Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
terça-feira, agosto 26, 2008
O FANTASMA DE RICARDO QUARESMA (12 AGOSTO 2008)
1 - A novela Cristiano Ronaldo/Real Madrid já está resolvida; a novela João Moutinho/Everton também; a novela Miguel Veloso/Qualquer coisa idem aspas: só resta a novela Ricardo Quaresma/Inter. E esta novela já dura há demasiado tempo e começa a ter contornos muito pouco dignos para o FC Porto.
Afinal de contas e até ver, é o FC Porto que continua a pagar o ordenado de Ricardo Quaresma e presumo que não seja pouco. Mas, nos sete jogos de preparação até agora realizados, Quaresma só entrou em campo uma vez e para jogar 29 minutos. Segundo consta, os adeptos que tiveram ocasião de assistir ao treino aberto que Jesualdo Ferreira fez quinta-feira passada foram os raros que voltaram a ter ocasião de se deliciar com os pormenores só ao alcance do 7 portista: cruzamentos de letra e de trivela, fintas estonteantes, toques de calcanhar ao gosto da plateia, etc. Foi uma espécie de tratamento masoquista que o clube lhes deu: «É bom, não é? Mas não pode jogar!».
Ricardo Quaresma está na montra há mês e meio, à espera que alguém o compre. Todo o planeamento financeiro da próxima época está baseado nisso: é o que consta do orçamento em vigor e é o que se infere das dez aquisições feitas por conta do dinheiro que há-de entrar com a venda de Quaresma. Infelizmente, porém, Moratti, o presidente do Inter, não anda a dormir na fila: ele sabe que o FC Porto precisa desesperadamente de vender o Quaresma e está tranquilamente à espera até 31 de Agosto que essa necessidade faça baixar o preço até ao valor de saldo que o Inter pretende pagar. O tempo joga a favor do Inter e contra o FC Porto. Ao Corriere dello Sport, Pinto da Costa foi explicito, quase suplicante: «Apresentem lá uma proposta pelo homem!». Mas Moratti continua tranquilamente à espera. Vai apresentar uma proposta, sim, mas só nos últimos dias antes de acabar o prazo e sabe que, nessa altura, fará engolir ao presidente portista a sua promessa de que só venderia Quaresma pelo valor da cláusula de rescisão - quarenta milhões -, menos um euro. A única coisa que poderá baralhar os planos do milanês é a eventual entrada em cena do Real Madrid. Mas está por provar que isso não seja uma notícia colocada pelo empresário ou pelos serviços de contra-espionagem do FC Porto, para ver se assustam o Inter.
E, enquanto este jogo de bluff contínua, o FC Porto mantém Quaresma ausente dos jogos, embora lhe continue a pagar o ordenado. Não é a primeira vez que Jesualdo Ferreira é obrigado pela Direcção a engolir um sapo destes: sucedeu o mesmo na final da Taça, quando Bosingwa, já apalavrado ao Chelsea, foi impedido de jogar, não se fosse lesionar antes do contrato estar assinado. O mesmo Bosingwa que depois jogou o Euro pela Selecção, foi impedido de jogar a decisão de um troféu pelo próprio clube que lhe pagou o ordenado até 31 de Julho. Uma demonstração de vassalagem e submissão ao Chelsea que eu, pelo menos, achei indigna de um grande clube.
A mesma história se repete agora com Ricardo Quaresma, impedido por ordens superiores de jogar, não vá lesionar-se e estragar o negócio pressentido. Quaresma transformou-se assim num fantasma: é do FC Porto, mas não é; pode ser visto em treinos, mas não em jogos; está às ordens de Jesualdo, mas só em alguns casos. Será que se chegará ao desplante de também não o utilizar no jogo da Supertaça porque o Inter ainda não se decidiu até lá e é preciso continuar a mantê-lo numa redoma de vidro, numa montra ao alcance dos passantes que andem à procura de um génio da bola? Será que a indignidade da situação chegará ainda ao ponto de limitar voluntariamente as forças próprias, correndo o risco de perder mais um troféu para não melindrar o sr. Moratti?
E, sem poder dispor de Quaresma, Jesualdo lá vai tentando matar caça com o seu tão estimado quanto mal-agradecido Mariano González. Ah, o que não faria este FC Porto com um trio de ataque formado por Quaresma, Lisandro, Rodriguéz! Ou então, melhor ainda, Rodriguéz recuado no meio-campo, ao lado de Meireles e Lucho, e na frente o trio Quaresma, Hulk, Lisandro? Sim, porque nem Guárin, nem Tomás Costa, nem Bolatti, nem Fernando, dão garantias de fechar um trio de respeito no meio-campo e basta que Lucho fique episodicamente fora de combate e tudo aquilo emperra - viu-se bem na segunda parte contra a Lazio.
2 - A notícia da penhora do estádio do Bessa não pode surpreender aqueles que têm obrigação de andar bem informados. O Boavista fez dois acordos de pagamento de dívidas ao Fisco e não cumpriu nenhum. Numa situação destas, qualquer contribuinte estaria penhorado há muito. O facto de o Boavista ter conseguido terceiro acordo junto do Ministério da Economia só pode, de facto, resultar de tráfico de influências político. E isso é uma forma de concorrência desleal. Digo-o com o mesmo descomprometimento com que a semana passada aqui disse que a despromoção disciplinar do Boavista à segunda Liga não era capaz de convencer ninguém da sua justiça. Uma coisa é isso, outra é a manutenção artificial na primeira Liga de um clube que deve dinheiro a tudo e a todos e que salta à vista que jamais conseguirá pagar as suas dívidas por meios normais. E digo-o da mesma forma que digo que outro clube histórico e que pessoalmente sempre apreciei, que é o Vitória de Setúbal, só tem viabilidade económica conjuntural através de uma manobra politica que consiste na aprovação do Plano Urbanístico do Vale da Rosa, que é uma vergonha pública em termos de politica ambiental e de ordenamento territorial.
Infelizmente, também no futebol como no resto, crescemos mal e desordenadamente e, por isso, a triste verdade é que não há mais de uma dúzia de clubes autosustentáveis e a lutarem no primeiro escalão, no país todo. Clubes que fazem parte da história do futebol em Portugal - como o Boavista, o Vitória de Setúbal, o Belenenses, a Académica, o Beira-Mar ou o União de Leiria, por exemplo - não têm a mais pequena viabilidade económica a curto, médio ou longo prazo. Não têm adeptos, não têm receitas, não têm mecenas: todos eles dependem de favores políticos e operações imobiliárias de favor com as respectivas Câmaras Municipais. O resto é ficção e nem sequer piedosa.
Se houvesse juízo, teríamos uma primeira Liga com doze clubes e uma segunda Liga com clubes semi-amadores. Mas quem ocuparia depois os dirigentes de todas as associações distritais e os empreiteiros locais que querem ser famosos?
Afinal de contas e até ver, é o FC Porto que continua a pagar o ordenado de Ricardo Quaresma e presumo que não seja pouco. Mas, nos sete jogos de preparação até agora realizados, Quaresma só entrou em campo uma vez e para jogar 29 minutos. Segundo consta, os adeptos que tiveram ocasião de assistir ao treino aberto que Jesualdo Ferreira fez quinta-feira passada foram os raros que voltaram a ter ocasião de se deliciar com os pormenores só ao alcance do 7 portista: cruzamentos de letra e de trivela, fintas estonteantes, toques de calcanhar ao gosto da plateia, etc. Foi uma espécie de tratamento masoquista que o clube lhes deu: «É bom, não é? Mas não pode jogar!».
Ricardo Quaresma está na montra há mês e meio, à espera que alguém o compre. Todo o planeamento financeiro da próxima época está baseado nisso: é o que consta do orçamento em vigor e é o que se infere das dez aquisições feitas por conta do dinheiro que há-de entrar com a venda de Quaresma. Infelizmente, porém, Moratti, o presidente do Inter, não anda a dormir na fila: ele sabe que o FC Porto precisa desesperadamente de vender o Quaresma e está tranquilamente à espera até 31 de Agosto que essa necessidade faça baixar o preço até ao valor de saldo que o Inter pretende pagar. O tempo joga a favor do Inter e contra o FC Porto. Ao Corriere dello Sport, Pinto da Costa foi explicito, quase suplicante: «Apresentem lá uma proposta pelo homem!». Mas Moratti continua tranquilamente à espera. Vai apresentar uma proposta, sim, mas só nos últimos dias antes de acabar o prazo e sabe que, nessa altura, fará engolir ao presidente portista a sua promessa de que só venderia Quaresma pelo valor da cláusula de rescisão - quarenta milhões -, menos um euro. A única coisa que poderá baralhar os planos do milanês é a eventual entrada em cena do Real Madrid. Mas está por provar que isso não seja uma notícia colocada pelo empresário ou pelos serviços de contra-espionagem do FC Porto, para ver se assustam o Inter.
