segunda-feira, janeiro 19, 2009

ERROS MEUS, MÁ FORTUNA (13 JANEIRO 2009)

1- É assim o futebol: uma semana vai-se à frente, na outra passa-se para trás; numa semana joga-se bem e abre-se um sorriso onde cabem todas as esperanças, na outra desaba sobre nós um peso de chumbo e sai-se do estádio curvado à decepção; uma semana a culpa foi do árbitro, na outra foi ele quem nos salvou.

O regresso à normalidade que o FC Porto assegurara há oito dias foi de novo interrompido por mais um percalço caseiro, de todo fora das previsões. Porque tropeçou o FC Porto no Trofense? A meu ver, por três razões: falta de sorte, atitude do adversário e erros do treinador. Uma de cada vez.

Normalmente, quando um grande empata em casa a zero com uma equipa do fundo da tabela, já é clássico concluir que o melhor em campo foi o guarda-redes adversário. Não foi o caso do FC Porto-Trofense de anteontem: ao contrário do que sucedera contra o Benfica, o guarda-redes do Trofense, Paulo Lopes, não evitou nenhum golo nem chegou a fazer nenhuma grande defesa. Viu-se, sim, batido para golo um sem número de vezes e de todas escapou ileso: duas vezes porque os companheiros o substituíram na linha de golo, outra vez porque um jogador do FC Porto substituiu ele os defesas já batidos do Trofense, outra porque a bola beijou o poste e mais umas quatro vezes porque Rolando falhou todos os cabeceamentos para golo, nos inúmeros cantos de que os portistas dispuseram. Esse facto, por si só, mostra que o Trofense chamou a si toda a sorte do jogo e não deixou nada para os da casa.

À sorte, o Trofense juntou uma atitude que pode e deve ser chamada de anti-jogo. Com todo o respeito pela cidade da Trofa, com toda a compreensão pelo modesto mas honesto Trofense e com toda a compreensão para com quem se bate com orçamentos de pigmeu contra equipas com orçamentos de gigante, o tipo de jogo posto em cena pelos da Trofa é daqueles que fazem com que haja jogos entre primodivisionários com 600 ou 400 ou 200 pessoas a assistir. Em 90 minutos de futebol, o Trofense, não só não dispôs de uma única ocasião de golo, como também não conseguiu construir um único ataque ou contra-ataque digno desse nome. Em contrapartida, os seus jogadores chamaram quatro vezes a maca para os levar, chegaram a ficar caídos três ao mesmo tempo e, quando o capitão foi expulso, já nos descontos, demorou exactamente 1'40'' a sair de campo. Compreendo que Tulipa estivesse contente com o resultado, não compreendo que estivesse «orgulhoso» dos seus jogadores. Quando em mais de metade dos jogos, há sempre uma equipa que só quer jogar para o 0-0, não há volta a dar às bancadas desertas e à morte a prazo do futebol como espectáculo ao vivo. Não sou só eu que sei porque fico em casa.

À falta de sorte e ao anti-jogo do Trofense, juntaram-se as infelizes decisões de Jesualdo Ferreira, para explicarem o resultado final. Felizmente, há muito pouco tempo elogiei aqui o trabalho dele e proclamei-me seu apoiante - com a ressalva de que seria critico, quando o entendesse justo. É o caso.

Recuemos um pouco: Jesualdo Ferreira (conforme o notei logo no início da época), não dispõe de extremos, porque os dispensou todos. O único extremo verdadeiro que tem, que é Candeias, vive afastado, a caminho de mais um empréstimo, por falta de oportunidades de crescimento, que o treinador não lhe dá. Não admira, pois, que Jesualdo, mesmo antes deste jogo, se queixasse das dificuldades de lateralização do futebol atacante da equipa, as quais, mais uma vez, foram gritantes contra o Trofense. E não admira também que Jesualdo tenha abdicado do seu preferido 4x3x3, em benefício de um arremedo de 4x4x2, pois que à falta de extremos se veio juntar a obrigação de meter em jogo Hulk - cuja genialidade ele foi o último dos portistas a ver. Mas, mesmo com Hulk a desequilibrar lá à frente, acontece contra as «equipas do autocarro» que a capacidade de penetração está seriamente diminuída: porque não há flanqueadores naturais e porque a penetração vertical, que era assegurada pelos passes de ruptura de Lucho González, desapareceu face ao prolongado desaparecimento em combate do argentino. Neste contexto, e sem querer lançar mão de Candeias, a Jesualdo só restaria uma opção e de risco: fazer regressar Lisandro às suas antigas funções de ponta-de-lança descaído sobre o flanco, por troca com Hulk, que é bem mais letal a arrancar de trás e do centro. Mas Jesualdo é um homem fidelíssimo às boas memórias: assim como não se atreve a prescindir de Lucho nem por um minuto e por mais confrangedora que seja a sua ausência do jogo, também não se atreve a pedir ao melhor marcador do campeonato passado que derive para o lado, em benefício de um recém-chegado.

Ao minuto 1 do jogo, o Hulk arrancou do flanco direito, onde Jesualdo o mandou desterrar, entrou na área, fintou um por dentro, outro por fora, e serviu o golo de bandeja a Meireles, que falhou o remate e viu Lisandro falhar a emenda. Essa simplicidade e crença no golo, que são a imagem de marca de Hulk, deveriam logo ter posto Jesualdo a pensar. Mas, não: havia muito tempo para chegar lá pela «via clássica». Porém, ao minuto 95, Guarin, na posição de ponta-de-lança, evitou o golo de Rodriguéz, fazendo de defesa do Trofense e, no minuto seguinte, a última imagem do jogo foi a de Hulk a acorrer à sua defesa para cortar um incipiente «ataque» do Trofense. O absurdo destas duas cenas é bem o espelho dos sucessivos erros cometidos por Jesualdo Ferreira.

É certo que o professor, em minha opinião, nunca se destacou por saber ler e emendar o jogo em andamento. Os seus méritos são outros, mas não esse: parece fazer substituições só por fazer, a ver se resultam, raramente adequadas ou no tempo certo. Mas, anteontem, exagerou. A meia hora do fim (longe ainda da fase do tudo ou nada) resolveu passar o Fucile para a esquerda e meter o inevitável Mariano a defesa-direito: com isso, obviamente, não ganhou nada do lado direito, mas perdeu o seu melhor flanqueador até aí, visto que Fucile à esquerda vale metade do que vale à direita. Cinco minutos depois, meteu o Guarin para o lugar de Raul Meireles: perdeu clarividência no miolo e ganhou só confusão e trapalhadas, culminadas com o colombiano a fazer de salvador do Trofense, tamanha era a ânsia de se mostrar salvador do Porto. E, mais cinco minutos volvidos, meteu o Farías - que, sem nunca ter tocado na bola em vinte minutos, serviu para congestionar o ataque e obrigar o Lisandro e o Hulk a saírem dali. Mexer quando as coisas não vão bem, qualquer treinador sabe fazer; resistir a mexer só porque as coisas não vão bem, é seguramente mais complicado.


