia ter acabado com 5-0 ao intervalo, acabou num 2-1 tangencial, depois de Bruno Alves resolver também despedir-se do jogo, da época e talvez do clube, oferecendo um golo e fazendo-se expulsar, minutos antes de ter de subir à tribuna para, enquanto capitão da equipa, receber a Taça das mãos do Presidente da República. Foi lastimável. Mau de mais para ser ultrapassado com a vitória. E é pena, porque agora o futebol de clubes vai de férias e, como é sabido, as últimas imagens são as que mais ficam.
2- Seguramente que terá sido com as melhores intenções, mas, realmente, não deu para entender o que terá levado a direcção do Benfica a emitir um comunicado desejando que a final da Taça não tivesse incidentes fora das quatro linhas. Que tinham eles a ver com isso — será que já ocuparam o Ministério da Administração Interna e a gente não sabe? Não vi comunicados do Sporting, do Belenenses, do Paços de Ferreira...
3- E, por falar em direcção do Benfica: a gente respeitável que lá está deveria olhar de frente e tomar uma atitude em relação à BenficaTV. Tão longamente esperado, planeado e anunciado, certamente que o que se quis com o canal não é aquilo que existe: uma tribuna de incitamento ao insulto, ao ódio, à violência, mesmo. Não vale a pena andar a fazer comunicados ou discursos de boas maneiras quando depois se sustenta uma coisa daquelas. A BenficaTV (onde eu próprio já fui insultado em termos demasiadamente ordinários para serem reproduzidos) não honra o Benfica nem deixa bem a sua direcção. Espero e desejo que não apareçam um PortoTV ou um SportingTV para responderem na mesma moeda, porque então é que o clima ficará irrespirável. Isto é como as claques desordeiras: não há boas nem más, são todas um cancro no futebol. A diferença é que, enquanto que as claques são dificilmente controláveis pelos clubes (muitas vezes são até elas que mandam neles), já um canal de televisão depende inteiramente da direcção do clube. Não há desculpas.
4- Se em Lisboa, Rui Costa pôde entregar ao Papa uma camisola com o símbolo do clube (num gesto, em minha opinião, de um ridículo e de uma presunção patéticos), já no Porto, o F.C. Porto não pôde sequer pendurar um pendão, aliás discreto e bonito, de saudação ao Papa e ao lado de outros. Rui Rio não deixou, naquele seu estilo nordestino de governar. Nem mesmo a visita do Papa o comoveu e convenceu a abrir tréguas na sua paranóica guerra contra o clube maior da cidade. Coitado, a verdade é esta: o F.C. Porto é conhecido no mundo inteiro e, graças a ele, também a cidade do Porto; e Rio, é conhecido onde?
5- Sete defesas centrais entre os 24 para a África do Sul, não são centrais a mais: é uma invasão, um delírio, um ataque de cagaço que não augura nada de bom. Eu sei que dois deles são escalados para servirem de trincos, mas, quando os centrais servem para trincos, isso diz muito sobre as ideias do treinador. E é justamente no meio-campo criativo e ofensivo que a Selecção de Queiroz tem o seu ponto fraco. Nada a dizer dos guarda-redes (Beto foi uma surpresa inteiramente merecida), dos defesas ou dos avançados — são tudo escolhas óbvias e consensuais. Mas o meio-campo que há-de construir jogo para ganhar é o problema principal desta equipa: são muito poucos e não são particularmente bons.
O Benfica tem um jogador na Selecção; o Sporting tem dois, um dos quais naturalizado recentemente e de propósito para a ocasião; o F.C.Porto tem quatro — e podia ter cinco, se Varela não se tem lesionado, e talvez seis, se o mesmo não tivesse sucedido a Ruben Micael. E, a esses quatro, há a juntar outros cinco, que jogam lá fora, idos directamente do F.C. Porto. É um orgulho para as nossas cores.
E agora vem aí a penosa travessia deste mês de estágio da Selecção, com as insípidas notícias sobre o bacalhau e a vitela com grelos, o treino da manhã e o treino da tarde, os «directos» do hotel e as declarações dos jogadores — que só variam entre a expectativa das meias-finais, da final ou mesmo do título. E uma enxurrada daquele insuportável hino que Carlos Queiroz (porquê ele?) resolveu escolher como hino da Selecção. Português.... cantado em inglês. I´ve got a feeling de que este mês vai ser um aborrecimento sem fim. Oxalá, ao menos, o estágio seja de bom proveito.
6- Fantástico o embate entre Mourinho e Van Gaal: ambos com um passado comum e simultâneo no Barcelona, chegam à final de sábado da Champions trazendo no bolso a Taça e o campeonato da Alemanha e da Itália. Tenho pena que a dureza excessiva do castigo da UEFA a Ribéry o impeça de disputar o jogo mais importante do ano, onde todos os grandes jogadores das equipas finalistas deveriam estar sempre. E espero que não seja um jogo muito táctico, porque seria um desperdício. Eu sei que, como dizem, as finais são para ganhar e não para jogar bonito, mas, se o grande futebol não aparece nas finais com as grandes equipas, aparece quando? Eu acho o Bayern melhor equipa que o Inter, mas o Inter tem o «factor Mourinho» e isso conta e de que maneira!
No final do jogo e muito mal disposto (só podia...), Jesualdo Ferreira queixou-se da imprensa desportiva, que não deu ao jogo a importância que ele tinha. É verdade que não, mas também não sei de que estaria ele à espera: como é que uma final sem clubes de Lisboa, entre o Porto e o Chaves, poderia interessar à imprensa desportiva da capital, ainda a viver em plenos festejos do título do Benfica? É óbvio que a excursão a Timor do presidente do Benfica tinha muito mais importância do que o encerramento da época no Jamor — sem Benfica. Convém recordar a Jesualdo que, na véspera do F.C. Porto conquistar em Geselkirchen o segundo título europeu da sua história, a primeira página da nossa imprensa desportiva era a notícia de que o Benfica (então em 4º lugar), iria mudar de treinador no ano seguinte!
O problema, porém, é que, depois de assistir à exibição da equipe do F.C. Porto no Jamor, é caso para dizer que Jesualdo deveria ter começado por lamentar e se indignar com os seus jogadores pela falta de respeito que eles mostraram para com a final, com o adversário e com o público. Vi adeptos portistas regressados do Jamor envergonhados como se tivessem sido vencidos e sem vontade alguma para comemorar a 15.ª Taça de Portugal levada para casa. De facto, a equipa parece ter feito questão de se despedir da época e dos adeptos com uma demonstração de sobranceria, indiferença e falta de profissionalismo que, não sendo costume nela, mais me chocou. Começou tudo em Helton, esforçando-se por oferecer três golos apenas na primeira parte, o primeiro deles numa daquelas atitudes de displicência que o caracterizam e que tanto irritam os adeptos (espero que, se Jesualdo continuar, tenha finalmente percebido que não há mais lugar para o Helton na baliza). Depois, foi Hulk, esbanjando três golos também nos primeiros 45 minutos, acompanhado em mais uma ocasião por Falcao. E um jogo que podia ter acabado com 5-0 ao intervalo, acabou num 2-1 tangencial, depois de Bruno Alves resolver também despedir-se do jogo, da época e talvez do clube, oferecendo um golo e fazendo-se expulsar, minutos antes de ter de subir à tribuna para, enquanto capitão da equipa, receber a Taça das mãos do Presidente da República. Foi lastimável. Mau de mais para ser ultrapassado com a vitória. E é pena, porque agora o futebol de clubes vai de férias e, como é sabido, as últimas imagens são as que mais ficam.
2- Seguramente que terá sido com as melhores intenções, mas, realmente, não deu para entender o que terá levado a direcção do Benfica a emitir um comunicado desejando que a final da Taça não tivesse incidentes fora das quatro linhas. Que tinham eles a ver com isso — será que já ocuparam o Ministério da Administração Interna e a gente não sabe? Não vi comunicados do Sporting, do Belenenses, do Paços de Ferreira...
