Só a bendita cegueira alheia é que pode ver nisso o resultado dos «apitos dourados» com que se vão entretendo e enganando. Deus os conserve assim por muitos anos!
Em Julho passado viveu-se um episódio marcante no futebol português que eu, por mais anos que viva, hei-de lembrar sempre como um momento exemplar de anti-desportivismo: a tentativa consertada de Benfica e Vitória de Guimarães de impedirem o FC Porto de participar na edição deste ano da Liga dos Campeões. Mostrando exuberantemente o que entendem pela tal «verdade desportiva» que tanto apregoam, ambos os clubes tentaram usurpar, através de uma feroz batalha jurídica, o lugar que o FC Porto conquistara em campo, por mérito próprio e após um brilhante título de campeão, com mais de 20 pontos de avanço sobre aqueles que lhe queriam roubar o lugar.
Toda a argumentação se baseava numa condenação do CD da Liga, a qual, por sua vez, tinha, como sustentação principal e quase única, as declarações, à vista de todos determinadas por motivos de vingança pessoal da D.ª Carolina Salgado — cuja credibilidade é todas as semanas atestada pelos relatos das suas aventuras nas revistas sociais e pela denúncia de que já foi alvo, por parte de um juiz de instrução, de crime de falsas declarações. Mas esses detalhes não estavam, obviamente, ao alcance da informação e compreensão do Comité de Justiça da UEFA — o qual tinha apenas de se confrontar com uma condenação interna do FC Porto, de que a sua Direcção, avaliando mal os riscos, decidira não recorrer. E, não fosse o processo presente à UEFA mesmo assim aberrante do ponto de vista jurídico, Benfica e Guimarães teriam obtido na secretaria aquilo que tão pouco justificaram em campo. Estiveram quase a consegui-lo e, se isso tem sucedido, a injustiça seria dupla pois que, se a Liga portuguesa teve até este ano a faculdade de ver duas equipes entrarem directamente na Champions e uma terceira disputar a última pré-eliminatória, deve-o, principalmente, ao FC Porto, cuja carreira europeia nas últimas décadas tem acumulado pontos para tal.
Esta semana, depois de estrondosa derrota do Benfica em Atenas, antecedida da não menos demolidora derrota caseira com o Galatasaray — que praticamente o colocaram fora da Taça UEFA — tornou-se clara a que teria sido mais uma consequência da vitória jurídica na UEFA: o futebol português teria perdido o seu melhor representante na Europa, a benefício de duas equipas sem estaleca para tal.
O Vitória de Guimarães (que, no início da tentativa de cambalacho jurídico uefeiro, pareceu revelar alguma vergonha em acompanhar o Benfica), trocou uma amizade de muitos anos com os portistas e o prestígio que justamente adquirira no final de um campeonato em que lutou pelo segundo lugar europeu com o Sporting até à última jornada, por uma nova amizade com o Benfica, que se vem revelando uma espécie de «beijo da morte» — como se uma justiça divina se tivesse encarregado de castigar os novos ptolomeus. Perdeu para o modestíssimo Basileia a possibilidade de entrar na Champions e, logo a seguir, perdeu para o estreante europeu Portsmouth a qualificação para a Taça UEFA. E assim perdendo em campo a admissão numa e noutra competição, mostrou porquê que a batalha jurídica em que acabou por se lançar, na esteira do Benfica, era afinal tão importante: porque era a única hipótese de chegar à Europa. Por portas travessas. Mas a maldição continuou internamente, onde o futebol escorreito do Vitória do ano passado desapareceu para parte incerta, substituído por um futebol sem garra e sem chama, sem sombra de dimensão europeia. Ao fim de dez jogos no campeonato, o Vitória ocupa o 11.º lugar, a catorze pontos do primeiro e apenas a três da despromoção, sendo a única equipa sem vitórias caseiras. Pior ainda, vê-se na situação humilhante de ter de mendigar ao seu novo aliado benfiquista o favor de lhe ceder alguns jogadores de refugo, em nome da solidariedade anti-portista demonstrada em Julho passado. Podia ao menos ter perguntado a outros que já experimentaram o abraço benfiquista, como o Estoril, o que se ganha com isso...
Quanto ao Benfica, incensado em toda a imprensa desportiva lisboeta, com o seu treinador elevado a figura de referência (quando ganha, porque é bestial, quando perde porque não ficou satisfeito), cometeu o erro clássico de tomar os desejos e as louvaminhas por realidades. Na altura em que escrevo, ainda não jogou com o Vitória de Setúbal, mas prevejo que consiga enfim chegar ao primeiro lugar do campeonato, depois de três anos e meio de proclamações falhadas. Isso chegará, aparentemente, para reacender a esperança e a ilusão, fazendo os benfiquistas acreditar de novo que têm uma grande equipe — que, de facto, no papel e nos nomes dos jogadores, é bem melhor do que a do ano passado, mas que, na hora da verdade, tem mostrado sempre estar longe de ser uma grande equipa. O Olympiakos revelou antes uma equipa banal — como o Galatasaray e o FC Porto já o haviam revelado. Mas, quando não se quer ver nem ouvir, não se vê nem se ouve. O Benfica funciona como aqueles ditadores rodeados por uma corte de aduladores, sempre prontos a incensá-los. Se alguém destoa do coro e se atreve a dizer que o rei vai nu, sua majestade manda-os calar e ataca-os como inimigos a abater. E assim, quando chega o momento dos confrontos decisivos e o exército de sua majestade se revela incipiente e incapaz, fica tudo muito espantado, a gritar que foi batota ou a prometer que foi apenas um acidente de percurso.
É verdade que, infelizmente, também o meu FC Porto vem dando mostras crescentes de ter sucumbido à doutrina do despotismo iluminado na Direcção do clube — quem ousa criticar, mesmo o que é evidente, passa à condição de inimigo interno, antes de passar à de traidor, que é a antecâmara da condição de inimigo externo infiltrado. Quem apenas está habituado à liberdade própria, jamais entenderá o valor da liberdade alheia. E é tão mais fácil governar assim!
Todavia, e como não me tenho cansado de o repetir, há uma diferença essencial no FC Porto, mesmo que os seus métodos de gestão tendam perigosamente a aproximar-se dos de outros: a cultura de exigência desportiva que todos naquele clube — jogadores, técnicos, adeptos, gestores — praticam sem cedências. O FC Porto ganha mais que os rivais e bate-se na Europa do futebol como ninguém mais entre nós porque desde há muito que todos naquela casa sabem que, para ganhar, não basta querer e proclamar: é preciso trabalhar mais, saber sofrer mais, saber perder e saber ganhar. Foi assim que o FC Porto se transformou, de um clube de província, num campeão mundial. E isso, por muito que pontualmente o possa criticar, hei-de reconhecer sempre que foi obra de Pinto da Costa. Foi ele que trouxe essa cultura de exigência e de vitória para o FC Porto e que a fez passar, de geração em geração. Como aqui escreveu Vítor Serpa, sexta-feira passada, «o FC Porto é diferente porque a dimensão do seu futebol começa na cabeça dos seus jogadores e numa cultura de exigência interna, muito especialmente dos seus adeptos. No dia em que o FC Porto perder essa cultura de exigência será igual, no resultado e na falta de afirmação, aos seus tristes parceiros nacionais».
Foi por saber isso há muito tempo que eu pude prever aqui que o FC Porto em crise iria vencer em Kiev. E podia ter previsto também que iria vencer em Istambul, porque esse FC Porto que aparece cheio de personalidade e de coragem nos momentos da verdade não é fruto do acaso. Ano após anos, saem os melhores e a atitude mantém-se: só a bendita cegueira alheia é que pode ver nisso o resultado dos «apitos dourados» com que se vão entretendo e enganando. Deus os conserve assim por muitos anos!
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
domingo, dezembro 14, 2008
sábado, dezembro 06, 2008
EXCURSÃO AO BRASIL (25 NOVEMBRO 2008)
1- Como sabemos e todos os dias nos repetem, vai para aí uma terrível crise, que ataca as economias das famílias portuguesas. Bem, nem tanto assim ou nem todas. A Euribor desceu acentuadamente e, com ela, desceram as taxas de juro que a população mais endividada do mundo paga mensalmente aos bancos; a gasolina começou a descer também (embora apenas uma pequena parte do que deveria descer, se houvesse transparência no mercado). E, com isso, parece que há por aí muitos portugueses oficialmente em crise, que já se esqueceram outra vez das preocupações: as viagens para o Brasil estão esgotadas até Janeiro e os bilhetes já custam a inacreditável quantia de dois mil euros!
Não admira que também Gilberto Madail e o seu homólogo da CBF tenham pensado em conjunto montar também uma excursão ao Brasil. Juntos, encheram um avião de vedetas de ambos os lados do Atlântico, que têm em comum o facto de quase todas estarem expatriadas na Europa milionária do futebol. Foi um voo histórico: talvez nunca um só avião tenha transportado uma carga humana tão valiosa. Afora essa curiosidade histórica e as sempre bem-vindas receitas para duas federações que se habituaram a viver no luxo, não consigo descortinar uma única vantagem nesta excursão de Novembro ao Brasil.
Como se sabe, o negócio das federações é feito toda à custa do esforço extra dos jogadores e, sobretudo, dos clubes que lhes pagam. Há qualquer coisa de «chulice» institucional neste negócio dos jogos particulares organizados para dar receita às federações. Compreendo, evidentemente, que se façam jogos de preparação antes das grandes competições — o Europeu e o Mundial — e que, de vez em quando, se faça um outro jogo dito «de apresentação». Mas aproveitar todos os buracos e buraquinhos do calendário competitivo dos clubes para encaixar jogos a feijões da Selecção Nacional é apenas um abuso de coisa alheia. Já Scolari — que, para justificar o ordenado de luxo da federação e os milhentos contratos publicitários que adorava, tinha de reunir a Selecção pelo menos uma vez por mês — confessava, todavia, que a única preparação que interessava era a que decorria nas duas ou três semanas anteriores às fases finais das competições, quando tinha os jogadores à sua disposição o tempo suficiente para treinar rotinas e esquemas de jogo. Agora, fazer um jogo de preparação com as Ilhas Feroé, dois meses depois outro com o Brasil, dois meses depois outro com as Bahamas, dois meses depois outro com a Itália, não serve para nada, rigorosamente. Só para prejudicar os clubes e cansar as vedetas.
O Brasil-Portugal, jogado a meio de uma semana de competições nacionais e entre competições europeias, num subúrbio de Brasília e num relvado que nem se sabia se iria estar em condições, foi uma excursão inútil e um desastre desportivo. Uma humilhação para todos nós, como era de prever, excepto para o Miguel Veloso, que não viu motivos para tal.