E, enquanto este jogo de bluff contínua, o FC Porto mantém Quaresma ausente dos jogos, embora lhe continue a pagar o ordenado. Não é a primeira vez que Jesualdo Ferreira é obrigado pela Direcção a engolir um sapo destes: sucedeu o mesmo na final da Taça, quando Bosingwa, já apalavrado ao Chelsea, foi impedido de jogar, não se fosse lesionar antes do contrato estar assinado. O mesmo Bosingwa que depois jogou o Euro pela Selecção, foi impedido de jogar a decisão de um troféu pelo próprio clube que lhe pagou o ordenado até 31 de Julho. Uma demonstração de vassalagem e submissão ao Chelsea que eu, pelo menos, achei indigna de um grande clube.
A mesma história se repete agora com Ricardo Quaresma, impedido por ordens superiores de jogar, não vá lesionar-se e estragar o negócio pressentido. Quaresma transformou-se assim num fantasma: é do FC Porto, mas não é; pode ser visto em treinos, mas não em jogos; está às ordens de Jesualdo, mas só em alguns casos. Será que se chegará ao desplante de também não o utilizar no jogo da Supertaça porque o Inter ainda não se decidiu até lá e é preciso continuar a mantê-lo numa redoma de vidro, numa montra ao alcance dos passantes que andem à procura de um génio da bola? Será que a indignidade da situação chegará ainda ao ponto de limitar voluntariamente as forças próprias, correndo o risco de perder mais um troféu para não melindrar o sr. Moratti?
E, sem poder dispor de Quaresma, Jesualdo lá vai tentando matar caça com o seu tão estimado quanto mal-agradecido Mariano González. Ah, o que não faria este FC Porto com um trio de ataque formado por Quaresma, Lisandro, Rodriguéz! Ou então, melhor ainda, Rodriguéz recuado no meio-campo, ao lado de Meireles e Lucho, e na frente o trio Quaresma, Hulk, Lisandro? Sim, porque nem Guárin, nem Tomás Costa, nem Bolatti, nem Fernando, dão garantias de fechar um trio de respeito no meio-campo e basta que Lucho fique episodicamente fora de combate e tudo aquilo emperra - viu-se bem na segunda parte contra a Lazio.
2 - A notícia da penhora do estádio do Bessa não pode surpreender aqueles que têm obrigação de andar bem informados. O Boavista fez dois acordos de pagamento de dívidas ao Fisco e não cumpriu nenhum. Numa situação destas, qualquer contribuinte estaria penhorado há muito. O facto de o Boavista ter conseguido terceiro acordo junto do Ministério da Economia só pode, de facto, resultar de tráfico de influências político. E isso é uma forma de concorrência desleal. Digo-o com o mesmo descomprometimento com que a semana passada aqui disse que a despromoção disciplinar do Boavista à segunda Liga não era capaz de convencer ninguém da sua justiça. Uma coisa é isso, outra é a manutenção artificial na primeira Liga de um clube que deve dinheiro a tudo e a todos e que salta à vista que jamais conseguirá pagar as suas dívidas por meios normais. E digo-o da mesma forma que digo que outro clube histórico e que pessoalmente sempre apreciei, que é o Vitória de Setúbal, só tem viabilidade económica conjuntural através de uma manobra politica que consiste na aprovação do Plano Urbanístico do Vale da Rosa, que é uma vergonha pública em termos de politica ambiental e de ordenamento territorial.
Infelizmente, também no futebol como no resto, crescemos mal e desordenadamente e, por isso, a triste verdade é que não há mais de uma dúzia de clubes autosustentáveis e a lutarem no primeiro escalão, no país todo. Clubes que fazem parte da história do futebol em Portugal - como o Boavista, o Vitória de Setúbal, o Belenenses, a Académica, o Beira-Mar ou o União de Leiria, por exemplo - não têm a mais pequena viabilidade económica a curto, médio ou longo prazo. Não têm adeptos, não têm receitas, não têm mecenas: todos eles dependem de favores políticos e operações imobiliárias de favor com as respectivas Câmaras Municipais. O resto é ficção e nem sequer piedosa.
Se houvesse juízo, teríamos uma primeira Liga com doze clubes e uma segunda Liga com clubes semi-amadores. Mas quem ocuparia depois os dirigentes de todas as associações distritais e os empreiteiros locais que querem ser famosos?
quinta-feira, agosto 14, 2008
PRIMEIRAS IMPRESSÕES (05 AGOSTO 2008)
1- Na noite de ontem (já depois do envio deste texto), Benfica e Vitória de Guimarães jogaram para o tal «Troféu Platini», cuja conquista permitirá a qualquer dos clubes minorar um pouco as frustrações desta pré-época, marcada por resultados e exibições que, sobretudo no caso do Benfica, deixaram muito a desejar, mas sobretudo pela amarga derrota das pretensões jurídicas na UEFA. Para quem tenha visto o jogo, em casa ou na televisão, não pode ter deixado de vir ao espírito a ideia de que se tratava de uma espécie de jogo de consolação entre dois emblemas que tudo tentaram para entrar pela porta do cavalo numa competição onde se entra pelas provas dadas em campo. Mas o Vitória acabou por ter o favor dos deuses consigo: depois de ter continuado a insistir até ao dia do sorteio (e até que a UEFA lhe dissesse para parar de mandar requerimentos), acabou por ver o sorteio reservar-lhe um modesto adversário, a sair da dupla IFK Gotemburgo-Basileia. Melhor era impossível e, se nem assim o Vitória conseguir franquear a porta da Champions, mais expostas e imperdoáveis ficam as razões que o levaram à pouca digna batalha jurídica perdida na UEFA.
Já o Benfica, consumido pela eterna questão do «vem - não vem», agora aplicada à novela Luis Garcia, bem precisa de um troféuzinho para fazer companhia aos rivais Sporting (Guadiana) e FC Porto (Braga) e, mais do que isso, para sacudir a onda de descrença que a olho nu já se vai espalhando entre os seus adeptos e dar a Quique Flores aquilo de que ele mais precisa e que é o luxo mais raro por aquelas bandas: tempo. Tempo para fazer uma equipa e tempo para a pôr a jogar.
À frente na preparação, seguem claramente o Sporting e o FC Porto, embora ambos também condicionados pela novela de sinal contrário « vai - não vai». Pelo que se percebeu, nenhum deles desdenharia vender, quer Veloso e Moutinho, quer Quaresma. O drama é justamente que, quando se mostra vontade e necessidade de vender, o comprador baixa o preço e faz chantagem. E, entre o desastre de vender mal ou a opção de não vender e ficar com jogadores de má cara, é difícil encontrar o ponto de equilíbrio. Mais difícil ainda é estar a formar as equipas e a afinar o modelo de jogo sem se saber se até 31 de Agosto a equipa é a que está ou está desfalcada de um ou dois jogadores preponderantes.
Se me é permitida uma opinião neste mercado de milhões, acho bem mais complicado o FC Porto substituir o Quaresma do que o Sporting passar sem o Moutinho e o Veloso. E, dos valores que se vêm falando, resulta que o grande forreta da história é o Inter, quando pensa levar o Quaresma por 20 ou 25 milhões. Pinto da Costa também deve pensar o mesmo e, como se infere das suas declarações ao Corriere dello Sport, ele não compreende como é que Mourinho ainda não foi capaz de explicar aos dirigentes do Inter que o Quaresma é um desequilibrador raríssimo, um talento que pode ainda ser bastante melhorado e que vale bem 40 milhões.
Mas também se percebeu dessas declarações que está ansioso por o vender, o que nada me admira: com dez aquisições já feitas esta época, é evidente que faltam milhões na casa. É a tal politica negocial dos portistas que eu sempre critiquei, mas que parece não conhecer outra alternativa, lá pelo Dragão.
2- Quem me lê noutro lado, sabe que nunca tive grande respeito pelos «pareceres» dos mestres de direito, alguns dos quais foram meus professores na faculdade. Dar pareceres é um modo de ganhar a vida, legítimo como outro qualquer, mas de há muito que perdeu aquele aura de respeitabilidade que dantes tinha. E pela simples razão de que os mestres dão pareceres em tudo conforme aos interesses de quem lhos paga. Não é raro, aliás, encontrar, sobre a mesma questão, dois pareceres radicalmente opostos, assinados… pelo mesmo mestre. O parecer tão badalado do Prof. Freitas do Amaral vale, por isso e para mim, exactamente o que vale e que é pouco. Vale o mesmo, por exemplo, que o parecer oral e gratuito que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa deu sobre a mesma questão na RTP. Onde Freitas viu malfeitorias apenas do lado de uma facção do Conselho de Justiça, Marcelo viu-as sobretudo do lado oposto.
