Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
domingo, abril 12, 2009
segunda-feira, abril 06, 2009
ZANGAM-SE AS COMADRES (24 MARÇO 2009)
1- O provincianismo, ao contrário do que imaginam os lisboetas, não é uma doença que ataque apenas a gente da província: também ataca a distinta gente da capital. Dez dias a fio, a imprensa desportiva de Lisboa proporcionou ao país uma exuberante demonstração do mais ridículo provincianismo futebolístico que se possa imaginar. Eu sei que um Sporting-Benfica é um «clássico» (que eu próprio gosto sempre de ver, embora raramente com agrado); eu sei que uma final é uma final, embora a neófita Taça da Liga não passe, hierarquicamente, da terceira ou quarta competição em termos de importância na agenda desportiva - imediatamente antes do «Troféu Guadiana» e do «Troféu Eusébio»; eu sei ainda que todo o alarido feito a propósito desta final tinha que ver com o simples facto (especialmente para a «Instituição» Benfica) de nada mais de sólido terem os dois «monstros» de Lisboa a que se agarrarem, nestes idos de Março: o campeonato está a fugir-lhes, a Taça de Portugal já era, da Supertaça vão estar bem provavelmente ausentes, e a Europa terminou em enxovalho para ambos (salvas as diferenças que há, apesar de tudo, entre ser sovado nos oitavos da Champions ou ser humilhado no grupo de qualificação para os dezaseis-avos da Taça UEFA).
Mas, não obstante tudo isso, caramba, é preciso ter a noção das proporções, sob pena de perder a noção do ridículo. Meus caros amigos, acreditem: visto de fora, de quem não é nem lagarto nem lampião, a desbragada promoção deste jogo do Algarve a «jogo do ano» (como lhe chamou a SIC), foi simplesmente ridícula. Durante a semana inteira pareceu que o mundo tinha parado na expectativa de um desafio transcendente. No sábado, A BOLA dedicou-lhe nada menos do que 18 páginas (!), e só lendo o jornal de fio a pavio e muito atentamente é que alguém vindo de fora conseguiria descobrir que havia mais outro jogo no fim-de-semana... e que, por acaso, era uma meia-final da Taça de Portugal, entre o FC Porto e o Estrela da Amadora. Provincianismo também é isto: convencer-se que, fora de Lisboa ou fora de um Benfica-Sporting, tudo o resto é paisagem.
Bem, o «jogo do ano» foi um legítimo candidato a pior jogo do ano. Faltas e interrupções sucessivas, futebol aos repelões, sem dois passes certos consecutivos, escassas oportunidades de golo, zero de imaginação ou talento. O Benfica teve uma oportunidade aos dois minutos e uma bola pingadinha na trave na segunda parte, e... foi tudo o que fez: o seu futebol atingiu, na altura crucial da época, um nível simplesmente confrangedor. Razão teve o Sílvio Cervan (ele nunca se esquece...) para aproveitar mais uma vez a sua coluna das sextas-feiras aqui para tentar intimidar e pressionar previamente o árbitro (e diga-se que tem vindo a ter resultados reconfortantes nesse esforço). Em minha opinião, Lucílio Baptista é - desde há muitos anos e consistentemente - o pior árbitro português. Mas como, desde sempre, é um árbitro militantemente anti-Porto, lá foi fazendo a sua carreira, sempre para cima e sempre muito estimado pelos grandes de Lisboa e pela Comissão de Arbitragem. Raro é o jogo importante que lhe confiam em que ele não tenha influência directa no resultado - e mais uma vez assim aconteceu, só que desta vez e desdizendo a sua fama de sportinguista, ele ofereceu uma taça ao Benfica (que há quatro anos não tinha nada para pôr na vitrina). Dito isto, e apesar de só o Sporting ter merecido ganhar e ter feito por isso, não tenho a menor pena dos leões: anos a fio, Lucílio Baptista prejudicou despudoradamente o F.C.Porto em confrontos com o Sporting (chegou a arbitrar, sempre em prejuízo dos azuis, quatro ou cinco jogos consecutivos entre os dois emblemas para o campeonato, mais uma final no Jamor que entregou de bandeja ao Sporting), e nunca, então, eu lhes ouvi um queixume que fosse contra este árbitro. Aliás, o Sporting, tal como o Benfica, só chegou a esta final Carlsberg graças a um regulamento feito à medida para tal e graças a dois manhosos penalties que lhe permitiram virar o jogo da meia-final em Alvalade, contra a «reserva» do FC Porto - que Jesualdo Ferreira lançou às feras, porque se convenceu, muito inteligente e seriamente, que rodar jogadores era o objectivo desta «competição». (Mas, a avaliar pelos festejos dos benfiquistas no final, como se tivessem acabado de vencer a Champions, e com toda a limpeza e mérito, já não sei, não...).
E assim, no rescaldo do «jogo do ano», ouviram-se gritos de «roubo!» e «ladrão!» e «o futebol está podre!» e outros que tais: o habitual. Só que, desta vez, tudo se passou entre os parceiros da «moralização do futebol português». E eu a imaginar que, depois do Apito Dourado, o futebol português já estava moralizado!
2- Pois então, jogou-se também uma meia-final da Taça de Portugal. Aliás, a primeira mão de uma meia-final - já que este ano, e como de há muito eu vinha defendendo, se joga as meias-finais a duas mãos. É um método bem mais justo, pois que evita que, como sucedeu várias vezes num passado recente, uma equipa possa chegar ao Jamor sem nunca ter jogado eliminatórias fora de casa, ou apenas o tendo feito contra clubes de dimensão claramente inferior.
Jogou-se, e o F.C.Porto, apesar de ter obtido um resultado confortável, não obteve um resultado suficientemente confortável para permitir a Jesualdo Ferreira fazer a gestão total da equipa na segunda mão - tanto mais que este FC Porto não tem «banco».
Foi um jogo sem grande história, embora com casos de arbitragem: o primeiro golo do F.C.Porto também nasceu de um penalty inexistente, mas antes havia-lhes sido mal anulado um golo e, na segunda parte, um penalty verdadeiro foi perdoado ao Estrela. Distraí-me a observar com atenção o desempenho individual dos jogadores de azul e confirmei coisas que já tinha como certas.
Que o Stepanov, o Mariano e o Farías (25 minutos em jogo sem tocar na bola!), pese a ocasionais fogachos e à simpatia da imprensa, nunca serão jogadores ao nível de um F.C.Porto: destoam e destoam bem.
Que ao Fernando lhe falta muito, muitíssimo, caminho a percorrer antes de chegar aos calcanhares de um Paulo Assunção e justificar a titularidade como «cabeça de área» de uma equipa com pretensões europeias.
Que o Cissokho, ao invés, foi a melhor aquisição desde o Hulk: melhora de jogo para jogo e finalmente o F.C.Porto parece ter um lateral-esquerdo de categoria, depois de doze experiências falhadas em cinco anos.
Que o Bruno Alves está feito um senhor jogador de categoria mundial, na linha dos grandes centrais a que o F.C.Porto nos habituou, desde o Geraldão e passando pelo Aloísio, Jorge Costa, Ricardo Carvalho e Pepe. Ele, Raul Meireles e Lisandro López são a grande obra de beneficiação que Jesualdo trouxe ao F.C.Porto. Já Ricardo Quaresma, um talento evidente que Adriaanse maltratou, e Hulk, cujo potencial Jesualdo foi o último a ver, não lhe credito. Mas estes, sim.
Viu-se também que Rodriguéz melhorou muito (desde que aqui o considerei candidato a decepção do ano), mas que continua irregular e intermitente.
Viu-se que Lisandro parece ter perdido o seu «killer instinct» (e que, quando marca, os golos são anulados e normalmente mal anulados), e que Lucho González está uma sombra do jogador que já foi. Continua, é certo, protegido da imprensa, que jura que «ele não sabe jogar mal», mas lá em cima, nas bancadas do Dragão, um público que percebe hoje de futebol como poucos, desespera ao ver a quantidade de jogo que Lucho estraga e desperdiça. É um mistério, mas que já se tinha visto também no passado.
3- Eduardo, guarda-redes do Braga e da Selecção Nacional, provou a minha tese de que um grande guarda-redes de uma equipa média ou pequena não é necessariamente um bom guarda-redes de uma equipa com ambições europeias. Especula-se que ele estará nas cogitações do F.C.Porto e eu espero que não: não precisamos de um guarda-redes que faça defesas impossíveis e que, de vez em quando, falhe nas possíveis: precisamos de quem defenda sempre tudo o que tem defesa. Também se especula que Jorge Jesus poderá substituir Jesualdo Ferreira como treinador do FC Porto. E eu também espero que não: não precisamos de um bom treinador - que Jesus é - e que, de vez em quando, consegue grandes resultados. Precisamos de alguém que, como Jesualdo Ferreira, consiga manter um nível de competitividade permanentemente elevado, sem nunca se queixar da sobrecarga de jogos ou excesso de competição e que saiba ter, em tudo o resto, uma atitude e uma presença ao nível de um dos oito melhores clubes da Europa.
Mas, não obstante tudo isso, caramba, é preciso ter a noção das proporções, sob pena de perder a noção do ridículo. Meus caros amigos, acreditem: visto de fora, de quem não é nem lagarto nem lampião, a desbragada promoção deste jogo do Algarve a «jogo do ano» (como lhe chamou a SIC), foi simplesmente ridícula. Durante a semana inteira pareceu que o mundo tinha parado na expectativa de um desafio transcendente. No sábado, A BOLA dedicou-lhe nada menos do que 18 páginas (!), e só lendo o jornal de fio a pavio e muito atentamente é que alguém vindo de fora conseguiria descobrir que havia mais outro jogo no fim-de-semana... e que, por acaso, era uma meia-final da Taça de Portugal, entre o FC Porto e o Estrela da Amadora. Provincianismo também é isto: convencer-se que, fora de Lisboa ou fora de um Benfica-Sporting, tudo o resto é paisagem.
Bem, o «jogo do ano» foi um legítimo candidato a pior jogo do ano. Faltas e interrupções sucessivas, futebol aos repelões, sem dois passes certos consecutivos, escassas oportunidades de golo, zero de imaginação ou talento. O Benfica teve uma oportunidade aos dois minutos e uma bola pingadinha na trave na segunda parte, e... foi tudo o que fez: o seu futebol atingiu, na altura crucial da época, um nível simplesmente confrangedor. Razão teve o Sílvio Cervan (ele nunca se esquece...) para aproveitar mais uma vez a sua coluna das sextas-feiras aqui para tentar intimidar e pressionar previamente o árbitro (e diga-se que tem vindo a ter resultados reconfortantes nesse esforço). Em minha opinião, Lucílio Baptista é - desde há muitos anos e consistentemente - o pior árbitro português. Mas como, desde sempre, é um árbitro militantemente anti-Porto, lá foi fazendo a sua carreira, sempre para cima e sempre muito estimado pelos grandes de Lisboa e pela Comissão de Arbitragem. Raro é o jogo importante que lhe confiam em que ele não tenha influência directa no resultado - e mais uma vez assim aconteceu, só que desta vez e desdizendo a sua fama de sportinguista, ele ofereceu uma taça ao Benfica (que há quatro anos não tinha nada para pôr na vitrina). Dito isto, e apesar de só o Sporting ter merecido ganhar e ter feito por isso, não tenho a menor pena dos leões: anos a fio, Lucílio Baptista prejudicou despudoradamente o F.C.Porto em confrontos com o Sporting (chegou a arbitrar, sempre em prejuízo dos azuis, quatro ou cinco jogos consecutivos entre os dois emblemas para o campeonato, mais uma final no Jamor que entregou de bandeja ao Sporting), e nunca, então, eu lhes ouvi um queixume que fosse contra este árbitro. Aliás, o Sporting, tal como o Benfica, só chegou a esta final Carlsberg graças a um regulamento feito à medida para tal e graças a dois manhosos penalties que lhe permitiram virar o jogo da meia-final em Alvalade, contra a «reserva» do FC Porto - que Jesualdo Ferreira lançou às feras, porque se convenceu, muito inteligente e seriamente, que rodar jogadores era o objectivo desta «competição». (Mas, a avaliar pelos festejos dos benfiquistas no final, como se tivessem acabado de vencer a Champions, e com toda a limpeza e mérito, já não sei, não...).
