1 - Qual é a verdadeira face do FC Porto, a da noite vergonhosa de Londres ou a da noite de salvação em Alvalade? Eu temo que seja a de Londres, mas tudo depende da perspectiva: para consumo interno e para quem se contente com isso, o FC Porto que venceu em Alvalade com toda a naturalidade, pode chegar; para quem não se quer desabituar de ver o FC Porto no, digamos, segundo patamar europeu (ou seja, entre as 25 melhores equipas da Europa), esta equipa de 2008/09 não chega para a encomenda e isso ficou cristalinamente claro em Londres.
Num primeiro momento, talvez ainda atordoado pelos 4-0, Jesualdo Ferreira deu mostras de não ter percebido bem a tragédia que acabava de viver no Emirates Stadium. Aquelas infelizes declarações de que só se tinham perdido três pontos e que tanto dava perder por um como por quatro, foram gasolina no fogo. Os portistas, que tinham acabado de ver a sua equipa ser esmagada e positivamente gozada, ficaram estarrecidos. Seria possível que só o treinador não se tivesse dado conta de que pior, mil vezes pior, do que o resultado, foi o ar de quase amadorismo, de total impotência, de provincianismo competitivo, de que dera mostras um clube que ainda há quatro anos foi campeão da Europa e do Mundo?
Seria possível que só treinador não percebesse que estamos cansados de um guarda-redes que, quando chega aos jogos importantes, ou oferece golos directamente, ou os sofre com um ar de absoluta banalidade, como sucedeu com o segundo e terceiro golos do Arsenal (no primeiro deles nem chegou a levantar os pés do chão para tentar chegar a uma bola que sobrevoou, fraquinha, o seu 1,92 metros…).
Seria possível que só treinador não tenha percebido o desastre que foi montar uma ala esquerda defensiva com o Benítez e o Guarín — dois jogadores que ainda hoje devem estar a beliscar-se para perceber como é que conseguiram chegar a titulares do FC Porto, e logo num jogo da Liga dos Campeões, em casa do Arsenal?
Seria possível que só ele não tenha percebido que, após tantas trocas e baldrocas, só tem dois médios de qualidade, que são o Lucho e, vá lá, o Raúl Meireles, e que só tem dois avançados a sério, que são o Hulk e o Lisandro, e um que mostra potencial, que é o Candeias (mas que Jesualdo Ferreira despreza, como tem desprezado todos os jovens com potencial que aparecem, como o Ibson, o Vieirinha, o Leandro Lima, o Hélder Barbosa, o Bruno Morais, etc.)?
Aconteceu, depois, que, de regresso ao Porto, alguém terá contado a Jesualdo Ferreira que o estado de espírito e de revolta latente dos adeptos portistas não era propriamente adequado àquele tipo de discurso, e ele mudou de tom e passou a falar na vitória em Alvalade. Era o mínimo que se impunha: a mudança de discurso, o fim das experiências com jogadores de ocasião, a vitória em Alvalade.
Em Alvalade, como era exigível, Jesualdo deixou no banco Benítez, Guarín e Mariano (é verdade que depois fez entrar os dois últimos, porque Lucho deu o berro e Tomás Costa tinha de sair antes que os adeptos do Sporting, com a sempre prestimosa colaboração de Lucílio Baptista, o conseguissem expulsar, e olhando para aquele desolador «banco», que já fez a inveja dos rivais, o que ele lá tem é aquilo). Mas, de facto, independentemente das apregoadas intenções, o FC Porto começou a ganhar o jogo quando alguém deixou o Helton em corrente de ar e ele apanhou um torcicolo que o impediu de jogar em Alvalade: com o Helton na baliza, não tenho a menor dúvida de que não teríamos ganho — como nunca ganhámos até hoje nenhum jogo que tenha dependido da sua actuação. Estou muito curioso de ver qual o pretexto de que Jesualdo Ferreira se servirá para devolver a baliza a Helton… E pensar eu que Co Adriaanse acabou com a carreira de um jogador da categoria do Baía só por causa de um «frango» na Amadora!
Mas, não tenhamos grandes esperanças, para depois não sofrer grandes desilusões. Eu disse-o, depois do descalabro de Londres: apesar de tudo, acreditava que o FC Porto podia vencer tranquilamente o Sporting, porque não está a jogar menos que o Sporting e ainda lhe resta, ao menos para consumo interno, uma marca daquela atitude que fez dele o alvo a abater aqui, nos últimos dez anos e mais.
Mas, pessoalmente, a minha opinião é clara: este é o pior FC Porto dos últimos dez anos. Jogador por jogador e olhando para o núcleo duro dos 18/20 jogadores que fazem, de facto, uma época. Depois de conscientemente desbaratada a equipa nos últimos anos, restam três jogadores de categoria europeia: o Lucho, o Lisandro e o Bruno Alves. Mas o primeiro, de quem depende quase tudo, dá mostras de um cansaço estranho e preocupante; e os outros estão longe da forma que exibiram na época passada (com excepção para a grande exibição do Bruno Alves em Alvalade). O resto são jogadores simplesmente regulares, banais ou francamente maus. Eis o resultado da política de administração da SAD, de vender todos os anéis, um a um, para poder continuar a gastar à tripa-forra, sem nenhuma sombra de controle do Conselho Fiscal.
Eis o resultado de uma gestão feita com «yes men», Carolinas Salgado e «empresários» mixerucos. Mais tarde ou mais cedo tinha de dar nisto. Não sei se Pinto da Costa ainda se preocupa em escutar outras opiniões que não as da sua corte, mas, caso assim seja, deve saber que há uma corrente que sustenta que quem fez, de facto, do FC Porto a potência futebolística que chegou ao topo da Europa, não foi ele, mas, sim, Jorge Mendes e José Mourinho. Não é o meu caso: sei que houve nisso muito mérito, antes de mais, de Pinto da Costa. Detesto ingratidões e faltas de memória e não ignoro que o dito «Apito Dourado» (hoje, isto é cristalinamente claro para mim) foi uma operação montada ao pormenor para tentar afastar Pinto da Costa — justamente visto pelo rival da Luz como o principal obstáculo às suas ambições de mando e comando. Mas também não acho que a eternidade do poder traga alguma coisa de bom aos homens e às instituições. Quem não sabe sair a tempo pela porta grande acaba por sair a destempo pela porta das traseiras. Porém, mais do que a figura do presidente portista, o que eu acho que está em causa é essa corte de bajuladores que vivem e vegetam à sombra dele, gastando fortunas que ninguém consegue explicar ou justificar em termos de gestão. No espaço de pouco mais de um ano, conseguiram desfazer-se do Pepe, do Anderson, do Paulo Assunção, do Bosingwa e do Quaresma — trocados por «craques» como o Benítez, o Stepanov, o Guarín, o Bolatti ou o Mariano González. E, estranhamente, parece que o clube ainda está em pior situação financeira…
2 - Uma mini-série de vitórias seguidas, a primeira eliminatória da Taça UEFA ultrapassada e é quanto baste para que a imprensa embandeire em arco com o «novo» Benfica. Parangonas, títulos bombásticos, a sugestão de que quase que nem valia a pena disputar o resto do campeonato. Sem tirar mérito ao que teve mérito, convém lembrar que o primeiro golo contra o Nápoles nasceu de uma falta claríssima não assinalada e o primeiro golo contra o Leixões também pareceu sofrer do mesmo pecado original. Não impede, talvez… mas lá que ajuda, ajuda. Assim como o Lucílio Baptista a arbitrar o jogo do Porto em Alvalade (o árbitro que decidiu que uma mão pousada nas costas é penalty, é, por estranho que pareça, o mesmo que achou que a entrada por trás do Karagounis a partir a perna ao Anderson, romper-lhe os ligamentos e arrumar com ele seis meses, nem falta foi).