2- O problema com Renteria são os golos certos, no resto ele até vai fazendo umas coisas jeitosas. Mas, quando o golo é quase imperdível e, sobretudo, se a oportunidade aparece no fim e se serve para alterar o resultado, o rapaz fica paralisado de terror. Ao minuto 85 do jogo da Luz, completamente isolado, posição frontal, bola na relva, ninguém ao lado e só o guarda-redes pela frente, ele acertou no Moreira. Mesmo assim, melhor do que há três anos atrás, naquele mesmo estádio e naquela mesma baliza, mas com a camisola do FC Porto, quando, até sem guarda-redes pela frente, ele acertou… em nada.

Se Renteria tem marcado, o Braga tinha, pelo menos, empatado o jogo, que era o mínimo que merecia e que a estatística da Sport TV resumiu: 60% de posse de bola contra 40% do Benfica; 36 ataques contra 31; 18 remates à baliza contra 8; 13 cantos contra 3; 5 oportunidades de golo contra 1. E Jorge Jesus escusava de ter acrescentado a outra estatística: golo do Benfica em off-side, penalty a favor do Benfica inexistente (bem mais óbvio foi idêntico lance a favor do Porto e que passou sem penalty, como notou Jesualdo Ferreira), e dois penalties a favor do Braga não assinalados. Destes, num não vi penalty, mas aquela entrada do Luisão de carrinho às pernas de Mateus, caramba, se não é penalty e ao menos cartão amarelo será o quê?

Mas, como acima escrevi, os árbitros erram, uma semana para um lado, outra semana para o outro. O problema é quando, no mesmo jogo, erram sempre para o mesmo lado, ou quando erram apenas uma vez e quem não soube ganhar se agarra a esse erro para justificar tudo. Ou quando se é tão lesto a gritar ao escândalo quando o árbitro erra contra nós, e a seguir se assobia para o ar, quando ele erra a nosso favor. Esta semana, garanto-vos que não vai haver benfiquistas a gritar fraude ou batota ou a declarar que esperam que os deixem ser campeões no campo.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

ANO NOVO, HÁBITOS VELHOS (06 JANEIRO 2009)

Três meses volvidos, treze jornadas cumpridas, o FC Porto retoma velhos hábitos e lá está, no seu lugar habitual das últimas duas décadas: o primeiro e isolado. Como se dissesse «pedimos desculpa por esta breve interrupção, a normalidade está reposta». Mas, não, não se pense que estou a cantar vitória antes de tempo, como é próprio de outros. Eu sei que teremos de lutar muito, muito mais para que «nos deixem ganhar o campeonato em campo» (para usar a frase de Luís Filipe Vieira, a que já irei). Eu sei que este está a ser o mais competitivo campeonato dos últimos anos e também sei perceber quando é que o caldeirão da frustração alheia está prestes a explodir e qual é a solução usada para aliviar a tensão.

Para virar o ano no primeiro lugar, ao FC Porto foi preciso ultrapassar a tradicionalmente difícil jornada da Madeira, contra o Nacional. E a coisa esteve tremida. O azar a abrir, com uma bola na barra ao minuto um e o Nacional a chegar ao golo, totalmente fortuito, no primeiro remate feito à baliza. Seguiu-se o desnorte da equipa, acusando o golpe e a injustiça e toda uma primeira parte assim perdida. Já vi este filme inúmeras vezes: um campo pequeno, um adversário que chama a si toda a sorte do jogo e o FC Porto acusando dificuldades antigas de dar a volta a um resultado negativo. Mais apreensivo fiquei ainda quando vi Jesualdo Ferreira fazer entrar Mariano González para defesa-direito, depois do intervalo: por mais que Jesualdo insista e volte a insistir, fazendo de Mariano extremo, médio ou defesa, não há volta a dar: o seu futebol confrangedor não é reciclável e foi pelo seu flanco que o Nacional chegou ao 2-2 e manteve a ameaça latente em toda a segunda parte. Felizmente, o resto da equipa esteve à altura do momento: a segunda parte só deu Porto, Porto, Porto. Uma cavalgada consistente para a vitória, selada com dois grandes golos, por entre os quatro marcados. Estofo de campeão.

Também sem espinhas e, felizmente, igualmente sem «casos», o Sporting havia já passado na véspera em Setúbal - com Liedson, uma vez mais, a fazer a diferença e a chegar ao número de golos do mítico Yazalde, com a camisola verde às riscas. Ao contrário da do FC Porto, foi uma vitória cedo obtida e assegurada, e gerida tranquilamente e sem grande rasgo, face ao um Vitória impressionantemente inofensivo, verdadeira sombra do Vitória da época passada. E assim o Sporting ultrapassou um Leixões que me pareceu bastante satisfeito com o 0-0 obtido em Coimbra, e assim se repôs a normalidade no pódio deste campeonato, com os três grandes na frente.

Para o fim ficou a excursão do Benfica à Trofa - a primeira de um grande à cidade minhota, em jogos a contar para a primeira divisão. Dia histórico, que se viria tornar inesquecível, em que o último derrotou o primeiro e o anunciado campeão baqueou, sem apelo nem agravo, aos pés do putativo despromovido. Não há dúvida de que, no futebol como na vida, a única coisa certa é a morte.

Dois dias antes, o presidente benfiquista tinha dado aqui uma entrevista de cinco páginas, cujo pretexto ou actualidade confesso que me escapou: talvez fosse por ser «campeão de Inverno» ou por, pela primeira vez em quinze anos, ter passado o Natal na liderança. Facto é que Luís Filipe Viera, para além do habitual rol de auto-elogios à sua liderança e ataques sibilinos e por antecipação a quem ouse disputar-lhe o lugar, nada de novo ou de interessante tinha para dizer.

Para a História ficará a sua afirmação de que, por via da decisão de três ou quatro senhores de uma coisa chamada Comissão Disciplinar da Liga, ficou estabelecido que todos os triunfos do FC Porto nos últimos vinte anos foram falsos e fruto de batota. Esqueçam, pois, tudo aquilo que viram nos estádios ou na televisão durante todos estes anos: o que conta é o que disse uma «testemunha» a propósito de um Beira-Mar-FC Porto, disputado em 2004 e que já só servia para contar feijões.

E, muito embora a dita «testemunha», mesmo sem jamais ter sido contra-interrogada, já ter sido apanhada duas vezes a mentir sobre factos, tendo mesmo obrigado um juiz (de direito, não de futebol) a indiciá-la por crime de perjúrio, é assim que se escreve a História, segundo Luís Filipe Vieira.

Gentilmente entrevistado, ele não se limitou, aliás, a abjurar e reescrever o passado do futebol português das últimas décadas. Também antecipou o futuro, traçando já a sua sentença, igualmente inapelável: se o Benfica não for campeão este ano, é porque não o deixaram ser em campo. Pese à confiança que só pode merecer-lhe uma Comissão de Disciplina e um Conselho de Justiça que já provaram estar no recto caminho, e uma Comissão de Arbitragem e Direcção da Liga que tiveram o seu voto e apoio - como já antes tinham tido as anteriores estruturas dirigentes, lideradas pelo seu ex-parceiro de estratégia (Valentim Loureiro, não sei se se lembram...).

