1- Na noite de ontem (já depois do envio deste texto), Benfica e Vitória de Guimarães jogaram para o tal «Troféu Platini», cuja conquista permitirá a qualquer dos clubes minorar um pouco as frustrações desta pré-época, marcada por resultados e exibições que, sobretudo no caso do Benfica, deixaram muito a desejar, mas sobretudo pela amarga derrota das pretensões jurídicas na UEFA. Para quem tenha visto o jogo, em casa ou na televisão, não pode ter deixado de vir ao espírito a ideia de que se tratava de uma espécie de jogo de consolação entre dois emblemas que tudo tentaram para entrar pela porta do cavalo numa competição onde se entra pelas provas dadas em campo. Mas o Vitória acabou por ter o favor dos deuses consigo: depois de ter continuado a insistir até ao dia do sorteio (e até que a UEFA lhe dissesse para parar de mandar requerimentos), acabou por ver o sorteio reservar-lhe um modesto adversário, a sair da dupla IFK Gotemburgo-Basileia. Melhor era impossível e, se nem assim o Vitória conseguir franquear a porta da Champions, mais expostas e imperdoáveis ficam as razões que o levaram à pouca digna batalha jurídica perdida na UEFA.
Já o Benfica, consumido pela eterna questão do «vem - não vem», agora aplicada à novela Luis Garcia, bem precisa de um troféuzinho para fazer companhia aos rivais Sporting (Guadiana) e FC Porto (Braga) e, mais do que isso, para sacudir a onda de descrença que a olho nu já se vai espalhando entre os seus adeptos e dar a Quique Flores aquilo de que ele mais precisa e que é o luxo mais raro por aquelas bandas: tempo. Tempo para fazer uma equipa e tempo para a pôr a jogar.
À frente na preparação, seguem claramente o Sporting e o FC Porto, embora ambos também condicionados pela novela de sinal contrário « vai - não vai». Pelo que se percebeu, nenhum deles desdenharia vender, quer Veloso e Moutinho, quer Quaresma. O drama é justamente que, quando se mostra vontade e necessidade de vender, o comprador baixa o preço e faz chantagem. E, entre o desastre de vender mal ou a opção de não vender e ficar com jogadores de má cara, é difícil encontrar o ponto de equilíbrio. Mais difícil ainda é estar a formar as equipas e a afinar o modelo de jogo sem se saber se até 31 de Agosto a equipa é a que está ou está desfalcada de um ou dois jogadores preponderantes.
Se me é permitida uma opinião neste mercado de milhões, acho bem mais complicado o FC Porto substituir o Quaresma do que o Sporting passar sem o Moutinho e o Veloso. E, dos valores que se vêm falando, resulta que o grande forreta da história é o Inter, quando pensa levar o Quaresma por 20 ou 25 milhões. Pinto da Costa também deve pensar o mesmo e, como se infere das suas declarações ao Corriere dello Sport, ele não compreende como é que Mourinho ainda não foi capaz de explicar aos dirigentes do Inter que o Quaresma é um desequilibrador raríssimo, um talento que pode ainda ser bastante melhorado e que vale bem 40 milhões.
Mas também se percebeu dessas declarações que está ansioso por o vender, o que nada me admira: com dez aquisições já feitas esta época, é evidente que faltam milhões na casa. É a tal politica negocial dos portistas que eu sempre critiquei, mas que parece não conhecer outra alternativa, lá pelo Dragão.
2- Quem me lê noutro lado, sabe que nunca tive grande respeito pelos «pareceres» dos mestres de direito, alguns dos quais foram meus professores na faculdade. Dar pareceres é um modo de ganhar a vida, legítimo como outro qualquer, mas de há muito que perdeu aquele aura de respeitabilidade que dantes tinha. E pela simples razão de que os mestres dão pareceres em tudo conforme aos interesses de quem lhos paga. Não é raro, aliás, encontrar, sobre a mesma questão, dois pareceres radicalmente opostos, assinados… pelo mesmo mestre. O parecer tão badalado do Prof. Freitas do Amaral vale, por isso e para mim, exactamente o que vale e que é pouco. Vale o mesmo, por exemplo, que o parecer oral e gratuito que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa deu sobre a mesma questão na RTP. Onde Freitas viu malfeitorias apenas do lado de uma facção do Conselho de Justiça, Marcelo viu-as sobretudo do lado oposto.
Mas, aparentemente e como aqui escreveu o Rui Moreira, o parecer de Freitas do Amaral foi tido pela FPF como lei e sentença. E acabou por ser ele parte decisiva da sentença que condenou o Boavista à segunda divisão e, a prazo, talvez mesmo à extinção. É isso que ficará para a história.
Mas, dentro de alguns anos - talvez já mesmo agora - quando alguém perguntar porque razão foi o Boavista despromovido à segunda divisão, ninguém lhe saberá responder. Há-de ter sido por um facto muito grave, mas o quê, ao certo? Comprou adversários, comprou árbitros? Não: estão em causa, aliás, três jogos, dos quais o Boavista empatou um e perdeu dois. O que foi então? «Coação», responderá alguém mais entendido e com melhor memória. Mas o que é isso de coação? Pode ser tudo o que se quiser e o que não se quiser: no entendimento lato do CD da Liga, coação pode ser, por exemplo, um dirigente de um clube passar pelo árbitro no intervalo de um jogo e dizer-lhe «veja lá o que anda a fazer!». Basta que o árbitro escreva isto no boletim do jogo e, segundo o critério do CD, estando os conselheiros para aí virados, o clube a que pertence o dirigente pode acabar despromovido.
Eu nunca fui à bola com o estilo Valentim Loureiro, por razões que estão à vista de todos. Mas não deixo de achar o cúmulo da hipocrisia que aqueles que puseram o major na Liga, exactamente para poderem utilizar o seu poder de influência e coação, venham depois condenar o Boavista, se calhar até assentar-lhe um golpe mortal, porque o major ou o filho fizeram aquilo que deles se esperava. E quem nunca quis coagir um árbitro ou os dirigentes da Liga, quem nunca falou de arbitragens antes dos jogos, quem nunca protagonizou cenas eventualmente condenáveis nos túneis dos estádios, que lance a primeira pedra.
Que as coisas precisavam de ser moralizadas, estamos todos de acordo. Que esta geração e este estilo de dirigentes do futebol português precisavam urgentemente de passar ao museu, é pacífico. Que se tenha escolhido exemplos à lá carte - Boavista e FC Porto - para encetar a dita «moralização», isso é o que todos sabem também que não passa de uma hipocrisia e reflecte apenas o prolongamento para o terreno da mal chamada justiça das guerras clubisticas que se deveriam limitar ao terreno de jogo. Se o major combina o árbitro de um jogo com um presidente de um clube qualquer, o major é condenado por coação; se combina com o presidente do FC Porto, são ambos condenados; mas se combina com o presidente do Benfica, o processo é mandado arquivar, sem culpados. Bela justiça!
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quinta-feira, agosto 14, 2008
A LIBERTAÇÃO DOS ESCRAVOS (29 JULHO 2008)
1- A chantagem - que não tem outro nome - que João Moutinho está a exercer sobre o Sporting é intolerável e bem andará a direcção da SAD sportinguista se não lhe ceder, sob pena de os clubes se tornarem práticamente ingovernáveis. Como dizia há dias Bobby Robson, «no meu tempo, um contrato era um contrato» e, nestes tempos de mercenarismo em que vivemos, em que o aperto de mão, a palavra de honra, a gratidão e o amor à camisola parecem ser tudo noções arrumadas no baú de alguma rara gente ainda bem educada e com princípios, se já um contrato escrito e assinado por ambas as partes também não serve de nada, então que decretem a lei da selva e venha o Sr. Blatter governar os clubes profissionais.
Moutinho nem sequer pode invocar a seu favor, ao contrário de Ricardo Quaresma e outros, o aliciante desafio profissional que o espera. O Everton é apenas o segundo clube de Liverpool, um clube mediano em Inglaterra, muito longe de aspirar a ter hipóteses no campeonato ou uma carreira na Champions.