3 - Tiveram muito azar, tiveram. Mas o que fica para a história é isto: o Vitória de Guimarães, que tanto se empenhou em tentar entrar na Champions pela porta de serviço, roubando ao FC Porto o lugar conquistado com todo o mérito e clareza em campo, quando foi preciso passar do terreno da esperteza jurídica para o da verdade futebolística não conseguiu nem ir à Champions nem ultrapassar a primeira eliminatória da Taça UEFA. Eu não sou crente, mas às vezes também acho que Deus não dorme.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quarta-feira, outubro 15, 2008
MUITA POUCA EUROPA, POR AQUI (30 SETEMBRO 2008)
1- O começar mais uma semana europeia, as perspectivas dos clubes portugueses não se me afiguram auspiciosas. Excepção para o Braga, que tem a eliminatória já garantida e a quem tudo o que se pede é que acumule mais uns pontinhos a favor do ranking de Portugal na UEFA. Em contrapartida, Marítimo e Vitória de Guimarães têm uma tarefa quase impossível à partida, enquanto que o Benfica enfrenta um desfecho de tripla contra o Nápoles, que ninguém pode antecipar com segurança: é daqueles jogos em que a sorte e os nervos vão desempenhar um papel porventura decisivo. Na Champions, o Sporting tem o mais fácil dos jogos europeus das seis equipas portuguesas em competição, mas com um factor de perturbação prévio: só a vitória lhe serve, tudo o resto soará a fiasco comprometedor. Quanto ao FC Porto, está na posição inversa: ganhou o primeiro jogo caseiro contra o seu adversário mais directo no grupo e pode perder contra o favorito, em casa deste, sem que essa derrota faça dobrar a finados: é esse o mais provável dos desfechos.
A anteceder esta definidora jornada europeia, tivemos o derby de Lisboa, como sempre incensado, antes e depois, muito para além da qualidade do futebol visto em campo. Foi um jogo pobre, que o Benfica ganhou justamente, por ter sido a única das equipas que se decidiu a correr riscos e a fazer qualquer coisa contra o anunciado empate (no painel de palpites do Expresso, todos os doze participantes apostaram, sem excepção, num empate!). Na verdade, Quique Flores ou arriscava agora e ganhava ou podia muito bem começar a pensar em fazer as malas para passar o Natal em casa. Com apenas duas vitórias em onze jogos (e uma delas a miraculosa vitória da semana anterior em Paços de Ferreira), o espanhol ver-se-ia numa situação bem complicada em caso de empate ou derrota: ficaria a quatro pontos do Sporting e a dois do FC Porto, em caso de empate, ou a sete e quatro, em caso de derrota. E com a agravante de já ter recebido os dois rivais directos em casa, sem ganhar nenhum dos jogos. Era o tudo ou nada e ele percebeu-o a tempo. Quem também deve ter suspirado de alívio foi Rui Costa: ambos os golos da vitória tiveram a assinatura dos seus reforços — assistência de Aimar e golo de Reyes, no primeiro; assistência de Carlos Martins e golo de Sydnei, no segundo.
Quanto ao Sporting, fez o que pôde, embora a liderança do campeonato, com três vitórias nos três primeiros jogos, talvez levasse a esperar mais. A meu ver, erradamente: nenhuma das vitórias foi convincente, em nenhuma se mostrou uma equipa triunfante e segura de si. Pelo contrario, eu acho que o grande mérito de Paulo Bento é conseguir continuar a fazer do Sporting um candidato ao título quando as condições de concorrência com os seus rivais directos estão completamente desequilibradas (esta época, a SAD do Sporting não gastou um tostão em reforços — o Hélder Postiga deve ser para pagar muito, muito, suavemente). Não fosse a estranha teima em prescindir de Stojkovic e Vukcevic, e seria caso para dizer que Paulo Bento tem o osso espremido até ao tutano. Agora, muito mais do que aquilo, não acredito que dê.
Já agora, não resisto a um à parte: aqui, neste jornal, os jornalistas destacados para a função, consideraram o Yebda e o Miguel Veloso dos melhores em campo. Confesso o meu espanto: para além do facto comum de ambos terem evidentes preocupações com o penteado, não vi a qualquer deles futebol algum. O Miguel Veloso teve um passe magistral no primeiro minuto a isolar o Yannick e o resto do tempo passou-o a estragar jogo; o francês muçulmano usou o gigantismo para fazer faltas de toda a ordem, exibindo, no mais, uma elegância e clarividência técnica que fazem lembrar o cristão português Fernando Aguiar, tão apreciado lá para as bandas da Luz. Eis a prova de que o futebol raramente é matéria de consensos alargados.
Na véspera do derby lisboeta, o FC Porto, ferido no orgulho em Vila do Conde, viu-se e desejou-se para levar de vencida o «promovido» Paços de Ferreira, mais uma vez não se livrando de escutar justos assobios vindos da bancada. Mais uma vez, também, Jesualdo Ferreira pôs em campo a equipa errada e demorou uma hora a emendar a mão. É certo que (finalmente!) deixou de fora o Mariano González, fazendo-o descansar — a ele e a nós. Mas resolveu ressuscitar o Farías — esquecendo-se, porém e pelo que se viu, de o avisar — e, na ausência de Lucho, lançou mão daquele jovem Tomás Costa, que até agora só mostrou ser capaz de receber a bola vinda de trás e devolvê-la para trás. Ele, mais o Mariano, mais o Stepanov, mais o Guarín (e para não ir mais longe), fazem parte de um grupo de jogadores que eu, por mais que me esforce, não consigo entender como é que vieram parar ao FC Porto (no seu último texto aqui, o Rui Moreira põe o dedo na ferida, quando fala de diferença entre os reforços do Jorge Mendes e os dos curiosos «empresários» que gravitam à roda da SAD do FC Porto).