Repare-se, por exemplo, no caso de Danny, a mais recente aquisição da Selecção. Na penúltima jornada do campeonato russo, jogou em São Petersburgo, no domingo, dia 16; a 17, no dia seguinte, viajou para Lisboa, provavelmente via Frankfurt e talvez também com escala em Moscovo — um mínimo de oito horas de viagem, entre voos e aeroportos; nessa mesma noite, embarcou para um voo de dez horas até Brasília, saindo de uma temperatura de alguns dez graus negativos para as temperaturas do Verão brasileiro, a rondar os 35; no dia seguinte, treinou-se em Brasília e na noite seguinte, quarta-feira, a uma hora que para ele equivalia às 4 da manhã em S. Petersburgo, jogou contra o Brasil e até marcou o golo inaugural; terminado o jogo, seguiu-se hora e meia de autocarro e embarque para Lisboa, em novo voo de dez horas; desembarcado em Lisboa ao meio-dia de 5.ª feira, ei-lo a reembarcar para S. Petersburgo, via Frankfurt: mais oito horas de viagem, até chegar a casa, depois de ter percorrido 23 mil quilómetros em quatro dias; sexta-feira, acorda em S. Petersburgo e voa para Moscovo, onde, no dia seguinte, joga os 90 minutos no último e decisivo jogo do campeonato contra o Dínamo, em que o seu clube, o Zenit, disputava o 5.º lugar e a participação na Taça UEFA do próximo ano (o Zenit ganhou e Danny marcou dois golos e assistiu o terceiro); seguiu-se novo voo de regresso a S. Petersburgo e, enfim, o descanso. Imagine-se o entusiasmo com que ele irá receber no futuro novas convocatórias para jogos destes...
2- Se todos, brasileiros e portugueses, tinham razões para acusar cansaço, desmotivação e poupança, um houve que foi o pior em campo e não por essa razão: Cristiano Ronaldo. O homem que já virou griffe e que se faz tratar por CR7, perdeu-se no jogo apenas por culpa do vedetismo e vaidade de que vem dando mostras, em crescente descontrolo. Quando lhe perguntaram se era o melhor jogador do mundo e ele respondeu que era «o primeiro, o segundo e o terceiro», quando lhe perguntaram se era mais bonito que o Kaká e ele respondeu «gosto de mim», quando foi substituído no sábado, em Inglaterra, depois de mais uma exibição completamente apagada, e saiu com o dedo espetado a indicar que era o n.º 1, já dá para perceber que aquele rapaz precisa urgentemente de quem lhe explique coisas básicas sobre a vida e a maneira de estar no futebol, como em tudo o resto.
Em Brasília, ele não se perdeu por cansaço nem por falta de talento: perdeu-se por falta de humildade, incapacidade de pensar na equipa e não apenas em si próprio, parecendo uma barata tonta às voltas com fintas falhadas e rodriguinhos sem sentido para impressionar as meninas da plateia. O problema de se querer ser vedeta todos os dias é que não se pode falhar dia nenhum... Ele é o número 1 do mundo? Ponha os olhos no Messi ou no Ibrahimovic e vai ver que não. Ou então, que alguém o ponha a ver os vídeos de um senhor chamado Eusébio da Silva Ferreira, que ganhava um centésimo do que ele ganha, jogava bem mais do que ele e era capaz de chorar depois de perder um jogo pela Selecção.
3- Dei comigo, durante o Brasil-Portugal de triste memoria, a contar os ex-jogadores do FC Porto que actuavam pelos dois lados. Eram onze, uma equipa inteira! Quatro pelo Brasil — Thiago Silva, Diego, Anderson e Luís Fabiano — e sete por Portugal — Bosingwa, Pepe, Paulo Ferreira, Deco, Maniche, César Peixoto e Hugo Almeida. Por aqui se pode ver a dimensão do património que o FC Porto tem delapidado nos últimos anos.
4- Já não há saco para aguentar as eternas lamúrias dos sportinguistas contra as arbitragens, ainda para mais sem ponta de razão. Parece que, no espírito de um sportinguista, basta que um árbitro apite qualquer coisa contra o Sporting para já ser suspeito. Como toda a gente viu e comentou, Paulo Bento, mais uma vez, não teve a menor razão para se queixar da arbitragem de Artur Soares Dias, na Figueira da Foz. Na minha opinião, trata-se até, provavelmente, do melhor árbitro português do momento e, seguramente, muito melhor árbitro do que Paulo Bento é treinador. Com que legitimidade é que Paulo Bento acha que se pode permitir pôr em causa a seriedade dele? Tem algum mandado divino para decidir que não é penalty quando toda a gente viu que era? Ou tem andado a almoçar com o dr. Dias da Cunha e está contagiado pela asneira livre? Ele que ponha os olhos no Domingos Paciência, que interrogado sobre o penalty a favor do Benfica que resolveu o jogo em Coimbra — e quando já todos tínhamos visto que resultara de uma simulação de Reyes que enganou o árbitro — se limitou a dizer que estava longe de mais para poder ter visto em condições. Mais vale perder como um gentleman do que ganhar como um Dias da Cunha.
5- Olho para aqueles meninos dos No Name Boys e para o extenso rol das suas actividades «desportivas» e só espero que ninguém mais venha falar da selvajaria dos adeptos portistas — um dos mitos que alimentam as crónicas lisboetas desde há muito.
Não admira que também Gilberto Madail e o seu homólogo da CBF tenham pensado em conjunto montar também uma excursão ao Brasil. Juntos, encheram um avião de vedetas de ambos os lados do Atlântico, que têm em comum o facto de quase todas estarem expatriadas na Europa milionária do futebol. Foi um voo histórico: talvez nunca um só avião tenha transportado uma carga humana tão valiosa. Afora essa curiosidade histórica e as sempre bem-vindas receitas para duas federações que se habituaram a viver no luxo, não consigo descortinar uma única vantagem nesta excursão de Novembro ao Brasil.
Como se sabe, o negócio das federações é feito toda à custa do esforço extra dos jogadores e, sobretudo, dos clubes que lhes pagam. Há qualquer coisa de «chulice» institucional neste negócio dos jogos particulares organizados para dar receita às federações. Compreendo, evidentemente, que se façam jogos de preparação antes das grandes competições — o Europeu e o Mundial — e que, de vez em quando, se faça um outro jogo dito «de apresentação». Mas aproveitar todos os buracos e buraquinhos do calendário competitivo dos clubes para encaixar jogos a feijões da Selecção Nacional é apenas um abuso de coisa alheia. Já Scolari — que, para justificar o ordenado de luxo da federação e os milhentos contratos publicitários que adorava, tinha de reunir a Selecção pelo menos uma vez por mês — confessava, todavia, que a única preparação que interessava era a que decorria nas duas ou três semanas anteriores às fases finais das competições, quando tinha os jogadores à sua disposição o tempo suficiente para treinar rotinas e esquemas de jogo. Agora, fazer um jogo de preparação com as Ilhas Feroé, dois meses depois outro com o Brasil, dois meses depois outro com as Bahamas, dois meses depois outro com a Itália, não serve para nada, rigorosamente. Só para prejudicar os clubes e cansar as vedetas.
O Brasil-Portugal, jogado a meio de uma semana de competições nacionais e entre competições europeias, num subúrbio de Brasília e num relvado que nem se sabia se iria estar em condições, foi uma excursão inútil e um desastre desportivo. Uma humilhação para todos nós, como era de prever, excepto para o Miguel Veloso, que não viu motivos para tal.
Repare-se, por exemplo, no caso de Danny, a mais recente aquisição da Selecção. Na penúltima jornada do campeonato russo, jogou em São Petersburgo, no domingo, dia 16; a 17, no dia seguinte, viajou para Lisboa, provavelmente via Frankfurt e talvez também com escala em Moscovo — um mínimo de oito horas de viagem, entre voos e aeroportos; nessa mesma noite, embarcou para um voo de dez horas até Brasília, saindo de uma temperatura de alguns dez graus negativos para as temperaturas do Verão brasileiro, a rondar os 35; no dia seguinte, treinou-se em Brasília e na noite seguinte, quarta-feira, a uma hora que para ele equivalia às 4 da manhã em S. Petersburgo, jogou contra o Brasil e até marcou o golo inaugural; terminado o jogo, seguiu-se hora e meia de autocarro e embarque para Lisboa, em novo voo de dez horas; desembarcado em Lisboa ao meio-dia de 5.ª feira, ei-lo a reembarcar para S. Petersburgo, via Frankfurt: mais oito horas de viagem, até chegar a casa, depois de ter percorrido 23 mil quilómetros em quatro dias; sexta-feira, acorda em S. Petersburgo e voa para Moscovo, onde, no dia seguinte, joga os 90 minutos no último e decisivo jogo do campeonato contra o Dínamo, em que o seu clube, o Zenit, disputava o 5.º lugar e a participação na Taça UEFA do próximo ano (o Zenit ganhou e Danny marcou dois golos e assistiu o terceiro); seguiu-se novo voo de regresso a S. Petersburgo e, enfim, o descanso. Imagine-se o entusiasmo com que ele irá receber no futuro novas convocatórias para jogos destes...
2- Se todos, brasileiros e portugueses, tinham razões para acusar cansaço, desmotivação e poupança, um houve que foi o pior em campo e não por essa razão: Cristiano Ronaldo. O homem que já virou griffe e que se faz tratar por CR7, perdeu-se no jogo apenas por culpa do vedetismo e vaidade de que vem dando mostras, em crescente descontrolo. Quando lhe perguntaram se era o melhor jogador do mundo e ele respondeu que era «o primeiro, o segundo e o terceiro», quando lhe perguntaram se era mais bonito que o Kaká e ele respondeu «gosto de mim», quando foi substituído no sábado, em Inglaterra, depois de mais uma exibição completamente apagada, e saiu com o dedo espetado a indicar que era o n.º 1, já dá para perceber que aquele rapaz precisa urgentemente de quem lhe explique coisas básicas sobre a vida e a maneira de estar no futebol, como em tudo o resto.
Em Brasília, ele não se perdeu por cansaço nem por falta de talento: perdeu-se por falta de humildade, incapacidade de pensar na equipa e não apenas em si próprio, parecendo uma barata tonta às voltas com fintas falhadas e rodriguinhos sem sentido para impressionar as meninas da plateia. O problema de se querer ser vedeta todos os dias é que não se pode falhar dia nenhum... Ele é o número 1 do mundo? Ponha os olhos no Messi ou no Ibrahimovic e vai ver que não. Ou então, que alguém o ponha a ver os vídeos de um senhor chamado Eusébio da Silva Ferreira, que ganhava um centésimo do que ele ganha, jogava bem mais do que ele e era capaz de chorar depois de perder um jogo pela Selecção.
3- Dei comigo, durante o Brasil-Portugal de triste memoria, a contar os ex-jogadores do FC Porto que actuavam pelos dois lados. Eram onze, uma equipa inteira! Quatro pelo Brasil — Thiago Silva, Diego, Anderson e Luís Fabiano — e sete por Portugal — Bosingwa, Pepe, Paulo Ferreira, Deco, Maniche, César Peixoto e Hugo Almeida. Por aqui se pode ver a dimensão do património que o FC Porto tem delapidado nos últimos anos.