Desportivamente, Moutinho tem mais a ganhar no Sporting do que no Everton onde cairá num«buraco negro» de esquecimento do qual não sairá tão cedo porque, como irá descobrir, em Inglaterra, um contrato ainda é um contrato - e o Manchester United está a mostrá-lo com Cristiano Ronaldo. Só há uma razão para que Moutinho queira trocar o Sporting pelo Everton e essa é apenas o dinheiro. Fica muito mal a um capitão de equipa, cujo contrato foi melhorado recentemente e na vigência dele, que é acarinhado pelos sócios e pela direcção do clube, querer ir-se embora apenas por dinheiro. Já sei que, como disse Derlei, todos têm família, um futuro em que pensar, etc. Têm os jogadores de futebol e temos nós todos. A única diferença é que ninguém ganha as fortunas que eles ganham tão somente porque têm jeito para dar chutos na bola e porque, por sorte ou azar deles, não tiveram pais que os obrigaram a esquecer a bola para seguir os estudos.
O mais feio de tudo é a estratégia que o Everton e o empresário de João Moutinho, Pini Zahavi, vêm seguindo em relação ao Sporting. É a mesma estratégia do Real Madrid com Cristiano Ronaldo e, aparentemente, a do Inter em relação a Ricardo Quaresma. Podíamos chamá-la, inspirando-nos em Blatter, a estratégia da libertação dos escravos e consiste no seguinte: um clube , normalmente mais rico ou mais forte, quer comprar um jogador de outro clube, mas não quer pagar o preço justo por ele ou não pretende respeitar a vontade desse clube de não vender o jogador; logo, começam por seduzir o jogador oferecendo-lhe um ordenado milionário e dando-lhe volta à cabeça (o que não é difícil…); então e só então, abordam o clube do jogador e fazem-lhe uma proposta de compra muito abaixo da cláusula de rescisão ou do valor justo; perante a negativa do putativo vendedor, entra então em cena o próprio jogador, que começa a fazer declarações públicas de que se quer ir embora; confrontado com a situação de chantagem assim criada, o clube que tem contrato com o jogador fica encostado à parede: ou cede à chantagem e aceita vender mal, ou recusa e fica a braços com um problema interno de um jogador contrariado, que vai começar a fazer «fitas», a fingir-se lesionado e a criar um ambiente que é ofensivo para a dignidade do clube. É uma jogada perfeita, contra a qual praticamente não há defesa.
A nossa imprensa desportiva, que tão afincadamente tenta convencer a direcção portista a vender o Quaresma ao Inter a preço de saldo ou que tanto se bate pela «libertação» de Cristiano Ronaldo do Manchester, tem alguma responsabilidade na criação deste clima de «vale tudo» que parece estar a tomar conta da cabeça dos nossos jogadores, devidamente empurrados pelos respectivos empresários. Com um pouco mais de tino, a imprensa desportiva pensaria um pouco que assim, não só despovoamos o nosso futebol dos melhores interpretes de nacionalidade lusa, como ainda se está a contribuir para a ruína financeira dos clubes. Pois se tanta gente diz e jura que a solução económica dos nossos clubes só pode ser a de formar jovens talentosos para depois os vender muito bem ao estrangeiro, se o negócio passa a ser arruinado por esta estratégia de rasga-contratos a todo o tempo, para quê investir na formação dos nossos jovens?
2- Como aqui o notei no artigo anterior, enquanto Ricardo Quaresma vai aguardando o desfecho do braço-de--ferro do Inter com o FC Porto, Jesualdo Ferreira vai tentando habituar-se a viver sem ele e a formar uma equipa que, sem Quaresma, possa continuar a assegurar o índice de capacidade ofensiva, criativa e concretizadora a que o FC Porto nos habituou em anos recentes. Não é fácil, como mais uma vez se viu contra o Celtic. Com Mariano González, não há 4x3x3 que se aguente, porque o argentino é um trapalhão completo, que entra em campo com ar de quem já está cansado e corre com a cabeça em baixo e o corpo para trás em direcção a lado nenhum, totalmente falho de ideias, de rasgo e de visão de jogo. Foi a primeira e a pior contratação do FC Porto esta época.
Das restantes contratações portistas - cujo número se aproxima já do total da época passada: onze jogadores, uma equipa completa - a ideia que fica destes primeiros jogos de pré-época é que, pelo menos, não acontecerá o mesmo que na época passada, quando dos onze jogadores contratados, nenhum teve lugar na equipa principal. Felizmente, este ano, há condições para integrar dois ou três e isso é absolutamente necessário porque, para já, Bosingwa e Paulo Assunção têm de encontrar substitutos. A eventual vaga de Quaresma poderá ter de ser resolvida com uma mudança de sistema de jogo, mas as ausências de Bosingwa e Paulo Assunção têm mesmo de ser preenchidas. Sapunaru tem sido dos que melhor se têm integrado e parece-me que o lugar de defesa-direito lhe fica bem entregue. No centro da defesa, Rolando é também reforço e é natural que, na primeira ocasião em que falte Pedro Emanuel, Jesualdo lhe entregue o lugar (e não antes apenas por respeito pela antiguidade, que ali é um posto). No lugar de «trinco», as coisas estão mais complicadas: Bolati não serve, como está mais do que visto, e Guarin, ao contrário do que a crítica tem dito, a mim não me convence: muita precipitação, muito afogueamento, timings sempre errados para entrar à bola ou entregá-la, jogo muito faltoso. Resta Fernando, que ainda não teve ocasiões para se mostrar suficientemente, ou Raul Meireles, que fez a posição durante cerca de 25 minutos contra o Celtic e bem melhor do que Guarin. Cristian Rodriguéz é sem dúvida reforço e dos bons: com Quaresma, formará duas alas do tri atacante verdadeiramente notáveis; sem Quaresma e em 4x4x2, Jesualdo provávelmente dar-lhe-á o lugar de ala mais recuado, sobre o meio-campo. Enfim, só para esse sistema alternativo é que se justifica a incrível contratação do desconhecido Hulk, por números que metem medo: ou se trata de um novo Jardel, surpreendentemente descoberto nas profundezas do campeonato japonês, ou se trata do maior barrete de sempre.
A conclusão é esta: com Quaresma, o FC Porto terá este ano uma super-equipa, bem melhor do que as de anos anteriores. Sem Quaresma, o FC Porto é, para já, uma boa equipa, com futebol organizado (nada a ver com o Benfica, por exemplo), mas falha de capacidade de chegar ao golo. Se Hulk for o génio que os milhões nele investidos levam a esperar, esse problema pode ficar resolvido; se o não for e se não houver Quaresma, pode-se regressar aos tempos de Co Adriaanse: muito ataque e muito poucos golos.
Moutinho nem sequer pode invocar a seu favor, ao contrário de Ricardo Quaresma e outros, o aliciante desafio profissional que o espera. O Everton é apenas o segundo clube de Liverpool, um clube mediano em Inglaterra, muito longe de aspirar a ter hipóteses no campeonato ou uma carreira na Champions.
Desportivamente, Moutinho tem mais a ganhar no Sporting do que no Everton onde cairá num«buraco negro» de esquecimento do qual não sairá tão cedo porque, como irá descobrir, em Inglaterra, um contrato ainda é um contrato - e o Manchester United está a mostrá-lo com Cristiano Ronaldo. Só há uma razão para que Moutinho queira trocar o Sporting pelo Everton e essa é apenas o dinheiro. Fica muito mal a um capitão de equipa, cujo contrato foi melhorado recentemente e na vigência dele, que é acarinhado pelos sócios e pela direcção do clube, querer ir-se embora apenas por dinheiro. Já sei que, como disse Derlei, todos têm família, um futuro em que pensar, etc. Têm os jogadores de futebol e temos nós todos. A única diferença é que ninguém ganha as fortunas que eles ganham tão somente porque têm jeito para dar chutos na bola e porque, por sorte ou azar deles, não tiveram pais que os obrigaram a esquecer a bola para seguir os estudos.
