1- E lá se foi, então, o Ricardo Quaresma para Milão. Satisfazendo os desejos irreprimíveis de tanta gente que mal disfarçava a sua ansiedade, Pinto da Costa consumou a mais desejada aquisição de Benfica e Sporting.
Aliás, antes ainda de consumar a venda, já lhes tinha feito a vontade, mandando que Quaresma ficasse de fora dos jogos de início de época contra os rivais de Lisboa. E o resultado viu-se: derrota contra o Sporting e perda da Supertaça; empate a saber a derrota contra o Benfica e perda da oportuidade de liquidar logo aí as esperanças encarnadas no campeonato.
O negócio era mais do que previsível, pois, como aqui tenho escrito bastas vezes, é necessário vender todas as épocas as jóias da coroa para poder compensar o dinheiro gasto em legiões de sul-americanos e o consequente desbaratar de liquidez que representa manter alguns 50 ou 60 jogadores a jogarem, a maioria sob empréstimo, em várias bandeiras. Nem mesmo a fabulosa venda do Bosingwa por 20,5 milhões de euros foi suficiente para assegurar a cobertura de mais um ano de gastos sumptuários e sem justificação. Era preciso vender outro e foi o Quaresma. Para o ano vai ser o Lucho mais o Lisandro ou o Bruno Alves — em troca de mais um saco de Renterias, Mareques, Tomás Costa, Bolattis, Marianos ou Guarins.
Mas se o negócio era previsível, o que já não era previsível, nem aceitável era a pechincha pela qual Quaresma foi oferecido ao Inter. Se ignorarmos a esperteza saloia de fingir que o Pélé vale oito vezes mais do que valia como perfeito desconhecido há um ano atrás e que a sua vinda para um lugar onde já existem quatro outros fregueses é utilíssima, a verdade, nua e crua, é que o Sr. Moratti levou o Quaresma por 18 milhões de euros- um autêntico «affarone», como se diz por lá. E se juntarmos aquilo que o Quaresma custou no negócio que envolveu a venda do Deco ao Barcelona, mais a taxa de inflação acumulada nestes quatro anos, mais os ordenados e prémios de jogo recebidos pelo jogador, mais a percentagem a pagar ao Sporting pela sua venda agora, fácilmente se chega à conclusão de que o FC Porto, contas feitas, não ganhou um tostão com a venda do Quaresma. É claro que ganhou, entretanto, muitos êxitos desportivos graças à contribuição tantas vezes decisiva do «ciganito», e ganhou as receitas das vendas de produtos associados à imagem de Ricardo Quaresma. Mas isso agora acabou (ou alguém imagina uma corrida à compra de camisolas do Mariano González?) — o que torna o negócio ainda mais desastroso.
Devem ter dito ao Sr. Moratti que Pinto da Costa era um terrível negociador. Devem-lhe ter dito também que o presidente do FC Porto tinha prometido solenemente a todos os portistas que não queria vender o Quaresma, mas que, se alguém bancasse a cláusula de rescisão, que era de 40 milhões, então, sim, ele nada podia fazer e até oferecia um euro de desconto. O Sr. Moratti ouviu e sorriu. Cruzou os braços e ficou à espera… deixando que Mourinho se fosse enervando, convencido que não ia ter aquele a quem há tempos chamava um fiteiro (quando levou porrada de criar bicho do Essien, num FC Porto-Chelsea), e deixando que o «negociador implacável» Pinto da Costa fosse dando crescentes sinais de impaciência e maleabilidade. E, quando o presidente portista apareceu a dizer ao «Corriére de la Sera» que estava à espera de uma proposta do Inter (e não já do pagamento da cláusula de rescisão), e quando, sobretudo, percebeu que a vontade da SAD portista de vender Quaresma era tanta que nem contra Benfica e Sporting arriscavam pô-lo a jogar, não fosse ele magoar-se e estragar o negócio, quando perceberem que o clube não se importava sequer de assumir uma posição de vassalagem perante os italianos, preferindo perder títulos a perder a opurtunidade de venda, então o Sr. Moratti transformou o seu sorriso num rasgado riso de predador e foi mandando uns recados que o Quaresma não fazia muita falta, talvez pudesse interessar, mas não por aqueles preços. E, como a proposta do Inter não chegava pelas vias normais, a direcção da SAD portista encarregou-se ela de ir soprando as suas proposta, em forma de recado, à comunicação social. E as propostas, como o Sr. Moratti sempre soube, eram cada vez mais desesperadas e baratas: primeiro, ele que esquecesse os 40 milhões — tinha sido uma figura de estilo, por assim dizer; depois, ele que tomasse nota então do preço do FC Porto: 30 milhões mais o Pélé; bom, vá lá, esqueçam o Pélé, é só os 30 milhões; OK, 25 mais o Pélé e daqui não descemos. Nesta altura do campeonato, um bom golpe de audácia negocial teria sido meter o Quaresma a jogar na Luz: ter-se-ia feito saber ao Sr. Moratti que desta vez era a sério, 25 milhões ou nada — além de que, pormenor, se teria ganho tranquilamente o jogo. Mas, não, nesta altura a direcção do FC Porto já estava tão desesperada que se o Inter os mandasse dançar o tango, eles teriam dançado. E, assim, na véspera de acabar o prazo de transferências, o Sr. Moratti dignou-se finalmente fazer chegar uma proposta formal ao Dragão: 18 milhões e o Pélé. E lá foi o Quaresma, por menos de metade do preço que Pinto da Costa tinha jurado que não vendia. Chapeau, Sr. Moratti!