4- Já não há saco para aguentar as eternas lamúrias dos sportinguistas contra as arbitragens, ainda para mais sem ponta de razão. Parece que, no espírito de um sportinguista, basta que um árbitro apite qualquer coisa contra o Sporting para já ser suspeito. Como toda a gente viu e comentou, Paulo Bento, mais uma vez, não teve a menor razão para se queixar da arbitragem de Artur Soares Dias, na Figueira da Foz. Na minha opinião, trata-se até, provavelmente, do melhor árbitro português do momento e, seguramente, muito melhor árbitro do que Paulo Bento é treinador. Com que legitimidade é que Paulo Bento acha que se pode permitir pôr em causa a seriedade dele? Tem algum mandado divino para decidir que não é penalty quando toda a gente viu que era? Ou tem andado a almoçar com o dr. Dias da Cunha e está contagiado pela asneira livre? Ele que ponha os olhos no Domingos Paciência, que interrogado sobre o penalty a favor do Benfica que resolveu o jogo em Coimbra — e quando já todos tínhamos visto que resultara de uma simulação de Reyes que enganou o árbitro — se limitou a dizer que estava longe de mais para poder ter visto em condições. Mais vale perder como um gentleman do que ganhar como um Dias da Cunha.
5- Olho para aqueles meninos dos No Name Boys e para o extenso rol das suas actividades «desportivas» e só espero que ninguém mais venha falar da selvajaria dos adeptos portistas — um dos mitos que alimentam as crónicas lisboetas desde há muito.
HERÓIS DO MAR (18 NOVEMBRO 2008)
1- O Leixões merece. Merece ter ganho em Alvalade, merece ter ganho no Dragão e merecia ter ganho ao Benfica, se a sorte não lhe tivesse voltado as costas. O Leixões merece as quatro vitórias obtidas fora de casa em outros tantos jogos. Merece o primeiro lugar isolado, os cinco pontos a mais que leva sobre o FC Porto e os seis que leva sobre o Sporting. O Leixões merece este regresso à 1ª Liga, depois de tantos anos de espera e de dois anos em que esteve quase a conseguir chegar, mas no fim fraquejou.
Durante toda a semana foi um «blitz» de entusiasmo da imprensa, antevendo a chegada do Benfica ao primeiro lugar, após quatro anos de ausência da posição cimeira do futebol português. Lendo os jornais, eram favas contadas: o Benfica vencia tranquilamente na Luz os sub-alimentados do Estrela da Amadora, e o Sporting, com uma «arbitragem imparcial», só podia vencer de forma igualmente tranquila o intruso de Matosinhos. Ah, mas o futebol ainda tem parte substancial que se decide no relvado, apesar de tanta conversa, tantas queixas e lamúrias, tantas pseudoverdades proclamadas para valerem como factos!
Facto é que o Benfica lá venceu o Estrela da Amadora, ao estilo tem-te não caias, que é a sua imagem de marca este ano. Foi uma exibição pífia, a fazer lembrar o Benfica de Trapattoni, que foi campeão sem convencer ninguém. Facto é que o Leixões chegou a Alvalade, levou meio tempo a perder o respeito ao Sporting e depois mostrou ao que vinha: jogar sem medo, jogar com qualidade, com classe, com alegria. Já é tempo de fazer justiça a José Mota: não sei se haverá, entre os treinadores portugueses em actividade aqui, quem se lhe possa comparar em termos de resultados. Que os há menos humildes, sempre em bicos de pés mal obtêm um bom resultado, bem-falantes, isso há. Mas que consigam, uma, duas, várias vezes, pegar em equipas sem esperança e pô--las a jogar mais do que seria legítimo exigir e chegar aonde ninguém pensava possível, como José Mota tem feito, isso não há muitos.
Em Alvalade e no Dragão, a prestação do Leixões confirmou uma coisa que há muito penso: que uma equipa pequena, bem treinada e bem motivada, não precisa de jogar naqueles «quintais» onde se disputam tantos jogos da 1.ª Liga para fazer frente aos grandes. O que mais tenho gostado de ver no Leixões é o aproveitamento que a equipa faz do campo todo. As dimensões do relvado dos grandes não a intimidam, antes pelo contrario: é nesse espaço todo que o Leixões mostra que sabe jogar futebol. Bater o pé aos grandes em campos como o de Paços de Ferreira, Nacional, Naval, Amadora, não é tão difícil como parece: porque a falta de espaço prejudica o melhor futebol e beneficia quem quer, acima de tudo, defender e apostar na confusão e na sorte. Não é por acaso que os jogos dos campeonatos inglês, espanhol, italiano, francês ou alemão, são sempre bem disputados, mesmo com equipas fracas. Porque ninguém vê, nas Ligas desses países, campos como aqueles. Se eu mandasse, havia dois tipos de clubes que seriam excluídos do primeiro escalão: os que não pagam os salários, a Segurança Social ou o fisco, e os que não dispõem de relvados com a dimensão máxima.
2- Já aqui escrevi algumas vezes que tenho todo o respeito por Paulo Bento. Acho que ele faz o melhor possível com a equipa que tem e, para todos os efeitos, é uma proeza ter que disputar o campeonato de igual para igual com dois rivais que gastam o dobro ou o triplo do que o Sporting gasta em jogadores. Mas Paulo Bento, de facto, não tem o dom da palavra e parece achar que isso não é importante. Está errado: um treinador é um líder, um condutor de homens, e um líder tem de saber falar para que o entendam, para que as suas razões sejam escutadas. Mesmo falando «a quente», não pode dizer a primeira coisa que lhe vem à cabeça, não pode anunciar como verdades indiscutíveis coisas que não resistem ao senso-comum de quem o ouve e também vê os jogos, não pode adoptar uma linguagem sem freio, ao nível do adepto de bancada.
Durante toda a semana, foi montada uma fortíssima campanha, e não apenas interna, de lavagem das declarações incendiárias de Paulo Bento, no final do Sporting-FC Porto. Ao ler algumas das opiniões expressas a propósito disso, fiquei a pensar se os tais que se intitulam cavalheiros do futebol acham mesmo que é admissível que um treinador diga o que Paulo Bento disse, no final daquele jogo.
Mas também fiquei a pensar porque razão não se atrevem os nossos jornalistas a contraditar treinadores ou dirigentes, quando eles dizem a primeira coisa que lhes apetece e anunciam como verdades inquestionáveis coisas que não resistiriam a um simples escrutínio de facto. Porque razão, quando ouvem Paulo Bento ou Dias da Cunha a falarem daquela arbitragem como se o Sporting tivesse sido roubado, não se atrevem a dizer-lhes: «E a cotovelada do Liedson no Fucile, que passou impune? E o descarado penalty do Rui Patricio sobre o Hulk, que acabou com cartão amarelo ao Hulk, por ter sido derrubado por um e pisado no chão por outro? E a gravata dentro da área do Rochemback ao Rolando, que acabou em livre contra o Porto? O que tem a dizer sobre isso?» Será precisa assim tanta coragem para fazer perguntas destas, as perguntas pertinentes?
Se as tivessem feito, e logo ali, no flash-interwiew, a Paulo Bento, ter-se-iam evitado muitas asneiras subsequentes, dele e de outros. Assim, foi necessário esperar que o Leixões fosse a Alvalade e tratasse de demonstrar que a desculpa das arbitragens não serve sempre. Apesar de, na sequência do apelo de Paulo Bento, o público de Alvalade ter recebido os árbitros com a dose de intimidação recomendada. Aliás, o apelo de Paulo Bento nem sequer faz sentido: de há muito que Alvalade é o estádio que mais pressiona os árbitros- e por isso é que o Sporting é cronicamente o clube com mais penalties a favor e mais adversários expulsos nos jogos disputados em sua casa. Mas como ninguém se atreve a lembrar-lhes as estatísticas nem os muitos e muitos casos em que a arbitragem os favorece, eles conseguiram fazer das suas verdades doutrina. Enfim, daí não vem grande mal ao mundo. Nem verdade ao futebol...
3- Estávamos três a ver o FC Porto-Vitória de Guimarães e, de princípio ao fim, o que a todos mais impressionou foi a exibição de Cristian Rodriguéz. Acho que não exagero muito (é ver o vídeo...), se disser que ele não ganhou nem 10% dos lances disputados. Não fez uma assistência para golo, um cruzamento de jeito, um remate digno desse nome, não acabou ou deu sequência a uma jogada que fosse. Foi absolutamente impressionante a quantidade de jogo que ele estragou à equipa. E isto repete-se, jogo após jogo, desde o início da época, fazendo-me crer que o Cristian Rodriguéz é o último de uma série de fiascos resultantes da irresistível tentação de Pinto da Costa de roubar jogadores ao Benfica - na esteira, por exemplo, dos inesquecíveis Iuran e Sokota. Mas, afinal, li aqui, no relato do jogo, que dois jornalistas de A Bola tinham considerado o Cristian Rodriguéz como dos melhores portistas em campo. Ou não vimos o mesmo jogo ou só me resta render-me à evidência de que não percebo nada de futebol. Mas lá que gostava de ver Jesualdo experimentar o Candeias, de vez em quando, isso gostava. Mas não vou ter sorte, porque, como disse Carlos Azenha, na excelente entrevista que deu ao Diário de Notícias de 6.ª feira, para Jesualdo Ferreira há sempre titulares indiscutíveis. E já é uma sorte que Mariano González não seja sempre um deles.
Durante toda a semana foi um «blitz» de entusiasmo da imprensa, antevendo a chegada do Benfica ao primeiro lugar, após quatro anos de ausência da posição cimeira do futebol português. Lendo os jornais, eram favas contadas: o Benfica vencia tranquilamente na Luz os sub-alimentados do Estrela da Amadora, e o Sporting, com uma «arbitragem imparcial», só podia vencer de forma igualmente tranquila o intruso de Matosinhos. Ah, mas o futebol ainda tem parte substancial que se decide no relvado, apesar de tanta conversa, tantas queixas e lamúrias, tantas pseudoverdades proclamadas para valerem como factos!
Facto é que o Benfica lá venceu o Estrela da Amadora, ao estilo tem-te não caias, que é a sua imagem de marca este ano. Foi uma exibição pífia, a fazer lembrar o Benfica de Trapattoni, que foi campeão sem convencer ninguém. Facto é que o Leixões chegou a Alvalade, levou meio tempo a perder o respeito ao Sporting e depois mostrou ao que vinha: jogar sem medo, jogar com qualidade, com classe, com alegria. Já é tempo de fazer justiça a José Mota: não sei se haverá, entre os treinadores portugueses em actividade aqui, quem se lhe possa comparar em termos de resultados. Que os há menos humildes, sempre em bicos de pés mal obtêm um bom resultado, bem-falantes, isso há. Mas que consigam, uma, duas, várias vezes, pegar em equipas sem esperança e pô--las a jogar mais do que seria legítimo exigir e chegar aonde ninguém pensava possível, como José Mota tem feito, isso não há muitos.
