1- Ainda não foi desta que ficou esclarecido se estaremos ou não no Mundial do ano que vem, na África do Sul. Temos que continuar a fazer contas, esperar mais um jogo pelo menos, ter fé na aritmética e nos milagres. Enfim, o nosso fado habitual.
Mas, desta vez, ninguém pode dizer que não nos batemos pela vitória e contra o destino até ao último minuto e até ao último fôlego. Os 25 minutos finais, quer da primeira, quer da segunda parte, foram jogados ao nível exigível a quem quer estar num Mundial. A Dinamarca pode agradecer a todos os deuses ter conseguido uma vitória e um empate nos dois jogos contra Portugal, em que foi claramente dominada de ambas as vezes. Quando se remata 35 vezes à baliza, acertando catorze e apenas se marca um golo, enquanto que o adversário remata treze vezes e acerta uma que logo dá em golo, é legítimo queixar-se da sorte. Não a tivemos, de facto. Nem em Lisboa nem em Copenhaga. E que somos melhor equipa que a Dinamarca, não me parece terem ficado dúvidas a ninguém.
O problema é que os verdadeiros vencedores não podem estar dependentes da sorte ou das decisões dos árbitros. Podemos queixar-nos do penalty que Busacca não viu ou do azar das oportunidades perdidas. Podemos queixar-nos uma, duas vezes. Três já é demais: parece o Sporting. Os verdadeiros vencedores jogam contra a sorte e contra os árbitros, jogam o suficiente para se colocarem ao abrigo de factores aleatórios. E, quer em Lisboa, quer em Copenhaga, jogámos o suficiente para ficarmos fora do alcance dos factores aleatórios. Jogámos, sim: mas jogámos, como sempre, um futebol estéril.
Se ficarmos fora do Mundial não é porque não tenhamos equipa para lá estar. É porque a cultura do remate para golo não existe no nosso futebol. Somos óptimos a fintar, a simular, a fazer tabelinhas, a fazer circular a bola, a arrancar toques e números circenses que entusiasmam a plateia. Mas rematar à baliza para marcar golo, e não apenas por rematar, isso não sabemos fazer. Na hora de matar a jogada e o jogo, somos absolutamente indigentes, incompetentes. Eu, se fosse seleccionador, preocupava-me muito pouco com tácticas e estratégias e losangos e linhas de passe e tudo o resto: gastava quatro quintos de cada treino a ensaiar remates à baliza até os jogadores suplicarem misericórdia, mas aprenderem de olhos fechados a dimensão da baliza, a sua localização na hora do remate, a posição do corpo ao chutar, etc. - noções básicas e essenciais do jogo que qualquer profissional devia saber. A coisa mais banal de ver num jogo de futebol em Portugal é ser aceite com toda a normalidade (a começar pelos próprios jogadores) que 80 por cento dos remates à baliza não acertem no alvo - como se ele não tivesse 9,15 de comprimento por 2,30 de altura.
Também acho injusto crucificar Carlos Queiroz. Se os jogadores não acertam por sistema na baliza ou, quando acertam, é inofensivo, a culpa não é dele, pois o mal vem muito lá de trás e tem raízes e explicações mais complexas. E o resto é a falta de baraka que ele tem - sobretudo se pensarmos no seu antecessor, Scolari, que é o tipo com mais sorte ao jogo que eu alguma vez vi. Desta vez e quanto muito, podemos questionar porque razão o seleccionador, depois de ter jogado a cartada oportunista do Liedson, resolveu não o meter de início: eternamente ficaremos a pensar que com o Liedson no lugar do Simão, não teríamos desperdiçado aqueles dois golos fáceis que o Simão desperdiçou na primeira parte. Será que foi uma afirmação de autoridade cientifica, pelo facto de todos os jornalistas que acompanham a Selecção terem apostado que o Liedson jogava de início? Se foi, pagámos caro a vaidade. O António Oliveira tinha o hábito de fazer isso: mudava a linha de cada vez que a imprensa descobria os seus planos para o onze inicial. Foi assim que ele entrou para o Guinness, nunca repetindo o mesmo onze inicial do F.C.Porto em todas as quinze jornadas da primeira volta de um campeonato. Só que o Oliveira tinha um toque de génio que Queiroz não tem e que vi em raros treinadores: ele conseguia, de facto, transformar a equipa a partir do banco. E não esperava nem 70, nem 60, nem 45 minutos para o fazer: punha o onze errado de entrada só para não satisfazer os jornalistas, mas logo depois corrigia, assim que via que aquilo não estava a funcionar. «Quem sabe, faz a hora, não espera acontecer».
Enfim, venha a vitória em Budapeste e as que faltam, venha o encosto da Suécia em Copenhaga, venha o milagre de que precisamos. Se não é que este país cai mesmo na depressão!
2- O dr. Ricardo Costa, presidente do Conselho de Disciplina da Liga, escreveu dois extensos artigos no «Público» onde procurou demonstrar a lógica e a justiça da sua actuação e do órgão que dirige no chamado processo «Apito Dourado». Duas páginas inteiras de jornal é muito, é mais do que suficiente para, ou se demonstrar que se tem razão, ou para se fingir que tem. No primeiro caso, isso depende de se ter mesmo razão; no segundo, depende do talento literário. No caso do dr. Ricardo Costa, foi uma oportunidade perdida: porque não tem razão nem nunca teve e porque não tem talento literário algum.
O seu extensíssimo arrazoado, em estilo burocrático/narrativo, é um texto inextrincável para qualquer ser pensante, juristas incluídos. Duvido que alguém tenha conseguido lê-lo até ao fim e entender do que se tratava sem se perder algures. Eu esforcei-me e consegui ler até ao fim, mas já não consegui entender o que ele dizia, a páginas tantas.
Em substância, percebi que o dr. Ricardo Costa visava, obviamente, explicar o embaraço de ter condenado na justiça desportiva réus que a justiça comum declarou inocentes. E julga ultrapassar essa dificuldade explicando que ambas as jurisdições são independentes entre si. Sem dúvida que sim. Resta que ele - que confessa que todo o seu material de prova lhe foi fornecido pelo Ministério Público, em fase de averiguações - julgou e condenou, clubes e pessoas, com base em factos que os tribunais julgaram não provados. E com base num testemunho que o tribunal acusou de perjúrio. Bem pode até passar a assinar uma coluna semanal no «Público» que jamais ultrapassará isto: os factos em que ele se apoiou para condenar não existiram. O resto é conversa fiada.
3- O Jornal «I» perguntou a alguns ex-craques do futebol quem terá sido o melhor jogador de sempre: Pelé ou Maradona. As opiniões dividiram-se entre ambos, com excepção de Eusébio, que votou em Alfredo Di Stéfano. Entro na escolha para dar a minha opinião de «futebolista de bancada»: para mim, o melhor jogador que alguma vez vi jogar não foi nem Pelé, nem Maradona, nem Di Stéfano, nem o próprio Eusébio, que bem merece estar na short list. O melhor jogador que vi, o mais inteligente, o mais completo, o mais genial, foi um senhor chamado Johan Cruyff, que apareceu para o mundo numa célebre vitória do Ajax de Amesterdão no Estádio da Luz e que explodiu para a História no FC Barcelona.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quarta-feira, setembro 30, 2009
quinta-feira, setembro 10, 2009
E SERÁ QUE O LIEDSON RESOLVE? (01 SETEMBRO 2009)
1- Estas coisas devem sempre ser ditas antes e não depois de conhecer os resultados: eu sou contra a chamada do Liedson à Selecção Nacional. Não por achar que ele não tem lá lugar (exactamente por achar que tem é que sou contra…), não por achar que ele não possa ser utilíssimo, não por discordar da integração dos imigrantes nos seus países de acolhimento. Mas há imigrantes e imigrantes, integrações e integrações. O Liedson trabalha em Portugal há seis anos, o que não quer dizer que esteja integrado em Portugal, como português, em tudo igual aos outros. Que eu saiba, fala português sem sotaque algum daqui; quando não está a jogar, está no Brasil; quando deixar de jogar, volta para o Brasil; presumo que ignore tudo ou quase tudo sobre a nossa História, a nossa cultura, o nosso regime político-administrativo e que seja mais um - o terceiro - que, no sábado que vem, em Copenhaga, não saberá de cor o hino.