Quanto a Pinto da Costa, é de esperar que tenha aprendido com este triste negócio, verdadeiramente ruinoso para o património do clube. Já que, por razões que me escapam, é absolutamente necessário comprar uma dúzia de jogadores todos os anos, dos quais, no máximo, só um ou dois são aproveitados, ao menos que não ponha o carro à frente dos bois: mande vir o contentor sul-americano só depois de ter assegurado o dinheiro para o pagar, para depois não acontecer ter de vender ao desbarato as pratas da casa. E nunca mais conte com o ovo no cú da galinha, para não ser obrigado a engolir solenes promessas feitas, olhos nos olhos, à nação portista.
Quanto a si, Ricardo Quaresma, olhe…auguri! Ouvi-o comentar, já em Itália, que lá «la vita é bella!». Pois é, mas não se engane. Em Milão trabalha-se no duro, muito mais do que aqui, e é por isso que os jogadores se mantêm em forma até aos 35 anos ou mais. E, ao contrário daqui, não conte nem como uma imprensa desportiva branda nem com adeptos aos seus pés. Tudo lhe será cobrado, sem contemplações.
2- Por falar em vedetas e trabalho no duro, confesso que fiquei estarrecido com o início de época do Benfica. A acreditar na imprensa, estava ali uma equipa do outro mundo e um treinador de fina água. Vedetas e mais vedetas, já nem se percebia onde encaixar tantas simultâneamente. Depois, começei por verificar que, aqui mesmo, na «Bola», dois colunistas benfiquistas já estavam a atacar o árbitro do primeiro jogo, ainda nem o campeonato tinha começado. A seguir, veio aquele mais que sofrido jogo em Vila do Conde, onde logo ficaram dois pontos, e depois veio o Benfica-Porto, em que não foi preciso esperar nem cinco minutos para perceber que o grande argumento encarnado para a vitória iria ser a pressão do público sobre o árbitro. E, enfim, veio o próprio jogo, que mostrou uma equipa de vedetas absolutamente banal, para não dizer medíocre, e o mais acessível Benfica que o F.C.Porto encontrou nos últimos anos. Só não ganhámos porque o Helton não se dispensou de oferecer o golo que sempre oferece nos jogos importantes (até quando, Jesualdo Ferreira?), e porque nos últimos vinte minutos praticamente não houve hipóteses de jogar futebol, porque de minuto a minuto tinha que se interromper para assistir um jogador do Benfica caído no chão com roturas musculares ou caimbras. Não tenho nada a ver com o assunto, que é do foro interno do clube e certamente delicado, mas lá que não me lembro de ver coisa assim, isso não.
3- Contaram-me que o estimável Octávio Machado diz que escreveu um «livro». Nada de extraordinário: a Dª Carolina Salgado também se intitula «escritora» e hoje sabemos que para escrever um livro nem é preciso saber falar, quanto mais escrever. Contaram-me também que o homem me reserva lá umas passagens de homenagem, o que também é mais do que compreensível, considerando que, mal soube que Pinto da Costa tinha tido a peregrina ideia de o fazer treinador do FC Porto, eu o classifiquei como um simples «sargento de balneário» e logo previ o desastre, sem sequer esperar para ver. Agora, posso dizer que prevejo para a sua carreira de escritor o mesmo êxito que teve na sua carreira de treinador.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
domingo, setembro 28, 2008
terça-feira, agosto 26, 2008
O FANTASMA DE RICARDO QUARESMA (12 AGOSTO 2008)
1 - A novela Cristiano Ronaldo/Real Madrid já está resolvida; a novela João Moutinho/Everton também; a novela Miguel Veloso/Qualquer coisa idem aspas: só resta a novela Ricardo Quaresma/Inter. E esta novela já dura há demasiado tempo e começa a ter contornos muito pouco dignos para o FC Porto.