3- E, por falar em direcção do Benfica: a gente respeitável que lá está deveria olhar de frente e tomar uma atitude em relação à BenficaTV. Tão longamente esperado, planeado e anunciado, certamente que o que se quis com o canal não é aquilo que existe: uma tribuna de incitamento ao insulto, ao ódio, à violência, mesmo. Não vale a pena andar a fazer comunicados ou discursos de boas maneiras quando depois se sustenta uma coisa daquelas. A BenficaTV (onde eu próprio já fui insultado em termos demasiadamente ordinários para serem reproduzidos) não honra o Benfica nem deixa bem a sua direcção. Espero e desejo que não apareçam um PortoTV ou um SportingTV para responderem na mesma moeda, porque então é que o clima ficará irrespirável. Isto é como as claques desordeiras: não há boas nem más, são todas um cancro no futebol. A diferença é que, enquanto que as claques são dificilmente controláveis pelos clubes (muitas vezes são até elas que mandam neles), já um canal de televisão depende inteiramente da direcção do clube. Não há desculpas.
4- Se em Lisboa, Rui Costa pôde entregar ao Papa uma camisola com o símbolo do clube (num gesto, em minha opinião, de um ridículo e de uma presunção patéticos), já no Porto, o F.C. Porto não pôde sequer pendurar um pendão, aliás discreto e bonito, de saudação ao Papa e ao lado de outros. Rui Rio não deixou, naquele seu estilo nordestino de governar. Nem mesmo a visita do Papa o comoveu e convenceu a abrir tréguas na sua paranóica guerra contra o clube maior da cidade. Coitado, a verdade é esta: o F.C. Porto é conhecido no mundo inteiro e, graças a ele, também a cidade do Porto; e Rio, é conhecido onde?
5- Sete defesas centrais entre os 24 para a África do Sul, não são centrais a mais: é uma invasão, um delírio, um ataque de cagaço que não augura nada de bom. Eu sei que dois deles são escalados para servirem de trincos, mas, quando os centrais servem para trincos, isso diz muito sobre as ideias do treinador. E é justamente no meio-campo criativo e ofensivo que a Selecção de Queiroz tem o seu ponto fraco. Nada a dizer dos guarda-redes (Beto foi uma surpresa inteiramente merecida), dos defesas ou dos avançados — são tudo escolhas óbvias e consensuais. Mas o meio-campo que há-de construir jogo para ganhar é o problema principal desta equipa: são muito poucos e não são particularmente bons.
O Benfica tem um jogador na Selecção; o Sporting tem dois, um dos quais naturalizado recentemente e de propósito para a ocasião; o F.C.Porto tem quatro — e podia ter cinco, se Varela não se tem lesionado, e talvez seis, se o mesmo não tivesse sucedido a Ruben Micael. E, a esses quatro, há a juntar outros cinco, que jogam lá fora, idos directamente do F.C. Porto. É um orgulho para as nossas cores.
E agora vem aí a penosa travessia deste mês de estágio da Selecção, com as insípidas notícias sobre o bacalhau e a vitela com grelos, o treino da manhã e o treino da tarde, os «directos» do hotel e as declarações dos jogadores — que só variam entre a expectativa das meias-finais, da final ou mesmo do título. E uma enxurrada daquele insuportável hino que Carlos Queiroz (porquê ele?) resolveu escolher como hino da Selecção. Português.... cantado em inglês. I´ve got a feeling de que este mês vai ser um aborrecimento sem fim. Oxalá, ao menos, o estágio seja de bom proveito.
6- Fantástico o embate entre Mourinho e Van Gaal: ambos com um passado comum e simultâneo no Barcelona, chegam à final de sábado da Champions trazendo no bolso a Taça e o campeonato da Alemanha e da Itália. Tenho pena que a dureza excessiva do castigo da UEFA a Ribéry o impeça de disputar o jogo mais importante do ano, onde todos os grandes jogadores das equipas finalistas deveriam estar sempre. E espero que não seja um jogo muito táctico, porque seria um desperdício. Eu sei que, como dizem, as finais são para ganhar e não para jogar bonito, mas, se o grande futebol não aparece nas finais com as grandes equipas, aparece quando? Eu acho o Bayern melhor equipa que o Inter, mas o Inter tem o «factor Mourinho» e isso conta e de que maneira!
quinta-feira, junho 09, 2011
QUANDO OS VENCIDOS SÃO VENCEDORES? (11 MAIO 2010)
1- O grande vencedor do fim-de-semana desportivo foi Frederico Gil, o primeiro português a chegar à final do Estoril Open e de uma prova do ATP, onde esteve a um pequeníssimo suplemento de alma da vitória. É verdade que o fim-de-semana teve outros vencedores — o Sporting de Espinho ganhou o campeonato nacional de voleibol ao Benfica, o F.C. Porto praticamente garantiu o título no andebol (a juntar ao de hóquei em patins), e o Belenenses ganhou a Taça de Futsal ao Benfica e está em posição privilegiada para fazer a «dobradinha». Portimonense e Beira-Mar regressaram à I Liga (vocês viram o quintal de aldeia onde a Oliveirense se propunha jogar na I Liga, se tem derrotado o Portimonense? Uff...!). Até o Sporting, como bem lembrou José Eduardo Bettencourt, parece que ganhou qualquer coisa no ping-pong, na natação e no xadrez. E Radomel Falcao, na sua primeira época em Portugal, ganhou a «Bola de Prata», título atribuído ao melhor marcador do campeonato. Mas o grande vencedor foi, de facto, Frederico Gil.
O ténis é um jogo de momentos: raramente um jogador consegue, ao longo da partida, manter-se sempre por cima nos níveis de concentração, motivação e jogo. A alternância de momentos entre os jogadores é a regra, e isso, mais o facto de não consentir tácticas defensivas, é o que faz do ténis, na minha opinião, o mais bonito e emocionante de todos os desportos. Frequentemente, para além do deslumbramento com a qualidade técnica dos jogadores de topo, o que torna um jogo de ténis um espectáculo arrebatador é esse lado de combate singular entre dois gladiadores. Quem, como eu, teve a sorte de ver a inesquecível final de Wimbledon entre Bjorn Borg e John McEnroe, nunca mais a esquecerá, enquanto viver. Anteontem, na final desse torneio que Portugal deve à capacidade de iniciativa de João Lagos, Frederico Gil soube agarrar o seu momento, quando ele passou — com alma, com coragem, com um surpreendente nível de desempenho, face ao 36.º jogador do ranking ATP e detentor em título do torneio. E por pouco, por muito pouco, conseguia a vitória, quando o momento virou a favor do adversário e ele, fazendo das tripas coração, quase conseguia contrariar um destino traçado.
Pena que, para um jogo tão emocionante e tão bem jogado, algum público presente não tenha estado à altura. Eu sei que grande parte daquele público dos camarotes está ali para ver e ser visto e raramente para ver ténis. Assim como a Moda Lisboa ou o Portugal Fashion, o Estoril Open tornou-se um destino obrigatório do jet set e do «jet seis» — gente que acha que o melhor do ténis é o almoço na «tenda VIP» e as fotografias para as revistas sociais. Mas, apesar de tudo, talvez a organização devesse distribuir-lhes à entrada um manual de bom comportamento, onde se explicasse, por exemplo, que é muito foleiro falar ao telemóvel durante o jogo, e que o ténis é um dos últimos redutos do desportivismo — onde é impensável aplaudir ou vaiar o adversário do nosso favorito, quando ele falha uma bola de serviço. As instruções de Jorge Jesus para assobiar sempre os adversários a fim de os desconcentrar destinavam-se a um jogo de futebol do Benfica no Estádio da Luz, e não a um jogo de ténis no Jamor. A ver se para o ano percebem a diferença...