O Liedson não é um português como os outros e não apenas por manter a nacionalidade de origem: é porque construiu o seu nome profissional enquanto brasileiro e não enquanto português, e se o Estado português agora o vai aproveitar ao serviço da Selecção Nacional de futebol, é apenas por razões de oportunidade e conveniência. Acho tão deslocado o Liedson virar português de ocasião porque a selecção do Brasil o não quis e a de Portugal o quer, como a Maria João Pires virar brasileira porque se chateou com o Estado português. Não é bem igual ao caso do Obikwelu, que imigrou para cá para trabalhar nas obras e aqui se começou a fazer atleta de alta competição, depois se naturalizando (e, aliás, ao contrario de Liedson, perdendo a sua nacionalidade de origem).
Mas o pior deste caso, na minha perspectiva, é as circunstâncias em que Liedson é chamado à Selecção, poucos dias após ter concluído o seu processo de aquisição de dupla nacionalidade. Com 32 anos de idade, não é um jogador de futuro para a Selecção. Pelo contrário, é um reforço de ocasião, para acudir a um estado de necessidade. A sua utilização não foi sequer pensada nem integrada numa politica, jamais definida ou sequer discutida pela Federação e pela sociedade, de saber quais e quantos estrangeiros de origem podem representar o futebol português ao seu mais alto nível. Em que condições, com que critérios e consequências. Não, o Liedson foi chamado porque Queiroz está em estado de necessidade - melhor dizendo, em estado de desespero, na iminência de falhar a qualificação para a África do Sul.
E agora, das duas uma: ou Liedson se vem a revelar decisivo para inverter o fado da Selecção e levar-nos a África no ano que vem, ou nem ele chega para, desta vez, resolver o problema que outros criaram. No primeiro caso, calar-se-ão todas as vozes criticas; no segundo caso, todos cairão em cima de Madail e de Queiroz - se não mesmo do próprio Liedson.
É por isso que acho importante que as opiniões criticas se manifestem agora, antes de conhecer o desfecho desta jogada de última hora. Eu sou contra, como disse, e acho que o assunto dos naturalizados ao serviço da Selecção deve ser discutido a sério e de uma vez por todas, e não ser apreciado casuisticamente, ao sabor das necessidades e conveniências de cada momento (acho, por exemplo, absolutamente indecoroso que se discutam nomes conforme as necessidades de preenchimento de determinados lugares no onze nacional).
Sou contra a chamada de Liedson e apesar da imensa admiração que tenho por ele enquanto jogador, como também - e antes de consumado o desfecho - me manifestei aqui contra a escolha de Carlos Queiroz para seleccionador. E por uma única razão: porque só lhe conheço um curriculum de perdedor, na Selecção inclusive. Mas como a escolha de Queiroz reuniu quase a unanimidade da critica e da rua, nunca mais falei do assunto e fiquei tranquilamente a assistir ao resultado. Devo, todavia, dizer que, ao contrário de Scolari, Queiroz teve muito pouco tempo, sorte e circunstâncias favoráveis para conseguir triunfar (embora tantos dos que ontem exigiam aos gritos a sua nomeação imperiosa, logo lhe tenham caído em cima, sem piedade alguma…). Mas, infelizmente, não espero que a história acabe bem. Queira Deus que me engane, mas esta cartada do Liedson (mesmo levando em conta a lesão do Hugo Almeida, a retirada do Pauleta, etc.) aparece-me como uma jogada de alguém que está desesperado e não vê alternativa. E o desespero raramente dá bons resultados.
2- Foi um episódio verdadeiramente exemplar para mostrar como se constroem «verdades» no mundo do nosso futebol, quando essas «verdades» servem para atacar o F.C.Porto e o seu presidente. Aos gritos, os jornais, rádios e televisões do País saíram a espalhar o alarido de que o presidente do F.C.Porto tinha tentado atropelar um jornalista à saída do Tribunal do Porto, não se detendo sequer perante as ordens da polícia e deixando o atropelado ferido no chão até ser transportado ao hospital. Até o sério jornal «Público» serviu essa versão sem hesitar e o Sindicato dos Jornalistas pôs cá fora o habitual comunicado sobre a intimidação dos jornalistas e os «nossos» estimados benfiquistas versão-Barbas - a Leonor Pinhão e o Ricardo Araújo Pereira - obviamente não perderam a oportunidade para desenterrarem a lenda do facínora do Pinto da Costa - e assim, por um tempo, desviando as atenções das «acções cívicas» dos No Name Boys e das suas privilegiadas relações com o presidente do Benfica. Eis as minha perguntas idiotas, mas que não vi respondidas em lado algum:
- porque é que quem ia ao volante era o motorista, mas quem quis atropelar foi Pinto da Costa?
- Será que ele - tal como no inesquecível filme de Leonor Pinhão/João Botelho, baseado no testemunho de Carolina Salgado -, costuma dar ordens ao motorista para atropelar gente de que não gosta, de quando em vez?
- E, sendo isso verosímil, porque carga d'água resolveria o presidente do F.C.Porto atropelar um fotógrafo do JN - que não escreve sobre ele e nunca lhe fez mal algum, que se saiba?
- E ia atropelá-lo diante de todas essas testemunhas - jornalistas, polícias, etc.?
- Se queria mesmo atropelá-lo, porque não o apanhou de frente, mas apenas com o espelho retrovisor lateral?
- Se a polícia o mandou parar, porque diz a polícia que não? (Está comprada, claro?)
- Porque não nos disseram ainda quais os graves ferimentos sofridos pela vítima do atropelamento deliberado?
- Já agora, senhores juízes populares: qual era o móbil do crime?
Se alguém quiser esclarecer-me, eu agradeço.
3- Há muitos, muitos anos, que não me lembro de ver uma equipa tão fraca a jogar na primeira divisão como aquela que ontem à noite apareceu equipada de Vitória de Setúbal no Estádio da Luz. Conta-se que o treinador Carlos Azenha andou até ao ultimo dia de inscrições (ontem, exactamente) a fazer «castings» de jogadores que por lá apareciam, até formar uma «equipa». Eis como vai o futebol profissional em Portugal. Será que é este Vitória que vamos ver o campeonato todo, ou foi só uma noite para amostra?
O Liedson não é um português como os outros e não apenas por manter a nacionalidade de origem: é porque construiu o seu nome profissional enquanto brasileiro e não enquanto português, e se o Estado português agora o vai aproveitar ao serviço da Selecção Nacional de futebol, é apenas por razões de oportunidade e conveniência. Acho tão deslocado o Liedson virar português de ocasião porque a selecção do Brasil o não quis e a de Portugal o quer, como a Maria João Pires virar brasileira porque se chateou com o Estado português. Não é bem igual ao caso do Obikwelu, que imigrou para cá para trabalhar nas obras e aqui se começou a fazer atleta de alta competição, depois se naturalizando (e, aliás, ao contrario de Liedson, perdendo a sua nacionalidade de origem).
Mas o pior deste caso, na minha perspectiva, é as circunstâncias em que Liedson é chamado à Selecção, poucos dias após ter concluído o seu processo de aquisição de dupla nacionalidade. Com 32 anos de idade, não é um jogador de futuro para a Selecção. Pelo contrário, é um reforço de ocasião, para acudir a um estado de necessidade. A sua utilização não foi sequer pensada nem integrada numa politica, jamais definida ou sequer discutida pela Federação e pela sociedade, de saber quais e quantos estrangeiros de origem podem representar o futebol português ao seu mais alto nível. Em que condições, com que critérios e consequências. Não, o Liedson foi chamado porque Queiroz está em estado de necessidade - melhor dizendo, em estado de desespero, na iminência de falhar a qualificação para a África do Sul.
