1- Não me venham cá com o mercado e as suas durae lex, sed lex: o valor da transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid é um escândalo e, quanto à suposta verdade inelutável do mercado, aí está a maior crise económica planetária dos últimos oitenta anos para mostrar como o mercado pode ser desregulado pelo excesso de ambição e falta de regras.
Como Ronaldo é português, fatalmente vem ao de cima o espírito nacionalista, a que eu chamo saloio, e que nos impede de ver as coisas como as veríamos se fosse um jogador estrangeiro. Nenhum jogador de futebol vale 94 milhões de euros. Nenhum. O que o Real Madrid fez, numa semana em que gastou 160 milhões de euros a comprar Káká e Ronaldo, é não apenas indecoroso face aos valores em si, como é também insustentável, financeira e desportivamente. Há anos atrás, quando se lançou na política de aquisição dos «galácticos», que lhe valeu a presidência do Real, Florentino Perez financiou-a através da venda do património imobiliário do clube, no centro da cidade, e numa daquelas manobras em compadrio com a autarquia local, que tão bem conhecemos também por cá. Mas, agora, que esse património já não existe, como vai Florentino Pérez financiar estas compras, que elevam para 500 milhões de euros o endividamento do Real Madrid? É verdade que os direitos televisivos em Espanha são astronómicos (até ver…) e que o merchandising resultante da venda dos direitos de imagem dos jogadores pode atingir montantes fabulosos. Mas isso não chega. Pode ser até, como ele disse, que, dentro de um ano, haja um milhão de espanhóis com a camisola de Ronaldo, comprada nas lojas do clube: continua a não chegar - são, no máximo, 30 milhões de euros. Por isso, a pergunta que todos fazem em Espanha é como é que o Real Madrid vai conseguir amortizar estas loucuras do seu presidente e, pior ainda, o que sucederá se não conseguir?
Desportivamente, toda a gente percebe facilmente que, com negócios destes, a concorrência fica mais do que distorcida, fica falseada. E não são as lágrimas de crocodilo do Sr. Platini que impedem que tal seja verdade. Há uma dúzia de clubes europeus que disputam a Liga dos Campeões cronicamente e em condições que, à partida, lhes dão toda a vantagem. Há muito que deixaram de ser clubes nacionais, para se transformarem em multinacionais, detidos por princípes árabes sem saber o que fazer ao dinheiro, especuladores da bolsa americana, senhores das mafias do leste europeu ou grandes construtores civis, como Florentino Pérez. No extremo limite desta condição, temos o Liverpool, que disputou os quartos-finais da Champions este ano, com um treinador espanhol e sem um único jogador inglês como titular. Quem pode dizer ainda que se trata de um clube inglês e que representa o futebol das Ilhas? E temos - num patamar abaixo, na condição simultânea de compradores e vendedores - os grandes clubes portugueses: compram jovens esperanças brasileiras e sul-americanas para as revender mais tarde e bem mais caro, enquanto desprezam as jovens esperanças portuguesas, condenadas a expatriar-se para um terceiro patamar, o dos clubes gregos, romenos ou cipriotas.
Na origem do problema está a teimosia da UE em querer aplicar, sem nenhuma adaptação, as regras de livre circulação de trabalhadores no espaço europeu, como se não entendessem que uma competição europeia de clubes, com quotas de acesso por país, implica um mínimo de correspondência entre a filiação nacional de um clube e a composição da sua equipa. Por este andar, qualquer dia, poderemos ver um Corinthians ou um River Plate a domicilarem-se em Moscovo ou em Lisboa e disputarem os nossos campeonatos e a Liga dos Campeões Europeus.
2- Entretanto, parece que há um problema de adaptação do «Circo Ronaldo» às novas regras do marketing impostas pela sua recente filiação a Madrid. Los Angeles e Paris Hilton não ajudam muito a vender um milhão de camisolas em Espanha. Ele vai ter de passar férias em Palma de Maiorca ou Ibiza e arranjar aqueles instantâneos namoros de Verão (planeados ao detalhe pelo seu marketing de apoio) com vedetas da TV ou da canção espanhola. É só uma questão de mudar a agulha.
3- Cissokho é o primeiro grande negócio de Verão dos nossos clubes e, como não podia deixar de ser, feito pelo F.C.Porto. Este nem chegou a aquecer o lugar: chegou em Janeiro, parte em Julho. E tantos anos que o FC Porto esperou para ter um lateral-esquerdo digno do lugar e da função!
O negócio é, sem dúvida, das arábias: custou 300.000 euros, sai por 15 milhões. E tudo seria inatacável, se não subsistisse uma dúvida sobre quanto é que o F.C.Porto detinha do seu passe. Sabe-se que os 300.000 euros foi o que os azuis pagaram à partida por 60% do passe, comprado ao Vitória de Setúbal, e que o resto ficou nas mãos de uma empresa detida pelo empresário António Araújo - personagem não muito clara, do círculo íntimo de Pinto da Costa. Consta agora que, entretanto, o F.C.Porto terá comprado mais 20 ou 30% do passe ao Sr. António Araújo - mas não se sabe por quanto nem se isso aconteceu, de facto. O que não se percebe também é a razão pela qual, a um preço tão barato, o F.C.Porto não gastou logo mais 200.000 euros para ficar com a totalidade do passe. Hoje, o lucro da revenda seria todo seu, sem ter de dividir não se sabe quanto com mais alguém. Alguém que teve a grande sorte de ter o seu produto exposto na montra da Liga dos Campeões, à boleia da camisola do F.C.Porto.
Na rampa de saída estão agora Bruno Alves e Lisandro. Ambos serão perdas imensas na equipa, mas, como todos os anos sucede, é preciso vender os anéis para poder pagar os prejuízos crónicos da gestão corrente - tornados inevitáveis pela existência de uma folha de pagamentos que tem mais de 70 jogadores seniores a receberem ordenado do clube, dos quais 44 emprestados!
Na calha para substituir Bruno Alves está Nuno André Coelho que, ou muito me engano, ou rapidamente atingirá o estatuto dos grandes centrais que o F.C.Porto produz, como epidemia saudável, há vinte anos. Já Lisandro López vai ser bem mais difícil de substituir. Jogadores como ele custam… o mesmo que ele. E os que são baratos, ninguém pode garantir que consigam produzir metade do que ele produz ao fim de dois anos de aprendizagem.
Mas, para quem ainda pudesse ter dúvidas sobre a conveniência de continuar a contar com Jesualdo Ferreira para o futuro, aqui fica mais uma resposta. Não são apenas os três campeonatos consecutivos, as três fases de eliminatórias da Champions e uma Taça de Portugal que ele acumulou em três anos. É a capacidade notável que ele tem demonstrado de transformar jogadores que pareciam sem grande margem de progressão em estrelas cobiçadas pelos tubarões. Bruno Alves e Lisandro López são os casos mais notáveis. Mas também o são Cissokho, Fernando, Raul Meireles.
É certo que nem tudo são sucessos e por isso é que não vemos ninguém a cobiçar o Farías, o Mariano González ou o Freddy Guarin. Mas basta acertar duas apostas por ano para deixar a administração da SAD do clube tranquila. Imagine-se o que não seria o pânico se o F.C.Porto chegasse ao fim da época e não conseguisse fazer um grande negócio de Verão?
4- Não foi um grande negócio, mas foi uma grande e esperada golpada: a de Luís Filipe Viera, ao antecipar eleições para Julho, para poder ser reeleito sem problemas e sem riscos. E diz ele que não está agarrado ao poder! Que fará se estivesse!