Facto é que, de Junho de 2007 a Julho de 2008, o FC Porto viu sair da equipa todos estes jogadores, agenciados por Jorge Mendes: Bosingwa, Pepe, Paulo Assunção, Ibson, Anderson e Ricardo Quaresma. E nem num só deles encontro um substituto que, de perto ou de longe, se lhe compare. E isto é como o Sporting: não há milagres…
Logo à noite, no Emirates, frente a um Arsenal ferido pelo Hull City, espero o milagre, mas temo o inevitável. É quase certo que Jesualdo não vai fugir à regra dos treinadores portugueses quando se vêem perante jogos de dificuldade máxima: vai «inovar», reforçando o meio-campo ou a capacidade defensiva e desguarnecendo o ataque — dá quase sempre mau resultado, mas eles não resistem a tentar de novo. A imprensa inglesa já deu o mote contrário, revelando quem mais temem: é o Hulk (por acaso, o jogador mais caro de sempre do FC Porto, a par de Lucho). Mas Jesualdo também já mostrou que só confia no Hulk em desespero de ataque — até lá prefere o Mariano ou o Farías ou o Tomás Costa. Queira Deus que me engane, mas temo um FC Porto «de contenção», de «esperar para ver» e depois de «correr atrás do prejuízo».
2- José Mourinho esteve igual a si mesmo no confronto com o Milan. Brilhante na conferência de imprensa em que enfrentou sem medo os tubarões da imprensa desportiva italiana; prejudicado pelo árbitro no decorrer do jogo, numa arbitragem que pareceu ter uma agenda oculta; e previsível e monótono no futebol apresentado pela sua equipa. Tal como no Chelsea, aquilo é sólido e vê-se que tem muitas horas de trabalho, com o objectivo único de obter resultados e, tal como no Chelsea, também agora ele dispõe de jogadores que podem, num instante de génio, disfarçar toda aquela monotonia. Mas a verdade é esta: nunca mais vi uma equipa de Mourinho jogar tão bem como o FC Porto que conquistou a Taça UEFA, em Sevilha — não o FC Porto, campeão europeu em 2004: o do ano anterior. Uma equipa pobre, em termos europeus, mas cheia de ambição e futebol.
Quanto ao saudoso Ricardo Quaresma, lá o vi a fazer o papel menor de quem espera em vão que as outras vedetas da equipa se dignem passar-lhe a bola. E viu-se que tem ali colegas do meio-campo que só o farão sob a ameaça de pistola. Pobre Quaresma, como se deve ter sentido frustrado! É bem feito!
A anteceder esta definidora jornada europeia, tivemos o derby de Lisboa, como sempre incensado, antes e depois, muito para além da qualidade do futebol visto em campo. Foi um jogo pobre, que o Benfica ganhou justamente, por ter sido a única das equipas que se decidiu a correr riscos e a fazer qualquer coisa contra o anunciado empate (no painel de palpites do Expresso, todos os doze participantes apostaram, sem excepção, num empate!). Na verdade, Quique Flores ou arriscava agora e ganhava ou podia muito bem começar a pensar em fazer as malas para passar o Natal em casa. Com apenas duas vitórias em onze jogos (e uma delas a miraculosa vitória da semana anterior em Paços de Ferreira), o espanhol ver-se-ia numa situação bem complicada em caso de empate ou derrota: ficaria a quatro pontos do Sporting e a dois do FC Porto, em caso de empate, ou a sete e quatro, em caso de derrota. E com a agravante de já ter recebido os dois rivais directos em casa, sem ganhar nenhum dos jogos. Era o tudo ou nada e ele percebeu-o a tempo. Quem também deve ter suspirado de alívio foi Rui Costa: ambos os golos da vitória tiveram a assinatura dos seus reforços — assistência de Aimar e golo de Reyes, no primeiro; assistência de Carlos Martins e golo de Sydnei, no segundo.
Quanto ao Sporting, fez o que pôde, embora a liderança do campeonato, com três vitórias nos três primeiros jogos, talvez levasse a esperar mais. A meu ver, erradamente: nenhuma das vitórias foi convincente, em nenhuma se mostrou uma equipa triunfante e segura de si. Pelo contrario, eu acho que o grande mérito de Paulo Bento é conseguir continuar a fazer do Sporting um candidato ao título quando as condições de concorrência com os seus rivais directos estão completamente desequilibradas (esta época, a SAD do Sporting não gastou um tostão em reforços — o Hélder Postiga deve ser para pagar muito, muito, suavemente). Não fosse a estranha teima em prescindir de Stojkovic e Vukcevic, e seria caso para dizer que Paulo Bento tem o osso espremido até ao tutano. Agora, muito mais do que aquilo, não acredito que dê.
Já agora, não resisto a um à parte: aqui, neste jornal, os jornalistas destacados para a função, consideraram o Yebda e o Miguel Veloso dos melhores em campo. Confesso o meu espanto: para além do facto comum de ambos terem evidentes preocupações com o penteado, não vi a qualquer deles futebol algum. O Miguel Veloso teve um passe magistral no primeiro minuto a isolar o Yannick e o resto do tempo passou-o a estragar jogo; o francês muçulmano usou o gigantismo para fazer faltas de toda a ordem, exibindo, no mais, uma elegância e clarividência técnica que fazem lembrar o cristão português Fernando Aguiar, tão apreciado lá para as bandas da Luz. Eis a prova de que o futebol raramente é matéria de consensos alargados.
Na véspera do derby lisboeta, o FC Porto, ferido no orgulho em Vila do Conde, viu-se e desejou-se para levar de vencida o «promovido» Paços de Ferreira, mais uma vez não se livrando de escutar justos assobios vindos da bancada. Mais uma vez, também, Jesualdo Ferreira pôs em campo a equipa errada e demorou uma hora a emendar a mão. É certo que (finalmente!) deixou de fora o Mariano González, fazendo-o descansar — a ele e a nós. Mas resolveu ressuscitar o Farías — esquecendo-se, porém e pelo que se viu, de o avisar — e, na ausência de Lucho, lançou mão daquele jovem Tomás Costa, que até agora só mostrou ser capaz de receber a bola vinda de trás e devolvê-la para trás. Ele, mais o Mariano, mais o Stepanov, mais o Guarín (e para não ir mais longe), fazem parte de um grupo de jogadores que eu, por mais que me esforce, não consigo entender como é que vieram parar ao FC Porto (no seu último texto aqui, o Rui Moreira põe o dedo na ferida, quando fala de diferença entre os reforços do Jorge Mendes e os dos curiosos «empresários» que gravitam à roda da SAD do FC Porto).
Facto é que, de Junho de 2007 a Julho de 2008, o FC Porto viu sair da equipa todos estes jogadores, agenciados por Jorge Mendes: Bosingwa, Pepe, Paulo Assunção, Ibson, Anderson e Ricardo Quaresma. E nem num só deles encontro um substituto que, de perto ou de longe, se lhe compare. E isto é como o Sporting: não há milagres…
Logo à noite, no Emirates, frente a um Arsenal ferido pelo Hull City, espero o milagre, mas temo o inevitável. É quase certo que Jesualdo não vai fugir à regra dos treinadores portugueses quando se vêem perante jogos de dificuldade máxima: vai «inovar», reforçando o meio-campo ou a capacidade defensiva e desguarnecendo o ataque — dá quase sempre mau resultado, mas eles não resistem a tentar de novo. A imprensa inglesa já deu o mote contrário, revelando quem mais temem: é o Hulk (por acaso, o jogador mais caro de sempre do FC Porto, a par de Lucho). Mas Jesualdo também já mostrou que só confia no Hulk em desespero de ataque — até lá prefere o Mariano ou o Farías ou o Tomás Costa. Queira Deus que me engane, mas temo um FC Porto «de contenção», de «esperar para ver» e depois de «correr atrás do prejuízo».
