quinta-feira, fevereiro 11, 2010

NEM TUDO É NEGRO (19 JANEIRO 2010)

1- As minhas preces foram ouvidas: Ruben Micael está a caminho do F.C.Porto, para reforçar o seu depauperado meio-﷓campo. O preço é caro, mas se compararmos a relação qualidade/preço do madeirense com a do lote de argentinos do meio campo portista, acaba por ser quase barato. Caro é ter de sustentar o Guárin, o Tomás Costa, o Belluschi, o Valeri e o Prediguer. E Bolatti, depois de tantas promessas, encontrou finalmente comprador.

Diz-se que Rolando pode ir para o Man. United e que, nesse caso e à cautela, já está pronto a avançar o peruano Rodriguéz, do Sporting de Braga. Uma e outra coisa seriam boas notícias: uma boa venda e uma boa compra. Mas a segunda só encontra justificação no caso de a primeira ocorrer. Até porque, saindo Rolando, Jesualdo tem de dar uma oportunidade real a um rapaz que, ou muito me engano, ou está fadado para vir a ser um grande central: Nuno André Coelho.

De qualquer maneira, saúde-se a aparente inversão da política de compras da SAD do FCP, que eu não me tenho cansado de preconizar. Aparentemente, repito, acabaram-se as compras por atacado e por catálogo de sul-americanos que ninguém viu jogar senão no vídeo, e vai dar-se preferência a jogadores que actuam aqui e cujo valor é sobejamente conhecido. Está é a primeira boa notícia para os portistas, desde há uns tempos para cá.

Infelizmente, vai ser preciso muito mais para recompor a equipe desfigurada pelas saídas constantes de jogadores decisivos e entradas de jogadores que não vieram acrescentar utilidade alguma - sobretudo, no meio-campo, como tantas vezes tenho dito e salta aos olhos de qualquer um. Se pensarmos apenas a partir do ano de 2004 e da equipe que então foi campeã europeia, é fácil constatar que o F.C.Porto teve sempre grandes médios, à excepção desta época. O rol dos que foram saindo, apenas do meio-campo, é eloquente do quanto a equipe foi sendo desfalcada no sector decisivo do jogo: Deco, Maniche, Pedro Mendes, Costinha, Alenitchev, Carlos Alberto, Diogo, Anderson, Paulo Assunção, para não falar em várias promessas que, mal pareciam despontar, logo foram emprestados. No ano passado, e não esquecendo a grande época de Raul Meireles, restava apenas um médio de valor excepcional: Lucho González. Para entender a razão porque no ano passado o Porto foi tranquilamente campeão e este ano está tranquilamente a deixar-se afastar do título, basta pensar em dois nomes: saiu Lucho, entrou para o seu lugar Belluschi. Está tudo dito e quem tenha visto Belluschi contra o Paços de Ferreira, percebeu, uma vez mais, a esmagadora diferença.

Se eu pudesse ser treinador do F.C.Porto por 24 horas apenas, e à vista da situação actual, exigiria plenos poderes para uma verdadeira revolução no plantel. Para começar, forçava a compra do Ruben Micael - que já está feito; depois, pedia que se fosse recuperar o Ricardo Quaresma, nem que fosse por empréstimo e até ao final da época - proporcionando-lhe, aliás, uma hipótese de ainda se poder bater por uma lugar no avião para a África do Sul; depois reclamava o regresso imediato de alguns dos jovens emprestados e a «rodar» por aí: Candeias, Rabiola, Ukra, Helder Barbosa; e, enfim, promovia imediatamente o Sérgio Oliveira ao grupo dos convocados habituais. Em contrapartida, entregava também à direcção uma longa lista de jogadores a dispensar, vender, emprestar ou deixar para a Taça da Liga: Helton, Maicon, Tomás Costa, Belluschi, Guárin, Valeri, Prediguer, Mariano, Farías e, sim, Cristian Rodriguéz. Saíam dez sul-﷓americanos e entravam sete jovens portugueses. A língua oficial do balneário mudava logo de espanhol para português e de certeza que sairíamos a ganhar na qualidade das opções. Depois, entregava outra vez a equipe a Jesualdo Ferreira.

2- Não sei se o empate contra o Paços significou ou não o enterrar definitivo das esperanças no título prometido a Pedroto por Pinto da Costa. Seria bom que não, por várias razões, das quais a menor não é a de a despedida ficar a dever-se a um indesculpável erro de arbitragem.

Notável que, depois do que todos viram, A BOLA ainda se tenha lembrado de promover uma sondagem «on line» onde se perguntava se o F.C.Porto teria sido prejudicado por erros de arbitragem. Notável, mas eloquente que tenha havido 73% de respostas a dizer que não. E notável e eloquente que se tenha passado a tentar inventar à lupa uma falta no golo do empate do Porto, pretendendo que Falcão terá feito golo com a mão e não com a cabeça (bastava perguntar a quem tenha jogado futebol um dia se aquela potência e direcção do remate poderiam ser alcançadas com mão…). E tudo isto apenas para não ter de se reconhecer uma coisa evidente: que o F.C.Porto perdeu dois pontos devido à arbitragem, depois de ter perdido Hulk devido a um filme que continua em exibição confidencial há um mês.

Notável que os colunistas benfiquistas e sportinguistas tenham passado a semana a gritar que o F.C.Porto tinha sido beneficiado pela arbitragem contra o Leiria, porque o seu guarda-redes foi mal expulso, «esquecendo» de mencionar: a) que só se percebe pela repetição em slow-motion que a bola lhe vai, de facto, à cara e não às mãos; b) que a expulsão ocorreu a dez minutos do fim, quando o resultado final já estava fixado; c) que antes haviam sido anulados dois golos ao F.C.Porto, um dos quais duvidoso e o outro claramente mal anulado; d) que havia sido validado o primeiro golo do Leiria, também em posição duvidosa, mas com diferente critério de apreciação; e) e que, já nos descontos, o árbitro não hesitou em marcar penalty contra o Porto e expulsar o Fernando, por mão na bola, que foi real mas também não era evidente (e se o penalty tem entrado, aí sim, adeus campeonato). Dizem que o penalty deveria ter sido repetido, porque Helton se mexeu antes, mas não há quem não saiba que essa é uma regra que em todo o lado só se aplica em casos flagrantes, sob pena de ter de se repetir 90% dos penalties.

3- O erro imperdoável do fiscal-de-linha, anulando um golo limpo e, para mais, lindíssimo, foi a razão determinante dos dois pontos perdidos contra o Paços, mas não a única. Bastas vezes tenho escrito, e mantenho, que as grandes equipes têm de jogar o suficiente para se colocarem ao abrigo dos erros dos árbitros. O F.C.Porto também teve, claro, culpas próprias: vários jogadores, em posições determinantes, falharam em momentos-chave ou durante todo o jogo - Rolando e Falcão falharam o que não podiam falhar; Belluschi e Cristian Rodriguéz passaram pelo jogo estragando todas as jogadas em que intervinham.

Mas houve ainda outros factores a acrescentar às razões do fiasco: a falta de sorte e a incrível exibição do guarda-redes pacense, negando quatro golos certos apenas nos cinco minutos finais. E mais: a continuada ausência de Hulk, que já vai em cinco jogos de suspensão «prévia» (e ainda há benfiquistas que têm o supremo desplante de escrever que o F.C.Porto é que está tirar proveito da demora do inquérito disciplinar e que até é muita suspeita a demora! Ah, isso é, só que as suspeitas são outras…).