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quarta-feira, junho 24, 2009
quarta-feira, junho 17, 2009
domingo, junho 07, 2009
DESPEDIDAS (26 MAIO 2009)
1- Paolo Maldini despediu-se de San Siro, e para a semana despede-se do futebol, depois de 24 anos de carreira no seu clube de sempre: o Milan. Abandona como titular da equipa que serviu durante quase um quarto de século e a um mês de fazer 41 anos de idade - o que, uma vez mais, deveria ser objecto de reflexão de toda a gente ligada profissionalmente ao futebol, para tentarem entender a razão pela qual as carreiras de jogador em Itália são tão notavelmente longas. É simplesmente brilhante que um jogador que já ganhou sete títulos de campeão de Itália, cinco de campeão europeu e três de campeão mundial de clubes, que foi o mais internacional de sempre da squadra azzurra (pela qual disputou 126 jogos e duas finais do Mundial), acabe ainda como titular num dos maiores clubes europeus, à beira dos 41 anos de idade!
Mas, para além de todos os seus registos, Paolo Maldini foi também um jogador brilhante - brilhante de raça, de técnica, de inteligência de jogo. Com ele nasceu verdadeiramente o conceito do lateral ofensivo, varrendo todo um flanco e que ainda conseguiu reconverter-se em central. A acrescentar a tudo isso, possui três qualidades que fazem toda a diferença: estilo, personalidade e cultura. Ah, e essa coisa que já não se usa e que faz o infortúnio dos «empresários» de jogadores: o amor à camisola - sempre a mesma.
2- Por cá, fizeram-se as despedidas de mais uma época. Uma época cinzenta e desinteressante, com mau futebol como regra geral, má prestação europeia dos clubes portugueses como regra também geral, embora com excepções, e a vergonha dos salários em atraso. Houve, como é habitual, festas e dramas, na hora da despedida.
Na segunda festa do título no Dragão, o que mais me chamou a atenção foi uma coisa um bocado indefinível e que talvez seja necessário ser adepto do clube para o entender: há, no povo azul-e-branco, uma cultura de vitória entranhada, que não há em mais lado nenhum. Não é feita de arrogância nem de falsa humildade, mas de um orgulho tranquilo, que é o resultado do contrato estabelecido tacitamente entre um público fiel mas exigente e uma equipa profissional a sério, desde o roupeiro ao presidente. Isso não existe em qualquer outro clube português, e é por isso que só nos sabemos porque ganhamos tão mais que os outros. E, enquanto eles (em boa verdade, cada vez menos), se entretêm a gritar que foi batota, nós agradecemos que assim continuem a pensar. Porque, enquanto o fizerem, jamais acharão o caminho para a vitória.
Num jogo profundamente aborrecido, Jesualdo Ferreira achou que podia caçar leões com fisga. Chega a ser comovente a insistência dele em tentar convencer-se que jogadores como o Mariano ou o Farías podem assegurar as despesas do ataque portista e ganhar jogos. Agora, que toda a gente elogia Jesualdo, eu - que sempre o defendi desde o primeiro dia - estou muito à vontade para destoar neste ponto: penso que ele é um treinador que protege as suas escolhas pessoais até ao limite, mas para o qual, em contrapartida, quem não está no seu grupo eleito, não tem uma hipótese. E uma das coisas que ele sempre preteriu aos seus eleitos foi a aposta nos jovens jogadores. Por isso é que, esta época, o Candeias e o Rabiola não tiveram uma verdadeira oportunidade, embora tenham mostrado o suficiente para se perceber que qualquer deles é bem melhor que um Mariano ou um Farías. Por isso é que foram enxotados como extra-numerários jovens como o Ibson, o Vieirinha, o Leandro Lima, o Hélder Barbosa, embora qualquer pessoa veja facilmente que qualquer deles é bem melhor e com bem maior margem de melhoria que um Guarín ou um Tomás Costa.
Enfim, foi pena mais uma aposta na pólvora seca, porque podia-se ter terminado o campeonato e feito a festa com uma vitória fácil frente a uma equipa que nunca mostrou merecer empatar o jogo.
3- O Belenenses lá foi para a segunda divisão, porque não há milagres quando não se sabe gerir e se usa os clubes apenas como plataforma de promoção social ou mediática. Agora, os novos dirigentes azuis esperam ser repescados, se o Estrela da Amadora, o Leixões ou o Setúbal não conseguirem pagar numa semana o que devem aos jogadores, ao fisco e à segurança social - e se eles o conseguirem… É o roto que espera que o nu morra de frio primeiro do que ele.
E o Boavista lá foi para a terceira divisão (segunda, em linguagem politicamente correcta), prosseguindo a descida descontrolada de uma ladeira que não se sabe onde terminará. O estádio do Bessa na terceira divisão - eis o nosso retrato! E, como castigo póstumo do major, o Boavista desce aos infernos na companhia do Gondomar, a outra menina dos olhos de Valentim Loureiro.
Em contrapartida, o União de Leiria, campeão crónico do menor número de espectadores no estádio quando ainda há pouco estava na primeira divisão, já está de regresso. Um regresso que augura mais do mesmo: falta de público, falta de sustentabilidade económica, incapacidade de sobrevivência financeira sem o apoio crónico da autarquia. As imagens da festa da subida do União, em Aveiro, eram, aliás, eloquentes. Uns duzentos ou trezentos corajosos adeptos faziam a festa no relvado, enquanto em fundo se viam as bancadas do Estádio de Aveiro (um dos seis novos estádios feitos para o Euro-2004) absolutamente desertas e a tentar disfarçar o non sense de tudo aquilo graças às pinturas «trompe l'oeil» que o arq.º Tomás Taveira muito avisadamente inventou para ali e para Alvalade, para Coimbra, para Faro. Se desportivamente, a recuperação do União em direcção à subida foi uma notável proeza com a assinatura de Manuel Fernandes, o sentido útil disso pode ser bem ilustrado pela cena cómica do próprio treinador da vitória: assim que o árbitro apitou para o fim do jogo, ele lançou-se a correr pelo campo, mas, ao fim de meia-dúzia de passos, parou, agachado e com um esgar de dor, com uma ruptura muscular. Pareceu premonitório.
4- Bonita, sim, foi a despedida de Quique Flores da Luz. Acho que nunca saberemos verdadeiramente se foi ele ou não o principal culpado da época decepcionante do Benfica. Sabemos, claro, que era o bode expiatório mais à mão. Não discuto se Rui Costa e Luís Filipe Vieira tinham ou não justificadas razões para mais uma vez levarem o Benfica a desfazer-se do treinador, ao fim de uma simples época de experiência. Mas sei que o fizeram de uma forma muito pouco digna e que talvez explique em parte porque nada corre bem há tanto tempo naquela casa. Ao invés, Quique despediu-se como um senhor, que sempre mostrou ser, nesta sua brevíssima passagem pelo futebol português. As esperanças estão agora colocadas em Jorge Jesus, que pode ser muito melhor treinador do que Quique ou ter mais sorte, logo se verá. Mas uma coisa há onde Jesus não chega aos calcanhares do espanhol: em atitude e elegância na forma de estar, junto à linha e fora dela.
Mas, para além de todos os seus registos, Paolo Maldini foi também um jogador brilhante - brilhante de raça, de técnica, de inteligência de jogo. Com ele nasceu verdadeiramente o conceito do lateral ofensivo, varrendo todo um flanco e que ainda conseguiu reconverter-se em central. A acrescentar a tudo isso, possui três qualidades que fazem toda a diferença: estilo, personalidade e cultura. Ah, e essa coisa que já não se usa e que faz o infortúnio dos «empresários» de jogadores: o amor à camisola - sempre a mesma.
2- Por cá, fizeram-se as despedidas de mais uma época. Uma época cinzenta e desinteressante, com mau futebol como regra geral, má prestação europeia dos clubes portugueses como regra também geral, embora com excepções, e a vergonha dos salários em atraso. Houve, como é habitual, festas e dramas, na hora da despedida.
Na segunda festa do título no Dragão, o que mais me chamou a atenção foi uma coisa um bocado indefinível e que talvez seja necessário ser adepto do clube para o entender: há, no povo azul-e-branco, uma cultura de vitória entranhada, que não há em mais lado nenhum. Não é feita de arrogância nem de falsa humildade, mas de um orgulho tranquilo, que é o resultado do contrato estabelecido tacitamente entre um público fiel mas exigente e uma equipa profissional a sério, desde o roupeiro ao presidente. Isso não existe em qualquer outro clube português, e é por isso que só nos sabemos porque ganhamos tão mais que os outros. E, enquanto eles (em boa verdade, cada vez menos), se entretêm a gritar que foi batota, nós agradecemos que assim continuem a pensar. Porque, enquanto o fizerem, jamais acharão o caminho para a vitória.