O mais feio de tudo é a estratégia que o Everton e o empresário de João Moutinho, Pini Zahavi, vêm seguindo em relação ao Sporting. É a mesma estratégia do Real Madrid com Cristiano Ronaldo e, aparentemente, a do Inter em relação a Ricardo Quaresma. Podíamos chamá-la, inspirando-nos em Blatter, a estratégia da libertação dos escravos e consiste no seguinte: um clube , normalmente mais rico ou mais forte, quer comprar um jogador de outro clube, mas não quer pagar o preço justo por ele ou não pretende respeitar a vontade desse clube de não vender o jogador; logo, começam por seduzir o jogador oferecendo-lhe um ordenado milionário e dando-lhe volta à cabeça (o que não é difícil…); então e só então, abordam o clube do jogador e fazem-lhe uma proposta de compra muito abaixo da cláusula de rescisão ou do valor justo; perante a negativa do putativo vendedor, entra então em cena o próprio jogador, que começa a fazer declarações públicas de que se quer ir embora; confrontado com a situação de chantagem assim criada, o clube que tem contrato com o jogador fica encostado à parede: ou cede à chantagem e aceita vender mal, ou recusa e fica a braços com um problema interno de um jogador contrariado, que vai começar a fazer «fitas», a fingir-se lesionado e a criar um ambiente que é ofensivo para a dignidade do clube. É uma jogada perfeita, contra a qual praticamente não há defesa.
A nossa imprensa desportiva, que tão afincadamente tenta convencer a direcção portista a vender o Quaresma ao Inter a preço de saldo ou que tanto se bate pela «libertação» de Cristiano Ronaldo do Manchester, tem alguma responsabilidade na criação deste clima de «vale tudo» que parece estar a tomar conta da cabeça dos nossos jogadores, devidamente empurrados pelos respectivos empresários. Com um pouco mais de tino, a imprensa desportiva pensaria um pouco que assim, não só despovoamos o nosso futebol dos melhores interpretes de nacionalidade lusa, como ainda se está a contribuir para a ruína financeira dos clubes. Pois se tanta gente diz e jura que a solução económica dos nossos clubes só pode ser a de formar jovens talentosos para depois os vender muito bem ao estrangeiro, se o negócio passa a ser arruinado por esta estratégia de rasga-contratos a todo o tempo, para quê investir na formação dos nossos jovens?
2- Como aqui o notei no artigo anterior, enquanto Ricardo Quaresma vai aguardando o desfecho do braço-de--ferro do Inter com o FC Porto, Jesualdo Ferreira vai tentando habituar-se a viver sem ele e a formar uma equipa que, sem Quaresma, possa continuar a assegurar o índice de capacidade ofensiva, criativa e concretizadora a que o FC Porto nos habituou em anos recentes. Não é fácil, como mais uma vez se viu contra o Celtic. Com Mariano González, não há 4x3x3 que se aguente, porque o argentino é um trapalhão completo, que entra em campo com ar de quem já está cansado e corre com a cabeça em baixo e o corpo para trás em direcção a lado nenhum, totalmente falho de ideias, de rasgo e de visão de jogo. Foi a primeira e a pior contratação do FC Porto esta época.
Das restantes contratações portistas - cujo número se aproxima já do total da época passada: onze jogadores, uma equipa completa - a ideia que fica destes primeiros jogos de pré-época é que, pelo menos, não acontecerá o mesmo que na época passada, quando dos onze jogadores contratados, nenhum teve lugar na equipa principal. Felizmente, este ano, há condições para integrar dois ou três e isso é absolutamente necessário porque, para já, Bosingwa e Paulo Assunção têm de encontrar substitutos. A eventual vaga de Quaresma poderá ter de ser resolvida com uma mudança de sistema de jogo, mas as ausências de Bosingwa e Paulo Assunção têm mesmo de ser preenchidas. Sapunaru tem sido dos que melhor se têm integrado e parece-me que o lugar de defesa-direito lhe fica bem entregue. No centro da defesa, Rolando é também reforço e é natural que, na primeira ocasião em que falte Pedro Emanuel, Jesualdo lhe entregue o lugar (e não antes apenas por respeito pela antiguidade, que ali é um posto). No lugar de «trinco», as coisas estão mais complicadas: Bolati não serve, como está mais do que visto, e Guarin, ao contrário do que a crítica tem dito, a mim não me convence: muita precipitação, muito afogueamento, timings sempre errados para entrar à bola ou entregá-la, jogo muito faltoso. Resta Fernando, que ainda não teve ocasiões para se mostrar suficientemente, ou Raul Meireles, que fez a posição durante cerca de 25 minutos contra o Celtic e bem melhor do que Guarin. Cristian Rodriguéz é sem dúvida reforço e dos bons: com Quaresma, formará duas alas do tri atacante verdadeiramente notáveis; sem Quaresma e em 4x4x2, Jesualdo provávelmente dar-lhe-á o lugar de ala mais recuado, sobre o meio-campo. Enfim, só para esse sistema alternativo é que se justifica a incrível contratação do desconhecido Hulk, por números que metem medo: ou se trata de um novo Jardel, surpreendentemente descoberto nas profundezas do campeonato japonês, ou se trata do maior barrete de sempre.
A conclusão é esta: com Quaresma, o FC Porto terá este ano uma super-equipa, bem melhor do que as de anos anteriores. Sem Quaresma, o FC Porto é, para já, uma boa equipa, com futebol organizado (nada a ver com o Benfica, por exemplo), mas falha de capacidade de chegar ao golo. Se Hulk for o génio que os milhões nele investidos levam a esperar, esse problema pode ficar resolvido; se o não for e se não houver Quaresma, pode-se regressar aos tempos de Co Adriaanse: muito ataque e muito poucos golos.
segunda-feira, julho 28, 2008
AH,AFINAL NÃO ERA A SÉRIO! ( 22 JULHO 2008 )
1- Afinal, o Benfica não queria ir à Champions, disputando a pré-eliminatória na vaga do Vitória de Guimarães, que, por sua vez, entraria directo na vaga do FC Porto. Afinal, o que parecia não era: a apressada denúncia logo feita pelo Benfica à FPF para que esta corresse a comunicar à UEFA que uma coisa chamada Comissão Disciplinar da Liga tinha julgado o FC Porto culpado de tentativa de corrupção e este não havia recorrido; os milhares e milhares de euros gastos em advogados, jurisconsultos, especialistas internacionais, para defender a posição do Benfica na questão - uma posição em que não era parte envolvida, mas simplesmente interessada; os esforços titânicos feitos para ganhar no campo jurídico o que o clube nunca mostrou ser capaz de ganhar no terreno de jogo - tudo isso era a fingir. O Benfica não queria ir à Champions: queria apenas chatear o FC Porto. Garantiu-o Luís Filipe Viera esta semana, em entrevista a Judite de Sousa. Se o Benfica tem obtido ganho de causa junto da UEFA, o seu presidente trataria logo de abdicar do efeito prático dessa vitória, propondo aos órgãos sociais do clube que este renunciasse… a favor do V.Setúbal. Acredite quem quiser.
Eu, claro, não acredito. Se essa fosse a vontade de Vieira, deveria tê-lo dito antes do desfecho e não depois de ter falhado a usurpação tentada. Depois de perder, é facil vir dizer que nunca se quis ganhar. Mas antes é que isso teria algum valor. Conforme ouvi a muitos benfiquistas, incomodados com o assunto, o que a direcção do seu clube deveria ter feito para evitar a tristíssima figura que fez, era ter ficado simplesmente quieta e muda, à espera que a UEFA, a Liga de Clubes, a Federação e o FC Porto resolvessem o assunto, que só a eles respeitava. Assim, é preciso acreditar nas boas intenções póstumas.
E não é fácil acreditar no desportivismo desta direcção benfiquista. São os mesmos que se prestaram a ir a um jantar de propaganda eleitoral do PSD para agradecer favores políticos, relativos a dívidas fiscais e à construção do estádio; os mesmos que tentaram safar Nuno Assis com recurso a meros expedientes burocráticos, como se não existisse a questão principal, que eram as análises positivas de doping; os mesmos que «compraram» o jogo no Algarve ao Estoril-Praia, assim dando passo decisivo para serem campeões em 2005 e arrumar com o Estoril para a 2ª divisão; os mesmos que este ano se especializaram em comprar jogadores aos clubes com quem iam jogar a seguir; os mesmos que cada vez que não conseguem os resultados esperados inventam sempre desculpas de mau pagador e conspirações sombrias; os mesmos que se aliaram a Valentim Loureiro para controlar a Liga de clubes contra Sporting e FC Porto e que depois, quando o viram metido em alhadas, lavaram as mãos do assunto, como se não tivessem nada a ver com ele, com a Liga e com o tal de «sistema».
Desportivismo? Desportivismo é chegar ao fim do campeonato e dizer «eles mereceram ganhar». Já alguém ouviu algum dos actuais dirigentes do Benfica dizer isso alguma vez?