E assim, no rescaldo do «jogo do ano», ouviram-se gritos de «roubo!» e «ladrão!» e «o futebol está podre!» e outros que tais: o habitual. Só que, desta vez, tudo se passou entre os parceiros da «moralização do futebol português». E eu a imaginar que, depois do Apito Dourado, o futebol português já estava moralizado!
2- Pois então, jogou-se também uma meia-final da Taça de Portugal. Aliás, a primeira mão de uma meia-final - já que este ano, e como de há muito eu vinha defendendo, se joga as meias-finais a duas mãos. É um método bem mais justo, pois que evita que, como sucedeu várias vezes num passado recente, uma equipa possa chegar ao Jamor sem nunca ter jogado eliminatórias fora de casa, ou apenas o tendo feito contra clubes de dimensão claramente inferior.
Jogou-se, e o F.C.Porto, apesar de ter obtido um resultado confortável, não obteve um resultado suficientemente confortável para permitir a Jesualdo Ferreira fazer a gestão total da equipa na segunda mão - tanto mais que este FC Porto não tem «banco».
Foi um jogo sem grande história, embora com casos de arbitragem: o primeiro golo do F.C.Porto também nasceu de um penalty inexistente, mas antes havia-lhes sido mal anulado um golo e, na segunda parte, um penalty verdadeiro foi perdoado ao Estrela. Distraí-me a observar com atenção o desempenho individual dos jogadores de azul e confirmei coisas que já tinha como certas.
Que o Stepanov, o Mariano e o Farías (25 minutos em jogo sem tocar na bola!), pese a ocasionais fogachos e à simpatia da imprensa, nunca serão jogadores ao nível de um F.C.Porto: destoam e destoam bem.
Que ao Fernando lhe falta muito, muitíssimo, caminho a percorrer antes de chegar aos calcanhares de um Paulo Assunção e justificar a titularidade como «cabeça de área» de uma equipa com pretensões europeias.
Que o Cissokho, ao invés, foi a melhor aquisição desde o Hulk: melhora de jogo para jogo e finalmente o F.C.Porto parece ter um lateral-esquerdo de categoria, depois de doze experiências falhadas em cinco anos.
Que o Bruno Alves está feito um senhor jogador de categoria mundial, na linha dos grandes centrais a que o F.C.Porto nos habituou, desde o Geraldão e passando pelo Aloísio, Jorge Costa, Ricardo Carvalho e Pepe. Ele, Raul Meireles e Lisandro López são a grande obra de beneficiação que Jesualdo trouxe ao F.C.Porto. Já Ricardo Quaresma, um talento evidente que Adriaanse maltratou, e Hulk, cujo potencial Jesualdo foi o último a ver, não lhe credito. Mas estes, sim.
Viu-se também que Rodriguéz melhorou muito (desde que aqui o considerei candidato a decepção do ano), mas que continua irregular e intermitente.
Viu-se que Lisandro parece ter perdido o seu «killer instinct» (e que, quando marca, os golos são anulados e normalmente mal anulados), e que Lucho González está uma sombra do jogador que já foi. Continua, é certo, protegido da imprensa, que jura que «ele não sabe jogar mal», mas lá em cima, nas bancadas do Dragão, um público que percebe hoje de futebol como poucos, desespera ao ver a quantidade de jogo que Lucho estraga e desperdiça. É um mistério, mas que já se tinha visto também no passado.
3- Eduardo, guarda-redes do Braga e da Selecção Nacional, provou a minha tese de que um grande guarda-redes de uma equipa média ou pequena não é necessariamente um bom guarda-redes de uma equipa com ambições europeias. Especula-se que ele estará nas cogitações do F.C.Porto e eu espero que não: não precisamos de um guarda-redes que faça defesas impossíveis e que, de vez em quando, falhe nas possíveis: precisamos de quem defenda sempre tudo o que tem defesa. Também se especula que Jorge Jesus poderá substituir Jesualdo Ferreira como treinador do FC Porto. E eu também espero que não: não precisamos de um bom treinador - que Jesus é - e que, de vez em quando, consegue grandes resultados. Precisamos de alguém que, como Jesualdo Ferreira, consiga manter um nível de competitividade permanentemente elevado, sem nunca se queixar da sobrecarga de jogos ou excesso de competição e que saiba ter, em tudo o resto, uma atitude e uma presença ao nível de um dos oito melhores clubes da Europa.
sábado, março 28, 2009
AZEITE À TONA (17 MARÇO 2009)
1- O Ricardo Araújo Pereira, desenterrando um texto meu de Agosto, ao que parece, acha que chegou a altura de se dar credibilidade a Ana Salgado - a irmã da dita cuja e que, interrogada à pressa e madrugada adentro pelo Ministério Público (MP), assinou uma declaração onde desdisse tudo o que andou a dizer nos últimos dois anos e que, jura agora, só disse por estar paga por Pinto da Costa. Pois não me atreveria a dar conselhos sobre humor ao Ricardo (embora, e aproveitando, não resista a dizer-lhe que me parece que o humor dos Gatos anda um bocado por baixo, a começar por aqueles insuportavelmente desengraçados anúncios ao MEO...). Não sei o que perceberá o Ricardo de Direito e julgamentos, mas, se me permite citar a minha experiência de doze anos de advocacia, com muito crime pelo meio, garanto-lhe que nunca vi nem ouvi contar um caso em que o MP, a meio de um julgamento, se tenha apoderado de uma testemunha de defesa e passado a usá-la contra a própria defesa. E que, para tal, um ilustre magistrado se tenha dado ao incómodo de se deslocar de urgência de Lisboa ao norte, para registar por escrito declarações da dita testemunha, madrugada fora, e enviá-las à pressa e por fax para o tribunal.
Eu reconheço que qualquer das duas irmãs do «clã Salgado» (para usar a expressão constante do inesquecível «livro»), são, digamos, donas de uma verdade muito flutuante: ora estão com este, ora com o outro; ora juram por isto, ora pelo seu contrário. Mas isso é problema do MP, que quis desencadear toda esta bernarda do Apito com base em testemunhas desta envergadura. Mas a questão não é essa: a questão é - como eu disse e o Ricardo fez o favor de me recordar - saber porque razão uma testemunha que o MP considerou simples difamadora durante dois anos, passa, afinal, a testemunha decisiva e de última hora, assim que se consegue que inverta a sua verdade, até então ignorada. E porque razão alguém, que vem confessar que andou a mentir durante dois anos porque estava paga para tal, de repente já merece ser acreditada, sem qualquer hesitação. Pergunto eu: e não terá (também ou antes) sido aliciada agora, no decurso desse, imagina-se, dramático interrogatório nocturno em que, tal como S. Paulo na estrada de Damasco, de repente viu a verdade ali diante dos olhos?
Quinta-feira passada, dia seguinte à qualificação do F.C.Porto para os quartos da Champions (não sei se sabe o que isso é, Ricardo?), eis a notícia ao alto da primeira página do Correio da Manhã: «Pinto da Costa suspeito de subornar testemunha». Mais abaixo, outro título de desporto: «Ronaldo elimina Mourinho». E ainda mais abaixo e em letra mais pequena, enfim: «FC Porto passa aos quartos». Ai o cotovelo, como dói! E, todavia, dois dias antes, no mesmo tribunal de Gaia que julga Pinto da Costa, uma outra testemunha, que se identificou como ex-namorado de Carolina Salgado, veio e contou que um dia, quando estava a almoçar com ela em Lisboa, apareceu o presidente do Benfica, que se sentou e perguntou à senhora: «Então, o que me trazes e quanto queres por isso?» É verdade que Luís Filipe Viera já desmentiu isto e eu tenho esta velha mania de só acreditar em acusações depois de provadas no local adequado. Mas pergunto: se Pinto da Costa é suspeito de subornar uma testemunha porque ela disse tal a um magistrado do MP que a interrogou a sós e noite fora, porque não é suspeito do mesmo Filipe Vieira, quando uma outra testemunha o diz perante um tribunal, sob juramento e sujeita a contra-interrogatório?
(Está a ver, Ricardo: é por fazer perguntas destas, assim tão idiotas, que os benfiquistas se irritam tanto que eu escreva aqui...)
2- Esta semana, o azeite veio mesmo à tona e no fundo mergulharam todas as verdades flutuantes. O Sporting (que teve um grupo feliz de qualificação na Champions), mostrou, de forma transparente, até que ponto a sua dimensão futebolística está a milhas de uns oitavos-de-final da Champions: 25 golos sofridos esta época em cinco encontros com grandes da Europa, não deixam margem para duvidar que o que aconteceu contra o Bayern não foram dois acidentes de percurso, mas sim o reflexo de um espelho que não mente. Só vi o jogo até ao primeiro golo e logo mudei para o Liverpool-Real Madrid, porque cheirou-me a humilhação e não quis vê-la. De nada serviu a lição, porém: quatro dias depois, business as usual, lá estava a SAD do Sporting a fazer mais um comunicado contra uma arbitragem...
Quanto à repousada equipa do Benfica, pejada de anunciadas estrelas (o Di María é um suposto Maradona, o Pablo Aimar, que a mim me parece um banal Roger, é alcunhado de el Mago, e por aí fora...), depois de tantas vitórias à tangente, «tem-te não caias», foi à Figueira, apanhou-se a ganhar aos dois minutos sem saber como e logo recuou toda para defesa, de onde não saiu mais de uma hora a fio, só sendo salva por um livre, dos vários inventados pelo árbitro preferido do presidente do Benfica. E este sábado, lá se dispôs a repetir a fórmula contra um Guimarães que a experiência ensinava ser um adversário amigo e inofensivo - como de facto foi, excepto na única vez em que se decidiu a tentar um golo, por distracção. Enfim, desta vez correu mal e, como disse Quique Flores, «é um milagre que (este) Benfica ainda seja candidato ao título». Li algures que os titulares que tanto se esforçaram contra o Guimarães, coitados, tiveram folga no domingo e folga na segunda. E querem ganhar o quê - o julgamento de Gaia?
Enquanto isso, o F.C.Porto ganhou tranquilo e autoritário contra o Leixões. Tão tranquilo e tão autoritário que as vozes do costume logo trataram de levantar suspeitas: dois jogadores do Leixões teriam sido aliciados ou estariam já contratados pelo F.C.Porto. Nada suspeita, claro, fora a derrota, no jogo anterior na Luz, graças a um auto-golo, ou a derrota posterior por 0-4 em Paços de Ferreira. É assim, com esta impune leviandade, que os anti-portistas acham que conseguem explicar aos tolos que aquilo que entra pelos olhos adentro de todos não é verdade. Mas na quarta-feira seguinte, num jogo de risco intenso e de exigência máxima, o F.C.Porto eliminou o Atlético Madrid (vindo de humilhar o Barcelona e o Real) e só não ganhou porque, nos dois jogos da eliminatória, a sorte não quis nada com o FC Porto. E ei-lo assim na restrita colheita das oito melhores equipas da Europa - onde, por exemplo, não há nenhuma equipa russa, holandesa, francesa ou italiana.