Num jogo profundamente aborrecido, Jesualdo Ferreira achou que podia caçar leões com fisga. Chega a ser comovente a insistência dele em tentar convencer-se que jogadores como o Mariano ou o Farías podem assegurar as despesas do ataque portista e ganhar jogos. Agora, que toda a gente elogia Jesualdo, eu - que sempre o defendi desde o primeiro dia - estou muito à vontade para destoar neste ponto: penso que ele é um treinador que protege as suas escolhas pessoais até ao limite, mas para o qual, em contrapartida, quem não está no seu grupo eleito, não tem uma hipótese. E uma das coisas que ele sempre preteriu aos seus eleitos foi a aposta nos jovens jogadores. Por isso é que, esta época, o Candeias e o Rabiola não tiveram uma verdadeira oportunidade, embora tenham mostrado o suficiente para se perceber que qualquer deles é bem melhor que um Mariano ou um Farías. Por isso é que foram enxotados como extra-numerários jovens como o Ibson, o Vieirinha, o Leandro Lima, o Hélder Barbosa, embora qualquer pessoa veja facilmente que qualquer deles é bem melhor e com bem maior margem de melhoria que um Guarín ou um Tomás Costa.
Enfim, foi pena mais uma aposta na pólvora seca, porque podia-se ter terminado o campeonato e feito a festa com uma vitória fácil frente a uma equipa que nunca mostrou merecer empatar o jogo.
3- O Belenenses lá foi para a segunda divisão, porque não há milagres quando não se sabe gerir e se usa os clubes apenas como plataforma de promoção social ou mediática. Agora, os novos dirigentes azuis esperam ser repescados, se o Estrela da Amadora, o Leixões ou o Setúbal não conseguirem pagar numa semana o que devem aos jogadores, ao fisco e à segurança social - e se eles o conseguirem… É o roto que espera que o nu morra de frio primeiro do que ele.
E o Boavista lá foi para a terceira divisão (segunda, em linguagem politicamente correcta), prosseguindo a descida descontrolada de uma ladeira que não se sabe onde terminará. O estádio do Bessa na terceira divisão - eis o nosso retrato! E, como castigo póstumo do major, o Boavista desce aos infernos na companhia do Gondomar, a outra menina dos olhos de Valentim Loureiro.
Em contrapartida, o União de Leiria, campeão crónico do menor número de espectadores no estádio quando ainda há pouco estava na primeira divisão, já está de regresso. Um regresso que augura mais do mesmo: falta de público, falta de sustentabilidade económica, incapacidade de sobrevivência financeira sem o apoio crónico da autarquia. As imagens da festa da subida do União, em Aveiro, eram, aliás, eloquentes. Uns duzentos ou trezentos corajosos adeptos faziam a festa no relvado, enquanto em fundo se viam as bancadas do Estádio de Aveiro (um dos seis novos estádios feitos para o Euro-2004) absolutamente desertas e a tentar disfarçar o non sense de tudo aquilo graças às pinturas «trompe l'oeil» que o arq.º Tomás Taveira muito avisadamente inventou para ali e para Alvalade, para Coimbra, para Faro. Se desportivamente, a recuperação do União em direcção à subida foi uma notável proeza com a assinatura de Manuel Fernandes, o sentido útil disso pode ser bem ilustrado pela cena cómica do próprio treinador da vitória: assim que o árbitro apitou para o fim do jogo, ele lançou-se a correr pelo campo, mas, ao fim de meia-dúzia de passos, parou, agachado e com um esgar de dor, com uma ruptura muscular. Pareceu premonitório.
4- Bonita, sim, foi a despedida de Quique Flores da Luz. Acho que nunca saberemos verdadeiramente se foi ele ou não o principal culpado da época decepcionante do Benfica. Sabemos, claro, que era o bode expiatório mais à mão. Não discuto se Rui Costa e Luís Filipe Vieira tinham ou não justificadas razões para mais uma vez levarem o Benfica a desfazer-se do treinador, ao fim de uma simples época de experiência. Mas sei que o fizeram de uma forma muito pouco digna e que talvez explique em parte porque nada corre bem há tanto tempo naquela casa. Ao invés, Quique despediu-se como um senhor, que sempre mostrou ser, nesta sua brevíssima passagem pelo futebol português. As esperanças estão agora colocadas em Jorge Jesus, que pode ser muito melhor treinador do que Quique ou ter mais sorte, logo se verá. Mas uma coisa há onde Jesus não chega aos calcanhares do espanhol: em atitude e elegância na forma de estar, junto à linha e fora dela.
quarta-feira, maio 27, 2009
FIM DE FESTA (19 MAIO 2009)
1- A uma jornada do fim, já só está por decidir quem desce à Liga Vitalis de um quarteto composto por Rio Ave, Vitória de Setúbal, Belenenses e Trofense. Destes, o Rio Ave é quem tem a tarefa mais facilitada, com 27 pontos e o último jogo em casa contra o Estrela da Amadora. Os outros três vão lutar para escapar aos dois lugares da despromoção - que o Vitória podia já ter evitado, se não tivesse perdido em casa com o Leixões: agora terá, ou de ganhar na Figueira da Foz, ou de esperar que o Belenenses não cometa a proeza de vencer na Luz. Quanto ao Trofense, só um milagre de conjugação de resultados poderá fazer com que a sua subida ao mundo dos grandes tenha sido tão histórica quanto curta. Porque, como era de prever, o F.C.Porto não descansou já com o título na mão e passeou na Trofa, sem facilitar coisa alguma, como alias é tradição da casa.
Decidido, sim, é o regresso do velhinho Olhanense à primeira divisão - uma proeza assinada por Jorge Costa, treinador em início de carreira, e que tem o imenso valor de trazer de volta o Algarve ao primeiro escalão do futebol português, fazendo o campeonato verdadeiramente mais nacional. Será desta que vamos ver o Estádio Algarve ter alguma utilidade prática para justificar o dinheiro dos contribuintes lá enterrados, ou a equipe de Olhão vai preferir continuar a jogar no seu modesto estádio? Quando vejo o presidente da Académica falar na hipotética construção de um novo estádio em Coimbra, já não digo nada…
2- Lá por fora, Mourinho cumpriu mais uma promessa e conseguiu a assinalável marca curricular de já ter sido campeão em três países: aposto que não descansará enquanto não o for também em Espanha. Posso achar que o futebol das equipas de Mourinho - Chelsea e Inter - é chato e previsível, mas lá que ele tem o toque de Midas, isso é indiscutível. Mourinho veio ao mundo para vencer e o resto é filosofia. Agora, a verdade é que nunca mais vi uma equipa de Mourinho jogar futebol como jogava aquela equipa do F.C.Porto que venceu a Taça UEFA na inesquecível final de Sevilha.
3- Grave, grave são as revelações da edição de ontem do Correio da Manhã, baseadas no acesso a um relatório policial que desvenda as relações perigosas entre o presidente do Benfica e os dirigentes da claque No Name Boys - muitos dos quais largamente referenciados no mundo do crime e da marginalidade. O que ali vem é suficientemente detalhado e alarmante para que tudo fique em águas de bacalhau, tanto mais que já era sabido que, ao contrário de Sporting e F.C.Porto, o Benfica consente e colabora com claques que se recusam a cumprir a lei - nomeadamente no registo e identificação dos seus dirigentes.