Afinal de contas e até ver, é o FC Porto que continua a pagar o ordenado de Ricardo Quaresma e presumo que não seja pouco. Mas, nos sete jogos de preparação até agora realizados, Quaresma só entrou em campo uma vez e para jogar 29 minutos. Segundo consta, os adeptos que tiveram ocasião de assistir ao treino aberto que Jesualdo Ferreira fez quinta-feira passada foram os raros que voltaram a ter ocasião de se deliciar com os pormenores só ao alcance do 7 portista: cruzamentos de letra e de trivela, fintas estonteantes, toques de calcanhar ao gosto da plateia, etc. Foi uma espécie de tratamento masoquista que o clube lhes deu: «É bom, não é? Mas não pode jogar!».
Ricardo Quaresma está na montra há mês e meio, à espera que alguém o compre. Todo o planeamento financeiro da próxima época está baseado nisso: é o que consta do orçamento em vigor e é o que se infere das dez aquisições feitas por conta do dinheiro que há-de entrar com a venda de Quaresma. Infelizmente, porém, Moratti, o presidente do Inter, não anda a dormir na fila: ele sabe que o FC Porto precisa desesperadamente de vender o Quaresma e está tranquilamente à espera até 31 de Agosto que essa necessidade faça baixar o preço até ao valor de saldo que o Inter pretende pagar. O tempo joga a favor do Inter e contra o FC Porto. Ao Corriere dello Sport, Pinto da Costa foi explicito, quase suplicante: «Apresentem lá uma proposta pelo homem!». Mas Moratti continua tranquilamente à espera. Vai apresentar uma proposta, sim, mas só nos últimos dias antes de acabar o prazo e sabe que, nessa altura, fará engolir ao presidente portista a sua promessa de que só venderia Quaresma pelo valor da cláusula de rescisão - quarenta milhões -, menos um euro. A única coisa que poderá baralhar os planos do milanês é a eventual entrada em cena do Real Madrid. Mas está por provar que isso não seja uma notícia colocada pelo empresário ou pelos serviços de contra-espionagem do FC Porto, para ver se assustam o Inter.
E, enquanto este jogo de bluff contínua, o FC Porto mantém Quaresma ausente dos jogos, embora lhe continue a pagar o ordenado. Não é a primeira vez que Jesualdo Ferreira é obrigado pela Direcção a engolir um sapo destes: sucedeu o mesmo na final da Taça, quando Bosingwa, já apalavrado ao Chelsea, foi impedido de jogar, não se fosse lesionar antes do contrato estar assinado. O mesmo Bosingwa que depois jogou o Euro pela Selecção, foi impedido de jogar a decisão de um troféu pelo próprio clube que lhe pagou o ordenado até 31 de Julho. Uma demonstração de vassalagem e submissão ao Chelsea que eu, pelo menos, achei indigna de um grande clube.
A mesma história se repete agora com Ricardo Quaresma, impedido por ordens superiores de jogar, não vá lesionar-se e estragar o negócio pressentido. Quaresma transformou-se assim num fantasma: é do FC Porto, mas não é; pode ser visto em treinos, mas não em jogos; está às ordens de Jesualdo, mas só em alguns casos. Será que se chegará ao desplante de também não o utilizar no jogo da Supertaça porque o Inter ainda não se decidiu até lá e é preciso continuar a mantê-lo numa redoma de vidro, numa montra ao alcance dos passantes que andem à procura de um génio da bola? Será que a indignidade da situação chegará ainda ao ponto de limitar voluntariamente as forças próprias, correndo o risco de perder mais um troféu para não melindrar o sr. Moratti?