E quando todos os imaginavam exaustos e sem poder ofensivo, devido à ausência de Hulk, o F.C.Porto arrancou uma primeira parte de campeão, quatro dias depois, contra a Naval, só não acabando o jogo em goleada porque um senhor chamado Cosme achou que o momento aconselhava fazer vista grossa a três penalties contra a Naval, o primeiro dos quais, simplesmente chocante. (Ainda pensei que fosse eu que estava a ver a coisa deformada e, por isso, fui consultar o painel dos três ex-árbitros de O Jogo, e, coisa rara, os três coincidiam nos três lances: todos tinham sido penalty, o guarda-redes ficara por expulsar no primeiro e o Lisandro levara um cartão amarelo, que o afasta do próximo jogo, por supostamente ter simulado um penalty, que existiu mesmo. Auguro um grande futuro na arbitragem a este senhor Cosme, que eu não conhecia. É claro que nada disto entrará para o registo dos erros de arbitragem, tão dissecados quando prejudicam outros. É como na jornada anterior, quando todos concluíram que não tinha tido «casos»: apenas um pequeno «caso», que valeu dois pontos a mais ao Benfica...
3- Caso, caso, é o Helton. Há dois anos, já, que aqui escrevi o que pensava dele: um bom guarda-redes para uma equipa como o Leiria, um guarda-redes insustentável para uma equipa com as ambições do F.C.Porto. Parece que agora, finalmente, todos começam a ver o óbvio. E o óbvio nem são os erros clamorosos e os golos oferecidos nos jogos de maior responsabilidade. É, por exemplo, isto: constatar que nos dois últimos jogos do campeonato, as duas únicas oportunidades de golo do Leixões e a única da Naval foram criadas pelo Helton, permitindo cabeceamentos frontais à baliza dentro da pequena área, sem nenhuma reacção. É triste, mas é assim, e o Bruno Alves parece que não fica lá para sempre.
Eu reconheço que qualquer das duas irmãs do «clã Salgado» (para usar a expressão constante do inesquecível «livro»), são, digamos, donas de uma verdade muito flutuante: ora estão com este, ora com o outro; ora juram por isto, ora pelo seu contrário. Mas isso é problema do MP, que quis desencadear toda esta bernarda do Apito com base em testemunhas desta envergadura. Mas a questão não é essa: a questão é - como eu disse e o Ricardo fez o favor de me recordar - saber porque razão uma testemunha que o MP considerou simples difamadora durante dois anos, passa, afinal, a testemunha decisiva e de última hora, assim que se consegue que inverta a sua verdade, até então ignorada. E porque razão alguém, que vem confessar que andou a mentir durante dois anos porque estava paga para tal, de repente já merece ser acreditada, sem qualquer hesitação. Pergunto eu: e não terá (também ou antes) sido aliciada agora, no decurso desse, imagina-se, dramático interrogatório nocturno em que, tal como S. Paulo na estrada de Damasco, de repente viu a verdade ali diante dos olhos?
Quinta-feira passada, dia seguinte à qualificação do F.C.Porto para os quartos da Champions (não sei se sabe o que isso é, Ricardo?), eis a notícia ao alto da primeira página do Correio da Manhã: «Pinto da Costa suspeito de subornar testemunha». Mais abaixo, outro título de desporto: «Ronaldo elimina Mourinho». E ainda mais abaixo e em letra mais pequena, enfim: «FC Porto passa aos quartos». Ai o cotovelo, como dói! E, todavia, dois dias antes, no mesmo tribunal de Gaia que julga Pinto da Costa, uma outra testemunha, que se identificou como ex-namorado de Carolina Salgado, veio e contou que um dia, quando estava a almoçar com ela em Lisboa, apareceu o presidente do Benfica, que se sentou e perguntou à senhora: «Então, o que me trazes e quanto queres por isso?» É verdade que Luís Filipe Viera já desmentiu isto e eu tenho esta velha mania de só acreditar em acusações depois de provadas no local adequado. Mas pergunto: se Pinto da Costa é suspeito de subornar uma testemunha porque ela disse tal a um magistrado do MP que a interrogou a sós e noite fora, porque não é suspeito do mesmo Filipe Vieira, quando uma outra testemunha o diz perante um tribunal, sob juramento e sujeita a contra-interrogatório?
(Está a ver, Ricardo: é por fazer perguntas destas, assim tão idiotas, que os benfiquistas se irritam tanto que eu escreva aqui...)
2- Esta semana, o azeite veio mesmo à tona e no fundo mergulharam todas as verdades flutuantes. O Sporting (que teve um grupo feliz de qualificação na Champions), mostrou, de forma transparente, até que ponto a sua dimensão futebolística está a milhas de uns oitavos-de-final da Champions: 25 golos sofridos esta época em cinco encontros com grandes da Europa, não deixam margem para duvidar que o que aconteceu contra o Bayern não foram dois acidentes de percurso, mas sim o reflexo de um espelho que não mente. Só vi o jogo até ao primeiro golo e logo mudei para o Liverpool-Real Madrid, porque cheirou-me a humilhação e não quis vê-la. De nada serviu a lição, porém: quatro dias depois, business as usual, lá estava a SAD do Sporting a fazer mais um comunicado contra uma arbitragem...
Quanto à repousada equipa do Benfica, pejada de anunciadas estrelas (o Di María é um suposto Maradona, o Pablo Aimar, que a mim me parece um banal Roger, é alcunhado de el Mago, e por aí fora...), depois de tantas vitórias à tangente, «tem-te não caias», foi à Figueira, apanhou-se a ganhar aos dois minutos sem saber como e logo recuou toda para defesa, de onde não saiu mais de uma hora a fio, só sendo salva por um livre, dos vários inventados pelo árbitro preferido do presidente do Benfica. E este sábado, lá se dispôs a repetir a fórmula contra um Guimarães que a experiência ensinava ser um adversário amigo e inofensivo - como de facto foi, excepto na única vez em que se decidiu a tentar um golo, por distracção. Enfim, desta vez correu mal e, como disse Quique Flores, «é um milagre que (este) Benfica ainda seja candidato ao título». Li algures que os titulares que tanto se esforçaram contra o Guimarães, coitados, tiveram folga no domingo e folga na segunda. E querem ganhar o quê - o julgamento de Gaia?
Enquanto isso, o F.C.Porto ganhou tranquilo e autoritário contra o Leixões. Tão tranquilo e tão autoritário que as vozes do costume logo trataram de levantar suspeitas: dois jogadores do Leixões teriam sido aliciados ou estariam já contratados pelo F.C.Porto. Nada suspeita, claro, fora a derrota, no jogo anterior na Luz, graças a um auto-golo, ou a derrota posterior por 0-4 em Paços de Ferreira. É assim, com esta impune leviandade, que os anti-portistas acham que conseguem explicar aos tolos que aquilo que entra pelos olhos adentro de todos não é verdade. Mas na quarta-feira seguinte, num jogo de risco intenso e de exigência máxima, o F.C.Porto eliminou o Atlético Madrid (vindo de humilhar o Barcelona e o Real) e só não ganhou porque, nos dois jogos da eliminatória, a sorte não quis nada com o FC Porto. E ei-lo assim na restrita colheita das oito melhores equipas da Europa - onde, por exemplo, não há nenhuma equipa russa, holandesa, francesa ou italiana.
E quando todos os imaginavam exaustos e sem poder ofensivo, devido à ausência de Hulk, o F.C.Porto arrancou uma primeira parte de campeão, quatro dias depois, contra a Naval, só não acabando o jogo em goleada porque um senhor chamado Cosme achou que o momento aconselhava fazer vista grossa a três penalties contra a Naval, o primeiro dos quais, simplesmente chocante. (Ainda pensei que fosse eu que estava a ver a coisa deformada e, por isso, fui consultar o painel dos três ex-árbitros de O Jogo, e, coisa rara, os três coincidiam nos três lances: todos tinham sido penalty, o guarda-redes ficara por expulsar no primeiro e o Lisandro levara um cartão amarelo, que o afasta do próximo jogo, por supostamente ter simulado um penalty, que existiu mesmo. Auguro um grande futuro na arbitragem a este senhor Cosme, que eu não conhecia. É claro que nada disto entrará para o registo dos erros de arbitragem, tão dissecados quando prejudicam outros. É como na jornada anterior, quando todos concluíram que não tinha tido «casos»: apenas um pequeno «caso», que valeu dois pontos a mais ao Benfica...
3- Caso, caso, é o Helton. Há dois anos, já, que aqui escrevi o que pensava dele: um bom guarda-redes para uma equipa como o Leiria, um guarda-redes insustentável para uma equipa com as ambições do F.C.Porto. Parece que agora, finalmente, todos começam a ver o óbvio. E o óbvio nem são os erros clamorosos e os golos oferecidos nos jogos de maior responsabilidade. É, por exemplo, isto: constatar que nos dois últimos jogos do campeonato, as duas únicas oportunidades de golo do Leixões e a única da Naval foram criadas pelo Helton, permitindo cabeceamentos frontais à baliza dentro da pequena área, sem nenhuma reacção. É triste, mas é assim, e o Bruno Alves parece que não fica lá para sempre.
segunda-feira, março 23, 2009
AS MÁS COMPANHIAS (10 MARÇO 2009)
Aquilo que passará à história sob o nome de Apito Dourado foi uma operação sabiamente planeada e montada, visando um objectivo principal: quebrar os rins ao F.C.Porto, pôr um ponto final na sua hegemonia futebolística longamente exercida. Não o conseguindo no terreno de jogo, tentou-se então consegui-lo fora de campo, no terreno da justiça. O Apito Dourado, à revelia de tudo o que o senso comum e a simples boa-fé sabiam, pretendeu e pretende ainda demonstrar que, como dizia há dias o presidente do Benfica, esta longa sequência de sucessos desportivos do F.C.Porto se deve a «batota» e nada mais. Incluindo os dois títulos de campeão europeu e os dois títulos de campeão mundial de clubes.
Por isso mesmo, desde o início, o Apito Dourado teve apenas dois alvos declarados: o presidente do F.C. Porto e o presidente da Liga, Valentim Loureiro. O objectivo único era provar que, com o apoio do segundo, o primeiro construíra um sistema de corrupção e tráfico de influências, que era a única justificação para o domínio desportivo exercido - apenas isso, nem sequer a gritante incompetência da gestão desportiva dos rivais. À época, curiosamente, Valentim estava de costas voltadas com Pinto da Costa, tendo-se associado com o presidente do Benfica para dominar a Liga - que Luís Filipe Vieira afirmou ser mais importante do que ter uma boa equipe de futebol. Mas pouco importou: para atingir Pinto da Costa e demonstrar o seu poder «mafioso» era essencial demonstrar que ele dominava a Liga, mesmo que tal não fosse verdade. E uma das coisas eticamente mais eloquentes neste processo foi a forma como Filipe Viera deixou cair e abandonou o seu aliado Valentim Loureiro, assim que percebeu que ele era mais útil no papel ficcionado de cúmplice de Pinto da Costa.
A primeira consequência do Apito Dourado foi, assim, a execução de Valentim Loureiro: ele foi condenado por tráfico de influências em benefício do Gondomar, num processo que aos seus mentores deixou a amarga sensação de estarem apenas a perseguir a arraia miúda como forma de tentar chegar ao «peixe graúdo». E o Boavista viria a comer por tabela, sendo relegado pela Comissão Disciplinar da Liga para a segunda divisão - num caminho inelutável rumo ao desaparecimento, sem que ninguém consiga dizer ao certo porque foi um dos históricos do futebol português condenado à morte.
