segunda-feira, fevereiro 23, 2009

DE FORMA ALGUMA CREDÍVEL (17 FEVEREIRO 2009)

1- Quinta-feira foi um dia aziago para alguns ilustres benfiquistas e para alguns defensores do Estado da Calúnia contra o Estado de Direito: o Tribunal da Relação do Porto, por voto unânime dos três desembargadores, confirmou a sentença do tribunal de primeira instancia que mandou arquivar o célebre «caso da fruta», envolvendo o jogo F.C.Porto-Estrela da Amadora (2-0), de 2004, peça central do Apito Dourado. E mandou arquivar porque julgou que a prova decisiva em que se baseava a acusação do Ministério Público - o testemunho de Carolina Salgado - «como é bom de ver, não é de forma alguma credível» e, pelo contrario, não podia nunca ser julgado isento. E, quanto aos supostos «erros de arbitragem» que, segundo o MP, teriam favorecido o F.C.Porto (num jogo que já só era a feijões), a Relação julgou que «eles não são mais do que aqueles que os agentes de investigação consideraram...por conjectura ou imaginação...e não o resultado da perícia e das declarações dos peritos». E, acrescentaram os juízes, o que a peritagem concluíu foi que «nenhum dos lances que originaram os golos do F.C.Porto foram precedidos de erros de arbitragem» e, por isso, nunca a acusação poderia concluir que os erros ocorridos «são causa adequada do resultado final quando favorecem o F.C.Porto, e completamente inóquos quando favorecem o Estrela da Amadora».

Para quem sabe ler, o que os desembargadores dizem é que toda a acusação se baseou em preconceitos clubisticos e assentou na credibilidade de uma testemunha que, de todo, a não merece. Ando a escrever isto há dois anos, mas há quem ache que a justiça dos tribunais não presta, a do Comissão Disciplinar da Liga - onde os juízes são escolhidos por influências dos clubes, onde se julga sem contraditório e sem sequer ouvir testemunhas - essa, sim, é que é a verdadeira. Foi isso, por exemplo, que José Manuel Delgado quiz dizer, num elucidativo texto aqui, sábado passado e acompanhando uma resumida notícia sobre a sentença da Relação, e no qual ele defendia nas entrelinhas que é uma chatice que a justiça comum tarde em render-se à campanha de moralização do futebol português, tão exemplarmente encabeçada pelo exemplar Sr. Vieira.

Mas convém recordar que este processo da «fruta» já antes tinha sido investigado pelo MP e arquivado por absoluta falta de indícios probatórios. Foi então que o Dr. Pinto Monteiro, acabado de ser nomeado Procurador-Geral da República e interrogado sobre o «livro» «de» Carolina Salgado, respondeu que ia mandar investigar o que lá vinha - assim lhe conferindo, logo, uma credibilidade que não podia saber se a coisa justificava. E nomeou, perante o aplauso de toda a nação benfiquista, uma task-force encabeçada pela Dr.ª Maria José Morgado para investigar o F.C.Porto e Pinto da Costa - e apenas eles. E a Dr.ª Morgado agarrou-se à pretensa «testemunha» como se Deus falasse pela boca dela. Gastou aos contribuintes milhares e milhares de euros a fazer «proteger» a sua testemunha, dia e noite, por dois seguranças cuja verdadeira função era a de fazer crer que ela poderia estar ameaçada, tal era a importância daquilo que sabia. E obrigou o MP do Porto a reabrir o processo e levar uma acusação a tribunal. O tribunal respondeu com a não-﷓pronúncia dos réus e, vexame máximo, ainda mandou abrir um processo contra Carolina Salgado por crime de «falsidade de testemunho agravado». A Dr.ª Morgado entendeu recorrer para a Relação e a Relação acaba de lhe dar a resposta que merecia e que, houvesse algum sentido de responsabilidade, deveria levar o Sr. Procurador-Geral e a Sr.ª Procuradora, pelo menos, a pedir desculpas públicas.

Mas, não. Tudo continuará na mesma. Como se nada se tivesse passado, continuarão a escrever sobre o «Apito Dourado» e a «fruta» como verdade estabelecida, continuarão a tentar que a «justiça desportiva» consiga excluir o F.C.Porto da Liga dos Campeões, em benefício do Benfica. E o Sr. Vieira, verdadeiro criador da criatura caída em descrédito e genuíno paradigma do fair-play, continuará a dizer que a hegemonia do F.C. Porto nos últimos 20 anos se deve apenas a batota. Como aliás o demonstra a comparação entre as carreiras europeias do Benfica e do FC Porto nos últimos 20 anos...