E, sem poder dispor de Quaresma, Jesualdo lá vai tentando matar caça com o seu tão estimado quanto mal-agradecido Mariano González. Ah, o que não faria este FC Porto com um trio de ataque formado por Quaresma, Lisandro, Rodriguéz! Ou então, melhor ainda, Rodriguéz recuado no meio-campo, ao lado de Meireles e Lucho, e na frente o trio Quaresma, Hulk, Lisandro? Sim, porque nem Guárin, nem Tomás Costa, nem Bolatti, nem Fernando, dão garantias de fechar um trio de respeito no meio-campo e basta que Lucho fique episodicamente fora de combate e tudo aquilo emperra - viu-se bem na segunda parte contra a Lazio.
2 - A notícia da penhora do estádio do Bessa não pode surpreender aqueles que têm obrigação de andar bem informados. O Boavista fez dois acordos de pagamento de dívidas ao Fisco e não cumpriu nenhum. Numa situação destas, qualquer contribuinte estaria penhorado há muito. O facto de o Boavista ter conseguido terceiro acordo junto do Ministério da Economia só pode, de facto, resultar de tráfico de influências político. E isso é uma forma de concorrência desleal. Digo-o com o mesmo descomprometimento com que a semana passada aqui disse que a despromoção disciplinar do Boavista à segunda Liga não era capaz de convencer ninguém da sua justiça. Uma coisa é isso, outra é a manutenção artificial na primeira Liga de um clube que deve dinheiro a tudo e a todos e que salta à vista que jamais conseguirá pagar as suas dívidas por meios normais. E digo-o da mesma forma que digo que outro clube histórico e que pessoalmente sempre apreciei, que é o Vitória de Setúbal, só tem viabilidade económica conjuntural através de uma manobra politica que consiste na aprovação do Plano Urbanístico do Vale da Rosa, que é uma vergonha pública em termos de politica ambiental e de ordenamento territorial.
Infelizmente, também no futebol como no resto, crescemos mal e desordenadamente e, por isso, a triste verdade é que não há mais de uma dúzia de clubes autosustentáveis e a lutarem no primeiro escalão, no país todo. Clubes que fazem parte da história do futebol em Portugal - como o Boavista, o Vitória de Setúbal, o Belenenses, a Académica, o Beira-Mar ou o União de Leiria, por exemplo - não têm a mais pequena viabilidade económica a curto, médio ou longo prazo. Não têm adeptos, não têm receitas, não têm mecenas: todos eles dependem de favores políticos e operações imobiliárias de favor com as respectivas Câmaras Municipais. O resto é ficção e nem sequer piedosa.
Se houvesse juízo, teríamos uma primeira Liga com doze clubes e uma segunda Liga com clubes semi-amadores. Mas quem ocuparia depois os dirigentes de todas as associações distritais e os empreiteiros locais que querem ser famosos?
Afinal de contas e até ver, é o FC Porto que continua a pagar o ordenado de Ricardo Quaresma e presumo que não seja pouco. Mas, nos sete jogos de preparação até agora realizados, Quaresma só entrou em campo uma vez e para jogar 29 minutos. Segundo consta, os adeptos que tiveram ocasião de assistir ao treino aberto que Jesualdo Ferreira fez quinta-feira passada foram os raros que voltaram a ter ocasião de se deliciar com os pormenores só ao alcance do 7 portista: cruzamentos de letra e de trivela, fintas estonteantes, toques de calcanhar ao gosto da plateia, etc. Foi uma espécie de tratamento masoquista que o clube lhes deu: «É bom, não é? Mas não pode jogar!».
Ricardo Quaresma está na montra há mês e meio, à espera que alguém o compre. Todo o planeamento financeiro da próxima época está baseado nisso: é o que consta do orçamento em vigor e é o que se infere das dez aquisições feitas por conta do dinheiro que há-de entrar com a venda de Quaresma. Infelizmente, porém, Moratti, o presidente do Inter, não anda a dormir na fila: ele sabe que o FC Porto precisa desesperadamente de vender o Quaresma e está tranquilamente à espera até 31 de Agosto que essa necessidade faça baixar o preço até ao valor de saldo que o Inter pretende pagar. O tempo joga a favor do Inter e contra o FC Porto. Ao Corriere dello Sport, Pinto da Costa foi explicito, quase suplicante: «Apresentem lá uma proposta pelo homem!». Mas Moratti continua tranquilamente à espera. Vai apresentar uma proposta, sim, mas só nos últimos dias antes de acabar o prazo e sabe que, nessa altura, fará engolir ao presidente portista a sua promessa de que só venderia Quaresma pelo valor da cláusula de rescisão - quarenta milhões -, menos um euro. A única coisa que poderá baralhar os planos do milanês é a eventual entrada em cena do Real Madrid. Mas está por provar que isso não seja uma notícia colocada pelo empresário ou pelos serviços de contra-espionagem do FC Porto, para ver se assustam o Inter.