Quanto a Pinto da Costa e ao F.C.Porto - o verdadeiro e único alvo do Apito Dourado - a situação não se afigura brilhante para os seus mentores, mas ainda restam algumas esperanças. Recordemos: houve três processos, correspondentes a outros tantos jogos da época 2004/05, em que se ancoraram as acusações: o primeiro, relativo a um Nacional-Benfica, acabou com um despacho de não-pronúncia do Tribunal do Funchal, em que o juiz chegou a escrever que não se entendia como é que o nome de Pinto da Costa tinha sido metido ali a martelo; o segundo, relativo a um F.C.Porto-Estrela da Amadora, acabou igualmente com um despacho de não-pronúncia do Tribunal do Porto, confirmado por sentença unânime da Relação, e com uma participação por crime de falsas declarações contra a peça-chave de todo o Apito Dourado - a suposta «escritora» Carolina Salgado; resta o terceiro, relativo a um Beira-Mar-F.C.Porto, que já havia sido também arquivado, mas que a insistência da Drª Morgado conseguiu levar a julgamento. E é esse que agora decorre no Tribunal de Gaia.
Este simples enunciado factual dos resultados judiciais produzidos até agora no âmbito do Apito Dourado (e após milhares ou milhões de euros investidos em «investigação» por parte do Ministério Público) seriam suficientes para que o Procurador-Geral da República tivesse alguma contenção a falar do assunto - pelo menos, até ver o que sucede no tribunal de Gaia e após o depoiamento da sua tão acarinhada e protegida testemunha. Mas não: Pinto Monteiro entendeu antecipar-se e debitar a sua sentença, antes que a Justiça reduza a pó o seu voluntarismo justiceiro. Disse o Dr. Pinto Monteiro que, após o Apito Dourado, «mesmo que os arguidos venham a ser absolvidos, nada será como dantes, no futebol português». E isto, porque «a partir deste processo, os agentes do futebol português passaram a saber que podem ser investigados».
Falso, Sr. Procurador: o que o Apito Dourado mostrou é que o presidente do F.C.Porto estará sempre sob suspeita e, eventualmente, sob investigação; quanto aos outros «agentes», não vimos nada... Na tese dos mentores do Apito Dourado, os árbitros vendem-se, sim, mas só ao F.C.Porto; o tráfico de influências existe, sim, mas só a favor do F.C.Porto; as batotas fazem-se, sim, mas apenas em benefício do F.C.Porto.
O Sr. Procurador pode-nos indicar alguma diligência de investigação que, nem que fosse por mera rotina ou cautela, tenha incidido sobre os presidentes do Benfica, do Sporting, do Braga, do Guimarães? É sem dúvida uma coincidência infeliz que todos aqueles que intervieram a vários níveis no Apito Dourado para acusar o F.C.Porto sejam simpatizantes do Benfica. Uma coincidência infeliz mas que, por isso mesmo, deveria ter acautelado a forma como o fizeram.
Mas o Dr. Pinto Monteiro vai ainda mais longe quando, sem um estremecimento de pudor, afirma que «pode não se provar que sejam culpados, mas já se provou que houve indícios para terem de responder perante a justiça». Depois de ver que, em dois dos três casos em que o seu Ministério Público quis acusar, a justiça reduziu os seus «indícios» a meras intenções sem fundamento algum e a sua querida testemunha a alguém desprovido de qualquer credibilidade, sentindo que o único processo que conseguiu levar a julgamento nada mais tem a sustentá-lo do que a credibilidade dessa mesma testemunha, o Procurador-Geral dá-se por muito satisfeito por achar que conseguiu recolher «indícios» que não servem para condenar ninguém, mas apenas para o acusar sem fundamento. Ou seja: não conseguindo convencer a Justiça, resta a sentença popular. Se alguém ainda não tinha percebido o estado a que chegou o Ministério Público, leia o retrato da situação nestas extraordinárias declarações de quem manda nele. Entre o raciocínio «jurídico» do Procurador e o do presidente do Benfica, não vejo a mais pequena diferença de substância...E, caramba, se devia havê-la!
Isto posto, mantenho-me coerente com o que sempre disse desde o início desta história. Lamento muito que o presidente do meu clube esteja sentado no banco dos réus (e, com ele, o próprio clube) a responder pela acusação de corrupção desportiva. Não ignoro a forma como se chegou a tal e, obviamente, basta-me saber que tudo depende de querer acreditar no que diz Carolina Salgado, para concluir que só pode haver um desfecho, que é a absolvição. Claro que não acredito que fosse preciso comprar o árbitro de um jogo já sem importância alguma e em que, segundo os relatos da época, o F.C.Porto até acabou prejudicado pela arbitragem. E claro que, como toda a gente que percebe alguma coisa de futebol e não está de má-fé, sei muito bem que não foi graças a «batota» que o F.C.Porto ganhou o que ganhou cá dentro e foi duas vezes campeão da Europa e do mundo. Foi, entre outras coisas, porque Pinto da Costa é, de longe, o presidente que mais percebe de futebol e um dos raros que não chegou ao futebol por acaso e para se promover socialmente. Porque enquanto ele era presidente do F.C.Porto e tratava de reunir os melhores, Vale e Azevedo era presidente do Benfica e os benfiquistas adoravam-no mesmo percebendo que ele roubava e era um absoluto incompetente, mas atacava Pinto da Costa - e, hoje ainda, há quem ache que tal é suficiente para ser campeão. E, por isso, enquanto o Benfica desprezava jogadores como Jardel, Zahovic, Deco, Maniche, ou treinadores como Mourinho e Jesualdo Ferreira, Pinto da Costa aproveitava-os e era com eles que ganhava.
Não é por isso, pois, que Pinto da Costa está sentado no banco dos réus. Ele está sentado no banco dos réus devido à sua fatal tendência para as más companhias. O que eu, como portista, não consigo aceitar é que o presidente do meu clube receba um árbitro em casa para tomar café. Que o receba acompanhado do «empresário» António Araújo e com a Dª Carolina Salgado a fazer de dona-da-casa, Primeira Dama e tudo o resto cujas consequências estão à vista. É inacreditável que, mesmo acossado pela justiça, Pinto da Costa não tenha ninguém minimamente prestigiado para apresentar como testemunha abonatória no tribunal, para além do tristíssimo juiz Conselheiro Mortágua. É lamentável que o homem que conseguiu transformar um clube de província num campeão do mundo e num motivo de orgulho para Portugal, ainda não tenha conseguido, ao fim de tantos anos, despir a capa do provincianismo e transformar-se num homem do mundo. E que tenha preferido, como qualquer cacique de província, viver rodeado de gente pequenina, que lhe satisfaz o culto pessoal e desprestigia o clube.
Por isso mesmo, desde o início, o Apito Dourado teve apenas dois alvos declarados: o presidente do F.C. Porto e o presidente da Liga, Valentim Loureiro. O objectivo único era provar que, com o apoio do segundo, o primeiro construíra um sistema de corrupção e tráfico de influências, que era a única justificação para o domínio desportivo exercido - apenas isso, nem sequer a gritante incompetência da gestão desportiva dos rivais. À época, curiosamente, Valentim estava de costas voltadas com Pinto da Costa, tendo-se associado com o presidente do Benfica para dominar a Liga - que Luís Filipe Vieira afirmou ser mais importante do que ter uma boa equipe de futebol. Mas pouco importou: para atingir Pinto da Costa e demonstrar o seu poder «mafioso» era essencial demonstrar que ele dominava a Liga, mesmo que tal não fosse verdade. E uma das coisas eticamente mais eloquentes neste processo foi a forma como Filipe Viera deixou cair e abandonou o seu aliado Valentim Loureiro, assim que percebeu que ele era mais útil no papel ficcionado de cúmplice de Pinto da Costa.
A primeira consequência do Apito Dourado foi, assim, a execução de Valentim Loureiro: ele foi condenado por tráfico de influências em benefício do Gondomar, num processo que aos seus mentores deixou a amarga sensação de estarem apenas a perseguir a arraia miúda como forma de tentar chegar ao «peixe graúdo». E o Boavista viria a comer por tabela, sendo relegado pela Comissão Disciplinar da Liga para a segunda divisão - num caminho inelutável rumo ao desaparecimento, sem que ninguém consiga dizer ao certo porque foi um dos históricos do futebol português condenado à morte.
Quanto a Pinto da Costa e ao F.C.Porto - o verdadeiro e único alvo do Apito Dourado - a situação não se afigura brilhante para os seus mentores, mas ainda restam algumas esperanças. Recordemos: houve três processos, correspondentes a outros tantos jogos da época 2004/05, em que se ancoraram as acusações: o primeiro, relativo a um Nacional-Benfica, acabou com um despacho de não-pronúncia do Tribunal do Funchal, em que o juiz chegou a escrever que não se entendia como é que o nome de Pinto da Costa tinha sido metido ali a martelo; o segundo, relativo a um F.C.Porto-Estrela da Amadora, acabou igualmente com um despacho de não-pronúncia do Tribunal do Porto, confirmado por sentença unânime da Relação, e com uma participação por crime de falsas declarações contra a peça-chave de todo o Apito Dourado - a suposta «escritora» Carolina Salgado; resta o terceiro, relativo a um Beira-Mar-F.C.Porto, que já havia sido também arquivado, mas que a insistência da Drª Morgado conseguiu levar a julgamento. E é esse que agora decorre no Tribunal de Gaia.
Este simples enunciado factual dos resultados judiciais produzidos até agora no âmbito do Apito Dourado (e após milhares ou milhões de euros investidos em «investigação» por parte do Ministério Público) seriam suficientes para que o Procurador-Geral da República tivesse alguma contenção a falar do assunto - pelo menos, até ver o que sucede no tribunal de Gaia e após o depoiamento da sua tão acarinhada e protegida testemunha. Mas não: Pinto Monteiro entendeu antecipar-se e debitar a sua sentença, antes que a Justiça reduza a pó o seu voluntarismo justiceiro. Disse o Dr. Pinto Monteiro que, após o Apito Dourado, «mesmo que os arguidos venham a ser absolvidos, nada será como dantes, no futebol português». E isto, porque «a partir deste processo, os agentes do futebol português passaram a saber que podem ser investigados».
Falso, Sr. Procurador: o que o Apito Dourado mostrou é que o presidente do F.C.Porto estará sempre sob suspeita e, eventualmente, sob investigação; quanto aos outros «agentes», não vimos nada... Na tese dos mentores do Apito Dourado, os árbitros vendem-se, sim, mas só ao F.C.Porto; o tráfico de influências existe, sim, mas só a favor do F.C.Porto; as batotas fazem-se, sim, mas apenas em benefício do F.C.Porto.
O Sr. Procurador pode-nos indicar alguma diligência de investigação que, nem que fosse por mera rotina ou cautela, tenha incidido sobre os presidentes do Benfica, do Sporting, do Braga, do Guimarães? É sem dúvida uma coincidência infeliz que todos aqueles que intervieram a vários níveis no Apito Dourado para acusar o F.C.Porto sejam simpatizantes do Benfica. Uma coincidência infeliz mas que, por isso mesmo, deveria ter acautelado a forma como o fizeram.
Mas o Dr. Pinto Monteiro vai ainda mais longe quando, sem um estremecimento de pudor, afirma que «pode não se provar que sejam culpados, mas já se provou que houve indícios para terem de responder perante a justiça». Depois de ver que, em dois dos três casos em que o seu Ministério Público quis acusar, a justiça reduziu os seus «indícios» a meras intenções sem fundamento algum e a sua querida testemunha a alguém desprovido de qualquer credibilidade, sentindo que o único processo que conseguiu levar a julgamento nada mais tem a sustentá-lo do que a credibilidade dessa mesma testemunha, o Procurador-Geral dá-se por muito satisfeito por achar que conseguiu recolher «indícios» que não servem para condenar ninguém, mas apenas para o acusar sem fundamento. Ou seja: não conseguindo convencer a Justiça, resta a sentença popular. Se alguém ainda não tinha percebido o estado a que chegou o Ministério Público, leia o retrato da situação nestas extraordinárias declarações de quem manda nele. Entre o raciocínio «jurídico» do Procurador e o do presidente do Benfica, não vejo a mais pequena diferença de substância...E, caramba, se devia havê-la!
