quinta-feira, janeiro 28, 2010

UNS ESPERAM DE FORA, OUTROS ESPERAM POR DENTRO (12 JANEIRO 2010)

1- Segundo a opinião insuspeita e prestigiada de Cruz dos Santos, nada menos do que três jogadores do Benfica deveriam ter visto o cartão vermelho directo no jogo contra o Nacional da Taça da Liga, por agressões ou entradas violentas sobre os adversários. Mas não foram nem expulsos nem castigados a posteriori: o árbitro não viu, o CD não corrigiu, não houve sumaríssimo - sorte a deles! Também, segundo relato unânime, Miguel Veloso deveria ter sido expulso por agressão a um adversário, durante o Sporting-Braga: não só não foi expulso, como viria a marcar o golo da vitória. O árbitro não viu, o CD não corrigiu, não houve sumaríssimo: sorte a dele!

No túnel da Luz, o árbitro também não viu, mas o CD estava atento e, por isso, já lá vão três semanas e três jogos de suspensão prévia para Hulk e Sapunaru - nada de grave para quem, a fazer fé nos justiceiros, arrisca nada menos do que seis meses a seis anos de suspensão, por ter andado à pancada com uns seguranças (aliás, stewards, que é mais fino e soa mais a «agentes desportivos»). Não há pressa alguma. Enquanto o pau vai e não vem, folgam as costas... dos adversários. Ao fim de doze dias de suspensão prévia, A BOLA noticiava que as célebres imagens da Benfica-TV sobre o seu famigerado túnel «já» tinham chegado ao CD. O filme demorou doze dias a chegar de Lisboa ao Porto, porque, entretanto, andou em exibições privadas junto dos fiéis do costume, a fim de estabelecer a «verdade prévia» dos acontecimentos!

Entretanto, vi imagens em directo do túnel de Braga, no jogo com o Nacional: sem espanto, constatei que, tal como sucede nas imagens dos túneis dos jogos da Liga dos Campeões, não havia por lá segurança ou steward algum. Será que o túnel de Braga é menos perigoso que o túnel da Luz? Dizem-nos que no túnel da Luz já há seguranças desde 2004 - o que parece sugerir que, afinal, trata-se de um costume e não propriamente de uma disposição regulamentar. Em vão, perguntei aqui se me poderiam esclarecer qual a lei ou regulamento que permitiu aos seguranças do Benfica estarem no túnel, misturados com os jogadores. Não obtive resposta, mas, ao ler que o Benfica será multado na astronómica quantia de 2500 euros pelo facto de eles lá estarem, concluí, logicamente, que eles não podiam lá estar. E, se não podiam lá estar, as coisas ficam feias para o CD: «agentes desportivos» em local proibido? E a fazer o quê — simplesmente caladinhos e quietos, a deixarem-se agredir, sem razão nem motivo, por uma horda de jogadores adversários?

2- Como já devem ter percebido os nossos adversários, tocou a reunir, no Porto. É sempre assim, quando sentimos o inconfundível cheiro dos abutres. Nestas alturas, esquecem-se divergências e discordâncias, pois todos sabemos o trabalho e os sacrifícios que foram precisos para trazer o clube até aqui, até ao lugar que hoje ele ocupa por mérito próprio: não apenas o do melhor e mais prestigiado clube português de futebol, mas também um dos nomes que mais fez por Portugal no mundo. Para o conseguir foi necessário reunir as forças de todos para derrotar a mais extraordinária coligação de medíocres e invejosos que o país já produziu. Porque em Portugal, quando alguém se destaca pelo seu valor ou pelo seu esforço, a reacção da turba não é a de tentar aprender com ele e imitá-lo, muito menos a de lhe reconhecer o mérito: é sim, o de caluniar e tentar manchar o êxito que eles próprios não alcançam. Por alguma razão somos, desde há dois séculos, pelo menos, uma história de sucessivos fiascos - o «país eternamente adiado», de que falava Ramalho Eanes. Mas o F.C.Porto não se adiou, não ficou à espera que o êxito lhe caísse do céu: foi duas vezes campeão do mundo de clubes (onde só se chega, convém recordá-lo, depois de ser campeão da Europa). Tirando o Nobel de José Saramago, há mais algum português, alguma empresa ou instituição portuguesa, que tenha alguma vez sido reconhecido como o melhor do mundo, em determinado ano?

Por isso, quando, na quinta-feira à noite, recebi uma mensagem de um benfiquista dizendo «o Pinto da Costa passou-se da cabeça!», antes mesmo de saber o que teria dito o presidente do F.C.Porto, pensei para comigo: «Ainda bem, já era tempo de passarmos ao ataque!». Já chega de escutar em silêncio o discurso dos calimeros e das aves de rapina da paz! E, se alimentaram a esperança de nos encontrar divididos no essencial, é porque não nos conhecem, não aprenderam nada.

3- Entretanto, no campo de jogo, propriamente dito, fui olhando, distraidamente, para os três primeiros jogos da sequência de jogos fáceis que o F.C.Porto tinha pela frente, entre o Natal e meados de Janeiro: em campo neutro contra a Oliveirense para a Taça, e depois três jogos caseiros contra equipas acessíveis, um para a Taça da Liga, dois para o campeonato. Excelente ocasião para Jesualdo Ferreira mostrar a segunda linha da equipa: os miúdos dos juniores e os argentinos de reserva. O resultado foi fraco, bastante fraco: não há ali ninguém que esteja à altura de, em caso de necessidade repentina, ser chamado à primeira equipa. Os miúdos, que tão mal aproveitados têm sido por Jesualdo (servem para ser chamados aos treinos da equipa principal de vez em quando e depois serem emprestados e perderem-se no vazio), não justificam o tão propalado investimento na formação. Num clube que investe a sério nas camadas jovens, pelo menos um ou dois jogadores devem aparecer todos os anos na equipa principal. Quantos aparecerem no F.C.Porto nos últimos anos? Quantos jogadores da cantera portista estão actualmente entre os 18 mais utilizados?

Também não admira, visto que eles são sistematicamente tapados pelas sucessivas ondas de sul-americanos. E essa foi a segunda decepção que esta série de três jogos fáceis confirmou: dos três argentinos contratados este ano para o meio-campo (Belluschi, Valeri e Prodiger) nenhum se aproveita. Servem para fazer número, tal como Tomás Costa e Guarín. De todos, só Belluschi consegue ser um quase bom jogador: remata bem, mas raramente; finta bem, mas só o primeiro; passa bem, mas só de vez em quando. Ainda agora se especula com os nomes de mais três argentinos, que viriam por troca com Bollati (outro falhanço) e Farías (idem aspas). Todos jovens, todos semi-desconhecidos, todos argentinos — como se só os argentinos soubessem jogar futebol.

E, todavia, ainda este fim-de-semana, vendo jogar o Rúben Micael, pelo Nacional, constatei como é fácil, afinal, distinguir um bom jogador de um jogador de catálogo: a pose, o estilo, a técnica, a visão de jogo, a noção de criatividade e objectividade simultaneamente, a coragem de assumir riscos. É jovem, é já grande jogador reconhecido por todos, marca golos, é português e não precisa de intermediário para ser contratado: são demasiados defeitos, quando comparado com um argentino qualquer. É verdade que Rui Alves pede por ele 5 milhões. Mas, lembram-se quanto custou, por exemplo, o Prodiger? 4,2 milhões. E o Pelé, ainda se lembram? 7 milhões.