2- O outro grande vencedor individual do fim-de-semana foi o colombiano Radomel Falcao. À entrada para o último jogo, domingo passado, o seu adversário nessa disputa mano-a-mano, Óscar Cardozo, levava quatro golos a menos do que Falcao, embora só um contasse oficialmente: os outros três, golos limpinhos e bonitos, foram gamados ao portista por árbitros e fiscais-de-linha com excesso de zelo. Mesmo assim, Cardozo precisava de dois golos e a verdade é que só marcou um (embora indevidamente se tenha auto-atribuído dois, logo secundado por colaborantes observadores e coberto pelas imagens não explicitas da Sport TV). Terminaram assim empatados com 25 golos cada, mas como Falcão tinha menos jogos disputados (um deles por oportuna cortesia de Pedro Henriques, mesmo antes do F.C.Porto-Benfica), foi ele que, segundo as regras aplicáveis, venceu a Bola de Prata.
E venceu com todo o mérito e toda a justiça. Não só porque, de facto, marcou mais três golos dos que lhe validaram, como também porque dispôs apenas, para engrossar o número, de quatro penalties, dos quais converteu três, enquanto que o seu desafiante dispôs de onze e converteu oito: e marcar de penalty é bem mais fácil. E, depois, enfim, porque, apesar do valor de Cardozo, que não se discute, Falcao é muito melhor jogador e ponta-de-lança que o canhão paraguaio, e não dispôs, atrás de si, de um meio-campo ofensivo com a qualidade do que serviu Cardozo toda a época. Mas, como bem notou o próprio Falcão, «há coisas estranhas no futebol português». Pois há.
3- Ora veja, a propósito do Benfica-Rio Ave, tanta coisa estranha e que a imprensa achou por bem silenciar, para não levantar ondas, neste momento de festa nacional:
a) - Como já é de tradição, o Benfica teve a casualidade de enfrentar um adversário num jogo decisivo quando um dos jogadores deste já estava comprado pelo Benfica para a época seguinte: Fábio Faria, «uma referência da linha defensiva do Rio Ave, ao longo de toda a época», como se escreveu em A Bola. É a velha questão dos «nossos» jogadores ao serviço dos outros, jogando contra «nós». O Olhanense, por exemplo, recheado de jogadores do F.C.Porto, foi ao Dragão e roubou-nos dois pontos: mas, contra o Benfica, um dos «nossos» ao serviço do Olhanense, falhou um golo feito e outro ofereceu um golo: olha, se tem sido ao contrário? Neste caso, porém, ninguém se lembraria de duvidar, por antecipação, da lealdade do jogador do Rio Ave ao clube que ainda lhe paga. Ninguém? Não: ele próprio duvidou e disse que achava melhor não jogar. Confrontado com esta reveladora declaração, Carlos Brito achou mais prudente fazer-lhe a vontade. A «transparência» é isto.
b) - O Rio Ave também tem um jogador chamado Wires, de que eu nunca tinha ouvido falar e que teve uma entrada surpreendente no jogo. Aos 14 segundos (!), com tempo e espaço para aliviar uma bola, resolveu ficar a engonhar, até a perder e «ver-se obrigado» a cometer falta à entrada da área contra a sua equipa; três minutos depois, repete o estranho embaraço e a jogada acaba no primeiro golo do Benfica; mais seis minutos e é expulso — mas, dessa vez, sem culpa própria, apenas proporcionando o pretexto. Mas que jogo para recordar!
c) - Feliz e aliviado, Jorge Sousa avançou para Cardozo e mostrou-lhe o amarelo, quando ele despiu a camisola para celebrar o segundo golo. Assim, pensou ele, salvavam-se as aparências: os amarelos aos de Vila do Conde por dá cá aquela palha, em contraste com a sublime passividade perante as entradas de Luisão, Ramires, Airton. Isto claro, sem falar do glorioso cartão vermelho directo que ele sacou para o tal Wires, por uma entrada simultânea e mútua de pé em riste com o Airton, estavam decorridos cinco minutos de joguinho — que logo ficou resolvido. Eu sei o que chamo àquilo, mas cada um chame-lhe o que quiser... Consta, aliás, que Jorge Jesus costuma dividir os treinos em duas partes: numa, a equipa principal treina contra onze; na outra metade, treina só contra dez. Porque, enquanto que por esse mundo fora e em obediência a regras muito antigas, o futebol costuma ser jogado onze contra onze, já o Benfica, um terço das vezes, como notou Domingos, joga onze contra dez.
d) -Dois pequenos «pormenores» no primeiro golo do Benfica: para começar, é antecedido de um remate de Saviola em off-side, que Carlos defende para a frente, permitindo a recarga para golo; depois, o remate para a baliza é um auto-golo de Gaspar, que, quando levanta a perna para afastar a bola, leva um pontapé de Cardozo por baixo, que a faz mudar de direcção. Não só não foi golo de Cardozo, como nem sequer foi golo que se valide. Não posso jurar pela segunda situação (as imagens da TV não são completamente conclusivas), mas o off-side é flagrante. Os campeões também precisam de sorte, não é o que dizem? E de silêncio.
4- Para azar do Benfica e de Ricardo Costa, desde que o Hulk voltou a jogar, o F.C.Porto soma nove jogos, nove vitórias. E isso dá que pensar, sobre os efeitos do túnel e outras coisas mais. Durante muito tempo, achei, todavia, que, com túnel ou sem túnel, o Benfica merecia ganhar este campeonato, porque era a equipa que melhor jogava, mais atacava e tinha «melhor nota artística», como disse Jorge Jesus. Mas a verdade é que um campeonato não são 15, nem 20, nem 25 jornadas: são 30 e o saldo final deve-se fazer às 30. E, no último terço do campeonato, desapareceu aquele Benfica que jogava mais e melhor (até o Rio Ave, com dez, lhe deu uma lição de bola) e ficou apenas uma profusão de penalties a favor e de adversários expulsos. E, então, assalta-me a dúvida: o que teria feito o F.C.Porto, se tem disposto de 11 penalties a favor, um terço dos jogos em superioridade numérica, fiscais-de-linha atentos a off-sides inexistentes e o Hulk em jogo durante os decisivos três meses em que a prepotência de Ricardo Costa o retirou de cena?
O ténis é um jogo de momentos: raramente um jogador consegue, ao longo da partida, manter-se sempre por cima nos níveis de concentração, motivação e jogo. A alternância de momentos entre os jogadores é a regra, e isso, mais o facto de não consentir tácticas defensivas, é o que faz do ténis, na minha opinião, o mais bonito e emocionante de todos os desportos. Frequentemente, para além do deslumbramento com a qualidade técnica dos jogadores de topo, o que torna um jogo de ténis um espectáculo arrebatador é esse lado de combate singular entre dois gladiadores. Quem, como eu, teve a sorte de ver a inesquecível final de Wimbledon entre Bjorn Borg e John McEnroe, nunca mais a esquecerá, enquanto viver. Anteontem, na final desse torneio que Portugal deve à capacidade de iniciativa de João Lagos, Frederico Gil soube agarrar o seu momento, quando ele passou — com alma, com coragem, com um surpreendente nível de desempenho, face ao 36.º jogador do ranking ATP e detentor em título do torneio. E por pouco, por muito pouco, conseguia a vitória, quando o momento virou a favor do adversário e ele, fazendo das tripas coração, quase conseguia contrariar um destino traçado.
Pena que, para um jogo tão emocionante e tão bem jogado, algum público presente não tenha estado à altura. Eu sei que grande parte daquele público dos camarotes está ali para ver e ser visto e raramente para ver ténis. Assim como a Moda Lisboa ou o Portugal Fashion, o Estoril Open tornou-se um destino obrigatório do jet set e do «jet seis» — gente que acha que o melhor do ténis é o almoço na «tenda VIP» e as fotografias para as revistas sociais. Mas, apesar de tudo, talvez a organização devesse distribuir-lhes à entrada um manual de bom comportamento, onde se explicasse, por exemplo, que é muito foleiro falar ao telemóvel durante o jogo, e que o ténis é um dos últimos redutos do desportivismo — onde é impensável aplaudir ou vaiar o adversário do nosso favorito, quando ele falha uma bola de serviço. As instruções de Jorge Jesus para assobiar sempre os adversários a fim de os desconcentrar destinavam-se a um jogo de futebol do Benfica no Estádio da Luz, e não a um jogo de ténis no Jamor. A ver se para o ano percebem a diferença...
