terça-feira, maio 31, 2011

ESTAVA RESERVADO O QUÊ? (04 MAIO 2010)

1- Estava reservado o primeiro título do Benfica conquistado no estádio do F.C.Porto. Estavam reservados os festejos na Praça do Município do Porto e de Lisboa, no Estádio da Luz, no Marquês de Pombal, em várias praças do país. Estava reservado o «avião dos campeões» e uma arbitragem à medida da festividade. Estava reservado mais um jogo contra dez durante grande parte do tempo e a confirmação de Cardozo como 'Bola de Prata'. Estava reservado o Bruno Alves como o vilão de serviço e a entrega pela Liga do troféu de campeão já no próximo domingo na Luz (o F.C.Porto só recebeu o de 2009 há quinze dias...). Estavam reservadas as eufóricas primeiras páginas dos jornais desportivos de Lisboa e o texto galvanizante do SIAP (Serviço de Informações Araújo Pereira).

Estava tudo reservado, mas esqueceram-se de um pormenor: avisar os ainda tetracampeões de Portugal de que eles seriam parte da festa. E esqueceram-se de avisar o Cardozo de que era preciso ter conseguido tocar na bola, uma vez que fosse, em lugar de ficar à espera do penalty habitual. E esqueceram-se de dizer ao Bruno Alves que marcar um golo cheio de estilo e no meio das «torres intransponíveis» do Benfica, passar o jogo inteiro sem deixar o Cardozo tocar na bola e sem fazer uma falta (uma única!), não é coisa que se faça aos anunciados campeões.

2- Não sei quando é que Olegário Benquerença dará por expurgado o crime de não ter visto o hipotético golo do Benfica ao Porto na Luz, já lá vão uns anos (e que, a ter existido, ele jamais poderia ter visto). Sei que, desde então, não se tem poupado a expiações sem fim, a última das quais anteontem. Mas, antes de inflectir o critério disciplinar, com chocante benefício dos anunciados campeões, Olegário tratou de mostrar — como já se tinha visto em San Siro, onde decidiu a sorte da meia-final da Champions — que está longe de justificar a chamada ao Mundial. Tal como em S, Siro, ele mostrou no Dragão que atravessa uma fase de deslumbramento que o faz achar-se mais importante do que o próprio jogo — o verdadeiro artista. E, tal como disse Jesualdo, mostrou pior ainda: que tinha medo do jogo. E, todavia, apanhou, no campo, um dos mais pacíficos jogos entre Benfica e F.C.Porto que me lembro: de parte a parte, não houve entradas a magoar, violência, jogo sujo, sururus, indisciplina dos jogadores. Mas, ele, valentão, quis «segurar o jogo»... contra as bancadas. E entrou num desvario de cartões amarelos, que só podia, inevitavelmente, conduzir à destruição do próprio jogo: os sete primeiros cartões amarelos que mostrou (e que prejudicaram mais o Benfica) não tiveram a menor razão de ser. Depois, foi a barbaridade do segundo amarelo a Fucile, e depois de o ter expulso por uma inventada simulação de penalty, perdoou duas vezes o amarelo a Di María que o fez duas vezes (e como habitualmente) e perdoou o vermelho directo a Luisão e Maxi Pereira. Entrou como um leão, saiu como uma águia. Fez o que pôde para estragar o jogo e só não falseou o resultado porque o F.C.Porto, farto de se ver prejudicado pelas arbitragens esta época, fez das tripas coração e foi em busca da vitória, dez contra onze. Espero que José Mourinho tenha visto o jogo. E Vítor Pereira também.

3- Como de costume em todos ou quase todos os jogos importantes desta época, Jorge Jesus tinha os 25 jogadores à disposição. Já Jesualdo, tinha quatro titularíssimos de baixa ou castigo cirúrgico: Helton, Ruben Micael, Varela e Falcão. Mas onde Jesualdo começou a ganhar o jogo, e contra vontade, foi, ironicamente, na baixa de Helton: como aqui tenho escrito, Beto mostrou, uma vez mais, que é muito melhor guarda-redes e transmite muito mais segurança do que Helton.

Grande erro de Jesualdo ao não ter substituído o Fucile, assim que viu o primeiro amarelo ser-lhe mostrado por Olegário Benquerença... por nada. Esse 'nada' é que era perigoso e fazia temer o pior: segundo 'nada' e Fucile foi para a rua. Era de prever.

4- Não foi um grande jogo, tecnicamente, mas foi jogado com emoção e com grande determinação da parte do F.C.Porto. Vitória mais do que merecida e um anunciado campeão que, jogando metade do jogo com um a mais, não conseguiu criar mais nenhuma oportunidade flagrante e ainda sofreu dois golos e viu mais um esbarrar na trave, com Quim batido. Foi uma pequena vingança pelas duas derrotas da época contra o Benfica e uma despedida do campeonato e do Dragão digna de campeões.

5- Já o Braga tinha levado lá 5-1 e eu mantenho-me na minha: não obstante a grande época do Sp. Braga, não obstante o grande trabalho de Domingos Paciência, não obstante a desigualdade de meios, o F.C.Porto, apesar de tudo, jogou o suficiente para mostrar que é bem melhor equipa que o Sp. Braga e, não fossem os incidentes de percurso — uns internos, outros externos — teria, pelo menos, garantido o segundo lugar. Disse Luís Filipe Vieira que o Hulk é o jogador que mais bolas perde no campeonato (natural, para quem percebe de futebol...), com isso querendo significar que a suspensão por dois meses não fez falta ao F.C.Porto. Infelizmente para a curiosa tese do presidente do Benfica, desde que ele voltou há nove jogos, o F.C.Porto só conhece um verbo: vencer.

Pelo que, é mais do que natural, mais do que legítimo, afirmar que quem conseguiu tirar o F.C.Porto da Liga dos Campeões do ano que vem (e, como se verá, em prejuízo do futebol português) foi o Sr. Ricardo Costa. Já o havia tentado com o «Apito Frustrado», agora conseguiu-o com o «Túnel Encantado». E mais uma vez o Braga ganhou um jogo com um erro de arbitragem, conjugado com uma oferta do adversário. Eu sei que é de bom tom enaltecer os pequenos face aos grandes — sobretudo se as vitórias dos pequenos são alcançadas à custa do F.C.Porto. Mas, se se derem ao trabalho de fazer a contabilidade dos pontos ganhos e perdidos com erros de arbitragem ao longo desta época, escusam de procurar outro motivo para o inabitual terceiro lugar do F.C.Porto.

6- Tenho um estranho sentimento: como aqui escrevi a semana passada, sinto uma grande admiração por José Mourinho, como treinador e como personalidade. Mas também, como já o escrevi, não é por ele ser quem é e, para mais, português, que consigo calar esta evidência: o futebol que ele vem apresentando — ainda no Chelsea e agora no Inter — é tudo aquilo de que eu não gosto.

Aconteceu-me mesmo esta coisa impensável: adormecer a ver o Barcelona-Inter, uma meia-final da Champions. Sim, eu sei: jogou em inferioridade numérica durante uma hora — talvez o melhor que lhe aconteceu para poder justificar aquela táctica de 9x0x0 — mas, como vimos anteontem no Dragão, isso não serve de desculpa para tudo. Não serve, sobretudo, para justificar esta inacreditável estatística: nenhum remate à baliza adversária, nenhum ataque digno desse nome, nenhuma vez em que o Inter entrou sequer na área do Barcelona (excepto se foi quando adormeci) e 57 passes certos contra 542! Ou seja, a defender-se, os jogadores do Inter nem sequer se preocupavam em tentar sair a jogar: era pontapé para a frente, dez dentro da área e fé em Deus. Mourinho conseguiu, de facto, uma proeza, porque aquela equipa não vale nada, não vale de certeza a final da Champions. E, por isso mesmo, a sua proeza tem ainda mais valor: ele anulou o futebol da melhor equipa do mundo, com um grupo de rapazes de pontapé para a frente. O que é triste é que não anulou apenas o futebol do Barcelona: anulou o próprio futebol. E eu não sei se isso é motivo de festejo.