Caiu bem a promessa de Pinto da Costa de oferecer este campeonato a Pedroto. Mas, com este meio-campo, duvido que a promessa possa ser cumprida. É verdade que finalmente o Raul Meireles parece estar a subir de forma, mas o Fernando está uma sombra da época passada, faltoso e desastrado a passar a bola, como ainda agora se viu contra a União de Leiria. E, ao lado deles, não há ninguém, só uns argentinos de ocasião, que vão alternando a titularidade entre si, dando sempre a desagradável sensação de ainda não terem percebido muito bem onde estão. Pode ser que eu me engane e que algum deles ainda se faça jogador - mas duvido que ainda a tempo deste campeonato. (E, a propósito, queria dizer ao internauta portista que me acusa de contradição porque eu teria defendido a saída do Alan, que, pelo contrário e apesar de não o achar um extraordinário jogador, critiquei aqui a sua «doação» ao Sporting de Braga - numa altura, aliás, em que Jesualdo resolveu desfazer-se de todos os extremos que tinha).

4- Ah, e devia também responder ao José Diogo Quintela! Mas vale a pena responder a alguém que acha que o «testemunho» de Carolina Salgado vale mais do que a opinião de três juízes de instrução e seis juízes de julgamento? E que continua a argumentar como se fosse tudo uma questão de opinião e a sua valesse mais do que as sentenças dos tribunais? Espero bem que se ofereça como testemunha da Dª Carolina, quando ela tiver de responder em juízo pelo crime de perjúrio de que está acusada por um juiz...

ESTE ANO COMEÇA BEM... (05 JANEIRO 2010)

1- Desde que esta época se iniciou, eu tinha feito a mim mesmo uma promessa: aguentar-me até ao limite para não dar alento nestas crónicas ao clima habitual de facciosismo cego que alimenta ódios e suspeições sem fim e impede de ver e reconhecer o mérito alheio onde ele existe. Já lá vai decorrido meio campeonato e nunca, uma só vez que fosse, me pronunciei sobre arbitragens: quer as do meu clube, quer as dos outros; elogiei, mais do que uma vez, os progressos evidentes do futebol do Benfica, escrevendo que era a equipa que mais e melhor estava a jogar, e não tive uma dúvida em reconhecer como mais do que justa a sua vitória recente sobre o F.C.Porto. Fiz o que pude para a sanidade do ambiente. E aguentei-me até onde consegui.

Mas, às tantas, as coisas começam a ficar difíceis de encaixar sem reagir. Anteontem, por exemplo, ao ler o texto, pretensamente engraçadinho, do Diogo Quintela, achei que a direcção do F.C.Porto deveria abandonar a sua tradicional passividade litigante e colocar-lhe um processo-crime por difamação, como o seu texto amplamente merece. Talvez ele prefira a justiça popular à justiça democrática, talvez prefira a verdade popular à verdade apurada como tal; talvez as sentenças da justiça comum (e não a da populaça futobolística) lhe não mereçam respeito algum, talvez mesmo nem sequer se dê ao trabalho de as conhecer. Mas certamente sabe que insistir em mentiras desmascaradas pela justiça é uma calúnia e sabe que ofende, não apenas o presidente do F.C.Porto, mas todos os portistas, quando se diverte a escrever pretensos diálogos em que Pinto da Costa compra um árbitro por 2.500 euros. Goebells dizia que uma mentira repetidamente dita transforma-se em verdade. Mas Goebells perdeu e as democracias triunfaram. Talvez Diogo Quintela não goste, mas é assim: há regras no jogo.

O F.CPorto também deveria abandonar a sua passividade litigante no processo que aí vem e que se adivinha tumultuoso, do Conselho de Disciplina contra meia equipa do F.C.Porto, a propósito daquilo a que cada vez mais me sinto tentado a chamar «a emboscada da Luz». E isso deveria começar pelo levantamento de um incidente de suspeição contra todo o elenco do CD e, muito em especial, contra o seu presidente, o Dr. Ricardo Costa. A história recente da «justiça» do CD está cheia de factos que demonstram mais do que suficientemente a senha persecutória do Dr. Costa e do CD contra o F.C.Porto. Este órgão e este presidente não dão garantias mínimas de isenção para julgar o F.C.Porto.

Têm dúvidas? Não sei se repararam como, há uns dias atrás, o Dr. Costa fez divulgar, através de jornalistas de confiança, a informação da decisão «inédita» que o CD havia tomado de recorrer de uma sentença do seu próprio órgão de recurso, o Conselho de Justiça (primeiro para o Pleno do próprio CJ, depois, ao que se anuncia e em caso de insucesso, para o tribunal administrativo). Sem dúvida que a decisão é inédita e até estranha . ou não, como veremos adiante. Como notou José Manuel Meirim, no Público, é inédito e estranho que um órgão recorrido recorra da decisão do órgão de recurso (é assim como se o tribunal da Relação pudesse recorrer de uma decisão do Supremo), e leva a que o CD abandone o seu papel de juiz para assumir o de parte numa questão: a tanto leva a vaidade do Dr. Ricardo Costa.

Mais estranho ainda é pensar que tanto empenho do CD tem por objecto apenas uma questão menor: o responsável pelas relações com a imprensa do F.C.Porto insultou um jornalista de serviço num estádio (coisa lamentavelmente frequente, com todos os clubes...). Que devia ser condenado, não há dúvidas: condenado por insultar um jornalista em serviço. Mas o Dr. Ricardo Costa queria mais e resolveu condená-lo por insultar, não um jornalista, mas «um agente desportivo» — tese absurda e até insultuosa para os jornalistas, que o CJ, em recurso, obviamente não acolheu. E é desta decisão do CJ que o Dr. Costa resolveu recorrer, apostado em criar doutrina nova - como tentou fazer no passado, com resultados que o deveriam levar, se não a renunciar ao cargo, ao menos a um módico de pudor e contenção.

Agora, o curioso desta «inédita» decisão do CD . divulgada logo após os incidentes do túnel da Luz . é que ela aparenta ser tudo menos inocente. Reparem como tudo bate certo: se o Dr. Costa conseguir vencimento na sua tese de que um jornalista num estádio é um «agente desportivo», também poderá sustentar a seguir que um segurança num túnel do estádio é igualmente um «agente desportivo». E disso depende a possibilidade de aplicar a meia equipa do F.C.Porto aquelas demenciais penas de suspensão de um a seis anos, que o Regulamento Disciplinar contempla para as agressões a «agentes desportivos». Ainda chegará a vez de o vendedor de castanhas assadas à porta do estádio vir a ser declarado também «agente desportivo»... se isso servir para punir jogadores do F.C.Porto.

Sobre o que realmente aconteceu no túnel da Luz, estamos todos à espera de conhecer as já tão célebres imagens da longa metragem produzida pela Benfica-TV. Todos, não: meio mundo já as conhece. Eu já as ouvi relatadas por vários benfiquistas e ainda anteontem, aqui na BOLA, podia ler-se um pormenorizado relato dos pretensos acontecimentos no túnel, baseado, ou nas imagens, ou na versão que delas foi contada ao jornalista. «A BOLA sabe...», escrevia-se aqui. A BOLA sabe? E como sabe - viu as imagens, que é suposto terem sido entregues pelo Benfica ao CD da Liga e a mais ninguém? E, se viu, quem lhas mostrou - o Benfica ou o CD? E, se não as viu, como sabe - se não por relato de uma das partes, assumido como verdade indesmentível?