E, enquanto este jogo de bluff contínua, o FC Porto mantém Quaresma ausente dos jogos, embora lhe continue a pagar o ordenado. Não é a primeira vez que Jesualdo Ferreira é obrigado pela Direcção a engolir um sapo destes: sucedeu o mesmo na final da Taça, quando Bosingwa, já apalavrado ao Chelsea, foi impedido de jogar, não se fosse lesionar antes do contrato estar assinado. O mesmo Bosingwa que depois jogou o Euro pela Selecção, foi impedido de jogar a decisão de um troféu pelo próprio clube que lhe pagou o ordenado até 31 de Julho. Uma demonstração de vassalagem e submissão ao Chelsea que eu, pelo menos, achei indigna de um grande clube.
A mesma história se repete agora com Ricardo Quaresma, impedido por ordens superiores de jogar, não vá lesionar-se e estragar o negócio pressentido. Quaresma transformou-se assim num fantasma: é do FC Porto, mas não é; pode ser visto em treinos, mas não em jogos; está às ordens de Jesualdo, mas só em alguns casos. Será que se chegará ao desplante de também não o utilizar no jogo da Supertaça porque o Inter ainda não se decidiu até lá e é preciso continuar a mantê-lo numa redoma de vidro, numa montra ao alcance dos passantes que andem à procura de um génio da bola? Será que a indignidade da situação chegará ainda ao ponto de limitar voluntariamente as forças próprias, correndo o risco de perder mais um troféu para não melindrar o sr. Moratti?
E, sem poder dispor de Quaresma, Jesualdo lá vai tentando matar caça com o seu tão estimado quanto mal-agradecido Mariano González. Ah, o que não faria este FC Porto com um trio de ataque formado por Quaresma, Lisandro, Rodriguéz! Ou então, melhor ainda, Rodriguéz recuado no meio-campo, ao lado de Meireles e Lucho, e na frente o trio Quaresma, Hulk, Lisandro? Sim, porque nem Guárin, nem Tomás Costa, nem Bolatti, nem Fernando, dão garantias de fechar um trio de respeito no meio-campo e basta que Lucho fique episodicamente fora de combate e tudo aquilo emperra - viu-se bem na segunda parte contra a Lazio.
2 - A notícia da penhora do estádio do Bessa não pode surpreender aqueles que têm obrigação de andar bem informados. O Boavista fez dois acordos de pagamento de dívidas ao Fisco e não cumpriu nenhum. Numa situação destas, qualquer contribuinte estaria penhorado há muito. O facto de o Boavista ter conseguido terceiro acordo junto do Ministério da Economia só pode, de facto, resultar de tráfico de influências político. E isso é uma forma de concorrência desleal. Digo-o com o mesmo descomprometimento com que a semana passada aqui disse que a despromoção disciplinar do Boavista à segunda Liga não era capaz de convencer ninguém da sua justiça. Uma coisa é isso, outra é a manutenção artificial na primeira Liga de um clube que deve dinheiro a tudo e a todos e que salta à vista que jamais conseguirá pagar as suas dívidas por meios normais. E digo-o da mesma forma que digo que outro clube histórico e que pessoalmente sempre apreciei, que é o Vitória de Setúbal, só tem viabilidade económica conjuntural através de uma manobra politica que consiste na aprovação do Plano Urbanístico do Vale da Rosa, que é uma vergonha pública em termos de politica ambiental e de ordenamento territorial.
Infelizmente, também no futebol como no resto, crescemos mal e desordenadamente e, por isso, a triste verdade é que não há mais de uma dúzia de clubes autosustentáveis e a lutarem no primeiro escalão, no país todo. Clubes que fazem parte da história do futebol em Portugal - como o Boavista, o Vitória de Setúbal, o Belenenses, a Académica, o Beira-Mar ou o União de Leiria, por exemplo - não têm a mais pequena viabilidade económica a curto, médio ou longo prazo. Não têm adeptos, não têm receitas, não têm mecenas: todos eles dependem de favores políticos e operações imobiliárias de favor com as respectivas Câmaras Municipais. O resto é ficção e nem sequer piedosa.