2- Tive o saudável bom-senso de me pirar daqui na altura crítica deste clima de histeria, quando, no espaço de doze dias, ao F.C.Porto coube defrontar os três clubes de Lisboa: Belenenses, Benfica e Sporting. Dos três jogos só soube à distância e não vi nada, depois, senão os dois cruciais lances do Dragão. Mas deixei os jornais guardados e fartei-me de sorrir ao lê-los. E então, do pouco que vi e li, constatei o seguinte:

- em Alvalade, houve dois penalties do Sporting contra o Porto, que viraram o resultado (há trinta anos que é assim...). Na página 11 da edição de 5/02 de A BOLA vêm as respectivas fotografias. Na primeira, não se vê rigorosamente nada que possa justificar um penalty, mas a legenda diz que se deve «dar o benefício da dúvida ao árbitro». Na segunda, vê-se o Sapunaru no chão, com uma mão pousada suavemente sobre a anca de Postiga e a legenda reza que foi «penalty claro» (a fazer lembrar a mão pousada no ombro do João Moutinho e que também foi «penalty claro» no Sporting-Porto para o campeonato);

- na edição de 9/02, vêm duas fotografias do penalty do Dragão, onde, tal como nas imagens televisivas, se vê claramente a mão de Yebda tentando travar Lisandro pela barriga. A legenda, porém, diz que foi só um «toque» e quando ele já estava em queda (a cuja não se vê de todo). Ora, eu até concedo que aquela mãozinha não chegasse para justificar um penalty; o que não percebo é como é que os três penalties de Alvalade são claros ou merecem o benefício da dúvida e aquele seja um «roubo» evidente...

- evidente, evidente, é que aos 19 minutos do jogo do Dragão, Reyes rasteirou Lucho dentro da área. Ele foi ao chão e levantou-se, prosseguindo a jogada e dando ao árbitro mais do que tempo para se lembrar de que não há lei da vantagem em caso de penalty. Ou seja, o árbitro do Dragão errou primeiro contra o F.C.Porto e depois contra o Benfica. Não entendi, assim, porque fizeram desta arbitragem mais um caso para o «Apito Dourado» e porquê que o José Manuel Delgado teve logo de ir ouvir Luís Filipe Vieira em mais uma «entrevista exclusiva», para dizer o mesmo de sempre - ele, que até nem vê os jogos.



3- E anteontem, infelizmente (eu odeio penalties, desde a infância, onde enjoei de os ver na Luz e em Alvalade e sempre, sempre, para o mesmo lado...), um F.C.Porto com um ataque reduzido ao génio de Hulk e à absoluta inutilidade de Mariano e Farias, só conseguiu inaugurar o marcador contra o último classificado e no Dragão, através de um penalty que, vendo na televisão, ninguém de boa-fé pode dizer se existiu ou não.

Mas logo estava a receber uma mensagem de um amigo benfiquista garantindo que, na sua televisão, tinha sido mais um «roubo» evidente. E, embora três minutos depois, só o árbitro e o fiscal-de-linha não tenham visto a bola dentro da baliza do Rio Ave, seguiu-se nova mensagem a garantir-me que também aquele árbitro estava comprado. Depois do Benfica-Porto, li alguns benfiquistas queixarem-se de que tinham sido vítimas do «excesso de isenção» de um árbitro sabidamente benfiquista. Mas, curiosamente, só se queixaram da nomeação depois e não antes do jogo: antes, não lhes ocorreu estranhar que para um Porto-Benfica onde muito do campeonato se podia decidir, tenham escolhido um árbitro que é sócio do Benfica. Olha se fosse sócio do Porto, o que não diriam!

Aliás, acho que seria útil que a direcção do Benfica encarregasse o João Gabriel de anunciar publicamente a short-list dos raríssimos árbitros que, à imagem do seu próprio presidente, consideram sérios. E Vítor Pereira faria o favor de só nomear esses dois ou três para todos os jogos do Benfica e do Porto.

domingo, fevereiro 01, 2009

COM TODA A JUSTIÇA (27 JANEIRO 2009)

1- O FC Porto voltou à liderança do campeonato e voltou com toda a justiça, depois de ter vencido um verdadeiro jogo de candidatos ao título, como disse Jesualdo Ferreira. Nos jogos verdadeiramente difíceis - Luz, Alvalade, Choupana, Braga - isto é, na hora da verdade, o FC Porto soube sempre impor-se e só não triunfou na Luz por timidez e porque os últimos vinte minutos de jogo praticamente não existiram, com os jogadores do Benfica permanentemente deitados no chão, com cãibras ou distensões musculares.

Dizem os benfiquistas que o FC Porto ganhou em Braga graças ao árbitro. É preciso ter lata! Ainda só passou uma jornada desde que o FC Porto perdeu para o Benfica cinco pontos de uma assentada (!), devido a erros de arbitragem, (três ganhos pelo Benfica ao Braga, num jogo que devia e merecia ter perdido, e dois perdidos pelo FC Porto contra o Trofense, quando o árbitro fez vista grossa a uma clara grande penalidade a sete minutos do fim), e já eles puseram o contador a zeros e querem escrever a história à sua maneira!

Dizem que o golo inaugural do FC Porto tem origem num off-side: é verdade, sim senhor. Mas este off-side não teve nada a ver com o que deu a vitória ao Benfica contra o mesmo Braga: primeiro porque, neste, quem estava em off-side foi o jogador que assistiu e não o jogador que marcou; segundo, porque este só se detectou com a repetição em câmara lenta, e o outro viu-se a olho nu desde o início da jogada.

Mas têm razão neste ponto, embora, em contrapartida, se «esqueçam» de referir o golo anulado a Tomás Costa, por alegado off-side, quando havia três jogadores do Braga entre ele e a baliza. Seria o 0-3, ainda antes do intervalo, o que tornaria absolutamente inútil a discussão sobre os penalties da segunda parte.