Em Alvalade e no Dragão, a prestação do Leixões confirmou uma coisa que há muito penso: que uma equipa pequena, bem treinada e bem motivada, não precisa de jogar naqueles «quintais» onde se disputam tantos jogos da 1.ª Liga para fazer frente aos grandes. O que mais tenho gostado de ver no Leixões é o aproveitamento que a equipa faz do campo todo. As dimensões do relvado dos grandes não a intimidam, antes pelo contrario: é nesse espaço todo que o Leixões mostra que sabe jogar futebol. Bater o pé aos grandes em campos como o de Paços de Ferreira, Nacional, Naval, Amadora, não é tão difícil como parece: porque a falta de espaço prejudica o melhor futebol e beneficia quem quer, acima de tudo, defender e apostar na confusão e na sorte. Não é por acaso que os jogos dos campeonatos inglês, espanhol, italiano, francês ou alemão, são sempre bem disputados, mesmo com equipas fracas. Porque ninguém vê, nas Ligas desses países, campos como aqueles. Se eu mandasse, havia dois tipos de clubes que seriam excluídos do primeiro escalão: os que não pagam os salários, a Segurança Social ou o fisco, e os que não dispõem de relvados com a dimensão máxima.
2- Já aqui escrevi algumas vezes que tenho todo o respeito por Paulo Bento. Acho que ele faz o melhor possível com a equipa que tem e, para todos os efeitos, é uma proeza ter que disputar o campeonato de igual para igual com dois rivais que gastam o dobro ou o triplo do que o Sporting gasta em jogadores. Mas Paulo Bento, de facto, não tem o dom da palavra e parece achar que isso não é importante. Está errado: um treinador é um líder, um condutor de homens, e um líder tem de saber falar para que o entendam, para que as suas razões sejam escutadas. Mesmo falando «a quente», não pode dizer a primeira coisa que lhe vem à cabeça, não pode anunciar como verdades indiscutíveis coisas que não resistem ao senso-comum de quem o ouve e também vê os jogos, não pode adoptar uma linguagem sem freio, ao nível do adepto de bancada.
Durante toda a semana, foi montada uma fortíssima campanha, e não apenas interna, de lavagem das declarações incendiárias de Paulo Bento, no final do Sporting-FC Porto. Ao ler algumas das opiniões expressas a propósito disso, fiquei a pensar se os tais que se intitulam cavalheiros do futebol acham mesmo que é admissível que um treinador diga o que Paulo Bento disse, no final daquele jogo.
Mas também fiquei a pensar porque razão não se atrevem os nossos jornalistas a contraditar treinadores ou dirigentes, quando eles dizem a primeira coisa que lhes apetece e anunciam como verdades inquestionáveis coisas que não resistiriam a um simples escrutínio de facto. Porque razão, quando ouvem Paulo Bento ou Dias da Cunha a falarem daquela arbitragem como se o Sporting tivesse sido roubado, não se atrevem a dizer-lhes: «E a cotovelada do Liedson no Fucile, que passou impune? E o descarado penalty do Rui Patricio sobre o Hulk, que acabou com cartão amarelo ao Hulk, por ter sido derrubado por um e pisado no chão por outro? E a gravata dentro da área do Rochemback ao Rolando, que acabou em livre contra o Porto? O que tem a dizer sobre isso?» Será precisa assim tanta coragem para fazer perguntas destas, as perguntas pertinentes?
Se as tivessem feito, e logo ali, no flash-interwiew, a Paulo Bento, ter-se-iam evitado muitas asneiras subsequentes, dele e de outros. Assim, foi necessário esperar que o Leixões fosse a Alvalade e tratasse de demonstrar que a desculpa das arbitragens não serve sempre. Apesar de, na sequência do apelo de Paulo Bento, o público de Alvalade ter recebido os árbitros com a dose de intimidação recomendada. Aliás, o apelo de Paulo Bento nem sequer faz sentido: de há muito que Alvalade é o estádio que mais pressiona os árbitros- e por isso é que o Sporting é cronicamente o clube com mais penalties a favor e mais adversários expulsos nos jogos disputados em sua casa. Mas como ninguém se atreve a lembrar-lhes as estatísticas nem os muitos e muitos casos em que a arbitragem os favorece, eles conseguiram fazer das suas verdades doutrina. Enfim, daí não vem grande mal ao mundo. Nem verdade ao futebol...
3- Estávamos três a ver o FC Porto-Vitória de Guimarães e, de princípio ao fim, o que a todos mais impressionou foi a exibição de Cristian Rodriguéz. Acho que não exagero muito (é ver o vídeo...), se disser que ele não ganhou nem 10% dos lances disputados. Não fez uma assistência para golo, um cruzamento de jeito, um remate digno desse nome, não acabou ou deu sequência a uma jogada que fosse. Foi absolutamente impressionante a quantidade de jogo que ele estragou à equipa. E isto repete-se, jogo após jogo, desde o início da época, fazendo-me crer que o Cristian Rodriguéz é o último de uma série de fiascos resultantes da irresistível tentação de Pinto da Costa de roubar jogadores ao Benfica - na esteira, por exemplo, dos inesquecíveis Iuran e Sokota. Mas, afinal, li aqui, no relato do jogo, que dois jornalistas de A Bola tinham considerado o Cristian Rodriguéz como dos melhores portistas em campo. Ou não vimos o mesmo jogo ou só me resta render-me à evidência de que não percebo nada de futebol. Mas lá que gostava de ver Jesualdo experimentar o Candeias, de vez em quando, isso gostava. Mas não vou ter sorte, porque, como disse Carlos Azenha, na excelente entrevista que deu ao Diário de Notícias de 6.ª feira, para Jesualdo Ferreira há sempre titulares indiscutíveis. E já é uma sorte que Mariano González não seja sempre um deles.
sexta-feira, novembro 21, 2008
130 MINUTOS DE INTENSA PAIXÃO (11 NOVEMBRO 2008)
Minuto Zero: Sporting e FC Porto vinham ambos moralizados da jornada europeia para enfrentar este jogo da Taça. O Sporting, porque pela primeira vez atingira os oitavos-de-final da Champions, garantindo tal a dois jogos do fim da poule, não desperdiçando a oportunidade de tirar partido de um grupo anormalmente acessível. O FC Porto, porque arrancara a ferros e com muito brio a vitória necessária em Kiev (perdoem-me a imodéstia: como eu aqui antecipei) — com isso reentrando na disputa por um lugar nos oitavos da Champions.
Mas, à partida, as vantagens para este jogo estavam todas do lado do Sporting. Primeiro, porque jogava em casa, com o apoio largamente maioritário do público; depois, porque o seu jogo europeu a meio da semana, com o 8.º classificado do campeonato da Ucrânia e em casa, fora bem mais fácil que o jogo do FC Porto, fora, com o líder do mesmo campeonato; em terceiro lugar, porque, tendo jogado em casa, poupara-se, ao contrário do seu adversário, a uma viagem desgastante aos confins da Europa; e, finalmente, porque gozara de um dia de descanso a mais que os portistas.
Como se isto não fosse suficiente, nomearam para este jogo um dos dois árbitros que historicamente mais embirra com o FC Porto. Como não podia ser o Lucílio Baptista (que já fora o escolhido para o Sporting-FC Porto do campeonato), avançou então Bruno Paixão — que, como seria de esperar (já lá vamos), tudo fez para que o FC Porto não saísse vencedor de Alvalade.
MINUTO 1 — Mais uma vez, Jesualdo Ferreira mudou a equipa e mais uma vez houve castigados: depois de Benítez, Lino, Stepanov, Guarín, Fernando, Pelé, Pedro Emanuel, Mariano, Hulk, Farías, Helton, Nuno, Tarik e Tomás Costa, tocou a sorte agora a Sapunaru e Cristián Rodríguez. Não que não tenha tido sempre ou quase sempre razão para os castigos, mas o que isso mostra é que Jesualdo já não sabe o que há-de tentar com um plantel onde são raros os que dão garantias para todos os jogos. Enfim, pela primeira vez, Hulk teve o privilégio de jogar o jogo todo — e viria a ser um dos melhores, se não o melhor do FC Porto. E lá voltou o Mariano — que, como sempre, infalivelmente, se encarregou de mostrar que a indulgência de que goza junto do treinador já ultrapassou a fase do mistério, para se transformar numa obsessão masoquista. Durante 45 minutos, Jesualdo optou por fazer o FC Porto jogar com 10, e depois veio queixar-se da primeira parte falhada pela equipa...
MINUTO 7 — Está em curso uma impudica campanha da imprensa e adeptos rivais contra Bruno Alves, acusado de só jogar com os cotovelos. É uma acusação rotineira, que todos os anos toma como alvo um jogador do FC Porto: Deco foi a vítima durante dois anos, depois seguiu-se Ricardo Quaresma e agora é a vez de Bruno Alves. Não por acaso, os alvos escolhidos são sempre grandes jogadores e determinantes no FC Porto. Todavia, ao minuto 7 foi Liedson quem enfiou uma cotovelada descarada na cara de Fucile: Bruno Paixão viu, tanto que assinalou a falta, mas cartão nem vê-lo.
MINUTO 27 — Com um pontapé para trás, Fernando isola Liedson. E, claro, o melhor avançado do campeonato bate tranquilamente e com classe Pedro Emanuel e Helton.
MINUTO 30 — Bruno Alves segura a gola da camisola de Liedson e o levezinho rebola-se de dores, gritando agarrado à cara. Amarelo para Bruno Alves, delírio em Alvalade.
MINUTO 43 — Azar de Fucile: desta vez é Postiga (incansável à procura de sarilhos desde o início) quem lhe prega outra valente cotovelada. Bruno Paixão, a dois passos, voltou a ver e a marcar a falta— e mais nada.
MINUTO 46 — Rochemback comete falta a meio-campo sobre Lucho e desaba no relvado, quase ferido de morte: cartão amarelo a Lucho. Nesta altura, a contabilidade da TVI assinalava: seis faltas cometidas pelo FC Porto e três amarelos; 16 faltas cometidas pelo Sporting e zero amarelos. A partir daí, e julgando os jogadores do Sporting que tudo lhes seria consentido, o árbitro foi forçado a tornar-se quase equitativo no dilúvio de amarelos que iria distribuir até final.
MINUTO 52 — Contrariando as doutas opiniões do relator/comentador da TVI, o Hulk, que ele insistia em que Jesualdo fizesse sair, pegou na bola à saída da sua área e foi por ali fora até fuzilar Rui Patrício: 1-1.
MINUTO 61 — Hulk arranca outra vez, deixando Polga em pânico; na hora do remate fatal, dentro da área, cai, embrulhado com Polga, e pede penalty. As opiniões dividem-se; a minha, mesmo após as repetições, é que tanto pode ter sido como não.