2- A direcção do Benfica, que fez desta novela na UEFA o caso do «defeso» e que nela investiu tudo, sem querer saber dos pergaminhos ou do prestígio do clube, sem sequer auscultar a vontade dos sócios, prestou um péssimo serviço ao clube e à sua história. Eles lá sabem…
E, atrás deles, entontecidos pela miragem de entrar directos na Liga milionária sem os riscos da pré-eliminatória, incapazes de resistir à tentação de empochar cinco milhões de euros caídos do céu, sem um estremecimento de pudor por querer entrar na Europa dos grandes à custa do clube que lhes enfiara 5-0 em casa no jogo em que eles poderiam ter conquistado em campo esse direito, seguiram os responsáveis do Vitória de Guimarães. Trocaram uma amizade sólida e uma simpatia antiga da parte do FC Porto e dos seus adeptos pela sedução dos milhões. E, a avaliar pelos resultados e crónicas dos jogos de pré-época percebe-se bem porquê: porque esta porta das traseiras era a única em que os responsáveis vimaraneneses confiavam para entrar onde não esperavam.
Leio por aí que o Vitória, apesar de tudo, ainda espera que o FC Porto lhe volte a emprestar o Alan, aliviados que devem estar com a declaração de Pinto da Costa de que não tem nada contra o Vitória. Pois, talvez ele não tenha, mas os adeptos, esses, garanto-vos que têm e não esquecerão tão cedo: é só esperar para ver a recepção que o Dragão lhes dispensará da próxima vez que lá forem. O Vitoria, agora, que se prepare para experimentar o que lhe reserva o futuro da sua nova amizade com o Benfica - sim, o mesmo Benfica que passou toda a segunda volta do último campeonato a insinuar que o Vitória só lhe seguia à frente por favores de arbitragem. Essa nova amizade vai agora ser celebrada no «Troféu Platini», como lhe chamou o benfiquista Silvio Cervan, e seguramente que a direcção do Vitória não deixará de ter ocasião de experimentar, a propósito do interesse benfiquista no defesa Sereno, os métodos que o Benfica costuma usar quando pretende comprar jogadores de clubes «menores» que Sua Majestade (o Belenenses ou a Académica podem-lhes fazer um briefing sobre o assunto…).
3- Se os esforços diários e incansáveis de alguns jornalistas desportivos forem coroados de êxito, Jesualdo Ferreira vai mesmo perder Ricardo Quaresma. A sua saída seria, como alguém de um clube rival já confessou, a melhor aquisição da época para o Sporting e Benfica: não há Pablo Aimar nem Rochemback que valham a saída de Quaresma do FC Porto. Por isso mesmo e inversamente, a grande alegria, a grande e anunciada aquisição que Pinto da Costa prometeu ainda apresentar aos sócios, seria… a continuação de Ricardo Quaresma.
Entretanto, Jesualdo vai-se preparando para o pior. E, a avaliar pelos quatro jogos de preparação, em que Quaresma apenas fez uma passeata, o pior é garantido. Sem Quaresma, o FC Porto perde metade da sua capacidade ofensiva e muito mais da sua capacidade criativa lá na frente. Eu sei que há ainda portistas que têm dúvidas, mas as estatísticas são o que são: nas últimas três épocas, Ricardo Quaresma respondeu, directa ou indirectamente, como autor ou como assistente, por metade dos golos da equipa. Seguramente que não é o inofensivo Mariano González quem o vai substituir; nem o Tarik, nem o Alan. O Rodriguéz, sim, esse é jogador para flanquear o jogo, embora não seja um extremo puro. Mas se, do outro lado, em lugar do Quaresma, estiver o Mariano ou o Tarik, adeus 4X3X3 de tão boa memória! Por isso mesmo, Jesualdo anda a experimentar coisas complicadíssimas (para mim, pelo menos, que não percebo nada de tácticas), tais como o 4x2x3x1 ou o 4x1x4x1.
Mais uma razão para eu não perceber a lista de dispensas de Jesualdo: o Vieirinha, que tão bem se tem exibido no PAOK, não daria jeito? O Ibson, que os brasileiros veneram, não merecia uma nova oportunidade? O Leandro Lima não era uma promessa à beira da confirmação, ainda por cima com dois anos a mais? O Pittbull não é dez vezes melhor que um Mariano? Ainda há dúvidas de que o Bruno Moraes, devidamente motivado e sem lesões, pode ser um excelente ponta-de-lança, ou o Mourinho ter-se-á enganado?
Uma série de perguntas sem resposta, naufragadas num mar sul-americano de hipóteses por confirmar e suspensas da pergunta mortal: vamos mesmo perder o Quaresma?
Eu, claro, não acredito. Se essa fosse a vontade de Vieira, deveria tê-lo dito antes do desfecho e não depois de ter falhado a usurpação tentada. Depois de perder, é facil vir dizer que nunca se quis ganhar. Mas antes é que isso teria algum valor. Conforme ouvi a muitos benfiquistas, incomodados com o assunto, o que a direcção do seu clube deveria ter feito para evitar a tristíssima figura que fez, era ter ficado simplesmente quieta e muda, à espera que a UEFA, a Liga de Clubes, a Federação e o FC Porto resolvessem o assunto, que só a eles respeitava. Assim, é preciso acreditar nas boas intenções póstumas.
E não é fácil acreditar no desportivismo desta direcção benfiquista. São os mesmos que se prestaram a ir a um jantar de propaganda eleitoral do PSD para agradecer favores políticos, relativos a dívidas fiscais e à construção do estádio; os mesmos que tentaram safar Nuno Assis com recurso a meros expedientes burocráticos, como se não existisse a questão principal, que eram as análises positivas de doping; os mesmos que «compraram» o jogo no Algarve ao Estoril-Praia, assim dando passo decisivo para serem campeões em 2005 e arrumar com o Estoril para a 2ª divisão; os mesmos que este ano se especializaram em comprar jogadores aos clubes com quem iam jogar a seguir; os mesmos que cada vez que não conseguem os resultados esperados inventam sempre desculpas de mau pagador e conspirações sombrias; os mesmos que se aliaram a Valentim Loureiro para controlar a Liga de clubes contra Sporting e FC Porto e que depois, quando o viram metido em alhadas, lavaram as mãos do assunto, como se não tivessem nada a ver com ele, com a Liga e com o tal de «sistema».
Desportivismo? Desportivismo é chegar ao fim do campeonato e dizer «eles mereceram ganhar». Já alguém ouviu algum dos actuais dirigentes do Benfica dizer isso alguma vez?
2- A direcção do Benfica, que fez desta novela na UEFA o caso do «defeso» e que nela investiu tudo, sem querer saber dos pergaminhos ou do prestígio do clube, sem sequer auscultar a vontade dos sócios, prestou um péssimo serviço ao clube e à sua história. Eles lá sabem…
E, atrás deles, entontecidos pela miragem de entrar directos na Liga milionária sem os riscos da pré-eliminatória, incapazes de resistir à tentação de empochar cinco milhões de euros caídos do céu, sem um estremecimento de pudor por querer entrar na Europa dos grandes à custa do clube que lhes enfiara 5-0 em casa no jogo em que eles poderiam ter conquistado em campo esse direito, seguiram os responsáveis do Vitória de Guimarães. Trocaram uma amizade sólida e uma simpatia antiga da parte do FC Porto e dos seus adeptos pela sedução dos milhões. E, a avaliar pelos resultados e crónicas dos jogos de pré-época percebe-se bem porquê: porque esta porta das traseiras era a única em que os responsáveis vimaraneneses confiavam para entrar onde não esperavam.
Leio por aí que o Vitória, apesar de tudo, ainda espera que o FC Porto lhe volte a emprestar o Alan, aliviados que devem estar com a declaração de Pinto da Costa de que não tem nada contra o Vitória. Pois, talvez ele não tenha, mas os adeptos, esses, garanto-vos que têm e não esquecerão tão cedo: é só esperar para ver a recepção que o Dragão lhes dispensará da próxima vez que lá forem. O Vitoria, agora, que se prepare para experimentar o que lhe reserva o futuro da sua nova amizade com o Benfica - sim, o mesmo Benfica que passou toda a segunda volta do último campeonato a insinuar que o Vitória só lhe seguia à frente por favores de arbitragem. Essa nova amizade vai agora ser celebrada no «Troféu Platini», como lhe chamou o benfiquista Silvio Cervan, e seguramente que a direcção do Vitória não deixará de ter ocasião de experimentar, a propósito do interesse benfiquista no defesa Sereno, os métodos que o Benfica costuma usar quando pretende comprar jogadores de clubes «menores» que Sua Majestade (o Belenenses ou a Académica podem-lhes fazer um briefing sobre o assunto…).