2- José Mourinho esteve igual a si mesmo no confronto com o Milan. Brilhante na conferência de imprensa em que enfrentou sem medo os tubarões da imprensa desportiva italiana; prejudicado pelo árbitro no decorrer do jogo, numa arbitragem que pareceu ter uma agenda oculta; e previsível e monótono no futebol apresentado pela sua equipa. Tal como no Chelsea, aquilo é sólido e vê-se que tem muitas horas de trabalho, com o objectivo único de obter resultados e, tal como no Chelsea, também agora ele dispõe de jogadores que podem, num instante de génio, disfarçar toda aquela monotonia. Mas a verdade é esta: nunca mais vi uma equipa de Mourinho jogar tão bem como o FC Porto que conquistou a Taça UEFA, em Sevilha — não o FC Porto, campeão europeu em 2004: o do ano anterior. Uma equipa pobre, em termos europeus, mas cheia de ambição e futebol.
Quanto ao saudoso Ricardo Quaresma, lá o vi a fazer o papel menor de quem espera em vão que as outras vedetas da equipa se dignem passar-lhe a bola. E viu-se que tem ali colegas do meio-campo que só o farão sob a ameaça de pistola. Pobre Quaresma, como se deve ter sentido frustrado! É bem feito!
domingo, setembro 28, 2008
F.C.PORTO: EM CONSTRUÇÃO OU EM DESCONSTRUÇÃO (23 SETEMBRO 2008)
Depois da vitória sobre o Fenerbahçe, quarta-feira passada, Jesualdo Ferreira queixou-se dos assobios escutados no Dragão, explicando aos sócios do FC Porto que havia que ser mais compreensivo com uma equipa «em construção», que entrou em jogo com cinco estreantes em competições europeias. Realmente, faz alguma confusão escutar os assobios quando se está a ganhar por 2-1 um jogo tão importante e quando já se tinha regalado o público com uns vinte minutos iniciais de fino futebol. O que aconteceu então, para os assobios?
Aconteceu, primeiro, que o público do Dragão se tornou, com o passar dos anos e das vitórias, no mais exigente público de futebol em Portugal. Ali, não nos basta ganhar, porque ganhar, felizmente, é coisa a que estamos bem habituados. Queremos também ver empenho nos jogadores, coragem nos treinadores e futebol que compense a ida ao estádio. É essa uma das características que, hoje em dia, mais nos distingue dos rivais lisboetas e, embora tal possa ser por vezes difícil de aceitar para a equipa, não deixa de ser motivo de orgulho para os portistas: no Dragão, não nos rebaixamos a contestar a arbitragem logo aos três minutos de jogo, como ainda recentemente sucedeu no Benfica-Porto; não queremos ver a equipe ganhar de qualquer maneira, mesmo jogando mal; não desprezamos os adversários e sabemos que, quando não se corre e não se joga bem, não adianta estar a culpar a arbitragem ou o sistema pelos desaires. Tomemos o exemplo de anteontem em Vila do Conde: se o árbitro tivesse marcado, como devia, aquele penalty a dez minutos do fim, teríamos ganho o jogo. Mas não foi por isso que não ganhámos, foi porque a equipa e o treinador só acordaram para a necessidade de ganhar quando já era tarde.
A segunda razão para os assobios no jogo contra o Fenerbahçe é conjuntural. Jesualdo diz que a equipa está em construção, mas o que se viu, passados os brilhantes vinte minutos iniciais, culminados com aquele golo displicentemente desperdiçado por Lisandro López, foi antes uma equipa em desconstrução. Circunstancialmente, os assobios irromperam, e de impaciência, à vigésima vez que o Mariano González estragou uma jogada, mas, no fundo, no fundo, os assobios eram… para Jesualdo Ferreira, ele próprio. Ainda não digerimos mais uma derrota com o Sporting, onde Jesualdo acumulou erros visíveis a olho nu; ainda não digerimos uma vitória tão fácil desperdiçada na Luz; e, contra o Fenerbahçe, o que o público sentiu foi que outra vitória perfeitamente ao alcance tinha passado a correr o risco de se esfumar — como esteve quase a acontecer quando o Helton, para não variar, deixou que a bola sobrevoasse duas vezes a sua zona de intervenção obrigatória, na primeira vez falhando a intercepção e sendo salvo pelo Rolando, e, na segunda vez, ficando pregado à baliza a ver o Guinze falhar o cabeceamento a dois metros da linha de golo.
A desconstrução desta equipa que no ano passado ganhou o campeonato em atitude de passeio, começou, é verdade, na SAD: a saída do Paulo Assunção destroçou a solidez do meio-campo; as saídas do Bosingwa e de Quaresma desfizeram um flanco inteiro e, no caso do saudoso nº 7, tal como eu previ, reduziu a capacidade ofensiva da equipa a menos de metade. Mas Jesualdo também ajudou, e muito, os problemas actuais:
— continuou convencido de que Helton dá garantias suficientes de tranquilidade e segurança e o que sucede é exactamente o contrário — é ele o grande destabilizador dos centrais e o factor primeiro de insegurança defensiva;
— adepto, e bem, do 4x3x3, viu sair o Quaresma e, mesmo assim, despachou uma série de extremos que muito jeito lhe poderiam dar: o Vieirinha, o Alan, o Pittbull, o Hélder Barbosa.
— coleccionou, nos últimos dois anos, uma quantidade infindável de trincos, nenhum dos quais oferece um mínimo de garantias, o que faz com que, de facto, só haja um trinco capaz e adaptado, que é o Raul Meireles;
— só que o Raul Meireles faz falta como médio de ataque porque, além dele, Jesualdo só tem o Lucho - de quem depende, neste momento, toda a capacidade ofensiva da equipa. Entretanto, deitou fora o Leandro Lima, o Luis Aguiar, o Ibson, o Diogo Valente. A solução poderia passar pelo recuo do Cristian Rodriguéz para médio — até porque a extremo tem sido uma decepção — ,mas então, adeus 4x3x3;
— e, enfim chegamos à razão mais evidente para os assobios, eu diria mesmo gritante: a inexplicável insistência de Jesualdo Ferreira em Mariano González. Contra o Fenerbahçe (que eu vi atentamente e de bloco notas na mão), a primeira vez que se deu pelo Mariano em jogo foi aos 41 minutos, quando rasteirou um adversário. Durante toda a primeira parte, ele não fez uma finta, um passe de qualidade, um cruzamento, uma desmarcação ou até uma intercepção: repetiu a dose contra o Rio Ave e, como Jesualdo poderá constatar revendo os vídeos, é um jogador que, depois de perder a bola (o que acontece quase sempre que a recebe) fica parado no mesmo sítio. Aos 51 minutos do jogo contra os turcos, o Mariano, após um ressalto feliz, ficou isolado perante o guarda-redes: a forma como rematou aquela bola, seria suficiente, se mais não houvesse no seu registo, para mostrar à exuberância que ele tem limitações técnicas que são inadmissíveis num jogador de uma equipa supostamente de topo. Não há um adepto portista que não prefira ver o Candeias, ou o Tarik, mesmo em Ramadão, ou o Hulk, no lugar do Mariano. Só Jesualdo Ferreira persiste e persiste na sua teimosia, revelando um grau de proteccionismo a este jogador que, para mim, não encontra justificação… nem perdão.