O problema das claques organizadas, não é um problema clubístico, mas um problema do futebol, como um todo, e um problema da sociedade. É inútil a discussão de quem tem as piores claques, porque todas elas são potencialmente perigosas, aqui e em toda a parte. Mas a necessidade de ter as claques no estádio, a apoiar a equipa, tem levado os nossos clubes a assobiar para o ar, deixando para a polícia a resolução dos problemas mais graves que elas colocam. E, a meu ver, isso é um erro: ir ao futebol, hoje em dia, é, muitas vezes, uma actividade de risco. E, se as coisas fogem de controle, se os clubes não conseguem garantir nos seus estádios a segurança de quem paga bilhete para ver um espectáculo, qualquer dia só restarão mesmo as claques. Não seria tempo de a Liga de Clubes tentar, aqui também, impor regras suficientemente claras e consensuais? Ou haverá quem não queira o consenso? E porquê?
4- E, pronto, está aberta a terceira época de competição, a nível do futebol. Aquela que, diz-se, mais jornais desportivos vende: a época do «defeso» e das transferências. Como se sabe, é também, desde há uns vinte anos, invariavelmente, a época em que o Benfica é crónico campeão: até já os benfiquistas gozam com a situação. O problema é que este ano não há grande margem nem para gozar nem para falhar, depois do imenso investimento feito no Verão passado e com resultados tão pífios.
Mas há coisas que não há como escapar-lhes, são tradições daquela casa: todos os anos, por esta altura, os jornais desportivos enchem-se de parangonas sobre as extraordinárias aquisições do Benfica que aí vêm. E há duas espécies delas: as verdadeiras vedetas internacionais (que a direcção gosta de apresentar aos adeptos como conquistas muito prováveis, para manter os espíritos em alta) e cujo folhetim de vem-não-vem ocupa umas semanas até desaparecer subitamente assim que a coisa chega a esse infame detalhe de discutir o valor da compra e dos salários a pagar. E depois, há as vedetas desconhecidas ou esquecidas, tipo Freddy Adu, que, uma vez que se noticia a possibilidade de virem para o Benfica, logo se transformam em foras-de-série que a perspicácia do gabinete de prospecção do Benfica detectou, antecipando-se a gigantes como o Real Madrid ou o Arsenal. E logo se desata a recolher depoimentos de todos os que possam atestar a genialidade do craque que aí vem: colegas de equipa, o treinador dos infantis, o cunhado e a sogra, os vizinhos e antigos companheiros dos jogos da rua. Depois, faz-se a fotografia inescapável do novo ídolo (que nunca ninguém viu jogar) com a camisola do Glorioso e são-lhe propostas, à escolha, três alternativas de primeiras declarações: ou que está radiante por vir para um dos maiores clubes do mundo, cuja fama vai da Patagónia ao Círculo Polar Ártico; ou que é um imenso orgulho sentir aquela camisola ao peito; ou que, desde pequenino que se sente benfiquista. E assim atravessamos o Verão e a «silly season» futobolística, com a previsibilidade de alguma coisa tão certa quão certa é a morte.
5-- Se bem os contei, chegou a haver oito candidatos auto-declarados à presidência do Sporting, assim que, para alívio de todos eles, Filipe Soares Franco declarou que não se recandidatava e Ribeiro Teles manteve-se na sua recusa de avançar. Afastados os candidatos ganhadores, saltaram todos os outros, como coelhos da toca, com tantas ou tão poucas credenciais que chegou a parecer que o poder no clube do visconde de Alvalade iria mesmo cair a rua, à mercê do primeiro que passasse. Mas, agora que os «notáveis» deram homem por si, na pessoa de José Eduardo Bettencourt, os candidatos de ocasião começam a bater em retirada, porque ganhar eleições por falta de comparência de verdadeiros candidatos é uma coisa, ganhá-las em concorrência a sério é outra bem diferente. É assim provável que, no final do processo, não restem aos sportinguistas mais do que duas alternativas de escolha. Excepto para Dias da Cunha, que esse jurou que Soares Franco iria a votos e ainda está à espera de ter razão.
Decidido, sim, é o regresso do velhinho Olhanense à primeira divisão - uma proeza assinada por Jorge Costa, treinador em início de carreira, e que tem o imenso valor de trazer de volta o Algarve ao primeiro escalão do futebol português, fazendo o campeonato verdadeiramente mais nacional. Será desta que vamos ver o Estádio Algarve ter alguma utilidade prática para justificar o dinheiro dos contribuintes lá enterrados, ou a equipe de Olhão vai preferir continuar a jogar no seu modesto estádio? Quando vejo o presidente da Académica falar na hipotética construção de um novo estádio em Coimbra, já não digo nada…
2- Lá por fora, Mourinho cumpriu mais uma promessa e conseguiu a assinalável marca curricular de já ter sido campeão em três países: aposto que não descansará enquanto não o for também em Espanha. Posso achar que o futebol das equipas de Mourinho - Chelsea e Inter - é chato e previsível, mas lá que ele tem o toque de Midas, isso é indiscutível. Mourinho veio ao mundo para vencer e o resto é filosofia. Agora, a verdade é que nunca mais vi uma equipa de Mourinho jogar futebol como jogava aquela equipa do F.C.Porto que venceu a Taça UEFA na inesquecível final de Sevilha.
3- Grave, grave são as revelações da edição de ontem do Correio da Manhã, baseadas no acesso a um relatório policial que desvenda as relações perigosas entre o presidente do Benfica e os dirigentes da claque No Name Boys - muitos dos quais largamente referenciados no mundo do crime e da marginalidade. O que ali vem é suficientemente detalhado e alarmante para que tudo fique em águas de bacalhau, tanto mais que já era sabido que, ao contrário de Sporting e F.C.Porto, o Benfica consente e colabora com claques que se recusam a cumprir a lei - nomeadamente no registo e identificação dos seus dirigentes.
O problema das claques organizadas, não é um problema clubístico, mas um problema do futebol, como um todo, e um problema da sociedade. É inútil a discussão de quem tem as piores claques, porque todas elas são potencialmente perigosas, aqui e em toda a parte. Mas a necessidade de ter as claques no estádio, a apoiar a equipa, tem levado os nossos clubes a assobiar para o ar, deixando para a polícia a resolução dos problemas mais graves que elas colocam. E, a meu ver, isso é um erro: ir ao futebol, hoje em dia, é, muitas vezes, uma actividade de risco. E, se as coisas fogem de controle, se os clubes não conseguem garantir nos seus estádios a segurança de quem paga bilhete para ver um espectáculo, qualquer dia só restarão mesmo as claques. Não seria tempo de a Liga de Clubes tentar, aqui também, impor regras suficientemente claras e consensuais? Ou haverá quem não queira o consenso? E porquê?
4- E, pronto, está aberta a terceira época de competição, a nível do futebol. Aquela que, diz-se, mais jornais desportivos vende: a época do «defeso» e das transferências. Como se sabe, é também, desde há uns vinte anos, invariavelmente, a época em que o Benfica é crónico campeão: até já os benfiquistas gozam com a situação. O problema é que este ano não há grande margem nem para gozar nem para falhar, depois do imenso investimento feito no Verão passado e com resultados tão pífios.
Mas há coisas que não há como escapar-lhes, são tradições daquela casa: todos os anos, por esta altura, os jornais desportivos enchem-se de parangonas sobre as extraordinárias aquisições do Benfica que aí vêm. E há duas espécies delas: as verdadeiras vedetas internacionais (que a direcção gosta de apresentar aos adeptos como conquistas muito prováveis, para manter os espíritos em alta) e cujo folhetim de vem-não-vem ocupa umas semanas até desaparecer subitamente assim que a coisa chega a esse infame detalhe de discutir o valor da compra e dos salários a pagar. E depois, há as vedetas desconhecidas ou esquecidas, tipo Freddy Adu, que, uma vez que se noticia a possibilidade de virem para o Benfica, logo se transformam em foras-de-série que a perspicácia do gabinete de prospecção do Benfica detectou, antecipando-se a gigantes como o Real Madrid ou o Arsenal. E logo se desata a recolher depoimentos de todos os que possam atestar a genialidade do craque que aí vem: colegas de equipa, o treinador dos infantis, o cunhado e a sogra, os vizinhos e antigos companheiros dos jogos da rua. Depois, faz-se a fotografia inescapável do novo ídolo (que nunca ninguém viu jogar) com a camisola do Glorioso e são-lhe propostas, à escolha, três alternativas de primeiras declarações: ou que está radiante por vir para um dos maiores clubes do mundo, cuja fama vai da Patagónia ao Círculo Polar Ártico; ou que é um imenso orgulho sentir aquela camisola ao peito; ou que, desde pequenino que se sente benfiquista. E assim atravessamos o Verão e a «silly season» futobolística, com a previsibilidade de alguma coisa tão certa quão certa é a morte.