Isto posto, mantenho-me coerente com o que sempre disse desde o início desta história. Lamento muito que o presidente do meu clube esteja sentado no banco dos réus (e, com ele, o próprio clube) a responder pela acusação de corrupção desportiva. Não ignoro a forma como se chegou a tal e, obviamente, basta-me saber que tudo depende de querer acreditar no que diz Carolina Salgado, para concluir que só pode haver um desfecho, que é a absolvição. Claro que não acredito que fosse preciso comprar o árbitro de um jogo já sem importância alguma e em que, segundo os relatos da época, o F.C.Porto até acabou prejudicado pela arbitragem. E claro que, como toda a gente que percebe alguma coisa de futebol e não está de má-fé, sei muito bem que não foi graças a «batota» que o F.C.Porto ganhou o que ganhou cá dentro e foi duas vezes campeão da Europa e do mundo. Foi, entre outras coisas, porque Pinto da Costa é, de longe, o presidente que mais percebe de futebol e um dos raros que não chegou ao futebol por acaso e para se promover socialmente. Porque enquanto ele era presidente do F.C.Porto e tratava de reunir os melhores, Vale e Azevedo era presidente do Benfica e os benfiquistas adoravam-no mesmo percebendo que ele roubava e era um absoluto incompetente, mas atacava Pinto da Costa - e, hoje ainda, há quem ache que tal é suficiente para ser campeão. E, por isso, enquanto o Benfica desprezava jogadores como Jardel, Zahovic, Deco, Maniche, ou treinadores como Mourinho e Jesualdo Ferreira, Pinto da Costa aproveitava-os e era com eles que ganhava.
Não é por isso, pois, que Pinto da Costa está sentado no banco dos réus. Ele está sentado no banco dos réus devido à sua fatal tendência para as más companhias. O que eu, como portista, não consigo aceitar é que o presidente do meu clube receba um árbitro em casa para tomar café. Que o receba acompanhado do «empresário» António Araújo e com a Dª Carolina Salgado a fazer de dona-da-casa, Primeira Dama e tudo o resto cujas consequências estão à vista. É inacreditável que, mesmo acossado pela justiça, Pinto da Costa não tenha ninguém minimamente prestigiado para apresentar como testemunha abonatória no tribunal, para além do tristíssimo juiz Conselheiro Mortágua. É lamentável que o homem que conseguiu transformar um clube de província num campeão do mundo e num motivo de orgulho para Portugal, ainda não tenha conseguido, ao fim de tantos anos, despir a capa do provincianismo e transformar-se num homem do mundo. E que tenha preferido, como qualquer cacique de província, viver rodeado de gente pequenina, que lhe satisfaz o culto pessoal e desprestigia o clube.
segunda-feira, março 09, 2009
COMPETITIVIDADE: O NOME DO JOGO (03 MARÇO 2009)
Em anos anteriores, nós, portistas, fomos mal habituados. Enquanto, por alturas do Natal, outros se despediam das grandes decisões, nós tínhamos já praticamente garantidos os dois principais objectivos de cada época; a ultrapassagem da fase de grupos da Champions e a aquisição de uma vantagem pontual na Liga que permitia gerir de forma tranquila a conquista do campeonato. Este ano, se o primeiro objectivo foi alcançado com categoria (primeiro lugar no grupo), já o segundo ficou distante, permitindo até a um Benfica sedento de títulos reivindicar o de «campeão de Inverno». É essa deficiente performance interna do F.C.Porto, a par da emergência do Sp. Braga e da agradável surpresa do Leixões, que tem permitido o diagnóstico consensual de que este está a ser o campeonato mais disputado dos últimos anos.
Esse facto, como habitualmente, tem alimentado a eterna discussão de saber se o campeonato se nivelou por cima ou por baixo. Olhando apenas ao F.C.Porto, não há dúvida de que se nivelou por baixo. E para isso contribuíram as saídas de mais alguns jogadores fundamentais - e, entre todos, Ricardo Quaresma, responsável pela produção de metade dos golos na época passada - e por uma política de dispensas de Jesualdo Ferreira que eu continuo a não conseguir compreender. A menos que existam razões ocultas, que desconheço e não tenho de saber, ninguém me consegue explicar porque se dispensam jogadores como Luís Aguiar, Pittbul, Candeias, Alan ou Ibson, para manter no banco jogadores como Stepanov, Benitez, Bolatti, Mariano ou Farías. Vendo, diante do Sporting, o esforço penoso de jogadores como Lucho, Meireles, Lisandro e até Hulk (massacrado pela pancadaria que levou em Madrid e vem levando cada vez mais), e olhando para um banco onde não havia nada de útil, perguntei-me como é que Jesualdo vai conseguir aguentar este barco a flutuar na Champions, no campeonato e na Taça de Portugal...
Mas, mesmo levando em conta as razões particulares dos portistas, o facto é que, entre os que disputam o campeonato, o panorama não parece melhor. E este fim-de-semana, em que se enfrentavam o 2º e o 4º e o 1º e o 3º, forneceu amplos motivos de reflexão sobre o assunto. Na Luz, duas equipas repousadas por ausência de outros compromissos, ofereceram um paupérrimo espectáculo de futebol. É verdade que é impossível exigir mais ao Leixões (outro com salários em atraso...), que, mesmo assim, deixou a Luz com o credo na boca, obrigando o Benfica a recorrer a todo o tipo de anti-jogo - nove a defenderem, pontapés para a frente de qualquer maneira, perdas de tempo de toda a gente, lesões simuladas, etc. Mas, mesmo assim fiquei impressionado com a notável incompetência dos jogadores do Leixões na hora de rematar à baliza. Bem sei que é uma característica comum no nosso campeonato, mas não deixa de ser difícil de entender: porque não treinam mais os remates?
Quanto ao Benfica, que celebrou a vitória como se fosse a ante-câmara do título, impressionou-me, uma vez mais, a pobreza franciscana do seu futebol. Ganhou graças a um auto-golo e à eficácia de alguns textos sistematicamente escritos na véspera dos jogos com o objectivo de intimidar e condicionar previamente os árbitros (aqueles 3 minutos de descontos, o critério das faltas próximas da área, foram eloquentes...). Queixam-se que ficaram com dez, mas só ficaram os últimos 15 minutos e, antes disso e tirando a habitual perdida de Aimar frente ao guarda-redes, nada mais fizeram em toda a segunda parte do que defender a vantagem lá atrás. E, para uma equipa que nada mais tem a fazer do que jogar uma vez por semana, não se compreende tamanha aflição por ter de jogar com um a menos, em casa e frente ao Leixões, no último quarto-de-hora!
O F.C.Porto-Sporting começou com uma polémica lançada por Miguel Ribeiro Teles na antevéspera do jogo (já reparam que nunca é o F.C.Porto a lançar polémicas prévias e a excitar os ânimos antes dos grandes jogos?). Uma polémica em que, salvo melhor opinião, o dirigente sportinguista não teve ponta de razão. Não a teve juridicamente, porque o F.C.Porto se limitou a aproveitar os regulamentos, como todos fazem, e não tem culpa que o sorteio tenha posto o Sporting a jogar para a Champions um dia mais tarde que o F.C.Porto (para a semana, acontecerá o inverso). E não a teve desportivamente, porque, sendo certo que o Sporting teria sempre menos um dia de descanso, também é verdade que teve mais um antes do jogo da Champions - e o que desgasta aqui não é um só jogo, mas o ciclo completo deles. Aliás, como bem se viu no Dragão, o F.C.Porto, que teve de se deslocar a Madrid onde fez um grande e disputadíssimo jogo, estava bem mais cansado que o Sporting, que ficou por Alvalade e pouco se cansou no triste jogo contra o Bayern. Irritou muito os sportinguistas que o F.C.Porto tivesse adiado o jogo de amanhã para a Taça, já depois de o jogo com o Sporting ter sido marcado para sábado. Tanto quanto sei, porém, já não havia hipótese de o mudar então para domingo e nem o F.C.Porto nem o Estrela da Amadora eram obrigados «por castigo» a jogar a uma quarta, quando podiam jogar a um domingo em que nenhuma das equipas estará em acção.
Polémica à parte, foi uma miséria de jogo, que para os portistas, só teve três motivos de conforto: primeiro, e com o empate registado, ganhámos mais uma Copa BES, esse mini-torneio entre os três grandes (e que já ganhámos umas seis vezes, em sete ou oito edições); em segundo lugar, o Helton não teve ocasião de oferecer o golo que quase sempre oferece nos grandes jogos, e não apenas na Champions (já contra o Benfica, em minha opinião, o cabeceamento do Yebda era perfeitamente defensável); finalmente, enquanto que Paulo Bento achou que tinha sido «um bom jogo», já Jesualdo Ferreira não esteve com diplomacias e disse exactamente o que se tinha passado: um mau jogo, sem oportunidades, com constantes interrupções e entradas ríspidas. E eu fico contente por verificar que o treinador do meu clube não vende gato por lebre e não fica satisfeito quando vê a equipa jogar mal. É esta diferença de ambição, a todos os níveis, que faz com que ganhemos mais do que os outros...
O Sporting ficou claramente satisfeito com o empate, porque o empate lhe salvou a pele. O F.C.Porto não ficou satisfeito, quis de facto ganhar, mas não teve talento nem força para tal. Seguem-se mais dois jogos tremendos: em Matosinhos, e a segunda mão da Champions, no Porto, contra o Atlético de Madrid. Queira o destino que a goleada ingloriamente desperdiçada em Madrid, por erros próprios e por força de uma vergonhosa arbitragem decerto encomendada pelo Sr. Platini, não venha a revelar-se um falso bom resultado! Com a Ucrânia à beira de nos ultrapassar no ranking da UEFA, bem precisávamos que F.C.Porto e Sp. Braga prolongassem um pouco mais a vida dos clubes portugueses nesta época europeia. Até para que outros, como o Benfica, não tenham de entrar na Europa arrombando a porta da secretaria.
Esse facto, como habitualmente, tem alimentado a eterna discussão de saber se o campeonato se nivelou por cima ou por baixo. Olhando apenas ao F.C.Porto, não há dúvida de que se nivelou por baixo. E para isso contribuíram as saídas de mais alguns jogadores fundamentais - e, entre todos, Ricardo Quaresma, responsável pela produção de metade dos golos na época passada - e por uma política de dispensas de Jesualdo Ferreira que eu continuo a não conseguir compreender. A menos que existam razões ocultas, que desconheço e não tenho de saber, ninguém me consegue explicar porque se dispensam jogadores como Luís Aguiar, Pittbul, Candeias, Alan ou Ibson, para manter no banco jogadores como Stepanov, Benitez, Bolatti, Mariano ou Farías. Vendo, diante do Sporting, o esforço penoso de jogadores como Lucho, Meireles, Lisandro e até Hulk (massacrado pela pancadaria que levou em Madrid e vem levando cada vez mais), e olhando para um banco onde não havia nada de útil, perguntei-me como é que Jesualdo vai conseguir aguentar este barco a flutuar na Champions, no campeonato e na Taça de Portugal...