E agora, das duas uma: ou Liedson se vem a revelar decisivo para inverter o fado da Selecção e levar-nos a África no ano que vem, ou nem ele chega para, desta vez, resolver o problema que outros criaram. No primeiro caso, calar-se-ão todas as vozes criticas; no segundo caso, todos cairão em cima de Madail e de Queiroz - se não mesmo do próprio Liedson.
É por isso que acho importante que as opiniões criticas se manifestem agora, antes de conhecer o desfecho desta jogada de última hora. Eu sou contra, como disse, e acho que o assunto dos naturalizados ao serviço da Selecção deve ser discutido a sério e de uma vez por todas, e não ser apreciado casuisticamente, ao sabor das necessidades e conveniências de cada momento (acho, por exemplo, absolutamente indecoroso que se discutam nomes conforme as necessidades de preenchimento de determinados lugares no onze nacional).
Sou contra a chamada de Liedson e apesar da imensa admiração que tenho por ele enquanto jogador, como também - e antes de consumado o desfecho - me manifestei aqui contra a escolha de Carlos Queiroz para seleccionador. E por uma única razão: porque só lhe conheço um curriculum de perdedor, na Selecção inclusive. Mas como a escolha de Queiroz reuniu quase a unanimidade da critica e da rua, nunca mais falei do assunto e fiquei tranquilamente a assistir ao resultado. Devo, todavia, dizer que, ao contrário de Scolari, Queiroz teve muito pouco tempo, sorte e circunstâncias favoráveis para conseguir triunfar (embora tantos dos que ontem exigiam aos gritos a sua nomeação imperiosa, logo lhe tenham caído em cima, sem piedade alguma…). Mas, infelizmente, não espero que a história acabe bem. Queira Deus que me engane, mas esta cartada do Liedson (mesmo levando em conta a lesão do Hugo Almeida, a retirada do Pauleta, etc.) aparece-me como uma jogada de alguém que está desesperado e não vê alternativa. E o desespero raramente dá bons resultados.
2- Foi um episódio verdadeiramente exemplar para mostrar como se constroem «verdades» no mundo do nosso futebol, quando essas «verdades» servem para atacar o F.C.Porto e o seu presidente. Aos gritos, os jornais, rádios e televisões do País saíram a espalhar o alarido de que o presidente do F.C.Porto tinha tentado atropelar um jornalista à saída do Tribunal do Porto, não se detendo sequer perante as ordens da polícia e deixando o atropelado ferido no chão até ser transportado ao hospital. Até o sério jornal «Público» serviu essa versão sem hesitar e o Sindicato dos Jornalistas pôs cá fora o habitual comunicado sobre a intimidação dos jornalistas e os «nossos» estimados benfiquistas versão-Barbas - a Leonor Pinhão e o Ricardo Araújo Pereira - obviamente não perderam a oportunidade para desenterrarem a lenda do facínora do Pinto da Costa - e assim, por um tempo, desviando as atenções das «acções cívicas» dos No Name Boys e das suas privilegiadas relações com o presidente do Benfica. Eis as minha perguntas idiotas, mas que não vi respondidas em lado algum:
- porque é que quem ia ao volante era o motorista, mas quem quis atropelar foi Pinto da Costa?
- Será que ele - tal como no inesquecível filme de Leonor Pinhão/João Botelho, baseado no testemunho de Carolina Salgado -, costuma dar ordens ao motorista para atropelar gente de que não gosta, de quando em vez?
- E, sendo isso verosímil, porque carga d'água resolveria o presidente do F.C.Porto atropelar um fotógrafo do JN - que não escreve sobre ele e nunca lhe fez mal algum, que se saiba?
- E ia atropelá-lo diante de todas essas testemunhas - jornalistas, polícias, etc.?
- Se queria mesmo atropelá-lo, porque não o apanhou de frente, mas apenas com o espelho retrovisor lateral?
- Se a polícia o mandou parar, porque diz a polícia que não? (Está comprada, claro?)
- Porque não nos disseram ainda quais os graves ferimentos sofridos pela vítima do atropelamento deliberado?
- Já agora, senhores juízes populares: qual era o móbil do crime?
Se alguém quiser esclarecer-me, eu agradeço.
3- Há muitos, muitos anos, que não me lembro de ver uma equipa tão fraca a jogar na primeira divisão como aquela que ontem à noite apareceu equipada de Vitória de Setúbal no Estádio da Luz. Conta-se que o treinador Carlos Azenha andou até ao ultimo dia de inscrições (ontem, exactamente) a fazer «castings» de jogadores que por lá apareciam, até formar uma «equipa». Eis como vai o futebol profissional em Portugal. Será que é este Vitória que vamos ver o campeonato todo, ou foi só uma noite para amostra?
segunda-feira, agosto 31, 2009
ABRIU A CAÇA (25 AGOSTO 2009)
1- Abriu a caça mas ainda não foi aquela de que sou adepto: perdizes, coelhos, lebres, etc - essa só lá para início de Outubro. Abriu, de facto, a caça a duas espécies migratórias - rolas e pombos, mas eu falhei a abertura por ausência no estrangeiro e contaram-me que não foi famosa. Não, a caça que agora abriu foi outra, a uma espécie muita rara - uma espécie de jogador de futebol que já não se usa, que avança sem medo direito aos adversários e à baliza contrária, que assume todos os riscos do futebol de ataque (o único que interessa ver), enfim, um tipo de jogador que minimiza todos os outros e deixa os adversários com os nervos em franja. Um jogador assim só pode ser travado sendo acoitado e caçado. Por isso mesmo, começou o campeonato e logo abriu a caça ao Hulk.Jesualdo Ferreira disse e bem que é muito fácil expulsar o Hulk em Portugal. É facílimo: basta que o árbitro consinta que ele leve pancada desde o minuto primeiro do jogo, que vá levando e levando e que, perante a complacência do árbitro, acabe por explodir de nervos, porque, caramba, ele está ali para jogar futebol e não para ser um saco de pancada de quem só assim consegue pará-lo. Aqui há tempos, quando o Mantorras era uma estrela emergente e igualmente uma força da natureza, começou também a levar pancada sistematicamente, como «estratégia» e «táctica» engendrada por treinadores medíocres, inimigos do futebol. Mas aí rapidamente se organizou um coro, acentuado pela imprensa, sob o grito de «deixem jogar o Mantorras!».
O Hulk não beneficia do mesmo estatuto nem do mesmo apoio da imprensa. Tal como não beneficiou, aqui há três anos, o Ricardo Quaresma. Tal como Quaresma, também Hulk é um desequilibrador de jogos, um perigo à solta e logo uma vítima do anti-jogo. E, tal como o Quaresma, o que parece relevar não é a pancada que leva perante a complacência dos árbitros, mas as reacções que humanamente tem, quando já não aguenta mais. No ano passado, ele foi aguentando até ao limite, até que, como se adivinhava, foi vítima de uma entrada assassina num jogo da Taça, na Amadora, e ficou um mês no estaleiro - sem que nada tenha acontecido ao agressor (nem sequer foi expulso do jogo). Este ano, talvez antevendo uma época inteira de massacre idêntica à anterior, o Hulk perdeu a paciência no primeiro jogo e logo foi expulso. Melhor ainda: já que se tratava dele, em vez de um jogo de suspensão habitual, levou dois. Quando regressar, das duas uma: ou come e cala, ou volta a ser expulso e então leva três jogos. Assim se equilibram as coisas. E assim se arbitra em Portugal - porque estes mesmos árbitros, a arbitrar no estrangeiro, não se atrevem a actuar assim, porque a UEFA quer e precisa dos grandes jogadores em acção e não na enfermaria. Mas é seguramente uma coincidência que tanto o Hulk como o Quaresma tenham servido e sirvam o F.C.Porto, enquanto que Mantorras é do Benfica.