Portanto, sentei-me eu em frente à Sport TV para assistir a mais uma manifestação da supremacia benfiquista em campo, e sinceramente rezando a todos os santos para que nem a mais leve decisão da arbitragem pudesse prejudicar o Benfica e fazer-nos ter de atravessar mais uma semana de lamúrias, insinuações e acusações retumbantes de «fraude». E o que vi, o que unicamente vi, foi uma derrota benfiquista em toda a linha.

Primeiro, porque perderam o jogo sem espinhas e sem qualquer caso de arbitragem de que reclamar;

segundo, porque assim perderam a invencibilidade, a liderança e o assaz breve título de «campeão de Inverno» (se é que o Inverno, por estas paragens, ainda vai até 21 de Março...);

terceiro, porque momentos houve em que o anunciado «campeão em campo» chegou a ser banalizado por uma esforçada equipa, lanterna vermelha e acabadinha de chegar ao mundo dos grandes da bola;

quarto, porque a derrota foi consumada por um portista, o melhor em campo, e desses muitos a quem a generosa Direcção do FC Porto paga ordenado para jogarem por outros emblemas: Hélder Barbosa, de seu nome;

quinto, porque os adeptos benfiquistas, como se não bastasse o desastre no relvado, ainda fizeram jus à sua fama de campeões do mau comportamento, chegando a atirar um petardo em chamas ao guarda-redes adversário - coisa que, num campeonato civilizado, costuma ter consequências bem desagradáveis para o clube;

e, finalmente, porque, assim perdendo, a luxuosa equipa do Benfica obrigou o seu presidente a engolir de enfiada cinco páginas deste prestigiado jornal. É o que dá falar sem ocasião nem ponderação...

A Sport TV mostrava, entretanto, a cara de Rui Costa, sentado no banco e abanando a cabeça, como se dissesse «que mais posso eu fazer para que estes tipos aprendam a jogar como campeões?» E, sentado a seu lado, ocupado a fazer desenhos e esquemas num papel com o seu adjunto, em lugar de substituir logo o Binya antes que ele fosse expulso, Quique Flores era a imagem de um treinador perdido e impotente. Ou muito me engano, ou não tarda nem um mês antes que a contestação interna se concentre toda em encontrar em Quique o bode expiatório. Who else? E, todavia, o espanhol acertou na mouche, quando caracterizou a exibição da sua equipa: «Não basta falar, é preciso ter mentalidade para ganhar».

A FRAUDE (30 DEZEMBRO 2008)

Para o senso comum, senador é alguém cujo nome, estatuto ou posição lhe garante uma credibilidade acrescida perante os outros. Em matéria de opinião, por exemplo, um senador deve ser escutado com mais atenção, porque, tenha razão ou não, é suposto ter uma opinião mais isenta, mais ponderada e mais credível que o comum das pessoas. Foi certamente a pensar assim que a Direcção de A BOLA decidiu, já há uns tempos, introduzir às sextas-feiras as colunas dos senadores — um por cada clube grande. Todos, sem excepção, são figuras de valor intelectual e de carácter acima de qualquer controvérsia. Mas há uma diferença entre eles: Rui Moreira é simplesmente adepto portista e da chamada «ala critica» da respectiva direcção (que lida tão mal com as criticas quanto o azeite liga com a água); já Rogério Alves é membro dos actuais corpos gerentes do Sporting, no cargo de presidente da Assembleia Geral, e Sílvio Cervan é mesmo membro da actual Direcção do Benfica, ou seja, responsável directo pela sua gestão. E isto coloca um problema não escamoteável.

Há uma diferença entre independente e isento — neste caso e, a meu ver, essencial. Eu, por exemplo, desde o primeiro dia que aqui comecei a escrever, que tornei claro o meu estatuto: não sou nem passaria a ser independente, visto que tenho uma filiação clubística e é bem sabido como a paixão clubística tolda a independência de julgamento (a todos, e não apenas aos portistas, como costumam decidir os outros...). Mas, não sendo independente, nunca deixaria de ser isento — não apenas porque não ocupo e nunca ocupei qualquer cargo no meu clube, no seu jornal, televisão ou outros apêndices, e porque, também, e conforme julgo ser público e notório, não presto vassalagem nem silêncio aos seus dirigentes ou técnicos, sejam eles quem forem. Mas, por mais respeito que tenha por eles, que é muito, esta é condição que não assiste nem a Rogério Alves nem, sobretudo, a Sílvio Cervan. Eles não estão na posição de um adepto banal de um clube: são co-responsáveis, os êxitos e inêxitos do clube são também responsabilidade pessoal sua.

Mas, mesmo com essa capitis diminutio, Sílvio Cervan ostenta o título de senador do jornal A BOLA. O tal título que justifica que se espere dele opiniões mais ponderadas, mais isentas e, logo, mais credíveis do que, por exemplo, as minhas. Assim, quando o vi, na sua última coluna, declarar solenemente que «este campeonato está uma fraude» e que «a competitividade é feita com base na batotice», eu tive de partir do princípio de que falava com conhecimento de causa e certamente com motivos gravíssimos para proferir afirmação tão radical e perigosa quanto esta. Radical porque, a partir daqui e nem mesmo que o seu Benfica venha a acabar o campeonato com mais de 20 pontos de atraso do campeão, como sucedeu no ano passado, Sílvio Cervan, para ser coerente, poderá reconhecer qualquer justiça ao campeão ou qualquer seriedade ao campeonato. Perigosa, porque, se o campeão vier a ser o seu Benfica, a sua frase poderá ter um fatal efeito de boomerang: quem quer que ache que o Benfica não mereceu ser campeão, poderá usar as suas palavras para concordar que o campeonato foi uma fraude. Eu, por exemplo, não me esquecerei da frase, se vir motivos para tal. Retroactivamente e aproveitando a boleia do senador, posso até dizer agora que a maior fraude a que assisti nas últimas décadas, e designadamente em matéria de arbitragens, foi o último campeonato ganho pelo Benfica. Mas é só a minha opinião, a de um banal adepto...

O que sucedeu para que Sílvio Cervan tenha decretado desde já que o campeonato é uma fraude, quando apenas decorreram doze jornadas e o Benfica até o lidera? Não seria mais avisado esperar pelas dezoito jornadas que faltam? Pelas deslocações do Benfica a Alvalade e ao Dragão? Pelo cansaço que o tão temido FC Porto não deixará de acusar por ter de combater simultaneamente na Europa e na Taça de Portugal — duas competições onde o plantel de luxo do Benfica já não mora? É que, dito assim, até parece que o raciocínio foi o inverso: que avisado era ir prevenindo desde já uma justificação para um eventual insucesso do Benfica. Uma «fraude»...