MINUTO 66 — Agora, sim, não fiquei com dúvidas: Hulk persegue uma bola longa, dentro da área do Sporting, juntamente com Caneira; Rui Patrício sai da baliza e enfia um descarado empurrão nas costas a Hulk, derrubando-o e impedindo-o de disputar a jogada: é penalty, em qualquer lado do mundo, mas não em Alvalade. Na sequência, Caneira cai sobre Hulk, levanta-se e encosta-lhe a testa, ficando ambos a fazer votos de eterna amizade. Bruno Paixão vê aí uma excelente oportunidade para mostrar um amarelo a Hulk, que estava a ser o perigo em campo, disfarçando com uma decisão salomónica. Mas esqueceu-se que Caneira já tinha um amarelo e caiu das nuvens quando o auxiliar o avisou que era o segundo. Durante alguns minutos viveu-se um fenómeno extraordinário nos Sporting-FC Porto: o Sporting jogou em inferioridade numérica, por razões disciplinares. Até final, porém, Paixão iria encarregar-se de corrigir a anomalia e repor a normalidade da superioridade numérica do Sporting.
MINUTO 82 — Jesualdo Ferreira comete um erro crasso. Era fácil de prever que, na primeira oportunidade, Bruno Paixão expulsaria alguém do FC Porto e Pedro Emanuel — que, como sempre, já tinha um amarelo — era o candidato óbvio. Deixando-o em campo, Jesualdo expôs-se a isto: Pedro Emanuel não se conteve numa entrada perigosa sobre Moutinho, embora, de facto, não o tenha atingido, mas tenha permitido a simulação da falta ao 10 do Sporting. Seguiram-se breves e dramáticos momentos de superior representação teatral de Moutinho, até confirmar, pelo canto do olho e enquanto se contorcia no chão em gritos lancinantes, que, sim, Pedro Emanuel ia para a rua.
MINUTO 87 — Rui Patrício sobre Hulk mostra como se faz: o incrível levantou do chão como se tivesse sido arrancado por uma ceifeira debulhadora.
MINUTO 88 — Izmailov cruza rente ao chão e Rolando, que tinha escorregado e estava deitado, nem sequer vê a bola que lhe acerta no braço caído, sem fazer qualquer gesto para tal nem o podendo fazer desaparecer. Penalty!, grita Alvalade e a TVI («Matreiramente, ficou lá o bracinho», explicou o dito relator/comentador, e eu recebo a terceira chamada de amigos portistas, revoltados com os seus comentários).
MINUTO 105 — Choque entre Bruno Alves e Abel dentro da área do FC Porto ou, na versão sportinguista, obstrução de Bruno Alves. Penalty!, voltam a gritar. Mas, ainda que fosse obstrução, seria só livre indirecto e penalty é livre directo. Pormenor.
MINUTO 110 — Canto contra o Sporting, bola no ar e Rochemback a afastar com o braço Rolando no momento do salto, de forma ostensiva e nas barbas do árbitro. Falta contra o FC Porto, decide Bruno Paixão. Sábia decisão. E aí vão pelo menos dois penalties a favor do FC Porto que não ocorreram a Bruno Paixão.
MINUTO 111 — Hulk, outra vez, entra na área em velocidade, adianta a Rui Patrício e atira-se para o chão. Segundo amarelo e este, sim, justo. Reposta a normalidade numérica a favor do Sporting e Rui Patrício cheio de sorte.
MINUTO 121 — Na hora de se avançar para o desempate por penalties, o speaker de Alvalade não se cansa de incentivar os leões e grita «Sporting!, Sporting!». E pode, num campo oficialmente neutro? Infelizmente, daí a pouco chegaria a vez de a claque do FC Porto borrar também a pintura, insultando João Moutinho, vá-se lá saber porquê.
MINUTO 130 — Finalmente, o FC Porto ficou a dever em parte uma vitória a Helton. Três grandes defesas durante os 120 minutos e dois penalties defendidos. Neste caso, o castigo foi verdadeiramente redentor, funcionando como um utilíssimo banho de humildade. Parabéns a Helton — até porque, dos seis penalties cobrados pelos portistas, só dois foram bem marcados.
E foi assim que um portista viu o jogo. Com revoltada Paixão. Mas, mesmo assim, espera-se um comunicado da direcção do Sporting a queixar-se de pouca Paixão.
Mas, à partida, as vantagens para este jogo estavam todas do lado do Sporting. Primeiro, porque jogava em casa, com o apoio largamente maioritário do público; depois, porque o seu jogo europeu a meio da semana, com o 8.º classificado do campeonato da Ucrânia e em casa, fora bem mais fácil que o jogo do FC Porto, fora, com o líder do mesmo campeonato; em terceiro lugar, porque, tendo jogado em casa, poupara-se, ao contrário do seu adversário, a uma viagem desgastante aos confins da Europa; e, finalmente, porque gozara de um dia de descanso a mais que os portistas.
Como se isto não fosse suficiente, nomearam para este jogo um dos dois árbitros que historicamente mais embirra com o FC Porto. Como não podia ser o Lucílio Baptista (que já fora o escolhido para o Sporting-FC Porto do campeonato), avançou então Bruno Paixão — que, como seria de esperar (já lá vamos), tudo fez para que o FC Porto não saísse vencedor de Alvalade.
MINUTO 1 — Mais uma vez, Jesualdo Ferreira mudou a equipa e mais uma vez houve castigados: depois de Benítez, Lino, Stepanov, Guarín, Fernando, Pelé, Pedro Emanuel, Mariano, Hulk, Farías, Helton, Nuno, Tarik e Tomás Costa, tocou a sorte agora a Sapunaru e Cristián Rodríguez. Não que não tenha tido sempre ou quase sempre razão para os castigos, mas o que isso mostra é que Jesualdo já não sabe o que há-de tentar com um plantel onde são raros os que dão garantias para todos os jogos. Enfim, pela primeira vez, Hulk teve o privilégio de jogar o jogo todo — e viria a ser um dos melhores, se não o melhor do FC Porto. E lá voltou o Mariano — que, como sempre, infalivelmente, se encarregou de mostrar que a indulgência de que goza junto do treinador já ultrapassou a fase do mistério, para se transformar numa obsessão masoquista. Durante 45 minutos, Jesualdo optou por fazer o FC Porto jogar com 10, e depois veio queixar-se da primeira parte falhada pela equipa...
MINUTO 7 — Está em curso uma impudica campanha da imprensa e adeptos rivais contra Bruno Alves, acusado de só jogar com os cotovelos. É uma acusação rotineira, que todos os anos toma como alvo um jogador do FC Porto: Deco foi a vítima durante dois anos, depois seguiu-se Ricardo Quaresma e agora é a vez de Bruno Alves. Não por acaso, os alvos escolhidos são sempre grandes jogadores e determinantes no FC Porto. Todavia, ao minuto 7 foi Liedson quem enfiou uma cotovelada descarada na cara de Fucile: Bruno Paixão viu, tanto que assinalou a falta, mas cartão nem vê-lo.
MINUTO 27 — Com um pontapé para trás, Fernando isola Liedson. E, claro, o melhor avançado do campeonato bate tranquilamente e com classe Pedro Emanuel e Helton.
MINUTO 30 — Bruno Alves segura a gola da camisola de Liedson e o levezinho rebola-se de dores, gritando agarrado à cara. Amarelo para Bruno Alves, delírio em Alvalade.
MINUTO 43 — Azar de Fucile: desta vez é Postiga (incansável à procura de sarilhos desde o início) quem lhe prega outra valente cotovelada. Bruno Paixão, a dois passos, voltou a ver e a marcar a falta— e mais nada.
MINUTO 46 — Rochemback comete falta a meio-campo sobre Lucho e desaba no relvado, quase ferido de morte: cartão amarelo a Lucho. Nesta altura, a contabilidade da TVI assinalava: seis faltas cometidas pelo FC Porto e três amarelos; 16 faltas cometidas pelo Sporting e zero amarelos. A partir daí, e julgando os jogadores do Sporting que tudo lhes seria consentido, o árbitro foi forçado a tornar-se quase equitativo no dilúvio de amarelos que iria distribuir até final.
MINUTO 52 — Contrariando as doutas opiniões do relator/comentador da TVI, o Hulk, que ele insistia em que Jesualdo fizesse sair, pegou na bola à saída da sua área e foi por ali fora até fuzilar Rui Patrício: 1-1.
MINUTO 61 — Hulk arranca outra vez, deixando Polga em pânico; na hora do remate fatal, dentro da área, cai, embrulhado com Polga, e pede penalty. As opiniões dividem-se; a minha, mesmo após as repetições, é que tanto pode ter sido como não.
MINUTO 66 — Agora, sim, não fiquei com dúvidas: Hulk persegue uma bola longa, dentro da área do Sporting, juntamente com Caneira; Rui Patrício sai da baliza e enfia um descarado empurrão nas costas a Hulk, derrubando-o e impedindo-o de disputar a jogada: é penalty, em qualquer lado do mundo, mas não em Alvalade. Na sequência, Caneira cai sobre Hulk, levanta-se e encosta-lhe a testa, ficando ambos a fazer votos de eterna amizade. Bruno Paixão vê aí uma excelente oportunidade para mostrar um amarelo a Hulk, que estava a ser o perigo em campo, disfarçando com uma decisão salomónica. Mas esqueceu-se que Caneira já tinha um amarelo e caiu das nuvens quando o auxiliar o avisou que era o segundo. Durante alguns minutos viveu-se um fenómeno extraordinário nos Sporting-FC Porto: o Sporting jogou em inferioridade numérica, por razões disciplinares. Até final, porém, Paixão iria encarregar-se de corrigir a anomalia e repor a normalidade da superioridade numérica do Sporting.
MINUTO 82 — Jesualdo Ferreira comete um erro crasso. Era fácil de prever que, na primeira oportunidade, Bruno Paixão expulsaria alguém do FC Porto e Pedro Emanuel — que, como sempre, já tinha um amarelo — era o candidato óbvio. Deixando-o em campo, Jesualdo expôs-se a isto: Pedro Emanuel não se conteve numa entrada perigosa sobre Moutinho, embora, de facto, não o tenha atingido, mas tenha permitido a simulação da falta ao 10 do Sporting. Seguiram-se breves e dramáticos momentos de superior representação teatral de Moutinho, até confirmar, pelo canto do olho e enquanto se contorcia no chão em gritos lancinantes, que, sim, Pedro Emanuel ia para a rua.
MINUTO 87 — Rui Patrício sobre Hulk mostra como se faz: o incrível levantou do chão como se tivesse sido arrancado por uma ceifeira debulhadora.
MINUTO 88 — Izmailov cruza rente ao chão e Rolando, que tinha escorregado e estava deitado, nem sequer vê a bola que lhe acerta no braço caído, sem fazer qualquer gesto para tal nem o podendo fazer desaparecer. Penalty!, grita Alvalade e a TVI («Matreiramente, ficou lá o bracinho», explicou o dito relator/comentador, e eu recebo a terceira chamada de amigos portistas, revoltados com os seus comentários).