7- Segundo rezam as crónicas, cinco mil benfiquistas esperaram de pé, na fila, durante duas ou três horas, para comprarem bilhete para o jogo da Luz da próxima e última jornada. Num dia de semana e em horário de trabalho. Presumo que não fossem reformados ou doentes, porque não aguentariam a espera em pé. Presumo que não estivessem todos com o subsídio de desemprego ou o RSI, ou teriam coisas mais prementes em que gastar o dinheiro. Presumo, enfim, que tenham gasto o tempo a dizer mal do F.C.Porto, do governo e da situação de falência económica e financeira a que «eles» conduziram o país.

domingo, maio 22, 2011

FALCAO, ÁGUIAS E OUTRAS RAPINAS (27 ABRIL 2010)

1- Pedro Henriques é um árbitro que, quando apareceu, prometia bem mais do que aquilo que viria a cumprir. Por razões que ignoro, o facto é que ele nunca passou de um árbitro banal, às vezes mesmo, pior do que isso até: acumula algumas limitações de julgamento, técnicas, com uma postura de vedetismo e autoritarismo que, não sendo qualidades em si mesmas, só podem tornar mais evidentes os defeitos. Nada é menos eficaz do que o autoritarismo sem a autoridade natural da competência. E, desta vez, quem pagou as favas foi Falcao — ou, como bem disse Jesualdo Ferreira, o espectáculo do Porto-Benfica que aí vem. Por desejo de protagonismo, por autoritarismo, Pedro Henriques resolveu tirar Falcao do clássico deste fim-de-semana, conseguindo ver numa mão em queda de um jogador em queda, depois de derrubado pelos adversários, uma atitude adequada para um cartão amarelo. Incompetência: essa mão na cara do adversário ou ele a julgava como acidental ou a julgava intencional — e então, seria uma agressão, que daria motivo para um vermelho directo, jamais para um amarelo. Exibicionismo: num jogo já decidido e sem história, Pedro Henriques não resistiu a entrar para a história como o árbitro que impediu que a luta pela Bola de Prata entre Falcao e Cardozo pudesse continuar a ser o único, rigorosamente o único, motivo de interesse que ainda resta neste campeonato. Nesse instante, de peito feito, ele achou-se importantíssimo, a suprema autoridade. Enganou-se e o seu engano é ridículo: Falcao faz falta ao espectáculo e, na disputa particular em que estava envolvido, é insubstituível; ele, não.

2- De qualquer maneira, não é justo mandar todas as culpas do desfecho da Bola de Prata para cima de Pedro Henriques. Jorge Jesus fez notar que a Bola de Prata é um troféu que já escapa ao Benfica há muitos anos — e que o Benfica adorava juntar este ano ao título de campeão, já entregue. E, como se tem visto e se viu outra vez este fim-de-﷓semana, estamos em ano em que o Benfica quer, o Benfica tem. Os jogos do Glorioso têm tido uma fatal tendência para serem marcados por uma série infindável de penalties a favor (que Cardozo lá vai transformando, mais mal que bem) e por expulsões dos adversários, que muito facilitam os desfechos. Cardozo leva uns dez penalties convertidos no rol dos seus golos acumulados, Falcao leva dois. Cardozo leva alguns golos validados em off-side (como o terceiro do seu hat-trick contra o Olhanense), Falcao leva quatro golos limpinhos anulados por falsos off-sides. Está uma passadeira vermelha estendida para que Óscar Cardoso leve a Bola de Prata, a de Ouro e a de Diamantes. Resta, como me confessava um benfiquista mais tranquilo que outros que por aí andam, que Falcao é muito melhor avançado e jogador do que Cardozo — como aliás percebe qualquer um que perceba de futebol. E eu, que até acho que Cardozo é um bom avançado e útil na sua missão, não pude deixar de concordar com este benfiquista, quando ele, recebendo a notícia do terceiro golo de Cardozo contra o Olhanense, comentou: «Se ele, além de marcar golos, soubesse jogar futebol, já estava no Real Madrid!».

Não impede que Radomel Falcao, tão a leste destas guerrilhas internas, foi roubado de um troféu individual que indiscutivelmente merecia e mereceu, pela época que fez, pelos golos que marcou e pelos que injustamente lhe anularam e pelo jogador que é. Falcao saiu do jogo de Setúbal em lágrimas por não poder jogar o seu primeiro Porto-Benfica; Jesualdo Ferreira foi expulso do banco pela primeira vez na sua carreira. E Pedro Henriques lá vai continuar igual.

E não impede que Vítor Pereira deveria ter mais pudor em não nomear para os jogos finais do campeonato os árbitros que o mundo inteiro sabe que levam uma mancha benfiquista no coração. Lucilio Baptista — um dos piores árbitros dos últimos anos do futebol português — já não tem margem para benefício da dúvida, quando arbitra o Benfica. Toda a gente o sabe, toda a gente o vê, já toda a gente sorri quando o vê actuar com o Benfica em campo. Desta vez e em apenas oito minutos, ele liquidou o Olhanense e nem sequer deixou qualquer hipótese de que o jogo se pudesse vir a complicar para o Benfica. Aos dois minutos, marcou pressurosamente um daqueles penalties de bola no braço que, em querendo, só não se assinalam aos manetas (e bem menos evidente do que o braço na bola com que Aimar amorteceu para marcar o quinto golo do Benfica). E, aos oito, aí já com razão, mostrou o segundo amarelo ao não-maneta do Olhanense e, com isso e o penalty inventado, o jogo ficou arrumado, tirando os fait-divers: o quarto golo em off-side, o quinto preparado com a mão. Viva o campeão e o Bola de Prata!

Consola-me pensar que em breve Lucílio Baptista gozará a sua justa reforma e Ricardo Costa a sua justa retirada de cena. Cumpridas as suas missões, elogiado o seu zelo em defesa da «transparência». E talvez, quem sabe para o ano, o campeonato se resolva exclusivamente dentro do campo e não haja protagonistas marginais ao jogo a cumprirem a sua penosa missão de retirarem de jogo os seus verdadeiros e melhores protagonistas. Um campeonato inteiramente jogado à luz do dia, longe das sombras dos túneis, dos tiques de autoridade de personagens menores e que nenhuma, nenhuma falta fazem ao futebol.

3- Ricardo Costa retira-se, aliás, com mais uma derrota na sua infatigável batalha contra o F.C. Porto: o Conselho de Disciplina não apenas revogou o seu «castigo» de mais três meses de silêncio a Pinto da Costa, como ainda lhe lembrou esta coisa evidente: quem é o Sr. Ricardo Costa para querer silenciar quem quer que seja? Quem é este Torquemada de trazer por casa que se acha mais importante do que a própria Constituição da República? Quem é este mestre de direito cujas brilhantes teses, e de sentido único, nunca são acompanhadas por ninguém mais que julga os mesmos factos que ele? Quem é este pavão justiceiro que até consegue retirar à águia o brilho que, todavia, nós até lhe reconhecemos? Bye, Bye, Dr. Costa, volte lá para de onde nunca deveria ter saído.

4- Fantástico José Mourinho: ele e só ele derrotou o Barcelona. Não foi o Inter, porque o Inter é uma equipe banal, apenas com um grande guarda-redes e um excelente médio-esquerdo chamado Snejder. O resto são vedetas sem sustentação futebolística — como esse menino mal-educado que é o Balotelli, um jogador absolutamente vulgar, que eu, francamente, não consigo entender como é que merece de Mourinho mais atenção e mais oportunidades que o Ricardo Quaresma.