Pena que A BOLA não saiba outras coisas, a começar pelo que significa divulgar peças de acusação, antes mesmo de haver acusação, e de as divulgar em tais termos, que a defesa — (que nem sequer teve ainda acesso a nada, nem sabe qual é a acusação em concreto) — já tem a condenação escrita nas páginas dos jornais. E é pena que a BOLA não saiba também responder a outras questões essenciais: os seguranças têm o direito de estar ali? É habitual nos outros campos, estarem no túnel à saída dos jogos, misturados com os jogadores? Os seguranças do Benfica ficaram então no túnel, caladinhos e quietos, e foram inesperadamente agredidos por uma troupe de jogadores portistas que, já depois de fechados na sua cabina, resolveram sair cá para fora para os agredir? E A BOLA não sabe que, para além das cenas de pugilato do túnel, o essencial desta história é perceber o que faziam ali os seguranças do Benfica e qual foi o seu papel nos acontecimentos?

Para que não haja dúvidas, esclareço a minha posição: as agressões têm de ser punidas, primeiro criminalmente, depois no foro disciplinar. Mas aqui, na justa proporção à sua gravidade, ao motivo e circunstâncias da agressão e à representatividade desportiva dos agredidos - que é nenhuma. Até aí, todos estamos de acordo. Agora, fazer disto a arma decisiva para o Benfica ser campeão este ano, isso não! Tenham vergonha! Provem que são capazes de ser campeões no campo e não no túnel, que são capazes de ganhar um campeonato sem comprar a transferência de jogos de estádio e sem a colaboração dos amigos colocados em lugares de decisão na Liga, que, em tempos, Luís Filipe Viera declarava ser mais importante de ter do que uma boa equipa de futebol! Faccioso ou não, eu acho e sempre achei que o melhor deve ganhar e à vista de todos. E repito que, se o campeonato acabasse agora, o melhor era o Benfica. E até acho que fazia muito bem à nossa competitividade ter de volta um Benfica ganhador, mas como deve de ser. Porém, ainda falta meio campeonato e é desejável que ele seja disputado até ao fim em condições de igualdade. Depois de uma década de frustrações e mediocridade, interrompida apenas por um título que a ninguém convenceu, era isto que eu desejaria, se fosse benfiquista. Mas os auto-proclamados «moralizadores» do futebol português já provaram que não se contêm e que, debaixo da sua capa de virgens púdicas, não se preocupam muito com os meios para chegarem aos fins que ambicionam. É natural: os vencidos não gostam de lutar em campo aberto.

2- E o ano de 2010 abriu, aqui na BOLA, com mais uma daquelas periódicas entrevistas ao presidente do Benfica. Seis páginas - a capa, uma página inteira de elogios e quatro de auto-elogios, disfarçados de entrevista. E o dia de Ano Novo amanheceu cinzento e gasto. Tal qual o discurso do personagem.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

A LUZ AO FUNDO DO TÚNEL (29 DEZEMBRO 2009)

1- O futebol português parece ter entrado agora na fase dos túneis. Tem em comum com as anteriores - a fase das cotoveladas e a dos sumaríssimos - o mesmo alvo, mal escondido com o rabo de fora: o F.C.Porto. No passado, como se recordarão, só havia sumaríssimos para jogadores do F.C.Porto e também só eles é que usavam os cotovelos, mesmo que imaginariamente. Incontáveis programas de televisão gastavam horas a passar ao ralenti imagens envolvendo jogadores portistas até conseguirem «provar» que tinha havido cotovelada. Não por acaso, os alvos predilectos foram sempre jogadores que, numa ou noutra época, eram decisivos no plantel azul-e-branco: McCarthy, Deco, Quaresma. Não sei se já repararam mas, assim que eles se foram embora, desapareceram as cotoveladas do futebol português e morreram os sumaríssimos.

E eis então que chegamos à fase do túnel. O alvo principal desta vez chama-se Hulk - que, embora esteja em crise de exibições, tem o potencial por todos bem conhecido de, quando lhe dá na gana, virar a história de um jogo. E quem tem esse potencial também pode virar a história de um campeonato. O Sapunaru ou o Helton todos sabem que não incomodam por aí além. Mas o Hulk, sim: tirar o Hulk ao F.C.Porto até final do campeonato é o mesmo que tirar o Di María ao Benfica. Vale a pena, então, empreender na nova teoria dos túneis e criar doutrina - a qual, como de costume, nascerá e morrerá depois de cumprida a sua função de diminuir drasticamente o potencial competitivo do F.C.Porto.

O mais curioso disto tudo é que o tuning começou na época passada, com o Benfica, e assim continuou esta época. As confusões nos túneis envolveram sempre jogadores do Benfica e jogos onde o Benfica participou. Pura coincidência. Já no ano passado, depois de um jogo na Luz, o nacionalista Rúben Micael (que bem que ele ficava de azul-e-branco!) desabafou: «Passam-se coisas estranhas no túnel do Estádio da Luz, que mereciam ser investigadas». Investigar o túnel da Luz? Está quieto, nessa não cairia o CD da Liga!

Durante toda esta semana, no rescaldo do Benfica-F.C.Porto, os jornalistas conotados com os interesses do Benfica foram preparando o terreno para uma «justiça exemplar», adequada aos horrendos crimes que três jogadores portistas terão cometido no túnel da Luz. Primeiro, sentenciando que a coisa era tão grave que, no mínimo, iria haver jogadores suspensos por seis meses e, no máximo, por seis anos! E na terça-feira já estavam municiados com a informação de que a suspensão preventiva dos jogadores portistas era de duração indeterminada - porque assim tinha sido estatuído, por proposta do próprio F.C.Porto, aliás, com a abstenção do Benfica. Esta informaçãozinha bem oportuna, escorregada para os jornais, deixou-me logo de sobreaviso do que se prepara. Pinto da Costa faz bem em ir já ao mercado ou ao Olhanense, porque tudo está a ser devidamente montado para que o Hulk não jogue mais esta época. Há, sobretudo, uma coisa impensável e inaceitável: que o Benfica não seja campeão este ano. Porque se isso acontece, a própria falência é uma hipótese bem séria.

Antes, porém, de os justiceiros habituais entrarem em acção - além do mais, com um longamente reprimido desejo de vingança da vergonhosa e total derrota dos seus planos de encostar o F.C.Porto, despojá-lo dos títulos conquistados, retirá-lo da Europa e enviá-lo para a segunda Liga para melhor desimpedir o caminho ao Benfica, graças ao fabricado «Apito Dourado» - convém, talvez, parar para pensar um pouco. Ou, ao menos, para fazer umas perguntas, que julgo pertinentes para a investigação. A saber:

1 - Os seguranças (stewards) têm ou não o direito de estar no túnel de acesso aos balneários? Se têm esse direito, a que título lhes é concedido? E, se o não têm, será que, da parte do Benfica, tudo se resolve com uma multa de 250 euros?

2 - Houve ou não provocação dos seguranças a membros da comitiva azul-e-branca, no dito túnel, e antes ou após o jogo?

3 - Nomeadamente, é verdade ou não que o segurança alegadamente agredido por Sapunaru começou logo por provocar Reinaldo Teles antes do jogo se iniciar, quando os jogadores foram para o aquecimento? E voltou a fazê-lo depois do jogo terminado?

