sexta-feira, julho 31, 2009

ADEUS LUCHO, ADEUS BRUNO, ADEUS LISANDRO (07 JULHO 2009)

1- Antes do trivial, um registo para o excepcional: Roger Federer. Aquele que é talvez o maior tenista de todos os tempos (para mim, ou ele ou McEnroe), chegou ao sexto título conquistado em Wimbledon e que foi o mais dificil e o mais dramático de todos, num daqueles jogos para a eternidade que só um desporto tão fabuloso como o ténis pode proporcionar. Federer fez história, domingo passado, ao tornar-se o tenista com mais vitórias de Grand Slam de sempre chegando às quinze e assim batendo o record de Pete Sampras. Curioso é que ele, tal como Sampras, não ficará para a história por ter um serviço demolidor, como Pat Cash, ou uma direita impiedosa, como Lendl, ou a inesquecível esquerda de Mc Enroe ou o inabalável jogo do fundo do court do «Iceborg». Não, o que Federer tem é um ténis sem pontos fracos, que fez dele o número um do mundo, sem ser o número um em nenhuma das pancadas ou das variantes do jogo. Por isso, o seu jogo, além de brilhante, é perfeito de elegância e quem quiser aprender a jogar ténis a sério, pode começar por observar Federer, porque ele é um verdadeiro livro de instruções da perfeição neste desporto: não foge às esquerdas, não tem medo da rede, não tem um serviço vulnerável.

Depois de ter vencido Rolland Garros - o título de Grand Slam que sempre lhe escapara, Federer aproveitou bem agora a ausência de Nadal em Wimbledon para recuperar o título inglês que o espanhol lhe havia roubado no ano passado. É verdade que anteontem tanto podia ter ganho ele como Rodnick e a taça ficaria bem entregue a cada um deles. Mas foi melhor assim, porque o suíço bem merecia este record batido - ele, que, além do mais, é um cavalheiro dentro e fora do court. Nisso, o ténis ainda continua a marcar a diferença para os outros desportos, graças, sobretudo, ao «espírito de Wimbledon», que continua a resistir a modas e a estilos duvidosos: ali todos têm de equipar de branco, ninguém pode ser anti-desportivo ou grosseiro com os árbitros e adversários e não há lá tatuagens nem penteados exotéricos, porque é no campo e pelos seus dotes de atletas que os artistas se revelam - e apenas aí.

O ténis a este nível faz o futebol - mesmo o futebol ao mais alto nível - parecer um circo de vedetas de ocasião.


2- Mas vamos lá ao futebol, essa fatalidade. Por cá, está-se ainda na fase de compras e vendas - aquela que mais interessa aos dirigentes e mais agrada a alguns adeptos. E, como sempre, o campeão desta fase é o Benfica. De há dois anos para cá, ninguém compra, em quantidade e em despesa, como o Benfica. E como, simultâneamente, não vende (porque não quer, dizem eles; porque ninguém os quer, digo eu), a SAD benfiquista vai ficando cada vez mais vermelha e, ou as novas estrelas anunciadas conseguem este ano provar o que os seus antecessores recentes não provaram e começam a amortizar o investimento feito, ou as coisas não tardarão a passar de vermelhas a negras. A aposta em Saviola faz lembrar a do ano anterior em Aimar: jogadores que já tiveramn nome e que por isso são pagos caro e com elevadíssimos ordenados, mas que há vários anos não passam do estatuto de suplentes de luxo em Espanha. Ninguém sabe se conseguem regressar aos bons velhos tempos ou se apenas querem gerir tranquilamente o final das suas carreiras em Lisboa. Já Ramires está mais ao nível das expectativas criadas com Di María: dois jovens com estatuto de Selecção, em quem se depositam enormes esperanças de crescimento com a transferência para a Europa. Di María está longe ainda de ter cumprido as esperanças criadas, mas Ramires, com lugar quase cativo na Selecção brasileira, parece mais sólido. Ambição já se viu que não lhe falta: falta-lhe só contenção para não aparecer logo a dizer que espera vir para o Benfica em trânsito para um «grande» da Europa. Noutros tempos, de grandeza real e não apregoada, o jovem Ramires, se calhar, já tinha perdido o livre trânsito para o Estádio da Luz, à conta desse desabafo íntimo.


3- No F.C.Porto, é mais do mesmo: saem dois ou três dos melhores, entram nove ou dez cujo valor se ignora e que tanto podem ser um sucesso como um fiasco, destinado a alimentar a interminável legião de supra-numerários que a SAD azul-e-branca sustenta por esse mundo fora. Saíu Lucho, por 17 milhões - depois de se ter jurado que não sairia por menos de trinta. Tal como Quaresma, no ano passado: só saía por 40 milhões menos um euro, e acabou por sair pelos mesmos 17 e com a «oferta» envenenada do Pélé, que se transformou, como era de prever, em mais um supra-numerário para sustentar.