É sintomático que toda a critica tenha escrito que Mourinho anulou o Barça — jamais que o Inter fez um grande jogo. Não fez, nem nunca faz (talvez contra o Milan, no campeonato, e contra o Chelsea, em Londres). De resto, o futebol do Inter é tão entusiasmante como o Ricardo Costa a explicar as suas teses jurídicas: é um futebol incapaz de dar vida a um moribundo a quem prometessem mais dez anos de vida. Mas isso só torna mais notável o desempenho de José Mourinho: a sua capacidade única de estudar os adversários até à alma e de inventar maneira de os reduzir à impotência e o seu talento para juntar nove homens banais, acrescentados de dois ou três bons, e deles todos fazer uma equipe ganhadora. Mas, continuo na minha: de todas as equipes vencedoras de José Mourinho, a que melhor futebol jogava, que mais espectáculo dava, foi o F. C. Porto de 2003, que venceu em Sevilha a Taça UEFA.

PS: Ricardo Araújo Pereira lá prossegue a sua insana tarefa de meu arquivista particular e não nomeado. Desta vez, e para além do desejo reiterado de não me ver falar de árbitros (exclusivo de cronistas benfiquistas, como ele), realça a minha grande contradição por, em Julho passado, ainda a época não tinha arrancado e eu não tinha visto jogar ninguém, ter previsto que o F.C.Porto era outra vez o principal candidato ao título. O facto de, logo em Setembro e depois de ver o que já havia para ver, ter começado a escrever que o Benfica era a melhor equipe, à vista, não anula essa penosa contradição que ele me atribuí. Ao contrário dele próprio, a quem ninguém verá jamais um elogio ao futebol jogado pelo F.C.Porto (aliás, futebol, propriamente dito, é assunto que nunca o ocupa), ele acha que eu cometi o crime de não ter começado a elogiar o Benfica logo após o Torneio do Guadiana. OK: solenemente declaro, desde já, que o meu favorito para o ano é o Benfica. É o Benfica, é o Benfica.

Entretanto, agradeço ao arquivista ter-me lembrado que em Olhão, no jogo da primeira volta, o Cardozo só não foi para a rua porque o árbitro, enquanto caminhava para ele para lhe mostrar o vermelho merecido, lembrou-se do Benfica-Porto na semana seguinte e mudou o vermelho para amarelo. O Pedro Henriques também se lembrou do Porto-Benfica, mas, estranhamente, a consequência foi a oposta...

quinta-feira, maio 19, 2011

DO TAGUSPARK AO ANNAPURNA (20 ABRIL 2010)

1- Nós, portistas, pertencemos a um grande clube: carregando o título de tetra-campeões, habituados que estamos a ganhar como ninguém mais nas últimas décadas e, arredados deste título, despedidos da Champions, humilhados na final da Taça da Liga e até já afastados da próxima edição da Champions (a não ser por via de um milagre), ainda conseguimos meter 20.000 num dia de semana no Dragão para assistir à meia-final da Taça, que já estava práticamente resolvida, e quase 30.000 quatro dias depois, para um jogo do campeonato, disputado 24 horas depois de se saber que o Braga havia ganho e, com isso, tinham morrido as ilusões de ainda poder lutar por um lugar na próxima edição da principal competição europeia. Porquê? Porque queremos ver o Falcao como melhor marcador da Liga, porque tínhamos saudades de ver o Hulk jogar e… porque gostamos de futebol e já só temos mais quatro ocasiões para ver a nossa equipa, antes que o pano desça sobre esta época triste.

Porque, quanto ao resto, já ninguém alimenta dúvidas: vamos ganhar a Taça, pese ao respeito que deve merecer o notável Desportivo de Chaves, que trouxe Trás-os-Montes ao Jamor. E acrescentaremos isso à Supertaça e a uma mais do que razoável presença nos oitavos-finais da Champions — que teria sido bem mais grata se não tem acabado com o massacre de Londres. Mas, o que nada nos pode consolar é deste tão pouco habitual terceiro lugar no campeonato — onde a equipa que nos vai ficar imediatamente à frente é formada, numa terça parte, por jogadores dispensados ou emprestados por nós. Arrancámos tarde na recuperação (assim que o Hulk foi liberto das garras do CD) e nem Benfica nem Braga cederam. E, agora, «les jeux sont faits»: o Benfica será campeão e o Braga irá tentar a improvável qualificação para a fase final da Champions. A nós, resta-nos a Liga Europa e a lição a extrair dos erros cometidos esta época.

2- Num artigo que me pareceu bem informado, o Diário de Notícias escreveu que a direcção do F.C.Porto «já decidiu quem são as estrelas transferíveis no final da época: Bruno Alves e Raul Meireles». Todos os outros, acrescenta o jornal, apenas serão transferíveis pela cláusula de rescisão. Com uma excepção notável: Hulk, cuja cláusula de rescisão é para inglês ver. Se a informação está certa, quer isto dizer que, tirando o Varela, que está lesionado, e o Álvaro Pereira e o Falcao (as únicas boas aquisições do último defeso), a SAD azul e branca está pronta a vender os outros jogadores que têm valor no mercado que interessa: Bruno Alves, Raul Meireles e Hulk.

Mas, como Pinto da Costa disse há dias que vai «engordar» e não «emagrecer» o plantel, isto aponta (se a notícia do DN está certa), para que o emagrecimento se faça onde não convém e a engorda onde não é recomendável. Ou seja, e como habitualmente: sairão dois ou três dos que interessam e ficarão todos os que não interessam- nem a nós, nem, obviamente, aos grandes clubes que pagam o preço pelo qual vale a pena vender. Depois, e se também se seguir a regra habitual, entrarão mais uma dúzia — dos quais dois serão bons ou aproveitáveis e o resto paisagem. E assim se engordará o plantel e a inimaginável folha salarial do clube, responsável pelos défices acumulados e pela necessidade, todos os anos repetida, de vender os bons jogadores para poder pagar aos maus. Oxalá, desta vez me engane, porque este filme já o vimos demasiadas vezes. E o que eu sei é que o Lisandro e o Cissokho estão nas meias-finais da Champions e o Lucho está à beira de ser campeão de França pelo Marselha, após dezoito anos de jejum…

3- Creio que não haverá mais do que três portugueses que acreditam, ou fingem acreditar, que Luís Figo é um notável inocente no negócio da Taguspark e da campanha eleitoral do PS, de que ele foi a peça central de toda a engrenagem. São eles José Sócrates, João Bonzinho e a magistrada do Ministério Público que acaba de deduzir acusação criminal contra todos os envolvidos, excepto Luís Figo.

José Sócrates, perguntado (há dois meses atrás) se os contornos do negócio que então já eram conhecidos não apontavam para um caso de utilização de dinheiros públicos para o financiamento da campanha do PS, declarou, ofendido, que «isso é uma infâmia! O Figo é um dos heróis da minha geração e o seu apoio foi totalmente desinteressado». Ele, pois, jurou acreditar que Figo (que, todavia, se declarara há tempos simpatizante da direita), afinal e em Outubro passado, teve um súbito rebate de consciência socialista. Para o qual, obviamente, em nada contribuiram os 750.000 ou 2 milhões de euros (na versão do Ministério Público) que a Taguspark lhe pagou. Que foi isso e só isso, esse rebate de consciência cívica, que o moveu a dar uma oportuna entrevista ao Diário Económico, com um rasgado elogio à governação de Sócrates (entrevista essa enviada previamente para aprovação do destinatário do elogio ou do seu staff de campanha) e a comparecer a um muito mediatizado pequeno-almoço com o PM, mesmo no final da campanha eleitoral.

Tudo não teria passado, como explicou João Bonzinho, de um banal contrato de publicidade ou venda de imagem, coisa que ele faz habitualmente. Embora, neste caso, excepcionalmente bem pago, a troco de um simples filme de publicidade, filmado numa tarde e jamais utilizado, e do compromisso de, uma vez por ano e durante três anos, comparecer em eventos públicos da Taguspark. Tudo pago por uma empresa com 100% de capitais públicos e a uma off-shore de que Figo é titular — sem impostos nem outros inconvenientes.