MINUTO 105 — Choque entre Bruno Alves e Abel dentro da área do FC Porto ou, na versão sportinguista, obstrução de Bruno Alves. Penalty!, voltam a gritar. Mas, ainda que fosse obstrução, seria só livre indirecto e penalty é livre directo. Pormenor.
MINUTO 110 — Canto contra o Sporting, bola no ar e Rochemback a afastar com o braço Rolando no momento do salto, de forma ostensiva e nas barbas do árbitro. Falta contra o FC Porto, decide Bruno Paixão. Sábia decisão. E aí vão pelo menos dois penalties a favor do FC Porto que não ocorreram a Bruno Paixão.
MINUTO 111 — Hulk, outra vez, entra na área em velocidade, adianta a Rui Patrício e atira-se para o chão. Segundo amarelo e este, sim, justo. Reposta a normalidade numérica a favor do Sporting e Rui Patrício cheio de sorte.
MINUTO 121 — Na hora de se avançar para o desempate por penalties, o speaker de Alvalade não se cansa de incentivar os leões e grita «Sporting!, Sporting!». E pode, num campo oficialmente neutro? Infelizmente, daí a pouco chegaria a vez de a claque do FC Porto borrar também a pintura, insultando João Moutinho, vá-se lá saber porquê.
MINUTO 130 — Finalmente, o FC Porto ficou a dever em parte uma vitória a Helton. Três grandes defesas durante os 120 minutos e dois penalties defendidos. Neste caso, o castigo foi verdadeiramente redentor, funcionando como um utilíssimo banho de humildade. Parabéns a Helton — até porque, dos seis penalties cobrados pelos portistas, só dois foram bem marcados.
E foi assim que um portista viu o jogo. Com revoltada Paixão. Mas, mesmo assim, espera-se um comunicado da direcção do Sporting a queixar-se de pouca Paixão.
AMANHÃ GANHAMOS (04 NOVEMBRO 2008)
1- Se bem conheço o espírito de equipa do FC Porto (ou melhor, o que ali resta daquele espírito de campeões que tantas alegrias nos deu em anos recentes), eu sou capaz de apostar que amanhã em Kiev o FC Porto vai ganhar ou, pelo menos, tudo fazer por isso. Quando li que o Bruno Alves se tinha dirigido aos adeptos no final do jogo na Figueira da Foz, pedindo o seu apoio e a sua compreensão neste momento de tanta frustração e descrença, percebi que o espírito do Dragão ainda não está morto naquele balneário. É verdade que o Bruno Alves é um dos últimos que restam para passar de mão em mão o testemunho dessa atitude que foi o que, mais do que tudo, fez do FC Porto uma equipa ganhadora — perante o desespero e a incompreensão dos seus rivais. Mas, pelo menos, ele e poucos outros ainda lá moram e nós sabemos que esses não são de reclamarem prémios e darem-se por felizes com terceiros lugares. Por isso, eu mantenho a fé e a esperança, sabendo que, apesar das evidentes limitações da equipa, que estão à vista de todos e sobre as quais muito escrevi já e tudo mantenho, são exageradas as notícias sobre a morte irremediável do FC Porto. Mesmo deste FC Porto.
E até concordo com Jesualdo Ferreira, quando ele fala no empenho dos jogadores e na falta de sorte. Quanto ao empenho, de facto, não tenho visto ali ninguém parado, sem correr nem lutar, ninguém conformado com a nova lei das derrotas em série. Empenho não tem faltado a ninguém; o que falta, e gritantemente, é talento e classe. Por isso, bem pode Pinto da Costa fazer as suas tradicionais visitas aos treinos ou ao balneário, na sequência das derrotas; a questão não é amedrontar os jogadores ou puxar-lhes pelo brio; é conseguir tornar jogadores banais em jogadores ao nível de uma Champions — e isso não é culpa deles, mas justamente da política de contratações de Pinto da Costa.
Quanto à sorte, ou à falta dela, também me parece que tem sido evidente e, às vezes, sabe-se como isso faz toda a diferença. Vi, por exemplo, o Benfica sofrer a bom sofrer em Matosinhos e sair de lá com um empate tão feliz quanto injustificado; vi-o sofrer a bom sofrer para derrotar a Naval em casa, conseguindo-o a três minutos do fim e, com isso, logo despertando hinos e loas de toda a parte. E anteontem vi-o, com um a menos é certo, enfiar o autocarro diante da baliza durante toda a segunda parte e assim sair com uma feliz vitória em Guimarães. É verdade que foi melhor na primeira parte, que marcou um golo belíssimo e que tem gente com talento e até sobejante. Mas a segunda parte que fez, contra um Vitória também banal e impotente, mais parecia de quem luta por não descer de divisão do que por ser campeão. Durante 45 minutos, o Benfica renunciou a qualquer tentativa sequer de contra-ataque e acantonou nove jogadores dentro da area a jogarem de pontapé para a frente e para onde estavam virados; bastaria que a sorte lhe tivesse virado costas um instante e a vitória ter-lhe-ia escapado. Mas, afinal, li que o Benfica tinha feito uma extraordinária demonstração de espírito vencedor e de «capacidade de sofrimento». Pois, talvez, mas uma bola que bate na trave e não entra afinal pode traçar a fronteira entre o espírito vencedor e o espírito perdedor. Sobretudo, quando se deseja tanto a vitória de um e a derrota de outro. Tivesse o FC Porto ganho na Figueira com um golo tão absurdo como o da Naval e jogado o resto do tempo como o Benfica jogou em Guimarães e ter-se-ia escrito que a vitória se devera apenas a sorte.
Manda, todavia, a verdade que diga que há uma diferença, esta época, entre Benfica e FC Porto, e não pequena: o Benfica tem no ataque jogadores desequilibradores, capazes de resolver um jogo complicado num rasgo de talento: Reyes, Aimar, Suazo, Cardozo, às vezes Di María. O FC Porto só tem dois: Lucho e Lisandro e uma promessa chamada Hulk, que Jesualdo não está a conseguir integrar e aproveitar da melhor maneira. Como aqui escrevi há dias (e como escrevi antes, perspectivando o pós-Quaresma) a capacidade desequilibradora ofensiva deste FC Porto versão 2008/09, resume-se à inspiração coincidente de Lucho e Licha. Se ambos estiverem em dia-sim, há uma hipótese; se um deles, ou ambos, estiverem em dia-não, o FC Porto é uma equipa pouco menos que banal.
A chave do jogo de amanhã em Kiev passa pela prestação destes dois jogadores. É preciso que Lucho deixe o seu futebol à solta, esquecendo tudo o resto que eventualmente o tem trazido «fora de jogo». E é preciso que Lisandro — a quem nunca falta o prazer e a gana de jogar — acabe também ele com a sua falta de sorte e começe a acertar na baliza (mesmo em Londres, no descalabro contra o Arsenal, ele teve nos pés e desperdiçou uma oportunidade imperdível de pôr o FC Porto à frente no marcador). E, já agora, para ganhar em Kiev, vai ser preciso uma outra coisa, pelo menos: que, seja quem for que vá para a baliza — Helton, Nuno (ou Ventura…) — não aconteça a fatalidade, já banalidade, de oferecer um golo ao adversário…
2- Não há como fugir à questão: a dos prémios dos administradores da SAD do FC Porto. Como disse o Dr. Pôncio Monteiro, prémios aos administradores das sociedades, em função dos resultados, são normais. Pois são: até, acrescento eu, na origem da crise financeira e económica mundial que actualmente se atravessa está exactamente a filosofia de prémios aos adminstradores das grandes financeiras americanas, convidando-os a obterem resultados a qualquer preço. Todavia, há diferenças substanciais, como o Dr. Pôncio Monteiro, apesar de toda a sua boa-vontade, não ignorará.
Em primeiro lugar, sendo a SAD do FC Porto uma sociedade anónima, isso significa que tem accionistas, e não há memória de sociedade alguma distribuir prémios pelos administradores sem distribuir dividendos pelos accionistas. E, como é sabido, jamais a SAD do FC Porto, ou qualquer outra de clube português, distribuíu ou distribuirá um euro que seja de dividendos. Pelo que a mim me parece imoral que administradores, que já são pagos milionariamente, como é o caso, ainda se atribuam prémios por resultados a que os accionistas são absolutamente alheios. Entendam-me: eu não sou contra a remuneração de dirigentes de clube. Sei que há muitos — a grande maioria, aqui e lá fora — que não são pagos. Mas, se o negócio é profissional, como hoje é, se é necessário abdicar de quase tudo para administrar um clube de topo, acho que a carolice é muito bonita, mas não é exigível a ninguém. Só que uma coisa são ordenados, ainda que milionários, outra coisa é acrescentar-lhes alcavalas sem justificação alguma.
Em segundo lugar, eu não entendo a lógica e a legitimidade de os administradores da SAD do FC Porto receberem prémos pelos resultados financeiros, quando eles são positivos, e não serem penalizados quando eles são negativos — o que acontece quase sempre. Foi assim no ano em que o FC Porto foi campeão europeu, em 2004, quando aos milhões da Champions se vieram juntar os milhões do início do desmantelamento da equipa campeã europeia. Nesse ano, os administradores da SAD tiveram direito a prémio por resultados financeiros positivos (ou seja, tiveram direito a prémio por terem vendido o Paulo Ferreira, o Ricardo Carvalho, o Deco, o Alenitchev, o Costinha, o Derlei, o Maniche, o Carlos Alberto). Pior ainda é pensar que, mesmo com um défice acumulado de dezenas de milhões, os administradores recebem prémios como se não houvesse passivo para liquidar no futuro.
Em terceiro lugar (e isto sim, é verdadeiramente de estarrecer), foi ficar-se a saber que os administradores também têm direito a prémio pelos resultados desportivos! Duvido que haja um só clube no mundo onde isto aconteça também. Eu julgava que os administradores respondiam pelos resultados da gestão e os jogadores e os treinadores pelos resultados desportivos. Mas não, ali são originais. Só não se percebe é a razão pela qual, se os administradores são premiados (e sumptuosamente!) quando a equipa é campeã ou quando vai à Champions, porque não hão-de os jogadores ser premiados também duas vezes: quando ganham em campo e quando a SAD dá lucro?
Enfim, cereja no topo do bolo: e se os jogadores do FC Porto fossem premiados por ficarem em terceiro lugar no campeonato ou conseguirem ir à Taça UEFA? Quem os convenceria amanhã a deixarem a pele em campo para vencer em Kiev?