Reclamam os benfiquistas e o presidente do Braga nada menos do que três penalties por assinalar contra o FC Porto. Destes, confesso que só vi dois passíveis de discussão. No primeiro reclamado, aos 79 minutos, o Meyong levanta a bola sobre o Helton mas para longe da baliza e onde não tinha qualquer hipótese de ir buscá-la. Depois ele, e o Helton chocam, mas gostava de saber porque viram o Helton a chocar deliberadamente com o Meyong e não o contrário. Certo é que bola já tinha passado direita à defesa do Porto, que a cortou. No minuto seguinte, houve um remate fora da área e Guarín terá posto mão à bola. Digo terá, porque nenhuma repetição televisiva conseguiu mostrar o lance com clareza, mas, tratando-se do Guárin, que já fez esta brincadeira duas vezes (não seria altura de Jesualdo lhe dar uma palavrinha?), até acredito que tenha mesmo sido penalty. Temos assim golo mal validado, golo mal invalidado e penalty por marcar. Resultado final se o árbitro tivesse decidido sempre bem: 2-1 a favor do FC Porto - partindo de princípio que o penalty seria convertido. Pontos ganhos pelo FC Porto devido a erros de arbitragem: zero. Vão cantar para outra paróquia...

Mas, acima de tudo, volto ao que aqui escrevi quando da grande barracada do jogo da Luz, há quinze dias: uma coisa é os erros de arbitragem desvirtuarem a verdade do jogo, outra é a verdade impor-se, mesmo que com um ou outro erro do árbitro. Exemplo: se o árbitro tem assinalado o penalty claro sobre o Lisandro, no jogo contra o Trofense, o FC Porto teria ganho. É fácil, assim, dizer que não ganhou por causa disso, mas essa é só uma maneira de ver as coisas. Para mim, não ganhou porque não soube ganhar. Ora, no jogo contra o Braga, o Benfica não mereceu ganhar de forma alguma e só o conseguiu graças a um golo falso e um penalty chocantemente ignorado pelo árbitro. Ao contrário, sábado passado, o FC Porto fez por merecer e mereceu ganhar.

O Braga entrou realmente a todo o gás e durante quinze minutos banalizou os azuis e brancos: tão certo como é certo que, apesar desse domínio, não criou nenhuma verdadeira ocasião de golo. E, depois, em três safanões de Hulk e uma oferta da defensiva do Braga, o FC Porto mostrou ao que vinha e pôs o adversário em sentido. Na segunda parte, o Braga voltou a ter o último quarto-de-hora final e aí, sim, criou duas opurtunidades de golo, que poderiam, se convertida alguma delas, ter tornado frenéticos os minutos finais. Mas, antes disso, houve meia-hora de avalanche portista, perdendo uma, duas, três oportunidades de deixar o adversário definitivamente KO. O Braga teve, pois, meia-hora de domínio, no quarto-de-hora inicial e no final, e a hora inteira entre esses dois períodos só deu Porto. Um Porto que eu gostei muito de ver jogar: esteve ao seu nível, ao nível de um verdadeiro candidato ao título, num dos jogos mais rápidos e mais bem jogados que vi este ano.


2- Ainda sobre o FC Porto: e lá se foi embora o meu «protegido» Candeias, para alimentar o rol infindável dos jogadores emprestados por esse grande grémio do norte. E para alimentar o rol dos «miúdos» a quem Jesualdo Ferreira não dá hipótese de evoluírem internamente, o rol dos jogadores portugueses preteridos e o rol dos extremos de que se livrou este ano: de memória, lembro-me, além de Candeias, do Vieirinha, do Alan, do Pitbull, mais o Quaresma, claro, de quem a SAD o livrou. E, depois de cinco extremos dispensados, restando só o Tarik, para sempre perdido nas brumas do Ramadão, e o Mariano González, maravilha fatal da nossa idade, como diria Camões, eis que se anuncia que o FC Porto quer «ir ao mercado» para comprar um extremo. Palavra de honra? Continua o mesmo regabofe de sempre: comprar para emprestar, emprestar para comprar?


3- São questões deles, que não me dizem respeito nem me interessam por aí além. Mas, como simples espectador, não consigo perceber o enfado de Quique Flores para com José Antonio Reyes. A mim, vendo de fora, parece-me que Reyes é dos mais esforçados e esclarecidos jogadores do Benfica actual. Quem eu não consigo perceber é o Aimar, que tem tiques de vedeta e não marca um golo há ano e meio nem se vê como o irá conseguir: no Restelo falhou dois certos e, contra o Braga, falhou um. E o tão incensado Di María, que parece que só joga bem vinte minutos se estiver o Maradona na bancada, trinta se estiver o Pélé e um jogo inteiro se tiver a Selecção da FIFA a vê-lo jogar. Mas, como digo, é entre eles.