Se houvesse juízo, teríamos uma primeira Liga com doze clubes e uma segunda Liga com clubes semi-amadores. Mas quem ocuparia depois os dirigentes de todas as associações distritais e os empreiteiros locais que querem ser famosos?
quinta-feira, agosto 14, 2008
PRIMEIRAS IMPRESSÕES (05 AGOSTO 2008)
1- Na noite de ontem (já depois do envio deste texto), Benfica e Vitória de Guimarães jogaram para o tal «Troféu Platini», cuja conquista permitirá a qualquer dos clubes minorar um pouco as frustrações desta pré-época, marcada por resultados e exibições que, sobretudo no caso do Benfica, deixaram muito a desejar, mas sobretudo pela amarga derrota das pretensões jurídicas na UEFA. Para quem tenha visto o jogo, em casa ou na televisão, não pode ter deixado de vir ao espírito a ideia de que se tratava de uma espécie de jogo de consolação entre dois emblemas que tudo tentaram para entrar pela porta do cavalo numa competição onde se entra pelas provas dadas em campo. Mas o Vitória acabou por ter o favor dos deuses consigo: depois de ter continuado a insistir até ao dia do sorteio (e até que a UEFA lhe dissesse para parar de mandar requerimentos), acabou por ver o sorteio reservar-lhe um modesto adversário, a sair da dupla IFK Gotemburgo-Basileia. Melhor era impossível e, se nem assim o Vitória conseguir franquear a porta da Champions, mais expostas e imperdoáveis ficam as razões que o levaram à pouca digna batalha jurídica perdida na UEFA.
Já o Benfica, consumido pela eterna questão do «vem - não vem», agora aplicada à novela Luis Garcia, bem precisa de um troféuzinho para fazer companhia aos rivais Sporting (Guadiana) e FC Porto (Braga) e, mais do que isso, para sacudir a onda de descrença que a olho nu já se vai espalhando entre os seus adeptos e dar a Quique Flores aquilo de que ele mais precisa e que é o luxo mais raro por aquelas bandas: tempo. Tempo para fazer uma equipa e tempo para a pôr a jogar.
À frente na preparação, seguem claramente o Sporting e o FC Porto, embora ambos também condicionados pela novela de sinal contrário « vai - não vai». Pelo que se percebeu, nenhum deles desdenharia vender, quer Veloso e Moutinho, quer Quaresma. O drama é justamente que, quando se mostra vontade e necessidade de vender, o comprador baixa o preço e faz chantagem. E, entre o desastre de vender mal ou a opção de não vender e ficar com jogadores de má cara, é difícil encontrar o ponto de equilíbrio. Mais difícil ainda é estar a formar as equipas e a afinar o modelo de jogo sem se saber se até 31 de Agosto a equipa é a que está ou está desfalcada de um ou dois jogadores preponderantes.
Se me é permitida uma opinião neste mercado de milhões, acho bem mais complicado o FC Porto substituir o Quaresma do que o Sporting passar sem o Moutinho e o Veloso. E, dos valores que se vêm falando, resulta que o grande forreta da história é o Inter, quando pensa levar o Quaresma por 20 ou 25 milhões. Pinto da Costa também deve pensar o mesmo e, como se infere das suas declarações ao Corriere dello Sport, ele não compreende como é que Mourinho ainda não foi capaz de explicar aos dirigentes do Inter que o Quaresma é um desequilibrador raríssimo, um talento que pode ainda ser bastante melhorado e que vale bem 40 milhões.
Mas também se percebeu dessas declarações que está ansioso por o vender, o que nada me admira: com dez aquisições já feitas esta época, é evidente que faltam milhões na casa. É a tal politica negocial dos portistas que eu sempre critiquei, mas que parece não conhecer outra alternativa, lá pelo Dragão.
2- Quem me lê noutro lado, sabe que nunca tive grande respeito pelos «pareceres» dos mestres de direito, alguns dos quais foram meus professores na faculdade. Dar pareceres é um modo de ganhar a vida, legítimo como outro qualquer, mas de há muito que perdeu aquele aura de respeitabilidade que dantes tinha. E pela simples razão de que os mestres dão pareceres em tudo conforme aos interesses de quem lhos paga. Não é raro, aliás, encontrar, sobre a mesma questão, dois pareceres radicalmente opostos, assinados… pelo mesmo mestre. O parecer tão badalado do Prof. Freitas do Amaral vale, por isso e para mim, exactamente o que vale e que é pouco. Vale o mesmo, por exemplo, que o parecer oral e gratuito que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa deu sobre a mesma questão na RTP. Onde Freitas viu malfeitorias apenas do lado de uma facção do Conselho de Justiça, Marcelo viu-as sobretudo do lado oposto.