A «fraude» foi o golo anulado por Pedro Henriques, aos 94 minutos do jogo da Luz contra o Nacional — já reduzido a dez e depois de todo um jogo em que os madeirenses mostraram não merecer de forma alguma sair derrotados. Concordo que, aparentemente, não houve motivo para a anulação do golo. Mas esse não foi o único erro de Pedro Henriques — outros houve e contra o Nacional, que tiveram importância no jogo, como, legitimamente, recordou Manuel Machado. E, em matéria de erros e, decisivos, de Pedro Henriques, nem calcula o Sílvio Cervan o catálogo deles, em prejuízo do FC Porto, de que eu guardo memoria! Mas, esses, presumo que nunca o tenham incomodado, antes pelo contrário. Não deixa, aliás, de ser curioso que os árbitros que recentemente foram alvo de maiores criticas por parte de benfiquistas e sportinguistas, integrem todos eles a lista dos que mais consistentemente prejudicaram o FC Porto nos últimos anos: Lucílio Baptista, Bruno Paixão, Pedro Henriques. Em comum, o facto de serem ou sportinguistas ou benfiquistas e de esses erros nunca terem merecido nem um átomo da indignação jornalística que agora se levanta em apoio do Benfica e ontem em apoio do Sporting. O Bruno Paixão, por exemplo, que agora suscitou tamanha gritaria dos sportinguistas a propósito do jogo da Taça com o FC Porto (e como se não tivesse prejudicado bem mais os portistas...), é o mesmo árbitro do inesquecível jogo de Campo Maior — essa, sim, a maior fraude que alguma vez vi num campo de futebol — e que iria ter uma importância pontual decisiva na atribuição do título desse ano... justamente ao Sporting e em detrimento do FC Porto. Ironias da História...

Embora, segundo o seu testemunho, Pedro Henriques seja sportinguista, é ao FC Porto que Sílvio Cervan atribui a autoria moral do golo anulado pelo árbitro (porque, que me desculpem os sportinguistas, é do FC Porto que eles têm medo a sério). E daí que, citando-me, embora sem me nomear, ele diga que concorda com a minha frase de que «o FC Porto é o mais sério candidato ao título» — apenas discorda do uso da palavra «sério», neste caso. Ou seja, acha que o FC Porto é o mais sério candidato a um título que não será sério. Palavra de senador.

Ora, eu escrevi tal frase depois de ter assistido ao frustrante empate caseiro do FC Porto contra o Marítimo e antes de saber que o Benfica iria repetir o mesmo resultado contra o Nacional. Mesmo prevendo que a jornada acabaria com o FC Porto a quatro pontos do Benfica, escrevi que pensava ser ele o mais sério candidato. E explicava porquê, dando o exemplo do jogo anterior na Amadora, onde o FC Porto abriu em grande estilo, fez o 1-0, perdeu duas oportunidades incríveis do 2-0, viu o Estrela empatar num golo inconcebível e o árbitro ignorar dois penalties na área do Estrela — e continuou, imperturbável, até voltar a colocar-se em vantagem, sem se incomodar em juntar justificações para um desaire. E dizia, como já o disse muitas vezes, que é esta atitude de conquista, em contraste com a atitude de choradinho eterno dos seus rivais, a atitude de cigarra contra formigas, que torna o FC Porto um candidato e um competidor mais sério. Tivesse o Benfica feito contra o Nacional o jogo que o seu plantel de vedetas justificava e que os seus adeptos têm o direito de exigir, e não precisava de esperar pelas decisões de um árbitro, aos 94 minutos de jogo. Mas é mais fácil vir depois queixar-se do árbitro para os jornais ou sentenciar que isto é uma fraude do que reconhecer as culpas próprias. É uma questão de mentalidade e, desculpem que o diga: há nisto muito do que é a atitude mental dos portugueses em relação a tudo o resto e, por isso mesmo, é que estamos no fim da escala em qualquer índice de competitividade do País.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

NÃO HÁ AZAR! (23 DEZEMBRO 2008)

1 - Por pouco, por muito pouco, tinha sido uma semana em cheio para o FC Porto. Vitória convincente sobre o Estrela da Amadora, a meio da semana, no jogo que tinha em atraso para a Liga, conseguida com a atitude de conquista desde o apito inicial que eu aqui tinha desejado. Mesmo levando em conta que estava a jogar contra adversários que não recebem um salário desde que a época começou (!), mas que nem assim deixaram de se bater com toda a dignidade e força, o FC Porto, como lhe competia, não facilitou. E soube enfrentar tudo, erros do árbitro e falta gritante de sorte no jogo, para procurar e chegar à vitória sem fazer caso dos contratempos inesperados - o que é a marca dos campeões. Há os que parecem mais preocupados em encontrar, ao longo do jogo, razões para se desculparem dos insucessos, e há os que por mais razões de queixa que tenham, do árbitro ou da sorte, continuam a lutar até conseguirem o que querem. Há muitos anos que as equipas portistas nos habituaram já a fazer parte da segunda categoria e, só por isso, é que ganham mais vezes que os outros.

Depois da vitória na Amadora, vieram os felizes sorteios da Taça e da Champions. Não menosprezo o Leixões, mas jogar no Dragão representa uma inestimável vantagem, até porque não acredito que Braga seja capaz de voltar a repetir aquele fantástico e feliz pontapé que deu o segundo golo ao Leixões no jogo da Liga e não estarei a desvalorizá-lo se disser que provavelmente nunca mais na sua carreira terá dois pontapés tão certeiros e felizes no mesmo jogo como aqueles que deram a vitória ao Leixões no Dragão. Quanto ao sorteio da Champions, basta olhar para a ilustríssima lista dos segundos classificados de grupo que poderiam ter calhado aos portistas, para concluir que melhor era quase impossível. O Atlético de Madrid, de Simão, Maniche, Diego Fórlan e Máxi Rodriguez (e Paulo Assunção...), até é capaz de, jogador por jogador, ser melhor equipa que o F.C.Porto e certamente não será pêra doce. Mas falta-lhe a experiência europeia dos portistas, a capacidade de se superar nos grandes momentos e falta-lhe «alma de campeão» - condenados como estão a fazer eternamente figura de simples animadores do campeonato espanhol. Tudo ponderado, e se o FC Porto jogar ao seu melhor nível, ao nível a que já jogou esta época em Istambul ou Kiev, o favoritismo é seu.

Assim, para a semana ser perfeita faltava apenas esse «pequeno» obstáculo de vencer em casa um Marítimo que vinha de duas sovas consecutivas contra «grandes». Mesmo descontando o cansaço acumulado por sete jogos em três semanas, a ansiedade das mini-férias à saída do jogo e a pressa de chegar lá à frente, ao seu lugar natural na classificação, a tarefa não se afigurava de especial dificuldade. Mas razão tinha Jesualdo Ferreira para avisar que o Marítimo era a tal equipa que ainda só tinha sofrido um golo fora em cinco partidas da Liga. Marcos voltou à baliza dos madeirenses, o autocarro recuou, o Marítimo deixou-se de veleidades de jogar o jogo em todo o campo e Lucho e Bruno Alves falharam as duas primeiras opurtunidades de baliza escancarada. E tudo se foi complicando até ao 0-0 final, que até podia ter sido bem pior, se os dois estoiros do Marítimo às madeiras da baliza de Helton tivessem entrado. Estes dois jogos vieram confirmar as principais dificuldades conjunturais desta equipa, que, insisto, me parece desiquilibrada no valor das suas unidades: Lucho González prolonga o seu momento de crise e a sua «ausência» do jogo deixa a equipa amputada da capacidade de usar a sua principal arma, que é a da passagem rápida de uma situação defensiva para uma ofensiva, através dos passes a rasgar do argentino. Por outro lado, falta gritantemente um defesa esquerdo completo: o que mais garantias dá a atacar (Lino), não as dá a defender; e o que melhor defende (Pedro Emanuel), é inexistente em termos de ataque - uma característica cuja falta se faz notar sobretudo contra equipas que defendem atrás, com muitos jogadores.