Lucho não precisava de sair: tinha contrato por mais três anos, estava bem pago, gostava do clube e era o capitão. É verdade que foi ganhar bem mais e toda a gente gosta de ganhar mais. Mais ai dos clubes se continuam a deixar sair jogadores que lhes interessam só porque eles recebem uma proposta melhor e ficam «contrariados», coitadinhos. Para que servirão então os contratos - só para proteger os jogadores que ninguém cobiça e não se querem ir embora, por nada deste mundo, como o Adriano?

Não, não foi por isso que Lucho se foi embora. Foi-se embora porque a SAD o queria vender. Porque, como já exliquei bastas vezes, a SAD quer vender dois ou três dos melhores todos os anos porque a gestão do clube é sempre deficitária e só se equilibra vendendo. E é deficitária porque é preciso sustentar um exército de alguns 70 jogadores, quando o normal seria metade disso. E assim se fecha este círculo vicioso: para pagar aos jogadores que não jogam é preciso vender os que mais jogam.

A questão que se coloca é esta: porque razão, quando vende grandes jogadores, a SAD não se limita a encaixar o dinheiro e a amortizar a dívida e, pelo contrário, vai logo comprar dois ou três por cada um que vende, assim aumentando todos os anos o rol de pagamentos e o crónico défice? Pois, essa é a grande questão, que qualquer auditor de contas ou conselho fiscal tinha obrigação de controlar: basta ir ver a quem são pagas comissões nas compras e que interesse tem o clube em ter jogadores emprestados por todos os lados. Por exemplo: se, depois de vender o Pepe, o Quaresma e o Bosingwa no ano passado, a SAD não tivesse comprado nenhum jogador e, pelo contrário, tivesse ido aproveitar alguns com quem tem contrato e a quem paga e não aproveita (o Ibson é o caso mais notável e incompreensível), este ano não seria preciso vender jogador algum…

Falhada a venda fantástica de Cissokho, logo temi pela sorte de Lucho, Lisandro ou Hulk. Porque o Bruno Alves, esse, está só à espera que se materialize alguma das muitas cobiças já reveladas e, à primeira oferta firme, marcha logo. Mas só a venda do Bruno Alves não chega, depois de falhado o Cissokho. E como o Lucho acabou vendido quase ao mesmo preço que o Cissokho (!), também essa venda é curta para o muito que há a amortizar e o muito que é preciso para gastar com aquela vaga habitual de sul-americanos, de preferência argentinos: os Farías, Guárins, Tomáz Costa, Mariano, Bénitez, etc. Eis, pois, a minha aposta: foi o Lucho e seguem-se o Bruno Alves e o Lisandro. E, quanto mais tarde forem, pior será, porque o desespero vai fazer baixar o preço de venda, como sucedeu com o Quaresma, no ano passado.

Enfim, o triste cenário habitual. Eu até já tenho medo de comprar os jornais da manhã, nesta altura da época! Não digo que o F.C.Porto, como Benfica e Sporting, não precise de vender, de vez em quando, ou não deva vender, quando o negócio é demasiado irresistível. Mas não era preciso vender todos os anos dois ou três dos melhores. Bastava que a gestão fosse mais transparente e que conseguisse também, de quando em vez, vender um dos outros, daqueles que só servem para receber o ordenado ao fim do mês.

domingo, julho 12, 2009

O TUDO OU NADA (30 JUNHO 2009)

1- Luís Filipe Viera vai então ser reconduzido presidente do Benfica esta sexta-feira, tendo previamente garantida a vitória com uma manobra eleitoral ao estilo Hugo Chávez. Afastados os opositores que o poderiam assustar com o golpe palaciano da antecipação das eleições, devidamente denunciados como oportunistas ou testas-de-ferro dos Filipes de Espanha os que se atreveram a contestar publicamente a propaganda pessoal montada ao seu serviço, Vieira vai assim tranquilamente para um terceiro mandato, em que, todavia, o benefício da dúvida junto dos sócios há muito se esgotou.

Seis treinadores em sete anos, alguns 40 jogadores contratados, 50 milhões investidos no plantel no ano passado e, contas feitas, apenas um título de campeão (e sem convencer ninguém), um quarto lugar e um terceiro nas duas últimas épocas, dois anos consecutivos fora da Champions. O presidente do Benfica sabe bem que, se voltar a falhar este ano, o clima se lhe tornará tão insuportável, que talvez se tornem inevitáveis novas eleições antecipadas, mas então contra a sua vontade. Por isso, ele declarou já que não lhe venham falar do aumento do défice, que o deixem gastar dinheiro à vontade - ou então, não lhe exijam títulos. Já vai em 16 milhões de contratações esta época e ameaça não ficar por aí, ao mesmo tempo que promete não vender ninguém (esta, uma promessa fácil de cumprir, porque, na verdade, não vejo ninguém ali, nem o Luisão, que desperte o interesse de um clube disposto a pagar dinheiro que se veja pelas vedetas sobejantes dos 50 milhões investidos no ano passado: eu, pessoalmente, não quereria, para o plantel do F.C.Porto, um só dos que constituiem o do Benfica. Um só).