4- Prossegue o afastamento dos relvados de Ricardo Quaresma, findo que parece estar o período de graça que José Mourinho lhe concedeu. E o exílio interno no Inter valeu-lhe já, por extensão, também o exílio na Selecção de Carlos Queiroz. Caramba, o que estará a sentir e a pensar um jogador como Ricardo Quaresma, que tem verdadeira fome de bola e que se habituara a ser considerado o melhor da Liga portuguesa e que agora já se pode dar por feliz quando não é mandado ver o jogo para a bancada? Escrevi aqui muito sobre esta possibilidade, antes de consumada a transferência, que se revelou desastrosa para o clube e está a ser frustrante para o jogador. E não sinto nenhum conforto em ter tido razão, pelo menos até agora. Pelo contrário, tenho pena porque o futebol português não tem assim tantos talentos puros para descartar um Ricardo Quaresma que ninguém vê jogar há meses. E porque Quaresma tem uma forma muito especial e empolgante de jogar que faz falta ao futebol - e de que no Inter, sob o crivo implacável da imprensa e dos adeptos, se viu obrigado a abdicar, com medo de falhar e atrair as críticas. Foi assim, aliás, que ele caiu num círculo vicioso: abdicou dos seus números de magia para evitar críticas, e, abdicando deles, tornou-se um jogador banal e previsível, que não consegue marcar a diferença para justificar um lugar na equipa. Pelo menos, é isto que eu vejo de fora. Mas espero bem que José Mourinho não deixe morrer o talento de Ricardo Quaresma - «morto» pelos milhões do Inter.

O QUE SE HÁ-DE FAZER? (20 JANEIRO 2009)

1- Realmente, esta Taça da Liga, ou o modelo dela, não tem grande futuro. Financeiramente, duvido que um só clube ganhe coisa que se veja com a dita Taça. Desportivamente, o seu interesse só poderá existir para quem, a esta altura da época, já pouco mais objectivos tem a conquistar. Servirá talvez para rodar jogadores, experimentar miúdos vindos das camadas jovens e pouco mais.

Concordo com o José Manuel Delgado que o grosso da Taça da Liga deveria ser jogado logo em Agosto, à saída do «defeso», quando as pessoas já estão com saudades de bola, quando há emigrantes em férias e turistas por aqui que sempre podem ajudar a aumentar as assistências, e quando os treinadores precisam de experimentar todos os jogadores e definir ideias para a nova época. Seria bem mais interessante que aqueles desinteressantes jogos de pré-temporada, disfarçados de «Torneio do Guadiana» ou coisa que o valha.

Pelo que li, as assistências para esta fase de grupos da Taça da Liga variaram entre as 50 (!) e as 35 000 pessoas que foram ver o Bruno Paixão-Belenenses, no Estádio da Luz. Nos dois jogos do Dragão, ainda assim, houve duas casas bem razoáveis, para ver a reserva do FC Porto contra o Vitória de Setúbal (12 000), ou um misto do FCP contra a Académica (18 000). Já o mesmo não aconteceu em Alvalade, onde os dois jogos não chegaram à casa dos dez mil espectadores e o último foi a segunda pior assistência desde que existe o Alvalade XXI. Pretendem que o sucesso de público no último jogo da Luz se deve ao horário diurno e porque o público tem saudades de jogos à tarde: há mesmo quem, respaldado neste único exemplo, preconize o regresso dos jogos à tarde. Discordo de ambas as coisas. Os 35 000 espectadores da Luz devem--se, sobretudo e em minha opinião, ao facto de o público benfiquista saber que não terá muito mais ocasiões de ver a sua equipa em competição este ano e que esta Taça da Liga parece ter sido desenhada à medida das ambições e frustrações do seu clube. Por outro lado, e contra-corrente, eu defendo os jogos à noite: nos dias de fim-de-semana, porque há coisas bem mais interessantes para fazer do que passar uma tarde a ver futebol e já lá vai o tempo em que os maridos iam para o estádio ver o jogo e as mulheres ficavam no carro a fazer tricot. E aos dias de semana porque, tirando aqueles doentes que habitam o dia inteiro à porta dos estádios, a gente normal trabalha durante o dia. Deixem estar os jogos assim, que estão muito bem!

Entretanto, esta é a Taça da Liga que temos e que assim chegou a umas meias-finais de acordo com a programação feita: com os três grandes ainda em prova e incluindo os quatro primeiros do anterior campeonato. Segundo li aqui, a própria «Bola» só descobriu mediante uma consulta à Liga uma regra ad hoc de cuja existência ninguém tinha falado até aqui: os dois primeiros recebem o terceiro primeiro e o primeiro segundo, em lugar de um sorteio aberto, como na Taça de Portugal. Benfica e Sporting ficam em casa e FC Porto e Guimarães fazem o favor de vir à capital. Dificilmente se conseguiria fazer melhor para chegar à tão almejada final Benfica-Sporting. Agora, só falta mesmo nomear o Lucílio Baptista para Alvalade e o Paulo Baptista para a Luz (o Bruno Paixão fica guardado para a final).

É, de facto, uma competição interessantíssima.


2- Galileu Galilei passou à História por ter proferido uma das frases mais marcantes de sempre: «E pur si muove (E, todavia, move-se)». A terra movia-se em volta do sol, conforme ele sabia e tinha comprovado, e ao contrário da crença então dominante. Tal crença, porém, vinha desassossegar a verdade estabelecida pela Igreja e Galileu foi levado a julgamento e forçado a abjurar a sua crença. Mas, juram as testemunhas, que, ao retirar-se do tribunal, absolvido, ele murmurou entre dentes «e pur si muove». Só no ano passado a Santíssima Madre Igreja se dignou, cinco séculos depois, reconhecer a injustiça cometida para com Galileu: veja-se a excomunhão a que são votados os que ousam duvidar da verdade estabelecida como tal.