2- O outro grande vencedor individual do fim-de-semana foi o colombiano Radomel Falcao. À entrada para o último jogo, domingo passado, o seu adversário nessa disputa mano-a-mano, Óscar Cardozo, levava quatro golos a menos do que Falcao, embora só um contasse oficialmente: os outros três, golos limpinhos e bonitos, foram gamados ao portista por árbitros e fiscais-de-linha com excesso de zelo. Mesmo assim, Cardozo precisava de dois golos e a verdade é que só marcou um (embora indevidamente se tenha auto-atribuído dois, logo secundado por colaborantes observadores e coberto pelas imagens não explicitas da Sport TV). Terminaram assim empatados com 25 golos cada, mas como Falcão tinha menos jogos disputados (um deles por oportuna cortesia de Pedro Henriques, mesmo antes do F.C.Porto-Benfica), foi ele que, segundo as regras aplicáveis, venceu a Bola de Prata.
E venceu com todo o mérito e toda a justiça. Não só porque, de facto, marcou mais três golos dos que lhe validaram, como também porque dispôs apenas, para engrossar o número, de quatro penalties, dos quais converteu três, enquanto que o seu desafiante dispôs de onze e converteu oito: e marcar de penalty é bem mais fácil. E, depois, enfim, porque, apesar do valor de Cardozo, que não se discute, Falcao é muito melhor jogador e ponta-de-lança que o canhão paraguaio, e não dispôs, atrás de si, de um meio-campo ofensivo com a qualidade do que serviu Cardozo toda a época. Mas, como bem notou o próprio Falcão, «há coisas estranhas no futebol português». Pois há.
3- Ora veja, a propósito do Benfica-Rio Ave, tanta coisa estranha e que a imprensa achou por bem silenciar, para não levantar ondas, neste momento de festa nacional:
a) - Como já é de tradição, o Benfica teve a casualidade de enfrentar um adversário num jogo decisivo quando um dos jogadores deste já estava comprado pelo Benfica para a época seguinte: Fábio Faria, «uma referência da linha defensiva do Rio Ave, ao longo de toda a época», como se escreveu em A Bola. É a velha questão dos «nossos» jogadores ao serviço dos outros, jogando contra «nós». O Olhanense, por exemplo, recheado de jogadores do F.C.Porto, foi ao Dragão e roubou-nos dois pontos: mas, contra o Benfica, um dos «nossos» ao serviço do Olhanense, falhou um golo feito e outro ofereceu um golo: olha, se tem sido ao contrário? Neste caso, porém, ninguém se lembraria de duvidar, por antecipação, da lealdade do jogador do Rio Ave ao clube que ainda lhe paga. Ninguém? Não: ele próprio duvidou e disse que achava melhor não jogar. Confrontado com esta reveladora declaração, Carlos Brito achou mais prudente fazer-lhe a vontade. A «transparência» é isto.
b) - O Rio Ave também tem um jogador chamado Wires, de que eu nunca tinha ouvido falar e que teve uma entrada surpreendente no jogo. Aos 14 segundos (!), com tempo e espaço para aliviar uma bola, resolveu ficar a engonhar, até a perder e «ver-se obrigado» a cometer falta à entrada da área contra a sua equipa; três minutos depois, repete o estranho embaraço e a jogada acaba no primeiro golo do Benfica; mais seis minutos e é expulso — mas, dessa vez, sem culpa própria, apenas proporcionando o pretexto. Mas que jogo para recordar!
c) - Feliz e aliviado, Jorge Sousa avançou para Cardozo e mostrou-lhe o amarelo, quando ele despiu a camisola para celebrar o segundo golo. Assim, pensou ele, salvavam-se as aparências: os amarelos aos de Vila do Conde por dá cá aquela palha, em contraste com a sublime passividade perante as entradas de Luisão, Ramires, Airton. Isto claro, sem falar do glorioso cartão vermelho directo que ele sacou para o tal Wires, por uma entrada simultânea e mútua de pé em riste com o Airton, estavam decorridos cinco minutos de joguinho — que logo ficou resolvido. Eu sei o que chamo àquilo, mas cada um chame-lhe o que quiser... Consta, aliás, que Jorge Jesus costuma dividir os treinos em duas partes: numa, a equipa principal treina contra onze; na outra metade, treina só contra dez. Porque, enquanto que por esse mundo fora e em obediência a regras muito antigas, o futebol costuma ser jogado onze contra onze, já o Benfica, um terço das vezes, como notou Domingos, joga onze contra dez.
d) -Dois pequenos «pormenores» no primeiro golo do Benfica: para começar, é antecedido de um remate de Saviola em off-side, que Carlos defende para a frente, permitindo a recarga para golo; depois, o remate para a baliza é um auto-golo de Gaspar, que, quando levanta a perna para afastar a bola, leva um pontapé de Cardozo por baixo, que a faz mudar de direcção. Não só não foi golo de Cardozo, como nem sequer foi golo que se valide. Não posso jurar pela segunda situação (as imagens da TV não são completamente conclusivas), mas o off-side é flagrante. Os campeões também precisam de sorte, não é o que dizem? E de silêncio.
4- Para azar do Benfica e de Ricardo Costa, desde que o Hulk voltou a jogar, o F.C.Porto soma nove jogos, nove vitórias. E isso dá que pensar, sobre os efeitos do túnel e outras coisas mais. Durante muito tempo, achei, todavia, que, com túnel ou sem túnel, o Benfica merecia ganhar este campeonato, porque era a equipa que melhor jogava, mais atacava e tinha «melhor nota artística», como disse Jorge Jesus. Mas a verdade é que um campeonato não são 15, nem 20, nem 25 jornadas: são 30 e o saldo final deve-se fazer às 30. E, no último terço do campeonato, desapareceu aquele Benfica que jogava mais e melhor (até o Rio Ave, com dez, lhe deu uma lição de bola) e ficou apenas uma profusão de penalties a favor e de adversários expulsos. E, então, assalta-me a dúvida: o que teria feito o F.C.Porto, se tem disposto de 11 penalties a favor, um terço dos jogos em superioridade numérica, fiscais-de-linha atentos a off-sides inexistentes e o Hulk em jogo durante os decisivos três meses em que a prepotência de Ricardo Costa o retirou de cena?
terça-feira, maio 31, 2011
ESTAVA RESERVADO O QUÊ? (04 MAIO 2010)
1- Estava reservado o primeiro título do Benfica conquistado no estádio do F.C.Porto. Estavam reservados os festejos na Praça do Município do Porto e de Lisboa, no Estádio da Luz, no Marquês de Pombal, em várias praças do país. Estava reservado o «avião dos campeões» e uma arbitragem à medida da festividade. Estava reservado mais um jogo contra dez durante grande parte do tempo e a confirmação de Cardozo como 'Bola de Prata'. Estava reservado o Bruno Alves como o vilão de serviço e a entrega pela Liga do troféu de campeão já no próximo domingo na Luz (o F.C.Porto só recebeu o de 2009 há quinze dias...). Estavam reservadas as eufóricas primeiras páginas dos jornais desportivos de Lisboa e o texto galvanizante do SIAP (Serviço de Informações Araújo Pereira).
Estava tudo reservado, mas esqueceram-se de um pormenor: avisar os ainda tetracampeões de Portugal de que eles seriam parte da festa. E esqueceram-se de avisar o Cardozo de que era preciso ter conseguido tocar na bola, uma vez que fosse, em lugar de ficar à espera do penalty habitual. E esqueceram-se de dizer ao Bruno Alves que marcar um golo cheio de estilo e no meio das «torres intransponíveis» do Benfica, passar o jogo inteiro sem deixar o Cardozo tocar na bola e sem fazer uma falta (uma única!), não é coisa que se faça aos anunciados campeões.