E, enfim, houve um último factor absolutamente decisivo no desfecho do jogo, e eu peço muita desculpa ao Paços de Ferreira, aos seus jogadores e treinador por ter de o referir, mas eu gosto muito de futebol e há coisas que não se podem calar. Disse Ulisses Morais, no final e antes que alguém falasse nisso, que «dignificámos o espectáculo, não fazendo anti-﷓jogo». Rigorosamente falso: o Paços foi a equipe que mais anti-jogo fez no Dragão esta época, jogou sempre em 4x5x1 e às vezes em 5x5x0, fez um golo caído do céu sem que Helton tenha feito uma única defesa em todo o jogo e os seus jogadores simularam falsas lesões nada menos do que doze vezes. Em Inglaterra, o árbitro não lhes teria consentido esse tipo de jogo, o público tê-los-ia vaiado até os envergonhar e a imprensa tê-los-ia desancado sem dó nem piedade. Mas por isso mesmo é que em Inglaterra os estádios estão sempre cheios, jogue quem jogar. Lamento dizê-lo, mas não gosto de hipocrisias: a exibição do Paços de Ferreira no Dragão foi anti-futebol e infelizmente ajudada de forma decisiva por um fiscal-de-linha que anulou um golo obtido quase da única maneira possível, face àquele anti-jogo - através de um passe de ruptura vertical e uma desmarcação fulgurante do ponta-de-lança.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

UNS ESPERAM DE FORA, OUTROS ESPERAM POR DENTRO (12 JANEIRO 2010)

1- Segundo a opinião insuspeita e prestigiada de Cruz dos Santos, nada menos do que três jogadores do Benfica deveriam ter visto o cartão vermelho directo no jogo contra o Nacional da Taça da Liga, por agressões ou entradas violentas sobre os adversários. Mas não foram nem expulsos nem castigados a posteriori: o árbitro não viu, o CD não corrigiu, não houve sumaríssimo - sorte a deles! Também, segundo relato unânime, Miguel Veloso deveria ter sido expulso por agressão a um adversário, durante o Sporting-Braga: não só não foi expulso, como viria a marcar o golo da vitória. O árbitro não viu, o CD não corrigiu, não houve sumaríssimo: sorte a dele!

No túnel da Luz, o árbitro também não viu, mas o CD estava atento e, por isso, já lá vão três semanas e três jogos de suspensão prévia para Hulk e Sapunaru - nada de grave para quem, a fazer fé nos justiceiros, arrisca nada menos do que seis meses a seis anos de suspensão, por ter andado à pancada com uns seguranças (aliás, stewards, que é mais fino e soa mais a «agentes desportivos»). Não há pressa alguma. Enquanto o pau vai e não vem, folgam as costas... dos adversários. Ao fim de doze dias de suspensão prévia, A BOLA noticiava que as célebres imagens da Benfica-TV sobre o seu famigerado túnel «já» tinham chegado ao CD. O filme demorou doze dias a chegar de Lisboa ao Porto, porque, entretanto, andou em exibições privadas junto dos fiéis do costume, a fim de estabelecer a «verdade prévia» dos acontecimentos!

Entretanto, vi imagens em directo do túnel de Braga, no jogo com o Nacional: sem espanto, constatei que, tal como sucede nas imagens dos túneis dos jogos da Liga dos Campeões, não havia por lá segurança ou steward algum. Será que o túnel de Braga é menos perigoso que o túnel da Luz? Dizem-nos que no túnel da Luz já há seguranças desde 2004 - o que parece sugerir que, afinal, trata-se de um costume e não propriamente de uma disposição regulamentar. Em vão, perguntei aqui se me poderiam esclarecer qual a lei ou regulamento que permitiu aos seguranças do Benfica estarem no túnel, misturados com os jogadores. Não obtive resposta, mas, ao ler que o Benfica será multado na astronómica quantia de 2500 euros pelo facto de eles lá estarem, concluí, logicamente, que eles não podiam lá estar. E, se não podiam lá estar, as coisas ficam feias para o CD: «agentes desportivos» em local proibido? E a fazer o quê — simplesmente caladinhos e quietos, a deixarem-se agredir, sem razão nem motivo, por uma horda de jogadores adversários?

2- Como já devem ter percebido os nossos adversários, tocou a reunir, no Porto. É sempre assim, quando sentimos o inconfundível cheiro dos abutres. Nestas alturas, esquecem-se divergências e discordâncias, pois todos sabemos o trabalho e os sacrifícios que foram precisos para trazer o clube até aqui, até ao lugar que hoje ele ocupa por mérito próprio: não apenas o do melhor e mais prestigiado clube português de futebol, mas também um dos nomes que mais fez por Portugal no mundo. Para o conseguir foi necessário reunir as forças de todos para derrotar a mais extraordinária coligação de medíocres e invejosos que o país já produziu. Porque em Portugal, quando alguém se destaca pelo seu valor ou pelo seu esforço, a reacção da turba não é a de tentar aprender com ele e imitá-lo, muito menos a de lhe reconhecer o mérito: é sim, o de caluniar e tentar manchar o êxito que eles próprios não alcançam. Por alguma razão somos, desde há dois séculos, pelo menos, uma história de sucessivos fiascos - o «país eternamente adiado», de que falava Ramalho Eanes. Mas o F.C.Porto não se adiou, não ficou à espera que o êxito lhe caísse do céu: foi duas vezes campeão do mundo de clubes (onde só se chega, convém recordá-lo, depois de ser campeão da Europa). Tirando o Nobel de José Saramago, há mais algum português, alguma empresa ou instituição portuguesa, que tenha alguma vez sido reconhecido como o melhor do mundo, em determinado ano?

Por isso, quando, na quinta-feira à noite, recebi uma mensagem de um benfiquista dizendo «o Pinto da Costa passou-se da cabeça!», antes mesmo de saber o que teria dito o presidente do F.C.Porto, pensei para comigo: «Ainda bem, já era tempo de passarmos ao ataque!». Já chega de escutar em silêncio o discurso dos calimeros e das aves de rapina da paz! E, se alimentaram a esperança de nos encontrar divididos no essencial, é porque não nos conhecem, não aprenderam nada.

3- Entretanto, no campo de jogo, propriamente dito, fui olhando, distraidamente, para os três primeiros jogos da sequência de jogos fáceis que o F.C.Porto tinha pela frente, entre o Natal e meados de Janeiro: em campo neutro contra a Oliveirense para a Taça, e depois três jogos caseiros contra equipas acessíveis, um para a Taça da Liga, dois para o campeonato. Excelente ocasião para Jesualdo Ferreira mostrar a segunda linha da equipa: os miúdos dos juniores e os argentinos de reserva. O resultado foi fraco, bastante fraco: não há ali ninguém que esteja à altura de, em caso de necessidade repentina, ser chamado à primeira equipa. Os miúdos, que tão mal aproveitados têm sido por Jesualdo (servem para ser chamados aos treinos da equipa principal de vez em quando e depois serem emprestados e perderem-se no vazio), não justificam o tão propalado investimento na formação. Num clube que investe a sério nas camadas jovens, pelo menos um ou dois jogadores devem aparecer todos os anos na equipa principal. Quantos aparecerem no F.C.Porto nos últimos anos? Quantos jogadores da cantera portista estão actualmente entre os 18 mais utilizados?