4 - Se houve provocações, eles partiram espontaneamente do ou dos seguranças ao serviço do Benfica, ou foram premeditadas e por quem?

5 - Se o relato da imprensa desportiva está certo, isso implica que os jogadores do F.C.Porto, todos eles, atravessaram o túnel após o jogo e recolheram-se na sua cabine, sem quaisquer incidentes, só depois tendo saído da cabine para verem o que era a confusão que decorria no túnel? Ou seja: não agiram nem premeditadamente nem por iniciativa própria, mas apenas por reacção a qualquer coisa que viram ou ouviram?

6 - E que tremenda confusão se terá então armado no túnel que chamou a atenção dos jogadores portistas, que já estavam recolhidos à sua cabine? E porque não chamou também a atenção dos jogadores ou elementos da comitiva do Benfica?

7 - O filme de terror, tão propagandeado pela imprensa próxima do Benfica, contém apenas cenas escolhidas, ou antes tudo o que aconteceu no túnel, desde que o F.C.Porto chegou às instalações da Luz?

8 - Existe alguma disposição penal ou disciplinar em toda a ordem jurídica portuguesa que preveja a suspensão prévia sem limite de tempo de um suspeito ou arguido? Se existe, resta alguma dúvida de que ela é, obviamente, inconstitucional?

9 - De igual modo, existe alguma pena disciplinar (seja pena principal ou acessória) que suspenda o direito ao trabalho durante mais do que trinta dias? E se o Tribunal Constitucional for chamado a julgar um estatuto disciplinar tão idiota como o que foi parido pelos juristas do futebol português, com penas de impedimento de jogar por seis meses ou seis anos, num País onde a Constituição estabelece que ninguém pode ser privado do direito ao trabalho, o que acham que os juízes farão à coisa?

10 - Faz algum sentido para alguém (tirando para estas luminárias jurídicas do nosso futebol), que, se um jogador agride outro, durante o jogo e à vista de toda a gente, seja expulso e fique um ou dois jogos sem jogar, se agride um árbitro fique seis meses sem jogar, mas que, se agride alguém que não faz parte do jogo, fora dele e longe da vista de todos, possa ser suspenso de seis meses a seis anos? Qual é a lógica desta absurda disparidade de critérios? Agredir um segurança num túnel é cem vezes mais grave do que agredir um adversário ou o árbitro durante o jogo? E a agressão é mais grave se cometida perante cinco testemunhas do que se cometida perante cinquenta mil?

Claro que nada disto faz sentido algum. São apenas leis idiotas, paridas por juristas de segunda categoria e aprovadas ao desbarato na confusão das Assembleias Gerais da Liga. O valor dos nossos juristas do futebol ficou exuberantemente demonstrado quando, depois de tantas e tão judiciosas decisões no «Apito Dourado», eles viram (sem estremecer de vergonha, é certo) as suas sentenças serem todas estilhaçadas pelos sucessivos tribunais, com juízes a sério e sem manobras clubísticas ocultas. O que daqui vai sair, com grande grau de probabilidade, é que, depois de terem estreado com o F.C.Porto estas disposições disciplinares dignas do Código de Costumes da Arábia Saudita, os que assinaram isto de cruz vão deitar as mãos à cabeça e revogar tudo. Só que, entretanto, os espertos do costume já terão conseguido o seu cordeiro imolado. Tal qual como sucedeu com os célebres sumaríssimos.

É a Luz ao fundo do túnel.

AUTÓPSIA DE UMA JUSTA DERROTA (22 DEZEMBRO 2009)

1- Nunca tinha visto tal coisa: a semana inteira antes do jogo só deparei com benfiquistas possuídos por uma falta de optimismo total, com nenhuma fé noutra coisa que não fosse uma inevitável derrota às mãos do F.C.Porto. Poucas horas antes do jogo, um ilustre benfiquista descarregava no treinador e no presidente a responsabilidade pela derrota, que dava como certa. E, quando lhe disse que não compreendia o pessimismo dele, respondeu-me: «Não é pessimismo, é já resignação». Concluí que os benfiquistas estavam borrados de medo do Porto e, recuando aos tempos de infância, senti isso como uma doce desforra: antes de entrar em campo na Luz, o F.C.Porto já estava a ganhar. E, pelas exuberantes manifestações de alegria de adeptos e jogadores, com tão magra e sofrida vitória, percebi que os benfiquistas têm mais medo do Porto do que de um terramoto de escala 6,1: pareciam sobreviventes de uma catástrofe anunciada, rejubilando por ainda estarem vivos. E confirmei depois, pela euforia sem limites da imprensa desportiva, que o Benfica tinha conseguido uma extraordinária proeza: vencer o FC Porto por 1-0 na Luz. Agradecemos a homenagem.

2- Foi um Benfica-Porto excepcionalmente tranquilo. Não houve declarações incendiárias de parte a parte antes do jogo, não houve incidentes nas bancadas, não houve mau perder nem arrogância na vitória, e, apesar das miseráveis condições do relvado e do mau tempo, não foi um jogo duro nem excessivamente faltoso. Não houve, que me lembre, uma única entrada violenta ou maldosa. Alguns sururus, perdas de tempo e lesões simuladas (dos benfiquistas a defender a magra vantagem) não passaram nunca dos limites normais e aceitáveis. É verdade que antes do jogo, Pinto da Costa foi alvo de uma tentativa de emboscada de uns quantos energúmenos - que a polícia evitou, sem todavia os deter ou identificar. E também, após o jogo, lá houve mais uma confusa história de túnel - desta vez, ao que parece, sem a presença de jogadores do Benfica, mas apenas de stewards ao seu serviço e que conseguiram a proeza de fazer expulsar dois jogadores portistas, já fora do campo e do olhar de testemunhas. Mas, daquilo que se viu, foi só um jogo de futebol e ainda bem.

3- Também não houve «casos de jogo», como quase sempre há. Lucílio Baptista - cuja nomeação considerei uma provocação ao FC Porto - acabou por ver a vida facilitada pelos jogadores e teve uma arbitragem técnica e disciplinarmente razoável, sem influência no desfecho. É verdade que os portistas reclamaram dois penalties na primeira parte, mas sem razão aparente, e é verdade que os benfiquistas reclamaram um na segunda parte e com razão, mas ele resultou directamente da cobrança de um canto que o não era.

4- Enquanto se pôde jogar futebol naquele piso, foi um jogo intenso e bem disputado - a milhas do soporífero Sporting -Benfica de há umas semanas atrás. Claramente, estavam em campo as duas melhores equipes portuguesas do momento, e só não mostraram mais porque o relvado o não deixou.

O Benfica mereceu a vitória, justamente porque jogou melhor enquanto se podia jogar bem. E se o F.C.Porto jogou mais na segunda parte, foi apenas mais e não melhor. O golo do Benfica, se bem que concluído exemplarmente por Saviola, foi inteiramente fortuito: o David Luiz quis apenas aliviar a bola de qualquer maneira e acabou por isolar com um passe mortal o melhor jogador deste Benfica. Mas, quando o golo apareceu, já se adivinhava e já era merecido. Em toda a primeira parte, jamais o Porto criou um único lance de perigo e passou o tempo todo a transviar passes, a perder bolas no meio-campo e a permitir sistematicamente que o Benfica ganhasse a segunda bola - como sucedeu no golo. Na primeira meia-hora da segunda parte, empurrou, é facto, o Benfica lá para trás e podia também, num golpe de sorte, ter chegado ao golo. Mas apenas dispôs de duas ocasiões para isso e depois, como disse Jesualdo Ferreira, nos últimos vinte minutos já não houve jogo («o Benfica soube gerir o tempo», confessou Jorge Jesus).