Também a delegada do MP, não querendo incomodar o cidadão Luís Figo — a quem, segundo João Bonzinho a Pátria tanto deve — conseguiu construir uma tão elaborada tese jurídico-penal que mesmo quem tem formação juridica vê-se às aranhas para tentar entender. Em resumo, ela descobriu um crime de corrupção em que os corruptores passaram a corrompidos, o corrompido passou a testemunha e assim ficou o crime de corrupção… sem corruptores. Uma originalidade, assaz imaginativa. E fundada, segundo ela, na crença que teve de que Luís Figo ignorava que a Taguspark fosse uma empresa pública: ignorava ele, o seu agente, o seu advogado, etc, etc. Todos, segundo o MP, acreditaram piamente que uma empresa que se dispunha a pagar 750.000 a 2 milhões de euros em troca dum pequeno almoço com Sócrates, e de um par de horas de filmagem no mesmo dia, podia ser, vejam lá, uma empresa privada, sem nenhuma relação com a política e agindo apenas, e tal como o próprio Figo, por um desvelado amor à Pátria e à governação de José Sócrates!
Eu penso que, de facto, não havia por onde incriminar Luís Figo. E não havia, porque ele, não sendo funcionário público nem sujeito a tutela pública, nunca poderia ser o «corrompido» de um crime de corrupção. Simplesmente, vendeu a imagem e, desta vez, não foi à Galp ou ao BPN, mas ao próprio governo em funções. Mas isso não é crime, nem havia crime algum de corrupção. Haveria, sim, talvez um crime de prevaricação ou semelhante ou de financiamento ilegal de campanha eleitoral, incriminando quem utilizou dinheiros públicos indevidamente. Porém e por razões que cada um presumirá como entender, quis-se ir para a hipótese mais gravosa — o crime de corrupção. E isso obrigou a uma ginástica jurídica que desembocou nesta fantástica fábula dos maus rapazes que, para prestarem um serviço ao «chefe», se aproveitaram da ignorância e da inocência de um cidadão patriota, convencido de que estava apenas a ganhar a justa paga pelo seu penoso trabalho e a exprimir as suas livres e judiciosas opiniões sobre os destinos da Pátria. Por favor, não venham tentar fazer de nós todos parvos!

4- Eu olho para o Eduardo, titular da baliza do Braga e da Selecção, e vejo o Ricardo II: a mesma agilidade nas defesas frontais, a mesma inépcia perigosa no jogo aéreo. E, tal como o Ricardo, raro é o jogo que lhe vejo em que ele não tem uma saída em falso ou comprometedora numa jogada pelo ar — mas, tal como o seu antecessor na baliza de Portugal, a sorte está quase sempre com ele. Esta semana não esteve e ofereceu assim um golo ao Leixões.

O mesmo digo do Helton, e esta semana, por opção e depois por lesão, o Beto substituíu-o na baliza do F.C.Porto, no jogo da Taça e no jogo do campeonato. E foi uma tranquilidade de há muito não vista: zero golos sofridos e alguns evitados e, acima de tudo, o espaço áreo dominado pelo guarda-redes, como deve de ser. Não tenho uma dúvida de que o Beto é muito melhor que o Helton. Mas, acima de tudo, por mais voltas que dêem, continuo convencido de que um guarda-redes que não domina o espaço aéreo que é seu, é um perigo à solta — por melhor que seja entre os postes.

5- Se ter jeito para um desporto e representar o seu país nesse desporto é ser patriota, então, para mim, patriota é o João Garcia, que acaba de entrar na lista dos dez únicos seres humanos que conquistaram as 14 montanhas que existem com mais de 8.000 metros de altura e sem recurso a oxigénio artificial. Sexta-feira, ele plantou a bandeira de Portugal no alto do Annapurna, depois de dezassete anos de esforços e sacrifícios para o conseguir. Com risco de vida, com marcas no corpo desde o Everest e sem receber um tostão do país para isso.

domingo, maio 08, 2011

UM DEUS NA RELVA (13 ABRIL 2010)

1- Lionel Messi é o futebol resgatado do seu lado submerso e mesquinho. Quando o vejo jogar, compreendo como tudo o resto é estúpido e quase me envergonho de perder ainda tempo a discutir túneis e árbitros com quem vê no futebol quase só uma guerra tribal e uma escola de ódios organizados. Messi tem cara de miúdo, envergonhado pelo seu génio e quase pedindo desculpa por ter de enver- gonhar os seus colegas de profissão, lá em baixo no relvado, onde ele faz com uma bola nos pés e à vista do mundo o que nós fazemos em sonhos ou imaginamos que será possível fazer. Lá, no alto da bancada, estão os figurões da bola, os que compram clubes como poderiam comprar cavalos de corrida ou iates de trinta metros, os que dirigem os clubes como coisa sua, explorando em benefício próprio a paixão dos adeptos ou o talento de jovens como Lionel Messi. De vez em quando, as câmaras de televisão desviam-se do relvado e de Messi e focam-se lá em cima, no que chamam a «bancada presidencial», onde os figurões se fazem tratar por «presidente» e olham de cima, como se fossem Césares contemplando os seus gladiadores.

Gosto do jeito de miúdo envergonhado deste deus dos estádios. Ele não tem tatuagens, nem brincos, nem exibe os peitorais para as câmaras, não discute com os árbitros em atitude de vedeta, não finge faltas que não sofre, mesmo quando as sofre, e não protesta, mesmo quando um caceteiro brutal como o Xabi Alonso tenta arrumá-lo do jogo à porrada. Nas férias, ele não é «flagrado» com «miúdas de programa», contratadas pelo seu agente de imprensa para prolongar a sua aura fora do estádio. Ninguém sabe como vive e o que faz quando não está a fazer o que interessa e o que nos deslumbra, que é a jogar futebol. E em nenhum momento, Messi se acha superior ao Barcelona, que o revelou ao mundo, ou se esquece da responsabilidade social, cultural, histórica, de representar a cidade de Barcelona e a Catalunha: esse foi o erro de apreciação de Luís Figo. Jamais veremos Messi a ser alvejado com moedas ou cabeças de porco. Ele não joga por dinheiro, joga porque recebeu um mandato divino para o fazer.

Na terça-feira, Lionel Messi destroçou o Arsenal, num jogo de futebol que quem viu nunca esquecerá; no sábado, abriu caminho à lição de futebol que o Barcelona de Guardiola — provavelmente a melhor equipa que jamais existiu — foi dar a Chamartín, reduzindo a pó a soberba de um exército de vedetas comprado a peso de milhões, mas onde faltam exuberantemente a humildade, o profissionalismo e a generosidade. O olhar triste de Iker Casillas, o capitão do Real Madrid, no final do jogo, dizia tudo: ele percebeu que os milhões gastos a comprar os colegas que jogam à sua frente não tinham feito do Real uma equipa, no verdadeiro sentido da palavra. É por isso que eu gosto tanto de ver os grandes, como o Real, ou o Manchester, ou o Milan, a perder. Para tentar acreditar que o dinheiro não faz toda a diferença.


2- Com duas sessões de Barcelona e Lionel Messi em poucos dias, fica difícil descer à terra e falar do futebol de um planeta satélite. Lá vi o Benfica a perder em Liverpool, reclamando do cansaço (o que até poderia ser desculpa razoável contra outra qualquer equipa, não contra uma das equipes de topo inglesas, que jogam 60 jogos por época). O Liverpool destroçou o Benfica como qualquer grande equipa inglesa destroça normalmente as portuguesas. Com futebol directo, velocidade, desmarcações, cruzamentos, remate fácil e muito treino. Riram-se muito quando o F.C.Porto levou cinco do terceiro classificado do campeonato inglês, mas mesmo o tão louvado Benfica deste ano mostrou estar a milhas do sexto classificado de Inglaterra. A verdade é essa: o dinheiro não faz toda a diferença, mas sempre faz muita.