Mas, aparentemente e como aqui escreveu o Rui Moreira, o parecer de Freitas do Amaral foi tido pela FPF como lei e sentença. E acabou por ser ele parte decisiva da sentença que condenou o Boavista à segunda divisão e, a prazo, talvez mesmo à extinção. É isso que ficará para a história.
Mas, dentro de alguns anos - talvez já mesmo agora - quando alguém perguntar porque razão foi o Boavista despromovido à segunda divisão, ninguém lhe saberá responder. Há-de ter sido por um facto muito grave, mas o quê, ao certo? Comprou adversários, comprou árbitros? Não: estão em causa, aliás, três jogos, dos quais o Boavista empatou um e perdeu dois. O que foi então? «Coação», responderá alguém mais entendido e com melhor memória. Mas o que é isso de coação? Pode ser tudo o que se quiser e o que não se quiser: no entendimento lato do CD da Liga, coação pode ser, por exemplo, um dirigente de um clube passar pelo árbitro no intervalo de um jogo e dizer-lhe «veja lá o que anda a fazer!». Basta que o árbitro escreva isto no boletim do jogo e, segundo o critério do CD, estando os conselheiros para aí virados, o clube a que pertence o dirigente pode acabar despromovido.
Eu nunca fui à bola com o estilo Valentim Loureiro, por razões que estão à vista de todos. Mas não deixo de achar o cúmulo da hipocrisia que aqueles que puseram o major na Liga, exactamente para poderem utilizar o seu poder de influência e coação, venham depois condenar o Boavista, se calhar até assentar-lhe um golpe mortal, porque o major ou o filho fizeram aquilo que deles se esperava. E quem nunca quis coagir um árbitro ou os dirigentes da Liga, quem nunca falou de arbitragens antes dos jogos, quem nunca protagonizou cenas eventualmente condenáveis nos túneis dos estádios, que lance a primeira pedra.
Que as coisas precisavam de ser moralizadas, estamos todos de acordo. Que esta geração e este estilo de dirigentes do futebol português precisavam urgentemente de passar ao museu, é pacífico. Que se tenha escolhido exemplos à lá carte - Boavista e FC Porto - para encetar a dita «moralização», isso é o que todos sabem também que não passa de uma hipocrisia e reflecte apenas o prolongamento para o terreno da mal chamada justiça das guerras clubisticas que se deveriam limitar ao terreno de jogo. Se o major combina o árbitro de um jogo com um presidente de um clube qualquer, o major é condenado por coação; se combina com o presidente do FC Porto, são ambos condenados; mas se combina com o presidente do Benfica, o processo é mandado arquivar, sem culpados. Bela justiça!
Já o Benfica, consumido pela eterna questão do «vem - não vem», agora aplicada à novela Luis Garcia, bem precisa de um troféuzinho para fazer companhia aos rivais Sporting (Guadiana) e FC Porto (Braga) e, mais do que isso, para sacudir a onda de descrença que a olho nu já se vai espalhando entre os seus adeptos e dar a Quique Flores aquilo de que ele mais precisa e que é o luxo mais raro por aquelas bandas: tempo. Tempo para fazer uma equipa e tempo para a pôr a jogar.
À frente na preparação, seguem claramente o Sporting e o FC Porto, embora ambos também condicionados pela novela de sinal contrário « vai - não vai». Pelo que se percebeu, nenhum deles desdenharia vender, quer Veloso e Moutinho, quer Quaresma. O drama é justamente que, quando se mostra vontade e necessidade de vender, o comprador baixa o preço e faz chantagem. E, entre o desastre de vender mal ou a opção de não vender e ficar com jogadores de má cara, é difícil encontrar o ponto de equilíbrio. Mais difícil ainda é estar a formar as equipas e a afinar o modelo de jogo sem se saber se até 31 de Agosto a equipa é a que está ou está desfalcada de um ou dois jogadores preponderantes.