2- O campeonato ainda vai na primeira infância, mas já deu para perceber duas coisas: que o tema das arbitragens vai continuar a ser o preferido de jornalistas, adeptos e treinadores; e que as mãos vão ser um factor determinante no desfecho dos jogos, todavia jogados com os pés. O Sporting ficou a reclamar um penalty por mão, não assinalado no jogo contra o Braga; o Benfica beneficiou de um na primeira jornada, contra o Marítimo e ficou a reclamar mais um também por mão, no mesmo jogo; e teve mais outro a seu favor no jogo contra o Guimarães, ainda acumulado com a expulsão do adversário; e, por mão também, o F.C.Porto abriu o marcador contra o Nacional e viu dois adversários expulsos na sequência do penalty assinalado. A discussão não vai ter fim e os que hoje se consideram prejudicados amanhã serão beneficiados, ficando a reclamar no primeiro caso e ficando muito bem calados no segundo. Infelizmente, a ideia que tenho e que já vem de trás é que os árbitros e os jornalistas não têm um critério uniforme e claro para distinguir o que é mão na bola e o que é bola na mão. O exemplo mais evidente é o do penalty reclamado pelo Benfica aos 93 minutos do jogo contra o Marítimo: há um jogador madeirense caído no chão e apoiado nos dois braços, com as mãos espalmadas no relvado; a bola é chutada a curta distância e vai-lhe bater num dos braços, que ele não move nem pode mover, naquela posição. O árbitro, e bem, deixou passar, mas a imprensa berrou «penalty!», com uma convicção que desafia as leis da dinâmica e da anatomia humana. E, infelizmente, esta indeterminação de critério ameaça tornar-se o factor mais decisivo do campeonato. Um campeonato decidido pelas mãos.
3- O Sporting deu o primeiro valente tropeção contra um Braga dirigido por Domingos Paciência - que, por uma vez, deve ter calado as más-línguas benfiquistas. Os adeptos estão insatisfeitos e descrentes com um começo de época mais do que cinzento. Como seria de esperar, Paulo Bento é o primeiro alvo da contestação, mesmo que entre pelos olhos adentro de qualquer um que não há milagres. Dizem que esta é a mesmíssima equipa do ano passado, como se isso fosse uma vantagem, quando afinal é esse o problema: a equipa é um ano mais velha e, se já no ano passado não era boa, este ano é pior. Verdadeiramente, o Sporting só tem um bom jogador, que é o Liedson. Todos os outros são medíocres ou apenas razoáveis. Não é por acaso que, por exemplo, os tão badalados João Moutinho e Miguel Veloso, de quem se diz que anda a Europa inteira a observar e a tentar comprar há dois anos, nada mais tiveram do que umas vagas e dispiciendas ofertas de pequenos clubes europeus. É casa onde não há pão…
O Benfica mantém a sua extraordinária tendência para salvar os jogos nos últimos minutos: foi assim com o Marítimo e voltou a ser assim com o Guimarães. Com menos uns oito minutos jogados no total dos dois jogos, o Benfica estaria agora com um ponto e zero golos marcados. Mas, como disse Jesus, é assim que se fazem os campeões.
Só não percebi a revolta do treinador e jornalistas benfiquistas contra o esquema de jogo apresentado pelo Marítimo na Luz. Que estiveram o tempo todo a defender? Mas como é que eles julgam que se fazem os campeões nos jogos contra estas equipas? Ou esperariam que lhes bastava anunciar «este ano vamos ser campeões» e todas as equipas passavam a ter obrigação de jogar contra o Benfica sem lutar pelos pontos e apenas com a missão de abrilhantar o espectáculo e as pré-anunciadas vitórias da águia?
O povo e a imprensa benfiquista (que se confunde frequentemente com ele) continuam a confundir desejos com realidades - o que quase sempre conduz a um despertar ressacado. Bastou terem ganho 4-0 numa eliminatória de acesso à Liga Europa (!), contra uma equipa de que nunca ninguém tinha ouvido falar, para logo desatarem a prever o regresso do «grande Benfica europeu» - uma coisa sucedida há quase duas gerações atrás! Afinal, de certo, mesmo certo, tiveram mais uma vitória em Guimarães - uma tradição que se transformou em fatalidade desde que o Vitória resolveu estabelecer aquele pacto de amizade com o Benfica, com o objectivo (falhado) de levar os dois à Europa pela porta dos fundos e com a prestimosa colaboração do CD da Liga. Isso sim, é uma certeza inabalável. O resto ainda tem de ser demonstrado.
Quanto ao F.C.Porto, que anteontem actuou com quatro reforços, ainda é cedo para perceber se esta equipa vai conseguir ser equivalente ou melhor que a do ano passado. Infelizmente, Jesualdo - talvez o mais teimoso de todos os treinadores da primeira Liga - mantém, inabalável, as suas apostas em Helton e no desesperantemente inútil e trapalhão do Mariano González. Não sei para que serviu comprar o Beto e não sei como é que se mantém o Mariano e se deita fora o Rabiola e o Candeias: será que o problema é serem todos portugueses? Do que vi, gostei do Belluschi, do Falcao e do Varela; o Álvaro Pereira vai ter de mostrar muito mais para fazer esquecer o Cissokho. A ver vamos o que dali sai.
O Hulk não beneficia do mesmo estatuto nem do mesmo apoio da imprensa. Tal como não beneficiou, aqui há três anos, o Ricardo Quaresma. Tal como Quaresma, também Hulk é um desequilibrador de jogos, um perigo à solta e logo uma vítima do anti-jogo. E, tal como o Quaresma, o que parece relevar não é a pancada que leva perante a complacência dos árbitros, mas as reacções que humanamente tem, quando já não aguenta mais. No ano passado, ele foi aguentando até ao limite, até que, como se adivinhava, foi vítima de uma entrada assassina num jogo da Taça, na Amadora, e ficou um mês no estaleiro - sem que nada tenha acontecido ao agressor (nem sequer foi expulso do jogo). Este ano, talvez antevendo uma época inteira de massacre idêntica à anterior, o Hulk perdeu a paciência no primeiro jogo e logo foi expulso. Melhor ainda: já que se tratava dele, em vez de um jogo de suspensão habitual, levou dois. Quando regressar, das duas uma: ou come e cala, ou volta a ser expulso e então leva três jogos. Assim se equilibram as coisas. E assim se arbitra em Portugal - porque estes mesmos árbitros, a arbitrar no estrangeiro, não se atrevem a actuar assim, porque a UEFA quer e precisa dos grandes jogadores em acção e não na enfermaria. Mas é seguramente uma coincidência que tanto o Hulk como o Quaresma tenham servido e sirvam o F.C.Porto, enquanto que Mantorras é do Benfica.
2- O campeonato ainda vai na primeira infância, mas já deu para perceber duas coisas: que o tema das arbitragens vai continuar a ser o preferido de jornalistas, adeptos e treinadores; e que as mãos vão ser um factor determinante no desfecho dos jogos, todavia jogados com os pés. O Sporting ficou a reclamar um penalty por mão, não assinalado no jogo contra o Braga; o Benfica beneficiou de um na primeira jornada, contra o Marítimo e ficou a reclamar mais um também por mão, no mesmo jogo; e teve mais outro a seu favor no jogo contra o Guimarães, ainda acumulado com a expulsão do adversário; e, por mão também, o F.C.Porto abriu o marcador contra o Nacional e viu dois adversários expulsos na sequência do penalty assinalado. A discussão não vai ter fim e os que hoje se consideram prejudicados amanhã serão beneficiados, ficando a reclamar no primeiro caso e ficando muito bem calados no segundo. Infelizmente, a ideia que tenho e que já vem de trás é que os árbitros e os jornalistas não têm um critério uniforme e claro para distinguir o que é mão na bola e o que é bola na mão. O exemplo mais evidente é o do penalty reclamado pelo Benfica aos 93 minutos do jogo contra o Marítimo: há um jogador madeirense caído no chão e apoiado nos dois braços, com as mãos espalmadas no relvado; a bola é chutada a curta distância e vai-lhe bater num dos braços, que ele não move nem pode mover, naquela posição. O árbitro, e bem, deixou passar, mas a imprensa berrou «penalty!», com uma convicção que desafia as leis da dinâmica e da anatomia humana. E, infelizmente, esta indeterminação de critério ameaça tornar-se o factor mais decisivo do campeonato. Um campeonato decidido pelas mãos.