Mas, mesmo levando em conta as razões particulares dos portistas, o facto é que, entre os que disputam o campeonato, o panorama não parece melhor. E este fim-de-semana, em que se enfrentavam o 2º e o 4º e o 1º e o 3º, forneceu amplos motivos de reflexão sobre o assunto. Na Luz, duas equipas repousadas por ausência de outros compromissos, ofereceram um paupérrimo espectáculo de futebol. É verdade que é impossível exigir mais ao Leixões (outro com salários em atraso...), que, mesmo assim, deixou a Luz com o credo na boca, obrigando o Benfica a recorrer a todo o tipo de anti-jogo - nove a defenderem, pontapés para a frente de qualquer maneira, perdas de tempo de toda a gente, lesões simuladas, etc. Mas, mesmo assim fiquei impressionado com a notável incompetência dos jogadores do Leixões na hora de rematar à baliza. Bem sei que é uma característica comum no nosso campeonato, mas não deixa de ser difícil de entender: porque não treinam mais os remates?
Quanto ao Benfica, que celebrou a vitória como se fosse a ante-câmara do título, impressionou-me, uma vez mais, a pobreza franciscana do seu futebol. Ganhou graças a um auto-golo e à eficácia de alguns textos sistematicamente escritos na véspera dos jogos com o objectivo de intimidar e condicionar previamente os árbitros (aqueles 3 minutos de descontos, o critério das faltas próximas da área, foram eloquentes...). Queixam-se que ficaram com dez, mas só ficaram os últimos 15 minutos e, antes disso e tirando a habitual perdida de Aimar frente ao guarda-redes, nada mais fizeram em toda a segunda parte do que defender a vantagem lá atrás. E, para uma equipa que nada mais tem a fazer do que jogar uma vez por semana, não se compreende tamanha aflição por ter de jogar com um a menos, em casa e frente ao Leixões, no último quarto-de-hora!
O F.C.Porto-Sporting começou com uma polémica lançada por Miguel Ribeiro Teles na antevéspera do jogo (já reparam que nunca é o F.C.Porto a lançar polémicas prévias e a excitar os ânimos antes dos grandes jogos?). Uma polémica em que, salvo melhor opinião, o dirigente sportinguista não teve ponta de razão. Não a teve juridicamente, porque o F.C.Porto se limitou a aproveitar os regulamentos, como todos fazem, e não tem culpa que o sorteio tenha posto o Sporting a jogar para a Champions um dia mais tarde que o F.C.Porto (para a semana, acontecerá o inverso). E não a teve desportivamente, porque, sendo certo que o Sporting teria sempre menos um dia de descanso, também é verdade que teve mais um antes do jogo da Champions - e o que desgasta aqui não é um só jogo, mas o ciclo completo deles. Aliás, como bem se viu no Dragão, o F.C.Porto, que teve de se deslocar a Madrid onde fez um grande e disputadíssimo jogo, estava bem mais cansado que o Sporting, que ficou por Alvalade e pouco se cansou no triste jogo contra o Bayern. Irritou muito os sportinguistas que o F.C.Porto tivesse adiado o jogo de amanhã para a Taça, já depois de o jogo com o Sporting ter sido marcado para sábado. Tanto quanto sei, porém, já não havia hipótese de o mudar então para domingo e nem o F.C.Porto nem o Estrela da Amadora eram obrigados «por castigo» a jogar a uma quarta, quando podiam jogar a um domingo em que nenhuma das equipas estará em acção.
Polémica à parte, foi uma miséria de jogo, que para os portistas, só teve três motivos de conforto: primeiro, e com o empate registado, ganhámos mais uma Copa BES, esse mini-torneio entre os três grandes (e que já ganhámos umas seis vezes, em sete ou oito edições); em segundo lugar, o Helton não teve ocasião de oferecer o golo que quase sempre oferece nos grandes jogos, e não apenas na Champions (já contra o Benfica, em minha opinião, o cabeceamento do Yebda era perfeitamente defensável); finalmente, enquanto que Paulo Bento achou que tinha sido «um bom jogo», já Jesualdo Ferreira não esteve com diplomacias e disse exactamente o que se tinha passado: um mau jogo, sem oportunidades, com constantes interrupções e entradas ríspidas. E eu fico contente por verificar que o treinador do meu clube não vende gato por lebre e não fica satisfeito quando vê a equipa jogar mal. É esta diferença de ambição, a todos os níveis, que faz com que ganhemos mais do que os outros...
O Sporting ficou claramente satisfeito com o empate, porque o empate lhe salvou a pele. O F.C.Porto não ficou satisfeito, quis de facto ganhar, mas não teve talento nem força para tal. Seguem-se mais dois jogos tremendos: em Matosinhos, e a segunda mão da Champions, no Porto, contra o Atlético de Madrid. Queira o destino que a goleada ingloriamente desperdiçada em Madrid, por erros próprios e por força de uma vergonhosa arbitragem decerto encomendada pelo Sr. Platini, não venha a revelar-se um falso bom resultado! Com a Ucrânia à beira de nos ultrapassar no ranking da UEFA, bem precisávamos que F.C.Porto e Sp. Braga prolongassem um pouco mais a vida dos clubes portugueses nesta época europeia. Até para que outros, como o Benfica, não tenham de entrar na Europa arrombando a porta da secretaria.
terça-feira, março 03, 2009
INTERVALO PARA FUTEBOL (24 FEVEREIRO 2009)
1- Hoje e amanhã, o futebolzinho à portuguesa - isto é, a discussão sobre o árbitro e os penalties e foras-de-jogo - sofre uma saudável interrupção para que, num televisor perto de si, possa ver de regresso aquilo que interessa: o grande futebol europeu. Joga-se a 1.ª mão dos oitavos-finais da Liga dos Campeões, com a assinalável presença de duas equipes portuguesas: o Sporting e o habitual F.C.Porto. Quem está, está; quem não está, que estivesse, e quem tentou entrar pela porta do cavalo, que se roa de inveja.
Ao contrário do que sucedeu na fase de grupos, desta vez a tarefa do Sporting parece mais complicada que a do F.C.Porto. Em teoria, pelo menos, o Bayern de Munich é osso mais duro de roer do que o Atlético de Madrid. Mas esta noite em Madrid, para conseguir sair com um resultado que alimente todas as esperanças para o jogo de retribuição no Dragão, o F.C.Porto vai ter que mostrar muito mais futebol e consistência do que aquilo que vem mostrando por cá nos últimos jogos. Só com Bruno Alves atrás e Hulk na frente é difícil chegar para esta encomenda. Vai ser necessário que jogadores como Lisandro, Lucho, Rodriguéz, Meireles, estejam ao seu melhor nível, ou melhor, pelo menos, do que têm estado. Até porque, como se tem andado a ver exuberantemente, este F.C.Porto que deitou fora jogadores de valor seguro e desprezou promessas que despontavam, não tem «banco» à altura das ambições: não há um só suplente de categoria indiscutível, seja para a defesa, para o meio-campo ou para o ataque. São aqueles onze e nada mais. E, quando digo onze, já estou a ser generoso...
Todavia, estou cheio de fé para hoje, porque conto com duas coisas a favor desta equipa: a sua experiência internacional e a capacidade de se agigantar nestes jogos e de mostrar uma personalidade que ninguém mais em Portugal consegue ter.
2- Avisadamente, aliás, o Benfica (depois de ter exibido, uma vez mais, a sua confrangedora falta de classe em jogos europeus, esta época), está já a ensaiar a tentativa de entrar para o ano na Champions pela porta dos fundos, à custa do F.C.Porto e precavendo a hipótese de o não conseguir no terreno de jogo do campeonato. Para que a vergonha seja completa, sustenta-se na confirmação da decisão do CD da Liga, que condenou o F.C.Porto por tentativa de corrupção no jogo com o Estrela, em 2004. Uma decisão que surgiu dias depois de o Tribunal da Relação ter confirmado, por sua vez, a sentença do Tribunal Criminal do Porto que julgou tal acusação sem qualquer fundamento, e semanas depois de o Supremo Tribunal Administrativo ter decidido que obviamente (basta ler a Constituição...) as escutas telefónicas, admitindo que faziam alguma prova no caso, não podem ser utilizadas em simples processos disciplinares (sob pena de um patrão poder despedir um empregado com base em escutas telefónicas...). Ou seja, o CD da Liga - esse órgão que faz «justiça» sem sequer ouvir a sua principal testemunha e, menos ainda, admitir o seu contra-interrogatório - permite-se a arrogância de manter as suas decisões, mesmo depois de ver dois tribunais superiores desfazerem as duas «provas» em que se sustentou: uma, por não ser aplicável; outra por não merecer credibilidade alguma. Como é que o Benfica vai explicar isto ao amigo Platini?
Entretanto, também dava jeito que o Lisandro fosse suspenso por «simulação», o Bruno Alves por jogo violento ou qualquer outra razão, e, no limite, nada funcionando, que o governo fizesse sair um decreto-lei declarando o Benfica campeão nacional.
3- Já tinha morrido o mito do Benfica grande potência europeia e com um prestígio internacional a perder de vista (basta viajar para o constatar). Agora, com o estudo dos alemães da Sport Markt, morreu o mito do Benfica dos seis milhões de adeptos cá dentro: afinal, são só 2,1 milhões, contra 1,3 milhões de portistas e 1,1 milhões de sportinguistas. Olha se não se têm registado no Guiness como o «maior clube do mundo»!
Assim, sábado passado, houve 2,1 milhões de portugueses tristes com o desfecho do jogo de Alvalade, e 2,4 milhões felizes. É que dantes também havia outro mito, no qual, eu, por exemplo fui educado: o de que o Sport Lisboa e Benfica seria sempre nosso adversário, mas, em reconhecimento pelo que a geração do Benfica de Eusébio deu a Portugal e ao futebol, mereceria sempre o nosso respeito. Isso acabou - acabou com Vale e Azevedo e com Luís Filipe Vieira. Agora, o Benfica de que nos lembramos é o do jogo «comprado» ao Estoril e transferido para o Algarve, do Paulo Madeira roubado ao Belenenses por meios indecorosos e tantos outros roubados à má-fila a clubes pequenos e sem defesa, o Benfica associado a Valentim Loureiro para dominar a Liga, o Benfica que gasta mais energias a tentar entrar na Champions pela porta do cavalo do que a tentar entrar pela porta grande. O Benfica cuja atitude de auto-proclamado fair-play e «moralização do futebol» pode ser exemplarmente reconhecível nesta frase do seu dirigente Sílvio Cervan, aqui escrita sexta-feira passada e a propósito do F.C.Porto-Rio Ave: «Carlos Brito não esperava que a 15 minutos do fim, mesmo com um penalty inventado, a sua equipa estivesse empatada no Dragão. Por isso mandou os rapazes subirem no terreno, tanto quanto necessário para não pontuar, e assim ficarem quase todos satisfeitos e com emprego». Não é preciso tradução, pois não?
4- Do jogo de Alvalade, para além da felicidade causada a 2,4 milhões de portugueses, além de quatro belos golos e de mais uma exibição de luxo de Liedson, resultou ainda outra coisa positiva: Olegário Benquerença já não tem razões para continuar a figurar na extensíssima lista de árbitros que o Benfica gostaria de mandar exilar, por declarada desonestidade. Ele, que há quatro anos atrás foi excomungado na Luz porque, a 50 metros de distância, não viu se a bola rematada do meio-campo por Petit entrou ou não na baliza de Baía, não viu agora, a cinco metros de distância, Maxi Pereira levantar o braço para cortar um remate que ia direitinho para golo. Merece, pelo menos, um perdão provisório...
De resto e tirando o golaço de Liedson, a primeira parte foi chata e mal jogada, mas a segunda valeu a pena, pela categórica demonstração de vontade e classe do Sporting. Merecia um resultado melhor e até pode acontecer que aquele golo desmancha-prazeres de Cardozo (também magnífico) venha a ter consequências determinantes, se Sporting e Benfica acabarem o campeonato em igualdade pontual...