Quer isto dizer que apenas uma de duas hipóteses se colocam a médio prazo para o presidente do Benfica: ou se sagra campeão este ano, garantindo também o acesso à Champions, e, nesse caso, o aumento do défice será facilmente esquecido e perdoado por uma massa associativa sedenta de títulos a sério; ou falha uma vez mais o campeonato e estará sentado à frente de uma SAD vencida e arruinada.

Quer isto dizer, também, que prevejo uma época de conflitos sem fim, com um clima de cortar à faca - de que já foi eloquente exemplo o jogo com o Sporting para decidir o título dos juniores. Para agravar as coisas, Vieira, Rui Costa e o Benfica apostam tudo em Jorge Jesus, que é um treinador de conflito fácil e verbo incontinente. Neste capítulo, ele entrou à Mourinho, copiando o discurso do Grande Zé, quando ele chegou ao F.C.Porto e declarou «para o ano somos campeões». Lembro-me bem que, na altura, caíram os guardiões da «verdade desportiva» em cima de Mourinho, achando até suspeito que ele anunciasse a vitória por antecipação. Mas o mesmo dito pelo treinador do Benfica é aceitável e até mais do que recomendável. Acontece, porém, um pequeno detalhe: não é Mourinho quem quer, e Jorge Jesus não é. Pode ser que vença logo no ano de estreia, mas não vão ser favas contadas, como foi para Mourinho triunfar no F.C.Porto e em três anos colocá-lo no topo da Europa.

Adivinho, pois, um Benfica crescentemente impaciente, para dentro e para fora, a protestar contra tudo e todos quando as coisas não lhe correrem de feição e convencido, como de costume, que lhe basta alinhar vedetas como Aimar ou Saviola ou outras tidas como tais, para que o mundo lhe caia aos pés e todos se disponham a prestar-lhe vassalagem. Desde que Fernando Martins deixou de ser presidente do Benfica e o Benfica deixou de ganhar, que a cultura de vitória (que antes decorria naturalmente de uma supremacia visível) passou a assentar numa espécie de «direito natural» à vitória, como se os outros não existissem, não competissem e não tivessem também o direito de vencer. E, nesse aspecto, mais milhão menos milhão investido, mais mandato presidencial e mais propaganda pessoal feita, não vejo que nada se tenha susbstancialmente alterado agora.

A ver vamos. Mas aposto que o campeonato que aí vem - a menos que, surpreendentemente, o F.C.Porto desabe, o Sporting se mostre excepcionalmente limitado e o Benfica comece a vencer e a convencer logo de entrada - vai ter momentos irrespiráveis pela pressão benfiquista em vencer a qualquer preço.


2- Fernando Mendes - o único futebolista português que jogou nos cinco clubes campeões nacionais - esteve à beira de lançar uma granada em pleno coração do futebol português. «Jogo Sujo» - o livro que ele agora lançou, em parceria com o jornalista Luís Aguillar - era para ser uma denúncia documentada, com nomes e datas, do universo escondido do doping no futebol profissional. Mas, afinal e segundo ele confessou ao «Expresso» recuou, a conselho do seu advogado. Manteve as denúncias, mas escondeu os nomes dos clubes, dos médicos, dos treinadores, dos responsáveis daquilo que ele define como «histórias que merecem ser contadas».

Mesmo assim, quando fala das experiência de doping num clube que «tinha um líder carismático e uma grande equipa» - e depois de excluir das suspeitas Benfica, Sporting e FC Porto - toda a gente, como ele aliás diz, sabe de que clube está a falar. Então, vou eu dizer o nome que ele não se atreveu a dizer, o nome para que apontam todas as suspeitas levantadas no seu livro: está a falar do Boavista. Do Boavista que foi campeão nacional, na virada deste século.

Não é surpresa para ninguém, aliás. Quem estivesse atento ao futebol, via claramente coisas muito estranhas naquele Boavista, e à boca grande comentava-se isso no meio e alguma imprensa deu conta, timidamente, de inquéritos policiais que desaguavam em massagistas e farmácias cujos nomes faziam parte do mesmo enredo. Mas nunca se passou daqui - das suspeitas não confirmadas, das revelações em off-the record, das conversas nas tribunas presidenciais dos estádios. Ou seja, tudo acabou como de costume: em suspeitas.