É claro que quem percebe de futebol é Jesualdo, não sou eu. Mas tenho sobre ele uma vantagem, enquanto observador: há vinte anos que eu vejo todos, todos, os jogos do FC Porto. Olhando para um jogo como o de anteontem, em Vila do Conde, há uma coisa que eu já sei e que Jesualdo já podia saber, com a experiência que leva da equipa: estes são os jogos que mais facilmente se tornam difíceis para uma equipa como o FC Porto. Os jogadores vão mudando, os treinadores e os métodos também, mas há coisas que permanecem imutáveis: num campo pequeno, com equipas fechadas na defesa e um guarda-redes que vai de certeza fazer a exibição da época, uma equipa de ataque e de espaços, como o FC Porto é desde há muito, vai sofrer com a falta de terreno, de ar… e de tempo. Só há uma solução para evitar problemas e o desespero no final: é carregar desde o primeiro minuto, até chegar ao golo e obrigar, então, o adversário a abrir espaços, porque tem de tentar o empate. Ora, não sendo bruxo, aos 3 minutos do jogo de Vila do Conde, eu estava a mandar uma mensagem a um amigo portista: «Desconfio que isto vai correr mal!». E porquê? Porque bastou ver a atitude displicente, pouco empenhada, de quem acha que tem todo o tempo do mundo, com que alguns jogadores entraram em campo, para perceber que aquilo se poderia complicar, com duas bolas na trave, um penalty por marcar, etc.
Quando, dois pontos perdidos sem razão nem brio, Jesualdo Ferreira veio queixar-se da hora inteira de sonolência a que a equipa se tinha entregue, cabe perguntar se a responsabilidade não será, primeiro que tudo, dele próprio. Quem falhou a passar a mensagem de que aquilo era para tentar resolver a partir do minuto 1 e não do minuto 61? Quem demorou uma hora inteira a ver o Mariano entregar jogo aos adversários até finalmente reagir? Quem demorou uma hora inteira a perceber que precisava de flanquear o jogo e, para isso, precisava de flanqueadores como o Candeias?
Uma das coisas de que tenho saudades do génio trapalhão do António Oliveira é disto: com ele, bastavam os primeiros 15 ou 20 minutos em que as coisas não funcionavam, para ele começar a mexer na equipa. Porque, como cantava o Vandrei, «quem sabe, faz a hora; não espera acontecer». É verdade, verdadíssima, que a procissão ainda vai no adro e que nada é irreversível. Daqui a uns tempos, acredito que o FC Porto poderá estar de volta ao caminho certo. Mas, para isso, é preciso mudar o que está mal e pode ser mudado, e não ficar à espera que as coisas mudem por si mesmas.
Aconteceu, primeiro, que o público do Dragão se tornou, com o passar dos anos e das vitórias, no mais exigente público de futebol em Portugal. Ali, não nos basta ganhar, porque ganhar, felizmente, é coisa a que estamos bem habituados. Queremos também ver empenho nos jogadores, coragem nos treinadores e futebol que compense a ida ao estádio. É essa uma das características que, hoje em dia, mais nos distingue dos rivais lisboetas e, embora tal possa ser por vezes difícil de aceitar para a equipa, não deixa de ser motivo de orgulho para os portistas: no Dragão, não nos rebaixamos a contestar a arbitragem logo aos três minutos de jogo, como ainda recentemente sucedeu no Benfica-Porto; não queremos ver a equipe ganhar de qualquer maneira, mesmo jogando mal; não desprezamos os adversários e sabemos que, quando não se corre e não se joga bem, não adianta estar a culpar a arbitragem ou o sistema pelos desaires. Tomemos o exemplo de anteontem em Vila do Conde: se o árbitro tivesse marcado, como devia, aquele penalty a dez minutos do fim, teríamos ganho o jogo. Mas não foi por isso que não ganhámos, foi porque a equipa e o treinador só acordaram para a necessidade de ganhar quando já era tarde.
A segunda razão para os assobios no jogo contra o Fenerbahçe é conjuntural. Jesualdo diz que a equipa está em construção, mas o que se viu, passados os brilhantes vinte minutos iniciais, culminados com aquele golo displicentemente desperdiçado por Lisandro López, foi antes uma equipa em desconstrução. Circunstancialmente, os assobios irromperam, e de impaciência, à vigésima vez que o Mariano González estragou uma jogada, mas, no fundo, no fundo, os assobios eram… para Jesualdo Ferreira, ele próprio. Ainda não digerimos mais uma derrota com o Sporting, onde Jesualdo acumulou erros visíveis a olho nu; ainda não digerimos uma vitória tão fácil desperdiçada na Luz; e, contra o Fenerbahçe, o que o público sentiu foi que outra vitória perfeitamente ao alcance tinha passado a correr o risco de se esfumar — como esteve quase a acontecer quando o Helton, para não variar, deixou que a bola sobrevoasse duas vezes a sua zona de intervenção obrigatória, na primeira vez falhando a intercepção e sendo salvo pelo Rolando, e, na segunda vez, ficando pregado à baliza a ver o Guinze falhar o cabeceamento a dois metros da linha de golo.
A desconstrução desta equipa que no ano passado ganhou o campeonato em atitude de passeio, começou, é verdade, na SAD: a saída do Paulo Assunção destroçou a solidez do meio-campo; as saídas do Bosingwa e de Quaresma desfizeram um flanco inteiro e, no caso do saudoso nº 7, tal como eu previ, reduziu a capacidade ofensiva da equipa a menos de metade. Mas Jesualdo também ajudou, e muito, os problemas actuais:
— continuou convencido de que Helton dá garantias suficientes de tranquilidade e segurança e o que sucede é exactamente o contrário — é ele o grande destabilizador dos centrais e o factor primeiro de insegurança defensiva;
— adepto, e bem, do 4x3x3, viu sair o Quaresma e, mesmo assim, despachou uma série de extremos que muito jeito lhe poderiam dar: o Vieirinha, o Alan, o Pittbull, o Hélder Barbosa.