2- Não sei quando é que Olegário Benquerença dará por expurgado o crime de não ter visto o hipotético golo do Benfica ao Porto na Luz, já lá vão uns anos (e que, a ter existido, ele jamais poderia ter visto). Sei que, desde então, não se tem poupado a expiações sem fim, a última das quais anteontem. Mas, antes de inflectir o critério disciplinar, com chocante benefício dos anunciados campeões, Olegário tratou de mostrar — como já se tinha visto em San Siro, onde decidiu a sorte da meia-final da Champions — que está longe de justificar a chamada ao Mundial. Tal como em S, Siro, ele mostrou no Dragão que atravessa uma fase de deslumbramento que o faz achar-se mais importante do que o próprio jogo — o verdadeiro artista. E, tal como disse Jesualdo, mostrou pior ainda: que tinha medo do jogo. E, todavia, apanhou, no campo, um dos mais pacíficos jogos entre Benfica e F.C.Porto que me lembro: de parte a parte, não houve entradas a magoar, violência, jogo sujo, sururus, indisciplina dos jogadores. Mas, ele, valentão, quis «segurar o jogo»... contra as bancadas. E entrou num desvario de cartões amarelos, que só podia, inevitavelmente, conduzir à destruição do próprio jogo: os sete primeiros cartões amarelos que mostrou (e que prejudicaram mais o Benfica) não tiveram a menor razão de ser. Depois, foi a barbaridade do segundo amarelo a Fucile, e depois de o ter expulso por uma inventada simulação de penalty, perdoou duas vezes o amarelo a Di María que o fez duas vezes (e como habitualmente) e perdoou o vermelho directo a Luisão e Maxi Pereira. Entrou como um leão, saiu como uma águia. Fez o que pôde para estragar o jogo e só não falseou o resultado porque o F.C.Porto, farto de se ver prejudicado pelas arbitragens esta época, fez das tripas coração e foi em busca da vitória, dez contra onze. Espero que José Mourinho tenha visto o jogo. E Vítor Pereira também.
3- Como de costume em todos ou quase todos os jogos importantes desta época, Jorge Jesus tinha os 25 jogadores à disposição. Já Jesualdo, tinha quatro titularíssimos de baixa ou castigo cirúrgico: Helton, Ruben Micael, Varela e Falcão. Mas onde Jesualdo começou a ganhar o jogo, e contra vontade, foi, ironicamente, na baixa de Helton: como aqui tenho escrito, Beto mostrou, uma vez mais, que é muito melhor guarda-redes e transmite muito mais segurança do que Helton.
Grande erro de Jesualdo ao não ter substituído o Fucile, assim que viu o primeiro amarelo ser-lhe mostrado por Olegário Benquerença... por nada. Esse 'nada' é que era perigoso e fazia temer o pior: segundo 'nada' e Fucile foi para a rua. Era de prever.
4- Não foi um grande jogo, tecnicamente, mas foi jogado com emoção e com grande determinação da parte do F.C.Porto. Vitória mais do que merecida e um anunciado campeão que, jogando metade do jogo com um a mais, não conseguiu criar mais nenhuma oportunidade flagrante e ainda sofreu dois golos e viu mais um esbarrar na trave, com Quim batido. Foi uma pequena vingança pelas duas derrotas da época contra o Benfica e uma despedida do campeonato e do Dragão digna de campeões.
5- Já o Braga tinha levado lá 5-1 e eu mantenho-me na minha: não obstante a grande época do Sp. Braga, não obstante o grande trabalho de Domingos Paciência, não obstante a desigualdade de meios, o F.C.Porto, apesar de tudo, jogou o suficiente para mostrar que é bem melhor equipa que o Sp. Braga e, não fossem os incidentes de percurso — uns internos, outros externos — teria, pelo menos, garantido o segundo lugar. Disse Luís Filipe Vieira que o Hulk é o jogador que mais bolas perde no campeonato (natural, para quem percebe de futebol...), com isso querendo significar que a suspensão por dois meses não fez falta ao F.C.Porto. Infelizmente para a curiosa tese do presidente do Benfica, desde que ele voltou há nove jogos, o F.C.Porto só conhece um verbo: vencer.
Pelo que, é mais do que natural, mais do que legítimo, afirmar que quem conseguiu tirar o F.C.Porto da Liga dos Campeões do ano que vem (e, como se verá, em prejuízo do futebol português) foi o Sr. Ricardo Costa. Já o havia tentado com o «Apito Frustrado», agora conseguiu-o com o «Túnel Encantado». E mais uma vez o Braga ganhou um jogo com um erro de arbitragem, conjugado com uma oferta do adversário. Eu sei que é de bom tom enaltecer os pequenos face aos grandes — sobretudo se as vitórias dos pequenos são alcançadas à custa do F.C.Porto. Mas, se se derem ao trabalho de fazer a contabilidade dos pontos ganhos e perdidos com erros de arbitragem ao longo desta época, escusam de procurar outro motivo para o inabitual terceiro lugar do F.C.Porto.
6- Tenho um estranho sentimento: como aqui escrevi a semana passada, sinto uma grande admiração por José Mourinho, como treinador e como personalidade. Mas também, como já o escrevi, não é por ele ser quem é e, para mais, português, que consigo calar esta evidência: o futebol que ele vem apresentando — ainda no Chelsea e agora no Inter — é tudo aquilo de que eu não gosto.
Aconteceu-me mesmo esta coisa impensável: adormecer a ver o Barcelona-Inter, uma meia-final da Champions. Sim, eu sei: jogou em inferioridade numérica durante uma hora — talvez o melhor que lhe aconteceu para poder justificar aquela táctica de 9x0x0 — mas, como vimos anteontem no Dragão, isso não serve de desculpa para tudo. Não serve, sobretudo, para justificar esta inacreditável estatística: nenhum remate à baliza adversária, nenhum ataque digno desse nome, nenhuma vez em que o Inter entrou sequer na área do Barcelona (excepto se foi quando adormeci) e 57 passes certos contra 542! Ou seja, a defender-se, os jogadores do Inter nem sequer se preocupavam em tentar sair a jogar: era pontapé para a frente, dez dentro da área e fé em Deus. Mourinho conseguiu, de facto, uma proeza, porque aquela equipa não vale nada, não vale de certeza a final da Champions. E, por isso mesmo, a sua proeza tem ainda mais valor: ele anulou o futebol da melhor equipa do mundo, com um grupo de rapazes de pontapé para a frente. O que é triste é que não anulou apenas o futebol do Barcelona: anulou o próprio futebol. E eu não sei se isso é motivo de festejo.
7- Segundo rezam as crónicas, cinco mil benfiquistas esperaram de pé, na fila, durante duas ou três horas, para comprarem bilhete para o jogo da Luz da próxima e última jornada. Num dia de semana e em horário de trabalho. Presumo que não fossem reformados ou doentes, porque não aguentariam a espera em pé. Presumo que não estivessem todos com o subsídio de desemprego ou o RSI, ou teriam coisas mais prementes em que gastar o dinheiro. Presumo, enfim, que tenham gasto o tempo a dizer mal do F.C.Porto, do governo e da situação de falência económica e financeira a que «eles» conduziram o país.
Estava tudo reservado, mas esqueceram-se de um pormenor: avisar os ainda tetracampeões de Portugal de que eles seriam parte da festa. E esqueceram-se de avisar o Cardozo de que era preciso ter conseguido tocar na bola, uma vez que fosse, em lugar de ficar à espera do penalty habitual. E esqueceram-se de dizer ao Bruno Alves que marcar um golo cheio de estilo e no meio das «torres intransponíveis» do Benfica, passar o jogo inteiro sem deixar o Cardozo tocar na bola e sem fazer uma falta (uma única!), não é coisa que se faça aos anunciados campeões.