E houve duas razões para que acabasse assim. Por um lado, porque havia um consenso politicamente correcto (e que eu próprio subscrevia) de que o «histórico» Boavista - que, no tempo de Pedroto, estivera à beira de ganhar um campeonato ao Benfica - já merecia a honra de ser campeão nacional. Por outro lado, porque, nesse ano em que finalmente o foi, o Boavista só teve um rival na corrida e até ao fim: o F.C.Porto. Muito cedo, nessa época, Benfica e Sporting ficaram arredados da luta pelo título e esta ficou restringida aos dois maiores clubes da cidade do Porto. Tivessem as coisas sido diferentes, tivesse um dos grandes de Lisboa disputado o campeonato até ao fim contra o Boavista, e certamente que o penoso silêncio que cobriu as suspeitas de que todos falavam ter-se-ia tornado numa gritaria ensurdecedora. Mas, não, tal como as coisas aconteceram a nível de resultados, houve um consenso em considerar aquele campeonato uma luta de compadres do Porto e um desejo assumido de que o Boavista evitasse mais um título para os azuis-e-brancos. O Boavista acabaria por se sagrar campeão com um ponto de avanço sobre o FC Porto - graças, em medida decisiva, ao jogo do Bessa, onde Vítor Pereira teve a mais infeliz actuação da sua carreira e ofereceu a vitória de bandeja aos do Bessa. O único consolo do F.C.Porto foi acabar o campeonato a dar 4-0 ao novo campeão, no Estádio das Antas. Quanto à substância da história, um manto de silêncio politicamente correcto desceu sobre o assunto. Até hoje.

Talvez, em coerência com a sua actuação de há um ano atrás em relação ao F.C.Porto, o CD da Liga devesse chamar Fernando Mendes a depor e esclarecer o que nunca foi esclarecido. Por uma questão de justiça histórica. Para que, das duas uma: ou as suspeitas fiquem enterradas de vez, ou sejam confirmadas em factos e deles se extraiam as consequências devidas. Eu sei que seria esperar demais, mas sugerir não ofende.

quarta-feira, julho 01, 2009

"ASSALTO" AO GLORIOSO (23 JUNHO 2009)

1- Os ditadores modernos nunca se assumem como tal, até porque têm sempre a seu favor poder reclamar a legitimidade democrática de uma eleição. A sua sabedoria consiste exactamente em saber perpetuar-se no poder, preparando as eleições de forma que não possa nunca haver outro vencedor. O nosso poder autárquico está cheio de casos destes, a que chamam os «dinossauros» do poder local; o poder regional tem o exemplo supremo, à escala mundial, do grande líder Jardim, vencedor de 27 eleições e há 30 anos no poder; o mundo futebolístico abunda em exemplos semelhantes, de que o mais conhecido e antigo é o de Pinto da Costa no F.C.Porto, e o último em data o de Luís Filipe Vieira no Benfica. A diferença (e estamos a falar de e futebol e competição) é que, enquanto que Pinto da Costa é um vencedor, Vieira é um perdedor - que fala grosso mas voa baixinho.


2- Já se conhece de cor e salteado a ladainha de Luís Filipe Vieira: ele está no Benfica com grande sacrifício pessoal e familiar e só faz o obséquio de se recandidatar e recandidatar para não entregar o clube a «aventureiros» e «oportunistas» - que agora querem vir colher os frutos que ele semeou em anos em que «recuperou a credibilidade» para a «instituição» e tornou a «marca Benfica» a coisa mais apetecível do mercado português (não esquecendo as vitórias desportivas: o inesquecível campeonato Trapattoni e uma coisa chamada Taça da Liga, conquistada a meias com Lucílio Baptista).

Viera passa os anos de mandato a fazer a sua auto-propaganda pessoal, percorrendo o povo benfiquista de lés a lés, e produzindo densos discursos de exaltação da sua pessoa. E passa o último ano dos mandatos a alertar contra os traidores que lhe querem roubar o lugar - esse crime de lesa-majestade! - atrevendo-se a disputar eleições contra ele. Este ano, com eleições previstas para Outubro, Vieira detectou no ar um cheiro a «instabilidade» insuportável e a conspiração adiantada. E foi então que lhe ocorreu o brilhante contra-golpe de antecipar eleições, tão rápidas e tão surpreendentes que, pensava ele, iria apanhar toda a oposição de calças na mão, preparando tranquilamente as eleições de Outubro.


3- E tudo estava assim pacificamente orquestrado, quando, quarta-feira passada, por entre o folclore do candidato que aluga um avião para impressionar o pagode e outros que querem ser e não podem ou podem mas não querem, começa a circular o nome de um candidato absolutamente inesperado e verdadeiramente vindo de outro planeta: José Eduardo Moniz.

Durante toda a quarta e quinta-feira, os homens de Vieira tremeram na Luz: agora eram eles que não estavam preparados para aquele súbito desafio. Quinta-feira, quando cheguei à TVI, cerca das 18.30, o ambiente era de desalento entre a redacção. Havia um sentimento de orfandade antecipada no ar, mesmo entre os benfiquistas. Moniz foi o homem que ergueu a TVI do nada, o homem que é capaz como poucos de formar e liderar equipas, alguém que, como o próprio diria depois, quando se mete numa coisa é para ganhar. E, a esse hora da tarde, na TVI, como no Estádio da Luz, a convicção geral era de que ele ia mesmo avançar.