5-- Se bem os contei, chegou a haver oito candidatos auto-declarados à presidência do Sporting, assim que, para alívio de todos eles, Filipe Soares Franco declarou que não se recandidatava e Ribeiro Teles manteve-se na sua recusa de avançar. Afastados os candidatos ganhadores, saltaram todos os outros, como coelhos da toca, com tantas ou tão poucas credenciais que chegou a parecer que o poder no clube do visconde de Alvalade iria mesmo cair a rua, à mercê do primeiro que passasse. Mas, agora que os «notáveis» deram homem por si, na pessoa de José Eduardo Bettencourt, os candidatos de ocasião começam a bater em retirada, porque ganhar eleições por falta de comparência de verdadeiros candidatos é uma coisa, ganhá-las em concorrência a sério é outra bem diferente. É assim provável que, no final do processo, não restem aos sportinguistas mais do que duas alternativas de escolha. Excepto para Dias da Cunha, que esse jurou que Soares Franco iria a votos e ainda está à espera de ter razão.
segunda-feira, maio 18, 2009
11 CAMPEONATOS EM 15 ANOS (12 MAIO 2009)
1- E pronto, lá veio mais um tetra e agora o F.C.Porto já só está a sete títulos de campeão nacional do historial do Benfica e com seis de avanço sobre o Sporting. Coisa impensável há duas décadas, mas que confirma também internamente o estatuto ímpar, a nível internacional, que os portistas adquiriram e onde já têm larga vantagem sobre a história longínqua do Benfica. Nestes últimos 20 anos, o F.C.Porto foi campeão por 14 vezes e por 11 vezes nos últimos quinze: mudaram os treinadores, mudaram os jogadores, mudou o estádio, mudaram os heróis e símbolos do clube, mas o espírito de conquista manteve-se sempre inalterável. E, para felicidade nossa, os adversários directos, em lugar de tentar perceber as razões do êxito azul-e-branco e tentar imitá-las, preferem, à boa maneira portuguesa, gastar a sua argumentação a tentar denegrir o mérito das vitórias, atribuindo-as sempre a factores estranhos. Nestes quatro anos do tetra, a única vez que o Benfica conseguiu incomodar o F.C.Porto foi quando, com a preciosa colaboração do Ministério Público e do Conselho de Disciplina da Liga, e contando com a ignorância arrogante do Sr. Platini, por pouco afastava o F.C.Porto da Liga dos Campeões - na secretaria e em benefício próprio. Olhando a campanha europeia que um e outro fizeram esta época, é caso para dizer que, felizmente para o futebol português, a golpada não passou.
Um dos principais, senão o principal, obreiro deste título, como dos dois anteriores, foi, indiscutivelmente, Jesualdo Ferreira. Foi um treinador campeão em tudo: não apenas pôs a sua equipa a jogar o futebol mais competitivo e com ideias mais claras entre os três grandes, como foi também aquele que foi sempre mais sereno e com mais atitude de campeão. No discurso da vitória, Jesualdo voltou a ser lúcido e comedido, sem ponta de arrogância ou vaidade, a que muito poucos resistiriam no seu lugar. Mas, ao contrário do que ele disse, esta não foi a sua melhor equipa dos últimos três anos, e o seu grande mérito consistiu, exactamente, em ter conseguido manter a equipa no topo da competitividade, depois de uma primeira época em que perdeu trunfos tão importantes como Anderson e Pepe, e uma segunda época em que perdeu Ricardo Quaresma, Paulo Assunção e Bosingwa. Quaresma - responsável directo ou indirecto por metade dos golos da equipa na época passada - não foi, de forma alguma, substituído por Cristian Rodriguez e, menos ainda, é claro, pelo trapalhão do Mariano Gonzalez; Bosingwa eclipsava Fucile, sobretudo nesta temporada tão fraca do uruguaio; e Paulo Assunção só agora, que Fernando começa a mostrar melhorias na qualidade de passe, é que parece encontrar substituto à altura. Em contrapartida, Hulk foi a revelação do ano e Cissokho uma grande descoberta do professor (embora, ele, que ainda há quatro meses estava em Setúbal sem receber ordenado, assim que começou a brilhar no Dragão e a falar-se do interesse de clubes estrangeiros, nunca mais voltou a deslumbrar…).
Mas, como já n vezes o escrevi, onde esta equipa se revelou fraca foi no banco de suplentes. Jesualdo teve nove ou dez jogadores bons à disposição durante quase toda a época - e nem um só suplente à altura deles. Desdenhou de jogadores com provas dadas ou com promessas exibidas - Vieirinha, Léo Lima, Ibson, Luís Aguiar, Bruno Gama, Hélder Barbosa, Candeias, Pitbull - e construiu uma equipa só com dois médios ofensivos e um extremo de qualidade (Meireles, Lucho e Rodriguez, embora este irregularmente). Se, como diz Jesualdo e com razão, a equipa está manifestamente desgastada e presa por arames, é justamente porque o núcleo duro teve de chamar a si as despesas de uma época inteira. Ainda agora, no jogo do título, foi possível ver claramente como, para além do cansaço dos titulares habituais, a equipa teve ainda de se bater em inferioridade numérica contra a muito bem organizada equipa do Nacional, visto que, em termos práticos, foi como se jogasse com dez o jogo inteiro - porque tanto Tomás Costa, que jogou a primeira parte, como Farías, que o substituiu na segunda, produziram um jogo absolutamente nulo, conforme lhes é habitual e irreversível. Esse foi, pois, a meu ver, o grande mérito de Jesualdo Ferreira, em 2008/09: conseguir ser campeão, finalista da Taça e chegar aos quartos-de-final da Champions, quase a passar às meias, sem ninguém, absolutamente, capaz de render de vez em quando os nove ou dez jogadores com que ele contava sempre.
Se houver que escolher o jogador do título, para mim ele foi, indiscutivelmente, Bruno Alves. De há muito que venho chamando a atenção para ele, no meio de uma crítica doentiamente facciosa e clubística que insiste em ver em Bruno Alves apenas um caceteiro e um jogador supostamente desleal. Mas a verdade é que, como ainda anteontem se pôde observar contra o Nacional, ele é capaz de passar jogos inteiros sem cometer uma única falta - mesmo que pela frente tenha o melhor marcador do campeonato ou mesmo que tenha de enfrentar o Aguero ou o Forlán do Atlético de Madrid, ou o Tevez e o Rooney do MU. É hoje, em minha opinião, o segundo melhor jogador português, a seguir a Ronaldo, um dos melhores centrais da Europa e do Mundo, com um poder de impulsão que faz lembrar, para melhor, o Fernando Couto dos bons tempos. Corta sempre com calma e estilo, coloca bem a bola à distância, sai a jogar de cabeça erguida, entrega-se ao jogo como ninguém mais e ainda cobra livres e marca golos de cabeça. Neste campeonato, marcou até à data cinco golos, começando com o golo de livre em Alvalade, que foi o arranque para o título, e acabando com o golo de cabeça contra o Nacional, que confirmou o título. Em toda a época (em que não falhou um jogo europeu ou do campeonato), teve apenas um fatal deslize, e logo por azar em Manchester, oferecendo a Rooney um golo caído do céu. Mas, como é fácil de adivinhar, a SAD do F.C.Porto só tem que não se precipitar, na hora inevitável em que o vai vender no final da época, esperando tranquilamente sentada pela melhor oferta. Para mim, que me lembro da sua primeira e desastrada época ao serviço do clube, a evolução de Bruno Alves até se tornar um jogador de eleição é das coisas mais notáveis que vi nesse campo e, sem dúvida, um dos grandes méritos do trabalho de Jesualdo Ferreira. Se as pessoas gostassem verdadeiramente de futebol, podiam reconhecer isto, independentemente das simpatias clubísticas - assim como eu reconheço que não há ponta-de-lança como o Liedson no nosso campeonato, e há vários anos. Mas é certo e sabido que quando Bruno Alves estiver a jogar num dos grandes da Europa, já todos lhe irão reconhecer o estatuto.