— coleccionou, nos últimos dois anos, uma quantidade infindável de trincos, nenhum dos quais oferece um mínimo de garantias, o que faz com que, de facto, só haja um trinco capaz e adaptado, que é o Raul Meireles;
— só que o Raul Meireles faz falta como médio de ataque porque, além dele, Jesualdo só tem o Lucho - de quem depende, neste momento, toda a capacidade ofensiva da equipa. Entretanto, deitou fora o Leandro Lima, o Luis Aguiar, o Ibson, o Diogo Valente. A solução poderia passar pelo recuo do Cristian Rodriguéz para médio — até porque a extremo tem sido uma decepção — ,mas então, adeus 4x3x3;
— e, enfim chegamos à razão mais evidente para os assobios, eu diria mesmo gritante: a inexplicável insistência de Jesualdo Ferreira em Mariano González. Contra o Fenerbahçe (que eu vi atentamente e de bloco notas na mão), a primeira vez que se deu pelo Mariano em jogo foi aos 41 minutos, quando rasteirou um adversário. Durante toda a primeira parte, ele não fez uma finta, um passe de qualidade, um cruzamento, uma desmarcação ou até uma intercepção: repetiu a dose contra o Rio Ave e, como Jesualdo poderá constatar revendo os vídeos, é um jogador que, depois de perder a bola (o que acontece quase sempre que a recebe) fica parado no mesmo sítio. Aos 51 minutos do jogo contra os turcos, o Mariano, após um ressalto feliz, ficou isolado perante o guarda-redes: a forma como rematou aquela bola, seria suficiente, se mais não houvesse no seu registo, para mostrar à exuberância que ele tem limitações técnicas que são inadmissíveis num jogador de uma equipa supostamente de topo. Não há um adepto portista que não prefira ver o Candeias, ou o Tarik, mesmo em Ramadão, ou o Hulk, no lugar do Mariano. Só Jesualdo Ferreira persiste e persiste na sua teimosia, revelando um grau de proteccionismo a este jogador que, para mim, não encontra justificação… nem perdão.
É claro que quem percebe de futebol é Jesualdo, não sou eu. Mas tenho sobre ele uma vantagem, enquanto observador: há vinte anos que eu vejo todos, todos, os jogos do FC Porto. Olhando para um jogo como o de anteontem, em Vila do Conde, há uma coisa que eu já sei e que Jesualdo já podia saber, com a experiência que leva da equipa: estes são os jogos que mais facilmente se tornam difíceis para uma equipa como o FC Porto. Os jogadores vão mudando, os treinadores e os métodos também, mas há coisas que permanecem imutáveis: num campo pequeno, com equipas fechadas na defesa e um guarda-redes que vai de certeza fazer a exibição da época, uma equipa de ataque e de espaços, como o FC Porto é desde há muito, vai sofrer com a falta de terreno, de ar… e de tempo. Só há uma solução para evitar problemas e o desespero no final: é carregar desde o primeiro minuto, até chegar ao golo e obrigar, então, o adversário a abrir espaços, porque tem de tentar o empate. Ora, não sendo bruxo, aos 3 minutos do jogo de Vila do Conde, eu estava a mandar uma mensagem a um amigo portista: «Desconfio que isto vai correr mal!». E porquê? Porque bastou ver a atitude displicente, pouco empenhada, de quem acha que tem todo o tempo do mundo, com que alguns jogadores entraram em campo, para perceber que aquilo se poderia complicar, com duas bolas na trave, um penalty por marcar, etc.
Quando, dois pontos perdidos sem razão nem brio, Jesualdo Ferreira veio queixar-se da hora inteira de sonolência a que a equipa se tinha entregue, cabe perguntar se a responsabilidade não será, primeiro que tudo, dele próprio. Quem falhou a passar a mensagem de que aquilo era para tentar resolver a partir do minuto 1 e não do minuto 61? Quem demorou uma hora inteira a ver o Mariano entregar jogo aos adversários até finalmente reagir? Quem demorou uma hora inteira a perceber que precisava de flanquear o jogo e, para isso, precisava de flanqueadores como o Candeias?
Uma das coisas de que tenho saudades do génio trapalhão do António Oliveira é disto: com ele, bastavam os primeiros 15 ou 20 minutos em que as coisas não funcionavam, para ele começar a mexer na equipa. Porque, como cantava o Vandrei, «quem sabe, faz a hora; não espera acontecer». É verdade, verdadíssima, que a procissão ainda vai no adro e que nada é irreversível. Daqui a uns tempos, acredito que o FC Porto poderá estar de volta ao caminho certo. Mas, para isso, é preciso mudar o que está mal e pode ser mudado, e não ficar à espera que as coisas mudem por si mesmas.
UM POUCO MENOS DE AZUL (16 SETEMBRO 2008)
1- E lá se foi, então, o Ricardo Quaresma para Milão. Satisfazendo os desejos irreprimíveis de tanta gente que mal disfarçava a sua ansiedade, Pinto da Costa consumou a mais desejada aquisição de Benfica e Sporting.
Aliás, antes ainda de consumar a venda, já lhes tinha feito a vontade, mandando que Quaresma ficasse de fora dos jogos de início de época contra os rivais de Lisboa. E o resultado viu-se: derrota contra o Sporting e perda da Supertaça; empate a saber a derrota contra o Benfica e perda da oportuidade de liquidar logo aí as esperanças encarnadas no campeonato.
O negócio era mais do que previsível, pois, como aqui tenho escrito bastas vezes, é necessário vender todas as épocas as jóias da coroa para poder compensar o dinheiro gasto em legiões de sul-americanos e o consequente desbaratar de liquidez que representa manter alguns 50 ou 60 jogadores a jogarem, a maioria sob empréstimo, em várias bandeiras. Nem mesmo a fabulosa venda do Bosingwa por 20,5 milhões de euros foi suficiente para assegurar a cobertura de mais um ano de gastos sumptuários e sem justificação. Era preciso vender outro e foi o Quaresma. Para o ano vai ser o Lucho mais o Lisandro ou o Bruno Alves — em troca de mais um saco de Renterias, Mareques, Tomás Costa, Bolattis, Marianos ou Guarins.
Mas se o negócio era previsível, o que já não era previsível, nem aceitável era a pechincha pela qual Quaresma foi oferecido ao Inter. Se ignorarmos a esperteza saloia de fingir que o Pélé vale oito vezes mais do que valia como perfeito desconhecido há um ano atrás e que a sua vinda para um lugar onde já existem quatro outros fregueses é utilíssima, a verdade, nua e crua, é que o Sr. Moratti levou o Quaresma por 18 milhões de euros- um autêntico «affarone», como se diz por lá. E se juntarmos aquilo que o Quaresma custou no negócio que envolveu a venda do Deco ao Barcelona, mais a taxa de inflação acumulada nestes quatro anos, mais os ordenados e prémios de jogo recebidos pelo jogador, mais a percentagem a pagar ao Sporting pela sua venda agora, fácilmente se chega à conclusão de que o FC Porto, contas feitas, não ganhou um tostão com a venda do Quaresma. É claro que ganhou, entretanto, muitos êxitos desportivos graças à contribuição tantas vezes decisiva do «ciganito», e ganhou as receitas das vendas de produtos associados à imagem de Ricardo Quaresma. Mas isso agora acabou (ou alguém imagina uma corrida à compra de camisolas do Mariano González?) — o que torna o negócio ainda mais desastroso.