Às 20.10, ainda José Eduardo Moniz por ali andava, assistindo, como de costume, ao arranque do Jornal Nacional, e não dando a ninguém a mais pequena hipótese de adivinhar qual era a decisão que já tinha tomado e que comunicaria daí a pouco, em directo para o País. E às 21.05, ele começou a falar, de um hotel de Lisboa. Arrancou à José Eduardo: directo ao assunto, sem contemplações nem meias palavras, longérrimo dos jogos florais do «futebolês» a que estamos habituados, verdadeiramente vindo de outro planeta para desassossegar o planeta dos vencidos. Duvido que tenha havido um só benfiquista (todos traumatizados, e alguns já conformados, com anos sucessivos de mediocridade embrulhada em grandes triunfos e competência pessoal de Luís Filipe Vieira) que não tenha estremecido de entusiasmo apenas com o tom do discurso de Moniz. Durante cinco longos minutos, o Glorioso parecia poder estar de volta, já ao alcance da esquina e apenas pela capacidade mobilizadora daquele discurso. Se chegasse ao fim e dissesse, como parecia decorrer do discurso, «vou a eleições!», eu estou convencido de que já as tinha ganho. Houve ali qualquer coisa de «General Sem Medo» desafiando a ordem salazarenta das coisas. E o povo adora isso.

Mas, num golpe de verdadeiro anti-climax, Moniz concluiu o contrário: «Não vou». Não consegui escutar os suspiros de alívio que se devem ter ouvido em todas as imediações do Estádio da Luz, mas, dentro do estúdio, chegaram até nós os gritos de júbilo vindos da régie - e essa é a melhor homenagem que se pode prestar ao director-geral da TVI.

Chamado a comentar o assunto, disse isto - que continua a minha opinião, cinco dias volvidos: primeiro, que ficava contente, como colaborador da TVI, com a sua decisão de não se candidatar; segundo, que ficava igualmente contente, enquanto portista, pois que não tinha dúvidas de que, não só ele ganharia a eleição, como também de que seria um excelente presidente, como o Benfica há muitos, muitos anos, não tem. E acrescentei que, mesmo assim e a partir dessa não-candidatura, as coisas não voltariam a ser iguais para Vieira. Doravante, ele tem uma espada pendente sobre a cabeça, foi finalmente desafiado a sério e sem meias-palavras alguém disse alto e bom som a todos os benfiquistas que o seu presidente não estava ao nível da exigência e que só não era destronado imediatamente graças ao «golpe estatutário» a que lançara mãos, exactamente para o evitar. Não é preciso ser grande adivinho para perceber que tudo o que até agora foi tolerado a Vieira por falta de alternativa, vai deixar de o ser. Os benfiquistas já não vão conformar-se com mais palavreado oco e discursos de autopromoção: querem é ver resultados. E já. Eu, no lugar deles, quereria exactamente o mesmo.


4- Consciente de que assim tinha sido e de que o discurso de Moniz abalara a nação benfiquista, Vieira contra-atacou ontem, aqui, nas páginas de A Bola e por interposto José Manuel Delgado, citando «fontes benfiquistas». A tese bombástica, servida sem um estremecimento, é a de que Moniz seria um Miguel de Vasconcelos, servindo os Filipes de Espanha e pronto a abocanhar essa preciosidade disputada globalmente e que é «a marca Benfica» - através de uma fantástica conspiração, montada em tempo recorde, e que reuniria a Prisa, a Mediapro, a Cofina, o PSOE e a Caixa Geral de Depósitos. E Luís Filipe Vieira, claro, é o glorioso Duque de Bragança, futuro D. João IV, batendo-se como um leão solitário pela independência nacional e benfiquista. Como dizem os franceses, «il fallait y penser…!»

É preciso não conhecer José Eduardo Moniz para acreditar, um segundo que seja, que ele se dispusesse a ir para o Benfica para o vender aos espanhóis - e mais ainda à Prisa. E tudo isto, porque - explicaram «as mesmas fontes» a José Manuel Delgado - os espanhóis cobiçam os direitos televisivos dos jogos do Benfica, que pertencem a Joaquim Oliveira até 2013, «pela irrisória quantia de 8 milhões de euros/época» e querem «tomar conta da marca Benfica, a mais cobiçada em Portugal». Então, o negócio seria assim: os espanhóis entravam agora, pagando, no capital da SAD do Benfica, cuja maioria Moniz iria pôr em praça; depois, esperavam quatro anos pela caducidade dos direitos televisivos vendidos a Joaquim Oliveira; e a seguir, iriam vendê-los, por uma fortuna, à TVI - que entretanto, a Prisa teria vendido à Cofina. Mesmo dando de barato que a Prisa quisesse delamber-se do seu core-se-no-la que é a televisão, para se ir enfiar num clube de futebol, não consegui foi entender o papel da Cofina: para já, arruinavam-se a comprar a TVI por 100 milhões que a Caixa e não só lhe emprestariam, e depois voltavam a arruinar-se para ir comprar por uma fortuna os direitos televisivos que a Olivedesportos detém por uma ninharia. E com a «marca Benfica» conseguiriam o quê - o mesmo retumbante sucesso do «kit Benfica»?