Também não admira, visto que eles são sistematicamente tapados pelas sucessivas ondas de sul-americanos. E essa foi a segunda decepção que esta série de três jogos fáceis confirmou: dos três argentinos contratados este ano para o meio-campo (Belluschi, Valeri e Prodiger) nenhum se aproveita. Servem para fazer número, tal como Tomás Costa e Guarín. De todos, só Belluschi consegue ser um quase bom jogador: remata bem, mas raramente; finta bem, mas só o primeiro; passa bem, mas só de vez em quando. Ainda agora se especula com os nomes de mais três argentinos, que viriam por troca com Bollati (outro falhanço) e Farías (idem aspas). Todos jovens, todos semi-desconhecidos, todos argentinos — como se só os argentinos soubessem jogar futebol.

E, todavia, ainda este fim-de-semana, vendo jogar o Rúben Micael, pelo Nacional, constatei como é fácil, afinal, distinguir um bom jogador de um jogador de catálogo: a pose, o estilo, a técnica, a visão de jogo, a noção de criatividade e objectividade simultaneamente, a coragem de assumir riscos. É jovem, é já grande jogador reconhecido por todos, marca golos, é português e não precisa de intermediário para ser contratado: são demasiados defeitos, quando comparado com um argentino qualquer. É verdade que Rui Alves pede por ele 5 milhões. Mas, lembram-se quanto custou, por exemplo, o Prodiger? 4,2 milhões. E o Pelé, ainda se lembram? 7 milhões.

Caiu bem a promessa de Pinto da Costa de oferecer este campeonato a Pedroto. Mas, com este meio-campo, duvido que a promessa possa ser cumprida. É verdade que finalmente o Raul Meireles parece estar a subir de forma, mas o Fernando está uma sombra da época passada, faltoso e desastrado a passar a bola, como ainda agora se viu contra a União de Leiria. E, ao lado deles, não há ninguém, só uns argentinos de ocasião, que vão alternando a titularidade entre si, dando sempre a desagradável sensação de ainda não terem percebido muito bem onde estão. Pode ser que eu me engane e que algum deles ainda se faça jogador - mas duvido que ainda a tempo deste campeonato. (E, a propósito, queria dizer ao internauta portista que me acusa de contradição porque eu teria defendido a saída do Alan, que, pelo contrário e apesar de não o achar um extraordinário jogador, critiquei aqui a sua «doação» ao Sporting de Braga - numa altura, aliás, em que Jesualdo resolveu desfazer-se de todos os extremos que tinha).

4- Ah, e devia também responder ao José Diogo Quintela! Mas vale a pena responder a alguém que acha que o «testemunho» de Carolina Salgado vale mais do que a opinião de três juízes de instrução e seis juízes de julgamento? E que continua a argumentar como se fosse tudo uma questão de opinião e a sua valesse mais do que as sentenças dos tribunais? Espero bem que se ofereça como testemunha da Dª Carolina, quando ela tiver de responder em juízo pelo crime de perjúrio de que está acusada por um juiz...

ESTE ANO COMEÇA BEM... (05 JANEIRO 2010)

1- Desde que esta época se iniciou, eu tinha feito a mim mesmo uma promessa: aguentar-me até ao limite para não dar alento nestas crónicas ao clima habitual de facciosismo cego que alimenta ódios e suspeições sem fim e impede de ver e reconhecer o mérito alheio onde ele existe. Já lá vai decorrido meio campeonato e nunca, uma só vez que fosse, me pronunciei sobre arbitragens: quer as do meu clube, quer as dos outros; elogiei, mais do que uma vez, os progressos evidentes do futebol do Benfica, escrevendo que era a equipa que mais e melhor estava a jogar, e não tive uma dúvida em reconhecer como mais do que justa a sua vitória recente sobre o F.C.Porto. Fiz o que pude para a sanidade do ambiente. E aguentei-me até onde consegui.

Mas, às tantas, as coisas começam a ficar difíceis de encaixar sem reagir. Anteontem, por exemplo, ao ler o texto, pretensamente engraçadinho, do Diogo Quintela, achei que a direcção do F.C.Porto deveria abandonar a sua tradicional passividade litigante e colocar-lhe um processo-crime por difamação, como o seu texto amplamente merece. Talvez ele prefira a justiça popular à justiça democrática, talvez prefira a verdade popular à verdade apurada como tal; talvez as sentenças da justiça comum (e não a da populaça futobolística) lhe não mereçam respeito algum, talvez mesmo nem sequer se dê ao trabalho de as conhecer. Mas certamente sabe que insistir em mentiras desmascaradas pela justiça é uma calúnia e sabe que ofende, não apenas o presidente do F.C.Porto, mas todos os portistas, quando se diverte a escrever pretensos diálogos em que Pinto da Costa compra um árbitro por 2.500 euros. Goebells dizia que uma mentira repetidamente dita transforma-se em verdade. Mas Goebells perdeu e as democracias triunfaram. Talvez Diogo Quintela não goste, mas é assim: há regras no jogo.

O F.CPorto também deveria abandonar a sua passividade litigante no processo que aí vem e que se adivinha tumultuoso, do Conselho de Disciplina contra meia equipa do F.C.Porto, a propósito daquilo a que cada vez mais me sinto tentado a chamar «a emboscada da Luz». E isso deveria começar pelo levantamento de um incidente de suspeição contra todo o elenco do CD e, muito em especial, contra o seu presidente, o Dr. Ricardo Costa. A história recente da «justiça» do CD está cheia de factos que demonstram mais do que suficientemente a senha persecutória do Dr. Costa e do CD contra o F.C.Porto. Este órgão e este presidente não dão garantias mínimas de isenção para julgar o F.C.Porto.

Têm dúvidas? Não sei se repararam como, há uns dias atrás, o Dr. Costa fez divulgar, através de jornalistas de confiança, a informação da decisão «inédita» que o CD havia tomado de recorrer de uma sentença do seu próprio órgão de recurso, o Conselho de Justiça (primeiro para o Pleno do próprio CJ, depois, ao que se anuncia e em caso de insucesso, para o tribunal administrativo). Sem dúvida que a decisão é inédita e até estranha . ou não, como veremos adiante. Como notou José Manuel Meirim, no Público, é inédito e estranho que um órgão recorrido recorra da decisão do órgão de recurso (é assim como se o tribunal da Relação pudesse recorrer de uma decisão do Supremo), e leva a que o CD abandone o seu papel de juiz para assumir o de parte numa questão: a tanto leva a vaidade do Dr. Ricardo Costa.

Mais estranho ainda é pensar que tanto empenho do CD tem por objecto apenas uma questão menor: o responsável pelas relações com a imprensa do F.C.Porto insultou um jornalista de serviço num estádio (coisa lamentavelmente frequente, com todos os clubes...). Que devia ser condenado, não há dúvidas: condenado por insultar um jornalista em serviço. Mas o Dr. Ricardo Costa queria mais e resolveu condená-lo por insultar, não um jornalista, mas «um agente desportivo» — tese absurda e até insultuosa para os jornalistas, que o CJ, em recurso, obviamente não acolheu. E é desta decisão do CJ que o Dr. Costa resolveu recorrer, apostado em criar doutrina nova - como tentou fazer no passado, com resultados que o deveriam levar, se não a renunciar ao cargo, ao menos a um módico de pudor e contenção.