De presente de Natal, queremos um defesa-esquerdo e dois médios ofensivos (não, não é preciso ir comprá-los à América do Sul, temos vários emprestados por aí e os tempos não vão para gastos sumptuários). Mas se não houver presente de Natal, também não há azar: apesar dos pontos mal perdidos aqui e ali e apesar da sobrecarga de ser a única equipa nacional que continua a lutar pela vitória em todas as frentes, o tri-campeão FC Porto é ainda o mais sério candidato a vencer a Liga.


2 - Como vem sendo hábito, Quique Flores safou-se de mais uma humilhação europeia do Benfica mandando as culpas para cima dos jogadores. Eu até acho o espanhol simpático, sério na maneira como encara o trabalho e civilizado - o que já não é nada pouco, no futebol português. Mas esta arte que ele tem (ou melhor, que lhe propicia a imprensa) de alijar responsabilidades quando perde, não me parece muito católica. Foi Quique Flores quem começou por desdenhar o jogo com o Metalist - nas declarações que fez previamente e na equipa que pôs a jogar. E fez mal. O jogo não era a feijões. Embora o tão louvado «prestígio internacional do nome Benfica» já nada diga à geração que tem menos de trinta anos e hoje só exista para uma coisa chamada Federação Internacional das Estatísticas de Futebol e para a imprensa benfiquista, a verdade é que perder com o Metalist em casa e ser varrido da UEFA, ficando em último lugar num grupo mais do que acessível, com três derrotas e um empate, dois golos marcados e nove sofridos, só serve para colocar esse saudoso prestígio internacional ao nível dos delírios. Por outro lado, o Benfica - que tudo tentou para entrar na Champions pela porta das traseiras e à custa do FC Porto - é capaz de ser a equipa portuguesa que nos últimos vinte anos mais beneficiou e menos fez pelas participações europeias. Se, de vez em quando, o Benfica vai às eliminatórias da Champions ou à UEFA deve-o, sobretudo aos pontos que o FC Porto, e em menor grau o Sporting, têm acumulado. Acontece que, mesmo não contando já para o apuramento, o jogo com o Metalist valia os mesmos pontos no ranking da UEFA - onde, justamente somos precedidos pela Ucrânia, país do Metalist. Havia um «interesse nacional» em jogo: era uma excelente oportunidade para recuperar pontos ao nosso mais directo competidor no ranking - não para os perder, jogando com uma equipa de circunstância, para poupar vedetas, já tão poupadas como Aimar ou Reyes. Escolhendo a equipa que escolheu, Quique Flores pensou apenas nos seus interesses imediatos, esquecendo o mais que estava em jogo. Não vejo como se pode descartar de responsabilidades, consolando-se com o título «ad hoc» de «campeão de Inverno» - depois de já ter perdido, sem glória, tudo o que até aqui, havia para perder: UEFA, Taça de Portugal e até o chamado «Torneio do Guadiana» e o chamado «Troféu Eusébio».


3 - Gilberto Madail explicou sabiamente porque é que a Federação nada pode fazer contra os salários em atraso: porque qualquer punição aos clubes, fosse financeira ou desportiva, acarretaria fatalmente a morte destes. Hermínio Loureiro, por seu lado, ainda não explicou o que pode a Liga fazer, mas o seu silêncio parece indicar que também ele acha que não pode, e não deve, fazer nada. Temos assim que a direcção do Estrela da Amadora acaba de descobrir um ovo de Colombo, em termos de gestão: como manter um clube a funcionar e na primeira divisão, sem pagar ordenados a jogadores e técnicos.

VOLTA, QUARESMA... (16 DEZEMBRO 2008)

1 - Em Maio ou Junho, quando se começou a falar na iminente ida de Ricardo Quaresma para Itália, escrevi aqui um texto intitulado «Fica, Quaresma», onde, sem grandes esperanças embora, tentava expor as razões pelas quais, em meu entender, o melhor jogador do FC Porto deveria ponderar muito bem o passo que ia dar. E, entre outras razões, antecipava que ele não iria encontrar em Itália e no Inter as facilidades que tinha no Porto; que teria de trabalhar o dobro e jogar bem, não na maioria dos jogos, mas em todos, se queria um lugar de titular; que o seu tipo de jogo teria muito menos sucesso face à capacidade defensiva do futebol italiano, sem paralelo no mundo; que lá a imprensa desportiva não era condescendente como aqui, mas muitíssimo mais exigente; que o custo de vida em Milão é o dobro do que é no Porto, pelo que, a menos que lhe pagassem o dobro do que recebia no FC Porto, não iria sequer ganhar financeiramente com a troca. Não acrescentei, mas podia tê-lo feito, outro tipo de argumento: o de que essa conversa de que a linguagem do futebol é universal é uma treta. Quem quer que emigre, não tem de se preocupar apenas com o trabalho que vai fazer: tem de se preocupar também com a vida que vai ter, porque a vida não é só trabalho. E é frequente ver-se jogadores portugueses, a maioria nos seus verdes anos, que emigram para países de cuja cultura e hábitos de vida tudo ignoram e depois têm dificuldades terríveis de adaptação, porque descobrem que não basta ter um Porsche e ser contratado por um grande clube mundial para ficar bem na vida: mais vale ser Princípe em Portugal, ainda que pior pago, do que valido no estrangeiro, coberto de ouro e de solidão.

A notícia de que Ricardo Quaresma, um talento do futebol mundial, foi considerado pela imprensa desportiva italiana a decepção da época, não me surpreendeu, pois. Assim como o facto de ele ter passado de titular a meio titular, de meio titular a suplente e de suplente a não convocado por Mourinho. E ainda tem a sorte de ter um treinador que fala a língua dele e conhece bem o seu futebol!

Não me surpreendeu, mas deixou-me triste, porque eu sei o que vale o Ricardo Quaresma e julgo saber as dificuldades de integração que ele experimenta — tanto na vida em Milão, como na própria equipa, pejada de vedetas à espreita de uma oportunidade e onde era manifesto, quando ele jogava, que os próprios colegas o deixavam de lado. E assim vegeta, sem utilidade alguma, um dos mais talentosos jogadores da sua geração, que não tem lugar na sua equipa nem, por arrasto, na Selecção portuguesa. E o FC Porto, cuja SAD tão desesperadamente tentou vendê-lo, que acabou por o fazer a preço de saldo, vive na saudade de Quaresma — entretanto substituído por Cristian Rodriguéz, que veio ganhar mais do que Quaresma e que, se houvesse prémio semelhante em Portugal, era o mais sério candidato a decepção do ano! Eis um negocio onde, até ver, todas as partes saíram a perder. Bem avisada andaria a SAD do FC Porto se tentasse agora com o Inter um negócio «tipo Suazo». Antes que o Benfica o faça...