3- O Sporting deu o primeiro valente tropeção contra um Braga dirigido por Domingos Paciência - que, por uma vez, deve ter calado as más-línguas benfiquistas. Os adeptos estão insatisfeitos e descrentes com um começo de época mais do que cinzento. Como seria de esperar, Paulo Bento é o primeiro alvo da contestação, mesmo que entre pelos olhos adentro de qualquer um que não há milagres. Dizem que esta é a mesmíssima equipa do ano passado, como se isso fosse uma vantagem, quando afinal é esse o problema: a equipa é um ano mais velha e, se já no ano passado não era boa, este ano é pior. Verdadeiramente, o Sporting só tem um bom jogador, que é o Liedson. Todos os outros são medíocres ou apenas razoáveis. Não é por acaso que, por exemplo, os tão badalados João Moutinho e Miguel Veloso, de quem se diz que anda a Europa inteira a observar e a tentar comprar há dois anos, nada mais tiveram do que umas vagas e dispiciendas ofertas de pequenos clubes europeus. É casa onde não há pão…
O Benfica mantém a sua extraordinária tendência para salvar os jogos nos últimos minutos: foi assim com o Marítimo e voltou a ser assim com o Guimarães. Com menos uns oito minutos jogados no total dos dois jogos, o Benfica estaria agora com um ponto e zero golos marcados. Mas, como disse Jesus, é assim que se fazem os campeões.
Só não percebi a revolta do treinador e jornalistas benfiquistas contra o esquema de jogo apresentado pelo Marítimo na Luz. Que estiveram o tempo todo a defender? Mas como é que eles julgam que se fazem os campeões nos jogos contra estas equipas? Ou esperariam que lhes bastava anunciar «este ano vamos ser campeões» e todas as equipas passavam a ter obrigação de jogar contra o Benfica sem lutar pelos pontos e apenas com a missão de abrilhantar o espectáculo e as pré-anunciadas vitórias da águia?
O povo e a imprensa benfiquista (que se confunde frequentemente com ele) continuam a confundir desejos com realidades - o que quase sempre conduz a um despertar ressacado. Bastou terem ganho 4-0 numa eliminatória de acesso à Liga Europa (!), contra uma equipa de que nunca ninguém tinha ouvido falar, para logo desatarem a prever o regresso do «grande Benfica europeu» - uma coisa sucedida há quase duas gerações atrás! Afinal, de certo, mesmo certo, tiveram mais uma vitória em Guimarães - uma tradição que se transformou em fatalidade desde que o Vitória resolveu estabelecer aquele pacto de amizade com o Benfica, com o objectivo (falhado) de levar os dois à Europa pela porta dos fundos e com a prestimosa colaboração do CD da Liga. Isso sim, é uma certeza inabalável. O resto ainda tem de ser demonstrado.
Quanto ao F.C.Porto, que anteontem actuou com quatro reforços, ainda é cedo para perceber se esta equipa vai conseguir ser equivalente ou melhor que a do ano passado. Infelizmente, Jesualdo - talvez o mais teimoso de todos os treinadores da primeira Liga - mantém, inabalável, as suas apostas em Helton e no desesperantemente inútil e trapalhão do Mariano González. Não sei para que serviu comprar o Beto e não sei como é que se mantém o Mariano e se deita fora o Rabiola e o Candeias: será que o problema é serem todos portugueses? Do que vi, gostei do Belluschi, do Falcao e do Varela; o Álvaro Pereira vai ter de mostrar muito mais para fazer esquecer o Cissokho. A ver vamos o que dali sai.
sábado, agosto 22, 2009
PARECE QUE TEMOS ADVERSÁRIO (04 AGOSTO 2009)
1- Perguntava há dias um jornal de onde viria o dinheiro com que a SAD do Benfica foi às compras esta época, tendo já gasto 24 milhões de euros em aquisições sonantes como Ramires, Javi García e Saviola. Sabendo-se que quase igual montante havia sido gasto na época passada em outras aquisições de jogadores (com resultados desportivos decepcionantes), sabendo-se que, nos nove primeiros meses deste ano, o passivo aumentou 18 milhões e que, tal como no ano anterior e à excepção de Katsouranis, o Benfica não conseguiu vender nenhum jogador (oficialmente, diz-se que não quis…) e que volta a estar fora das receitas da Champions, a questão que se colocava, cada vez mais intrigante, era a de descobrir onde ficava a mina de ouro que a SAD do Benfica aparentemente tinha desencantado.
Pois bem, segundo o jornal I relatava na sua edição de ontem, a mina de ouro responde pelo nome de Sagres, a cerveja, e foram os 40 milhões de euros que a cervejeira disponibilizou ao Benfica para os próximos dez anos que vão servir de garantia hipotecária junto da banca para um empréstimo que permita pagar o investimento deste ano em jogadores. Será assim uma operação tipo tudo-ou-nada, que, se tiver sucesso na frente desportiva, poderá relançar o Benfica no panorama futebolístico europeu e na liderança interna, com sustentação financeira, embora apertada; e, que, se voltar a falhar na frente futebolística, poderá criar um sério problema de viabilidade à SAD. A ser verdadeira a versão do «I», o Benfica está assim como o jogador de poker que, depois de ir perdendo paulatinamente ao longo da noite, vai buscar reforços em cash e joga toda a cave numa única jogada. Uma jogada de alto risco.
Tudo se desloca então para o terreno de jogo onde a equipa reforçada com aquisições de 24 milhões vai tentar, simplesmente, salvar o clube, relançando-o. E a verdade é que, a avaliar pelas impressões da pré-época e pelos relatos da imprensa desportiva (embora estes nem sempre fiáveis), a aposta, este ano, parece ter sido mais ponderada, mais acertada e mais feliz. É cedo ainda para apostar no sucesso desta operação tudo-ou-nada, mas já parece ser seguro dizer que o Benfica está de volta: de volta à competitividade, pelo menos.
Como já aqui disse, eu próprio ainda não abri a minha pré-época de espectador: ainda estou em letargia futebolística, curtindo as delicias das vitórias portistas na temporada que há tão pouco tempo terminou. Percebo que os adeptos benfiquistas sintam exactamente o contrário: uma fome de bola e de vitórias, próprias de quem apenas tem encaixado desgostos e frustrações nos anos anteriores. Mas eu, portista de barriga cheia, tetracampeão e mais e mais, ainda não me sinto com pressa alguma de entrar em jogo. Quer isto dizer que tenho visto pouco, muito pouco Benfica: uma espreitadela à televisão de vez em quando, às vezes mais prolongada quando me agrada o que vejo e porque eu, independentemente de ser o meu clube ou não, gosto de ver futebol bem jogado. O pouco que vi não dá, assim, para ter uma ideia feita do valor do novo Benfica, mas dá para perceber que alguma coisa, de facto, mudou e para melhor. A começar pela atitude competitiva, que faz lembrar, desculpem lá, o FC Porto: vê-se que a equipa entra em campo a sério, sem demoras a arrastar o jogo e a ver em que param as modas, com pressa de chegar ao golo e começar a construir a vitória. E vê-se que, uma vez alcançado o primeiro golo, a equipa não se encosta atrás nem entra em repouso - como tantas vezes sucedeu na época passada, em que um simples 1-0 frente a um adversário menor já parecia encher de satisfação e declara missão cumprida. Indiscutivelmente pareceu-me que este Benfica desculpa-se menos, lamuria menos e joga mais. Será que, finalmente, descobriu que as vitórias e os títulos não se alcançam pela simples reivindicação de direitos de soberania ou antiguidade, mas sim com trabalho, esforço, sacrifício, ordem e talento?