Mas, aparentemente e como aqui escreveu o Rui Moreira, o parecer de Freitas do Amaral foi tido pela FPF como lei e sentença. E acabou por ser ele parte decisiva da sentença que condenou o Boavista à segunda divisão e, a prazo, talvez mesmo à extinção. É isso que ficará para a história.
Mas, dentro de alguns anos - talvez já mesmo agora - quando alguém perguntar porque razão foi o Boavista despromovido à segunda divisão, ninguém lhe saberá responder. Há-de ter sido por um facto muito grave, mas o quê, ao certo? Comprou adversários, comprou árbitros? Não: estão em causa, aliás, três jogos, dos quais o Boavista empatou um e perdeu dois. O que foi então? «Coação», responderá alguém mais entendido e com melhor memória. Mas o que é isso de coação? Pode ser tudo o que se quiser e o que não se quiser: no entendimento lato do CD da Liga, coação pode ser, por exemplo, um dirigente de um clube passar pelo árbitro no intervalo de um jogo e dizer-lhe «veja lá o que anda a fazer!». Basta que o árbitro escreva isto no boletim do jogo e, segundo o critério do CD, estando os conselheiros para aí virados, o clube a que pertence o dirigente pode acabar despromovido.
Eu nunca fui à bola com o estilo Valentim Loureiro, por razões que estão à vista de todos. Mas não deixo de achar o cúmulo da hipocrisia que aqueles que puseram o major na Liga, exactamente para poderem utilizar o seu poder de influência e coação, venham depois condenar o Boavista, se calhar até assentar-lhe um golpe mortal, porque o major ou o filho fizeram aquilo que deles se esperava. E quem nunca quis coagir um árbitro ou os dirigentes da Liga, quem nunca falou de arbitragens antes dos jogos, quem nunca protagonizou cenas eventualmente condenáveis nos túneis dos estádios, que lance a primeira pedra.
Que as coisas precisavam de ser moralizadas, estamos todos de acordo. Que esta geração e este estilo de dirigentes do futebol português precisavam urgentemente de passar ao museu, é pacífico. Que se tenha escolhido exemplos à lá carte - Boavista e FC Porto - para encetar a dita «moralização», isso é o que todos sabem também que não passa de uma hipocrisia e reflecte apenas o prolongamento para o terreno da mal chamada justiça das guerras clubisticas que se deveriam limitar ao terreno de jogo. Se o major combina o árbitro de um jogo com um presidente de um clube qualquer, o major é condenado por coação; se combina com o presidente do FC Porto, são ambos condenados; mas se combina com o presidente do Benfica, o processo é mandado arquivar, sem culpados. Bela justiça!
Já o Benfica, consumido pela eterna questão do «vem - não vem», agora aplicada à novela Luis Garcia, bem precisa de um troféuzinho para fazer companhia aos rivais Sporting (Guadiana) e FC Porto (Braga) e, mais do que isso, para sacudir a onda de descrença que a olho nu já se vai espalhando entre os seus adeptos e dar a Quique Flores aquilo de que ele mais precisa e que é o luxo mais raro por aquelas bandas: tempo. Tempo para fazer uma equipa e tempo para a pôr a jogar.
À frente na preparação, seguem claramente o Sporting e o FC Porto, embora ambos também condicionados pela novela de sinal contrário « vai - não vai». Pelo que se percebeu, nenhum deles desdenharia vender, quer Veloso e Moutinho, quer Quaresma. O drama é justamente que, quando se mostra vontade e necessidade de vender, o comprador baixa o preço e faz chantagem. E, entre o desastre de vender mal ou a opção de não vender e ficar com jogadores de má cara, é difícil encontrar o ponto de equilíbrio. Mais difícil ainda é estar a formar as equipas e a afinar o modelo de jogo sem se saber se até 31 de Agosto a equipa é a que está ou está desfalcada de um ou dois jogadores preponderantes.
Se me é permitida uma opinião neste mercado de milhões, acho bem mais complicado o FC Porto substituir o Quaresma do que o Sporting passar sem o Moutinho e o Veloso. E, dos valores que se vêm falando, resulta que o grande forreta da história é o Inter, quando pensa levar o Quaresma por 20 ou 25 milhões. Pinto da Costa também deve pensar o mesmo e, como se infere das suas declarações ao Corriere dello Sport, ele não compreende como é que Mourinho ainda não foi capaz de explicar aos dirigentes do Inter que o Quaresma é um desequilibrador raríssimo, um talento que pode ainda ser bastante melhorado e que vale bem 40 milhões.
Mas também se percebeu dessas declarações que está ansioso por o vender, o que nada me admira: com dez aquisições já feitas esta época, é evidente que faltam milhões na casa. É a tal politica negocial dos portistas que eu sempre critiquei, mas que parece não conhecer outra alternativa, lá pelo Dragão.
2- Quem me lê noutro lado, sabe que nunca tive grande respeito pelos «pareceres» dos mestres de direito, alguns dos quais foram meus professores na faculdade. Dar pareceres é um modo de ganhar a vida, legítimo como outro qualquer, mas de há muito que perdeu aquele aura de respeitabilidade que dantes tinha. E pela simples razão de que os mestres dão pareceres em tudo conforme aos interesses de quem lhos paga. Não é raro, aliás, encontrar, sobre a mesma questão, dois pareceres radicalmente opostos, assinados… pelo mesmo mestre. O parecer tão badalado do Prof. Freitas do Amaral vale, por isso e para mim, exactamente o que vale e que é pouco. Vale o mesmo, por exemplo, que o parecer oral e gratuito que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa deu sobre a mesma questão na RTP. Onde Freitas viu malfeitorias apenas do lado de uma facção do Conselho de Justiça, Marcelo viu-as sobretudo do lado oposto.
Mas, aparentemente e como aqui escreveu o Rui Moreira, o parecer de Freitas do Amaral foi tido pela FPF como lei e sentença. E acabou por ser ele parte decisiva da sentença que condenou o Boavista à segunda divisão e, a prazo, talvez mesmo à extinção. É isso que ficará para a história.
Mas, dentro de alguns anos - talvez já mesmo agora - quando alguém perguntar porque razão foi o Boavista despromovido à segunda divisão, ninguém lhe saberá responder. Há-de ter sido por um facto muito grave, mas o quê, ao certo? Comprou adversários, comprou árbitros? Não: estão em causa, aliás, três jogos, dos quais o Boavista empatou um e perdeu dois. O que foi então? «Coação», responderá alguém mais entendido e com melhor memória. Mas o que é isso de coação? Pode ser tudo o que se quiser e o que não se quiser: no entendimento lato do CD da Liga, coação pode ser, por exemplo, um dirigente de um clube passar pelo árbitro no intervalo de um jogo e dizer-lhe «veja lá o que anda a fazer!». Basta que o árbitro escreva isto no boletim do jogo e, segundo o critério do CD, estando os conselheiros para aí virados, o clube a que pertence o dirigente pode acabar despromovido.
Eu nunca fui à bola com o estilo Valentim Loureiro, por razões que estão à vista de todos. Mas não deixo de achar o cúmulo da hipocrisia que aqueles que puseram o major na Liga, exactamente para poderem utilizar o seu poder de influência e coação, venham depois condenar o Boavista, se calhar até assentar-lhe um golpe mortal, porque o major ou o filho fizeram aquilo que deles se esperava. E quem nunca quis coagir um árbitro ou os dirigentes da Liga, quem nunca falou de arbitragens antes dos jogos, quem nunca protagonizou cenas eventualmente condenáveis nos túneis dos estádios, que lance a primeira pedra.
Que as coisas precisavam de ser moralizadas, estamos todos de acordo. Que esta geração e este estilo de dirigentes do futebol português precisavam urgentemente de passar ao museu, é pacífico. Que se tenha escolhido exemplos à lá carte - Boavista e FC Porto - para encetar a dita «moralização», isso é o que todos sabem também que não passa de uma hipocrisia e reflecte apenas o prolongamento para o terreno da mal chamada justiça das guerras clubisticas que se deveriam limitar ao terreno de jogo. Se o major combina o árbitro de um jogo com um presidente de um clube qualquer, o major é condenado por coação; se combina com o presidente do FC Porto, são ambos condenados; mas se combina com o presidente do Benfica, o processo é mandado arquivar, sem culpados. Bela justiça!
A LIBERTAÇÃO DOS ESCRAVOS (29 JULHO 2008)
1- A chantagem - que não tem outro nome - que João Moutinho está a exercer sobre o Sporting é intolerável e bem andará a direcção da SAD sportinguista se não lhe ceder, sob pena de os clubes se tornarem práticamente ingovernáveis. Como dizia há dias Bobby Robson, «no meu tempo, um contrato era um contrato» e, nestes tempos de mercenarismo em que vivemos, em que o aperto de mão, a palavra de honra, a gratidão e o amor à camisola parecem ser tudo noções arrumadas no baú de alguma rara gente ainda bem educada e com princípios, se já um contrato escrito e assinado por ambas as partes também não serve de nada, então que decretem a lei da selva e venha o Sr. Blatter governar os clubes profissionais.