E até concordo com Jesualdo Ferreira, quando ele fala no empenho dos jogadores e na falta de sorte. Quanto ao empenho, de facto, não tenho visto ali ninguém parado, sem correr nem lutar, ninguém conformado com a nova lei das derrotas em série. Empenho não tem faltado a ninguém; o que falta, e gritantemente, é talento e classe. Por isso, bem pode Pinto da Costa fazer as suas tradicionais visitas aos treinos ou ao balneário, na sequência das derrotas; a questão não é amedrontar os jogadores ou puxar-lhes pelo brio; é conseguir tornar jogadores banais em jogadores ao nível de uma Champions — e isso não é culpa deles, mas justamente da política de contratações de Pinto da Costa.
Quanto à sorte, ou à falta dela, também me parece que tem sido evidente e, às vezes, sabe-se como isso faz toda a diferença. Vi, por exemplo, o Benfica sofrer a bom sofrer em Matosinhos e sair de lá com um empate tão feliz quanto injustificado; vi-o sofrer a bom sofrer para derrotar a Naval em casa, conseguindo-o a três minutos do fim e, com isso, logo despertando hinos e loas de toda a parte. E anteontem vi-o, com um a menos é certo, enfiar o autocarro diante da baliza durante toda a segunda parte e assim sair com uma feliz vitória em Guimarães. É verdade que foi melhor na primeira parte, que marcou um golo belíssimo e que tem gente com talento e até sobejante. Mas a segunda parte que fez, contra um Vitória também banal e impotente, mais parecia de quem luta por não descer de divisão do que por ser campeão. Durante 45 minutos, o Benfica renunciou a qualquer tentativa sequer de contra-ataque e acantonou nove jogadores dentro da area a jogarem de pontapé para a frente e para onde estavam virados; bastaria que a sorte lhe tivesse virado costas um instante e a vitória ter-lhe-ia escapado. Mas, afinal, li que o Benfica tinha feito uma extraordinária demonstração de espírito vencedor e de «capacidade de sofrimento». Pois, talvez, mas uma bola que bate na trave e não entra afinal pode traçar a fronteira entre o espírito vencedor e o espírito perdedor. Sobretudo, quando se deseja tanto a vitória de um e a derrota de outro. Tivesse o FC Porto ganho na Figueira com um golo tão absurdo como o da Naval e jogado o resto do tempo como o Benfica jogou em Guimarães e ter-se-ia escrito que a vitória se devera apenas a sorte.
Manda, todavia, a verdade que diga que há uma diferença, esta época, entre Benfica e FC Porto, e não pequena: o Benfica tem no ataque jogadores desequilibradores, capazes de resolver um jogo complicado num rasgo de talento: Reyes, Aimar, Suazo, Cardozo, às vezes Di María. O FC Porto só tem dois: Lucho e Lisandro e uma promessa chamada Hulk, que Jesualdo não está a conseguir integrar e aproveitar da melhor maneira. Como aqui escrevi há dias (e como escrevi antes, perspectivando o pós-Quaresma) a capacidade desequilibradora ofensiva deste FC Porto versão 2008/09, resume-se à inspiração coincidente de Lucho e Licha. Se ambos estiverem em dia-sim, há uma hipótese; se um deles, ou ambos, estiverem em dia-não, o FC Porto é uma equipa pouco menos que banal.
A chave do jogo de amanhã em Kiev passa pela prestação destes dois jogadores. É preciso que Lucho deixe o seu futebol à solta, esquecendo tudo o resto que eventualmente o tem trazido «fora de jogo». E é preciso que Lisandro — a quem nunca falta o prazer e a gana de jogar — acabe também ele com a sua falta de sorte e começe a acertar na baliza (mesmo em Londres, no descalabro contra o Arsenal, ele teve nos pés e desperdiçou uma oportunidade imperdível de pôr o FC Porto à frente no marcador). E, já agora, para ganhar em Kiev, vai ser preciso uma outra coisa, pelo menos: que, seja quem for que vá para a baliza — Helton, Nuno (ou Ventura…) — não aconteça a fatalidade, já banalidade, de oferecer um golo ao adversário…
2- Não há como fugir à questão: a dos prémios dos administradores da SAD do FC Porto. Como disse o Dr. Pôncio Monteiro, prémios aos administradores das sociedades, em função dos resultados, são normais. Pois são: até, acrescento eu, na origem da crise financeira e económica mundial que actualmente se atravessa está exactamente a filosofia de prémios aos adminstradores das grandes financeiras americanas, convidando-os a obterem resultados a qualquer preço. Todavia, há diferenças substanciais, como o Dr. Pôncio Monteiro, apesar de toda a sua boa-vontade, não ignorará.
Em primeiro lugar, sendo a SAD do FC Porto uma sociedade anónima, isso significa que tem accionistas, e não há memória de sociedade alguma distribuir prémios pelos administradores sem distribuir dividendos pelos accionistas. E, como é sabido, jamais a SAD do FC Porto, ou qualquer outra de clube português, distribuíu ou distribuirá um euro que seja de dividendos. Pelo que a mim me parece imoral que administradores, que já são pagos milionariamente, como é o caso, ainda se atribuam prémios por resultados a que os accionistas são absolutamente alheios. Entendam-me: eu não sou contra a remuneração de dirigentes de clube. Sei que há muitos — a grande maioria, aqui e lá fora — que não são pagos. Mas, se o negócio é profissional, como hoje é, se é necessário abdicar de quase tudo para administrar um clube de topo, acho que a carolice é muito bonita, mas não é exigível a ninguém. Só que uma coisa são ordenados, ainda que milionários, outra coisa é acrescentar-lhes alcavalas sem justificação alguma.
Em segundo lugar, eu não entendo a lógica e a legitimidade de os administradores da SAD do FC Porto receberem prémos pelos resultados financeiros, quando eles são positivos, e não serem penalizados quando eles são negativos — o que acontece quase sempre. Foi assim no ano em que o FC Porto foi campeão europeu, em 2004, quando aos milhões da Champions se vieram juntar os milhões do início do desmantelamento da equipa campeã europeia. Nesse ano, os administradores da SAD tiveram direito a prémio por resultados financeiros positivos (ou seja, tiveram direito a prémio por terem vendido o Paulo Ferreira, o Ricardo Carvalho, o Deco, o Alenitchev, o Costinha, o Derlei, o Maniche, o Carlos Alberto). Pior ainda é pensar que, mesmo com um défice acumulado de dezenas de milhões, os administradores recebem prémios como se não houvesse passivo para liquidar no futuro.
Em terceiro lugar (e isto sim, é verdadeiramente de estarrecer), foi ficar-se a saber que os administradores também têm direito a prémio pelos resultados desportivos! Duvido que haja um só clube no mundo onde isto aconteça também. Eu julgava que os administradores respondiam pelos resultados da gestão e os jogadores e os treinadores pelos resultados desportivos. Mas não, ali são originais. Só não se percebe é a razão pela qual, se os administradores são premiados (e sumptuosamente!) quando a equipa é campeã ou quando vai à Champions, porque não hão-de os jogadores ser premiados também duas vezes: quando ganham em campo e quando a SAD dá lucro?
Enfim, cereja no topo do bolo: e se os jogadores do FC Porto fossem premiados por ficarem em terceiro lugar no campeonato ou conseguirem ir à Taça UEFA? Quem os convenceria amanhã a deixarem a pele em campo para vencer em Kiev?
NEM TANTO AO MAR NEM TANTO À TERRA (28 OUTUBRO 2008)
1- Parece que um grupo muito especial de adeptos portistas fez uma espera aos jogadores, após a derrota com o Leixões, e, entre outros desacatos, atacou o carro de Cristian Rodriguez, numa triste repetição do episódio sucedido há anos com Co Adriaanse. Não vale a pena tecer grandes considerações sobre o assunto, porque ele é pacífico: este é o futebol que vamos tendo, aqui e lá fora, e é por isso que há cada vez menos gente decente a frequentar o futebol. Diga-se, porém, e em abono da verdade, que as claques organizadas não são apenas um cancro do futebol, mas o reflexo de uma sociedade sem valores. A «coragem cívica» das multidões organizadas em gangues de intervenção é o contraponto exacto da falta de coragem individual. Sozinhos, os portugueses não se atrevem a nada; em bando, atrevem-se a tudo.
Uma das demonstrações da falta de coragem individual é a renúncia à capacidade crítica contra os poderes instalados. A multidão do Dragão, justamente irritada com o que vai vendo, é capaz de fazer esperas aos jogadores, assobiar a equipa e acenar com lenços brancos contra o treinador. Mas ninguém, individualmente, se atreve a levantar a voz e assinar por baixo uma crítica aos verdadeiros responsáveis: a administração do clube, que, ano após ano, vende os melhores para comprar camionetas de jogadores de terceira categoria, com isso destroçando a equipa, arruinando o clube e prestando um péssimo serviço ao futebol português — que exporta para a Roménia, Chipre ou equipas nacionais sem projecção, os jovens valores formados nas escolas, em benefício de sul-americanos de ocasião, que proporcionam negócios rentáveis a quem não devia.
Quando uma simpática e persuasiva funcionária do FC Porto me telefonou em Agosto, lembrando que eu ainda não havia renovado o meu dragon seat, eu respondi-lhe, meio a sério, meio a brincar, que, constatando o esforço titânico que a administração estava a fazer para vender o Quaresma a qualquer preço (como viria a suceder), eu perguntava-me para quê renovar o lugar no Dragão: para ver Adelino Caldeira a fazer cruzamentos de letra ou Pinto da Costa a marcar golos de trivela?
A razão pela qual o FC Porto desta época é o que está à vista é simples, tremendamente simples: porque, como aqui o escrevi há semanas para grande escândalo de outros observadores para quem há gente e coisas intocáveis, é que este FC Porto é a pior equipa da década, pelo menos. A geração que ganhou a Liga dos Campeões em 2003, foi destroçada, e, da que se lhe seguiu, já só restam Lucho e Lisandro. Mas Lucho, que havia começado a época em grande, entrou em crise psicológica e não tem quem pegue na equipa em vez dele, e Lisandro está em guerra surda com a SAD — que é capaz de pagar 200.000 euros por mês ao Cristian Rodriguez (apenas 50.000 a menos do que Quaresma foi ganhar para o Inter), é capaz de pagar alguns 50.000 a jogadores que nem na Segunda B teriam lugar, é capaz de pagar uns trinta ordenados a jogadores para brilharem noutros clubes, mas não tem dinheiro para pagar ao Lisandro o que ele acha que merece. Talvez o Lisandro esteja a exagerar, mas quando os maus exemplos vêm de cima, porque não aproveitar, quando se é um dos raros ali que fazem a diferença?
É fácil, facilíssimo, atirar as culpas para cima do treinador: é sempre assim, quando não se sabe gerir. Eu acho que Jesualdo tem feito o melhor que pode, com equipas que, de ano para ano, são cada vez piores. E, como já aqui o disse, tirando erros pontuais às vezes incompreensíveis — como a insistência no Mariano González ou essa fatal tendência dos treinadores portugueses para mudarem a equipa toda e renunciarem ao ataque, de cada vez que têm um jogo difícil pela frente — Jesualdo só pode, eventualmente, ser culpabilizado por ter sido cúmplice ou testemunha silenciosa dos negócios que desmantelaram a equipa e a puseram a falar castelhano e a jogar um futebol que depende da inspiração de não mais do que dois ou três jogadores.