2- Não sei quando é que Olegário Benquerença dará por expurgado o crime de não ter visto o hipotético golo do Benfica ao Porto na Luz, já lá vão uns anos (e que, a ter existido, ele jamais poderia ter visto). Sei que, desde então, não se tem poupado a expiações sem fim, a última das quais anteontem. Mas, antes de inflectir o critério disciplinar, com chocante benefício dos anunciados campeões, Olegário tratou de mostrar — como já se tinha visto em San Siro, onde decidiu a sorte da meia-final da Champions — que está longe de justificar a chamada ao Mundial. Tal como em S, Siro, ele mostrou no Dragão que atravessa uma fase de deslumbramento que o faz achar-se mais importante do que o próprio jogo — o verdadeiro artista. E, tal como disse Jesualdo, mostrou pior ainda: que tinha medo do jogo. E, todavia, apanhou, no campo, um dos mais pacíficos jogos entre Benfica e F.C.Porto que me lembro: de parte a parte, não houve entradas a magoar, violência, jogo sujo, sururus, indisciplina dos jogadores. Mas, ele, valentão, quis «segurar o jogo»... contra as bancadas. E entrou num desvario de cartões amarelos, que só podia, inevitavelmente, conduzir à destruição do próprio jogo: os sete primeiros cartões amarelos que mostrou (e que prejudicaram mais o Benfica) não tiveram a menor razão de ser. Depois, foi a barbaridade do segundo amarelo a Fucile, e depois de o ter expulso por uma inventada simulação de penalty, perdoou duas vezes o amarelo a Di María que o fez duas vezes (e como habitualmente) e perdoou o vermelho directo a Luisão e Maxi Pereira. Entrou como um leão, saiu como uma águia. Fez o que pôde para estragar o jogo e só não falseou o resultado porque o F.C.Porto, farto de se ver prejudicado pelas arbitragens esta época, fez das tripas coração e foi em busca da vitória, dez contra onze. Espero que José Mourinho tenha visto o jogo. E Vítor Pereira também.
3- Como de costume em todos ou quase todos os jogos importantes desta época, Jorge Jesus tinha os 25 jogadores à disposição. Já Jesualdo, tinha quatro titularíssimos de baixa ou castigo cirúrgico: Helton, Ruben Micael, Varela e Falcão. Mas onde Jesualdo começou a ganhar o jogo, e contra vontade, foi, ironicamente, na baixa de Helton: como aqui tenho escrito, Beto mostrou, uma vez mais, que é muito melhor guarda-redes e transmite muito mais segurança do que Helton.
Grande erro de Jesualdo ao não ter substituído o Fucile, assim que viu o primeiro amarelo ser-lhe mostrado por Olegário Benquerença... por nada. Esse 'nada' é que era perigoso e fazia temer o pior: segundo 'nada' e Fucile foi para a rua. Era de prever.
4- Não foi um grande jogo, tecnicamente, mas foi jogado com emoção e com grande determinação da parte do F.C.Porto. Vitória mais do que merecida e um anunciado campeão que, jogando metade do jogo com um a mais, não conseguiu criar mais nenhuma oportunidade flagrante e ainda sofreu dois golos e viu mais um esbarrar na trave, com Quim batido. Foi uma pequena vingança pelas duas derrotas da época contra o Benfica e uma despedida do campeonato e do Dragão digna de campeões.
5- Já o Braga tinha levado lá 5-1 e eu mantenho-me na minha: não obstante a grande época do Sp. Braga, não obstante o grande trabalho de Domingos Paciência, não obstante a desigualdade de meios, o F.C.Porto, apesar de tudo, jogou o suficiente para mostrar que é bem melhor equipa que o Sp. Braga e, não fossem os incidentes de percurso — uns internos, outros externos — teria, pelo menos, garantido o segundo lugar. Disse Luís Filipe Vieira que o Hulk é o jogador que mais bolas perde no campeonato (natural, para quem percebe de futebol...), com isso querendo significar que a suspensão por dois meses não fez falta ao F.C.Porto. Infelizmente para a curiosa tese do presidente do Benfica, desde que ele voltou há nove jogos, o F.C.Porto só conhece um verbo: vencer.
Pelo que, é mais do que natural, mais do que legítimo, afirmar que quem conseguiu tirar o F.C.Porto da Liga dos Campeões do ano que vem (e, como se verá, em prejuízo do futebol português) foi o Sr. Ricardo Costa. Já o havia tentado com o «Apito Frustrado», agora conseguiu-o com o «Túnel Encantado». E mais uma vez o Braga ganhou um jogo com um erro de arbitragem, conjugado com uma oferta do adversário. Eu sei que é de bom tom enaltecer os pequenos face aos grandes — sobretudo se as vitórias dos pequenos são alcançadas à custa do F.C.Porto. Mas, se se derem ao trabalho de fazer a contabilidade dos pontos ganhos e perdidos com erros de arbitragem ao longo desta época, escusam de procurar outro motivo para o inabitual terceiro lugar do F.C.Porto.
6- Tenho um estranho sentimento: como aqui escrevi a semana passada, sinto uma grande admiração por José Mourinho, como treinador e como personalidade. Mas também, como já o escrevi, não é por ele ser quem é e, para mais, português, que consigo calar esta evidência: o futebol que ele vem apresentando — ainda no Chelsea e agora no Inter — é tudo aquilo de que eu não gosto.
Aconteceu-me mesmo esta coisa impensável: adormecer a ver o Barcelona-Inter, uma meia-final da Champions. Sim, eu sei: jogou em inferioridade numérica durante uma hora — talvez o melhor que lhe aconteceu para poder justificar aquela táctica de 9x0x0 — mas, como vimos anteontem no Dragão, isso não serve de desculpa para tudo. Não serve, sobretudo, para justificar esta inacreditável estatística: nenhum remate à baliza adversária, nenhum ataque digno desse nome, nenhuma vez em que o Inter entrou sequer na área do Barcelona (excepto se foi quando adormeci) e 57 passes certos contra 542! Ou seja, a defender-se, os jogadores do Inter nem sequer se preocupavam em tentar sair a jogar: era pontapé para a frente, dez dentro da área e fé em Deus. Mourinho conseguiu, de facto, uma proeza, porque aquela equipa não vale nada, não vale de certeza a final da Champions. E, por isso mesmo, a sua proeza tem ainda mais valor: ele anulou o futebol da melhor equipa do mundo, com um grupo de rapazes de pontapé para a frente. O que é triste é que não anulou apenas o futebol do Barcelona: anulou o próprio futebol. E eu não sei se isso é motivo de festejo.
7- Segundo rezam as crónicas, cinco mil benfiquistas esperaram de pé, na fila, durante duas ou três horas, para comprarem bilhete para o jogo da Luz da próxima e última jornada. Num dia de semana e em horário de trabalho. Presumo que não fossem reformados ou doentes, porque não aguentariam a espera em pé. Presumo que não estivessem todos com o subsídio de desemprego ou o RSI, ou teriam coisas mais prementes em que gastar o dinheiro. Presumo, enfim, que tenham gasto o tempo a dizer mal do F.C.Porto, do governo e da situação de falência económica e financeira a que «eles» conduziram o país.
domingo, maio 22, 2011
FALCAO, ÁGUIAS E OUTRAS RAPINAS (27 ABRIL 2010)
1- Pedro Henriques é um árbitro que, quando apareceu, prometia bem mais do que aquilo que viria a cumprir. Por razões que ignoro, o facto é que ele nunca passou de um árbitro banal, às vezes mesmo, pior do que isso até: acumula algumas limitações de julgamento, técnicas, com uma postura de vedetismo e autoritarismo que, não sendo qualidades em si mesmas, só podem tornar mais evidentes os defeitos. Nada é menos eficaz do que o autoritarismo sem a autoridade natural da competência. E, desta vez, quem pagou as favas foi Falcao — ou, como bem disse Jesualdo Ferreira, o espectáculo do Porto-Benfica que aí vem. Por desejo de protagonismo, por autoritarismo, Pedro Henriques resolveu tirar Falcao do clássico deste fim-de-semana, conseguindo ver numa mão em queda de um jogador em queda, depois de derrubado pelos adversários, uma atitude adequada para um cartão amarelo. Incompetência: essa mão na cara do adversário ou ele a julgava como acidental ou a julgava intencional — e então, seria uma agressão, que daria motivo para um vermelho directo, jamais para um amarelo. Exibicionismo: num jogo já decidido e sem história, Pedro Henriques não resistiu a entrar para a história como o árbitro que impediu que a luta pela Bola de Prata entre Falcao e Cardozo pudesse continuar a ser o único, rigorosamente o único, motivo de interesse que ainda resta neste campeonato. Nesse instante, de peito feito, ele achou-se importantíssimo, a suprema autoridade. Enganou-se e o seu engano é ridículo: Falcao faz falta ao espectáculo e, na disputa particular em que estava envolvido, é insubstituível; ele, não.