Deixem-me então murmurar também entre dentes e a propósito da consagração de Cristiano Ronaldo como melhor jogador do mundo para a FIFA: «E pur Messi...»


3- Cissokho é o 11.º lateral-esquerdo contratado pelo FC Porto nos últimos sete anos. É um lugar votado ao insucesso para os lados do Dragão: o último que por lá passou reunindo um mínimo de consenso mas sem chegar a aquecer o lugar, foi o Nuno Valente. Mas, eu, pessoalmente, nunca o achei jogador por aí além: para mim, o último defesa-esquerdo aceitável que o FC Porto teve foi Esquerdinha, e o último verdadeiramente grande foi o também brasileiro Branco - já quase na noite dos tempos. É, de facto, altura de acertar.

Entretanto, dizem-nos generosas vozes que «há muito mercado» para jogadores excedentários dos «dragões», tais como Stepanov, Farias, Adriano ou Bolatti. Pois, há muito mercado, mas eles continuam por ali eternamente e os únicos que se preparam mesmo para sair, emprestados, são os miúdos que mais prometem - Rabilola e Candeias. Há muito mercado, mas a verdade é que ninguém está disposto a arcar nem que seja com um terço dos fabulosos ordenados que, lá pelo Dragão, se pagam a jogadores do nível destes. E assim a SAD do FC Porto vai penando com os encargos ruinosos de jogadores que não servem mas que estão amarados por contratos de longa duração e ordenados de vedetas. Dizem, por exemplo, que a Grécia «chama» por Farias e que até há um clube grego que estará disposto a pagar os cinco milhões de euros que o FC Porto «exige» - embora, acrescenta-se, até só preferisse emprestá-lo. Sim, sim, e a minha avó só por azar não cantou ópera no Scala: por cinco milhões de euros, o FC Porto não só vendia o Farias, como ainda oferecia o Stepanov, o Bolatti, o Adriano e mais uns quantos, e até era capaz de pagar metade dos ordenados deles. E era uma grande poupança!


4- No FC Porto-Vitória Setúbal, para a Taça da Liga, o Leandro Lima - um dos quatro portistas ao serviço do Setúbal e um dos 30 ou 40 jogadores emprestados pelo FC Porto - falhou um penalty contra o «patrão». Foi quanto bastou para que um rol de ilustres benfiquistas se lançassem numa histeria de suspeitas sobre o rapaz, «esquecidos» que já estão do inesquecível jogo do Jorge Ribeiro no Boavista-Benfica do ano passado, poucos dias depois de o Benfica ter anunciado o interesse nos seus serviços - à semelhança do que fez com vários outros, sempre antes dos jogos contra os seus clubes.

Os ilustres benfiquistas «estranharam» que o Leandrinho tenha falhado o penalty que daria a igualdade ao Vitória, num jogo tão importante para os portistas que Jesualdo até meteu a reserva em campo. Mas já não estranharam que o árbitro do jogo tenha assinalado dois penalties contra o FC Porto e nenhum deles evidente, que o primeiro tenha sido convertido, vejam lá, pelo mesmo Leandro Lima, e que a critica tenha sido unânime em considerar que o melhor setubalense em campo foi... Leandro Lima. De que será que eles não desconfiam?

Por estas e por outras é que eu, mais uma vez ao arrepio da opinião correcta, sustento que os clubes que emprestam jogadores têm toda a legitimidade, contratual e ética, para não os deixar utilizar contra si. Além do mais, era a maneira de calar os maledicentes. Será que lhes ocorreu, um segundo que fosse, que as suas «estranhezas» são uma forma de caluniar um profissional? E o FC Porto empresta o jogador, paga-lhe o ordenado, ajuda outro clube, deixa-o utilizar o jogador contra quem lhe paga e ainda tem que levar com o escarcéu dos profissionais da desconfiança e maledicência?

segunda-feira, janeiro 19, 2009

ERROS MEUS, MÁ FORTUNA (13 JANEIRO 2009)

1- É assim o futebol: uma semana vai-se à frente, na outra passa-se para trás; numa semana joga-se bem e abre-se um sorriso onde cabem todas as esperanças, na outra desaba sobre nós um peso de chumbo e sai-se do estádio curvado à decepção; uma semana a culpa foi do árbitro, na outra foi ele quem nos salvou.

O regresso à normalidade que o FC Porto assegurara há oito dias foi de novo interrompido por mais um percalço caseiro, de todo fora das previsões. Porque tropeçou o FC Porto no Trofense? A meu ver, por três razões: falta de sorte, atitude do adversário e erros do treinador. Uma de cada vez.