3- Hoje à noite, o Benfica, se olharmos para a tradição, não é favorito contra o Sporting, mesmo na Luz. Pode muito bem perder pontos, dois ou três, e reabrir a luta com o Braga. Mas, acredito, apenas isso: reabrir a luta, nada mais.

E o Braga lá ganhou mais um jogo, como habitualmente: uma dose de sorte, outra de capacidade defensiva a disfarçar um futebol de ataque muito mau, muito esforçado, muito sem talento. Dois golos marcados de seguida — um oferecido pelo guarda-redes, outro oferecido por um defesa — e mesmo assim concluído com um remate falhado que encontrou a baliza. Será que consegue ir assim até ao fim?

Ao F.C.Porto fez mal jogar depois de saber o resultado do jogo do Braga, porque isso tirou a motivação aos jogadores. Pior ainda foi a absurda decisão da RTP de o pôr a jogar num horário quase coincidente com o do Real Madrid- Barcelona. Enfim, lá ganharam, cumprindo os mínimos. Resta ganhar a Taça e encerrar uma época de má memoria, que se começou a perder no saldo de comprar e vendas do final da época anterior. Disse Pinto da Costa que, para o ano, não se repetirão erros e ingenuidades como os túneis e outros mais, não nomeados. Eu espero bem que sim e que, entre os erros não nomeados mas directamente responsáveis pelo fiasco desportivo e financeiro, não se repita o erro de deixar o dr. Adelino Caldeira meter o nariz nas contratações e negócios de compra e venda de jogadores. Que se recuperem alguns talentos que se andam a perder entre as dezenas de jogadores emprestados que sobrecarregam, sem contrapartida alguma, a folha salarial do clube, trocados habitualmente por negócios sul-americanos sem sentido — para dizer o mínimo. Pelas minhas contas, a «limpeza de activos» que visivelmente se recomenda para a época seguinte, inclui nada menos do que uns catorze jogadores a despachar.


4- Disse Pinto da Costa também que se vai recandidatar ao 14.º, 15.º ou 16.º mandato — já lhes perdi a conta. E disse que só o faz, porque este foi um ano falhado — porque, se tem chegado ao «penta» prometido a Pedroto, ia-se embora.

Ora, escusava de ter explicado: se a sua vontade era mesmo essa, deveria tê-lo dito antes — no início da época, por exemplo. Assim, acredita quem quiser. Eu, pessoalmente, acredito, sim, que, para o bem e para o mal, ele jamais de lá sairá pelo seu pé. Como então o escrevi, ele teve, como poucos têm, uma oportunidade rara de ter saído em ombros e ter deixado o seu nome para sempre, como o de um vencedor. Foi em 2004, depois de ter ganho a Champions e de ter sido campeão nacional. Teria saído então, deixando o clube campeão europeu, com um estádio novo e maravilhoso e um excedente financeiro, resultante da venda de parte da equipa campeã europeia, que teria dado para pôr o défice a zero. Mas não quis, o que também foi legítimo. Só que agora corre atrás da História, convencido, ou talvez não, que se consegue entrar num comboio em andamento depois de se ter falhado o embarque com ele parado. Deve-lhe custar ver o exemplo de Laporta, no Barcelona: ganhou, tudo, absolutamente tudo o que havia para ganhar, e agora vai-se embora, pela porta grande. As grandes instituições são sempre maiores que qualquer homem.


5- No auge do campeonato, Leixões e Belenenses conseguiram ambos roubar preciosos pontos ao F.C.Porto, arrancando dois empates (o Belenenses no Dragão) pelo método do autocarro e do anti-jogo. Vendo-os jogar então, e confirmando que ali estavam, sem dúvida, as duas piores equipas do campeonato, fiquei a pensar de que lhes teria servido aqueles exercícios de anti-futebol, saudados como triunfantes vitórias. «Se ao menos — pensei para comigo — jogassem assim também e fizessem o mesmo ao Braga e ao Benfica…!». Mas não, não fizeram. Continuaram a jogar mal e nada mais. Agora, vão os dois para a segunda divisão. Confesso que não tenho pena alguma: não por terem roubado pontos ao F.C.Porto, mas por o terem feito da forma que o fizeram e apenas com o F.C.Porto.

terça-feira, maio 03, 2011

PARA ACABAR DE VEZ COM OS TÚNEIS (06 ABRIL 2010)

1- O único jornal desportivo que leio diariamente, excepto em circunstâncias excepcionais, é este. Não só porque aqui colaboro, mas porque A BOLA é o meu jornal desportivo desde a infância — e aquilo que mais me custa é mudar de hábitos quando não vejo razão para o fazer. Tudo o que sei, pois, sobre o acórdão do CJ li-o aqui na BOLA. E, assim sendo, não posso deixar de reclamar por ter sido necessário Pinto da Costa dizê-lo na televisão, para eu ficar a saber que o acórdão do CJ que desautorizou em toda a linha a pífia doutrina jurídica do CD e de Ricardo Costa, foi outorgado por unanimidade dos sete membros-juízes. Por unanimidade! Dos sete votantes! Acho mal que este jornal, que pela pena do José Manuel Delgado, logo no dia seguinte começou a contestar a sentença do CJ, chegando ao ponto de atribuir a demissão de Hermínio Loureiro à presumida indignação que tal sentença lhe terá causado, se tenha abstido de nos dar essa pequena-fundamental informação: que nem um só dos sete membros do CJ subscreveram a tese jurídica/desportiva de Ricardo Costa e José Manuel Delgado.

Mas, a este propósito, a desinformação tem sido mais do que muita. Por exemplo: os «justiceiros» acusam o CJ da absurda tese de considerar os stewards iguais aos espectadores, para efeitos disciplinares. Ora, isso é falso. O acórdão não diz tal coisa: diz sim, que não sendo a lei explicita em qualificar quem são os agentes desportivos e sendo absurdo considerar os stewards como tal, havendo necessidade de punir uma agressão sobre eles, a solução menos chocante é equipará-los aos espectadores, para esse efeito, e para esse efeito apenas. Mas, vendo aí uma tábua de salvação, logo vieram os «justiceiros» lembrar o caso de Eric Cantona e a sua célebre agressão a um espectador, durante um jogo do Manchester United. E, perguntam, muitos espertinhos: então o Cantona agrediu um espectador e levou sete meses e o Hulk e o Sapunaru agridem um equivalente a espectador e levam só três e quatro jogos?

Quem assim argumenta está de má-fé e denuncia-se. Eles não querem, nem nunca quiseram, defender uma justiça que todos compreendam e que se faça respeitar. A única coisa que querem é dar largas ao seu ódio ao F.C.Porto, seja com que pretexto e com que método for. Para eles, a noção de justiça — desportiva ou comum — é simples: se é contra o F.C.Porto, eles aplaudem; se é a favor, é porque está também corrompida e pactua com o «sistema que vigorava» (já não vigora, desde que o Benfica passou para a frente). Se o Dr. Ricardo Costa condena o F.C.Porto e o seu presidente por factos que considerou provados no Apito Dourado, sim senhor, até que enfim que se faz justiça! Mas se, depois, quatro tribunais e seis magistrados judiciais consideram os factos não provados, a testemunha principal perjura e os absolvem, é porque infelizmente os juízes não tiveram coragem. Se o Dr. Ricardo Costa descobre uma nova categoria de «agentes desportivos» e com isso arruma o Hulk e o Sapunaru do campeonato, ah grande homem, que não tem medo de enfrentar o «sistema» e fazer Justiça! Mas se, depois, vêm os sete membros do CJ dizer-lhe que tenha juízo e não invente o que não está na lei, é porque ainda há resquícios do «sistema» encravados lá dentro. Um só homem — o Dr. Robin Costa — é que representa a justiça, contra tudo e contra todos!