Agora, o curioso desta «inédita» decisão do CD . divulgada logo após os incidentes do túnel da Luz . é que ela aparenta ser tudo menos inocente. Reparem como tudo bate certo: se o Dr. Costa conseguir vencimento na sua tese de que um jornalista num estádio é um «agente desportivo», também poderá sustentar a seguir que um segurança num túnel do estádio é igualmente um «agente desportivo». E disso depende a possibilidade de aplicar a meia equipa do F.C.Porto aquelas demenciais penas de suspensão de um a seis anos, que o Regulamento Disciplinar contempla para as agressões a «agentes desportivos». Ainda chegará a vez de o vendedor de castanhas assadas à porta do estádio vir a ser declarado também «agente desportivo»... se isso servir para punir jogadores do F.C.Porto.

Sobre o que realmente aconteceu no túnel da Luz, estamos todos à espera de conhecer as já tão célebres imagens da longa metragem produzida pela Benfica-TV. Todos, não: meio mundo já as conhece. Eu já as ouvi relatadas por vários benfiquistas e ainda anteontem, aqui na BOLA, podia ler-se um pormenorizado relato dos pretensos acontecimentos no túnel, baseado, ou nas imagens, ou na versão que delas foi contada ao jornalista. «A BOLA sabe...», escrevia-se aqui. A BOLA sabe? E como sabe - viu as imagens, que é suposto terem sido entregues pelo Benfica ao CD da Liga e a mais ninguém? E, se viu, quem lhas mostrou - o Benfica ou o CD? E, se não as viu, como sabe - se não por relato de uma das partes, assumido como verdade indesmentível?

Pena que A BOLA não saiba outras coisas, a começar pelo que significa divulgar peças de acusação, antes mesmo de haver acusação, e de as divulgar em tais termos, que a defesa — (que nem sequer teve ainda acesso a nada, nem sabe qual é a acusação em concreto) — já tem a condenação escrita nas páginas dos jornais. E é pena que a BOLA não saiba também responder a outras questões essenciais: os seguranças têm o direito de estar ali? É habitual nos outros campos, estarem no túnel à saída dos jogos, misturados com os jogadores? Os seguranças do Benfica ficaram então no túnel, caladinhos e quietos, e foram inesperadamente agredidos por uma troupe de jogadores portistas que, já depois de fechados na sua cabina, resolveram sair cá para fora para os agredir? E A BOLA não sabe que, para além das cenas de pugilato do túnel, o essencial desta história é perceber o que faziam ali os seguranças do Benfica e qual foi o seu papel nos acontecimentos?

Para que não haja dúvidas, esclareço a minha posição: as agressões têm de ser punidas, primeiro criminalmente, depois no foro disciplinar. Mas aqui, na justa proporção à sua gravidade, ao motivo e circunstâncias da agressão e à representatividade desportiva dos agredidos - que é nenhuma. Até aí, todos estamos de acordo. Agora, fazer disto a arma decisiva para o Benfica ser campeão este ano, isso não! Tenham vergonha! Provem que são capazes de ser campeões no campo e não no túnel, que são capazes de ganhar um campeonato sem comprar a transferência de jogos de estádio e sem a colaboração dos amigos colocados em lugares de decisão na Liga, que, em tempos, Luís Filipe Viera declarava ser mais importante de ter do que uma boa equipa de futebol! Faccioso ou não, eu acho e sempre achei que o melhor deve ganhar e à vista de todos. E repito que, se o campeonato acabasse agora, o melhor era o Benfica. E até acho que fazia muito bem à nossa competitividade ter de volta um Benfica ganhador, mas como deve de ser. Porém, ainda falta meio campeonato e é desejável que ele seja disputado até ao fim em condições de igualdade. Depois de uma década de frustrações e mediocridade, interrompida apenas por um título que a ninguém convenceu, era isto que eu desejaria, se fosse benfiquista. Mas os auto-proclamados «moralizadores» do futebol português já provaram que não se contêm e que, debaixo da sua capa de virgens púdicas, não se preocupam muito com os meios para chegarem aos fins que ambicionam. É natural: os vencidos não gostam de lutar em campo aberto.

2- E o ano de 2010 abriu, aqui na BOLA, com mais uma daquelas periódicas entrevistas ao presidente do Benfica. Seis páginas - a capa, uma página inteira de elogios e quatro de auto-elogios, disfarçados de entrevista. E o dia de Ano Novo amanheceu cinzento e gasto. Tal qual o discurso do personagem.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

A LUZ AO FUNDO DO TÚNEL (29 DEZEMBRO 2009)

1- O futebol português parece ter entrado agora na fase dos túneis. Tem em comum com as anteriores - a fase das cotoveladas e a dos sumaríssimos - o mesmo alvo, mal escondido com o rabo de fora: o F.C.Porto. No passado, como se recordarão, só havia sumaríssimos para jogadores do F.C.Porto e também só eles é que usavam os cotovelos, mesmo que imaginariamente. Incontáveis programas de televisão gastavam horas a passar ao ralenti imagens envolvendo jogadores portistas até conseguirem «provar» que tinha havido cotovelada. Não por acaso, os alvos predilectos foram sempre jogadores que, numa ou noutra época, eram decisivos no plantel azul-e-branco: McCarthy, Deco, Quaresma. Não sei se já repararam mas, assim que eles se foram embora, desapareceram as cotoveladas do futebol português e morreram os sumaríssimos.

E eis então que chegamos à fase do túnel. O alvo principal desta vez chama-se Hulk - que, embora esteja em crise de exibições, tem o potencial por todos bem conhecido de, quando lhe dá na gana, virar a história de um jogo. E quem tem esse potencial também pode virar a história de um campeonato. O Sapunaru ou o Helton todos sabem que não incomodam por aí além. Mas o Hulk, sim: tirar o Hulk ao F.C.Porto até final do campeonato é o mesmo que tirar o Di María ao Benfica. Vale a pena, então, empreender na nova teoria dos túneis e criar doutrina - a qual, como de costume, nascerá e morrerá depois de cumprida a sua função de diminuir drasticamente o potencial competitivo do F.C.Porto.

O mais curioso disto tudo é que o tuning começou na época passada, com o Benfica, e assim continuou esta época. As confusões nos túneis envolveram sempre jogadores do Benfica e jogos onde o Benfica participou. Pura coincidência. Já no ano passado, depois de um jogo na Luz, o nacionalista Rúben Micael (que bem que ele ficava de azul-e-branco!) desabafou: «Passam-se coisas estranhas no túnel do Estádio da Luz, que mereciam ser investigadas». Investigar o túnel da Luz? Está quieto, nessa não cairia o CD da Liga!

Durante toda esta semana, no rescaldo do Benfica-F.C.Porto, os jornalistas conotados com os interesses do Benfica foram preparando o terreno para uma «justiça exemplar», adequada aos horrendos crimes que três jogadores portistas terão cometido no túnel da Luz. Primeiro, sentenciando que a coisa era tão grave que, no mínimo, iria haver jogadores suspensos por seis meses e, no máximo, por seis anos! E na terça-feira já estavam municiados com a informação de que a suspensão preventiva dos jogadores portistas era de duração indeterminada - porque assim tinha sido estatuído, por proposta do próprio F.C.Porto, aliás, com a abstenção do Benfica. Esta informaçãozinha bem oportuna, escorregada para os jornais, deixou-me logo de sobreaviso do que se prepara. Pinto da Costa faz bem em ir já ao mercado ou ao Olhanense, porque tudo está a ser devidamente montado para que o Hulk não jogue mais esta época. Há, sobretudo, uma coisa impensável e inaceitável: que o Benfica não seja campeão este ano. Porque se isso acontece, a própria falência é uma hipótese bem séria.