Normalmente, quando um grande empata em casa a zero com uma equipa do fundo da tabela, já é clássico concluir que o melhor em campo foi o guarda-redes adversário. Não foi o caso do FC Porto-Trofense de anteontem: ao contrário do que sucedera contra o Benfica, o guarda-redes do Trofense, Paulo Lopes, não evitou nenhum golo nem chegou a fazer nenhuma grande defesa. Viu-se, sim, batido para golo um sem número de vezes e de todas escapou ileso: duas vezes porque os companheiros o substituíram na linha de golo, outra vez porque um jogador do FC Porto substituiu ele os defesas já batidos do Trofense, outra porque a bola beijou o poste e mais umas quatro vezes porque Rolando falhou todos os cabeceamentos para golo, nos inúmeros cantos de que os portistas dispuseram. Esse facto, por si só, mostra que o Trofense chamou a si toda a sorte do jogo e não deixou nada para os da casa.

À sorte, o Trofense juntou uma atitude que pode e deve ser chamada de anti-jogo. Com todo o respeito pela cidade da Trofa, com toda a compreensão pelo modesto mas honesto Trofense e com toda a compreensão para com quem se bate com orçamentos de pigmeu contra equipas com orçamentos de gigante, o tipo de jogo posto em cena pelos da Trofa é daqueles que fazem com que haja jogos entre primodivisionários com 600 ou 400 ou 200 pessoas a assistir. Em 90 minutos de futebol, o Trofense, não só não dispôs de uma única ocasião de golo, como também não conseguiu construir um único ataque ou contra-ataque digno desse nome. Em contrapartida, os seus jogadores chamaram quatro vezes a maca para os levar, chegaram a ficar caídos três ao mesmo tempo e, quando o capitão foi expulso, já nos descontos, demorou exactamente 1'40'' a sair de campo. Compreendo que Tulipa estivesse contente com o resultado, não compreendo que estivesse «orgulhoso» dos seus jogadores. Quando em mais de metade dos jogos, há sempre uma equipa que só quer jogar para o 0-0, não há volta a dar às bancadas desertas e à morte a prazo do futebol como espectáculo ao vivo. Não sou só eu que sei porque fico em casa.

À falta de sorte e ao anti-jogo do Trofense, juntaram-se as infelizes decisões de Jesualdo Ferreira, para explicarem o resultado final. Felizmente, há muito pouco tempo elogiei aqui o trabalho dele e proclamei-me seu apoiante - com a ressalva de que seria critico, quando o entendesse justo. É o caso.

Recuemos um pouco: Jesualdo Ferreira (conforme o notei logo no início da época), não dispõe de extremos, porque os dispensou todos. O único extremo verdadeiro que tem, que é Candeias, vive afastado, a caminho de mais um empréstimo, por falta de oportunidades de crescimento, que o treinador não lhe dá. Não admira, pois, que Jesualdo, mesmo antes deste jogo, se queixasse das dificuldades de lateralização do futebol atacante da equipa, as quais, mais uma vez, foram gritantes contra o Trofense. E não admira também que Jesualdo tenha abdicado do seu preferido 4x3x3, em benefício de um arremedo de 4x4x2, pois que à falta de extremos se veio juntar a obrigação de meter em jogo Hulk - cuja genialidade ele foi o último dos portistas a ver. Mas, mesmo com Hulk a desequilibrar lá à frente, acontece contra as «equipas do autocarro» que a capacidade de penetração está seriamente diminuída: porque não há flanqueadores naturais e porque a penetração vertical, que era assegurada pelos passes de ruptura de Lucho González, desapareceu face ao prolongado desaparecimento em combate do argentino. Neste contexto, e sem querer lançar mão de Candeias, a Jesualdo só restaria uma opção e de risco: fazer regressar Lisandro às suas antigas funções de ponta-de-lança descaído sobre o flanco, por troca com Hulk, que é bem mais letal a arrancar de trás e do centro. Mas Jesualdo é um homem fidelíssimo às boas memórias: assim como não se atreve a prescindir de Lucho nem por um minuto e por mais confrangedora que seja a sua ausência do jogo, também não se atreve a pedir ao melhor marcador do campeonato passado que derive para o lado, em benefício de um recém-chegado.

Ao minuto 1 do jogo, o Hulk arrancou do flanco direito, onde Jesualdo o mandou desterrar, entrou na área, fintou um por dentro, outro por fora, e serviu o golo de bandeja a Meireles, que falhou o remate e viu Lisandro falhar a emenda. Essa simplicidade e crença no golo, que são a imagem de marca de Hulk, deveriam logo ter posto Jesualdo a pensar. Mas, não: havia muito tempo para chegar lá pela «via clássica». Porém, ao minuto 95, Guarin, na posição de ponta-de-lança, evitou o golo de Rodriguéz, fazendo de defesa do Trofense e, no minuto seguinte, a última imagem do jogo foi a de Hulk a acorrer à sua defesa para cortar um incipiente «ataque» do Trofense. O absurdo destas duas cenas é bem o espelho dos sucessivos erros cometidos por Jesualdo Ferreira.