Moutinho nem sequer pode invocar a seu favor, ao contrário de Ricardo Quaresma e outros, o aliciante desafio profissional que o espera. O Everton é apenas o segundo clube de Liverpool, um clube mediano em Inglaterra, muito longe de aspirar a ter hipóteses no campeonato ou uma carreira na Champions.
Desportivamente, Moutinho tem mais a ganhar no Sporting do que no Everton onde cairá num«buraco negro» de esquecimento do qual não sairá tão cedo porque, como irá descobrir, em Inglaterra, um contrato ainda é um contrato - e o Manchester United está a mostrá-lo com Cristiano Ronaldo. Só há uma razão para que Moutinho queira trocar o Sporting pelo Everton e essa é apenas o dinheiro. Fica muito mal a um capitão de equipa, cujo contrato foi melhorado recentemente e na vigência dele, que é acarinhado pelos sócios e pela direcção do clube, querer ir-se embora apenas por dinheiro. Já sei que, como disse Derlei, todos têm família, um futuro em que pensar, etc. Têm os jogadores de futebol e temos nós todos. A única diferença é que ninguém ganha as fortunas que eles ganham tão somente porque têm jeito para dar chutos na bola e porque, por sorte ou azar deles, não tiveram pais que os obrigaram a esquecer a bola para seguir os estudos.
O mais feio de tudo é a estratégia que o Everton e o empresário de João Moutinho, Pini Zahavi, vêm seguindo em relação ao Sporting. É a mesma estratégia do Real Madrid com Cristiano Ronaldo e, aparentemente, a do Inter em relação a Ricardo Quaresma. Podíamos chamá-la, inspirando-nos em Blatter, a estratégia da libertação dos escravos e consiste no seguinte: um clube , normalmente mais rico ou mais forte, quer comprar um jogador de outro clube, mas não quer pagar o preço justo por ele ou não pretende respeitar a vontade desse clube de não vender o jogador; logo, começam por seduzir o jogador oferecendo-lhe um ordenado milionário e dando-lhe volta à cabeça (o que não é difícil…); então e só então, abordam o clube do jogador e fazem-lhe uma proposta de compra muito abaixo da cláusula de rescisão ou do valor justo; perante a negativa do putativo vendedor, entra então em cena o próprio jogador, que começa a fazer declarações públicas de que se quer ir embora; confrontado com a situação de chantagem assim criada, o clube que tem contrato com o jogador fica encostado à parede: ou cede à chantagem e aceita vender mal, ou recusa e fica a braços com um problema interno de um jogador contrariado, que vai começar a fazer «fitas», a fingir-se lesionado e a criar um ambiente que é ofensivo para a dignidade do clube. É uma jogada perfeita, contra a qual praticamente não há defesa.
A nossa imprensa desportiva, que tão afincadamente tenta convencer a direcção portista a vender o Quaresma ao Inter a preço de saldo ou que tanto se bate pela «libertação» de Cristiano Ronaldo do Manchester, tem alguma responsabilidade na criação deste clima de «vale tudo» que parece estar a tomar conta da cabeça dos nossos jogadores, devidamente empurrados pelos respectivos empresários. Com um pouco mais de tino, a imprensa desportiva pensaria um pouco que assim, não só despovoamos o nosso futebol dos melhores interpretes de nacionalidade lusa, como ainda se está a contribuir para a ruína financeira dos clubes. Pois se tanta gente diz e jura que a solução económica dos nossos clubes só pode ser a de formar jovens talentosos para depois os vender muito bem ao estrangeiro, se o negócio passa a ser arruinado por esta estratégia de rasga-contratos a todo o tempo, para quê investir na formação dos nossos jovens?
2- Como aqui o notei no artigo anterior, enquanto Ricardo Quaresma vai aguardando o desfecho do braço-de--ferro do Inter com o FC Porto, Jesualdo Ferreira vai tentando habituar-se a viver sem ele e a formar uma equipa que, sem Quaresma, possa continuar a assegurar o índice de capacidade ofensiva, criativa e concretizadora a que o FC Porto nos habituou em anos recentes. Não é fácil, como mais uma vez se viu contra o Celtic. Com Mariano González, não há 4x3x3 que se aguente, porque o argentino é um trapalhão completo, que entra em campo com ar de quem já está cansado e corre com a cabeça em baixo e o corpo para trás em direcção a lado nenhum, totalmente falho de ideias, de rasgo e de visão de jogo. Foi a primeira e a pior contratação do FC Porto esta época.
Das restantes contratações portistas - cujo número se aproxima já do total da época passada: onze jogadores, uma equipa completa - a ideia que fica destes primeiros jogos de pré-época é que, pelo menos, não acontecerá o mesmo que na época passada, quando dos onze jogadores contratados, nenhum teve lugar na equipa principal. Felizmente, este ano, há condições para integrar dois ou três e isso é absolutamente necessário porque, para já, Bosingwa e Paulo Assunção têm de encontrar substitutos. A eventual vaga de Quaresma poderá ter de ser resolvida com uma mudança de sistema de jogo, mas as ausências de Bosingwa e Paulo Assunção têm mesmo de ser preenchidas. Sapunaru tem sido dos que melhor se têm integrado e parece-me que o lugar de defesa-direito lhe fica bem entregue. No centro da defesa, Rolando é também reforço e é natural que, na primeira ocasião em que falte Pedro Emanuel, Jesualdo lhe entregue o lugar (e não antes apenas por respeito pela antiguidade, que ali é um posto). No lugar de «trinco», as coisas estão mais complicadas: Bolati não serve, como está mais do que visto, e Guarin, ao contrário do que a crítica tem dito, a mim não me convence: muita precipitação, muito afogueamento, timings sempre errados para entrar à bola ou entregá-la, jogo muito faltoso. Resta Fernando, que ainda não teve ocasiões para se mostrar suficientemente, ou Raul Meireles, que fez a posição durante cerca de 25 minutos contra o Celtic e bem melhor do que Guarin. Cristian Rodriguéz é sem dúvida reforço e dos bons: com Quaresma, formará duas alas do tri atacante verdadeiramente notáveis; sem Quaresma e em 4x4x2, Jesualdo provávelmente dar-lhe-á o lugar de ala mais recuado, sobre o meio-campo. Enfim, só para esse sistema alternativo é que se justifica a incrível contratação do desconhecido Hulk, por números que metem medo: ou se trata de um novo Jardel, surpreendentemente descoberto nas profundezas do campeonato japonês, ou se trata do maior barrete de sempre.
A conclusão é esta: com Quaresma, o FC Porto terá este ano uma super-equipa, bem melhor do que as de anos anteriores. Sem Quaresma, o FC Porto é, para já, uma boa equipa, com futebol organizado (nada a ver com o Benfica, por exemplo), mas falha de capacidade de chegar ao golo. Se Hulk for o génio que os milhões nele investidos levam a esperar, esse problema pode ficar resolvido; se o não for e se não houver Quaresma, pode-se regressar aos tempos de Co Adriaanse: muito ataque e muito poucos golos.
Moutinho nem sequer pode invocar a seu favor, ao contrário de Ricardo Quaresma e outros, o aliciante desafio profissional que o espera. O Everton é apenas o segundo clube de Liverpool, um clube mediano em Inglaterra, muito longe de aspirar a ter hipóteses no campeonato ou uma carreira na Champions.
Desportivamente, Moutinho tem mais a ganhar no Sporting do que no Everton onde cairá num«buraco negro» de esquecimento do qual não sairá tão cedo porque, como irá descobrir, em Inglaterra, um contrato ainda é um contrato - e o Manchester United está a mostrá-lo com Cristiano Ronaldo. Só há uma razão para que Moutinho queira trocar o Sporting pelo Everton e essa é apenas o dinheiro. Fica muito mal a um capitão de equipa, cujo contrato foi melhorado recentemente e na vigência dele, que é acarinhado pelos sócios e pela direcção do clube, querer ir-se embora apenas por dinheiro. Já sei que, como disse Derlei, todos têm família, um futuro em que pensar, etc. Têm os jogadores de futebol e temos nós todos. A única diferença é que ninguém ganha as fortunas que eles ganham tão somente porque têm jeito para dar chutos na bola e porque, por sorte ou azar deles, não tiveram pais que os obrigaram a esquecer a bola para seguir os estudos.