Pensando bem, não sei, afinal, se Luís Filipe Vieira terá percebido o que lhe aconteceu, com aqueles dez arrasadores minutos de Moniz. Se terá percebido que o povo benfiquista já não vai lá com conversa fiada.

quarta-feira, junho 24, 2009

NEGÓCIOS DE VERÃO (16 JUNHO 2009)

1- Não me venham cá com o mercado e as suas durae lex, sed lex: o valor da transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid é um escândalo e, quanto à suposta verdade inelutável do mercado, aí está a maior crise económica planetária dos últimos oitenta anos para mostrar como o mercado pode ser desregulado pelo excesso de ambição e falta de regras.

Como Ronaldo é português, fatalmente vem ao de cima o espírito nacionalista, a que eu chamo saloio, e que nos impede de ver as coisas como as veríamos se fosse um jogador estrangeiro. Nenhum jogador de futebol vale 94 milhões de euros. Nenhum. O que o Real Madrid fez, numa semana em que gastou 160 milhões de euros a comprar Káká e Ronaldo, é não apenas indecoroso face aos valores em si, como é também insustentável, financeira e desportivamente. Há anos atrás, quando se lançou na política de aquisição dos «galácticos», que lhe valeu a presidência do Real, Florentino Perez financiou-a através da venda do património imobiliário do clube, no centro da cidade, e numa daquelas manobras em compadrio com a autarquia local, que tão bem conhecemos também por cá. Mas, agora, que esse património já não existe, como vai Florentino Pérez financiar estas compras, que elevam para 500 milhões de euros o endividamento do Real Madrid? É verdade que os direitos televisivos em Espanha são astronómicos (até ver…) e que o merchandising resultante da venda dos direitos de imagem dos jogadores pode atingir montantes fabulosos. Mas isso não chega. Pode ser até, como ele disse, que, dentro de um ano, haja um milhão de espanhóis com a camisola de Ronaldo, comprada nas lojas do clube: continua a não chegar - são, no máximo, 30 milhões de euros. Por isso, a pergunta que todos fazem em Espanha é como é que o Real Madrid vai conseguir amortizar estas loucuras do seu presidente e, pior ainda, o que sucederá se não conseguir?

Desportivamente, toda a gente percebe facilmente que, com negócios destes, a concorrência fica mais do que distorcida, fica falseada. E não são as lágrimas de crocodilo do Sr. Platini que impedem que tal seja verdade. Há uma dúzia de clubes europeus que disputam a Liga dos Campeões cronicamente e em condições que, à partida, lhes dão toda a vantagem. Há muito que deixaram de ser clubes nacionais, para se transformarem em multinacionais, detidos por princípes árabes sem saber o que fazer ao dinheiro, especuladores da bolsa americana, senhores das mafias do leste europeu ou grandes construtores civis, como Florentino Pérez. No extremo limite desta condição, temos o Liverpool, que disputou os quartos-finais da Champions este ano, com um treinador espanhol e sem um único jogador inglês como titular. Quem pode dizer ainda que se trata de um clube inglês e que representa o futebol das Ilhas? E temos - num patamar abaixo, na condição simultânea de compradores e vendedores - os grandes clubes portugueses: compram jovens esperanças brasileiras e sul-americanas para as revender mais tarde e bem mais caro, enquanto desprezam as jovens esperanças portuguesas, condenadas a expatriar-se para um terceiro patamar, o dos clubes gregos, romenos ou cipriotas.

Na origem do problema está a teimosia da UE em querer aplicar, sem nenhuma adaptação, as regras de livre circulação de trabalhadores no espaço europeu, como se não entendessem que uma competição europeia de clubes, com quotas de acesso por país, implica um mínimo de correspondência entre a filiação nacional de um clube e a composição da sua equipa. Por este andar, qualquer dia, poderemos ver um Corinthians ou um River Plate a domicilarem-se em Moscovo ou em Lisboa e disputarem os nossos campeonatos e a Liga dos Campeões Europeus.


2- Entretanto, parece que há um problema de adaptação do «Circo Ronaldo» às novas regras do marketing impostas pela sua recente filiação a Madrid. Los Angeles e Paris Hilton não ajudam muito a vender um milhão de camisolas em Espanha. Ele vai ter de passar férias em Palma de Maiorca ou Ibiza e arranjar aqueles instantâneos namoros de Verão (planeados ao detalhe pelo seu marketing de apoio) com vedetas da TV ou da canção espanhola. É só uma questão de mudar a agulha.


3- Cissokho é o primeiro grande negócio de Verão dos nossos clubes e, como não podia deixar de ser, feito pelo F.C.Porto. Este nem chegou a aquecer o lugar: chegou em Janeiro, parte em Julho. E tantos anos que o FC Porto esperou para ter um lateral-esquerdo digno do lugar e da função!