Tudo visto e revisto, não tenho dúvida que a grande maioria dos portistas pensa como eu, que a derrota foi justa e não há nada a opor a ela. É isso, aliás, que nos distingue, enquanto adeptos, dos outros: nós sabemos ver futebol, sabemos reconhecer quando a nossa equipa joga mal e não merece ganhar. E onde nós vamos, desde que não nos provoquem, não há incidentes.

5- E porque razão jogámos mal e perdemos? Por duas razões coincidentes e que já aqui anotei antes: porque o Benfica tem muito melhor equipa que no ano passado e nós temos pior equipa. Acima de tudo, e como há muito venho dizendo, porque não temos meio-campo.

Qual era o meio-campo do F.C.Porto no ano passado? Fernando (que foi uma das revelações do campeonato), Raul Meireles (que fez a sua melhor época de sempre) e Lucho González. Qual é o meio-campo do F.C.Porto este ano? Fernando (a jogar pior e quase só atrás, a defender), Raul Meireles (a léguas do que fez no ano passado, excepto na Selecção) e um trio, que alterna entre si, formado por Guarín ou Valeri ou Belluschi, e que alguém muito optimista imaginou que poderia, algum deles, substituir Lucho. Para além disso, o F.C.Porto tem o Cristian Rodriguez transformado, não numa unidade a menos, mas numa nulidade a mais, e perdeu um jogador tão decisivo e vibrante como o Lisandro, substituído por Falcao - que é um bom jogador, mas não tem comparação alguma com o argentino.

Com este panorama, é preocupante ouvir Pinto da Costa (que, como se sabe, é quem faz e desfaz a equipa todos os anos), afirmar que não há necessidade alguma de ir ao mercado, em Janeiro. E não deixa de ser irónico que ele, que todas as épocas vai ao mercado de Verão comprar uma profusão de sul-americanos dos quais nunca se aproveita mais do que um ou dois, servindo os restantes para arruinar a gestão corrente da SAD, agora se arme em poupadinho, enquanto que eu, que sempre o critiquei por isso, agora, sim, ache, que o F.C.Porto precisa urgentemente de ir ao mercado comprar, não um, mais dois grandes médios criativos de ataque. Se é que queremos evitar outra vez fazer o papel de «sitting duck» contra o Arsenal e se é que queremos evitar o Benfica campeão.

6- Com esta escassez de soluções e face a um meio-campo benfiquista com quatro jogadores, Jesualdo resolveu bater-se com o marcha-atrás Fernando, o intermitente e basicamente apagado Meireles e o inacreditável Guarín - outra teimosia sua, no género do Mariano. Ou seja, entregou o ouro ao bandido, logo de entrada, e depois queixou-se de que a equipa não saía organizadamente para a frente nem ligava o jogo! Pudera, bastava olhar para a cara do Guarín para se perceber o total desnorte técnico e táctico do rapaz, tão perdido num Benfica-Porto como eu estaria a fazer de barítono no S. Carlos! Desta vez, pelo menos, não foi preciso esperar os habituais 60 minutos para que Jesualdo Ferreira realizasse o seu tremendo erro de casting: bastaram 45. Mas fatais.

7- Benfica e F.C.Porto também se bateram previamente no mercado financeiro, ambos anunciando, com rufar de tambores, duas operações financeiras geniais. O Benfica, realizando uma Assembleia-Geral, onde umas dezenas de sócios aprovaram qualquer coisa que não entenderam bem, passada entre o clube, a SAD e o Benfica Estádio; e o F.C.Porto anunciando o retumbante «sucesso» de mais um empréstimo obrigacionista colocado na bolsa. É natural que os adeptos não se preocupem muito a tentar entender estas «nuances» das administrações dos seus clubes - o que lhes interessa são as vitórias em campo e pouco mais. Então, expliquemos, sucintamente, o que se passou. No Benfica, o que se passou é que o clube deu o estádio da Luz à SAD, para que esta deixasse de ter capitais próprios negativos - o que, legalmente, provocaria a sua extinção. Quer isto dizer que, se um dia a SAD não tiver como pagar as dívidas, marcham primeiro os jogadores (cujos passes lhe pertencem) e depois o estádio… e o clube fica sem nada. No F.C.Porto, sucedeu que a SAD contraíu um empréstimo de 18 milhões de euros para pagar outro empréstimo que tinha contraído três anos antes, mais os respectivos juros. E contrair dívidas para pagar dívidas é uma forma clássica de fazer aumentar a dívida. Quanto ao «tremendo sucesso» ficou a dever-se apenas à taxa de juro que a SAD do F.C.Porto aceitou pagar por esta nova dívida: 6% ao ano - quando as taxas do mercado variam entre 1,25 e 2%. Uma excelente operação!

segunda-feira, dezembro 28, 2009

ESTRANHA FORMA DE JORNALISMO (15 DEZEMBRO 2009)

1- A situação repete-se desde há anos e gostaria que alguém ma esclarecesse: porque será que de cada vez que há desordens nas bancadas durante um jogo de futebol transmitido na televisão, nós somos pudicamente postos visualmente à margem dos acontecimentos? Será que há «instruções superiores» para ocultar a violência nos estádios, de modo a fazer crer que essa coisas não existem por cá, ou de modo a não nos impressionar? Não sei, mas seria bom sabê-lo porque, para todos os efeitos, estamos perante um acto de censura, deliberado e em directo. E, perante um anti-jornalismo, que, confrontado com a notícia a acontecer nesse momento, opta por desviar o olhar e assobiar para o ar, fingindo que nada de importante se está a passar.

Sábado, em Olhão, viveu-se mais uma situação dessas, em que durante largos minutos, quinze ou vinte, o relator e o comentador da Sport TV iam fazendo vagas referências às «cenas lamentáveis» que se estavam a viver na bancada, sem ousarem dizer ao certo do que se tratava e, sobretudo, com o realizador a ter um extremo cuidado para evitar mostrar qualquer imagem da cena. E durante largos minutos, foi possível apenas ao espectador aperceber-se da gritaria que vinha das bancadas, da chegada de constantes reforços policiais e até mesmo da apreensão patente nos rostos de jogadores e árbitro - a certa altura, chegando mesmo a suspender o jogo por instantes. O pudor foi ainda levado ao ponto de ocultar quem estava a protagonizar os desacatos - embora não fosse difícil de adivinhar, visto que eles tinham começado logo após o golo inaugural do Olhanense. Mas, a certa altura, houve um ligeiro descuido do realizador e durante breves segundos lá foi possível ver uma entusiasmada claque benfiquista lançando cadeiras e tudo o que tinha à mão para cima da bancada dos sócios do Olhanense.