2- De qualquer maneira, não é justo mandar todas as culpas do desfecho da Bola de Prata para cima de Pedro Henriques. Jorge Jesus fez notar que a Bola de Prata é um troféu que já escapa ao Benfica há muitos anos — e que o Benfica adorava juntar este ano ao título de campeão, já entregue. E, como se tem visto e se viu outra vez este fim-de-semana, estamos em ano em que o Benfica quer, o Benfica tem. Os jogos do Glorioso têm tido uma fatal tendência para serem marcados por uma série infindável de penalties a favor (que Cardozo lá vai transformando, mais mal que bem) e por expulsões dos adversários, que muito facilitam os desfechos. Cardozo leva uns dez penalties convertidos no rol dos seus golos acumulados, Falcao leva dois. Cardozo leva alguns golos validados em off-side (como o terceiro do seu hat-trick contra o Olhanense), Falcao leva quatro golos limpinhos anulados por falsos off-sides. Está uma passadeira vermelha estendida para que Óscar Cardoso leve a Bola de Prata, a de Ouro e a de Diamantes. Resta, como me confessava um benfiquista mais tranquilo que outros que por aí andam, que Falcao é muito melhor avançado e jogador do que Cardozo — como aliás percebe qualquer um que perceba de futebol. E eu, que até acho que Cardozo é um bom avançado e útil na sua missão, não pude deixar de concordar com este benfiquista, quando ele, recebendo a notícia do terceiro golo de Cardozo contra o Olhanense, comentou: «Se ele, além de marcar golos, soubesse jogar futebol, já estava no Real Madrid!».
Não impede que Radomel Falcao, tão a leste destas guerrilhas internas, foi roubado de um troféu individual que indiscutivelmente merecia e mereceu, pela época que fez, pelos golos que marcou e pelos que injustamente lhe anularam e pelo jogador que é. Falcao saiu do jogo de Setúbal em lágrimas por não poder jogar o seu primeiro Porto-Benfica; Jesualdo Ferreira foi expulso do banco pela primeira vez na sua carreira. E Pedro Henriques lá vai continuar igual.
E não impede que Vítor Pereira deveria ter mais pudor em não nomear para os jogos finais do campeonato os árbitros que o mundo inteiro sabe que levam uma mancha benfiquista no coração. Lucilio Baptista — um dos piores árbitros dos últimos anos do futebol português — já não tem margem para benefício da dúvida, quando arbitra o Benfica. Toda a gente o sabe, toda a gente o vê, já toda a gente sorri quando o vê actuar com o Benfica em campo. Desta vez e em apenas oito minutos, ele liquidou o Olhanense e nem sequer deixou qualquer hipótese de que o jogo se pudesse vir a complicar para o Benfica. Aos dois minutos, marcou pressurosamente um daqueles penalties de bola no braço que, em querendo, só não se assinalam aos manetas (e bem menos evidente do que o braço na bola com que Aimar amorteceu para marcar o quinto golo do Benfica). E, aos oito, aí já com razão, mostrou o segundo amarelo ao não-maneta do Olhanense e, com isso e o penalty inventado, o jogo ficou arrumado, tirando os fait-divers: o quarto golo em off-side, o quinto preparado com a mão. Viva o campeão e o Bola de Prata!
Consola-me pensar que em breve Lucílio Baptista gozará a sua justa reforma e Ricardo Costa a sua justa retirada de cena. Cumpridas as suas missões, elogiado o seu zelo em defesa da «transparência». E talvez, quem sabe para o ano, o campeonato se resolva exclusivamente dentro do campo e não haja protagonistas marginais ao jogo a cumprirem a sua penosa missão de retirarem de jogo os seus verdadeiros e melhores protagonistas. Um campeonato inteiramente jogado à luz do dia, longe das sombras dos túneis, dos tiques de autoridade de personagens menores e que nenhuma, nenhuma falta fazem ao futebol.
3- Ricardo Costa retira-se, aliás, com mais uma derrota na sua infatigável batalha contra o F.C. Porto: o Conselho de Disciplina não apenas revogou o seu «castigo» de mais três meses de silêncio a Pinto da Costa, como ainda lhe lembrou esta coisa evidente: quem é o Sr. Ricardo Costa para querer silenciar quem quer que seja? Quem é este Torquemada de trazer por casa que se acha mais importante do que a própria Constituição da República? Quem é este mestre de direito cujas brilhantes teses, e de sentido único, nunca são acompanhadas por ninguém mais que julga os mesmos factos que ele? Quem é este pavão justiceiro que até consegue retirar à águia o brilho que, todavia, nós até lhe reconhecemos? Bye, Bye, Dr. Costa, volte lá para de onde nunca deveria ter saído.
4- Fantástico José Mourinho: ele e só ele derrotou o Barcelona. Não foi o Inter, porque o Inter é uma equipe banal, apenas com um grande guarda-redes e um excelente médio-esquerdo chamado Snejder. O resto são vedetas sem sustentação futebolística — como esse menino mal-educado que é o Balotelli, um jogador absolutamente vulgar, que eu, francamente, não consigo entender como é que merece de Mourinho mais atenção e mais oportunidades que o Ricardo Quaresma.
É sintomático que toda a critica tenha escrito que Mourinho anulou o Barça — jamais que o Inter fez um grande jogo. Não fez, nem nunca faz (talvez contra o Milan, no campeonato, e contra o Chelsea, em Londres). De resto, o futebol do Inter é tão entusiasmante como o Ricardo Costa a explicar as suas teses jurídicas: é um futebol incapaz de dar vida a um moribundo a quem prometessem mais dez anos de vida. Mas isso só torna mais notável o desempenho de José Mourinho: a sua capacidade única de estudar os adversários até à alma e de inventar maneira de os reduzir à impotência e o seu talento para juntar nove homens banais, acrescentados de dois ou três bons, e deles todos fazer uma equipe ganhadora. Mas, continuo na minha: de todas as equipes vencedoras de José Mourinho, a que melhor futebol jogava, que mais espectáculo dava, foi o F. C. Porto de 2003, que venceu em Sevilha a Taça UEFA.
PS: Ricardo Araújo Pereira lá prossegue a sua insana tarefa de meu arquivista particular e não nomeado. Desta vez, e para além do desejo reiterado de não me ver falar de árbitros (exclusivo de cronistas benfiquistas, como ele), realça a minha grande contradição por, em Julho passado, ainda a época não tinha arrancado e eu não tinha visto jogar ninguém, ter previsto que o F.C.Porto era outra vez o principal candidato ao título. O facto de, logo em Setembro e depois de ver o que já havia para ver, ter começado a escrever que o Benfica era a melhor equipe, à vista, não anula essa penosa contradição que ele me atribuí. Ao contrário dele próprio, a quem ninguém verá jamais um elogio ao futebol jogado pelo F.C.Porto (aliás, futebol, propriamente dito, é assunto que nunca o ocupa), ele acha que eu cometi o crime de não ter começado a elogiar o Benfica logo após o Torneio do Guadiana. OK: solenemente declaro, desde já, que o meu favorito para o ano é o Benfica. É o Benfica, é o Benfica.