À vista de todos, a este FC Porto falta, para começar, um guarda-redes a sério e é incrível que não o tenha. Todas as equipas que conheço devem vitórias e resultados aos guarda-redes: não me lembro, desde que Adriaanse reformou Baía, de um só jogo em que se possa dizer que o FC Porto ficou a dever o resultado ao guarda-redes. Depois, falta-lhe um lateral-esquerdo de categoria internacional, até para libertar o Fucile para a direita, onde ele é bem melhor do que Sapunaru. E mais uma vez é incrível como é que, tendo comprado 13 (!) defesas-esquerdos nos últimos dez anos, não se comprou um único que desse garantias. Falta-lhe, a seguir, pelo menos dois grandes médios de ataque, que libertem o Raul Meireles para o lugar de trinco (onde, entre os cinco vindos este ano, não há um só que preste!) e libertar o Lucho (enquanto lá está...) do peso de ter de carregar em exclusivo a equipa para a frente. E falta-lhe, para terminar, dois extremos a sério, pois que só tem um e Jesualdo nem sequer gosta de apostar nele: o Candeias. Borda fora foram, além do Quaresma, o Pittbull, o Vieirinha, o Alan, o Hélder Barbosa, o Diogo Valente. É preciso ir às compras em Dezembro, mas calma: não vale a pena ir já a correr reservar um charter para a América do Sul. Há muita gente aí, emprestada, que deve ser mandada voltar para casa e, embora eu duvide, se possível, trocada por uma dúzia de inutilidades que por lá andam.
Com esta equipa, não vale a pena alimentar ilusões nem agitar lenços brancos. Não vale a pena caírem em cima do treinador, porque nem Mourinho conseguia fazer daquilo uma equipa a nível europeu. E, depois, também manda a verdade que se diga, que Jesualdo não tem tido sorte. O Dynamo de Kiev não fez nada para merecer ganhar no Dragão: fez tanto como o Sporting fez para merecer ganhar em Donestk. Com a mesma sorte do Sporting (aquele remate de Lucho ao poste, por exemplo), o FC Porto teria ganho ao Dynamo e com justiça. E com a sorte que o Benfica teve contra a Naval, teria ganho, ou pelo menos empatado, com o Leixões e não se estaria agora a falar em crise. Mas as coisas são o que são e estamos todos habituados a ver o FC Porto a superar erros de arbitragem e bolas ao poste. Foi o que fizemos em Alvalade, contra o Sporting e contra Lucílio Baptista e aí escreveu-se que estava de volta o FC Porto dos últimos anos. Não estava e logo se viu. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. A fórmula actual é simples: em dia de inspiração de Lucho e Lisandro, o FC Porto ganha; em dia de desinspiração deles, não ganha, porque não há ali ninguém mais que tenha categoria para desequilibrar um jogo.
2- No momento em que escrevo, não sei o desfecho do Braga-Estrela da Amadora, mas, ao ler que Jorge Jesus afirmou que este jogo era mais difícil do que o confronto com o Portsmouth, dá-me ideia de que estava já a preparar os adeptos para um fracasso e a desresponsabilizar os seus jogadores, por antecipação. Ele lá sabe, melhor do que ninguém, o que a equipa pode ou não dar. Agora, há uma coisa que, francamente, já enerva como desculpa: que é a do cansaço do jogo europeu a meio da semana (ainda para mais, jogado em casa e sem necessidade de viagens). Nunca percebi porque razão as equipas ditas pequenas se batem tanto por um lugar europeu, quando depois, na época seguinte, vivem a queixar-se do cansaço dos jogos europeus a meio da semana. E também nunca percebi porque é que o cansaço há-de atacar mais os pequenos do que os grandes: alguém se lembrou de justificar as más exibições de FC Porto, Sporting e Benfica, nesta jornada, com o cansaço do jogo europeu?
Uma das demonstrações da falta de coragem individual é a renúncia à capacidade crítica contra os poderes instalados. A multidão do Dragão, justamente irritada com o que vai vendo, é capaz de fazer esperas aos jogadores, assobiar a equipa e acenar com lenços brancos contra o treinador. Mas ninguém, individualmente, se atreve a levantar a voz e assinar por baixo uma crítica aos verdadeiros responsáveis: a administração do clube, que, ano após ano, vende os melhores para comprar camionetas de jogadores de terceira categoria, com isso destroçando a equipa, arruinando o clube e prestando um péssimo serviço ao futebol português — que exporta para a Roménia, Chipre ou equipas nacionais sem projecção, os jovens valores formados nas escolas, em benefício de sul-americanos de ocasião, que proporcionam negócios rentáveis a quem não devia.
Quando uma simpática e persuasiva funcionária do FC Porto me telefonou em Agosto, lembrando que eu ainda não havia renovado o meu dragon seat, eu respondi-lhe, meio a sério, meio a brincar, que, constatando o esforço titânico que a administração estava a fazer para vender o Quaresma a qualquer preço (como viria a suceder), eu perguntava-me para quê renovar o lugar no Dragão: para ver Adelino Caldeira a fazer cruzamentos de letra ou Pinto da Costa a marcar golos de trivela?
A razão pela qual o FC Porto desta época é o que está à vista é simples, tremendamente simples: porque, como aqui o escrevi há semanas para grande escândalo de outros observadores para quem há gente e coisas intocáveis, é que este FC Porto é a pior equipa da década, pelo menos. A geração que ganhou a Liga dos Campeões em 2003, foi destroçada, e, da que se lhe seguiu, já só restam Lucho e Lisandro. Mas Lucho, que havia começado a época em grande, entrou em crise psicológica e não tem quem pegue na equipa em vez dele, e Lisandro está em guerra surda com a SAD — que é capaz de pagar 200.000 euros por mês ao Cristian Rodriguez (apenas 50.000 a menos do que Quaresma foi ganhar para o Inter), é capaz de pagar alguns 50.000 a jogadores que nem na Segunda B teriam lugar, é capaz de pagar uns trinta ordenados a jogadores para brilharem noutros clubes, mas não tem dinheiro para pagar ao Lisandro o que ele acha que merece. Talvez o Lisandro esteja a exagerar, mas quando os maus exemplos vêm de cima, porque não aproveitar, quando se é um dos raros ali que fazem a diferença?
É fácil, facilíssimo, atirar as culpas para cima do treinador: é sempre assim, quando não se sabe gerir. Eu acho que Jesualdo tem feito o melhor que pode, com equipas que, de ano para ano, são cada vez piores. E, como já aqui o disse, tirando erros pontuais às vezes incompreensíveis — como a insistência no Mariano González ou essa fatal tendência dos treinadores portugueses para mudarem a equipa toda e renunciarem ao ataque, de cada vez que têm um jogo difícil pela frente — Jesualdo só pode, eventualmente, ser culpabilizado por ter sido cúmplice ou testemunha silenciosa dos negócios que desmantelaram a equipa e a puseram a falar castelhano e a jogar um futebol que depende da inspiração de não mais do que dois ou três jogadores.
À vista de todos, a este FC Porto falta, para começar, um guarda-redes a sério e é incrível que não o tenha. Todas as equipas que conheço devem vitórias e resultados aos guarda-redes: não me lembro, desde que Adriaanse reformou Baía, de um só jogo em que se possa dizer que o FC Porto ficou a dever o resultado ao guarda-redes. Depois, falta-lhe um lateral-esquerdo de categoria internacional, até para libertar o Fucile para a direita, onde ele é bem melhor do que Sapunaru. E mais uma vez é incrível como é que, tendo comprado 13 (!) defesas-esquerdos nos últimos dez anos, não se comprou um único que desse garantias. Falta-lhe, a seguir, pelo menos dois grandes médios de ataque, que libertem o Raul Meireles para o lugar de trinco (onde, entre os cinco vindos este ano, não há um só que preste!) e libertar o Lucho (enquanto lá está...) do peso de ter de carregar em exclusivo a equipa para a frente. E falta-lhe, para terminar, dois extremos a sério, pois que só tem um e Jesualdo nem sequer gosta de apostar nele: o Candeias. Borda fora foram, além do Quaresma, o Pittbull, o Vieirinha, o Alan, o Hélder Barbosa, o Diogo Valente. É preciso ir às compras em Dezembro, mas calma: não vale a pena ir já a correr reservar um charter para a América do Sul. Há muita gente aí, emprestada, que deve ser mandada voltar para casa e, embora eu duvide, se possível, trocada por uma dúzia de inutilidades que por lá andam.
Com esta equipa, não vale a pena alimentar ilusões nem agitar lenços brancos. Não vale a pena caírem em cima do treinador, porque nem Mourinho conseguia fazer daquilo uma equipa a nível europeu. E, depois, também manda a verdade que se diga, que Jesualdo não tem tido sorte. O Dynamo de Kiev não fez nada para merecer ganhar no Dragão: fez tanto como o Sporting fez para merecer ganhar em Donestk. Com a mesma sorte do Sporting (aquele remate de Lucho ao poste, por exemplo), o FC Porto teria ganho ao Dynamo e com justiça. E com a sorte que o Benfica teve contra a Naval, teria ganho, ou pelo menos empatado, com o Leixões e não se estaria agora a falar em crise. Mas as coisas são o que são e estamos todos habituados a ver o FC Porto a superar erros de arbitragem e bolas ao poste. Foi o que fizemos em Alvalade, contra o Sporting e contra Lucílio Baptista e aí escreveu-se que estava de volta o FC Porto dos últimos anos. Não estava e logo se viu. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. A fórmula actual é simples: em dia de inspiração de Lucho e Lisandro, o FC Porto ganha; em dia de desinspiração deles, não ganha, porque não há ali ninguém mais que tenha categoria para desequilibrar um jogo.
2- No momento em que escrevo, não sei o desfecho do Braga-Estrela da Amadora, mas, ao ler que Jorge Jesus afirmou que este jogo era mais difícil do que o confronto com o Portsmouth, dá-me ideia de que estava já a preparar os adeptos para um fracasso e a desresponsabilizar os seus jogadores, por antecipação. Ele lá sabe, melhor do que ninguém, o que a equipa pode ou não dar. Agora, há uma coisa que, francamente, já enerva como desculpa: que é a do cansaço do jogo europeu a meio da semana (ainda para mais, jogado em casa e sem necessidade de viagens). Nunca percebi porque razão as equipas ditas pequenas se batem tanto por um lugar europeu, quando depois, na época seguinte, vivem a queixar-se do cansaço dos jogos europeus a meio da semana. E também nunca percebi porque é que o cansaço há-de atacar mais os pequenos do que os grandes: alguém se lembrou de justificar as más exibições de FC Porto, Sporting e Benfica, nesta jornada, com o cansaço do jogo europeu?