A esta hora, talvez o presidente do Olhanense já não esteja tão certo que foi uma boa decisão, «uma homenagem aos sócios do clube», renunciar a jogar antes no inútil monumento do Estádio dos Contribuintes do Algarve. Afinal de contas até, e como vem sendo habitual, a anunciada enchente que sempre se anuncia com as visitas do Benfica afinal traduziu-se em meia-casa, se tanto. Este é , aliás, um fenómeno curioso: porque será que quando o Benfica visita um clube «pequeno» se anuncia sempre uma enchente que depois nunca ou quase nunca se confirma? Será que há alguma relação entre isso e o comportamento habitual das claques benfiquistas?


2- Outra coisa que também já entrou nos hábitos futebolísticos nacionais são as declarações do presidente do Benfica na véspera destes jogos. Recebido e apaparicado nas Casas do Benfica ou nos Paços do Concelho locais, Luís Filipe Viera aproveita sempre para dar início ao jogo do dia seguinte ou dessa noite, com um pouco subtil jogo de pressão psicológica. E uma das coisas recorrentes nas suas jogadas prévias são as queixas de que estes adversários costumam jogar muito contra o Benfica - coisa que, para Vieira, é altamente suspeita... Também desta vez, em Olhão, o presidente do Benfica voltou a queixar-se da «motivação extra» dos adversários quando jogam contra o Benfica. Essa motivação extra (contra o Benfica e contra os outros grandes) que, aqui e em todo o lado, é reconhecida por jogadores e treinadores e saudada como coisa louvável por todos os comentadores, isso que, por exemplo, dá origem ao tal «espírito da Taça», para o presidente do Benfica é uma coisa lamentável e motivo de suspeitas. «Não podemos confirmar, mas sabemos o que se passa e como se fazem as coisas...» - disse ele, a propósito, e lançando mão dessa linguagem da insinuação tão cara ao futebol português.

Assim, o principal responsável pelo autoproclamado maior candidato ao título deste ano estranha e lamenta que o Olhanense, por exemplo, não facilite quando enfrenta o Benfica. Aqui está alguém que verdadeiramente contribui para o fair-play e para a «verdade desportiva».

O que valeu ao Benfica em Olhão foi, como é habitual também, os últimos minutos do jogo, um fiscal de linha desatento à posição de Nuno Gomes no golo do empate e um árbitro atento ao facto de domingo haver um Benfica-Porto, quando se encaminhou para Cardozo, depois de expulsar Djalmir, e pelo caminho mudou o vermelho a Cardozo para amarelo.


3- Para aqueles que insistem em continuar a não perceber, o F.C.Porto voltou a mostrar em Madrid porque razão é o único clube com dimensão europeia do nosso futebol. Com ou sem crise do Atlético, não é qualquer um que chega a Manzanares e dá uma lição de bola ao Atlético, acompanhada de um retumbante 3-0, que ainda podia ter sido mais. Quem conta no futebol espanhol viu certamente com muita atenção a portentosa exibição de Bruno Alves e aquele incrível golo a frio, o pânico que Hulk conseguia gerar entre a defesa colchonera, e a facilidade exuberante com que Fucile meteu ao bolso Simão Sabrosa, deixando-o reduzido ao habitual expediente de se atirar para o chão na área - que tão bons resultados dava com árbitros portugueses e ao serviço do Benfica, mas que na Europa só leva os árbitros a aconselhar-lhe juizinho.

As grandes equipas, como os grandes jogadores, são as dos grandes jogos. Esta época, a equipa tem sido medíocre nos jogos menos importantes (ainda anteontem, contra o Setúbal), mas, nos momentos a sério - como em Stamford Bridge, contra o Chelsea - nota-se a diferença. Mas, para ter um lugar certo entre o clube dos dez mais da Europa, faltam a esta equipa algumas peças essenciais: um guarda-redes de top e dois médios de ataque criativos. Depois, falta que Cristián Rodríguez comece a jogar qualquer coisa e que Fernando deixe de ser apenas um bom médio defensivo, alargue o seu raio de acção no jogo, perca o medo de ir à frente e melhore muito a qualidade dos seus passes. Mas, para já, conquistou o seu habitual lugar, pelo menos, nos dezasseis avos-de-final da Champions, já cobrou 18 milhões de proveitos e, pela situação actual do campeonato, já tem praticamente garantida a participação na Champions do ano que vem, mesmo que fique em segundo lugar (porque, como cabeça de série, é de prever uma eventual qualificação acessível).

4- O que acima escrevi, significa que acho que o Sporting já foi e que o Braga não chegará lá - aos dois primeiros lugares do campeonato. Uma e outra coisa venho aqui prevendo desde o início do campeonato. O Sporting, porque toda a gente vê, a olho nu, que não tem equipa e, quando assim é, não bastam a vontade ou a fé. O Braga, porque muito tem já feito - e muita coisa com alguma sorte - mas não acredito, não vejo, que a equipa tenha a consistência e a resistência de um líder. Um líder tem de jogar sempre para ganhar e, para tal, precisa de individualidades que resolvam os jogos que o conjunto não consegue resolver. Para isso é preciso ter um Saviola ou um Hulk, e o Braga não tem. Ao longo de trinta jornadas, isso acaba por fazer diferença.

5- O «Apito Dourado» morreu de vez, esta semana, no Tribunal da Relação de Coimbra, com a confirmação da absolvição de Pinto da Costa e restantes co-arguidos, no caso do suposto suborno do árbitro do Beira-Mar-FC Porto de 2004 - um jogo que já não contava para nada, excepto para alimentar a inveja e maledicência nacionais. Olhando para o teor dos acórdãos, qualquer um pode concluir facilmente que, se tivesse tido um mínimo de isenção e bom-senso, nunca o Ministério Público teria assumido aquela acusação, pela simples razão de que tudo o que tinha baseava-se apenas na vendetta pessoal de uma testemunha que merecia zero de credibilidade. Porque escrevi isso aqui desde o primeiro dia, sinto-me também vencedor do processo. E só lamento que os notavelmente vencidos não assumam agora as suas responsabilidades. O único que o fez foi o pateta do Platini - mas, tal como agora se retratou, também antes acusou e difamou sem fazer ideia do que estava a falar. Mas a dr.ª Maria José Morgado, o dr. Pinto Monteiro e o dr. Ricardo Costa nem essa desculpa têm. O que lhes vale é que este é o país da impunidade.

"MENGO"! (08 DEZEMBRO 2009)

1- Corria o ano de 1992 quando o Clube de Regatas Flamengo, do Rio de Janeiro, se sagrou campeão brasileiro pela última vez. Nessa altura, recebia o Rio a Cimeira da Terra, onde 108 Chefes de Estado do mundo inteiro foram fingir estarem muito preocupados com a saúde do planeta. Dezassete anos depois e no dia em que em Copenhaga se abre a Cimeira Mundial do Clima, o Flamengo chegou outra vez, e pela sexta na sua história, ao título de campeão federal ﷓ ou seja, campeão nacional do Brasil. Entre uma e outra data decorreram dezassete anos, catorze dos quais os mais quentes de sempre. O planeta avançou dramaticamente no caminho do aquecimento global e o Flamengo nunca mais foi campeão. Dezassete anos é muito tempo: foi o tempo que o F.C.Porto esteve sem ganhar um campeonato, entre a minha infância e a idade adulta; foi o tempo que também o Sporting esteve depois sem ganhar um campeonato, nos anos da imparável hegemonia portista.