Entretanto, agradeço ao arquivista ter-me lembrado que em Olhão, no jogo da primeira volta, o Cardozo só não foi para a rua porque o árbitro, enquanto caminhava para ele para lhe mostrar o vermelho merecido, lembrou-se do Benfica-Porto na semana seguinte e mudou o vermelho para amarelo. O Pedro Henriques também se lembrou do Porto-Benfica, mas, estranhamente, a consequência foi a oposta...
2- De qualquer maneira, não é justo mandar todas as culpas do desfecho da Bola de Prata para cima de Pedro Henriques. Jorge Jesus fez notar que a Bola de Prata é um troféu que já escapa ao Benfica há muitos anos — e que o Benfica adorava juntar este ano ao título de campeão, já entregue. E, como se tem visto e se viu outra vez este fim-de-semana, estamos em ano em que o Benfica quer, o Benfica tem. Os jogos do Glorioso têm tido uma fatal tendência para serem marcados por uma série infindável de penalties a favor (que Cardozo lá vai transformando, mais mal que bem) e por expulsões dos adversários, que muito facilitam os desfechos. Cardozo leva uns dez penalties convertidos no rol dos seus golos acumulados, Falcao leva dois. Cardozo leva alguns golos validados em off-side (como o terceiro do seu hat-trick contra o Olhanense), Falcao leva quatro golos limpinhos anulados por falsos off-sides. Está uma passadeira vermelha estendida para que Óscar Cardoso leve a Bola de Prata, a de Ouro e a de Diamantes. Resta, como me confessava um benfiquista mais tranquilo que outros que por aí andam, que Falcao é muito melhor avançado e jogador do que Cardozo — como aliás percebe qualquer um que perceba de futebol. E eu, que até acho que Cardozo é um bom avançado e útil na sua missão, não pude deixar de concordar com este benfiquista, quando ele, recebendo a notícia do terceiro golo de Cardozo contra o Olhanense, comentou: «Se ele, além de marcar golos, soubesse jogar futebol, já estava no Real Madrid!».
Não impede que Radomel Falcao, tão a leste destas guerrilhas internas, foi roubado de um troféu individual que indiscutivelmente merecia e mereceu, pela época que fez, pelos golos que marcou e pelos que injustamente lhe anularam e pelo jogador que é. Falcao saiu do jogo de Setúbal em lágrimas por não poder jogar o seu primeiro Porto-Benfica; Jesualdo Ferreira foi expulso do banco pela primeira vez na sua carreira. E Pedro Henriques lá vai continuar igual.
E não impede que Vítor Pereira deveria ter mais pudor em não nomear para os jogos finais do campeonato os árbitros que o mundo inteiro sabe que levam uma mancha benfiquista no coração. Lucilio Baptista — um dos piores árbitros dos últimos anos do futebol português — já não tem margem para benefício da dúvida, quando arbitra o Benfica. Toda a gente o sabe, toda a gente o vê, já toda a gente sorri quando o vê actuar com o Benfica em campo. Desta vez e em apenas oito minutos, ele liquidou o Olhanense e nem sequer deixou qualquer hipótese de que o jogo se pudesse vir a complicar para o Benfica. Aos dois minutos, marcou pressurosamente um daqueles penalties de bola no braço que, em querendo, só não se assinalam aos manetas (e bem menos evidente do que o braço na bola com que Aimar amorteceu para marcar o quinto golo do Benfica). E, aos oito, aí já com razão, mostrou o segundo amarelo ao não-maneta do Olhanense e, com isso e o penalty inventado, o jogo ficou arrumado, tirando os fait-divers: o quarto golo em off-side, o quinto preparado com a mão. Viva o campeão e o Bola de Prata!
Consola-me pensar que em breve Lucílio Baptista gozará a sua justa reforma e Ricardo Costa a sua justa retirada de cena. Cumpridas as suas missões, elogiado o seu zelo em defesa da «transparência». E talvez, quem sabe para o ano, o campeonato se resolva exclusivamente dentro do campo e não haja protagonistas marginais ao jogo a cumprirem a sua penosa missão de retirarem de jogo os seus verdadeiros e melhores protagonistas. Um campeonato inteiramente jogado à luz do dia, longe das sombras dos túneis, dos tiques de autoridade de personagens menores e que nenhuma, nenhuma falta fazem ao futebol.
3- Ricardo Costa retira-se, aliás, com mais uma derrota na sua infatigável batalha contra o F.C. Porto: o Conselho de Disciplina não apenas revogou o seu «castigo» de mais três meses de silêncio a Pinto da Costa, como ainda lhe lembrou esta coisa evidente: quem é o Sr. Ricardo Costa para querer silenciar quem quer que seja? Quem é este Torquemada de trazer por casa que se acha mais importante do que a própria Constituição da República? Quem é este mestre de direito cujas brilhantes teses, e de sentido único, nunca são acompanhadas por ninguém mais que julga os mesmos factos que ele? Quem é este pavão justiceiro que até consegue retirar à águia o brilho que, todavia, nós até lhe reconhecemos? Bye, Bye, Dr. Costa, volte lá para de onde nunca deveria ter saído.
4- Fantástico José Mourinho: ele e só ele derrotou o Barcelona. Não foi o Inter, porque o Inter é uma equipe banal, apenas com um grande guarda-redes e um excelente médio-esquerdo chamado Snejder. O resto são vedetas sem sustentação futebolística — como esse menino mal-educado que é o Balotelli, um jogador absolutamente vulgar, que eu, francamente, não consigo entender como é que merece de Mourinho mais atenção e mais oportunidades que o Ricardo Quaresma.
É sintomático que toda a critica tenha escrito que Mourinho anulou o Barça — jamais que o Inter fez um grande jogo. Não fez, nem nunca faz (talvez contra o Milan, no campeonato, e contra o Chelsea, em Londres). De resto, o futebol do Inter é tão entusiasmante como o Ricardo Costa a explicar as suas teses jurídicas: é um futebol incapaz de dar vida a um moribundo a quem prometessem mais dez anos de vida. Mas isso só torna mais notável o desempenho de José Mourinho: a sua capacidade única de estudar os adversários até à alma e de inventar maneira de os reduzir à impotência e o seu talento para juntar nove homens banais, acrescentados de dois ou três bons, e deles todos fazer uma equipe ganhadora. Mas, continuo na minha: de todas as equipes vencedoras de José Mourinho, a que melhor futebol jogava, que mais espectáculo dava, foi o F. C. Porto de 2003, que venceu em Sevilha a Taça UEFA.
PS: Ricardo Araújo Pereira lá prossegue a sua insana tarefa de meu arquivista particular e não nomeado. Desta vez, e para além do desejo reiterado de não me ver falar de árbitros (exclusivo de cronistas benfiquistas, como ele), realça a minha grande contradição por, em Julho passado, ainda a época não tinha arrancado e eu não tinha visto jogar ninguém, ter previsto que o F.C.Porto era outra vez o principal candidato ao título. O facto de, logo em Setembro e depois de ver o que já havia para ver, ter começado a escrever que o Benfica era a melhor equipe, à vista, não anula essa penosa contradição que ele me atribuí. Ao contrário dele próprio, a quem ninguém verá jamais um elogio ao futebol jogado pelo F.C.Porto (aliás, futebol, propriamente dito, é assunto que nunca o ocupa), ele acha que eu cometi o crime de não ter começado a elogiar o Benfica logo após o Torneio do Guadiana. OK: solenemente declaro, desde já, que o meu favorito para o ano é o Benfica. É o Benfica, é o Benfica.
Entretanto, agradeço ao arquivista ter-me lembrado que em Olhão, no jogo da primeira volta, o Cardozo só não foi para a rua porque o árbitro, enquanto caminhava para ele para lhe mostrar o vermelho merecido, lembrou-se do Benfica-Porto na semana seguinte e mudou o vermelho para amarelo. O Pedro Henriques também se lembrou do Porto-Benfica, mas, estranhamente, a consequência foi a oposta...