O negócio é, sem dúvida, das arábias: custou 300.000 euros, sai por 15 milhões. E tudo seria inatacável, se não subsistisse uma dúvida sobre quanto é que o F.C.Porto detinha do seu passe. Sabe-se que os 300.000 euros foi o que os azuis pagaram à partida por 60% do passe, comprado ao Vitória de Setúbal, e que o resto ficou nas mãos de uma empresa detida pelo empresário António Araújo - personagem não muito clara, do círculo íntimo de Pinto da Costa. Consta agora que, entretanto, o F.C.Porto terá comprado mais 20 ou 30% do passe ao Sr. António Araújo - mas não se sabe por quanto nem se isso aconteceu, de facto. O que não se percebe também é a razão pela qual, a um preço tão barato, o F.C.Porto não gastou logo mais 200.000 euros para ficar com a totalidade do passe. Hoje, o lucro da revenda seria todo seu, sem ter de dividir não se sabe quanto com mais alguém. Alguém que teve a grande sorte de ter o seu produto exposto na montra da Liga dos Campeões, à boleia da camisola do F.C.Porto.

Na rampa de saída estão agora Bruno Alves e Lisandro. Ambos serão perdas imensas na equipa, mas, como todos os anos sucede, é preciso vender os anéis para poder pagar os prejuízos crónicos da gestão corrente - tornados inevitáveis pela existência de uma folha de pagamentos que tem mais de 70 jogadores seniores a receberem ordenado do clube, dos quais 44 emprestados!

Na calha para substituir Bruno Alves está Nuno André Coelho que, ou muito me engano, ou rapidamente atingirá o estatuto dos grandes centrais que o F.C.Porto produz, como epidemia saudável, há vinte anos. Já Lisandro López vai ser bem mais difícil de substituir. Jogadores como ele custam… o mesmo que ele. E os que são baratos, ninguém pode garantir que consigam produzir metade do que ele produz ao fim de dois anos de aprendizagem.

Mas, para quem ainda pudesse ter dúvidas sobre a conveniência de continuar a contar com Jesualdo Ferreira para o futuro, aqui fica mais uma resposta. Não são apenas os três campeonatos consecutivos, as três fases de eliminatórias da Champions e uma Taça de Portugal que ele acumulou em três anos. É a capacidade notável que ele tem demonstrado de transformar jogadores que pareciam sem grande margem de progressão em estrelas cobiçadas pelos tubarões. Bruno Alves e Lisandro López são os casos mais notáveis. Mas também o são Cissokho, Fernando, Raul Meireles.

É certo que nem tudo são sucessos e por isso é que não vemos ninguém a cobiçar o Farías, o Mariano González ou o Freddy Guarin. Mas basta acertar duas apostas por ano para deixar a administração da SAD do clube tranquila. Imagine-se o que não seria o pânico se o F.C.Porto chegasse ao fim da época e não conseguisse fazer um grande negócio de Verão?


4- Não foi um grande negócio, mas foi uma grande e esperada golpada: a de Luís Filipe Viera, ao antecipar eleições para Julho, para poder ser reeleito sem problemas e sem riscos. E diz ele que não está agarrado ao poder! Que fará se estivesse!

domingo, junho 07, 2009

DESPEDIDAS (26 MAIO 2009)

1- Paolo Maldini despediu-se de San Siro, e para a semana despede-se do futebol, depois de 24 anos de carreira no seu clube de sempre: o Milan. Abandona como titular da equipa que serviu durante quase um quarto de século e a um mês de fazer 41 anos de idade - o que, uma vez mais, deveria ser objecto de reflexão de toda a gente ligada profissionalmente ao futebol, para tentarem entender a razão pela qual as carreiras de jogador em Itália são tão notavelmente longas. É simplesmente brilhante que um jogador que já ganhou sete títulos de campeão de Itália, cinco de campeão europeu e três de campeão mundial de clubes, que foi o mais internacional de sempre da squadra azzurra (pela qual disputou 126 jogos e duas finais do Mundial), acabe ainda como titular num dos maiores clubes europeus, à beira dos 41 anos de idade!

Mas, para além de todos os seus registos, Paolo Maldini foi também um jogador brilhante - brilhante de raça, de técnica, de inteligência de jogo. Com ele nasceu verdadeiramente o conceito do lateral ofensivo, varrendo todo um flanco e que ainda conseguiu reconverter-se em central. A acrescentar a tudo isso, possui três qualidades que fazem toda a diferença: estilo, personalidade e cultura. Ah, e essa coisa que já não se usa e que faz o infortúnio dos «empresários» de jogadores: o amor à camisola - sempre a mesma.


2- Por cá, fizeram-se as despedidas de mais uma época. Uma época cinzenta e desinteressante, com mau futebol como regra geral, má prestação europeia dos clubes portugueses como regra também geral, embora com excepções, e a vergonha dos salários em atraso. Houve, como é habitual, festas e dramas, na hora da despedida.