Se me é permitida uma opinião neste mercado de milhões, acho bem mais complicado o FC Porto substituir o Quaresma do que o Sporting passar sem o Moutinho e o Veloso. E, dos valores que se vêm falando, resulta que o grande forreta da história é o Inter, quando pensa levar o Quaresma por 20 ou 25 milhões. Pinto da Costa também deve pensar o mesmo e, como se infere das suas declarações ao Corriere dello Sport, ele não compreende como é que Mourinho ainda não foi capaz de explicar aos dirigentes do Inter que o Quaresma é um desequilibrador raríssimo, um talento que pode ainda ser bastante melhorado e que vale bem 40 milhões.
Mas também se percebeu dessas declarações que está ansioso por o vender, o que nada me admira: com dez aquisições já feitas esta época, é evidente que faltam milhões na casa. É a tal politica negocial dos portistas que eu sempre critiquei, mas que parece não conhecer outra alternativa, lá pelo Dragão.
2- Quem me lê noutro lado, sabe que nunca tive grande respeito pelos «pareceres» dos mestres de direito, alguns dos quais foram meus professores na faculdade. Dar pareceres é um modo de ganhar a vida, legítimo como outro qualquer, mas de há muito que perdeu aquele aura de respeitabilidade que dantes tinha. E pela simples razão de que os mestres dão pareceres em tudo conforme aos interesses de quem lhos paga. Não é raro, aliás, encontrar, sobre a mesma questão, dois pareceres radicalmente opostos, assinados… pelo mesmo mestre. O parecer tão badalado do Prof. Freitas do Amaral vale, por isso e para mim, exactamente o que vale e que é pouco. Vale o mesmo, por exemplo, que o parecer oral e gratuito que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa deu sobre a mesma questão na RTP. Onde Freitas viu malfeitorias apenas do lado de uma facção do Conselho de Justiça, Marcelo viu-as sobretudo do lado oposto.
Mas, aparentemente e como aqui escreveu o Rui Moreira, o parecer de Freitas do Amaral foi tido pela FPF como lei e sentença. E acabou por ser ele parte decisiva da sentença que condenou o Boavista à segunda divisão e, a prazo, talvez mesmo à extinção. É isso que ficará para a história.
Mas, dentro de alguns anos - talvez já mesmo agora - quando alguém perguntar porque razão foi o Boavista despromovido à segunda divisão, ninguém lhe saberá responder. Há-de ter sido por um facto muito grave, mas o quê, ao certo? Comprou adversários, comprou árbitros? Não: estão em causa, aliás, três jogos, dos quais o Boavista empatou um e perdeu dois. O que foi então? «Coação», responderá alguém mais entendido e com melhor memória. Mas o que é isso de coação? Pode ser tudo o que se quiser e o que não se quiser: no entendimento lato do CD da Liga, coação pode ser, por exemplo, um dirigente de um clube passar pelo árbitro no intervalo de um jogo e dizer-lhe «veja lá o que anda a fazer!». Basta que o árbitro escreva isto no boletim do jogo e, segundo o critério do CD, estando os conselheiros para aí virados, o clube a que pertence o dirigente pode acabar despromovido.
Eu nunca fui à bola com o estilo Valentim Loureiro, por razões que estão à vista de todos. Mas não deixo de achar o cúmulo da hipocrisia que aqueles que puseram o major na Liga, exactamente para poderem utilizar o seu poder de influência e coação, venham depois condenar o Boavista, se calhar até assentar-lhe um golpe mortal, porque o major ou o filho fizeram aquilo que deles se esperava. E quem nunca quis coagir um árbitro ou os dirigentes da Liga, quem nunca falou de arbitragens antes dos jogos, quem nunca protagonizou cenas eventualmente condenáveis nos túneis dos estádios, que lance a primeira pedra.
Que as coisas precisavam de ser moralizadas, estamos todos de acordo. Que esta geração e este estilo de dirigentes do futebol português precisavam urgentemente de passar ao museu, é pacífico. Que se tenha escolhido exemplos à lá carte - Boavista e FC Porto - para encetar a dita «moralização», isso é o que todos sabem também que não passa de uma hipocrisia e reflecte apenas o prolongamento para o terreno da mal chamada justiça das guerras clubisticas que se deveriam limitar ao terreno de jogo. Se o major combina o árbitro de um jogo com um presidente de um clube qualquer, o major é condenado por coação; se combina com o presidente do FC Porto, são ambos condenados; mas se combina com o presidente do Benfica, o processo é mandado arquivar, sem culpados. Bela justiça!