O mais feio de tudo é a estratégia que o Everton e o empresário de João Moutinho, Pini Zahavi, vêm seguindo em relação ao Sporting. É a mesma estratégia do Real Madrid com Cristiano Ronaldo e, aparentemente, a do Inter em relação a Ricardo Quaresma. Podíamos chamá-la, inspirando-nos em Blatter, a estratégia da libertação dos escravos e consiste no seguinte: um clube , normalmente mais rico ou mais forte, quer comprar um jogador de outro clube, mas não quer pagar o preço justo por ele ou não pretende respeitar a vontade desse clube de não vender o jogador; logo, começam por seduzir o jogador oferecendo-lhe um ordenado milionário e dando-lhe volta à cabeça (o que não é difícil…); então e só então, abordam o clube do jogador e fazem-lhe uma proposta de compra muito abaixo da cláusula de rescisão ou do valor justo; perante a negativa do putativo vendedor, entra então em cena o próprio jogador, que começa a fazer declarações públicas de que se quer ir embora; confrontado com a situação de chantagem assim criada, o clube que tem contrato com o jogador fica encostado à parede: ou cede à chantagem e aceita vender mal, ou recusa e fica a braços com um problema interno de um jogador contrariado, que vai começar a fazer «fitas», a fingir-se lesionado e a criar um ambiente que é ofensivo para a dignidade do clube. É uma jogada perfeita, contra a qual praticamente não há defesa.
A nossa imprensa desportiva, que tão afincadamente tenta convencer a direcção portista a vender o Quaresma ao Inter a preço de saldo ou que tanto se bate pela «libertação» de Cristiano Ronaldo do Manchester, tem alguma responsabilidade na criação deste clima de «vale tudo» que parece estar a tomar conta da cabeça dos nossos jogadores, devidamente empurrados pelos respectivos empresários. Com um pouco mais de tino, a imprensa desportiva pensaria um pouco que assim, não só despovoamos o nosso futebol dos melhores interpretes de nacionalidade lusa, como ainda se está a contribuir para a ruína financeira dos clubes. Pois se tanta gente diz e jura que a solução económica dos nossos clubes só pode ser a de formar jovens talentosos para depois os vender muito bem ao estrangeiro, se o negócio passa a ser arruinado por esta estratégia de rasga-contratos a todo o tempo, para quê investir na formação dos nossos jovens?
2- Como aqui o notei no artigo anterior, enquanto Ricardo Quaresma vai aguardando o desfecho do braço-de--ferro do Inter com o FC Porto, Jesualdo Ferreira vai tentando habituar-se a viver sem ele e a formar uma equipa que, sem Quaresma, possa continuar a assegurar o índice de capacidade ofensiva, criativa e concretizadora a que o FC Porto nos habituou em anos recentes. Não é fácil, como mais uma vez se viu contra o Celtic. Com Mariano González, não há 4x3x3 que se aguente, porque o argentino é um trapalhão completo, que entra em campo com ar de quem já está cansado e corre com a cabeça em baixo e o corpo para trás em direcção a lado nenhum, totalmente falho de ideias, de rasgo e de visão de jogo. Foi a primeira e a pior contratação do FC Porto esta época.
Das restantes contratações portistas - cujo número se aproxima já do total da época passada: onze jogadores, uma equipa completa - a ideia que fica destes primeiros jogos de pré-época é que, pelo menos, não acontecerá o mesmo que na época passada, quando dos onze jogadores contratados, nenhum teve lugar na equipa principal. Felizmente, este ano, há condições para integrar dois ou três e isso é absolutamente necessário porque, para já, Bosingwa e Paulo Assunção têm de encontrar substitutos. A eventual vaga de Quaresma poderá ter de ser resolvida com uma mudança de sistema de jogo, mas as ausências de Bosingwa e Paulo Assunção têm mesmo de ser preenchidas. Sapunaru tem sido dos que melhor se têm integrado e parece-me que o lugar de defesa-direito lhe fica bem entregue. No centro da defesa, Rolando é também reforço e é natural que, na primeira ocasião em que falte Pedro Emanuel, Jesualdo lhe entregue o lugar (e não antes apenas por respeito pela antiguidade, que ali é um posto). No lugar de «trinco», as coisas estão mais complicadas: Bolati não serve, como está mais do que visto, e Guarin, ao contrário do que a crítica tem dito, a mim não me convence: muita precipitação, muito afogueamento, timings sempre errados para entrar à bola ou entregá-la, jogo muito faltoso. Resta Fernando, que ainda não teve ocasiões para se mostrar suficientemente, ou Raul Meireles, que fez a posição durante cerca de 25 minutos contra o Celtic e bem melhor do que Guarin. Cristian Rodriguéz é sem dúvida reforço e dos bons: com Quaresma, formará duas alas do tri atacante verdadeiramente notáveis; sem Quaresma e em 4x4x2, Jesualdo provávelmente dar-lhe-á o lugar de ala mais recuado, sobre o meio-campo. Enfim, só para esse sistema alternativo é que se justifica a incrível contratação do desconhecido Hulk, por números que metem medo: ou se trata de um novo Jardel, surpreendentemente descoberto nas profundezas do campeonato japonês, ou se trata do maior barrete de sempre.
A conclusão é esta: com Quaresma, o FC Porto terá este ano uma super-equipa, bem melhor do que as de anos anteriores. Sem Quaresma, o FC Porto é, para já, uma boa equipa, com futebol organizado (nada a ver com o Benfica, por exemplo), mas falha de capacidade de chegar ao golo. Se Hulk for o génio que os milhões nele investidos levam a esperar, esse problema pode ficar resolvido; se o não for e se não houver Quaresma, pode-se regressar aos tempos de Co Adriaanse: muito ataque e muito poucos golos.
segunda-feira, julho 28, 2008
AH,AFINAL NÃO ERA A SÉRIO! ( 22 JULHO 2008 )
1- Afinal, o Benfica não queria ir à Champions, disputando a pré-eliminatória na vaga do Vitória de Guimarães, que, por sua vez, entraria directo na vaga do FC Porto. Afinal, o que parecia não era: a apressada denúncia logo feita pelo Benfica à FPF para que esta corresse a comunicar à UEFA que uma coisa chamada Comissão Disciplinar da Liga tinha julgado o FC Porto culpado de tentativa de corrupção e este não havia recorrido; os milhares e milhares de euros gastos em advogados, jurisconsultos, especialistas internacionais, para defender a posição do Benfica na questão - uma posição em que não era parte envolvida, mas simplesmente interessada; os esforços titânicos feitos para ganhar no campo jurídico o que o clube nunca mostrou ser capaz de ganhar no terreno de jogo - tudo isso era a fingir. O Benfica não queria ir à Champions: queria apenas chatear o FC Porto. Garantiu-o Luís Filipe Viera esta semana, em entrevista a Judite de Sousa. Se o Benfica tem obtido ganho de causa junto da UEFA, o seu presidente trataria logo de abdicar do efeito prático dessa vitória, propondo aos órgãos sociais do clube que este renunciasse… a favor do V.Setúbal. Acredite quem quiser.
Eu, claro, não acredito. Se essa fosse a vontade de Vieira, deveria tê-lo dito antes do desfecho e não depois de ter falhado a usurpação tentada. Depois de perder, é facil vir dizer que nunca se quis ganhar. Mas antes é que isso teria algum valor. Conforme ouvi a muitos benfiquistas, incomodados com o assunto, o que a direcção do seu clube deveria ter feito para evitar a tristíssima figura que fez, era ter ficado simplesmente quieta e muda, à espera que a UEFA, a Liga de Clubes, a Federação e o FC Porto resolvessem o assunto, que só a eles respeitava. Assim, é preciso acreditar nas boas intenções póstumas.
E não é fácil acreditar no desportivismo desta direcção benfiquista. São os mesmos que se prestaram a ir a um jantar de propaganda eleitoral do PSD para agradecer favores políticos, relativos a dívidas fiscais e à construção do estádio; os mesmos que tentaram safar Nuno Assis com recurso a meros expedientes burocráticos, como se não existisse a questão principal, que eram as análises positivas de doping; os mesmos que «compraram» o jogo no Algarve ao Estoril-Praia, assim dando passo decisivo para serem campeões em 2005 e arrumar com o Estoril para a 2ª divisão; os mesmos que este ano se especializaram em comprar jogadores aos clubes com quem iam jogar a seguir; os mesmos que cada vez que não conseguem os resultados esperados inventam sempre desculpas de mau pagador e conspirações sombrias; os mesmos que se aliaram a Valentim Loureiro para controlar a Liga de clubes contra Sporting e FC Porto e que depois, quando o viram metido em alhadas, lavaram as mãos do assunto, como se não tivessem nada a ver com ele, com a Liga e com o tal de «sistema».
Desportivismo? Desportivismo é chegar ao fim do campeonato e dizer «eles mereceram ganhar». Já alguém ouviu algum dos actuais dirigentes do Benfica dizer isso alguma vez?