Na segunda festa do título no Dragão, o que mais me chamou a atenção foi uma coisa um bocado indefinível e que talvez seja necessário ser adepto do clube para o entender: há, no povo azul-e-branco, uma cultura de vitória entranhada, que não há em mais lado nenhum. Não é feita de arrogância nem de falsa humildade, mas de um orgulho tranquilo, que é o resultado do contrato estabelecido tacitamente entre um público fiel mas exigente e uma equipa profissional a sério, desde o roupeiro ao presidente. Isso não existe em qualquer outro clube português, e é por isso que só nos sabemos porque ganhamos tão mais que os outros. E, enquanto eles (em boa verdade, cada vez menos), se entretêm a gritar que foi batota, nós agradecemos que assim continuem a pensar. Porque, enquanto o fizerem, jamais acharão o caminho para a vitória.

Num jogo profundamente aborrecido, Jesualdo Ferreira achou que podia caçar leões com fisga. Chega a ser comovente a insistência dele em tentar convencer-se que jogadores como o Mariano ou o Farías podem assegurar as despesas do ataque portista e ganhar jogos. Agora, que toda a gente elogia Jesualdo, eu - que sempre o defendi desde o primeiro dia - estou muito à vontade para destoar neste ponto: penso que ele é um treinador que protege as suas escolhas pessoais até ao limite, mas para o qual, em contrapartida, quem não está no seu grupo eleito, não tem uma hipótese. E uma das coisas que ele sempre preteriu aos seus eleitos foi a aposta nos jovens jogadores. Por isso é que, esta época, o Candeias e o Rabiola não tiveram uma verdadeira oportunidade, embora tenham mostrado o suficiente para se perceber que qualquer deles é bem melhor que um Mariano ou um Farías. Por isso é que foram enxotados como extra-numerários jovens como o Ibson, o Vieirinha, o Leandro Lima, o Hélder Barbosa, embora qualquer pessoa veja facilmente que qualquer deles é bem melhor e com bem maior margem de melhoria que um Guarín ou um Tomás Costa.

Enfim, foi pena mais uma aposta na pólvora seca, porque podia-se ter terminado o campeonato e feito a festa com uma vitória fácil frente a uma equipa que nunca mostrou merecer empatar o jogo.


3- O Belenenses lá foi para a segunda divisão, porque não há milagres quando não se sabe gerir e se usa os clubes apenas como plataforma de promoção social ou mediática. Agora, os novos dirigentes azuis esperam ser repescados, se o Estrela da Amadora, o Leixões ou o Setúbal não conseguirem pagar numa semana o que devem aos jogadores, ao fisco e à segurança social - e se eles o conseguirem… É o roto que espera que o nu morra de frio primeiro do que ele.

E o Boavista lá foi para a terceira divisão (segunda, em linguagem politicamente correcta), prosseguindo a descida descontrolada de uma ladeira que não se sabe onde terminará. O estádio do Bessa na terceira divisão - eis o nosso retrato! E, como castigo póstumo do major, o Boavista desce aos infernos na companhia do Gondomar, a outra menina dos olhos de Valentim Loureiro.

Em contrapartida, o União de Leiria, campeão crónico do menor número de espectadores no estádio quando ainda há pouco estava na primeira divisão, já está de regresso. Um regresso que augura mais do mesmo: falta de público, falta de sustentabilidade económica, incapacidade de sobrevivência financeira sem o apoio crónico da autarquia. As imagens da festa da subida do União, em Aveiro, eram, aliás, eloquentes. Uns duzentos ou trezentos corajosos adeptos faziam a festa no relvado, enquanto em fundo se viam as bancadas do Estádio de Aveiro (um dos seis novos estádios feitos para o Euro-2004) absolutamente desertas e a tentar disfarçar o non sense de tudo aquilo graças às pinturas «trompe l'oeil» que o arq.º Tomás Taveira muito avisadamente inventou para ali e para Alvalade, para Coimbra, para Faro. Se desportivamente, a recuperação do União em direcção à subida foi uma notável proeza com a assinatura de Manuel Fernandes, o sentido útil disso pode ser bem ilustrado pela cena cómica do próprio treinador da vitória: assim que o árbitro apitou para o fim do jogo, ele lançou-se a correr pelo campo, mas, ao fim de meia-dúzia de passos, parou, agachado e com um esgar de dor, com uma ruptura muscular. Pareceu premonitório.


4- Bonita, sim, foi a despedida de Quique Flores da Luz. Acho que nunca saberemos verdadeiramente se foi ele ou não o principal culpado da época decepcionante do Benfica. Sabemos, claro, que era o bode expiatório mais à mão. Não discuto se Rui Costa e Luís Filipe Vieira tinham ou não justificadas razões para mais uma vez levarem o Benfica a desfazer-se do treinador, ao fim de uma simples época de experiência. Mas sei que o fizeram de uma forma muito pouco digna e que talvez explique em parte porque nada corre bem há tanto tempo naquela casa. Ao invés, Quique despediu-se como um senhor, que sempre mostrou ser, nesta sua brevíssima passagem pelo futebol português. As esperanças estão agora colocadas em Jorge Jesus, que pode ser muito melhor treinador do que Quique ou ter mais sorte, logo se verá. Mas uma coisa há onde Jesus não chega aos calcanhares do espanhol: em atitude e elegância na forma de estar, junto à linha e fora dela.