É certo que o professor, em minha opinião, nunca se destacou por saber ler e emendar o jogo em andamento. Os seus méritos são outros, mas não esse: parece fazer substituições só por fazer, a ver se resultam, raramente adequadas ou no tempo certo. Mas, anteontem, exagerou. A meia hora do fim (longe ainda da fase do tudo ou nada) resolveu passar o Fucile para a esquerda e meter o inevitável Mariano a defesa-direito: com isso, obviamente, não ganhou nada do lado direito, mas perdeu o seu melhor flanqueador até aí, visto que Fucile à esquerda vale metade do que vale à direita. Cinco minutos depois, meteu o Guarin para o lugar de Raul Meireles: perdeu clarividência no miolo e ganhou só confusão e trapalhadas, culminadas com o colombiano a fazer de salvador do Trofense, tamanha era a ânsia de se mostrar salvador do Porto. E, mais cinco minutos volvidos, meteu o Farías - que, sem nunca ter tocado na bola em vinte minutos, serviu para congestionar o ataque e obrigar o Lisandro e o Hulk a saírem dali. Mexer quando as coisas não vão bem, qualquer treinador sabe fazer; resistir a mexer só porque as coisas não vão bem, é seguramente mais complicado.


2- O problema com Renteria são os golos certos, no resto ele até vai fazendo umas coisas jeitosas. Mas, quando o golo é quase imperdível e, sobretudo, se a oportunidade aparece no fim e se serve para alterar o resultado, o rapaz fica paralisado de terror. Ao minuto 85 do jogo da Luz, completamente isolado, posição frontal, bola na relva, ninguém ao lado e só o guarda-redes pela frente, ele acertou no Moreira. Mesmo assim, melhor do que há três anos atrás, naquele mesmo estádio e naquela mesma baliza, mas com a camisola do FC Porto, quando, até sem guarda-redes pela frente, ele acertou… em nada.

Se Renteria tem marcado, o Braga tinha, pelo menos, empatado o jogo, que era o mínimo que merecia e que a estatística da Sport TV resumiu: 60% de posse de bola contra 40% do Benfica; 36 ataques contra 31; 18 remates à baliza contra 8; 13 cantos contra 3; 5 oportunidades de golo contra 1. E Jorge Jesus escusava de ter acrescentado a outra estatística: golo do Benfica em off-side, penalty a favor do Benfica inexistente (bem mais óbvio foi idêntico lance a favor do Porto e que passou sem penalty, como notou Jesualdo Ferreira), e dois penalties a favor do Braga não assinalados. Destes, num não vi penalty, mas aquela entrada do Luisão de carrinho às pernas de Mateus, caramba, se não é penalty e ao menos cartão amarelo será o quê?

Mas, como acima escrevi, os árbitros erram, uma semana para um lado, outra semana para o outro. O problema é quando, no mesmo jogo, erram sempre para o mesmo lado, ou quando erram apenas uma vez e quem não soube ganhar se agarra a esse erro para justificar tudo. Ou quando se é tão lesto a gritar ao escândalo quando o árbitro erra contra nós, e a seguir se assobia para o ar, quando ele erra a nosso favor. Esta semana, garanto-vos que não vai haver benfiquistas a gritar fraude ou batota ou a declarar que esperam que os deixem ser campeões no campo.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

ANO NOVO, HÁBITOS VELHOS (06 JANEIRO 2009)

Três meses volvidos, treze jornadas cumpridas, o FC Porto retoma velhos hábitos e lá está, no seu lugar habitual das últimas duas décadas: o primeiro e isolado. Como se dissesse «pedimos desculpa por esta breve interrupção, a normalidade está reposta». Mas, não, não se pense que estou a cantar vitória antes de tempo, como é próprio de outros. Eu sei que teremos de lutar muito, muito mais para que «nos deixem ganhar o campeonato em campo» (para usar a frase de Luís Filipe Vieira, a que já irei). Eu sei que este está a ser o mais competitivo campeonato dos últimos anos e também sei perceber quando é que o caldeirão da frustração alheia está prestes a explodir e qual é a solução usada para aliviar a tensão.

Para virar o ano no primeiro lugar, ao FC Porto foi preciso ultrapassar a tradicionalmente difícil jornada da Madeira, contra o Nacional. E a coisa esteve tremida. O azar a abrir, com uma bola na barra ao minuto um e o Nacional a chegar ao golo, totalmente fortuito, no primeiro remate feito à baliza. Seguiu-se o desnorte da equipa, acusando o golpe e a injustiça e toda uma primeira parte assim perdida. Já vi este filme inúmeras vezes: um campo pequeno, um adversário que chama a si toda a sorte do jogo e o FC Porto acusando dificuldades antigas de dar a volta a um resultado negativo. Mais apreensivo fiquei ainda quando vi Jesualdo Ferreira fazer entrar Mariano González para defesa-direito, depois do intervalo: por mais que Jesualdo insista e volte a insistir, fazendo de Mariano extremo, médio ou defesa, não há volta a dar: o seu futebol confrangedor não é reciclável e foi pelo seu flanco que o Nacional chegou ao 2-2 e manteve a ameaça latente em toda a segunda parte. Felizmente, o resto da equipa esteve à altura do momento: a segunda parte só deu Porto, Porto, Porto. Uma cavalgada consistente para a vitória, selada com dois grandes golos, por entre os quatro marcados. Estofo de campeão.