Se bem que os resultados da pré-época não sejam um barómetro infalível do que irá suceder depois, também é verdade que, ao fim de sete ou oito jogos, já é possível ir adivinhando o panorama geral. E, para já - facto não despiciendo para quem não está habituado a ganhar coisa alguma - o Benfica da pré-época soma vitórias em jogos e em torneios. E, se o Guadiana é mesmo um torneio feito à medida da sede de vitórias encarnadas, se o Troféu Platini (como lhe chamou Sílvio Cervan) é mais ou menos o mesmo, um encontro de amizade entre despeitados da Europa, já o Torneio de Amesterdão é coisa mais séria. E, mais importante do que os três troféus de pré-época já arrecadados, é o novo hábito de vitória que se vai instalando entre a equipa encarnada e que, bem gerido, se pode transformar de hábito em vício - conforme os portistas tão bem sabem.
Aparentemente, pois, o FC Porto terá encontrado adversário à altura nesta época que vai começar oficialmente para a semana e onde os portistas vão tentar um novo penta, a acrescentar ao outro, ainda tão recente nas memorias azuis e brancas. Com o Sporting a escolher friamente uma estratégia financeira diametralmente oposta à do Benfica, com as consequências desportivas daí resultantes, a luta este ano ou será naturalmente a dois ou o Sporting, a conseguir intrometer-se, alcançará uma proeza de todo o tamanho. E cobrirá os rivais de vergonha.
Também tenho visto muito pouco do FC Porto refundado - aliviado de três peças fundamentais (até ver…) e reforçado, como habitualmente, com um onze inteiro de sul-americanos, com os quais gastou o mesmo que o novo-Benfica, mas com a diferença de que facturou 70 milhões em vendas contra 1… Vi parte substancial do tetracampeão contra o Dínamo de Bucareste, um pouco do jogo contra os turcos do Besiktas e a segunda parte do triste jogo contra o Aston Villa.
Ao arrepio da opinião geral que tenho visto publicada, pareceu-me que a equipa está uns furos abaixo da anterior. Não vi nenhum reforço que me enchesse as medidas: Álvaro Pereira parece bom mas para já não faz esquecer o Cissokho, esse cometa futebolístico-financeiro que por lá passou seis meses; o Belluschi está londe de ter a classe e a visão de um Lucho e o Falcao dá uns toques, mas vai ter de fazer muito mais do que isso antes que o fantasma de Lisandro López deixe em paz as bancadas do Dragão. Depois, vi que Jesualdo não aproveitou nenhum dos meninos, quase todos portugueses, que o clube andou a comprar, a formar e a preparar nos últimos anos e que tanto pareciam prometer: Vieirinha foi vendido por tuta e meia, Hélder Barbosa, Ukra, Rabiola, Candeias e mais uns quantos, foi tudo emprestado, como de costume, levando-me a interrogar o que é afinal o tal projecto grandioso da escola de formação de jogadores? Em contrapartida, vejo que se continua a insistir e apostar numa panóplia de jogadores sul-americanos que, pelo que tenho visto, apenas confirmam o que já se sabia: que não têm categoria para uma equipa com as responsabilidades do FC Porto. É o caso de Bénitez, claro (parece que já foi emprestado), mas também de Tomás Costa, Guarín, Mariano e Farías: não creio que daqui alguma vez saia uma boa surpresa.
Assim, as primeiras (e, repito, pouco fundamentadas) impressões que tiro desta pré-época são as de um Benfica claramente mais forte e um FC Porto (por enquanto…) mais fraco. Mau para nós, portistas, bom para o campeonato.
Pois bem, segundo o jornal I relatava na sua edição de ontem, a mina de ouro responde pelo nome de Sagres, a cerveja, e foram os 40 milhões de euros que a cervejeira disponibilizou ao Benfica para os próximos dez anos que vão servir de garantia hipotecária junto da banca para um empréstimo que permita pagar o investimento deste ano em jogadores. Será assim uma operação tipo tudo-ou-nada, que, se tiver sucesso na frente desportiva, poderá relançar o Benfica no panorama futebolístico europeu e na liderança interna, com sustentação financeira, embora apertada; e, que, se voltar a falhar na frente futebolística, poderá criar um sério problema de viabilidade à SAD. A ser verdadeira a versão do «I», o Benfica está assim como o jogador de poker que, depois de ir perdendo paulatinamente ao longo da noite, vai buscar reforços em cash e joga toda a cave numa única jogada. Uma jogada de alto risco.
Tudo se desloca então para o terreno de jogo onde a equipa reforçada com aquisições de 24 milhões vai tentar, simplesmente, salvar o clube, relançando-o. E a verdade é que, a avaliar pelas impressões da pré-época e pelos relatos da imprensa desportiva (embora estes nem sempre fiáveis), a aposta, este ano, parece ter sido mais ponderada, mais acertada e mais feliz. É cedo ainda para apostar no sucesso desta operação tudo-ou-nada, mas já parece ser seguro dizer que o Benfica está de volta: de volta à competitividade, pelo menos.
Como já aqui disse, eu próprio ainda não abri a minha pré-época de espectador: ainda estou em letargia futebolística, curtindo as delicias das vitórias portistas na temporada que há tão pouco tempo terminou. Percebo que os adeptos benfiquistas sintam exactamente o contrário: uma fome de bola e de vitórias, próprias de quem apenas tem encaixado desgostos e frustrações nos anos anteriores. Mas eu, portista de barriga cheia, tetracampeão e mais e mais, ainda não me sinto com pressa alguma de entrar em jogo. Quer isto dizer que tenho visto pouco, muito pouco Benfica: uma espreitadela à televisão de vez em quando, às vezes mais prolongada quando me agrada o que vejo e porque eu, independentemente de ser o meu clube ou não, gosto de ver futebol bem jogado. O pouco que vi não dá, assim, para ter uma ideia feita do valor do novo Benfica, mas dá para perceber que alguma coisa, de facto, mudou e para melhor. A começar pela atitude competitiva, que faz lembrar, desculpem lá, o FC Porto: vê-se que a equipa entra em campo a sério, sem demoras a arrastar o jogo e a ver em que param as modas, com pressa de chegar ao golo e começar a construir a vitória. E vê-se que, uma vez alcançado o primeiro golo, a equipa não se encosta atrás nem entra em repouso - como tantas vezes sucedeu na época passada, em que um simples 1-0 frente a um adversário menor já parecia encher de satisfação e declara missão cumprida. Indiscutivelmente pareceu-me que este Benfica desculpa-se menos, lamuria menos e joga mais. Será que, finalmente, descobriu que as vitórias e os títulos não se alcançam pela simples reivindicação de direitos de soberania ou antiguidade, mas sim com trabalho, esforço, sacrifício, ordem e talento?
Se bem que os resultados da pré-época não sejam um barómetro infalível do que irá suceder depois, também é verdade que, ao fim de sete ou oito jogos, já é possível ir adivinhando o panorama geral. E, para já - facto não despiciendo para quem não está habituado a ganhar coisa alguma - o Benfica da pré-época soma vitórias em jogos e em torneios. E, se o Guadiana é mesmo um torneio feito à medida da sede de vitórias encarnadas, se o Troféu Platini (como lhe chamou Sílvio Cervan) é mais ou menos o mesmo, um encontro de amizade entre despeitados da Europa, já o Torneio de Amesterdão é coisa mais séria. E, mais importante do que os três troféus de pré-época já arrecadados, é o novo hábito de vitória que se vai instalando entre a equipa encarnada e que, bem gerido, se pode transformar de hábito em vício - conforme os portistas tão bem sabem.
Aparentemente, pois, o FC Porto terá encontrado adversário à altura nesta época que vai começar oficialmente para a semana e onde os portistas vão tentar um novo penta, a acrescentar ao outro, ainda tão recente nas memorias azuis e brancas. Com o Sporting a escolher friamente uma estratégia financeira diametralmente oposta à do Benfica, com as consequências desportivas daí resultantes, a luta este ano ou será naturalmente a dois ou o Sporting, a conseguir intrometer-se, alcançará uma proeza de todo o tamanho. E cobrirá os rivais de vergonha.