Pelo que vi o Sporting fazer, e sabendo que Paulo Bento costuma trocar tranquilamente as voltas a Jesualdo Ferreira, fiquei bastante apreensivo para o jogo do Dragão, no próximo sábado. É, de facto, um período decisivo para leões e dragões. O Sporting começou-o em grande estilo, com as vitórias contra Belenenses e Benfica. O F.C.Porto começou-o em estilo «tem-te não caias». Veremos como o acabam.
5- E prossegue a descida aos infernos do V. Guimarães. Há beijos que são mesmo de morte. O do Benfica foi-o. É o que costuma acontecer quando se trocam velhas amizades por interesses e amigos de ocasião...
Já o Braga faz o percurso inverso e colhe os frutos da investida do Vitória contra o F.C.Porto. Pinto da Costa deu-lhes, de graça, o Luís Aguiar e o Alan; emprestou-lhes o Renteria, pagando ainda parte do ordenado; e dispôs-se a pagar o ordenado ao Andrés Madrid, que vegetava sem utilidade na reserva do Braga e agora vegeta na do Porto. Isto, sim, é que é um amigo!
Ao contrário do que sucedeu na fase de grupos, desta vez a tarefa do Sporting parece mais complicada que a do F.C.Porto. Em teoria, pelo menos, o Bayern de Munich é osso mais duro de roer do que o Atlético de Madrid. Mas esta noite em Madrid, para conseguir sair com um resultado que alimente todas as esperanças para o jogo de retribuição no Dragão, o F.C.Porto vai ter que mostrar muito mais futebol e consistência do que aquilo que vem mostrando por cá nos últimos jogos. Só com Bruno Alves atrás e Hulk na frente é difícil chegar para esta encomenda. Vai ser necessário que jogadores como Lisandro, Lucho, Rodriguéz, Meireles, estejam ao seu melhor nível, ou melhor, pelo menos, do que têm estado. Até porque, como se tem andado a ver exuberantemente, este F.C.Porto que deitou fora jogadores de valor seguro e desprezou promessas que despontavam, não tem «banco» à altura das ambições: não há um só suplente de categoria indiscutível, seja para a defesa, para o meio-campo ou para o ataque. São aqueles onze e nada mais. E, quando digo onze, já estou a ser generoso...
Todavia, estou cheio de fé para hoje, porque conto com duas coisas a favor desta equipa: a sua experiência internacional e a capacidade de se agigantar nestes jogos e de mostrar uma personalidade que ninguém mais em Portugal consegue ter.
2- Avisadamente, aliás, o Benfica (depois de ter exibido, uma vez mais, a sua confrangedora falta de classe em jogos europeus, esta época), está já a ensaiar a tentativa de entrar para o ano na Champions pela porta dos fundos, à custa do F.C.Porto e precavendo a hipótese de o não conseguir no terreno de jogo do campeonato. Para que a vergonha seja completa, sustenta-se na confirmação da decisão do CD da Liga, que condenou o F.C.Porto por tentativa de corrupção no jogo com o Estrela, em 2004. Uma decisão que surgiu dias depois de o Tribunal da Relação ter confirmado, por sua vez, a sentença do Tribunal Criminal do Porto que julgou tal acusação sem qualquer fundamento, e semanas depois de o Supremo Tribunal Administrativo ter decidido que obviamente (basta ler a Constituição...) as escutas telefónicas, admitindo que faziam alguma prova no caso, não podem ser utilizadas em simples processos disciplinares (sob pena de um patrão poder despedir um empregado com base em escutas telefónicas...). Ou seja, o CD da Liga - esse órgão que faz «justiça» sem sequer ouvir a sua principal testemunha e, menos ainda, admitir o seu contra-interrogatório - permite-se a arrogância de manter as suas decisões, mesmo depois de ver dois tribunais superiores desfazerem as duas «provas» em que se sustentou: uma, por não ser aplicável; outra por não merecer credibilidade alguma. Como é que o Benfica vai explicar isto ao amigo Platini?
Entretanto, também dava jeito que o Lisandro fosse suspenso por «simulação», o Bruno Alves por jogo violento ou qualquer outra razão, e, no limite, nada funcionando, que o governo fizesse sair um decreto-lei declarando o Benfica campeão nacional.
3- Já tinha morrido o mito do Benfica grande potência europeia e com um prestígio internacional a perder de vista (basta viajar para o constatar). Agora, com o estudo dos alemães da Sport Markt, morreu o mito do Benfica dos seis milhões de adeptos cá dentro: afinal, são só 2,1 milhões, contra 1,3 milhões de portistas e 1,1 milhões de sportinguistas. Olha se não se têm registado no Guiness como o «maior clube do mundo»!
Assim, sábado passado, houve 2,1 milhões de portugueses tristes com o desfecho do jogo de Alvalade, e 2,4 milhões felizes. É que dantes também havia outro mito, no qual, eu, por exemplo fui educado: o de que o Sport Lisboa e Benfica seria sempre nosso adversário, mas, em reconhecimento pelo que a geração do Benfica de Eusébio deu a Portugal e ao futebol, mereceria sempre o nosso respeito. Isso acabou - acabou com Vale e Azevedo e com Luís Filipe Vieira. Agora, o Benfica de que nos lembramos é o do jogo «comprado» ao Estoril e transferido para o Algarve, do Paulo Madeira roubado ao Belenenses por meios indecorosos e tantos outros roubados à má-fila a clubes pequenos e sem defesa, o Benfica associado a Valentim Loureiro para dominar a Liga, o Benfica que gasta mais energias a tentar entrar na Champions pela porta do cavalo do que a tentar entrar pela porta grande. O Benfica cuja atitude de auto-proclamado fair-play e «moralização do futebol» pode ser exemplarmente reconhecível nesta frase do seu dirigente Sílvio Cervan, aqui escrita sexta-feira passada e a propósito do F.C.Porto-Rio Ave: «Carlos Brito não esperava que a 15 minutos do fim, mesmo com um penalty inventado, a sua equipa estivesse empatada no Dragão. Por isso mandou os rapazes subirem no terreno, tanto quanto necessário para não pontuar, e assim ficarem quase todos satisfeitos e com emprego». Não é preciso tradução, pois não?
4- Do jogo de Alvalade, para além da felicidade causada a 2,4 milhões de portugueses, além de quatro belos golos e de mais uma exibição de luxo de Liedson, resultou ainda outra coisa positiva: Olegário Benquerença já não tem razões para continuar a figurar na extensíssima lista de árbitros que o Benfica gostaria de mandar exilar, por declarada desonestidade. Ele, que há quatro anos atrás foi excomungado na Luz porque, a 50 metros de distância, não viu se a bola rematada do meio-campo por Petit entrou ou não na baliza de Baía, não viu agora, a cinco metros de distância, Maxi Pereira levantar o braço para cortar um remate que ia direitinho para golo. Merece, pelo menos, um perdão provisório...
De resto e tirando o golaço de Liedson, a primeira parte foi chata e mal jogada, mas a segunda valeu a pena, pela categórica demonstração de vontade e classe do Sporting. Merecia um resultado melhor e até pode acontecer que aquele golo desmancha-prazeres de Cardozo (também magnífico) venha a ter consequências determinantes, se Sporting e Benfica acabarem o campeonato em igualdade pontual...
Pelo que vi o Sporting fazer, e sabendo que Paulo Bento costuma trocar tranquilamente as voltas a Jesualdo Ferreira, fiquei bastante apreensivo para o jogo do Dragão, no próximo sábado. É, de facto, um período decisivo para leões e dragões. O Sporting começou-o em grande estilo, com as vitórias contra Belenenses e Benfica. O F.C.Porto começou-o em estilo «tem-te não caias». Veremos como o acabam.
5- E prossegue a descida aos infernos do V. Guimarães. Há beijos que são mesmo de morte. O do Benfica foi-o. É o que costuma acontecer quando se trocam velhas amizades por interesses e amigos de ocasião...
Já o Braga faz o percurso inverso e colhe os frutos da investida do Vitória contra o F.C.Porto. Pinto da Costa deu-lhes, de graça, o Luís Aguiar e o Alan; emprestou-lhes o Renteria, pagando ainda parte do ordenado; e dispôs-se a pagar o ordenado ao Andrés Madrid, que vegetava sem utilidade na reserva do Braga e agora vegeta na do Porto. Isto, sim, é que é um amigo!
segunda-feira, fevereiro 23, 2009
DE FORMA ALGUMA CREDÍVEL (17 FEVEREIRO 2009)
1- Quinta-feira foi um dia aziago para alguns ilustres benfiquistas e para alguns defensores do Estado da Calúnia contra o Estado de Direito: o Tribunal da Relação do Porto, por voto unânime dos três desembargadores, confirmou a sentença do tribunal de primeira instancia que mandou arquivar o célebre «caso da fruta», envolvendo o jogo F.C.Porto-Estrela da Amadora (2-0), de 2004, peça central do Apito Dourado. E mandou arquivar porque julgou que a prova decisiva em que se baseava a acusação do Ministério Público - o testemunho de Carolina Salgado - «como é bom de ver, não é de forma alguma credível» e, pelo contrario, não podia nunca ser julgado isento. E, quanto aos supostos «erros de arbitragem» que, segundo o MP, teriam favorecido o F.C.Porto (num jogo que já só era a feijões), a Relação julgou que «eles não são mais do que aqueles que os agentes de investigação consideraram...por conjectura ou imaginação...e não o resultado da perícia e das declarações dos peritos». E, acrescentaram os juízes, o que a peritagem concluíu foi que «nenhum dos lances que originaram os golos do F.C.Porto foram precedidos de erros de arbitragem» e, por isso, nunca a acusação poderia concluir que os erros ocorridos «são causa adequada do resultado final quando favorecem o F.C.Porto, e completamente inóquos quando favorecem o Estrela da Amadora».
Para quem sabe ler, o que os desembargadores dizem é que toda a acusação se baseou em preconceitos clubisticos e assentou na credibilidade de uma testemunha que, de todo, a não merece. Ando a escrever isto há dois anos, mas há quem ache que a justiça dos tribunais não presta, a do Comissão Disciplinar da Liga - onde os juízes são escolhidos por influências dos clubes, onde se julga sem contraditório e sem sequer ouvir testemunhas - essa, sim, é que é a verdadeira. Foi isso, por exemplo, que José Manuel Delgado quiz dizer, num elucidativo texto aqui, sábado passado e acompanhando uma resumida notícia sobre a sentença da Relação, e no qual ele defendia nas entrelinhas que é uma chatice que a justiça comum tarde em render-se à campanha de moralização do futebol português, tão exemplarmente encabeçada pelo exemplar Sr. Vieira.
Mas convém recordar que este processo da «fruta» já antes tinha sido investigado pelo MP e arquivado por absoluta falta de indícios probatórios. Foi então que o Dr. Pinto Monteiro, acabado de ser nomeado Procurador-Geral da República e interrogado sobre o «livro» «de» Carolina Salgado, respondeu que ia mandar investigar o que lá vinha - assim lhe conferindo, logo, uma credibilidade que não podia saber se a coisa justificava. E nomeou, perante o aplauso de toda a nação benfiquista, uma task-force encabeçada pela Dr.ª Maria José Morgado para investigar o F.C.Porto e Pinto da Costa - e apenas eles. E a Dr.ª Morgado agarrou-se à pretensa «testemunha» como se Deus falasse pela boca dela. Gastou aos contribuintes milhares e milhares de euros a fazer «proteger» a sua testemunha, dia e noite, por dois seguranças cuja verdadeira função era a de fazer crer que ela poderia estar ameaçada, tal era a importância daquilo que sabia. E obrigou o MP do Porto a reabrir o processo e levar uma acusação a tribunal. O tribunal respondeu com a não-pronúncia dos réus e, vexame máximo, ainda mandou abrir um processo contra Carolina Salgado por crime de «falsidade de testemunho agravado». A Dr.ª Morgado entendeu recorrer para a Relação e a Relação acaba de lhe dar a resposta que merecia e que, houvesse algum sentido de responsabilidade, deveria levar o Sr. Procurador-Geral e a Sr.ª Procuradora, pelo menos, a pedir desculpas públicas.