Também sem espinhas e, felizmente, igualmente sem «casos», o Sporting havia já passado na véspera em Setúbal - com Liedson, uma vez mais, a fazer a diferença e a chegar ao número de golos do mítico Yazalde, com a camisola verde às riscas. Ao contrário da do FC Porto, foi uma vitória cedo obtida e assegurada, e gerida tranquilamente e sem grande rasgo, face ao um Vitória impressionantemente inofensivo, verdadeira sombra do Vitória da época passada. E assim o Sporting ultrapassou um Leixões que me pareceu bastante satisfeito com o 0-0 obtido em Coimbra, e assim se repôs a normalidade no pódio deste campeonato, com os três grandes na frente.

Para o fim ficou a excursão do Benfica à Trofa - a primeira de um grande à cidade minhota, em jogos a contar para a primeira divisão. Dia histórico, que se viria tornar inesquecível, em que o último derrotou o primeiro e o anunciado campeão baqueou, sem apelo nem agravo, aos pés do putativo despromovido. Não há dúvida de que, no futebol como na vida, a única coisa certa é a morte.

Dois dias antes, o presidente benfiquista tinha dado aqui uma entrevista de cinco páginas, cujo pretexto ou actualidade confesso que me escapou: talvez fosse por ser «campeão de Inverno» ou por, pela primeira vez em quinze anos, ter passado o Natal na liderança. Facto é que Luís Filipe Viera, para além do habitual rol de auto-elogios à sua liderança e ataques sibilinos e por antecipação a quem ouse disputar-lhe o lugar, nada de novo ou de interessante tinha para dizer.

Para a História ficará a sua afirmação de que, por via da decisão de três ou quatro senhores de uma coisa chamada Comissão Disciplinar da Liga, ficou estabelecido que todos os triunfos do FC Porto nos últimos vinte anos foram falsos e fruto de batota. Esqueçam, pois, tudo aquilo que viram nos estádios ou na televisão durante todos estes anos: o que conta é o que disse uma «testemunha» a propósito de um Beira-Mar-FC Porto, disputado em 2004 e que já só servia para contar feijões.

E, muito embora a dita «testemunha», mesmo sem jamais ter sido contra-interrogada, já ter sido apanhada duas vezes a mentir sobre factos, tendo mesmo obrigado um juiz (de direito, não de futebol) a indiciá-la por crime de perjúrio, é assim que se escreve a História, segundo Luís Filipe Vieira.

Gentilmente entrevistado, ele não se limitou, aliás, a abjurar e reescrever o passado do futebol português das últimas décadas. Também antecipou o futuro, traçando já a sua sentença, igualmente inapelável: se o Benfica não for campeão este ano, é porque não o deixaram ser em campo. Pese à confiança que só pode merecer-lhe uma Comissão de Disciplina e um Conselho de Justiça que já provaram estar no recto caminho, e uma Comissão de Arbitragem e Direcção da Liga que tiveram o seu voto e apoio - como já antes tinham tido as anteriores estruturas dirigentes, lideradas pelo seu ex-parceiro de estratégia (Valentim Loureiro, não sei se se lembram...).

Portanto, sentei-me eu em frente à Sport TV para assistir a mais uma manifestação da supremacia benfiquista em campo, e sinceramente rezando a todos os santos para que nem a mais leve decisão da arbitragem pudesse prejudicar o Benfica e fazer-nos ter de atravessar mais uma semana de lamúrias, insinuações e acusações retumbantes de «fraude». E o que vi, o que unicamente vi, foi uma derrota benfiquista em toda a linha.

Primeiro, porque perderam o jogo sem espinhas e sem qualquer caso de arbitragem de que reclamar;

segundo, porque assim perderam a invencibilidade, a liderança e o assaz breve título de «campeão de Inverno» (se é que o Inverno, por estas paragens, ainda vai até 21 de Março...);

terceiro, porque momentos houve em que o anunciado «campeão em campo» chegou a ser banalizado por uma esforçada equipa, lanterna vermelha e acabadinha de chegar ao mundo dos grandes da bola;

quarto, porque a derrota foi consumada por um portista, o melhor em campo, e desses muitos a quem a generosa Direcção do FC Porto paga ordenado para jogarem por outros emblemas: Hélder Barbosa, de seu nome;

quinto, porque os adeptos benfiquistas, como se não bastasse o desastre no relvado, ainda fizeram jus à sua fama de campeões do mau comportamento, chegando a atirar um petardo em chamas ao guarda-redes adversário - coisa que, num campeonato civilizado, costuma ter consequências bem desagradáveis para o clube;

e, finalmente, porque, assim perdendo, a luxuosa equipa do Benfica obrigou o seu presidente a engolir de enfiada cinco páginas deste prestigiado jornal. É o que dá falar sem ocasião nem ponderação...

A Sport TV mostrava, entretanto, a cara de Rui Costa, sentado no banco e abanando a cabeça, como se dissesse «que mais posso eu fazer para que estes tipos aprendam a jogar como campeões?» E, sentado a seu lado, ocupado a fazer desenhos e esquemas num papel com o seu adjunto, em lugar de substituir logo o Binya antes que ele fosse expulso, Quique Flores era a imagem de um treinador perdido e impotente. Ou muito me engano, ou não tarda nem um mês antes que a contestação interna se concentre toda em encontrar em Quique o bode expiatório. Who else? E, todavia, o espanhol acertou na mouche, quando caracterizou a exibição da sua equipa: «Não basta falar, é preciso ter mentalidade para ganhar».