3- Se os esforços diários e incansáveis de alguns jornalistas desportivos forem coroados de êxito, Jesualdo Ferreira vai mesmo perder Ricardo Quaresma. A sua saída seria, como alguém de um clube rival já confessou, a melhor aquisição da época para o Sporting e Benfica: não há Pablo Aimar nem Rochemback que valham a saída de Quaresma do FC Porto. Por isso mesmo e inversamente, a grande alegria, a grande e anunciada aquisição que Pinto da Costa prometeu ainda apresentar aos sócios, seria… a continuação de Ricardo Quaresma.
Entretanto, Jesualdo vai-se preparando para o pior. E, a avaliar pelos quatro jogos de preparação, em que Quaresma apenas fez uma passeata, o pior é garantido. Sem Quaresma, o FC Porto perde metade da sua capacidade ofensiva e muito mais da sua capacidade criativa lá na frente. Eu sei que há ainda portistas que têm dúvidas, mas as estatísticas são o que são: nas últimas três épocas, Ricardo Quaresma respondeu, directa ou indirectamente, como autor ou como assistente, por metade dos golos da equipa. Seguramente que não é o inofensivo Mariano González quem o vai substituir; nem o Tarik, nem o Alan. O Rodriguéz, sim, esse é jogador para flanquear o jogo, embora não seja um extremo puro. Mas se, do outro lado, em lugar do Quaresma, estiver o Mariano ou o Tarik, adeus 4X3X3 de tão boa memória! Por isso mesmo, Jesualdo anda a experimentar coisas complicadíssimas (para mim, pelo menos, que não percebo nada de tácticas), tais como o 4x2x3x1 ou o 4x1x4x1.
Mais uma razão para eu não perceber a lista de dispensas de Jesualdo: o Vieirinha, que tão bem se tem exibido no PAOK, não daria jeito? O Ibson, que os brasileiros veneram, não merecia uma nova oportunidade? O Leandro Lima não era uma promessa à beira da confirmação, ainda por cima com dois anos a mais? O Pittbull não é dez vezes melhor que um Mariano? Ainda há dúvidas de que o Bruno Moraes, devidamente motivado e sem lesões, pode ser um excelente ponta-de-lança, ou o Mourinho ter-se-á enganado?
Uma série de perguntas sem resposta, naufragadas num mar sul-americano de hipóteses por confirmar e suspensas da pergunta mortal: vamos mesmo perder o Quaresma?
ESCRAVOS E SENHORES ( 15 JULHO 2008 )
1- Paulo Assunção invocou uma novidade jurídica chamada «Lei Webster» e foi-se embora, sem dar cavaco nem cumprimento ao último ano de contrato que tinha com o FC Porto. Parece que é uma disposição que «protege» os jogadores com mais de 26 anos, permitindo-lhes rasgar um contrato a meio, se surgir melhor oportunidade. Pena que não seja uma disposição bi-lateral, funcionando também a favor dos clubes, que assim aproveitariam para se livrar dos «pesos mortos» que por lá têm a arrastar-se e «protegidos» também por contratos de longa duração. E é pena que o FC Porto, embrenhado na batalha jurídica da UEFA, que lhe foi desencadeada pelo Benfica, não tenha tido tempo ou ânimo para abrir ele uma batalha jurídica contra Paulo Assunção, o Atlético de Madrid e a Lei Webster.
Ainda no FC Porto, Ricardo Quaresma voltou à carga, repetindo que queria sair para Itália, Espanha ou Inglaterra. Já em Fevereiro dissera o mesmo e Pinto da Costa respondeu melhorando-lhe o ordenado, prolongando o contrato e fixando a cláusula de rescisão em 40 milhões. Quaresma tem toda a legitimidade para querer jogar num campeonato mais competitivo e mais mediático, mas também ninguém o obrigou a aceitar a revisão do contrato e seguramente que não se importou de ser aumentado em Fevereiro, com o contrato a meio. Devia, pois, ficar calado e se aparecesse alguém a bancar os 40 milhões, muito bem; se não aparecesse, escusava de fazer cara de contrariado, porque quando se ganha 200.000 euros por mês e se está num clube chamado FC Porto, não há motivo algum para andar contrariado. E parece que também Lucho González e Bruno Alves andarão «deprimidos» por não terem visto confrmar-se as expectativas de saírem já para um dos milionários europeus.
Mais deprimidos ainda adivinha-se que estejam João Moutinho e Miguel Veloso, no Sporting. O Europeu não lhes rendeu a notoriedade que esperavam e ninguém apareceu a querer dar 30 e 20 milhões de euros, respectivamente, pelos seus «passes». Também eles viram os seus contratos melhorados em plena vigência e aceitaram as respectivas cláusulas de rescisão fixadas em contrapartida pelo Sporting. Veloso veio agora queixar-se que a sua cláusula de rescisão é muito cara e que assim ninguém o compra. Não foi ele que a negociou de livre vondade? Ou terá achado que era tão bom jogador que não faltariam candidatos a pagar por ele os 20 milhões?
No Benfica, é um rapaz que ainda mal tem vinte anos, chamado Di María, chegado ao clube no ano passado e que fez uma época assim-assim, que também já declara que para o ano «quer dar o salto». Aliás, esta expressão «dar o salto», muito em voga entre nós, é ofensiva em si mesma para os três grandes de Portugal. Parece que eles não são nada ao pé das ambições dos nossos candidatos a génios do futebol. E, todavia, parece-me bem que também o Benfica não se importaria de «dar o salto» para alguém bem melhor do que um Di María — um Messi, por exemplo…
E temos o caso extremo do «escravo» Cristiano Ronaldo, injustamente amarrado ao melhor clube do mundo, onde é mal tratado e recebe a miséria de 200.000 euros… por semana! A novela Cristiano-Real Madrid, que dura já há dois meses e foi indecentemente alimentada em plena disputa do Europeu (inclusive, pelo próprio Scolari!), é uma coisa vergonhosa. Vergonhoso o comportamento do Real Madrid, na atitude facílima de dar a volta à cabeça de um jogador já deslumbrado aos vinte e poucos anos, e conduzir, através dele, uma chantagem infame sobre o Manchester United. Vergonhosas as declarações do presidente da FIFA, Joseph Blatter, num campeonato de abuso verbal com o presidente da UEFA, Platini, a meterem-se em coisas que não lhes dizem respeito e a tomar partido ao lado da demagogia e da falta de regras. E muito má a atitude de Cristiano Ronaldo, revelando uma total ingratidão, uma absoluta falta de amor à camisola e de respeito pelos adeptos.
Penso que todos nós, os que escrevemos em jornais desportivos, temos uma obrigação de defender valores, mesmo contra os interesses das nossas vedetas. É preciso explicar-lhes que, não só o dinheiro não é tudo na vida, como ainda, no caso deles - já pagos sumptuosamente, com sistemas fiscais e de segurança social de excepção - é particularmente indecoroso vê-los fazer do dinheiro o motivo principal da sua dedicação a um clube. E é preciso explicar-lhes, sem medo das palavras, que este tipo de mercenarismo triunfante e apresentado como coisa natural e legítima, pode, a longo prazo, matar a galinha dos ovos de ouro, afastando do futebol os adeptos. E os adeptos são a única coisa que não pode morrer para que o futebol não morra também. Tudo o resto - dirigentes, técnicos, jogadores - vão e vêm e são sempre substituíveis. Os adeptos, não.
2- Ao escrever este artigo não sei ainda o resultado da reunião de ontem do TAS, na qual Benfica e Vitória de Guimarães depositam todas as esperanças de conseguirem entrar na Champions, não por mérito ou por conquista feita em campo, à vista de todos, mas por golpe palaciano, de secretaria. Aliás e em relação ao Benfica, devo confessar que de há muito que o não via bater-se tanto por coisa alguma. Se conseguir ganhar na Secretaria, é caso para dizer que, afinal, um João Correia vale dez Nuno Gomes e um Paulo Gonçalves vale cinco Rui Costas. Razão tinha, afinal, Luís Filipe Vieira para dizer que a nomeação de gente de confiança para os cargos da Liga valia mais do que uma boa equipa de futebol: estamos à beira de confirmara a justeza da sua previsão.