2- A direcção do Benfica, que fez desta novela na UEFA o caso do «defeso» e que nela investiu tudo, sem querer saber dos pergaminhos ou do prestígio do clube, sem sequer auscultar a vontade dos sócios, prestou um péssimo serviço ao clube e à sua história. Eles lá sabem…
E, atrás deles, entontecidos pela miragem de entrar directos na Liga milionária sem os riscos da pré-eliminatória, incapazes de resistir à tentação de empochar cinco milhões de euros caídos do céu, sem um estremecimento de pudor por querer entrar na Europa dos grandes à custa do clube que lhes enfiara 5-0 em casa no jogo em que eles poderiam ter conquistado em campo esse direito, seguiram os responsáveis do Vitória de Guimarães. Trocaram uma amizade sólida e uma simpatia antiga da parte do FC Porto e dos seus adeptos pela sedução dos milhões. E, a avaliar pelos resultados e crónicas dos jogos de pré-época percebe-se bem porquê: porque esta porta das traseiras era a única em que os responsáveis vimaraneneses confiavam para entrar onde não esperavam.
Leio por aí que o Vitória, apesar de tudo, ainda espera que o FC Porto lhe volte a emprestar o Alan, aliviados que devem estar com a declaração de Pinto da Costa de que não tem nada contra o Vitória. Pois, talvez ele não tenha, mas os adeptos, esses, garanto-vos que têm e não esquecerão tão cedo: é só esperar para ver a recepção que o Dragão lhes dispensará da próxima vez que lá forem. O Vitoria, agora, que se prepare para experimentar o que lhe reserva o futuro da sua nova amizade com o Benfica - sim, o mesmo Benfica que passou toda a segunda volta do último campeonato a insinuar que o Vitória só lhe seguia à frente por favores de arbitragem. Essa nova amizade vai agora ser celebrada no «Troféu Platini», como lhe chamou o benfiquista Silvio Cervan, e seguramente que a direcção do Vitória não deixará de ter ocasião de experimentar, a propósito do interesse benfiquista no defesa Sereno, os métodos que o Benfica costuma usar quando pretende comprar jogadores de clubes «menores» que Sua Majestade (o Belenenses ou a Académica podem-lhes fazer um briefing sobre o assunto…).
3- Se os esforços diários e incansáveis de alguns jornalistas desportivos forem coroados de êxito, Jesualdo Ferreira vai mesmo perder Ricardo Quaresma. A sua saída seria, como alguém de um clube rival já confessou, a melhor aquisição da época para o Sporting e Benfica: não há Pablo Aimar nem Rochemback que valham a saída de Quaresma do FC Porto. Por isso mesmo e inversamente, a grande alegria, a grande e anunciada aquisição que Pinto da Costa prometeu ainda apresentar aos sócios, seria… a continuação de Ricardo Quaresma.
Entretanto, Jesualdo vai-se preparando para o pior. E, a avaliar pelos quatro jogos de preparação, em que Quaresma apenas fez uma passeata, o pior é garantido. Sem Quaresma, o FC Porto perde metade da sua capacidade ofensiva e muito mais da sua capacidade criativa lá na frente. Eu sei que há ainda portistas que têm dúvidas, mas as estatísticas são o que são: nas últimas três épocas, Ricardo Quaresma respondeu, directa ou indirectamente, como autor ou como assistente, por metade dos golos da equipa. Seguramente que não é o inofensivo Mariano González quem o vai substituir; nem o Tarik, nem o Alan. O Rodriguéz, sim, esse é jogador para flanquear o jogo, embora não seja um extremo puro. Mas se, do outro lado, em lugar do Quaresma, estiver o Mariano ou o Tarik, adeus 4X3X3 de tão boa memória! Por isso mesmo, Jesualdo anda a experimentar coisas complicadíssimas (para mim, pelo menos, que não percebo nada de tácticas), tais como o 4x2x3x1 ou o 4x1x4x1.
Mais uma razão para eu não perceber a lista de dispensas de Jesualdo: o Vieirinha, que tão bem se tem exibido no PAOK, não daria jeito? O Ibson, que os brasileiros veneram, não merecia uma nova oportunidade? O Leandro Lima não era uma promessa à beira da confirmação, ainda por cima com dois anos a mais? O Pittbull não é dez vezes melhor que um Mariano? Ainda há dúvidas de que o Bruno Moraes, devidamente motivado e sem lesões, pode ser um excelente ponta-de-lança, ou o Mourinho ter-se-á enganado?
Uma série de perguntas sem resposta, naufragadas num mar sul-americano de hipóteses por confirmar e suspensas da pergunta mortal: vamos mesmo perder o Quaresma?
Eu, claro, não acredito. Se essa fosse a vontade de Vieira, deveria tê-lo dito antes do desfecho e não depois de ter falhado a usurpação tentada. Depois de perder, é facil vir dizer que nunca se quis ganhar. Mas antes é que isso teria algum valor. Conforme ouvi a muitos benfiquistas, incomodados com o assunto, o que a direcção do seu clube deveria ter feito para evitar a tristíssima figura que fez, era ter ficado simplesmente quieta e muda, à espera que a UEFA, a Liga de Clubes, a Federação e o FC Porto resolvessem o assunto, que só a eles respeitava. Assim, é preciso acreditar nas boas intenções póstumas.
E não é fácil acreditar no desportivismo desta direcção benfiquista. São os mesmos que se prestaram a ir a um jantar de propaganda eleitoral do PSD para agradecer favores políticos, relativos a dívidas fiscais e à construção do estádio; os mesmos que tentaram safar Nuno Assis com recurso a meros expedientes burocráticos, como se não existisse a questão principal, que eram as análises positivas de doping; os mesmos que «compraram» o jogo no Algarve ao Estoril-Praia, assim dando passo decisivo para serem campeões em 2005 e arrumar com o Estoril para a 2ª divisão; os mesmos que este ano se especializaram em comprar jogadores aos clubes com quem iam jogar a seguir; os mesmos que cada vez que não conseguem os resultados esperados inventam sempre desculpas de mau pagador e conspirações sombrias; os mesmos que se aliaram a Valentim Loureiro para controlar a Liga de clubes contra Sporting e FC Porto e que depois, quando o viram metido em alhadas, lavaram as mãos do assunto, como se não tivessem nada a ver com ele, com a Liga e com o tal de «sistema».
Desportivismo? Desportivismo é chegar ao fim do campeonato e dizer «eles mereceram ganhar». Já alguém ouviu algum dos actuais dirigentes do Benfica dizer isso alguma vez?
2- A direcção do Benfica, que fez desta novela na UEFA o caso do «defeso» e que nela investiu tudo, sem querer saber dos pergaminhos ou do prestígio do clube, sem sequer auscultar a vontade dos sócios, prestou um péssimo serviço ao clube e à sua história. Eles lá sabem…
E, atrás deles, entontecidos pela miragem de entrar directos na Liga milionária sem os riscos da pré-eliminatória, incapazes de resistir à tentação de empochar cinco milhões de euros caídos do céu, sem um estremecimento de pudor por querer entrar na Europa dos grandes à custa do clube que lhes enfiara 5-0 em casa no jogo em que eles poderiam ter conquistado em campo esse direito, seguiram os responsáveis do Vitória de Guimarães. Trocaram uma amizade sólida e uma simpatia antiga da parte do FC Porto e dos seus adeptos pela sedução dos milhões. E, a avaliar pelos resultados e crónicas dos jogos de pré-época percebe-se bem porquê: porque esta porta das traseiras era a única em que os responsáveis vimaraneneses confiavam para entrar onde não esperavam.
Leio por aí que o Vitória, apesar de tudo, ainda espera que o FC Porto lhe volte a emprestar o Alan, aliviados que devem estar com a declaração de Pinto da Costa de que não tem nada contra o Vitória. Pois, talvez ele não tenha, mas os adeptos, esses, garanto-vos que têm e não esquecerão tão cedo: é só esperar para ver a recepção que o Dragão lhes dispensará da próxima vez que lá forem. O Vitoria, agora, que se prepare para experimentar o que lhe reserva o futuro da sua nova amizade com o Benfica - sim, o mesmo Benfica que passou toda a segunda volta do último campeonato a insinuar que o Vitória só lhe seguia à frente por favores de arbitragem. Essa nova amizade vai agora ser celebrada no «Troféu Platini», como lhe chamou o benfiquista Silvio Cervan, e seguramente que a direcção do Vitória não deixará de ter ocasião de experimentar, a propósito do interesse benfiquista no defesa Sereno, os métodos que o Benfica costuma usar quando pretende comprar jogadores de clubes «menores» que Sua Majestade (o Belenenses ou a Académica podem-lhes fazer um briefing sobre o assunto…).
3- Se os esforços diários e incansáveis de alguns jornalistas desportivos forem coroados de êxito, Jesualdo Ferreira vai mesmo perder Ricardo Quaresma. A sua saída seria, como alguém de um clube rival já confessou, a melhor aquisição da época para o Sporting e Benfica: não há Pablo Aimar nem Rochemback que valham a saída de Quaresma do FC Porto. Por isso mesmo e inversamente, a grande alegria, a grande e anunciada aquisição que Pinto da Costa prometeu ainda apresentar aos sócios, seria… a continuação de Ricardo Quaresma.