Também tenho visto muito pouco do FC Porto refundado - aliviado de três peças fundamentais (até ver…) e reforçado, como habitualmente, com um onze inteiro de sul-americanos, com os quais gastou o mesmo que o novo-Benfica, mas com a diferença de que facturou 70 milhões em vendas contra 1… Vi parte substancial do tetracampeão contra o Dínamo de Bucareste, um pouco do jogo contra os turcos do Besiktas e a segunda parte do triste jogo contra o Aston Villa.
Ao arrepio da opinião geral que tenho visto publicada, pareceu-me que a equipa está uns furos abaixo da anterior. Não vi nenhum reforço que me enchesse as medidas: Álvaro Pereira parece bom mas para já não faz esquecer o Cissokho, esse cometa futebolístico-financeiro que por lá passou seis meses; o Belluschi está londe de ter a classe e a visão de um Lucho e o Falcao dá uns toques, mas vai ter de fazer muito mais do que isso antes que o fantasma de Lisandro López deixe em paz as bancadas do Dragão. Depois, vi que Jesualdo não aproveitou nenhum dos meninos, quase todos portugueses, que o clube andou a comprar, a formar e a preparar nos últimos anos e que tanto pareciam prometer: Vieirinha foi vendido por tuta e meia, Hélder Barbosa, Ukra, Rabiola, Candeias e mais uns quantos, foi tudo emprestado, como de costume, levando-me a interrogar o que é afinal o tal projecto grandioso da escola de formação de jogadores? Em contrapartida, vejo que se continua a insistir e apostar numa panóplia de jogadores sul-americanos que, pelo que tenho visto, apenas confirmam o que já se sabia: que não têm categoria para uma equipa com as responsabilidades do FC Porto. É o caso de Bénitez, claro (parece que já foi emprestado), mas também de Tomás Costa, Guarín, Mariano e Farías: não creio que daqui alguma vez saia uma boa surpresa.
Assim, as primeiras (e, repito, pouco fundamentadas) impressões que tiro desta pré-época são as de um Benfica claramente mais forte e um FC Porto (por enquanto…) mais fraco. Mau para nós, portistas, bom para o campeonato.
terça-feira, agosto 04, 2009
NEGÓCIOS ESTRANHOS (28 JULHO 2009)
1- Graça Rosendo vem da escola do jornalismo de investigação do extinto «Independente» (o bom, porque também houve o mau), o que quer dizer que não é propriamente uma menina recém-chegada ao jornalismo, disposta a escrever qualquer coisa que o director lhe diga que faz vender jornais. Assim, a peça que ela escreveu no penúltimo número do «Sol», sobre as dívidas do Benfica à Euroárea decorrentes da construção do centro de treinos do Seixal, é história que merece ser analisada mais de perto. Aliás, o artigo que logo se seguiu sobre o assunto, aqui, na «Bola», e a reacção do porta-voz da Luz, demonstraram bem que o tema gera bastante desconforto.
Desde logo, salta à vista o facto de, no conjunto de uma dívida cujo total chega aos 24,5 milhões de euros, o Benfica ter já falhado a primeira prestação, de apenas 2,5 milhões, titulada por uma letra de que é avalista. E se falhou o pagamento desses 2,5 milhões, como honrará, em Setembro, o pagamento dessa quantia mais os 22 milhões que então se vencem? A segunda coisa que não pode deixar de preocupar alguns benfiquistas é pensar que esses 24,5 milhões representam o dobro daquilo que efectivamente era devido, mas que a falta de cumprimento contratual por parte do clube fez accionar a cláusula penal do contrato - a qual previa exactamente a duplicação do montante em dívida. E também deve dar que pensar que esses 24,5 milhões representem exactamente aquilo que o clube já gastou em contratações para a próxima época e representem também o total do orçamento do futebol para a época agora iniciada - e de onde tal dívida não consta orçamentada.
Mas isso são preocupações dos sócios benfiquistas, se as quiserem ter. E a verdade é que os sócios benfiquistas, que votaram maciçamente em Luís Filipe Viera há poucas semanas, ouviram-no dizer na campanha eleitoral que não lhe falassem do défice, se queriam ter uma equipa de futebol competitiva. E há poucos dias, os sócios benfiquistas desertaram também maciçamente a Assembleia Geral onde as contas e o orçamento do próximo ano foram aprovados. A mim, as dívidas do Benfica não me interessam nem me ocupam - excepto se, como também se pode inferir da notícia de o «Sol», elas vierem a ser cobertas, no todo ou em parte, pela Caixa Geral de Depósitos, porque aí já são os dinheiros públicos que entram em cena e julgaria inaceitável que o banco do Estado andasse a financiar um clube que, em lugar de pagar dívidas, compra jogadores. Mas, tirando essa situação, o que me preocupa, e tem ocupado aqui bastas vezes, são as contas e as compras do F.C.Porto.
Porém, se venho a este tema, é porque há, na peça da Graça Rosendo, uma parte que me fez disparar uma campainha de alarme. Como é que a direcção da SAD do Benfica, presidida então, como agora, por Vieira, se propôs pagar à Euroárea os custos da compra do terreno e construção do centro do Seixal? Em dinheiro, em partilha de receitas, em direitos de exploração? Não: propôs-se pagar em forma de tráfico de influências politicas. É isso mesmo que se infere do contrato assinado entre ambas as partes. O Benfica propôs à Euroárea cumprir a sua parte do contrato obtendo da CML a autorização para mais 1 800 metros quadrados de construção a favor da Euroárea na urbanização dos terrenos da Luz, e obter da CM Seixal idêntica licença para ampliação em 30 000 metros quadrados da urbanização na Quinta da Trindade, no Seixal, de que esta empresa é proprietária.
Ou seja: o Benfica propôs-se servir de intermediário da Euroárea e junto das edilidades de Lisboa e do Seixal, a favor dos interesses da empresa. E se o fez, e se a Euroárea o aceitou, é logicamente porque a empresa concluiu que, por si só, não conseguiria convencer as autarquias a reverem e revogarem os planos municipais já aprovados. A Euroárea reconheceu não ter força de influência politica para o conseguir; mas reconheceu também que o Benfica a tinha. E foi com este pressuposto que assinaram o contrato. Estamos perante um chocante caso de tráfico de influências, feito por um clube de futebol a favor de uma empresa privada e no interesses de ambos. A força da «marca Benfica», como costumam dizer, é de tal ordem, que a direcção presidida por Luís Filipe Viera não hesita em assinar contratos onde se compromete a obter de autarquias regimes de excepção a favor de terceiros!
Em tempos, e perante o silêncio geral, expus aqui detalhadamente o que foram os extraordinários contratos de favor celebrados entre Benfica e Sporting, por um lado, e a CML, então presidida por Santana Lopes, por outro, e que permitiram a construção dos novos Estádios da Luz e Alvalade XXI. Já lá vão cinco anos e recordo apenas que, entre várias facilidades de construção excepcionais e outras alcavalas, a CML (eternamente arruinada) deu, literalmente dado e em «cash», 15 milhões de euros a cada clube. O contrato era de tal forma impressionante que a última cláusula estabelecia (ó santa inocência!) que nos próximos dez anos nenhum dos dois clubes teria mais o que quer que fosse da CML. O Sporting conseguiu recentemente que um tribunal arbitral, aceite pela CML, lhe outorgasse mais uns direitos de construção extra em terrenos tão próximos do estádio que basta olhar para a sua localização para perceber o regime de favor e excepção de que beneficiou. E o Benfica, pelos vistos, ainda se reserva o direito de obter o mesmo, directamente a favor de terceiro. E pensar que, depois do grande regabofe entre câmaras e clubes a pretexto do Euro-2004, o único «escândalo» que ocupou a imprensa e o Ministério Público foi a permuta de terrenos entre o F.C.Porto e a CMP! Ao menos o F.C.Porto, quando se abalançou à construção do Estádio do Dragão, era proprietário de 17 hectares de terrenos na zona, livres e disponíveis. Quantos tinham Benfica e Sporting?