Mas, não. Tudo continuará na mesma. Como se nada se tivesse passado, continuarão a escrever sobre o «Apito Dourado» e a «fruta» como verdade estabelecida, continuarão a tentar que a «justiça desportiva» consiga excluir o F.C.Porto da Liga dos Campeões, em benefício do Benfica. E o Sr. Vieira, verdadeiro criador da criatura caída em descrédito e genuíno paradigma do fair-play, continuará a dizer que a hegemonia do F.C. Porto nos últimos 20 anos se deve apenas a batota. Como aliás o demonstra a comparação entre as carreiras europeias do Benfica e do FC Porto nos últimos 20 anos...
2- Tive o saudável bom-senso de me pirar daqui na altura crítica deste clima de histeria, quando, no espaço de doze dias, ao F.C.Porto coube defrontar os três clubes de Lisboa: Belenenses, Benfica e Sporting. Dos três jogos só soube à distância e não vi nada, depois, senão os dois cruciais lances do Dragão. Mas deixei os jornais guardados e fartei-me de sorrir ao lê-los. E então, do pouco que vi e li, constatei o seguinte:
- em Alvalade, houve dois penalties do Sporting contra o Porto, que viraram o resultado (há trinta anos que é assim...). Na página 11 da edição de 5/02 de A BOLA vêm as respectivas fotografias. Na primeira, não se vê rigorosamente nada que possa justificar um penalty, mas a legenda diz que se deve «dar o benefício da dúvida ao árbitro». Na segunda, vê-se o Sapunaru no chão, com uma mão pousada suavemente sobre a anca de Postiga e a legenda reza que foi «penalty claro» (a fazer lembrar a mão pousada no ombro do João Moutinho e que também foi «penalty claro» no Sporting-Porto para o campeonato);
- na edição de 9/02, vêm duas fotografias do penalty do Dragão, onde, tal como nas imagens televisivas, se vê claramente a mão de Yebda tentando travar Lisandro pela barriga. A legenda, porém, diz que foi só um «toque» e quando ele já estava em queda (a cuja não se vê de todo). Ora, eu até concedo que aquela mãozinha não chegasse para justificar um penalty; o que não percebo é como é que os três penalties de Alvalade são claros ou merecem o benefício da dúvida e aquele seja um «roubo» evidente...
- evidente, evidente, é que aos 19 minutos do jogo do Dragão, Reyes rasteirou Lucho dentro da área. Ele foi ao chão e levantou-se, prosseguindo a jogada e dando ao árbitro mais do que tempo para se lembrar de que não há lei da vantagem em caso de penalty. Ou seja, o árbitro do Dragão errou primeiro contra o F.C.Porto e depois contra o Benfica. Não entendi, assim, porque fizeram desta arbitragem mais um caso para o «Apito Dourado» e porquê que o José Manuel Delgado teve logo de ir ouvir Luís Filipe Vieira em mais uma «entrevista exclusiva», para dizer o mesmo de sempre - ele, que até nem vê os jogos.
3- E anteontem, infelizmente (eu odeio penalties, desde a infância, onde enjoei de os ver na Luz e em Alvalade e sempre, sempre, para o mesmo lado...), um F.C.Porto com um ataque reduzido ao génio de Hulk e à absoluta inutilidade de Mariano e Farias, só conseguiu inaugurar o marcador contra o último classificado e no Dragão, através de um penalty que, vendo na televisão, ninguém de boa-fé pode dizer se existiu ou não.
Mas logo estava a receber uma mensagem de um amigo benfiquista garantindo que, na sua televisão, tinha sido mais um «roubo» evidente. E, embora três minutos depois, só o árbitro e o fiscal-de-linha não tenham visto a bola dentro da baliza do Rio Ave, seguiu-se nova mensagem a garantir-me que também aquele árbitro estava comprado. Depois do Benfica-Porto, li alguns benfiquistas queixarem-se de que tinham sido vítimas do «excesso de isenção» de um árbitro sabidamente benfiquista. Mas, curiosamente, só se queixaram da nomeação depois e não antes do jogo: antes, não lhes ocorreu estranhar que para um Porto-Benfica onde muito do campeonato se podia decidir, tenham escolhido um árbitro que é sócio do Benfica. Olha se fosse sócio do Porto, o que não diriam!
Aliás, acho que seria útil que a direcção do Benfica encarregasse o João Gabriel de anunciar publicamente a short-list dos raríssimos árbitros que, à imagem do seu próprio presidente, consideram sérios. E Vítor Pereira faria o favor de só nomear esses dois ou três para todos os jogos do Benfica e do Porto.
Para quem sabe ler, o que os desembargadores dizem é que toda a acusação se baseou em preconceitos clubisticos e assentou na credibilidade de uma testemunha que, de todo, a não merece. Ando a escrever isto há dois anos, mas há quem ache que a justiça dos tribunais não presta, a do Comissão Disciplinar da Liga - onde os juízes são escolhidos por influências dos clubes, onde se julga sem contraditório e sem sequer ouvir testemunhas - essa, sim, é que é a verdadeira. Foi isso, por exemplo, que José Manuel Delgado quiz dizer, num elucidativo texto aqui, sábado passado e acompanhando uma resumida notícia sobre a sentença da Relação, e no qual ele defendia nas entrelinhas que é uma chatice que a justiça comum tarde em render-se à campanha de moralização do futebol português, tão exemplarmente encabeçada pelo exemplar Sr. Vieira.
Mas convém recordar que este processo da «fruta» já antes tinha sido investigado pelo MP e arquivado por absoluta falta de indícios probatórios. Foi então que o Dr. Pinto Monteiro, acabado de ser nomeado Procurador-Geral da República e interrogado sobre o «livro» «de» Carolina Salgado, respondeu que ia mandar investigar o que lá vinha - assim lhe conferindo, logo, uma credibilidade que não podia saber se a coisa justificava. E nomeou, perante o aplauso de toda a nação benfiquista, uma task-force encabeçada pela Dr.ª Maria José Morgado para investigar o F.C.Porto e Pinto da Costa - e apenas eles. E a Dr.ª Morgado agarrou-se à pretensa «testemunha» como se Deus falasse pela boca dela. Gastou aos contribuintes milhares e milhares de euros a fazer «proteger» a sua testemunha, dia e noite, por dois seguranças cuja verdadeira função era a de fazer crer que ela poderia estar ameaçada, tal era a importância daquilo que sabia. E obrigou o MP do Porto a reabrir o processo e levar uma acusação a tribunal. O tribunal respondeu com a não-pronúncia dos réus e, vexame máximo, ainda mandou abrir um processo contra Carolina Salgado por crime de «falsidade de testemunho agravado». A Dr.ª Morgado entendeu recorrer para a Relação e a Relação acaba de lhe dar a resposta que merecia e que, houvesse algum sentido de responsabilidade, deveria levar o Sr. Procurador-Geral e a Sr.ª Procuradora, pelo menos, a pedir desculpas públicas.
Mas, não. Tudo continuará na mesma. Como se nada se tivesse passado, continuarão a escrever sobre o «Apito Dourado» e a «fruta» como verdade estabelecida, continuarão a tentar que a «justiça desportiva» consiga excluir o F.C.Porto da Liga dos Campeões, em benefício do Benfica. E o Sr. Vieira, verdadeiro criador da criatura caída em descrédito e genuíno paradigma do fair-play, continuará a dizer que a hegemonia do F.C. Porto nos últimos 20 anos se deve apenas a batota. Como aliás o demonstra a comparação entre as carreiras europeias do Benfica e do FC Porto nos últimos 20 anos...
2- Tive o saudável bom-senso de me pirar daqui na altura crítica deste clima de histeria, quando, no espaço de doze dias, ao F.C.Porto coube defrontar os três clubes de Lisboa: Belenenses, Benfica e Sporting. Dos três jogos só soube à distância e não vi nada, depois, senão os dois cruciais lances do Dragão. Mas deixei os jornais guardados e fartei-me de sorrir ao lê-los. E então, do pouco que vi e li, constatei o seguinte:
- em Alvalade, houve dois penalties do Sporting contra o Porto, que viraram o resultado (há trinta anos que é assim...). Na página 11 da edição de 5/02 de A BOLA vêm as respectivas fotografias. Na primeira, não se vê rigorosamente nada que possa justificar um penalty, mas a legenda diz que se deve «dar o benefício da dúvida ao árbitro». Na segunda, vê-se o Sapunaru no chão, com uma mão pousada suavemente sobre a anca de Postiga e a legenda reza que foi «penalty claro» (a fazer lembrar a mão pousada no ombro do João Moutinho e que também foi «penalty claro» no Sporting-Porto para o campeonato);
- na edição de 9/02, vêm duas fotografias do penalty do Dragão, onde, tal como nas imagens televisivas, se vê claramente a mão de Yebda tentando travar Lisandro pela barriga. A legenda, porém, diz que foi só um «toque» e quando ele já estava em queda (a cuja não se vê de todo). Ora, eu até concedo que aquela mãozinha não chegasse para justificar um penalty; o que não percebo é como é que os três penalties de Alvalade são claros ou merecem o benefício da dúvida e aquele seja um «roubo» evidente...
- evidente, evidente, é que aos 19 minutos do jogo do Dragão, Reyes rasteirou Lucho dentro da área. Ele foi ao chão e levantou-se, prosseguindo a jogada e dando ao árbitro mais do que tempo para se lembrar de que não há lei da vantagem em caso de penalty. Ou seja, o árbitro do Dragão errou primeiro contra o F.C.Porto e depois contra o Benfica. Não entendi, assim, porque fizeram desta arbitragem mais um caso para o «Apito Dourado» e porquê que o José Manuel Delgado teve logo de ir ouvir Luís Filipe Vieira em mais uma «entrevista exclusiva», para dizer o mesmo de sempre - ele, que até nem vê os jogos.
3- E anteontem, infelizmente (eu odeio penalties, desde a infância, onde enjoei de os ver na Luz e em Alvalade e sempre, sempre, para o mesmo lado...), um F.C.Porto com um ataque reduzido ao génio de Hulk e à absoluta inutilidade de Mariano e Farias, só conseguiu inaugurar o marcador contra o último classificado e no Dragão, através de um penalty que, vendo na televisão, ninguém de boa-fé pode dizer se existiu ou não.
Mas logo estava a receber uma mensagem de um amigo benfiquista garantindo que, na sua televisão, tinha sido mais um «roubo» evidente. E, embora três minutos depois, só o árbitro e o fiscal-de-linha não tenham visto a bola dentro da baliza do Rio Ave, seguiu-se nova mensagem a garantir-me que também aquele árbitro estava comprado. Depois do Benfica-Porto, li alguns benfiquistas queixarem-se de que tinham sido vítimas do «excesso de isenção» de um árbitro sabidamente benfiquista. Mas, curiosamente, só se queixaram da nomeação depois e não antes do jogo: antes, não lhes ocorreu estranhar que para um Porto-Benfica onde muito do campeonato se podia decidir, tenham escolhido um árbitro que é sócio do Benfica. Olha se fosse sócio do Porto, o que não diriam!
Aliás, acho que seria útil que a direcção do Benfica encarregasse o João Gabriel de anunciar publicamente a short-list dos raríssimos árbitros que, à imagem do seu próprio presidente, consideram sérios. E Vítor Pereira faria o favor de só nomear esses dois ou três para todos os jogos do Benfica e do Porto.