Quem viu as tão faladas imagens do túnel da Luz e se lembra da imagem da agressão do Cantona sabe que os «justiceiros» só podem estar de má-fé. Nas imagens da Luz pouco mais se percebe do que uma molhada de gente, toda junta, empurrando-se e, eventualmente agredindo-se (a propósito: segunda-feira foi publicada aqui uma curiosa fotografia em que se vê o Hulk inclinado para trás e apoiado pelo Sapunaru, aparentemente acabado de receber ou tentando evitar uma agressão a murro de um segurança que se vê de punho estendido para ele. Quererão republicá-la e explicá-la?). Quanto ao Cantona, quem se lembra, recorda de certeza a extrema violência do gesto do francês, saindo do campo para enfiar um pontapé de karatê na cara de um espectador sentado na primeira fila da bancada, à vista de todo um estádio e todo um mundo televisivo. É preciso fazer da justiça uma palhaçada para defender a semelhança das situações, da sua gravidade e das respectivas punições.

Não querer ver isto, tentar fazer-nos acreditar que o que quer que se tenha passado entre os jogadores do F.C.Porto e os seguranças do Benfica no túnel da Luz justificava a mais grave punição disciplinar de sempre do futebol português, é pura desonestidade intelectual. Achar normal e justo que um dos melhores jogadores do campeonato ficasse, por causa disso, impedido de jogar durante quatro meses, é tirar a máscara do fair-play e da «moralização do sistema» e mostrar que se está pronto para ganhar a qualquer custo e de qualquer maneira. E esconder a mão atrás de uns regulamentos simplesmente imbecis, mas que, apesar disso e como se demonstrou, não permitiam a despudorada ginástica jurídica levada a efeito, é um exercício de hipocrisia indisfarçável.

De há muito que defendo que o futebol deveria ter um tribunal desportivo, que se substituísse à Comissão Disciplinar, e que julgasse pela equidade e pela jurisprudência, em substituição de regulamentos idiotas, feitos por juristas incompetentes e aprovados em Assembleias-Gerais onde mais de metade dos votantes nem percebe o que está a votar. Esse tribunal julgaria apenas e só segundo critérios de equidade e de justiça — de forma simples, expedita e que todos pudessem entender e aceitar. O Cantona saíu do campo para agredir um espectador que pagou bilhete para ver o jogo, deu-lhe um pontapé de uma violência inaudita, enfiando com ele no hospital, com um traumatismo craninano — sete meses de suspensão, porque aquilo, de facto, foi chocante e inqualificável. O Hulk envolveu-se no túnel, à vista de uma dúzia de pessoas, com um segurança que o provocou e que ali não deveria estar e, dizem os autos, enfiou-lhe um pontapé no traseiro — três jogos de suspensão e, pessoalmente, já acho um exagero (é bem mais grave partir a perna a um adversário, no campo). Esta justiça, todos compreenderiam e teriam de aceitar, e não seria preciso andar a discutir interpretações de regulamentos nem ficar dependente das fúrias justiceiras de um qualquer iluminado ou da composição clubística dos órgãos de justiça. Só haveria um problema e inicial: para que o tribunal pudesse julgar casos iguais de igual forma, seria preciso que antes tivesse sido estabelecida doutrina pacífica e clara. E, para isso, a primeira composição do tribunal, que julgaria então apenas segundo a equidade, seria decisiva. Seria necessário que os «Founding Fathers» desse tribunal fossem absolutamente prestigiados, insuspeitos e justos — para assim criarem jurisprudência, que os seguidores depois teriam de acatar. Mas, caramba, não seria possível encontrar cinco cidadãos justos e honestos disponíveis para inaugurarem esse tribunal?


2- Nas últimas jornadas, o F.C.Porto perdeu quatro pontos por erros de arbitragem contra Olhanense e Paços de Ferreira, ambos no Dragão. Acontece. Também acontecem arbitragens ainda mais infelizes que acabam a decidir jogos — como a de Artur Soares Dias, um dos mais promissores árbitros que temos, no Braga-Guimarães. Mas, se não têm acontecido esses três incidentes de percurso (e apenas falo dos recentes), o F.C.Porto estaria agora, não a cinco pontos de distância do Braga, mas sim com um ou dois de vantagem. E se o Braga estivesse ainda a discutir o campeonato com o Benfica e não já apenas a ida à Champions com o F.C.Porto, a arbitragem do jogo com o Guimarães teria incendiado o país. Convém, todavia, notar que o Benfica pode somar outra grande vitória à conquista do título: evitar que o F.C.Porto vá à Champions. Se isso suceder, os portistas perdem desde logo uma receita mínima previsível de 12/13 milhões de euros, que muito jeito dará para reforçar a equipa dos Guaríns e Valeris. E se, como eu prevejo, o Braga, ficando em segundo lugar, não sobrevive às eliminatórias da Champions, isso significa que o Benfica faz sua toda a receita dos direitos televisivos, sem ter de a dividir a meias com outro clube português participante na competição. Há que estar atento, Sr. Vítor Pereira.


3- E, por falar em arbitragens, também não me importava mesmo nada que, para o ano na Europa, o FC Porto encontrasse arbitragens tão, tão, tão simpáticas como a que o Benfica encontrou contra o Liverpool.

sábado, abril 30, 2011

UM TRIBUTO A BRUNO ALVES E A LIONEL MESSI (30 MARÇO 2010)

1- Muito raras vezes vi um jogador de futebol fazer um percurso tão extraordinário quanto Bruno Alves. Quando, há uns anos, o então inofensivo Benfica quebrou um jejum de largos anos e ganhou no Dragão por 2-0, Bruno Alves estava praticamente a ensaiar os seus primeiros passos no F.C.Porto e a sua prestação foi má demais: teve culpas num golo, ofereceu outro e acabou expulso depois de agredir Nuno Gomes, num acesso de descontrolo. Achei então que não havia futuro para ele no F.C.Porto. Mas - e com Jesualdo Ferreira - ele soube contrariar um destino que parecia traçado: em dois ou três anos, transformou-se num dos melhores centrais do mundo. É inigualável em poder de impulsão e jogo aéreo, inultrapassável em entrega ao jogo e atitude competitiva, e brilhante na ocupação do espaço que defende e na leitura da construção do jogo de trás para a frente. É verdade que muitas vezes se excede na forma como entra às jogadas e aos adversários, mas só quem nunca jogou futebol e nada entende do jogo pode confundir isso com violência ou anti-jogo. Muitos outros que aí estão, bem menos exuberantes e generosos na entrega ao jogo, procuram, não a bola, mas as canelas dos adversários, à socapa, disfarçadamente, cobardemente - mas magoando e deixando mossas. Ele, não: nunca partiu a perna a um adversário (o Mossoró ou o Anderson que o digam…), nunca remeteu alguém para o estaleiro e passa jogos inteiros (que ninguém repara) sem cometer uma única falta. Sim, tem mau feitio a jogar - mas nisto, como em tudo o resto, eu prefiro mil vezes as pessoas com mau feitio e bom carácter do que o oposto. Também John McEnroe, que foi o maior tenista de todos os tempos, tinha mau feitio e era perseguido pela imprensa politicamente correcta - que hoje o venera como comentador e lenda viva do ténis que valia a pena ver.