Entretanto, há uma coisa que sempre me escapou: por que carga de água é que Benfica e Guimarães são parte neste processo e são ouvidos como tal, pela UEFA? Se um processo na justiça desportiva tem alguma coisa a ver com um processo normal, só há duas partes neste processo: a Comissão Disciplinar da Liga de Clubes (e, eventualmente, o CJ da Federação), que condenou o FC Porto, por um lado; e, por outro, o próprio FC Porto, que representa o arguido, e o Comité de Apelo da UEFA, que é a entidade recorrida. Agora, Benfica e Guimarães são apenas partes interessadas, o que não é o mesmo que sujeitos processuais. E, aliás, como partes interessadas que são, que valor pode ter a sua argumentação para o apuramento da verdade e da justiça?
Se há uma conclusão primeira a tirar deste imbróglio jurídico que atravessa o futebol português, é que, olhando o comportamento de Benfica, Vitória de Guimarães e Paços de Ferreira, escusam de voltar com o choradinho do desportivismo e coisas dessas. A partir de agora, é a lei do vale tudo. Sem pergaminhos, nem vergonha, nem parentes na lama.
3- Uma réstea de pudor e de bom-senso levou a maioria dos clubes a recusar o «diktat» justiceiro que Ricardo Costa preparou para se tornar numa espécie de ASAE dos clubes. O código de sanções e o sistema de julgamento sumário e condenações que preparava, torná-lo-iam rapidamente a pessoa e entidade mais poderosa de todo o futebol português, com poderes de despromover ou extinguir, simplesmente, qualquer clube, a seu belo-prazer. Num clima de intimidação e coacção jamais vistos, tentou-se criar a ideia de que quem não aprovasse aquele código terrorista, era porque estava do lado «sujo» do futebol português. Armado em virgem indignada, o Dr. Paulo Gonçalves, advogado do Benfica (e que antes trabalhou para o Boavista, no auge do «sistema», e antes para o FC Porto, sempre pela mão de José Veiga), ficou indignado com a reprovação do «diktat». Mas, se pensasse um bocado no assunto, veria que, por exemplo, o novo crime de «tráfico de influências», proposto pelo Dr. Ricardo Costa, aplicava-se que nem uma luva àquela conversa em que o presidente do Benfica negoceia com Valentim Loureiro a escolha de um árbitro para determinado jogo do seu clube. Estivesse o código em vigor e aplicado por igual a todos, só à conta desse telefonema, o Benfica estaria agora na Liga Vitalis…
Ainda no FC Porto, Ricardo Quaresma voltou à carga, repetindo que queria sair para Itália, Espanha ou Inglaterra. Já em Fevereiro dissera o mesmo e Pinto da Costa respondeu melhorando-lhe o ordenado, prolongando o contrato e fixando a cláusula de rescisão em 40 milhões. Quaresma tem toda a legitimidade para querer jogar num campeonato mais competitivo e mais mediático, mas também ninguém o obrigou a aceitar a revisão do contrato e seguramente que não se importou de ser aumentado em Fevereiro, com o contrato a meio. Devia, pois, ficar calado e se aparecesse alguém a bancar os 40 milhões, muito bem; se não aparecesse, escusava de fazer cara de contrariado, porque quando se ganha 200.000 euros por mês e se está num clube chamado FC Porto, não há motivo algum para andar contrariado. E parece que também Lucho González e Bruno Alves andarão «deprimidos» por não terem visto confrmar-se as expectativas de saírem já para um dos milionários europeus.
Mais deprimidos ainda adivinha-se que estejam João Moutinho e Miguel Veloso, no Sporting. O Europeu não lhes rendeu a notoriedade que esperavam e ninguém apareceu a querer dar 30 e 20 milhões de euros, respectivamente, pelos seus «passes». Também eles viram os seus contratos melhorados em plena vigência e aceitaram as respectivas cláusulas de rescisão fixadas em contrapartida pelo Sporting. Veloso veio agora queixar-se que a sua cláusula de rescisão é muito cara e que assim ninguém o compra. Não foi ele que a negociou de livre vondade? Ou terá achado que era tão bom jogador que não faltariam candidatos a pagar por ele os 20 milhões?
No Benfica, é um rapaz que ainda mal tem vinte anos, chamado Di María, chegado ao clube no ano passado e que fez uma época assim-assim, que também já declara que para o ano «quer dar o salto». Aliás, esta expressão «dar o salto», muito em voga entre nós, é ofensiva em si mesma para os três grandes de Portugal. Parece que eles não são nada ao pé das ambições dos nossos candidatos a génios do futebol. E, todavia, parece-me bem que também o Benfica não se importaria de «dar o salto» para alguém bem melhor do que um Di María — um Messi, por exemplo…
E temos o caso extremo do «escravo» Cristiano Ronaldo, injustamente amarrado ao melhor clube do mundo, onde é mal tratado e recebe a miséria de 200.000 euros… por semana! A novela Cristiano-Real Madrid, que dura já há dois meses e foi indecentemente alimentada em plena disputa do Europeu (inclusive, pelo próprio Scolari!), é uma coisa vergonhosa. Vergonhoso o comportamento do Real Madrid, na atitude facílima de dar a volta à cabeça de um jogador já deslumbrado aos vinte e poucos anos, e conduzir, através dele, uma chantagem infame sobre o Manchester United. Vergonhosas as declarações do presidente da FIFA, Joseph Blatter, num campeonato de abuso verbal com o presidente da UEFA, Platini, a meterem-se em coisas que não lhes dizem respeito e a tomar partido ao lado da demagogia e da falta de regras. E muito má a atitude de Cristiano Ronaldo, revelando uma total ingratidão, uma absoluta falta de amor à camisola e de respeito pelos adeptos.
Penso que todos nós, os que escrevemos em jornais desportivos, temos uma obrigação de defender valores, mesmo contra os interesses das nossas vedetas. É preciso explicar-lhes que, não só o dinheiro não é tudo na vida, como ainda, no caso deles - já pagos sumptuosamente, com sistemas fiscais e de segurança social de excepção - é particularmente indecoroso vê-los fazer do dinheiro o motivo principal da sua dedicação a um clube. E é preciso explicar-lhes, sem medo das palavras, que este tipo de mercenarismo triunfante e apresentado como coisa natural e legítima, pode, a longo prazo, matar a galinha dos ovos de ouro, afastando do futebol os adeptos. E os adeptos são a única coisa que não pode morrer para que o futebol não morra também. Tudo o resto - dirigentes, técnicos, jogadores - vão e vêm e são sempre substituíveis. Os adeptos, não.
2- Ao escrever este artigo não sei ainda o resultado da reunião de ontem do TAS, na qual Benfica e Vitória de Guimarães depositam todas as esperanças de conseguirem entrar na Champions, não por mérito ou por conquista feita em campo, à vista de todos, mas por golpe palaciano, de secretaria. Aliás e em relação ao Benfica, devo confessar que de há muito que o não via bater-se tanto por coisa alguma. Se conseguir ganhar na Secretaria, é caso para dizer que, afinal, um João Correia vale dez Nuno Gomes e um Paulo Gonçalves vale cinco Rui Costas. Razão tinha, afinal, Luís Filipe Vieira para dizer que a nomeação de gente de confiança para os cargos da Liga valia mais do que uma boa equipa de futebol: estamos à beira de confirmara a justeza da sua previsão.
Entretanto, há uma coisa que sempre me escapou: por que carga de água é que Benfica e Guimarães são parte neste processo e são ouvidos como tal, pela UEFA? Se um processo na justiça desportiva tem alguma coisa a ver com um processo normal, só há duas partes neste processo: a Comissão Disciplinar da Liga de Clubes (e, eventualmente, o CJ da Federação), que condenou o FC Porto, por um lado; e, por outro, o próprio FC Porto, que representa o arguido, e o Comité de Apelo da UEFA, que é a entidade recorrida. Agora, Benfica e Guimarães são apenas partes interessadas, o que não é o mesmo que sujeitos processuais. E, aliás, como partes interessadas que são, que valor pode ter a sua argumentação para o apuramento da verdade e da justiça?