Antes, porém, de os justiceiros habituais entrarem em acção - além do mais, com um longamente reprimido desejo de vingança da vergonhosa e total derrota dos seus planos de encostar o F.C.Porto, despojá-lo dos títulos conquistados, retirá-lo da Europa e enviá-lo para a segunda Liga para melhor desimpedir o caminho ao Benfica, graças ao fabricado «Apito Dourado» - convém, talvez, parar para pensar um pouco. Ou, ao menos, para fazer umas perguntas, que julgo pertinentes para a investigação. A saber:

1 - Os seguranças (stewards) têm ou não o direito de estar no túnel de acesso aos balneários? Se têm esse direito, a que título lhes é concedido? E, se o não têm, será que, da parte do Benfica, tudo se resolve com uma multa de 250 euros?

2 - Houve ou não provocação dos seguranças a membros da comitiva azul-e-branca, no dito túnel, e antes ou após o jogo?

3 - Nomeadamente, é verdade ou não que o segurança alegadamente agredido por Sapunaru começou logo por provocar Reinaldo Teles antes do jogo se iniciar, quando os jogadores foram para o aquecimento? E voltou a fazê-lo depois do jogo terminado?

4 - Se houve provocações, eles partiram espontaneamente do ou dos seguranças ao serviço do Benfica, ou foram premeditadas e por quem?

5 - Se o relato da imprensa desportiva está certo, isso implica que os jogadores do F.C.Porto, todos eles, atravessaram o túnel após o jogo e recolheram-se na sua cabine, sem quaisquer incidentes, só depois tendo saído da cabine para verem o que era a confusão que decorria no túnel? Ou seja: não agiram nem premeditadamente nem por iniciativa própria, mas apenas por reacção a qualquer coisa que viram ou ouviram?

6 - E que tremenda confusão se terá então armado no túnel que chamou a atenção dos jogadores portistas, que já estavam recolhidos à sua cabine? E porque não chamou também a atenção dos jogadores ou elementos da comitiva do Benfica?

7 - O filme de terror, tão propagandeado pela imprensa próxima do Benfica, contém apenas cenas escolhidas, ou antes tudo o que aconteceu no túnel, desde que o F.C.Porto chegou às instalações da Luz?

8 - Existe alguma disposição penal ou disciplinar em toda a ordem jurídica portuguesa que preveja a suspensão prévia sem limite de tempo de um suspeito ou arguido? Se existe, resta alguma dúvida de que ela é, obviamente, inconstitucional?

9 - De igual modo, existe alguma pena disciplinar (seja pena principal ou acessória) que suspenda o direito ao trabalho durante mais do que trinta dias? E se o Tribunal Constitucional for chamado a julgar um estatuto disciplinar tão idiota como o que foi parido pelos juristas do futebol português, com penas de impedimento de jogar por seis meses ou seis anos, num País onde a Constituição estabelece que ninguém pode ser privado do direito ao trabalho, o que acham que os juízes farão à coisa?

10 - Faz algum sentido para alguém (tirando para estas luminárias jurídicas do nosso futebol), que, se um jogador agride outro, durante o jogo e à vista de toda a gente, seja expulso e fique um ou dois jogos sem jogar, se agride um árbitro fique seis meses sem jogar, mas que, se agride alguém que não faz parte do jogo, fora dele e longe da vista de todos, possa ser suspenso de seis meses a seis anos? Qual é a lógica desta absurda disparidade de critérios? Agredir um segurança num túnel é cem vezes mais grave do que agredir um adversário ou o árbitro durante o jogo? E a agressão é mais grave se cometida perante cinco testemunhas do que se cometida perante cinquenta mil?

Claro que nada disto faz sentido algum. São apenas leis idiotas, paridas por juristas de segunda categoria e aprovadas ao desbarato na confusão das Assembleias Gerais da Liga. O valor dos nossos juristas do futebol ficou exuberantemente demonstrado quando, depois de tantas e tão judiciosas decisões no «Apito Dourado», eles viram (sem estremecer de vergonha, é certo) as suas sentenças serem todas estilhaçadas pelos sucessivos tribunais, com juízes a sério e sem manobras clubísticas ocultas. O que daqui vai sair, com grande grau de probabilidade, é que, depois de terem estreado com o F.C.Porto estas disposições disciplinares dignas do Código de Costumes da Arábia Saudita, os que assinaram isto de cruz vão deitar as mãos à cabeça e revogar tudo. Só que, entretanto, os espertos do costume já terão conseguido o seu cordeiro imolado. Tal qual como sucedeu com os célebres sumaríssimos.

É a Luz ao fundo do túnel.

AUTÓPSIA DE UMA JUSTA DERROTA (22 DEZEMBRO 2009)

1- Nunca tinha visto tal coisa: a semana inteira antes do jogo só deparei com benfiquistas possuídos por uma falta de optimismo total, com nenhuma fé noutra coisa que não fosse uma inevitável derrota às mãos do F.C.Porto. Poucas horas antes do jogo, um ilustre benfiquista descarregava no treinador e no presidente a responsabilidade pela derrota, que dava como certa. E, quando lhe disse que não compreendia o pessimismo dele, respondeu-me: «Não é pessimismo, é já resignação». Concluí que os benfiquistas estavam borrados de medo do Porto e, recuando aos tempos de infância, senti isso como uma doce desforra: antes de entrar em campo na Luz, o F.C.Porto já estava a ganhar. E, pelas exuberantes manifestações de alegria de adeptos e jogadores, com tão magra e sofrida vitória, percebi que os benfiquistas têm mais medo do Porto do que de um terramoto de escala 6,1: pareciam sobreviventes de uma catástrofe anunciada, rejubilando por ainda estarem vivos. E confirmei depois, pela euforia sem limites da imprensa desportiva, que o Benfica tinha conseguido uma extraordinária proeza: vencer o FC Porto por 1-0 na Luz. Agradecemos a homenagem.

2- Foi um Benfica-Porto excepcionalmente tranquilo. Não houve declarações incendiárias de parte a parte antes do jogo, não houve incidentes nas bancadas, não houve mau perder nem arrogância na vitória, e, apesar das miseráveis condições do relvado e do mau tempo, não foi um jogo duro nem excessivamente faltoso. Não houve, que me lembre, uma única entrada violenta ou maldosa. Alguns sururus, perdas de tempo e lesões simuladas (dos benfiquistas a defender a magra vantagem) não passaram nunca dos limites normais e aceitáveis. É verdade que antes do jogo, Pinto da Costa foi alvo de uma tentativa de emboscada de uns quantos energúmenos - que a polícia evitou, sem todavia os deter ou identificar. E também, após o jogo, lá houve mais uma confusa história de túnel - desta vez, ao que parece, sem a presença de jogadores do Benfica, mas apenas de stewards ao seu serviço e que conseguiram a proeza de fazer expulsar dois jogadores portistas, já fora do campo e do olhar de testemunhas. Mas, daquilo que se viu, foi só um jogo de futebol e ainda bem.