Mas o Flamengo, que podemos considerar o Benfica do Brasil (sendo o Fluminense o Sporting e o Corinthians o F.C. Porto), é mais do que um simples clube, fundado para se dedicar ao remo na Lagoa Rodrigues de Freitas, onde hoje ainda mantém instalações. O Mengo é o mais popular clube do Brasil e uma religião no Rio de Janeiro. É impossível andar na rua ou na praia sem tropeçar a cada momento com alguém vestido com a alvi-negra ﷓ a camisola vestida, por exemplo, pelo imortal «Pelé branco», Zico de sua alcunha, ou por Romário e Bebeto. Pois, este ano e uma vez mais, o Mengo pareceu quase toda a época arredado do título ﷓ que parecia destinado ao campeão S. Paulo, com a perseguição, a distância controlada, do também paulista Palmeiras e do gaúcho Internacional de Porto Alegre. Mas, subitamente, no ultimo terço do campeonato, o S. Paulo começou a acusar stress e cansaço e Inter e Palmeiras chegaram-se à frente, já a uma distância de perigo. E foi então que, aos poucos, foi acontecendo aquilo que às vezes acontece nas maratonas mais emocionantes: vindo lá de trás, vitória após vitória, o Flamengo foi-se chegando à frente e acabou por passar primeiro o Inter, depois o Palmeiras e, na penúltima jornada, beneficiando da derrota do S. Paulo em Goiás e arrancando uma vitória decisiva na visita ao Corinthians, chegou enfim ao topo da classificação. Mas, para ser campeão, precisava de vencer, num Maracanã lotado desde há dias, o Grémio de Porto Alegre. Começou a perder e chegou ao empate antes do intervalo. Nessa altura, a 45 minutos do final de um campeonato de 38 jornadas, quatro equipas estavam empatadas em pontos no primeiro lugar ﷓ coisa jamais vista em lugar algum. A manterem-se as coisas assim, o campeonato iria para o Internacional, que beneficiava das regras do desempate. Contou-me um amigo brasileiro que, na segunda parte do jogo do Maracanã, foi visível, porém, o peso histórico da rivalidade (melhor dizendo, do ódio) existente entre os dois maiores clubes do Rio Grande do Sul: Grémio e Inter. A torcida do Grémio, dizem, não perdoaria aos seus jogadores que roubassem o título ao Mengo para o dar… ao Inter. Parece que à boca da baliza do Fla houve quem não conseguisse fazer o mais fácil, que era marcar golo e acabar com o sonho. E então, o Mengo lá chegou ao 2-1 glorioso e ao título que buscava há 17 anos. Título particularmente importante para o «Imperador» Adriano, fugido do Inter, de Mourinho, para se sagrar o melhor marcador da Copa, e, sobretudo, para o sérvio Petkovic, de 37 anos de idade e cronicamente classificado como um dos melhores do campeonato. O Rio explodiu como se o Brasil tivesse acabado de ganhar a Copa do Mundo. E só lamento que, com 150 mil imigrantes brasileiros em Portugal, a Sport TV tenha estado tão desatenta que não se lembrou de transmitir o jogo do século no Brasil.


2- E muito pouco futebol vi no fim-de-semana. Vi parte dos dois derbies da jornada em Itália: o Roma-Lazio e o Juventus-Inter. E, mais uma vez, fiquei espantado como o calcio consegue manter a sua força com um futebol assim. Tacticamente, como sabemos, é brilhante: tudo aquilo é estudado, ensaiado, nada acontece por acaso e os jogadores parecem saber sempre o que fazer, em cada momento. Tecnicamente, jogam ali os melhores executantes do mundo e isso vê-se bem em cada pormenor: a maneira como dominam as bolas, como rematam, como passam, como cabeceiam. Mas, depois, o jogo é de feios, porcos e maus, cacetada de criar bicho e cenas de sopapo sem mais nem menos, gritos racistas do público, estádios jamais cheios e um espectáculo raramente emocionante. O Inter, de José Mourinho, então, é o paradigma do calcio: ganhar, ganha, jogos e títulos, tudo é mecanizado sem falhas e dirigido a um único objectivo que é o de vencer. Mas eu, francamente, não pagava bilhete para ver aquilo. Ai, Ricardo Quaresma, que desperdício ser suplente naquela equipa de marionetas!


3- Passei o Guimarães-F.C.Porto e logo passei um dos raros jogos em que, pelo menos durante a primeira parte, os portistas não tiveram de viver com o credo na boca. (Deixem-me informar que, quando o F.C.Porto vence em Guimarães, costuma ser campeão). O Sporting de ontem à noite passei também, por razões à vista.

E, assim, o melhor que vi, este fim-de-semana, acabou por ser o Benfica. Volto a dizer que me impressionou muito bem a capacidade de criação de jogo de ataque daquela equipa, em especial Saviola (o Real Madrid é, de facto, uma fábrica de desperdício de talentos, como só os milionários o podem ser…), e Cardozo ﷓ que, na época passada e contra a opinião de muitos benfiquistas, estranhava que ficasse tantas vezes de fora. Sem dúvida que o Benfica teve a sorte do jogo em vários detalhes, começando logo pelo golo marcado aos 6 minutos, no primeiro remate à baliza. E, embora a Académica tenha sido inofensiva em termos de ataque, não se fechou atrás e mostrou qualidade para mais do que aquilo. Mas aí, sim, é que é marcante ver a atitude de conquista e a facilidade de criação de jogadas de golo por parte do Benfica, e, para mais, num terreno difícil, como estava. Vai ser curioso constatar se, daqui a quinze dias, quando receber o F.C.Porto na Luz ﷓ no que será o seu primeiro grande teste de fogo da época ﷓ o Benfica vai conseguir manter a mesma atitude de conquista, face a uma equipa que faz justamente disso o seu grande trunfo. Em minha opinião, vai ser um jogo sem favorito à partida. Porque, se o Benfica me parece bem melhor na frente, é mais fraco atrás ﷓ em especial no flanco esquerdo da defesa, onde David Luiz e César Peixoto oscilam facilmente, se apertados. Caminhamos para um potencial grande jogo e, a quinze dias de distância, só espero que não comecem, dum lado ou do outro, os «jogos por fora» ﷓ porque, quanto ao clima de intimidação e violência criado pelas claques, isso, infelizmente, vai ser como de costume. Que bom que seria um jogo grande sem claques!

DRAGÃO, ALVALADE, BARCELONA (01 DEZEMBRO 2009)

1- «Vicky, Cristina, Barcelona», de 2008, é o pior filme de Woody Allen, um frete comercial pago pelo Ayuntamiento de Barcelona e que ele transformou num pastiche turístico-politicamento correcto sobre a «alma feminina». Tão longe de Manhattan...E Barcelona, essa cidade ressurgida com os Jogos Olímpicos de 1992, nem precisava do frete, porque é, seguramente, uma das três melhores cidades da Europa para se estar e para viver. Por estes dias, Barcelona e a Catalunha vivem em suspenso da decisão do Tribunal Constitucional sobre o novo Estatuto da Catalunha - que, à luz da Constituição Espanhola, só pode ser declarado inconstitucional, porque aquilo é praticamente uma declaração de independência, que faria a inveja de A. J. Jardim. Mas as coisas chegaram a tal ponto, que o próprio Zapatero torce para que o TC não veja o que todos vêem e não ouse afrontar os demónios catalães - mal adormecidos desde que, em 1640, Castela teve de optar entre opor-se à reconquista da independência portuguesa ou enfrentar o autonomismo catalão, e escolheu travar e vencer os revoltosos da Catalunha, deixando Portugal para os Braganças. Não por acaso, as reivindicações autónomas em Espanha estão directamente ligadas à riqueza das regiões: são os ricos do País Basco ou da Catalunha que querem ser independentes do poder fiscal de Madrid, para não terem de pagar impostos a favor dos pobres. Também em Itália, é o norte rico que se quer ver liberto de ter pagar a favor do Mezzogiorno, e em Inglaterra é a Escócia que quer ser independente do Midwest deprimido. A autonomia regional é quase sempre uma revolta dos ricos contra os pobres e contra o Estado central, cuja tarefa fundamental é distribuir a riqueza por todos. É por isso que eu sou ferozmente anti-regionalista, porque não tenho a mais pequena dúvida de que, ao contrário do que imaginam alguns incautos ou oportunistas, a regionalização lançaria Lisboa e o Porto contra todos os outros e ai dos alentejanos ou transmontanos, sem a República a protegê-los!