Se há uma conclusão primeira a tirar deste imbróglio jurídico que atravessa o futebol português, é que, olhando o comportamento de Benfica, Vitória de Guimarães e Paços de Ferreira, escusam de voltar com o choradinho do desportivismo e coisas dessas. A partir de agora, é a lei do vale tudo. Sem pergaminhos, nem vergonha, nem parentes na lama.
3- Uma réstea de pudor e de bom-senso levou a maioria dos clubes a recusar o «diktat» justiceiro que Ricardo Costa preparou para se tornar numa espécie de ASAE dos clubes. O código de sanções e o sistema de julgamento sumário e condenações que preparava, torná-lo-iam rapidamente a pessoa e entidade mais poderosa de todo o futebol português, com poderes de despromover ou extinguir, simplesmente, qualquer clube, a seu belo-prazer. Num clima de intimidação e coacção jamais vistos, tentou-se criar a ideia de que quem não aprovasse aquele código terrorista, era porque estava do lado «sujo» do futebol português. Armado em virgem indignada, o Dr. Paulo Gonçalves, advogado do Benfica (e que antes trabalhou para o Boavista, no auge do «sistema», e antes para o FC Porto, sempre pela mão de José Veiga), ficou indignado com a reprovação do «diktat». Mas, se pensasse um bocado no assunto, veria que, por exemplo, o novo crime de «tráfico de influências», proposto pelo Dr. Ricardo Costa, aplicava-se que nem uma luva àquela conversa em que o presidente do Benfica negoceia com Valentim Loureiro a escolha de um árbitro para determinado jogo do seu clube. Estivesse o código em vigor e aplicado por igual a todos, só à conta desse telefonema, o Benfica estaria agora na Liga Vitalis…
JUSTIÇA, DIZEM ELES... ( 08 JULHO 2008 )
1- O que mais vontade de rir me dá, naquela palhaçada protagonizada pelo Conselho de Justiça da FPF, é ver como aqueles que passaram meses a tentar desacreditar o dito Conselho, antevendo decisões favoráveis ao FC Porto e Boavista, agora, confrontados com o resultado inverso, descobrem nos «seus» conselheiros homens de «coragem», que «viraram uma página no futebol português». Sinceramente, só me dá vontade de rir.
Meses a fio, explicaram-nos que o CJ estava em contra-corrente com os «novos tempos» de «moralização» e que, por isso, só devíamos confiar no Conselho de Disciplina, onde pontifica um justiceiro inquebrável, embora com um pequeno defeito visual que só o deixa enxergar a norte. Repetiram-nos até à exaustão, por exemplo, que o presidente do CJ era mais do que suspeito para decidir qualquer processo relativo ao Boavista, visto que é vereador na Câmara de Gondomar (só «esquecendo» de acrescentar que ele é vereador sim, mas… da oposição a Valentim Loureiro). Ainda a semana passada, no recurso interposto perante o Tribunal Arbitral Desportivo da UEFA, o Benfica escrevia que não valia a pena esperar pela decisão de recurso do nosso CJ porque se tratava de um órgão «sem credibilidade». Afinal, ainda as facas estavam a ser afiadas na reunião do CJ, e já o Benfica estava a salivar por uma certidão da douta «decisão» de tão insigne órgão, que lhe permitisse esgrimir mais argumentos na UEFA a favor da sua tese de que o 4º classificado no campeonato, a 23 pontos do 1º, é que merece representar o país na Champions.
2- O que se terá passado, então, para justificar tamanha cambalhota? Pois, os meandros eu não sei. Sei é que, e tal como ficou cristalinamente claro, tirando um dos conselheiros do dito CJ, que passa por pessoa isenta, todos os outros tinham votos agenciados, ou a favor da facção FC Porto/Boavista ou a favor da facção Benfica/V. Guimarães. Sabia-se que a votação final seria sempre 4-3 e sempre se partiu de princípio de que ganharia a facção portista: daí a campanha de descredibilização e intimidação do CJ. Mas aconteceu que, à boca das urnas, se descobriu que um ou dois conselheiros tinham, entretanto, «deslizado» de posição - certamente convencidos por argumentos muito fortes. Vendo-se em minoria, a facção portista tentou um golpe, que perdeu, e a facção benfiquista ripostou então com um contra-golpe. Ambos jurídica e moralmente indigentes.
A verdade é que não há conselheiros bons e maus, nesta palhaçada. Nem há argumentos de direito de vencedores ou vencidos (e a prova é que, até hoje, não conhecemos os argumentos pelos quais a maioria do CJ «deliberou» despromover de divisão um clube e contribuir para afastar outro da Liga dos Campeões: como se isso fosse um pormenor irrelevante). O que há apenas são advogados ao serviço de interesses ou paixões clubísticas, travestidos de juízes e a brincar aos heróis moralizadores e justiceiros. Razão tive para, durante anos, à revelia de toda a imprensa desportiva mas em sintonia com o Conselho Superior da Magistratura, defender que os juízes fossem afastados do futebol, pelo desprestígio que isso trazia à magistratura e à ideia de Justiça. Hoje não há juízes, há advogados dos clubes e tudo é mais claro: quem ganha as eleições nos órgãos da Liga e da Federação dita as leis e faz «justiça». Resta afastar também os magistrados do Ministério Público desta selva.
3- Se os queridos conselheiros do CJ se movessem nem que fosse por um mínimo de razões de direito, não poderiam, obviamente, ignorar o despacho de arquivamento do processo-crime contra Pinto da Costa, proferido pelo Tribunal de Instrução Criminal do Porto, no processo da «fruta» e do FC Porto-Beira-Mar — um dos dois processos que justificaram a condenação decretada pelo CD da Liga. E não poderiam ignorá-lo, porque ele se ocupa justamente dos fundamentos usados pelo CD para condenar o clube e para manter a Dr.ª Maria José Morgado na sua cruzada. E o que faz é desfazê-los, sem dó nem piedade, reduzindo-os a resíduos de lama.
Pior para os justiceiros é que, tendo sido a primeira vez que um magistrado, fora destas guerras todas, observou de perto o resultado do trabalho da Dr.ª Morgado, a coisa foi logo calhar às mãos de um juiz que é simpatizante do Sporting e da Académica e, pior ainda, é o mais respeitado juiz dos Tribunais de Instrução Criminal do Porto. (E, já agora, esclareço um argumento que ouvi a um benfiquista: o facto de um juiz estar colocado num tribunal do Porto, não significa, antes pelo contrário, que ele seja portuense e, menos ainda portista. Como toda a gente sabe, os juízes rodam por diversas comarcas ao longo da sua carreira e, quem está hoje no Porto, pode estar em Outubro em Évora ou em Lisboa. Seria como dizer que o Embaixador de Portugal em Luanda é angolano).
4- E o que disse o juiz do TIC? Disse isto:.............
a) que a utilização de escutas telefónicas no próprio processo-crime foi ilegal, por se tratar de crime a que não corresponde pena superior a três anos. Por maioria de razão, é ainda mais ilegal a sua utilização para fins disciplinares desportivos (ao contrário do que alguns justiceiros acham, isto de escutar as conversas privadas das pessoas não é um exercício leviano…);
b) que, mesmo assim, o facto é que sete meses de escutas telefónicas infligidas a Pinto da Costa tiveram como resultado útil apenas UMA conversa que o MP considerou suspeita;
c) que, nessa conversa, o MP nunca conseguiu fazer prova que o «JP», referido na conversa, fosse o árbitro Jacinto Paixão, como sustenta o MP, e não o ex-dirigente portista Joaquim Pinheiro, como explicou Pinto da Costa - e daí o processo ter sido anteriormente arquivado, até que a Dr.ª Maria José Morgado o mandou reabrir;
d) que, ainda que se concluísse que a conversa versava sobre o árbitro Jacinto Paixão e visava garantir os seus favores na arbitragem do jogo FC Porto-Beira-Mar, faltava um elemento essencial para se concluir pela corrupção: o nexo de causalidade, ou seja, o resultado prático dessa suposta corrupção. Acontece que nenhum dos peritos consultados concluiu que o árbitro tivesse favorecido o FC Porto. (Qualquer aprendiz de direito sabe isto e por isso é que o Dr. Ricardo Costa inventou a tese milagreira da «tentativa de corrupção», para fugir à dificuldade. Só que cometeu um erro: se houve tentativa apenas, os árbitros não poderiam também ter sido condenados. Se o foram, é porque, afinal, ele acha que houve corrupção. E, se houve, cadê o nexozinho de causalidade?).
e) enfim, sobre a «prova» acrescida trazida pelas declarações de Carolina Salgado ao MP — e jamais contraditadas livremente pela defesa — o juiz do TIC foi demolidor: a senhora, pura e simplesmente, mentiu. E daí que ele tenha mandado instaurar-lhe processo-crime por falsas declarações agravadas.