3- Também não houve «casos de jogo», como quase sempre há. Lucílio Baptista - cuja nomeação considerei uma provocação ao FC Porto - acabou por ver a vida facilitada pelos jogadores e teve uma arbitragem técnica e disciplinarmente razoável, sem influência no desfecho. É verdade que os portistas reclamaram dois penalties na primeira parte, mas sem razão aparente, e é verdade que os benfiquistas reclamaram um na segunda parte e com razão, mas ele resultou directamente da cobrança de um canto que o não era.

4- Enquanto se pôde jogar futebol naquele piso, foi um jogo intenso e bem disputado - a milhas do soporífero Sporting -Benfica de há umas semanas atrás. Claramente, estavam em campo as duas melhores equipes portuguesas do momento, e só não mostraram mais porque o relvado o não deixou.

O Benfica mereceu a vitória, justamente porque jogou melhor enquanto se podia jogar bem. E se o F.C.Porto jogou mais na segunda parte, foi apenas mais e não melhor. O golo do Benfica, se bem que concluído exemplarmente por Saviola, foi inteiramente fortuito: o David Luiz quis apenas aliviar a bola de qualquer maneira e acabou por isolar com um passe mortal o melhor jogador deste Benfica. Mas, quando o golo apareceu, já se adivinhava e já era merecido. Em toda a primeira parte, jamais o Porto criou um único lance de perigo e passou o tempo todo a transviar passes, a perder bolas no meio-campo e a permitir sistematicamente que o Benfica ganhasse a segunda bola - como sucedeu no golo. Na primeira meia-hora da segunda parte, empurrou, é facto, o Benfica lá para trás e podia também, num golpe de sorte, ter chegado ao golo. Mas apenas dispôs de duas ocasiões para isso e depois, como disse Jesualdo Ferreira, nos últimos vinte minutos já não houve jogo («o Benfica soube gerir o tempo», confessou Jorge Jesus).

Tudo visto e revisto, não tenho dúvida que a grande maioria dos portistas pensa como eu, que a derrota foi justa e não há nada a opor a ela. É isso, aliás, que nos distingue, enquanto adeptos, dos outros: nós sabemos ver futebol, sabemos reconhecer quando a nossa equipa joga mal e não merece ganhar. E onde nós vamos, desde que não nos provoquem, não há incidentes.

5- E porque razão jogámos mal e perdemos? Por duas razões coincidentes e que já aqui anotei antes: porque o Benfica tem muito melhor equipa que no ano passado e nós temos pior equipa. Acima de tudo, e como há muito venho dizendo, porque não temos meio-campo.

Qual era o meio-campo do F.C.Porto no ano passado? Fernando (que foi uma das revelações do campeonato), Raul Meireles (que fez a sua melhor época de sempre) e Lucho González. Qual é o meio-campo do F.C.Porto este ano? Fernando (a jogar pior e quase só atrás, a defender), Raul Meireles (a léguas do que fez no ano passado, excepto na Selecção) e um trio, que alterna entre si, formado por Guarín ou Valeri ou Belluschi, e que alguém muito optimista imaginou que poderia, algum deles, substituir Lucho. Para além disso, o F.C.Porto tem o Cristian Rodriguez transformado, não numa unidade a menos, mas numa nulidade a mais, e perdeu um jogador tão decisivo e vibrante como o Lisandro, substituído por Falcao - que é um bom jogador, mas não tem comparação alguma com o argentino.

Com este panorama, é preocupante ouvir Pinto da Costa (que, como se sabe, é quem faz e desfaz a equipa todos os anos), afirmar que não há necessidade alguma de ir ao mercado, em Janeiro. E não deixa de ser irónico que ele, que todas as épocas vai ao mercado de Verão comprar uma profusão de sul-americanos dos quais nunca se aproveita mais do que um ou dois, servindo os restantes para arruinar a gestão corrente da SAD, agora se arme em poupadinho, enquanto que eu, que sempre o critiquei por isso, agora, sim, ache, que o F.C.Porto precisa urgentemente de ir ao mercado comprar, não um, mais dois grandes médios criativos de ataque. Se é que queremos evitar outra vez fazer o papel de «sitting duck» contra o Arsenal e se é que queremos evitar o Benfica campeão.

6- Com esta escassez de soluções e face a um meio-campo benfiquista com quatro jogadores, Jesualdo resolveu bater-se com o marcha-atrás Fernando, o intermitente e basicamente apagado Meireles e o inacreditável Guarín - outra teimosia sua, no género do Mariano. Ou seja, entregou o ouro ao bandido, logo de entrada, e depois queixou-se de que a equipa não saía organizadamente para a frente nem ligava o jogo! Pudera, bastava olhar para a cara do Guarín para se perceber o total desnorte técnico e táctico do rapaz, tão perdido num Benfica-Porto como eu estaria a fazer de barítono no S. Carlos! Desta vez, pelo menos, não foi preciso esperar os habituais 60 minutos para que Jesualdo Ferreira realizasse o seu tremendo erro de casting: bastaram 45. Mas fatais.

7- Benfica e F.C.Porto também se bateram previamente no mercado financeiro, ambos anunciando, com rufar de tambores, duas operações financeiras geniais. O Benfica, realizando uma Assembleia-Geral, onde umas dezenas de sócios aprovaram qualquer coisa que não entenderam bem, passada entre o clube, a SAD e o Benfica Estádio; e o F.C.Porto anunciando o retumbante «sucesso» de mais um empréstimo obrigacionista colocado na bolsa. É natural que os adeptos não se preocupem muito a tentar entender estas «nuances» das administrações dos seus clubes - o que lhes interessa são as vitórias em campo e pouco mais. Então, expliquemos, sucintamente, o que se passou. No Benfica, o que se passou é que o clube deu o estádio da Luz à SAD, para que esta deixasse de ter capitais próprios negativos - o que, legalmente, provocaria a sua extinção. Quer isto dizer que, se um dia a SAD não tiver como pagar as dívidas, marcham primeiro os jogadores (cujos passes lhe pertencem) e depois o estádio… e o clube fica sem nada. No F.C.Porto, sucedeu que a SAD contraíu um empréstimo de 18 milhões de euros para pagar outro empréstimo que tinha contraído três anos antes, mais os respectivos juros. E contrair dívidas para pagar dívidas é uma forma clássica de fazer aumentar a dívida. Quanto ao «tremendo sucesso» ficou a dever-se apenas à taxa de juro que a SAD do F.C.Porto aceitou pagar por esta nova dívida: 6% ao ano - quando as taxas do mercado variam entre 1,25 e 2%. Uma excelente operação!

segunda-feira, dezembro 28, 2009

ESTRANHA FORMA DE JORNALISMO (15 DEZEMBRO 2009)

1- A situação repete-se desde há anos e gostaria que alguém ma esclarecesse: porque será que de cada vez que há desordens nas bancadas durante um jogo de futebol transmitido na televisão, nós somos pudicamente postos visualmente à margem dos acontecimentos? Será que há «instruções superiores» para ocultar a violência nos estádios, de modo a fazer crer que essa coisas não existem por cá, ou de modo a não nos impressionar? Não sei, mas seria bom sabê-lo porque, para todos os efeitos, estamos perante um acto de censura, deliberado e em directo. E, perante um anti-jornalismo, que, confrontado com a notícia a acontecer nesse momento, opta por desviar o olhar e assobiar para o ar, fingindo que nada de importante se está a passar.