2 - Para vencer a Taça de Portugal basta a qualquer um dos «grandes» fazer não mais do que dois bons jogos, em média: uma eliminatória difícil (normalmente contra um dos outros dois grandes) e depois a final. O FC Porto já teve o seu primeiro jogo difícil, que foi em Alvalade, e passou, pelo que já vai nos quartos-de-final. O Sporting teve o primeiro jogo difícil contra o FC Porto e ficou. O Benfica ficou pelos oitavos, sem ter chegado a ter nenhum jogo de dificuldade máxima — como, aliás, nunca tem tido nas recentes edições. Escapou uma vez nos penalties, na Luz e contra o modesto Penafiel, mas não aprendeu a lição e à segunda vez que foi aos penalties, os deuses da fortuna acharam que já era de mais.

Eu confesso que só vi parte do prolongamento da «final antecipada da Taça» (como, num acesso de fervor clubista lhe chamou Fernando Seara) pois que à mesma hora do Leixões-Benfica estava a dar o Barcelona-Real Madrid, e facilmente se adivinha para onde iria a atenção de um amante de futebol que não fosse adepto benfiquista ou leixonense...Mas o pouco que vi deu-me para desconfiar que o Benfica estava a contar demasiadamente com a sorte nos penalties e a não fazer tudo o que devia para resolver as coisas antes disso.

O mesmo espírito de «não nos preocupemos muito, que isto há-de se resolver por si» tinha eu visto horas antes no Cinfães-FC Porto. E nem o facto de o FC Porto estar a jogar com a segunda linha impede a comparação, porque o Cinfães, apesar do valor inesperado demonstrado em campo, não é propriamente o Leixões. É um clube da 3ª Divisão, ou seja, do quarto escalão do futebol português. E houve jogadores portistas que não demonstraram, ao longo de todo o jogo, qualquer superioridade técnica sobre os seus adversários. Pelo contrário, comparativamente com um jogador da casa, de seu nome Mauro, eu fiquei com a impressão de que há vários jogadores no plantel do FC Porto que estão longe de lhe chegar aos calcanhares.

Felizmente (e esta é uma das características de que eu gosto em Jesualdo Ferreira, que não diz, nem a quente, a primeira coisa que lhe vem à cabeça), o treinador do FC Porto disse, no final, exactamente o que eu estava a pensar e que deveria ser dito. Primeiro, louvando o comportamento do adversário, o estado do relvado a fazer vergonha a muitos clubes da 1ª Divisão, e a festa da Taça que se viveu no estádio e na vila de Cinfães (onde estava mais gente que na «final antecipada» de Matosinhos), com aquelas reconfortantes imagens de público sobrando para os morros, para as árvores, para as casas e varandas circundantes. E depois, louvando e bem o desempenho de Guarín (uma boa surpresa para mim), em contraste com a atitude, que não deixou de criticar com toda clareza, de alguns ditos profissionais que estiveram em campo com a camisola azul e branca. Esta é, aliás, uma atitude que já vem de trás, muito antes da era Jesualdo Ferreira. Há jogadores do FC Porto, «segundas linhas», que, quando são chamados a substituir os titulares e têm uma oportunidade para mostrar o que valem, optam antes por se comportar como se o clube não lhes pagasse para jogar na Taça ou enfrentar equipas tidas como «menores». E depois, às vezes, acontecem os desastres, como com os Fátimas ou Torreenses...Eu se fosse a Jesualdo Ferreira (que percebeu muito bem quem eles eram) punha-os a treinar esta semana de manhã e de tarde. Só lhes fazia bem, para eles aprenderem que a camisola do clube é para respeitar sempre e, já agora, aprenderem também a respeitar o público, que, arrostando com chuva e frio, paga bilhete para os ir ver jogar.


3 - Se ganhar amanhã na Amadora (e, para isso, é preciso entrar desde o início com atitude de conquista, de quem não tem tempo a perder), o FC Porto chega a Dezembro na posição confortável de ser o único dos grandes que se mantém em prova e bem lançado em todas as competições. No campeonato ficará em 2º lugar, ex-aequo com o Leixões e a dois pontos do Benfica, com a vantagem de já ter jogado na Luz e em Alvalade; na Taça de Portugal, está nos quartos e é agora o grande favorito à vitória no Jamor, lá mais para o Verão; na Champions, proporcionou uma sensacional inversão de marcha, acabando por terminar o grupo em 1º lugar — o que este ano, todavia, não é garantia de tarefa menos difícil nos oitavos.

Com uma equipa que todos reconhecem mais fraca do que a da época passada — sem Bosingwa, Paulo Assunção, Quaresma — com um onze que eu, pessoalmente, acho desequilibrado, com bons e fracos jogadores, com Lucho e Lisandro, dois dos melhores, longe dos níveis da temporada passada, o saldo é francamente positivo. E, sendo-o nestas circunstâncias, o principal responsável só pode ser Jesualdo Ferreira — eternamente desvalorizado pela crítica. Fosse ele treinador do Sporting e descarregasse nos árbitros de cada vez que as coisas corressem mal, teria todas as atenções e elogios; fosse ele treinador do Benfica e isso lhe bastaria para ser incensado como mestre entre os mestres. Mas ele não gosta de falar sem razão e é treinador do FC Porto...

Olhe, professor, aqui tem um adepto. Crítico, claro, e sempre que o entender justo, porque é a minha maneira. Mas adepto e reconhecido.

CR7, 3G E NÚMEROS 9 (09 DEZEMBRO 2008)

1 - Cristiano Ronaldo está de parabéns e nós com ele; não são todos os países que conseguem ter no mesmo ano o vencedor da Bola de Ouro e da Bota de Ouro. E quem anda lá por fora sabe o que a fama de um jogador como Cristiano Ronaldo acrescenta ao prestígio de Portugal e, às vezes até em circunstâncias difíceis, pode ajudar a facilitar a vida no estrangeiro.

Julgo que a consagração de Cristiano Ronaldo é merecida, acima de tudo, porque fica a sensação de que resulta de muito e muito trabalho e de uma abordagem completamente profissional à sua missão. Todos os relatos contam como, tanto no Sporting como no Manchester, Cristiano se treinava sempre mais do que os outros, ficando a fazer horas e exercícios extras quando os colegas já tinham ido para o duche ou para casa. Para disputar, ao nível que ele joga e no campeonato que ele joga, umas 60 partidas por ano é preciso ser-se um atleta de eleição e é isso, sobretudo, que eu acho que ele é. Se os zelotas do patriotismo me permitem a heresia, repito o que já escrevi: considero o Lionel Messi o melhor jogador do mundo — e, pelo menos, há uns três anos para cá que não vejo ninguém com génio comparável. Em minha opinião, Messi é melhor jogador, Cristiano é melhor atleta. Qualquer dos dois podia ter ganho a Bota de Ouro, mas ainda bem para nós que foi Cristiano.

Conta Marcelo Rebelo de Sousa, no ultimo número do Sol, que licitou num leilão uma bola dedicada e autografada por Cristiano. Rezava assim a dedicatória: «Do génio da bola, Cristiano Ronaldo». E dizia Marcelo: «Um grande jogador. E modesto…». Esse é o grande perigo que hoje em dia espreita Cristiano Ronaldo: o deslumbramento. Oxalá os prémios sirvam também para acalmar essa sede de protagonismo e de glória, para que, no fim de tudo, reste só o grande prazer de jogar futebol que é a marca dos verdadeiros génios.