Entretanto, Jesualdo vai-se preparando para o pior. E, a avaliar pelos quatro jogos de preparação, em que Quaresma apenas fez uma passeata, o pior é garantido. Sem Quaresma, o FC Porto perde metade da sua capacidade ofensiva e muito mais da sua capacidade criativa lá na frente. Eu sei que há ainda portistas que têm dúvidas, mas as estatísticas são o que são: nas últimas três épocas, Ricardo Quaresma respondeu, directa ou indirectamente, como autor ou como assistente, por metade dos golos da equipa. Seguramente que não é o inofensivo Mariano González quem o vai substituir; nem o Tarik, nem o Alan. O Rodriguéz, sim, esse é jogador para flanquear o jogo, embora não seja um extremo puro. Mas se, do outro lado, em lugar do Quaresma, estiver o Mariano ou o Tarik, adeus 4X3X3 de tão boa memória! Por isso mesmo, Jesualdo anda a experimentar coisas complicadíssimas (para mim, pelo menos, que não percebo nada de tácticas), tais como o 4x2x3x1 ou o 4x1x4x1.
Mais uma razão para eu não perceber a lista de dispensas de Jesualdo: o Vieirinha, que tão bem se tem exibido no PAOK, não daria jeito? O Ibson, que os brasileiros veneram, não merecia uma nova oportunidade? O Leandro Lima não era uma promessa à beira da confirmação, ainda por cima com dois anos a mais? O Pittbull não é dez vezes melhor que um Mariano? Ainda há dúvidas de que o Bruno Moraes, devidamente motivado e sem lesões, pode ser um excelente ponta-de-lança, ou o Mourinho ter-se-á enganado?
Uma série de perguntas sem resposta, naufragadas num mar sul-americano de hipóteses por confirmar e suspensas da pergunta mortal: vamos mesmo perder o Quaresma?
ESCRAVOS E SENHORES ( 15 JULHO 2008 )
1- Paulo Assunção invocou uma novidade jurídica chamada «Lei Webster» e foi-se embora, sem dar cavaco nem cumprimento ao último ano de contrato que tinha com o FC Porto. Parece que é uma disposição que «protege» os jogadores com mais de 26 anos, permitindo-lhes rasgar um contrato a meio, se surgir melhor oportunidade. Pena que não seja uma disposição bi-lateral, funcionando também a favor dos clubes, que assim aproveitariam para se livrar dos «pesos mortos» que por lá têm a arrastar-se e «protegidos» também por contratos de longa duração. E é pena que o FC Porto, embrenhado na batalha jurídica da UEFA, que lhe foi desencadeada pelo Benfica, não tenha tido tempo ou ânimo para abrir ele uma batalha jurídica contra Paulo Assunção, o Atlético de Madrid e a Lei Webster.
Ainda no FC Porto, Ricardo Quaresma voltou à carga, repetindo que queria sair para Itália, Espanha ou Inglaterra. Já em Fevereiro dissera o mesmo e Pinto da Costa respondeu melhorando-lhe o ordenado, prolongando o contrato e fixando a cláusula de rescisão em 40 milhões. Quaresma tem toda a legitimidade para querer jogar num campeonato mais competitivo e mais mediático, mas também ninguém o obrigou a aceitar a revisão do contrato e seguramente que não se importou de ser aumentado em Fevereiro, com o contrato a meio. Devia, pois, ficar calado e se aparecesse alguém a bancar os 40 milhões, muito bem; se não aparecesse, escusava de fazer cara de contrariado, porque quando se ganha 200.000 euros por mês e se está num clube chamado FC Porto, não há motivo algum para andar contrariado. E parece que também Lucho González e Bruno Alves andarão «deprimidos» por não terem visto confrmar-se as expectativas de saírem já para um dos milionários europeus.
Mais deprimidos ainda adivinha-se que estejam João Moutinho e Miguel Veloso, no Sporting. O Europeu não lhes rendeu a notoriedade que esperavam e ninguém apareceu a querer dar 30 e 20 milhões de euros, respectivamente, pelos seus «passes». Também eles viram os seus contratos melhorados em plena vigência e aceitaram as respectivas cláusulas de rescisão fixadas em contrapartida pelo Sporting. Veloso veio agora queixar-se que a sua cláusula de rescisão é muito cara e que assim ninguém o compra. Não foi ele que a negociou de livre vondade? Ou terá achado que era tão bom jogador que não faltariam candidatos a pagar por ele os 20 milhões?
No Benfica, é um rapaz que ainda mal tem vinte anos, chamado Di María, chegado ao clube no ano passado e que fez uma época assim-assim, que também já declara que para o ano «quer dar o salto». Aliás, esta expressão «dar o salto», muito em voga entre nós, é ofensiva em si mesma para os três grandes de Portugal. Parece que eles não são nada ao pé das ambições dos nossos candidatos a génios do futebol. E, todavia, parece-me bem que também o Benfica não se importaria de «dar o salto» para alguém bem melhor do que um Di María — um Messi, por exemplo…
E temos o caso extremo do «escravo» Cristiano Ronaldo, injustamente amarrado ao melhor clube do mundo, onde é mal tratado e recebe a miséria de 200.000 euros… por semana! A novela Cristiano-Real Madrid, que dura já há dois meses e foi indecentemente alimentada em plena disputa do Europeu (inclusive, pelo próprio Scolari!), é uma coisa vergonhosa. Vergonhoso o comportamento do Real Madrid, na atitude facílima de dar a volta à cabeça de um jogador já deslumbrado aos vinte e poucos anos, e conduzir, através dele, uma chantagem infame sobre o Manchester United. Vergonhosas as declarações do presidente da FIFA, Joseph Blatter, num campeonato de abuso verbal com o presidente da UEFA, Platini, a meterem-se em coisas que não lhes dizem respeito e a tomar partido ao lado da demagogia e da falta de regras. E muito má a atitude de Cristiano Ronaldo, revelando uma total ingratidão, uma absoluta falta de amor à camisola e de respeito pelos adeptos.
Penso que todos nós, os que escrevemos em jornais desportivos, temos uma obrigação de defender valores, mesmo contra os interesses das nossas vedetas. É preciso explicar-lhes que, não só o dinheiro não é tudo na vida, como ainda, no caso deles - já pagos sumptuosamente, com sistemas fiscais e de segurança social de excepção - é particularmente indecoroso vê-los fazer do dinheiro o motivo principal da sua dedicação a um clube. E é preciso explicar-lhes, sem medo das palavras, que este tipo de mercenarismo triunfante e apresentado como coisa natural e legítima, pode, a longo prazo, matar a galinha dos ovos de ouro, afastando do futebol os adeptos. E os adeptos são a única coisa que não pode morrer para que o futebol não morra também. Tudo o resto - dirigentes, técnicos, jogadores - vão e vêm e são sempre substituíveis. Os adeptos, não.
2- Ao escrever este artigo não sei ainda o resultado da reunião de ontem do TAS, na qual Benfica e Vitória de Guimarães depositam todas as esperanças de conseguirem entrar na Champions, não por mérito ou por conquista feita em campo, à vista de todos, mas por golpe palaciano, de secretaria. Aliás e em relação ao Benfica, devo confessar que de há muito que o não via bater-se tanto por coisa alguma. Se conseguir ganhar na Secretaria, é caso para dizer que, afinal, um João Correia vale dez Nuno Gomes e um Paulo Gonçalves vale cinco Rui Costas. Razão tinha, afinal, Luís Filipe Vieira para dizer que a nomeação de gente de confiança para os cargos da Liga valia mais do que uma boa equipa de futebol: estamos à beira de confirmara a justeza da sua previsão.
Entretanto, há uma coisa que sempre me escapou: por que carga de água é que Benfica e Guimarães são parte neste processo e são ouvidos como tal, pela UEFA? Se um processo na justiça desportiva tem alguma coisa a ver com um processo normal, só há duas partes neste processo: a Comissão Disciplinar da Liga de Clubes (e, eventualmente, o CJ da Federação), que condenou o FC Porto, por um lado; e, por outro, o próprio FC Porto, que representa o arguido, e o Comité de Apelo da UEFA, que é a entidade recorrida. Agora, Benfica e Guimarães são apenas partes interessadas, o que não é o mesmo que sujeitos processuais. E, aliás, como partes interessadas que são, que valor pode ter a sua argumentação para o apuramento da verdade e da justiça?
Se há uma conclusão primeira a tirar deste imbróglio jurídico que atravessa o futebol português, é que, olhando o comportamento de Benfica, Vitória de Guimarães e Paços de Ferreira, escusam de voltar com o choradinho do desportivismo e coisas dessas. A partir de agora, é a lei do vale tudo. Sem pergaminhos, nem vergonha, nem parentes na lama.