Sábado, em Olhão, viveu-se mais uma situação dessas, em que durante largos minutos, quinze ou vinte, o relator e o comentador da Sport TV iam fazendo vagas referências às «cenas lamentáveis» que se estavam a viver na bancada, sem ousarem dizer ao certo do que se tratava e, sobretudo, com o realizador a ter um extremo cuidado para evitar mostrar qualquer imagem da cena. E durante largos minutos, foi possível apenas ao espectador aperceber-se da gritaria que vinha das bancadas, da chegada de constantes reforços policiais e até mesmo da apreensão patente nos rostos de jogadores e árbitro - a certa altura, chegando mesmo a suspender o jogo por instantes. O pudor foi ainda levado ao ponto de ocultar quem estava a protagonizar os desacatos - embora não fosse difícil de adivinhar, visto que eles tinham começado logo após o golo inaugural do Olhanense. Mas, a certa altura, houve um ligeiro descuido do realizador e durante breves segundos lá foi possível ver uma entusiasmada claque benfiquista lançando cadeiras e tudo o que tinha à mão para cima da bancada dos sócios do Olhanense.

A esta hora, talvez o presidente do Olhanense já não esteja tão certo que foi uma boa decisão, «uma homenagem aos sócios do clube», renunciar a jogar antes no inútil monumento do Estádio dos Contribuintes do Algarve. Afinal de contas até, e como vem sendo habitual, a anunciada enchente que sempre se anuncia com as visitas do Benfica afinal traduziu-se em meia-casa, se tanto. Este é , aliás, um fenómeno curioso: porque será que quando o Benfica visita um clube «pequeno» se anuncia sempre uma enchente que depois nunca ou quase nunca se confirma? Será que há alguma relação entre isso e o comportamento habitual das claques benfiquistas?


2- Outra coisa que também já entrou nos hábitos futebolísticos nacionais são as declarações do presidente do Benfica na véspera destes jogos. Recebido e apaparicado nas Casas do Benfica ou nos Paços do Concelho locais, Luís Filipe Viera aproveita sempre para dar início ao jogo do dia seguinte ou dessa noite, com um pouco subtil jogo de pressão psicológica. E uma das coisas recorrentes nas suas jogadas prévias são as queixas de que estes adversários costumam jogar muito contra o Benfica - coisa que, para Vieira, é altamente suspeita... Também desta vez, em Olhão, o presidente do Benfica voltou a queixar-se da «motivação extra» dos adversários quando jogam contra o Benfica. Essa motivação extra (contra o Benfica e contra os outros grandes) que, aqui e em todo o lado, é reconhecida por jogadores e treinadores e saudada como coisa louvável por todos os comentadores, isso que, por exemplo, dá origem ao tal «espírito da Taça», para o presidente do Benfica é uma coisa lamentável e motivo de suspeitas. «Não podemos confirmar, mas sabemos o que se passa e como se fazem as coisas...» - disse ele, a propósito, e lançando mão dessa linguagem da insinuação tão cara ao futebol português.

Assim, o principal responsável pelo autoproclamado maior candidato ao título deste ano estranha e lamenta que o Olhanense, por exemplo, não facilite quando enfrenta o Benfica. Aqui está alguém que verdadeiramente contribui para o fair-play e para a «verdade desportiva».

O que valeu ao Benfica em Olhão foi, como é habitual também, os últimos minutos do jogo, um fiscal de linha desatento à posição de Nuno Gomes no golo do empate e um árbitro atento ao facto de domingo haver um Benfica-Porto, quando se encaminhou para Cardozo, depois de expulsar Djalmir, e pelo caminho mudou o vermelho a Cardozo para amarelo.


3- Para aqueles que insistem em continuar a não perceber, o F.C.Porto voltou a mostrar em Madrid porque razão é o único clube com dimensão europeia do nosso futebol. Com ou sem crise do Atlético, não é qualquer um que chega a Manzanares e dá uma lição de bola ao Atlético, acompanhada de um retumbante 3-0, que ainda podia ter sido mais. Quem conta no futebol espanhol viu certamente com muita atenção a portentosa exibição de Bruno Alves e aquele incrível golo a frio, o pânico que Hulk conseguia gerar entre a defesa colchonera, e a facilidade exuberante com que Fucile meteu ao bolso Simão Sabrosa, deixando-o reduzido ao habitual expediente de se atirar para o chão na área - que tão bons resultados dava com árbitros portugueses e ao serviço do Benfica, mas que na Europa só leva os árbitros a aconselhar-lhe juizinho.

As grandes equipas, como os grandes jogadores, são as dos grandes jogos. Esta época, a equipa tem sido medíocre nos jogos menos importantes (ainda anteontem, contra o Setúbal), mas, nos momentos a sério - como em Stamford Bridge, contra o Chelsea - nota-se a diferença. Mas, para ter um lugar certo entre o clube dos dez mais da Europa, faltam a esta equipa algumas peças essenciais: um guarda-redes de top e dois médios de ataque criativos. Depois, falta que Cristián Rodríguez comece a jogar qualquer coisa e que Fernando deixe de ser apenas um bom médio defensivo, alargue o seu raio de acção no jogo, perca o medo de ir à frente e melhore muito a qualidade dos seus passes. Mas, para já, conquistou o seu habitual lugar, pelo menos, nos dezasseis avos-de-final da Champions, já cobrou 18 milhões de proveitos e, pela situação actual do campeonato, já tem praticamente garantida a participação na Champions do ano que vem, mesmo que fique em segundo lugar (porque, como cabeça de série, é de prever uma eventual qualificação acessível).

4- O que acima escrevi, significa que acho que o Sporting já foi e que o Braga não chegará lá - aos dois primeiros lugares do campeonato. Uma e outra coisa venho aqui prevendo desde o início do campeonato. O Sporting, porque toda a gente vê, a olho nu, que não tem equipa e, quando assim é, não bastam a vontade ou a fé. O Braga, porque muito tem já feito - e muita coisa com alguma sorte - mas não acredito, não vejo, que a equipa tenha a consistência e a resistência de um líder. Um líder tem de jogar sempre para ganhar e, para tal, precisa de individualidades que resolvam os jogos que o conjunto não consegue resolver. Para isso é preciso ter um Saviola ou um Hulk, e o Braga não tem. Ao longo de trinta jornadas, isso acaba por fazer diferença.

5- O «Apito Dourado» morreu de vez, esta semana, no Tribunal da Relação de Coimbra, com a confirmação da absolvição de Pinto da Costa e restantes co-arguidos, no caso do suposto suborno do árbitro do Beira-Mar-FC Porto de 2004 - um jogo que já não contava para nada, excepto para alimentar a inveja e maledicência nacionais. Olhando para o teor dos acórdãos, qualquer um pode concluir facilmente que, se tivesse tido um mínimo de isenção e bom-senso, nunca o Ministério Público teria assumido aquela acusação, pela simples razão de que tudo o que tinha baseava-se apenas na vendetta pessoal de uma testemunha que merecia zero de credibilidade. Porque escrevi isso aqui desde o primeiro dia, sinto-me também vencedor do processo. E só lamento que os notavelmente vencidos não assumam agora as suas responsabilidades. O único que o fez foi o pateta do Platini - mas, tal como agora se retratou, também antes acusou e difamou sem fazer ideia do que estava a falar. Mas a dr.ª Maria José Morgado, o dr. Pinto Monteiro e o dr. Ricardo Costa nem essa desculpa têm. O que lhes vale é que este é o país da impunidade.