O que ainda obsta a que a Catalunha se lance num processo sério de independência de Madrid são algumas coisas formais, mas que ganharam força de tradição e acabaram por ser um desafio para os próprios catalães. Uma delas é o futebol: independente de Espanha, o grande e histórico FC Barcelona (o F.C.Porto de Espanha), ficaria reduzido a disputar um campeonato nacional em que o seu principal e único rival seria o Espanhol de Barcelona - um modestíssimo clube de bairro, que nem o Belenenses. E alguém imagina o grande Barça não enfrentar o Real, o Sevilha, o Valência, e, mesmo assim, conseguir receitas para encher Camp Nou e atrair as televisões do mundo inteiro? De onde viria o dinheiro para pagar a Messi ou a Ibrahimovic? Que glória substituiria a glória de ser campeão de Espanha e ir a Chamartin dar 6-2 ao Real, no inesquecível jogo de consagração do título, como sucedeu na época passada?

Terça-feira, assisti, nas Ramblas, ao orgulho dos catalães, depois de terem dado uma lição de bola ao Inter de José Mourinho, mesmo com Messi e Ibrahimovic no banco, a pouparem-se para o Real. E este domingo, vi, pela televisão, o Camp Nou cheio até deitar por fora, na expectativa de mais uma vitória sobre o eterno rival e inimigo, símbolo da tão odiada Castela. Que a guerra se possa fazer eternamente entre as bancadas de um campo de futebol!

Seis dos dez melhores jogadores do mundo, segundo a lista divulgada no próprio domingo, estiveram em campo no Barça-Real. E, embora não tenha sido um jogo espectacular, foi sempre um jogo jogado ao mais alto nível técnico, com detalhes de jogo só ao alcance dos melhores entre os melhores. O melhor do mundo em título, Cristiano Ronaldo, voltou para jogar este jogo, que não há futebolista no planeta inteiro que não sonhe disputar um dia. E até esteve bem, apesar dos dois golos perdidos, um dos quais quase indesculpável. Do outro lado, e sempre espectacular, esteve o seu anunciado sucessor, Leonel Messi - que há quatro anos aqui saúdo como o melhor jogador da actualidade e que, finalmente, vou ver consagrado como tal pelos «especialistas». Mais vale tarde que nunca!

2- Mais do que natural e previsível a derrota do F.C.Porto com o Chelsea, o destacado líder do campeonato inglês. Se até o Arsenal leva 3-0 em casa do Chelsea, como se pode achar que não seja natural que o F.C.Porto perca também por 1-0? Mas o resultado podia ter sido melhor, com um pouco mais de sorte e um pouco mais de atenção de Jesualdo Ferreira. Eu até aceito que ele tenha deixado o Hulk no banco (apesar de ser o jogador mais temido pelos ingleses) e aceito que mais tarde, com a necessidade de ganhar - era esse o único objectivo útil do jogo - o tenha posto em campo. Só não percebo é que, para tal, tenha desfeito a consistência defensiva do flanco direito, tirando o Varela e deixando o pobre Sapunaru entregue a si mesmo, quando estava à vista de todos que era por ali que o Chelsea queria chegar ao golo. Bastaram três minutos para que Maluda metesse o desamparado Sapunaru ao bolso e cruzasse para o fatal golo de Anelka, que tudo arrumou.

Também contra o Rio Ave, empatado até nove minutos do fim e com a necessidade imperiosa de ganhar, não ocorreu a Jesualdo tirar antes, por exemplo, o Fernando (que, por acaso, nem anda a jogar nada), recuar o Meireles para «trinco» e o Cristian Rodriguéz para nº 10. Mas aí foi ainda mais incompreensível ver o F.C.Porto a precisar desesperadamente de marcar e Jesualdo a manter uma estrutura defensiva de quatro elementos mais um trinco... para enfrentar o João Tomás.

Começa a ser enervante ver a lentidão com que o Professor reage ao jogo e se mantém escravo de regras auto-﷓estabelecidas, das quais nunca se afasta, suceda o que suceder. Por exemplo: nunca faz substituições antes de decorridos 60 minutos, mesmo que sejam gritantemente necessárias; e faz sempre substituições a partir dos 60 minutos, mesmo que sejam inúteis e até contraproducentes. E faz sempre as mesmas, seja quem for o adversário, esteja como estiver o jogo: parece um relógio suíço no pulso de um japonês. Ah, mas nem tudo são más notícias: desapareceu o Mariano González e reapareceram o Varela e o Belluschi e assim voltamos, pelo menos, a jogar com onze; e, após quatro penosos anos de malabarismos e rezas estéreis, o Helton foi remetido para a bancada e o Beto conquistou o lugar. É uma imensa lufada de ar fresco, que começa logo nas reposições de bola em jogo: agora temos um guarda-redes que entende que a reposição da bola pode ser uma oportunidade de contra-ataque ou, ao menos, de começar a organizar o jogo logo à saída, e não uma simples oportunidade de um pontapé à toa para a frente, invariavelmente detido pelos adversários, como tão diletantemente fazia Helton. Aos poucos, o professor vai-se deixando de fantasias e rendendo-se ao óbvio. Eu sempre achei que o futebol é muito menos complicado do que nos dizem os «especialistas». Por exemplo: está na cara de qualquer um que o Falcao não faz ideia de como se deve marcar um penalty: em dois falhou dois e ambos falhados por deficiências técnicas evidentes. Quanto tempo irá demorar Jesualdo Ferreira a percebê-lo também?

3- O «derby» de Lisboa não foi mal jogado, mas foi um jogo «morto», marcado pela falta de coragem de ambas as equipas: o Sporting porque tinha o terror de perder; o Benfica, bastante melhor equipa e jogadores, porque não teve a ousadia de tentar ganhá-lo. Retenho duas coisas: a declaração pertinente de Jorge Jesus sobre o estado do relvado de Alvalade, que, de facto, é inimigo do bom futebol; e o comportamento inqualificável de alguns adeptos sportinguistas, desmentindo a tão proclamada filosofia do clube de «gentlemen». As claques estão a matar o futebol, como espectáculo para gente normal, quanto mais para simples amantes do jogo. Eu sei, e sempre o disse, que o problema é de todos, mas, aqui em Lisboa, insistem em dizer que não, que os selvagens estão todos a norte. Ah, pois é, mas há quanto tempo não há incidentes no Dragão? E há quanto tempo é que não deixa de os haver nos jogos grandes, na Luz ou em Alvalade?