2- O Boavista está à beira de cair na III divisão e, se isso acontecer, é o prenúncio do fim - com uma decisiva ajuda do CD da Liga, é verdade, mas também com culpas próprias por ter tido mais olhos que barriga. O Belenenses está também a um passo da segunda divisão e a queda pode também precipitar uma morte até hoje periclitantemente adiada. E serão dois campeões nacionais (dos cinco únicos que temos) a mergulhar nas profundezas de um abismo insondável. Talvez consiga ainda safar-se o histórico Vitória de Setúbal, mas também não vejo como é que poderá sobreviver a prazo um clube cuja única viabilidade económica depende de o governo lhe autorizar um negócio imobiliário ao pé do qual a aprovação do Freeport é perfeitamente banal. Valha-nos o também histórico Olhanense, que está quase à beira de regressar lá acima e voltar a pôr o Algarve no mapa do futebol português de I Divisão.
Um dos principais, senão o principal, obreiro deste título, como dos dois anteriores, foi, indiscutivelmente, Jesualdo Ferreira. Foi um treinador campeão em tudo: não apenas pôs a sua equipa a jogar o futebol mais competitivo e com ideias mais claras entre os três grandes, como foi também aquele que foi sempre mais sereno e com mais atitude de campeão. No discurso da vitória, Jesualdo voltou a ser lúcido e comedido, sem ponta de arrogância ou vaidade, a que muito poucos resistiriam no seu lugar. Mas, ao contrário do que ele disse, esta não foi a sua melhor equipa dos últimos três anos, e o seu grande mérito consistiu, exactamente, em ter conseguido manter a equipa no topo da competitividade, depois de uma primeira época em que perdeu trunfos tão importantes como Anderson e Pepe, e uma segunda época em que perdeu Ricardo Quaresma, Paulo Assunção e Bosingwa. Quaresma - responsável directo ou indirecto por metade dos golos da equipa na época passada - não foi, de forma alguma, substituído por Cristian Rodriguez e, menos ainda, é claro, pelo trapalhão do Mariano Gonzalez; Bosingwa eclipsava Fucile, sobretudo nesta temporada tão fraca do uruguaio; e Paulo Assunção só agora, que Fernando começa a mostrar melhorias na qualidade de passe, é que parece encontrar substituto à altura. Em contrapartida, Hulk foi a revelação do ano e Cissokho uma grande descoberta do professor (embora, ele, que ainda há quatro meses estava em Setúbal sem receber ordenado, assim que começou a brilhar no Dragão e a falar-se do interesse de clubes estrangeiros, nunca mais voltou a deslumbrar…).
Mas, como já n vezes o escrevi, onde esta equipa se revelou fraca foi no banco de suplentes. Jesualdo teve nove ou dez jogadores bons à disposição durante quase toda a época - e nem um só suplente à altura deles. Desdenhou de jogadores com provas dadas ou com promessas exibidas - Vieirinha, Léo Lima, Ibson, Luís Aguiar, Bruno Gama, Hélder Barbosa, Candeias, Pitbull - e construiu uma equipa só com dois médios ofensivos e um extremo de qualidade (Meireles, Lucho e Rodriguez, embora este irregularmente). Se, como diz Jesualdo e com razão, a equipa está manifestamente desgastada e presa por arames, é justamente porque o núcleo duro teve de chamar a si as despesas de uma época inteira. Ainda agora, no jogo do título, foi possível ver claramente como, para além do cansaço dos titulares habituais, a equipa teve ainda de se bater em inferioridade numérica contra a muito bem organizada equipa do Nacional, visto que, em termos práticos, foi como se jogasse com dez o jogo inteiro - porque tanto Tomás Costa, que jogou a primeira parte, como Farías, que o substituiu na segunda, produziram um jogo absolutamente nulo, conforme lhes é habitual e irreversível. Esse foi, pois, a meu ver, o grande mérito de Jesualdo Ferreira, em 2008/09: conseguir ser campeão, finalista da Taça e chegar aos quartos-de-final da Champions, quase a passar às meias, sem ninguém, absolutamente, capaz de render de vez em quando os nove ou dez jogadores com que ele contava sempre.
Se houver que escolher o jogador do título, para mim ele foi, indiscutivelmente, Bruno Alves. De há muito que venho chamando a atenção para ele, no meio de uma crítica doentiamente facciosa e clubística que insiste em ver em Bruno Alves apenas um caceteiro e um jogador supostamente desleal. Mas a verdade é que, como ainda anteontem se pôde observar contra o Nacional, ele é capaz de passar jogos inteiros sem cometer uma única falta - mesmo que pela frente tenha o melhor marcador do campeonato ou mesmo que tenha de enfrentar o Aguero ou o Forlán do Atlético de Madrid, ou o Tevez e o Rooney do MU. É hoje, em minha opinião, o segundo melhor jogador português, a seguir a Ronaldo, um dos melhores centrais da Europa e do Mundo, com um poder de impulsão que faz lembrar, para melhor, o Fernando Couto dos bons tempos. Corta sempre com calma e estilo, coloca bem a bola à distância, sai a jogar de cabeça erguida, entrega-se ao jogo como ninguém mais e ainda cobra livres e marca golos de cabeça. Neste campeonato, marcou até à data cinco golos, começando com o golo de livre em Alvalade, que foi o arranque para o título, e acabando com o golo de cabeça contra o Nacional, que confirmou o título. Em toda a época (em que não falhou um jogo europeu ou do campeonato), teve apenas um fatal deslize, e logo por azar em Manchester, oferecendo a Rooney um golo caído do céu. Mas, como é fácil de adivinhar, a SAD do F.C.Porto só tem que não se precipitar, na hora inevitável em que o vai vender no final da época, esperando tranquilamente sentada pela melhor oferta. Para mim, que me lembro da sua primeira e desastrada época ao serviço do clube, a evolução de Bruno Alves até se tornar um jogador de eleição é das coisas mais notáveis que vi nesse campo e, sem dúvida, um dos grandes méritos do trabalho de Jesualdo Ferreira. Se as pessoas gostassem verdadeiramente de futebol, podiam reconhecer isto, independentemente das simpatias clubísticas - assim como eu reconheço que não há ponta-de-lança como o Liedson no nosso campeonato, e há vários anos. Mas é certo e sabido que quando Bruno Alves estiver a jogar num dos grandes da Europa, já todos lhe irão reconhecer o estatuto.
2- O Boavista está à beira de cair na III divisão e, se isso acontecer, é o prenúncio do fim - com uma decisiva ajuda do CD da Liga, é verdade, mas também com culpas próprias por ter tido mais olhos que barriga. O Belenenses está também a um passo da segunda divisão e a queda pode também precipitar uma morte até hoje periclitantemente adiada. E serão dois campeões nacionais (dos cinco únicos que temos) a mergulhar nas profundezas de um abismo insondável. Talvez consiga ainda safar-se o histórico Vitória de Setúbal, mas também não vejo como é que poderá sobreviver a prazo um clube cuja única viabilidade económica depende de o governo lhe autorizar um negócio imobiliário ao pé do qual a aprovação do Freeport é perfeitamente banal. Valha-nos o também histórico Olhanense, que está quase à beira de regressar lá acima e voltar a pôr o Algarve no mapa do futebol português de I Divisão.
terça-feira, maio 12, 2009
FIM DE CONVERSA (05 MAIO 2009)
1- E pronto, acabaram-se as conversas e as discussões. Este campeonato já está resolvido. Como sempre ou quase sempre, o azeite veio à tona e, lá no fundo, ficaram as águas sulfurosas das eternas discussões sobre árbitros e apitos e jogadas suspeitas - esse folclore de inveja com que todos os anos os incompetentes tentam justificar a sua incompetência e deitar fumo para os olhos dos que não querem mesmo ver.