"MENGO"! (08 DEZEMBRO 2009)

1- Corria o ano de 1992 quando o Clube de Regatas Flamengo, do Rio de Janeiro, se sagrou campeão brasileiro pela última vez. Nessa altura, recebia o Rio a Cimeira da Terra, onde 108 Chefes de Estado do mundo inteiro foram fingir estarem muito preocupados com a saúde do planeta. Dezassete anos depois e no dia em que em Copenhaga se abre a Cimeira Mundial do Clima, o Flamengo chegou outra vez, e pela sexta na sua história, ao título de campeão federal ﷓ ou seja, campeão nacional do Brasil. Entre uma e outra data decorreram dezassete anos, catorze dos quais os mais quentes de sempre. O planeta avançou dramaticamente no caminho do aquecimento global e o Flamengo nunca mais foi campeão. Dezassete anos é muito tempo: foi o tempo que o F.C.Porto esteve sem ganhar um campeonato, entre a minha infância e a idade adulta; foi o tempo que também o Sporting esteve depois sem ganhar um campeonato, nos anos da imparável hegemonia portista.

Mas o Flamengo, que podemos considerar o Benfica do Brasil (sendo o Fluminense o Sporting e o Corinthians o F.C. Porto), é mais do que um simples clube, fundado para se dedicar ao remo na Lagoa Rodrigues de Freitas, onde hoje ainda mantém instalações. O Mengo é o mais popular clube do Brasil e uma religião no Rio de Janeiro. É impossível andar na rua ou na praia sem tropeçar a cada momento com alguém vestido com a alvi-negra ﷓ a camisola vestida, por exemplo, pelo imortal «Pelé branco», Zico de sua alcunha, ou por Romário e Bebeto. Pois, este ano e uma vez mais, o Mengo pareceu quase toda a época arredado do título ﷓ que parecia destinado ao campeão S. Paulo, com a perseguição, a distância controlada, do também paulista Palmeiras e do gaúcho Internacional de Porto Alegre. Mas, subitamente, no ultimo terço do campeonato, o S. Paulo começou a acusar stress e cansaço e Inter e Palmeiras chegaram-se à frente, já a uma distância de perigo. E foi então que, aos poucos, foi acontecendo aquilo que às vezes acontece nas maratonas mais emocionantes: vindo lá de trás, vitória após vitória, o Flamengo foi-se chegando à frente e acabou por passar primeiro o Inter, depois o Palmeiras e, na penúltima jornada, beneficiando da derrota do S. Paulo em Goiás e arrancando uma vitória decisiva na visita ao Corinthians, chegou enfim ao topo da classificação. Mas, para ser campeão, precisava de vencer, num Maracanã lotado desde há dias, o Grémio de Porto Alegre. Começou a perder e chegou ao empate antes do intervalo. Nessa altura, a 45 minutos do final de um campeonato de 38 jornadas, quatro equipas estavam empatadas em pontos no primeiro lugar ﷓ coisa jamais vista em lugar algum. A manterem-se as coisas assim, o campeonato iria para o Internacional, que beneficiava das regras do desempate. Contou-me um amigo brasileiro que, na segunda parte do jogo do Maracanã, foi visível, porém, o peso histórico da rivalidade (melhor dizendo, do ódio) existente entre os dois maiores clubes do Rio Grande do Sul: Grémio e Inter. A torcida do Grémio, dizem, não perdoaria aos seus jogadores que roubassem o título ao Mengo para o dar… ao Inter. Parece que à boca da baliza do Fla houve quem não conseguisse fazer o mais fácil, que era marcar golo e acabar com o sonho. E então, o Mengo lá chegou ao 2-1 glorioso e ao título que buscava há 17 anos. Título particularmente importante para o «Imperador» Adriano, fugido do Inter, de Mourinho, para se sagrar o melhor marcador da Copa, e, sobretudo, para o sérvio Petkovic, de 37 anos de idade e cronicamente classificado como um dos melhores do campeonato. O Rio explodiu como se o Brasil tivesse acabado de ganhar a Copa do Mundo. E só lamento que, com 150 mil imigrantes brasileiros em Portugal, a Sport TV tenha estado tão desatenta que não se lembrou de transmitir o jogo do século no Brasil.


2- E muito pouco futebol vi no fim-de-semana. Vi parte dos dois derbies da jornada em Itália: o Roma-Lazio e o Juventus-Inter. E, mais uma vez, fiquei espantado como o calcio consegue manter a sua força com um futebol assim. Tacticamente, como sabemos, é brilhante: tudo aquilo é estudado, ensaiado, nada acontece por acaso e os jogadores parecem saber sempre o que fazer, em cada momento. Tecnicamente, jogam ali os melhores executantes do mundo e isso vê-se bem em cada pormenor: a maneira como dominam as bolas, como rematam, como passam, como cabeceiam. Mas, depois, o jogo é de feios, porcos e maus, cacetada de criar bicho e cenas de sopapo sem mais nem menos, gritos racistas do público, estádios jamais cheios e um espectáculo raramente emocionante. O Inter, de José Mourinho, então, é o paradigma do calcio: ganhar, ganha, jogos e títulos, tudo é mecanizado sem falhas e dirigido a um único objectivo que é o de vencer. Mas eu, francamente, não pagava bilhete para ver aquilo. Ai, Ricardo Quaresma, que desperdício ser suplente naquela equipa de marionetas!


3- Passei o Guimarães-F.C.Porto e logo passei um dos raros jogos em que, pelo menos durante a primeira parte, os portistas não tiveram de viver com o credo na boca. (Deixem-me informar que, quando o F.C.Porto vence em Guimarães, costuma ser campeão). O Sporting de ontem à noite passei também, por razões à vista.

E, assim, o melhor que vi, este fim-de-semana, acabou por ser o Benfica. Volto a dizer que me impressionou muito bem a capacidade de criação de jogo de ataque daquela equipa, em especial Saviola (o Real Madrid é, de facto, uma fábrica de desperdício de talentos, como só os milionários o podem ser…), e Cardozo ﷓ que, na época passada e contra a opinião de muitos benfiquistas, estranhava que ficasse tantas vezes de fora. Sem dúvida que o Benfica teve a sorte do jogo em vários detalhes, começando logo pelo golo marcado aos 6 minutos, no primeiro remate à baliza. E, embora a Académica tenha sido inofensiva em termos de ataque, não se fechou atrás e mostrou qualidade para mais do que aquilo. Mas aí, sim, é que é marcante ver a atitude de conquista e a facilidade de criação de jogadas de golo por parte do Benfica, e, para mais, num terreno difícil, como estava. Vai ser curioso constatar se, daqui a quinze dias, quando receber o F.C.Porto na Luz ﷓ no que será o seu primeiro grande teste de fogo da época ﷓ o Benfica vai conseguir manter a mesma atitude de conquista, face a uma equipa que faz justamente disso o seu grande trunfo. Em minha opinião, vai ser um jogo sem favorito à partida. Porque, se o Benfica me parece bem melhor na frente, é mais fraco atrás ﷓ em especial no flanco esquerdo da defesa, onde David Luiz e César Peixoto oscilam facilmente, se apertados. Caminhamos para um potencial grande jogo e, a quinze dias de distância, só espero que não comecem, dum lado ou do outro, os «jogos por fora» ﷓ porque, quanto ao clima de intimidação e violência criado pelas claques, isso, infelizmente, vai ser como de costume. Que bom que seria um jogo grande sem claques!