2 - Os três grandes (3G) ultrapassaram com uma perna às costas as deslocações desta jornada, mostrando que as coisas internamente estão a entrar na normalidade. O final dos jogos tem sido fatal para o Leixões, que viu o seu sonho lindo chegar a um fim natural, substituído pelo sonho, longamente adiado, do Benfica comandar o campeonato.

O Sporting ganhou sem grandes sustos na Amadora, mantendo o hábito e nem sequer chegando a asustar-se com o golo inaugural do Estrela.

O Benfica, como é de tradição, encontrou uma passadeira vermelha no Funchal, com direito a Alberto João Jardim nos Barreiros e tudo. Fiquei com algumas dúvidas na jogada determinante do primeiro golo (não no penalty, mas no que o antecedeu: o livre, a sua cobrança, a posição de Suazo), mas, embora essa jogada tenha praticamente traçado a sorte do jogo, não fiquei com dúvidas de que o Benfica chegaria sempre à vitória, porque o seu ataque, quando está completo e em dia sim, facilmente resolve estes jogos.

O FC Porto, cujas visitas a Setúbal são um verdadeiro pesadelo local, somou o 25.º jogo no campeonato no Bonfim sem perder e a 9ª vitória consecutiva.

O resultado de 0-3 pode enganar quem não viu o jogo de Setúbal: o FC Porto jogou mal e durante três quartas partes do jogo deu a sensação de que caminhava para um fiasco. Fico sempre apreensivo quando vejo o FC Porto começar o jogo a passo, jogando para trás e para os lados, fazendo passar a ideia de que os jogadores estão confiantes de que têm a eternidade diante deles para resolver os jogos com equipas mais fracas. O FC Porto passou os três primeiros minutos de jogo a trocar a bola no seu meio-campo, e os primeiros 66 minutos a jogar um futebol lento e sem ideias, criando apemas uma oportunidade de golo. Até que um canto e o superior poder de elevação de Bruno Alves abriram o caminho para a vitória, a seguir confirmado por um rasgo individual de Hulk. Mas ficaram vários sinais de preocupação, embora muito bem disfarçados por uma vitória anormalmente robusta.

Há dias estava a ler uma troca de argumentos entre leitores destas crónicas na net e havia um leitor portista que me acusava de incoerência por no passado ter criticado as exibições de Lucho González e depois ter passado a elogiá-las. Não sei se o leitor já terá reparado, mas Lucho é um jogador bipolar: tem fases de luz e fases de trevas. Nas primeiras, é um jogador que enche o campo e marca todo o ritmo da equipa, inventando espaços e linhas de passe, funcionando como um verdadeiro coração do onze; nas outras, que acontecem por vezes sem motivo lógico, é um jogador ausente e triste, que chega a parecer desinteressado do jogo. Quando escrevi essa crónica cuja memória o leitor guardou, foi a seguir a assistir a um jogo em que me dei ao trabalho de reparar que, nos primeiros 25 minutos, Lucho nem sequer tinha tocado na bola. Agora, infelizmente para a equipa, ele parece estar a atravessar outra vez uma fase de ofuscação, como já tinha sido patente no jogo com a Académica e voltou a ver-se em Setúbal, apesar do excelente golo final que facturou. Como, além dele, o FC Porto actual só dispõe de mais um bom médio de ataque, que é Meireles, as suas ausências mentais deixam o meio-campo portista tremendamente desfalcado. Para agravar as coisas, não há trinco de categoria: pese toda a promoção da imprensa, o Fernando está longe de me convencer; os dois últimos golos sofridos pelo FC Porto (contra o Fenerbaçhe e a Académica), para já não falar do golo contra o Sporting para a Taça, resultaram de passes falhados dele. E um trinco tem de ter uma segurança e qualidade de passe infalíveis.

Depois de muito insistir num 4x3x3 sem nenhum extremo de qualidade (excepto, talvez, Candeias, de que não gosta e não usa), Jesualdo tem vindo a derivar para um 4x1x3x2, assim ao menos terminando com o inexplicável ostracismo de Hulk. Até ele se convencer de que o Hulk era potencialmente o maior perigo de um FC Porto desfalcado de um desequilibrador como Quaresma, foi necessário insistir até à nausea no Mariano, experimentar o Tarik e tentar às vezes o Farias. Enfim, lá acabou por aceitar o que entrava pelos olhos dentro: que Hulk é, neste momento, a mais-valia ofensiva da equipa (os adversários, esses, sabem-no bem, que fazem dele um saco de pancada em todos os jogos). Não fosse Hulk, e o FC Porto, neste momento, não conseguiria disfarçar a crise de Lucho, o momento descrente de Lisandro e a absoluta inutilidade do jogo de Cristián Rodriguéz (também muito estimado pela critica, mas que não encontra um adepto na bancada).

Este FC Porto, mais ainda do que o do ano passado, é uma equipa desequilibrada: metade são grandes jogadores e outra metade são jogadores banalíssimos; falta o meio-termo. E bastaria, por exemplo, que no próximo mercado de Inverno fossem recuperados o Leandro Lima, o Ibson e o Luís Aguiar — todos emprestados a outros emblemas — e aquele meio-campo estaria aí para enfrentar a segunda metade da época com outros argumentos.


3 - Há qualquer coisa de semelhante no processo e na filosofia de jogo entre Hulk e Suazo. Ambos são atacantes do género não complicativo. Parecem perguntar «Qual é a finalidade disto? É marcar golos? Então vamos a isso!». O Hulk é mais forte, o Suazo é mais técnico, mas ambos trazem ao jogo das suas equipas uma simplicidade de ideias e uma escolha de trajectórias lineares para chegar ao golo que são raras, hoje em dia. Há pontas-de-lança que, apesar de às vezes parecerem e serem tidos como finalizadores e jogadores dotados, passam a vida a fugir da responsabilidade do golo. Procuram sempre a quem passar a bola lateralmente, mesmo quando têm espaço para o remate e a baliza à frente; recebem a bola de costas, com os centrais atrás, e tratam logo de a atrasar para de onde ela veio; em vez de se fixarem na zona de tiro, gostam de se desmarcar para zonas menos decisivas, colhendo os elogios dos críticos pela sua constante «mobilidade». Mas não resolvem jogos, não. Hulk e Suazo sim, esses resolvem. Como o Liedson, noutro estilo.

domingo, dezembro 14, 2008

A EUROPA DA VERDADE (02 DEZEMBRO 2008)

Só a bendita cegueira alheia é que pode ver nisso o resultado dos «apitos dourados» com que se vão entretendo e enganando. Deus os conserve assim por muitos anos!

Em Julho passado viveu-se um episódio marcante no futebol português que eu, por mais anos que viva, hei-de lembrar sempre como um momento exemplar de anti-desportivismo: a tentativa consertada de Benfica e Vitória de Guimarães de impedirem o FC Porto de participar na edição deste ano da Liga dos Campeões. Mostrando exuberantemente o que entendem pela tal «verdade desportiva» que tanto apregoam, ambos os clubes tentaram usurpar, através de uma feroz batalha jurídica, o lugar que o FC Porto conquistara em campo, por mérito próprio e após um brilhante título de campeão, com mais de 20 pontos de avanço sobre aqueles que lhe queriam roubar o lugar.