O campeonato de 2008/09 está resolvido e está resolvido como vem sendo hábito: o F.C.Porto em primeiro, destacado e apesar de acumular a liderança clara com uma infinitamente melhor e mais desgastante campanha europeia; o Sporting em segundo, no seu certinho papel de Calimero, sempre chorando-se com os árbitros, mas praticando um futebol tão curto (Liedson à parte) que o semi-vazio das bancadas de Alvalade canta «eu sei porque fiquei em casa»; e o Benfica, o eterno e auto-proclamado campeão da «verdade desportiva» e da excelência de gestão, o clube que, a fazer fé nos jornais, todos os jogadores do mundo ambicionam representar um dia, a perder mais um «campeonato da segunda circular» e a olhar para trás, apreensivo, para ver se não perde mesmo o último lugar do pódio. Vira o disco e toca o mesmo. Eu próprio já começo a achar monótono.
Mas o que se há-de fazer por quem faz tão pouco por si próprio? Mesmo sabendo o líder cansado, exausto de competição ao mais alto nível e desfalcado de dois jogadores de tremenda influência na equipa, os seus rivais - jogando antes e com a possibilidade de o colocar sob pressão, entregaram o ouro ao bandido, antes mesmo de ouvirem as palavras «isto é um assalto ao título!». O Sporting, jogando para o título e para a Champions, foi a Coimbra (onde mora uma equipa muito organizada mas com um poder ofensivo nulo) e, em lugar de se atirar desde o início para cima deles em busca de um só golo que seria suficiente, jogou em soberbo pousio durante noventa insuportáveis minutos. Ainda gostava que alguém me explicasse como é que haverá tantos clubes de fora interessados num Miguel Veloso ou algum disponível para dar 22 milhões pelo João Moutinho! É uma atitude louvável, e até de sobrevivência, ter uma Academia para formar jovens jogadores e integrá-los na equipa principal. Mas isso não quer dizer que tudo o que sai de lá é um Cristiano Ronaldo em potência e que lhe basta fazer meia dúzia ou nem tanto de bons jogos, para logo ter as portas da Europa abertas de par-em-par. Caramba, eles não verão as transmissões televisivas dos jogos em Espanha, em Inglaterra, em Itália? Aquele Sporting de Coimbra, a quem, na hora decisiva, se exigia ambição e risco, talento e trabalho, foi o que se viu: um candidato ao segundo lugar nos anos bons.
E, depois de o Sporting ter deixado dois pontos em Coimbra, foi a vez de o Benfica entrar em campo - teoricamente ainda a perseguir o título, mas muito realisticamente a perseguir, sim, o segundo lugar de acesso à pré-liminatória da Champions. Aqueles jogadores, pagos a peso de ouro, sabem com certeza a importância financeira que uma presença na Champions tem para o clube e para as suas próprias carreiras. Sabiam que tinham uma oportunidade de ouro para ficarem encostados ao Sporting. Há menos de duas semanas, foi jogar ao mesmo estádio o modesto Paços de Ferreira, que, em caso de vitória, conseguiria a proeza de levar o clube à final da Taça: e, contra todos os vatícinios, eles conseguiram-no, porque se bateram por isso. Bem, eu não vi o jogo do Benfica com o Nacional, porque há tempos que desisti de ver os jogos do Benfica, por absoluta falta de interesse. Mas rezam todas as crónicas que foi mais um jogo de revoltar adeptos. Agora, os benfiquistas estão na fase dos «culpados» e, claro que Quique Flores é o suspeito mais à mão. Mas a verdade é que, por mais que se simpatize com ele, como é o meu caso, o «culpado» principal este ano só pode ser Rui Costa. Agora, que Vieira se afastou do que não percebia e deixou o futebol à gestão de Rui Costa, é este que deve responder: foi ele que escolheu Quique e que, com Quique, escolheu os jogadores, o tal plantel de luxo que iria ofuscar tudo à volta. Mas, pelo que tenho lido, parece que Rui Costa gasta mais tempo nos túneis a falar ou a reclamar com os árbitros do que a reclamar com os jogadores no Seixal.
E, estendida a passadeira vermelha pelos seus rivais, ao F.C.Porto bastou lançar mão da sua entranhada cultura de vitória para somar os três pontos contra o Marítimo e sentenciar de vez a coisa. Foi, claramente, um F.C.Porto esfarrapado e no limite das forças, desfalcado de Hulk e Lucho e que, quando cedo se viu sem Meireles, pareceu incapaz de segurar a vantagem conquistada logo a abrir, porque, como aqui escrevi desde o primeiro dia, Jesualdo Ferreira teve a desfaçatez de avançar para a época inteira apenas com dois médios de ataque - Lucho e Meireles - deitando fora Ibson, Luís Aguiar, Léo Lima, etc. Olhando para aquele meio campo com Guarín e Tomás Costa, chego a pensar que foi uma bênção não termos passado o Manchester United: é que assim, sempre mantivemos intacto um prestígio que, de outra forma, logo seria estilhaçado às mãos do Arsenal. No Funchal e a vencer, valeu que o Marítimo teve de vir para a frente e o F.C.Porto aproveitou, em momentos cirúrgicos, a sua sabida capacidade de ataque instantâneo contra equipas abertas. Assim matou o jogo e o campeonato. Daqui para frente, o objectivo único é arranjar três pontinhos onde der - de preferência já no próximo domingo e no Dragão - para poupar energias e recuperar algum jogador para o Jamor e a «dobradinha». E terá sido uma grande época!
2- O tipo que programou o Académica-Sporting para quase a mesma hora que o jogo do ano à escala planetária, devia ser fuzilado. Por dever de ofício, eu tive de dividir as atenções entre o concerto de música militar e a ópera de Milão, desesperando por não poder seguir integralmente cada suspiro desse fantástico Real Madrid-Barcelona. Dentro de dez anos ainda se falará em Espanha deste jogo, como durante muitos e muitos anos se falará, no mundo do futebol, desta fantástica equipa do Barcelona de Pepe Guardiola como uma das melhores de todos os tempos, em qualquer canto do mundo.
Quando, vai fazer três anos, antes do Mundial da Alemanha, A BOLA pediu aos seus colunistas que indicassem aquele que achavam que viria a emergir como o grande jogador desse Mundial, eu respondi Lionel Messi. Enganei-me, mas apenas por uma razão: porque o seleccionador argentino, Billardo, achou mais prudente deixar Messi no banco todo o Mundial, porque haverá sempre treinadores para acharem que os génios atrapalham as tácticas que eles tão genialmente conceberam. E este ano, quando, aqui também, se lançou uma espécie de campanha para que, em nome da Pátria, se declarasse, sem excepção, que o melhor jogador do mundo em 2008 tinha sido o Cristiano Ronaldo, eu respondi, quase a medo: «Pois, é um grande jogador sem dúvida, tem a imagem muito bem cuidada, as sobrancelhas muito bem depiladas, mas, quanto a ser o melhor do mundo, é uma chatice, mas há por aí um rapaz chamado Messi...»
Este sábado, em Chamartin, Lionel Messi, mais uma vez, mostrou àqueles que verdadeiramente gostam de futebol, independentemente de clubismos ou patriotismos idiotas, que o melhor jogador do mundo em 2006, 2007, 2008 e 2009, é ele e apenas ele. É certo que não ganhou ainda o respectivo troféu, mas daqui a vinte anos vos garanto que, quando se perguntar a alguém quem foram os cinco melhores jogadores do mundo de sempre, a resposta certa é: Pélé, Eusébio, Maradona, Cruyff e Messsi. Vou ficar a torcer para que amanhã, em Standford Bridge, esta espectacular equipa do Barcelona e o seu pequeno génio de Buenos Aires derrotem o futebol feio e deprimente do Chelsea. Para que haja alguma justiça, neste mundo onde há tão pouca.