Devem ter dito ao Sr. Moratti que Pinto da Costa era um terrível negociador. Devem-lhe ter dito também que o presidente do FC Porto tinha prometido solenemente a todos os portistas que não queria vender o Quaresma, mas que, se alguém bancasse a cláusula de rescisão, que era de 40 milhões, então, sim, ele nada podia fazer e até oferecia um euro de desconto. O Sr. Moratti ouviu e sorriu. Cruzou os braços e ficou à espera… deixando que Mourinho se fosse enervando, convencido que não ia ter aquele a quem há tempos chamava um fiteiro (quando levou porrada de criar bicho do Essien, num FC Porto-Chelsea), e deixando que o «negociador implacável» Pinto da Costa fosse dando crescentes sinais de impaciência e maleabilidade. E, quando o presidente portista apareceu a dizer ao «Corriére de la Sera» que estava à espera de uma proposta do Inter (e não já do pagamento da cláusula de rescisão), e quando, sobretudo, percebeu que a vontade da SAD portista de vender Quaresma era tanta que nem contra Benfica e Sporting arriscavam pô-lo a jogar, não fosse ele magoar-se e estragar o negócio, quando perceberem que o clube não se importava sequer de assumir uma posição de vassalagem perante os italianos, preferindo perder títulos a perder a opurtunidade de venda, então o Sr. Moratti transformou o seu sorriso num rasgado riso de predador e foi mandando uns recados que o Quaresma não fazia muita falta, talvez pudesse interessar, mas não por aqueles preços. E, como a proposta do Inter não chegava pelas vias normais, a direcção da SAD portista encarregou-se ela de ir soprando as suas proposta, em forma de recado, à comunicação social. E as propostas, como o Sr. Moratti sempre soube, eram cada vez mais desesperadas e baratas: primeiro, ele que esquecesse os 40 milhões — tinha sido uma figura de estilo, por assim dizer; depois, ele que tomasse nota então do preço do FC Porto: 30 milhões mais o Pélé; bom, vá lá, esqueçam o Pélé, é só os 30 milhões; OK, 25 mais o Pélé e daqui não descemos. Nesta altura do campeonato, um bom golpe de audácia negocial teria sido meter o Quaresma a jogar na Luz: ter-se-ia feito saber ao Sr. Moratti que desta vez era a sério, 25 milhões ou nada — além de que, pormenor, se teria ganho tranquilamente o jogo. Mas, não, nesta altura a direcção do FC Porto já estava tão desesperada que se o Inter os mandasse dançar o tango, eles teriam dançado. E, assim, na véspera de acabar o prazo de transferências, o Sr. Moratti dignou-se finalmente fazer chegar uma proposta formal ao Dragão: 18 milhões e o Pélé. E lá foi o Quaresma, por menos de metade do preço que Pinto da Costa tinha jurado que não vendia. Chapeau, Sr. Moratti!
Quanto a Pinto da Costa, é de esperar que tenha aprendido com este triste negócio, verdadeiramente ruinoso para o património do clube. Já que, por razões que me escapam, é absolutamente necessário comprar uma dúzia de jogadores todos os anos, dos quais, no máximo, só um ou dois são aproveitados, ao menos que não ponha o carro à frente dos bois: mande vir o contentor sul-americano só depois de ter assegurado o dinheiro para o pagar, para depois não acontecer ter de vender ao desbarato as pratas da casa. E nunca mais conte com o ovo no cú da galinha, para não ser obrigado a engolir solenes promessas feitas, olhos nos olhos, à nação portista.
Quanto a si, Ricardo Quaresma, olhe…auguri! Ouvi-o comentar, já em Itália, que lá «la vita é bella!». Pois é, mas não se engane. Em Milão trabalha-se no duro, muito mais do que aqui, e é por isso que os jogadores se mantêm em forma até aos 35 anos ou mais. E, ao contrário daqui, não conte nem como uma imprensa desportiva branda nem com adeptos aos seus pés. Tudo lhe será cobrado, sem contemplações.
2- Por falar em vedetas e trabalho no duro, confesso que fiquei estarrecido com o início de época do Benfica. A acreditar na imprensa, estava ali uma equipa do outro mundo e um treinador de fina água. Vedetas e mais vedetas, já nem se percebia onde encaixar tantas simultâneamente. Depois, começei por verificar que, aqui mesmo, na «Bola», dois colunistas benfiquistas já estavam a atacar o árbitro do primeiro jogo, ainda nem o campeonato tinha começado. A seguir, veio aquele mais que sofrido jogo em Vila do Conde, onde logo ficaram dois pontos, e depois veio o Benfica-Porto, em que não foi preciso esperar nem cinco minutos para perceber que o grande argumento encarnado para a vitória iria ser a pressão do público sobre o árbitro. E, enfim, veio o próprio jogo, que mostrou uma equipa de vedetas absolutamente banal, para não dizer medíocre, e o mais acessível Benfica que o F.C.Porto encontrou nos últimos anos. Só não ganhámos porque o Helton não se dispensou de oferecer o golo que sempre oferece nos jogos importantes (até quando, Jesualdo Ferreira?), e porque nos últimos vinte minutos praticamente não houve hipóteses de jogar futebol, porque de minuto a minuto tinha que se interromper para assistir um jogador do Benfica caído no chão com roturas musculares ou caimbras. Não tenho nada a ver com o assunto, que é do foro interno do clube e certamente delicado, mas lá que não me lembro de ver coisa assim, isso não.
3- Contaram-me que o estimável Octávio Machado diz que escreveu um «livro». Nada de extraordinário: a Dª Carolina Salgado também se intitula «escritora» e hoje sabemos que para escrever um livro nem é preciso saber falar, quanto mais escrever. Contaram-me também que o homem me reserva lá umas passagens de homenagem, o que também é mais do que compreensível, considerando que, mal soube que Pinto da Costa tinha tido a peregrina ideia de o fazer treinador do FC Porto, eu o classifiquei como um simples «sargento de balneário» e logo previ o desastre, sem sequer esperar para ver. Agora, posso dizer que prevejo para a sua carreira de escritor o mesmo êxito que teve na sua carreira de treinador.
Aliás, antes ainda de consumar a venda, já lhes tinha feito a vontade, mandando que Quaresma ficasse de fora dos jogos de início de época contra os rivais de Lisboa. E o resultado viu-se: derrota contra o Sporting e perda da Supertaça; empate a saber a derrota contra o Benfica e perda da oportuidade de liquidar logo aí as esperanças encarnadas no campeonato.
O negócio era mais do que previsível, pois, como aqui tenho escrito bastas vezes, é necessário vender todas as épocas as jóias da coroa para poder compensar o dinheiro gasto em legiões de sul-americanos e o consequente desbaratar de liquidez que representa manter alguns 50 ou 60 jogadores a jogarem, a maioria sob empréstimo, em várias bandeiras. Nem mesmo a fabulosa venda do Bosingwa por 20,5 milhões de euros foi suficiente para assegurar a cobertura de mais um ano de gastos sumptuários e sem justificação. Era preciso vender outro e foi o Quaresma. Para o ano vai ser o Lucho mais o Lisandro ou o Bruno Alves — em troca de mais um saco de Renterias, Mareques, Tomás Costa, Bolattis, Marianos ou Guarins.