Toda a argumentação se baseava numa condenação do CD da Liga, a qual, por sua vez, tinha, como sustentação principal e quase única, as declarações, à vista de todos determinadas por motivos de vingança pessoal da D.ª Carolina Salgado — cuja credibilidade é todas as semanas atestada pelos relatos das suas aventuras nas revistas sociais e pela denúncia de que já foi alvo, por parte de um juiz de instrução, de crime de falsas declarações. Mas esses detalhes não estavam, obviamente, ao alcance da informação e compreensão do Comité de Justiça da UEFA — o qual tinha apenas de se confrontar com uma condenação interna do FC Porto, de que a sua Direcção, avaliando mal os riscos, decidira não recorrer. E, não fosse o processo presente à UEFA mesmo assim aberrante do ponto de vista jurídico, Benfica e Guimarães teriam obtido na secretaria aquilo que tão pouco justificaram em campo. Estiveram quase a consegui-lo e, se isso tem sucedido, a injustiça seria dupla pois que, se a Liga portuguesa teve até este ano a faculdade de ver duas equipes entrarem directamente na Champions e uma terceira disputar a última pré-eliminatória, deve-o, principalmente, ao FC Porto, cuja carreira europeia nas últimas décadas tem acumulado pontos para tal.

Esta semana, depois de estrondosa derrota do Benfica em Atenas, antecedida da não menos demolidora derrota caseira com o Galatasaray — que praticamente o colocaram fora da Taça UEFA — tornou-se clara a que teria sido mais uma consequência da vitória jurídica na UEFA: o futebol português teria perdido o seu melhor representante na Europa, a benefício de duas equipas sem estaleca para tal.

O Vitória de Guimarães (que, no início da tentativa de cambalacho jurídico uefeiro, pareceu revelar alguma vergonha em acompanhar o Benfica), trocou uma amizade de muitos anos com os portistas e o prestígio que justamente adquirira no final de um campeonato em que lutou pelo segundo lugar europeu com o Sporting até à última jornada, por uma nova amizade com o Benfica, que se vem revelando uma espécie de «beijo da morte» — como se uma justiça divina se tivesse encarregado de castigar os novos ptolomeus. Perdeu para o modestíssimo Basileia a possibilidade de entrar na Champions e, logo a seguir, perdeu para o estreante europeu Portsmouth a qualificação para a Taça UEFA. E assim perdendo em campo a admissão numa e noutra competição, mostrou porquê que a batalha jurídica em que acabou por se lançar, na esteira do Benfica, era afinal tão importante: porque era a única hipótese de chegar à Europa. Por portas travessas. Mas a maldição continuou internamente, onde o futebol escorreito do Vitória do ano passado desapareceu para parte incerta, substituído por um futebol sem garra e sem chama, sem sombra de dimensão europeia. Ao fim de dez jogos no campeonato, o Vitória ocupa o 11.º lugar, a catorze pontos do primeiro e apenas a três da despromoção, sendo a única equipa sem vitórias caseiras. Pior ainda, vê-se na situação humilhante de ter de mendigar ao seu novo aliado benfiquista o favor de lhe ceder alguns jogadores de refugo, em nome da solidariedade anti-portista demonstrada em Julho passado. Podia ao menos ter perguntado a outros que já experimentaram o abraço benfiquista, como o Estoril, o que se ganha com isso...

Quanto ao Benfica, incensado em toda a imprensa desportiva lisboeta, com o seu treinador elevado a figura de referência (quando ganha, porque é bestial, quando perde porque não ficou satisfeito), cometeu o erro clássico de tomar os desejos e as louvaminhas por realidades. Na altura em que escrevo, ainda não jogou com o Vitória de Setúbal, mas prevejo que consiga enfim chegar ao primeiro lugar do campeonato, depois de três anos e meio de proclamações falhadas. Isso chegará, aparentemente, para reacender a esperança e a ilusão, fazendo os benfiquistas acreditar de novo que têm uma grande equipe — que, de facto, no papel e nos nomes dos jogadores, é bem melhor do que a do ano passado, mas que, na hora da verdade, tem mostrado sempre estar longe de ser uma grande equipa. O Olympiakos revelou antes uma equipa banal — como o Galatasaray e o FC Porto já o haviam revelado. Mas, quando não se quer ver nem ouvir, não se vê nem se ouve. O Benfica funciona como aqueles ditadores rodeados por uma corte de aduladores, sempre prontos a incensá-los. Se alguém destoa do coro e se atreve a dizer que o rei vai nu, sua majestade manda-os calar e ataca-os como inimigos a abater. E assim, quando chega o momento dos confrontos decisivos e o exército de sua majestade se revela incipiente e incapaz, fica tudo muito espantado, a gritar que foi batota ou a prometer que foi apenas um acidente de percurso.

É verdade que, infelizmente, também o meu FC Porto vem dando mostras crescentes de ter sucumbido à doutrina do despotismo iluminado na Direcção do clube — quem ousa criticar, mesmo o que é evidente, passa à condição de inimigo interno, antes de passar à de traidor, que é a antecâmara da condição de inimigo externo infiltrado. Quem apenas está habituado à liberdade própria, jamais entenderá o valor da liberdade alheia. E é tão mais fácil governar assim!

Todavia, e como não me tenho cansado de o repetir, há uma diferença essencial no FC Porto, mesmo que os seus métodos de gestão tendam perigosamente a aproximar-se dos de outros: a cultura de exigência desportiva que todos naquele clube — jogadores, técnicos, adeptos, gestores — praticam sem cedências. O FC Porto ganha mais que os rivais e bate-se na Europa do futebol como ninguém mais entre nós porque desde há muito que todos naquela casa sabem que, para ganhar, não basta querer e proclamar: é preciso trabalhar mais, saber sofrer mais, saber perder e saber ganhar. Foi assim que o FC Porto se transformou, de um clube de província, num campeão mundial. E isso, por muito que pontualmente o possa criticar, hei-de reconhecer sempre que foi obra de Pinto da Costa. Foi ele que trouxe essa cultura de exigência e de vitória para o FC Porto e que a fez passar, de geração em geração. Como aqui escreveu Vítor Serpa, sexta-feira passada, «o FC Porto é diferente porque a dimensão do seu futebol começa na cabeça dos seus jogadores e numa cultura de exigência interna, muito especialmente dos seus adeptos. No dia em que o FC Porto perder essa cultura de exigência será igual, no resultado e na falta de afirmação, aos seus tristes parceiros nacionais».

Foi por saber isso há muito tempo que eu pude prever aqui que o FC Porto em crise iria vencer em Kiev. E podia ter previsto também que iria vencer em Istambul, porque esse FC Porto que aparece cheio de personalidade e de coragem nos momentos da verdade não é fruto do acaso. Ano após anos, saem os melhores e a atitude mantém-se: só a bendita cegueira alheia é que pode ver nisso o resultado dos «apitos dourados» com que se vão entretendo e enganando. Deus os conserve assim por muitos anos!