3- Uma réstea de pudor e de bom-senso levou a maioria dos clubes a recusar o «diktat» justiceiro que Ricardo Costa preparou para se tornar numa espécie de ASAE dos clubes. O código de sanções e o sistema de julgamento sumário e condenações que preparava, torná-lo-iam rapidamente a pessoa e entidade mais poderosa de todo o futebol português, com poderes de despromover ou extinguir, simplesmente, qualquer clube, a seu belo-prazer. Num clima de intimidação e coacção jamais vistos, tentou-se criar a ideia de que quem não aprovasse aquele código terrorista, era porque estava do lado «sujo» do futebol português. Armado em virgem indignada, o Dr. Paulo Gonçalves, advogado do Benfica (e que antes trabalhou para o Boavista, no auge do «sistema», e antes para o FC Porto, sempre pela mão de José Veiga), ficou indignado com a reprovação do «diktat». Mas, se pensasse um bocado no assunto, veria que, por exemplo, o novo crime de «tráfico de influências», proposto pelo Dr. Ricardo Costa, aplicava-se que nem uma luva àquela conversa em que o presidente do Benfica negoceia com Valentim Loureiro a escolha de um árbitro para determinado jogo do seu clube. Estivesse o código em vigor e aplicado por igual a todos, só à conta desse telefonema, o Benfica estaria agora na Liga Vitalis…
Ainda no FC Porto, Ricardo Quaresma voltou à carga, repetindo que queria sair para Itália, Espanha ou Inglaterra. Já em Fevereiro dissera o mesmo e Pinto da Costa respondeu melhorando-lhe o ordenado, prolongando o contrato e fixando a cláusula de rescisão em 40 milhões. Quaresma tem toda a legitimidade para querer jogar num campeonato mais competitivo e mais mediático, mas também ninguém o obrigou a aceitar a revisão do contrato e seguramente que não se importou de ser aumentado em Fevereiro, com o contrato a meio. Devia, pois, ficar calado e se aparecesse alguém a bancar os 40 milhões, muito bem; se não aparecesse, escusava de fazer cara de contrariado, porque quando se ganha 200.000 euros por mês e se está num clube chamado FC Porto, não há motivo algum para andar contrariado. E parece que também Lucho González e Bruno Alves andarão «deprimidos» por não terem visto confrmar-se as expectativas de saírem já para um dos milionários europeus.
Mais deprimidos ainda adivinha-se que estejam João Moutinho e Miguel Veloso, no Sporting. O Europeu não lhes rendeu a notoriedade que esperavam e ninguém apareceu a querer dar 30 e 20 milhões de euros, respectivamente, pelos seus «passes». Também eles viram os seus contratos melhorados em plena vigência e aceitaram as respectivas cláusulas de rescisão fixadas em contrapartida pelo Sporting. Veloso veio agora queixar-se que a sua cláusula de rescisão é muito cara e que assim ninguém o compra. Não foi ele que a negociou de livre vondade? Ou terá achado que era tão bom jogador que não faltariam candidatos a pagar por ele os 20 milhões?
No Benfica, é um rapaz que ainda mal tem vinte anos, chamado Di María, chegado ao clube no ano passado e que fez uma época assim-assim, que também já declara que para o ano «quer dar o salto». Aliás, esta expressão «dar o salto», muito em voga entre nós, é ofensiva em si mesma para os três grandes de Portugal. Parece que eles não são nada ao pé das ambições dos nossos candidatos a génios do futebol. E, todavia, parece-me bem que também o Benfica não se importaria de «dar o salto» para alguém bem melhor do que um Di María — um Messi, por exemplo…
E temos o caso extremo do «escravo» Cristiano Ronaldo, injustamente amarrado ao melhor clube do mundo, onde é mal tratado e recebe a miséria de 200.000 euros… por semana! A novela Cristiano-Real Madrid, que dura já há dois meses e foi indecentemente alimentada em plena disputa do Europeu (inclusive, pelo próprio Scolari!), é uma coisa vergonhosa. Vergonhoso o comportamento do Real Madrid, na atitude facílima de dar a volta à cabeça de um jogador já deslumbrado aos vinte e poucos anos, e conduzir, através dele, uma chantagem infame sobre o Manchester United. Vergonhosas as declarações do presidente da FIFA, Joseph Blatter, num campeonato de abuso verbal com o presidente da UEFA, Platini, a meterem-se em coisas que não lhes dizem respeito e a tomar partido ao lado da demagogia e da falta de regras. E muito má a atitude de Cristiano Ronaldo, revelando uma total ingratidão, uma absoluta falta de amor à camisola e de respeito pelos adeptos.
Penso que todos nós, os que escrevemos em jornais desportivos, temos uma obrigação de defender valores, mesmo contra os interesses das nossas vedetas. É preciso explicar-lhes que, não só o dinheiro não é tudo na vida, como ainda, no caso deles - já pagos sumptuosamente, com sistemas fiscais e de segurança social de excepção - é particularmente indecoroso vê-los fazer do dinheiro o motivo principal da sua dedicação a um clube. E é preciso explicar-lhes, sem medo das palavras, que este tipo de mercenarismo triunfante e apresentado como coisa natural e legítima, pode, a longo prazo, matar a galinha dos ovos de ouro, afastando do futebol os adeptos. E os adeptos são a única coisa que não pode morrer para que o futebol não morra também. Tudo o resto - dirigentes, técnicos, jogadores - vão e vêm e são sempre substituíveis. Os adeptos, não.
2- Ao escrever este artigo não sei ainda o resultado da reunião de ontem do TAS, na qual Benfica e Vitória de Guimarães depositam todas as esperanças de conseguirem entrar na Champions, não por mérito ou por conquista feita em campo, à vista de todos, mas por golpe palaciano, de secretaria. Aliás e em relação ao Benfica, devo confessar que de há muito que o não via bater-se tanto por coisa alguma. Se conseguir ganhar na Secretaria, é caso para dizer que, afinal, um João Correia vale dez Nuno Gomes e um Paulo Gonçalves vale cinco Rui Costas. Razão tinha, afinal, Luís Filipe Vieira para dizer que a nomeação de gente de confiança para os cargos da Liga valia mais do que uma boa equipa de futebol: estamos à beira de confirmara a justeza da sua previsão.
Entretanto, há uma coisa que sempre me escapou: por que carga de água é que Benfica e Guimarães são parte neste processo e são ouvidos como tal, pela UEFA? Se um processo na justiça desportiva tem alguma coisa a ver com um processo normal, só há duas partes neste processo: a Comissão Disciplinar da Liga de Clubes (e, eventualmente, o CJ da Federação), que condenou o FC Porto, por um lado; e, por outro, o próprio FC Porto, que representa o arguido, e o Comité de Apelo da UEFA, que é a entidade recorrida. Agora, Benfica e Guimarães são apenas partes interessadas, o que não é o mesmo que sujeitos processuais. E, aliás, como partes interessadas que são, que valor pode ter a sua argumentação para o apuramento da verdade e da justiça?
Se há uma conclusão primeira a tirar deste imbróglio jurídico que atravessa o futebol português, é que, olhando o comportamento de Benfica, Vitória de Guimarães e Paços de Ferreira, escusam de voltar com o choradinho do desportivismo e coisas dessas. A partir de agora, é a lei do vale tudo. Sem pergaminhos, nem vergonha, nem parentes na lama.
3- Uma réstea de pudor e de bom-senso levou a maioria dos clubes a recusar o «diktat» justiceiro que Ricardo Costa preparou para se tornar numa espécie de ASAE dos clubes. O código de sanções e o sistema de julgamento sumário e condenações que preparava, torná-lo-iam rapidamente a pessoa e entidade mais poderosa de todo o futebol português, com poderes de despromover ou extinguir, simplesmente, qualquer clube, a seu belo-prazer. Num clima de intimidação e coacção jamais vistos, tentou-se criar a ideia de que quem não aprovasse aquele código terrorista, era porque estava do lado «sujo» do futebol português. Armado em virgem indignada, o Dr. Paulo Gonçalves, advogado do Benfica (e que antes trabalhou para o Boavista, no auge do «sistema», e antes para o FC Porto, sempre pela mão de José Veiga), ficou indignado com a reprovação do «diktat». Mas, se pensasse um bocado no assunto, veria que, por exemplo, o novo crime de «tráfico de influências», proposto pelo Dr. Ricardo Costa, aplicava-se que nem uma luva àquela conversa em que o presidente do Benfica negoceia com Valentim Loureiro a escolha de um árbitro para determinado jogo do seu clube. Estivesse o código em vigor e aplicado por igual a todos, só à conta desse telefonema, o Benfica estaria agora na Liga Vitalis…