Mas se o negócio era previsível, o que já não era previsível, nem aceitável era a pechincha pela qual Quaresma foi oferecido ao Inter. Se ignorarmos a esperteza saloia de fingir que o Pélé vale oito vezes mais do que valia como perfeito desconhecido há um ano atrás e que a sua vinda para um lugar onde já existem quatro outros fregueses é utilíssima, a verdade, nua e crua, é que o Sr. Moratti levou o Quaresma por 18 milhões de euros- um autêntico «affarone», como se diz por lá. E se juntarmos aquilo que o Quaresma custou no negócio que envolveu a venda do Deco ao Barcelona, mais a taxa de inflação acumulada nestes quatro anos, mais os ordenados e prémios de jogo recebidos pelo jogador, mais a percentagem a pagar ao Sporting pela sua venda agora, fácilmente se chega à conclusão de que o FC Porto, contas feitas, não ganhou um tostão com a venda do Quaresma. É claro que ganhou, entretanto, muitos êxitos desportivos graças à contribuição tantas vezes decisiva do «ciganito», e ganhou as receitas das vendas de produtos associados à imagem de Ricardo Quaresma. Mas isso agora acabou (ou alguém imagina uma corrida à compra de camisolas do Mariano González?) — o que torna o negócio ainda mais desastroso.
Devem ter dito ao Sr. Moratti que Pinto da Costa era um terrível negociador. Devem-lhe ter dito também que o presidente do FC Porto tinha prometido solenemente a todos os portistas que não queria vender o Quaresma, mas que, se alguém bancasse a cláusula de rescisão, que era de 40 milhões, então, sim, ele nada podia fazer e até oferecia um euro de desconto. O Sr. Moratti ouviu e sorriu. Cruzou os braços e ficou à espera… deixando que Mourinho se fosse enervando, convencido que não ia ter aquele a quem há tempos chamava um fiteiro (quando levou porrada de criar bicho do Essien, num FC Porto-Chelsea), e deixando que o «negociador implacável» Pinto da Costa fosse dando crescentes sinais de impaciência e maleabilidade. E, quando o presidente portista apareceu a dizer ao «Corriére de la Sera» que estava à espera de uma proposta do Inter (e não já do pagamento da cláusula de rescisão), e quando, sobretudo, percebeu que a vontade da SAD portista de vender Quaresma era tanta que nem contra Benfica e Sporting arriscavam pô-lo a jogar, não fosse ele magoar-se e estragar o negócio, quando perceberem que o clube não se importava sequer de assumir uma posição de vassalagem perante os italianos, preferindo perder títulos a perder a opurtunidade de venda, então o Sr. Moratti transformou o seu sorriso num rasgado riso de predador e foi mandando uns recados que o Quaresma não fazia muita falta, talvez pudesse interessar, mas não por aqueles preços. E, como a proposta do Inter não chegava pelas vias normais, a direcção da SAD portista encarregou-se ela de ir soprando as suas proposta, em forma de recado, à comunicação social. E as propostas, como o Sr. Moratti sempre soube, eram cada vez mais desesperadas e baratas: primeiro, ele que esquecesse os 40 milhões — tinha sido uma figura de estilo, por assim dizer; depois, ele que tomasse nota então do preço do FC Porto: 30 milhões mais o Pélé; bom, vá lá, esqueçam o Pélé, é só os 30 milhões; OK, 25 mais o Pélé e daqui não descemos. Nesta altura do campeonato, um bom golpe de audácia negocial teria sido meter o Quaresma a jogar na Luz: ter-se-ia feito saber ao Sr. Moratti que desta vez era a sério, 25 milhões ou nada — além de que, pormenor, se teria ganho tranquilamente o jogo. Mas, não, nesta altura a direcção do FC Porto já estava tão desesperada que se o Inter os mandasse dançar o tango, eles teriam dançado. E, assim, na véspera de acabar o prazo de transferências, o Sr. Moratti dignou-se finalmente fazer chegar uma proposta formal ao Dragão: 18 milhões e o Pélé. E lá foi o Quaresma, por menos de metade do preço que Pinto da Costa tinha jurado que não vendia. Chapeau, Sr. Moratti!
Quanto a Pinto da Costa, é de esperar que tenha aprendido com este triste negócio, verdadeiramente ruinoso para o património do clube. Já que, por razões que me escapam, é absolutamente necessário comprar uma dúzia de jogadores todos os anos, dos quais, no máximo, só um ou dois são aproveitados, ao menos que não ponha o carro à frente dos bois: mande vir o contentor sul-americano só depois de ter assegurado o dinheiro para o pagar, para depois não acontecer ter de vender ao desbarato as pratas da casa. E nunca mais conte com o ovo no cú da galinha, para não ser obrigado a engolir solenes promessas feitas, olhos nos olhos, à nação portista.
Quanto a si, Ricardo Quaresma, olhe…auguri! Ouvi-o comentar, já em Itália, que lá «la vita é bella!». Pois é, mas não se engane. Em Milão trabalha-se no duro, muito mais do que aqui, e é por isso que os jogadores se mantêm em forma até aos 35 anos ou mais. E, ao contrário daqui, não conte nem como uma imprensa desportiva branda nem com adeptos aos seus pés. Tudo lhe será cobrado, sem contemplações.
2- Por falar em vedetas e trabalho no duro, confesso que fiquei estarrecido com o início de época do Benfica. A acreditar na imprensa, estava ali uma equipa do outro mundo e um treinador de fina água. Vedetas e mais vedetas, já nem se percebia onde encaixar tantas simultâneamente. Depois, começei por verificar que, aqui mesmo, na «Bola», dois colunistas benfiquistas já estavam a atacar o árbitro do primeiro jogo, ainda nem o campeonato tinha começado. A seguir, veio aquele mais que sofrido jogo em Vila do Conde, onde logo ficaram dois pontos, e depois veio o Benfica-Porto, em que não foi preciso esperar nem cinco minutos para perceber que o grande argumento encarnado para a vitória iria ser a pressão do público sobre o árbitro. E, enfim, veio o próprio jogo, que mostrou uma equipa de vedetas absolutamente banal, para não dizer medíocre, e o mais acessível Benfica que o F.C.Porto encontrou nos últimos anos. Só não ganhámos porque o Helton não se dispensou de oferecer o golo que sempre oferece nos jogos importantes (até quando, Jesualdo Ferreira?), e porque nos últimos vinte minutos praticamente não houve hipóteses de jogar futebol, porque de minuto a minuto tinha que se interromper para assistir um jogador do Benfica caído no chão com roturas musculares ou caimbras. Não tenho nada a ver com o assunto, que é do foro interno do clube e certamente delicado, mas lá que não me lembro de ver coisa assim, isso não.
3- Contaram-me que o estimável Octávio Machado diz que escreveu um «livro». Nada de extraordinário: a Dª Carolina Salgado também se intitula «escritora» e hoje sabemos que para escrever um livro nem é preciso saber falar, quanto mais escrever. Contaram-me também que o homem me reserva lá umas passagens de homenagem, o que também é mais do que compreensível, considerando que, mal soube que Pinto da Costa tinha tido a peregrina ideia de o fazer treinador do FC Porto, eu o classifiquei como um simples «sargento de balneário» e logo previ o desastre, sem sequer esperar para ver. Agora, posso dizer que prevejo para a sua carreira de escritor o mesmo êxito que teve na sua carreira de treinador.