As virgens pudicas que por aí proliferam quiseram, uma vez mais, crucificar Bruno Alves pela sua actuação no Algarve. Eu vi e revi os tão citados quatro lances em que dizem que ele deveria ter sido expulso e em nenhum deles vi jogo subterrâneo e sujo, vontade deliberada de aleijar o adversário (excepto, no ultimo, uma tentativa de intimidação). Vi, sim, excesso de atitude e de entrega, raiva pelo decurso do jogo. Reacções condenáveis e decerto puníveis, mas não mais do que isso. Não mais do que o desespero de um vencedor perante a derrota, como quando apontou para o emblema do clube e mostrou os quatro dedos, um por cada campeonato que ele e os seus companheiros conquistaram - e que deveriam merecer mais respeito das indignadas virgens. Primeiro, diziam que ele já não se entregava à defesa da camisola que veste porque o clube o não deixou sair; mas depois, e afinal, é de excesso de entrega que é acusado. Mas em Junho próximo, quando ele estiver vestido com as cores da Selecção, o País vai torcer para que Bruno Alves seja igual a si próprio e para que todos os outros se entreguem ao jogo como ele. E se, depois do Mundial e como tantos desejam, ele sair mesmo para o estrangeiro, aí vira herói nacional e a mesma imprensa que agora o massacra vai passar a idolatrá-lo. Tão certo como eu me chamar Miguel. Força, Bruno, não se preocupe: ao contrário do que possa parecer, as vozes de virgens não chegam ao céu.


2- Numa noite cinzenta e chuvosa de Novembro de 2003, assisti ao vivo à inauguração do Estádio do Dragão e ao baptismo no futebol sénior de um miúdo argentino de 17 anos, chamado Lionel Messi, que nessa noite se estreou pelo Barcelona. Dois anos e meio depois, na antevisão do Mundial da Alemanha e respondendo a um inquérito da A Bola junto dos seus colunistas sobre quem iria ser o melhor jogador do Mundial, eu respondi Lionel Messi. Mas o seleccionador argentino não comungava do meu entusiasmo e deixou Messi sentado no banco, até a Argentina ser enviada para casa, sem honra nem glória. Em 2009, no auge da Ronaldofobia, atrevi-me a escrever aqui um texto ao arrepio da histeria patriótico-futebolística herdada do consulado de Scolari, dizendo que, perdoassem-me pelo crime de lesa-pátria, mas, apesar de achar que Cristiano Ronaldo era, indiscutivelmente, um fora-de-série, para mim, o melhor jogador do mundo chamava-se… Lionel Messi. Com um ano de atraso, finalmente, lá vi os crânios que entendem disto concordarem comigo. Foi preciso que Messi tenha marcado um «golo à Maradona» e que tenha ganho a Liga dos Campeões — porque parece que não pode haver títulos individuais sem títulos colectivos, o que julgo bastante redutor (foi assim que o banal Canavarro conseguiu ser eleito o melhor do mundo em 2007, só por ter sido campeão do mundo pela Itália).

Agora, que Messi assinou um segundo «golo à Maradona» e dois hat-tricks seguidos na Liga espanhola, intervalados por dois golos num jogo da Liga dos Campeões, discute-se se ele não será mesmo o melhor jogador de todos os tempos. Tem apenas 24 anos e muito tempo para manter viva a discussão. Mas, se é preciso responder já à pergunta, a minha resposta é que provavelmente sim. O melhor jogador que eu alguma vez vi jogar, o mais completo, o mais genial e regular na sua generalidade, foi Johan Cruyff. Maradona era mais espectacular, mas menos eficaz, Pelé e Eusébio mais instinto e talento bruto, mas menos inteligência de jogo. Mas, se pensarmos em como os espaços eram maiores, o ritmo mais lento e as marcações menos impiedosas, talvez nenhum deles conseguisse fazer o que Messi hoje faz. Ele integra-se no jogo a uma velocidade instantânea, que os defesas não conseguem acompanhar, e é capaz de decidir, em cada instante, se joga para a equipa ou se joga sozinho, direito ao golo. E, quando opta pela solidão e pela investida direito à baliza adversária, quando tira partido de cada centímetro vago e de cada subtil desequilíbrio do defesa à sua frente, o pequeno Messi cresce à dimensão de um dançarino de tango no bairro de Palermo, Buenos Aires. Parece empurrado pelos deuses, senhor de um destino que ninguém, nem ele mesmo, consegue já travar. Na verdade, não sei se algum dia voltaremos a ver um jogador como ele. Deus proteja Lionel Messi!


3- Ouvi o António-Pedro Vasconcelos falar do «começo do hooliganismo» a propósito dos incidentes com os Super Dragões no Algarve. Deve estar a brincar: se há algum marco histórico para isso, o hooliganismo por cá começou quando um adepto do Benfica matou um do Sporting numa final da Taça, lançando um very-light direito à claque sportinguista. Continuou quando uma das claques benfiquistas foi buscar o material armazenado no Estádio da Luz e invadiu um autocarro com a equipa de hóquei em patins do F.C.Porto lá dentro, agredindo os jogadores com bastões e tacos de basebol e deixando um jogador em coma. E continuou ainda quando dois adeptos sportinguistas morreram quando desabou um varandim de Alvalade onde estavam a apedrejar o autocarro do F.C.Porto - continuando depois a apedrejar o médico do F.C.Porto que assistia os adeptos sportinguistas caídos no chão. Ou quando o carro do presidente do F.C.Porto e o autocarro do clube foram emboscados e apedrejados há poucas semanas, num viaduto da A-5, a caminho do Estoril, para um jogo da Taça da Liga. Por onde tem andado o António-Pedro?


4- O «jogo do título» foi previsivelmente táctico e fraco do ponto de vista futebolístico. Ganhou a única das duas equipas que tem cultura de futebol de ataque - e, sem atacar, dificilmente se voa até ao topo. O melhor de tudo foi, de longe, a arbitragem de Pedro Proença e os seus auxiliares: firme mas tranquila, isenta, personalizada, sem alardes. Um único senão: a falta de um amarelo a Di María, por tantas e tão impudicas simulações de faltas e agressões, iniciadas logo aos 4 minutos.


5- Hulk voltou em grande estilo: um golo e três assistências para golo - a última das quais anulada sem motivo sequer aparente (e já lá vão quatro golos limpinhos anulados ao Falcão - assim é difícil ganhar a Bola de Prata!).

Já disse, e não volto atrás, que seria injusto e até pouco sério especular sobre o que teria sido o campeonato se o dr. Ricardo Costa não tem resolvido ser parte decisiva nele: o melhor futebol visto ao longo do ano foi do Benfica e ponto final. Mas não posso deixar de dizer que acho simplesmente indecoroso que tantos arautos da «verdade desportiva» tenham gasto tanta energia e tanta inteligência a tentar convencer-nos que um pontapé no traseiro de um steward infiltrado no túnel da Luz, como agente provocador, merecesse quatro meses de suspensão daquele que é (para quem gosta de futebol…) um dos jogadores emocionantes do nosso tão pouco emocionante campeonato. Espero voltar ao tema em breve, mas, por ora, só queria registar isto: a prestação de Hulk no Restelo foi a única coisa que correu mal ao Benfica, no fim-de-semana passado. Agradeçam ao dr. Ricardo Costa.

terça-feira, abril 19, 2011

QUAL SERÁ O PRÉMIO DOS SRS. ADMINISTRADORES, ESTE ANO? (23 MARÇO 2010)

1- Filmados lado a lado no final do jogo, no Estádio do Algarve, Pinto da Costa e Adelino Caldeira eram a imagem exuberante da derrota. Não apenas da derrota no jogo, na Taça da Liga ou na época toda, mas da derrota inapelável de um modelo de gestão que consiste em destroçar a equipa todos os anos, vendendo todos os grandes jogadores para comprar carregamentos de indigentes futebolistas sul-americanos.

Agora, que tanto se fala dos prémios dos gestores, públicos e privados, e que os actuais dirigentes da SAD do F.C.Porto estão a explicar em tribunal a legitimidade de prémios auto-atribuídos há anos atrás, vale a pena levantar a questão que já aqui levantei há tempos: se os administradores da SAD do F.C.P. recebem prémios quando o clube gera lucro (o que acontece uma vez por década) e também o recebem quando o clube gera prejuízo mas obtém vitórias desportivas, o que deverão eles fazer quando, como vai ser o caso, acumulam prejuízos financeiros e desaires desportivos? A mim, parece- me que deveriam reembolsar o clube dos prémios recebidos anteriormente. Ou isto é uma gestão por objectivos, mas sem riscos?