O campeonato de 2008/09 está resolvido e está resolvido como vem sendo hábito: o F.C.Porto em primeiro, destacado e apesar de acumular a liderança clara com uma infinitamente melhor e mais desgastante campanha europeia; o Sporting em segundo, no seu certinho papel de Calimero, sempre chorando-se com os árbitros, mas praticando um futebol tão curto (Liedson à parte) que o semi-vazio das bancadas de Alvalade canta «eu sei porque fiquei em casa»; e o Benfica, o eterno e auto-proclamado campeão da «verdade desportiva» e da excelência de gestão, o clube que, a fazer fé nos jornais, todos os jogadores do mundo ambicionam representar um dia, a perder mais um «campeonato da segunda circular» e a olhar para trás, apreensivo, para ver se não perde mesmo o último lugar do pódio. Vira o disco e toca o mesmo. Eu próprio já começo a achar monótono.
Mas o que se há-de fazer por quem faz tão pouco por si próprio? Mesmo sabendo o líder cansado, exausto de competição ao mais alto nível e desfalcado de dois jogadores de tremenda influência na equipa, os seus rivais - jogando antes e com a possibilidade de o colocar sob pressão, entregaram o ouro ao bandido, antes mesmo de ouvirem as palavras «isto é um assalto ao título!». O Sporting, jogando para o título e para a Champions, foi a Coimbra (onde mora uma equipa muito organizada mas com um poder ofensivo nulo) e, em lugar de se atirar desde o início para cima deles em busca de um só golo que seria suficiente, jogou em soberbo pousio durante noventa insuportáveis minutos. Ainda gostava que alguém me explicasse como é que haverá tantos clubes de fora interessados num Miguel Veloso ou algum disponível para dar 22 milhões pelo João Moutinho! É uma atitude louvável, e até de sobrevivência, ter uma Academia para formar jovens jogadores e integrá-los na equipa principal. Mas isso não quer dizer que tudo o que sai de lá é um Cristiano Ronaldo em potência e que lhe basta fazer meia dúzia ou nem tanto de bons jogos, para logo ter as portas da Europa abertas de par-em-par. Caramba, eles não verão as transmissões televisivas dos jogos em Espanha, em Inglaterra, em Itália? Aquele Sporting de Coimbra, a quem, na hora decisiva, se exigia ambição e risco, talento e trabalho, foi o que se viu: um candidato ao segundo lugar nos anos bons.
E, depois de o Sporting ter deixado dois pontos em Coimbra, foi a vez de o Benfica entrar em campo - teoricamente ainda a perseguir o título, mas muito realisticamente a perseguir, sim, o segundo lugar de acesso à pré-liminatória da Champions. Aqueles jogadores, pagos a peso de ouro, sabem com certeza a importância financeira que uma presença na Champions tem para o clube e para as suas próprias carreiras. Sabiam que tinham uma oportunidade de ouro para ficarem encostados ao Sporting. Há menos de duas semanas, foi jogar ao mesmo estádio o modesto Paços de Ferreira, que, em caso de vitória, conseguiria a proeza de levar o clube à final da Taça: e, contra todos os vatícinios, eles conseguiram-no, porque se bateram por isso. Bem, eu não vi o jogo do Benfica com o Nacional, porque há tempos que desisti de ver os jogos do Benfica, por absoluta falta de interesse. Mas rezam todas as crónicas que foi mais um jogo de revoltar adeptos. Agora, os benfiquistas estão na fase dos «culpados» e, claro que Quique Flores é o suspeito mais à mão. Mas a verdade é que, por mais que se simpatize com ele, como é o meu caso, o «culpado» principal este ano só pode ser Rui Costa. Agora, que Vieira se afastou do que não percebia e deixou o futebol à gestão de Rui Costa, é este que deve responder: foi ele que escolheu Quique e que, com Quique, escolheu os jogadores, o tal plantel de luxo que iria ofuscar tudo à volta. Mas, pelo que tenho lido, parece que Rui Costa gasta mais tempo nos túneis a falar ou a reclamar com os árbitros do que a reclamar com os jogadores no Seixal.
E, estendida a passadeira vermelha pelos seus rivais, ao F.C.Porto bastou lançar mão da sua entranhada cultura de vitória para somar os três pontos contra o Marítimo e sentenciar de vez a coisa. Foi, claramente, um F.C.Porto esfarrapado e no limite das forças, desfalcado de Hulk e Lucho e que, quando cedo se viu sem Meireles, pareceu incapaz de segurar a vantagem conquistada logo a abrir, porque, como aqui escrevi desde o primeiro dia, Jesualdo Ferreira teve a desfaçatez de avançar para a época inteira apenas com dois médios de ataque - Lucho e Meireles - deitando fora Ibson, Luís Aguiar, Léo Lima, etc. Olhando para aquele meio campo com Guarín e Tomás Costa, chego a pensar que foi uma bênção não termos passado o Manchester United: é que assim, sempre mantivemos intacto um prestígio que, de outra forma, logo seria estilhaçado às mãos do Arsenal. No Funchal e a vencer, valeu que o Marítimo teve de vir para a frente e o F.C.Porto aproveitou, em momentos cirúrgicos, a sua sabida capacidade de ataque instantâneo contra equipas abertas. Assim matou o jogo e o campeonato. Daqui para frente, o objectivo único é arranjar três pontinhos onde der - de preferência já no próximo domingo e no Dragão - para poupar energias e recuperar algum jogador para o Jamor e a «dobradinha». E terá sido uma grande época!
2- O tipo que programou o Académica-Sporting para quase a mesma hora que o jogo do ano à escala planetária, devia ser fuzilado. Por dever de ofício, eu tive de dividir as atenções entre o concerto de música militar e a ópera de Milão, desesperando por não poder seguir integralmente cada suspiro desse fantástico Real Madrid-Barcelona. Dentro de dez anos ainda se falará em Espanha deste jogo, como durante muitos e muitos anos se falará, no mundo do futebol, desta fantástica equipa do Barcelona de Pepe Guardiola como uma das melhores de todos os tempos, em qualquer canto do mundo.
Quando, vai fazer três anos, antes do Mundial da Alemanha, A BOLA pediu aos seus colunistas que indicassem aquele que achavam que viria a emergir como o grande jogador desse Mundial, eu respondi Lionel Messi. Enganei-me, mas apenas por uma razão: porque o seleccionador argentino, Billardo, achou mais prudente deixar Messi no banco todo o Mundial, porque haverá sempre treinadores para acharem que os génios atrapalham as tácticas que eles tão genialmente conceberam. E este ano, quando, aqui também, se lançou uma espécie de campanha para que, em nome da Pátria, se declarasse, sem excepção, que o melhor jogador do mundo em 2008 tinha sido o Cristiano Ronaldo, eu respondi, quase a medo: «Pois, é um grande jogador sem dúvida, tem a imagem muito bem cuidada, as sobrancelhas muito bem depiladas, mas, quanto a ser o melhor do mundo, é uma chatice, mas há por aí um rapaz chamado Messi...»
Este sábado, em Chamartin, Lionel Messi, mais uma vez, mostrou àqueles que verdadeiramente gostam de futebol, independentemente de clubismos ou patriotismos idiotas, que o melhor jogador do mundo em 2006, 2007, 2008 e 2009, é ele e apenas ele. É certo que não ganhou ainda o respectivo troféu, mas daqui a vinte anos vos garanto que, quando se perguntar a alguém quem foram os cinco melhores jogadores do mundo de sempre, a resposta certa é: Pélé, Eusébio, Maradona, Cruyff e Messsi. Vou ficar a torcer para que amanhã, em Standford Bridge, esta espectacular equipa do Barcelona e o seu pequeno génio de Buenos Aires derrotem o futebol feio e deprimente do Chelsea. Para que haja alguma justiça, neste mundo onde há tão pouca.