Voltando ao contrato entre Benfica e Euroárea, o que parece ter complicado a posição contratual do Benfica é que, por um lado, a CM Seixal ainda não outorgou a tempo o alvará a favor da Euroárea que o Benfica se comprometeu a obter, e a CM Lisboa levou a expansão da área de construção da Luz a votação camarária e o projecto não passou. Houve uma votação que terminou empatada 5-5 e o presidente e benfiquista António Costa fez uma prévia declaração prescindindo do seu voto de qualidade. O Benfica já juntou o inevitável parecer jurídico, sustentando que o presidente, quando vota, tem sempre voto de qualidade (e devo dizer que, juridicamente, também acho o mesmo). Mas, no mínimo, o que António Costa deveria ter feito era abster-se na votação, ou, melhor e mais normal, ter recusado liminarmente o projecto porque cidade alguma pode ser governada com decisões de excepção a favor de clubes de futebol que vivem eternamente acima dos meios normais de que dispõem. Chama-se a isso fomentar a concorrência desleal e chama-se a isso dispor de coisa pública em benefício de interesses particulares.
Depois não venham dizer que o futebol é um mundo à parte. Alguma coisa está podre quando um clube assina contratos em que se compromete a obter junto das autarquias autorizações de construção a favor de terceiros.
Desde logo, salta à vista o facto de, no conjunto de uma dívida cujo total chega aos 24,5 milhões de euros, o Benfica ter já falhado a primeira prestação, de apenas 2,5 milhões, titulada por uma letra de que é avalista. E se falhou o pagamento desses 2,5 milhões, como honrará, em Setembro, o pagamento dessa quantia mais os 22 milhões que então se vencem? A segunda coisa que não pode deixar de preocupar alguns benfiquistas é pensar que esses 24,5 milhões representam o dobro daquilo que efectivamente era devido, mas que a falta de cumprimento contratual por parte do clube fez accionar a cláusula penal do contrato - a qual previa exactamente a duplicação do montante em dívida. E também deve dar que pensar que esses 24,5 milhões representem exactamente aquilo que o clube já gastou em contratações para a próxima época e representem também o total do orçamento do futebol para a época agora iniciada - e de onde tal dívida não consta orçamentada.
Mas isso são preocupações dos sócios benfiquistas, se as quiserem ter. E a verdade é que os sócios benfiquistas, que votaram maciçamente em Luís Filipe Viera há poucas semanas, ouviram-no dizer na campanha eleitoral que não lhe falassem do défice, se queriam ter uma equipa de futebol competitiva. E há poucos dias, os sócios benfiquistas desertaram também maciçamente a Assembleia Geral onde as contas e o orçamento do próximo ano foram aprovados. A mim, as dívidas do Benfica não me interessam nem me ocupam - excepto se, como também se pode inferir da notícia de o «Sol», elas vierem a ser cobertas, no todo ou em parte, pela Caixa Geral de Depósitos, porque aí já são os dinheiros públicos que entram em cena e julgaria inaceitável que o banco do Estado andasse a financiar um clube que, em lugar de pagar dívidas, compra jogadores. Mas, tirando essa situação, o que me preocupa, e tem ocupado aqui bastas vezes, são as contas e as compras do F.C.Porto.
Porém, se venho a este tema, é porque há, na peça da Graça Rosendo, uma parte que me fez disparar uma campainha de alarme. Como é que a direcção da SAD do Benfica, presidida então, como agora, por Vieira, se propôs pagar à Euroárea os custos da compra do terreno e construção do centro do Seixal? Em dinheiro, em partilha de receitas, em direitos de exploração? Não: propôs-se pagar em forma de tráfico de influências politicas. É isso mesmo que se infere do contrato assinado entre ambas as partes. O Benfica propôs à Euroárea cumprir a sua parte do contrato obtendo da CML a autorização para mais 1 800 metros quadrados de construção a favor da Euroárea na urbanização dos terrenos da Luz, e obter da CM Seixal idêntica licença para ampliação em 30 000 metros quadrados da urbanização na Quinta da Trindade, no Seixal, de que esta empresa é proprietária.
Ou seja: o Benfica propôs-se servir de intermediário da Euroárea e junto das edilidades de Lisboa e do Seixal, a favor dos interesses da empresa. E se o fez, e se a Euroárea o aceitou, é logicamente porque a empresa concluiu que, por si só, não conseguiria convencer as autarquias a reverem e revogarem os planos municipais já aprovados. A Euroárea reconheceu não ter força de influência politica para o conseguir; mas reconheceu também que o Benfica a tinha. E foi com este pressuposto que assinaram o contrato. Estamos perante um chocante caso de tráfico de influências, feito por um clube de futebol a favor de uma empresa privada e no interesses de ambos. A força da «marca Benfica», como costumam dizer, é de tal ordem, que a direcção presidida por Luís Filipe Viera não hesita em assinar contratos onde se compromete a obter de autarquias regimes de excepção a favor de terceiros!
Em tempos, e perante o silêncio geral, expus aqui detalhadamente o que foram os extraordinários contratos de favor celebrados entre Benfica e Sporting, por um lado, e a CML, então presidida por Santana Lopes, por outro, e que permitiram a construção dos novos Estádios da Luz e Alvalade XXI. Já lá vão cinco anos e recordo apenas que, entre várias facilidades de construção excepcionais e outras alcavalas, a CML (eternamente arruinada) deu, literalmente dado e em «cash», 15 milhões de euros a cada clube. O contrato era de tal forma impressionante que a última cláusula estabelecia (ó santa inocência!) que nos próximos dez anos nenhum dos dois clubes teria mais o que quer que fosse da CML. O Sporting conseguiu recentemente que um tribunal arbitral, aceite pela CML, lhe outorgasse mais uns direitos de construção extra em terrenos tão próximos do estádio que basta olhar para a sua localização para perceber o regime de favor e excepção de que beneficiou. E o Benfica, pelos vistos, ainda se reserva o direito de obter o mesmo, directamente a favor de terceiro. E pensar que, depois do grande regabofe entre câmaras e clubes a pretexto do Euro-2004, o único «escândalo» que ocupou a imprensa e o Ministério Público foi a permuta de terrenos entre o F.C.Porto e a CMP! Ao menos o F.C.Porto, quando se abalançou à construção do Estádio do Dragão, era proprietário de 17 hectares de terrenos na zona, livres e disponíveis. Quantos tinham Benfica e Sporting?
Voltando ao contrato entre Benfica e Euroárea, o que parece ter complicado a posição contratual do Benfica é que, por um lado, a CM Seixal ainda não outorgou a tempo o alvará a favor da Euroárea que o Benfica se comprometeu a obter, e a CM Lisboa levou a expansão da área de construção da Luz a votação camarária e o projecto não passou. Houve uma votação que terminou empatada 5-5 e o presidente e benfiquista António Costa fez uma prévia declaração prescindindo do seu voto de qualidade. O Benfica já juntou o inevitável parecer jurídico, sustentando que o presidente, quando vota, tem sempre voto de qualidade (e devo dizer que, juridicamente, também acho o mesmo). Mas, no mínimo, o que António Costa deveria ter feito era abster-se na votação, ou, melhor e mais normal, ter recusado liminarmente o projecto porque cidade alguma pode ser governada com decisões de excepção a favor de clubes de futebol que vivem eternamente acima dos meios normais de que dispõem. Chama-se a isso fomentar a concorrência desleal e chama-se a isso dispor de coisa pública em benefício de interesses particulares.
Depois não venham dizer que o futebol é um mundo à parte. Alguma coisa está podre quando um clube assina contratos em que se compromete a obter junto das autarquias autorizações de construção a favor de terceiros.