O que eles vão fazer, porém, já todos sabemos: apresentar aos sócios a cabeça de Jesualdo Ferreira, para assim tentarem desviar as atenções dos erros próprios de que são responsáveis. Jesualdo aguentou até onde pôde e até ganhou três campeonatos com equipas refeitas cada época. Mas bastou que o Benfica abrisse os cordões à bolsa, para que os contentores de argentinos do dr. Caldeira mostrassem a sua total impotência, não apenas para manter a hegemonia, mas para lutar de igual para igual.

É verdade que Jesualdo parece, ele próprio, perdido já. A sorte não o tem ajudado este ano (25 jogadores lesionados ao longo da época num plantel de 28, Hulk emboscado no túnel da Luz e afastado num momento crucial, e a própria sorte dos jogos decisivos, tudo tem estado contra ele). No Algarve, a história de Alvalade e Londres repetiu-se, quase igual: um golo oferecido logo aos 9 minutos, no primeiro remate do Benfica, e outro, no segundo remate, também a 50 metros e à beira do intervalo, dão cabo de qualquer estratégia e qualquer ânimo. Mas quem é que o manda meter o Nuno à baliza, numa final? Já Mourinho tinha feito o mesmo, numa final do Jamor, em 2004 e pagou isso com a derrota - e já então, o guarda-redes suplente que avançou chamava-se... Nuno. Eu conheço a explicação, mas ela não faz sentido algum: o Beto mostrou que estava em condições de substituir o Helton e é, como todos sabemos, muito melhor guarda-redes que o Nuno. Os sócios, os que pagam quotas e lugares cativos, querem é vitórias e essas conseguem-se com os melhores jogadores a jogar e não com aqueles que têm direito estabelecido a uma atenção especial do treinador. E, depois, se Jesualdo percebeu que tinha de tirar o Rúben Micael ao intervalo (desaparecido em combate há um mês), estando, ainda por cima, a perder por 2-0, qual foi a ideia de meter o Valeri, em lugar do Orlando Sá, para terminar com a solidão pungente do Falcao? Ó professor, o sr. ainda não entendeu que o Valeri não serve nem para marcar cantos?

Concedo que o Benfica não mereceu, de forma alguma, uma vitória por 3-0: nada fez por isso, ela caiu-lhe ao colo. Num jogo mau de mais, jogou tão mal ou quase quanto o F.C.Porto. Mas era ao F.C.Porto que cabia a despesa do jogo, apesar de jogar em ambiente hostil e apesar da notícia terrível da lesão do Varela. Sobretudo, depois que Jorge Jesus fez o favor de ter dispensado de início o Saviola e o Cardozo — com isso pretendendo não apenas poupar uma equipa muito mais desgastada, mas também, quero crer, para compensar as ausências de Hulk e Varela no F.C.Porto e assim jogar com armas iguais.

Ao contrário do que disse Jesualdo no final, o F.C.Porto não teve «uma atitude à F.C.Porto». Quem a teve, em parte, foi o Benfica — e foi isso que fez a diferença. O F.C.Porto não teve nem atitude nem futebol. Nem crença nem ciência. É uma equipa em queda a pique.


2- Em Marselha, sim, o Benfica teve uma verdadeira «atitude à F.C.Porto» e Jorge Jesus teve qualquer coisa de Mourinho, na confiança que soube dar aos jogadores, na coragem durante o jogo e no conhecimento perfeito do adversário que revelou ter. Eu tinha apostado com amigos na vitória do Benfica (e na eliminação do Sporting...) e não fiquei surpreendido. Claro que o Benfica é melhor equipa que o Marselha, mas isso, às vezes, não quer dizer nada — o F.C.Porto também é melhor equipa que o Sporting e levou 3-0 em Alvalade... Apostei na vitória do Benfica exactamente pela atitude de conquista e vitória que tem mostrado ao longo de toda a época e que, há muito, muito tempo, ninguém lhe conhecia. Isso, mais a capacidade incrível de atacar em velocidade e em segundas vagas consecutivas, é o que mais me impressiona no trabalho de Jorge Jesus. Junto-lhe a ausência de arrogância de que tem dado mostras ao longo da época e a regeneração de jogadores por quem eu não dava muito, e confesso que ele me surpreendeu e imenso. Pena aqueles gestos desnecessários e que tão mal lhe ficaram durante o Benfica-Nacional... Mas ninguém mais do que ele merece o título que aí vem.


3- E, assim, para grande irritação de alguns portistas, reafirmo, uma vez mais, os elogios que tenho feito, desde o início da época, ao futebol jogado pelo Benfica. Isso não me incomoda nada: acima de tudo, gosto de futebol e tento (sabendo que muitas vezes o não consigo) ser justo com o que vejo.

O que me incomoda, sim, é que os elogios aproveitem a tantos benfiquistas que os não merecem. Daqueles que, inversamente, nunca foram capazes de reconhecer mérito às vitórias portistas dos últimos anos e que agora estão empenhados em mostrar que têm tão mau vencer como antes tinham mau perder. Para não ir mais longe, fico-me por dois cronistas benfiquistas deste jornal: Sílvio Cervan e Araújo Pereira. As suas crónicas são um permanente incitamento ao ódio anti-portista, uma viscosa repetição do jogo de ressabiamentos e suspeitas permanentes com que alimentaram anos a fio a sua incapacidade de ganhar — uma doença contagiosa e malsã. Ainda esta semana, em lugar de celebrarem justamente a vitória de Marselha, ambos preferiram lançar as habituais suspeitas prévias sobre o árbitro do jogo do Algarve — que, por acaso, foi o primeiro classificado dos últimos dois anos (o Araújo Pereira chegou ao ponto de afirmar que ia haver um Super Dragão à solta no relvado). E o mesmo tipo de discurso adequado a acirrar os ânimos andou a fazer, uma vez mais, o presidente do Benfica — perante o silêncio absoluto, já habitual e que se recomenda, do lado do F.C.Porto. E depois «escandalizam-se» se as claques (que eles protegem e incentivam) proporcionam aqueles espectáculos degradantes que afastam do futebol os que lá vão para se divertirem, verem um bom jogo e vibrarem com o seu clube.


4- É, como disse, uma doença contagiosa e que, pelos vistos, também infecta os autoproclamados «cavalheiros». Viu-se agora com as declarações irresponsáveis do dirigente sportinguista Salema Garção, que culminaram na forma como as claques verdes receberam os adeptos do Atlético Madrid, em Alvalade: à pedrada. Mesmo que Alvalade não venha a ser interditado pela UEFA, a mim parece-me que tarda a demissão de Salema Garção — e por iniciativa própria. Eu conheço quem tenha deixado de ir ao jogo depois de ouvir na rádio o relato dos incidentes estimulados pelo dirigente sportinguista. E, salvo melhor opinião, não é para isso que servem os dirigentes.


5- Desta vez, Fernando Mendes concretizou: disse ao «Diário de Notícias», preto no branco, quais os clubes por onde passou e onde o doping era o pão nosso de cada dia — Belenenses e Boavista. O Boavista ganhou assim um campeonato ao F.C.Porto: não há uma «Pastilha Dourada» que o investigue?


PS: O Benfica, com o rei na barriga, vem agora reclamar da cobertura dos seus jogos pela Sport TV. Bem, quem reclama sou eu: os comentários do Marselha-Benfica, por momentos, fizeram-me regressar ao tempo do Estado Novo e do patrioteirismo mais saloio que imaginar se possa. A obsessão do comentador com o trabalho do árbitro (chegou a sugerir que ele queria agradar a Platini, por o Marselha ser francês) atingiu tamanho delírio, que se transformou num insuportável ruído de fundo permanente, que nem deixava prestar atenção ao jogo. Na última meia hora tive de o ver em silêncio, porque já não consegui suportar mais.