A forma como o juiz do TIC chegou a esta última conclusão é fatal para a Dr.ª Morgado e para o Dr. Costa. Confrontado com a transcrição das suas declarações ao MP, onde Carolina Salgado jurava ter assistido à conversa entre o empresário António Araújo e Pinto da Costa, supostamente acerca do árbitro Jacinto Paixão, o juiz limitou-se a pedir a transcrição de todas as chamadas do telemóvel de Pinto da Costa, nesse dia. E por elas descobriu que, à hora a que senhora jurava ter estado com o presidente do FC Porto, ela estava sim no cabeleireiro ou a caminho de casa do pai — conforme os seus próprios telefonemas para o telemóvel de Pinto da Costa atestavam. Tão simples como isto. E tão simples, que é impossível não perguntar porque é que a Dr.ª Maria José Morgado e o seu «dream team», a quem cabia a investigação, não se deram ao trabalho de fazer o mesmo? Bem pode agora a ilustre magistrada do MP anunciar que vai recorrer da sentença de arquivamento do TIC (não paga custas, não está sob suspeição, não lhe custa nada prolongar a coisa). Mas o que era preciso é que ela respondesse antes a esta pergunta…
5- Como se sabe, foi com base nos elementos fornecidos pela Dr.ª Maria José Morgado, que o CD entendeu condenar o FC Porto. Com base nas escutas e no depoimento de Carolina Salgado ao MP. Agora, que um juiz de direito de um tribunal comum decreta que as escutas são ilegais e não fazem prova alguma e a testemunha é uma mentirosa, apanhada com a boca na botija, o que vale a condenação do CD? Não, não me venham dizer que a justiça desportiva deve ser independente da justiça comum. Tivessem-no dito quando ficaram tão entusiasmados com a chegada da Dr.ª Morgado ao Apito Dourado e quando tanto insistiram para que ela passasse ao CD as «provas» que lhe permitiu condenar o FC Porto. Mas, aparte essa outra cambalhota, resta o essencial. E o essencial é o quê: saber a verdade dos factos e garantir aos acusados um processo limpo e com garantias de defesa, ou afastar o FC Porto para que o Sr. Luís Filipe Viera consiga apagar uma década de falhanços consecutivos no Alverca e no Benfica, e para assim não ter de sair protegido pela polícia das reuniões com os próprios sócios do clube?
Meses a fio, explicaram-nos que o CJ estava em contra-corrente com os «novos tempos» de «moralização» e que, por isso, só devíamos confiar no Conselho de Disciplina, onde pontifica um justiceiro inquebrável, embora com um pequeno defeito visual que só o deixa enxergar a norte. Repetiram-nos até à exaustão, por exemplo, que o presidente do CJ era mais do que suspeito para decidir qualquer processo relativo ao Boavista, visto que é vereador na Câmara de Gondomar (só «esquecendo» de acrescentar que ele é vereador sim, mas… da oposição a Valentim Loureiro). Ainda a semana passada, no recurso interposto perante o Tribunal Arbitral Desportivo da UEFA, o Benfica escrevia que não valia a pena esperar pela decisão de recurso do nosso CJ porque se tratava de um órgão «sem credibilidade». Afinal, ainda as facas estavam a ser afiadas na reunião do CJ, e já o Benfica estava a salivar por uma certidão da douta «decisão» de tão insigne órgão, que lhe permitisse esgrimir mais argumentos na UEFA a favor da sua tese de que o 4º classificado no campeonato, a 23 pontos do 1º, é que merece representar o país na Champions.
2- O que se terá passado, então, para justificar tamanha cambalhota? Pois, os meandros eu não sei. Sei é que, e tal como ficou cristalinamente claro, tirando um dos conselheiros do dito CJ, que passa por pessoa isenta, todos os outros tinham votos agenciados, ou a favor da facção FC Porto/Boavista ou a favor da facção Benfica/V. Guimarães. Sabia-se que a votação final seria sempre 4-3 e sempre se partiu de princípio de que ganharia a facção portista: daí a campanha de descredibilização e intimidação do CJ. Mas aconteceu que, à boca das urnas, se descobriu que um ou dois conselheiros tinham, entretanto, «deslizado» de posição - certamente convencidos por argumentos muito fortes. Vendo-se em minoria, a facção portista tentou um golpe, que perdeu, e a facção benfiquista ripostou então com um contra-golpe. Ambos jurídica e moralmente indigentes.
A verdade é que não há conselheiros bons e maus, nesta palhaçada. Nem há argumentos de direito de vencedores ou vencidos (e a prova é que, até hoje, não conhecemos os argumentos pelos quais a maioria do CJ «deliberou» despromover de divisão um clube e contribuir para afastar outro da Liga dos Campeões: como se isso fosse um pormenor irrelevante). O que há apenas são advogados ao serviço de interesses ou paixões clubísticas, travestidos de juízes e a brincar aos heróis moralizadores e justiceiros. Razão tive para, durante anos, à revelia de toda a imprensa desportiva mas em sintonia com o Conselho Superior da Magistratura, defender que os juízes fossem afastados do futebol, pelo desprestígio que isso trazia à magistratura e à ideia de Justiça. Hoje não há juízes, há advogados dos clubes e tudo é mais claro: quem ganha as eleições nos órgãos da Liga e da Federação dita as leis e faz «justiça». Resta afastar também os magistrados do Ministério Público desta selva.
3- Se os queridos conselheiros do CJ se movessem nem que fosse por um mínimo de razões de direito, não poderiam, obviamente, ignorar o despacho de arquivamento do processo-crime contra Pinto da Costa, proferido pelo Tribunal de Instrução Criminal do Porto, no processo da «fruta» e do FC Porto-Beira-Mar — um dos dois processos que justificaram a condenação decretada pelo CD da Liga. E não poderiam ignorá-lo, porque ele se ocupa justamente dos fundamentos usados pelo CD para condenar o clube e para manter a Dr.ª Maria José Morgado na sua cruzada. E o que faz é desfazê-los, sem dó nem piedade, reduzindo-os a resíduos de lama.
Pior para os justiceiros é que, tendo sido a primeira vez que um magistrado, fora destas guerras todas, observou de perto o resultado do trabalho da Dr.ª Morgado, a coisa foi logo calhar às mãos de um juiz que é simpatizante do Sporting e da Académica e, pior ainda, é o mais respeitado juiz dos Tribunais de Instrução Criminal do Porto. (E, já agora, esclareço um argumento que ouvi a um benfiquista: o facto de um juiz estar colocado num tribunal do Porto, não significa, antes pelo contrário, que ele seja portuense e, menos ainda portista. Como toda a gente sabe, os juízes rodam por diversas comarcas ao longo da sua carreira e, quem está hoje no Porto, pode estar em Outubro em Évora ou em Lisboa. Seria como dizer que o Embaixador de Portugal em Luanda é angolano).
4- E o que disse o juiz do TIC? Disse isto:.............
a) que a utilização de escutas telefónicas no próprio processo-crime foi ilegal, por se tratar de crime a que não corresponde pena superior a três anos. Por maioria de razão, é ainda mais ilegal a sua utilização para fins disciplinares desportivos (ao contrário do que alguns justiceiros acham, isto de escutar as conversas privadas das pessoas não é um exercício leviano…);
b) que, mesmo assim, o facto é que sete meses de escutas telefónicas infligidas a Pinto da Costa tiveram como resultado útil apenas UMA conversa que o MP considerou suspeita;
c) que, nessa conversa, o MP nunca conseguiu fazer prova que o «JP», referido na conversa, fosse o árbitro Jacinto Paixão, como sustenta o MP, e não o ex-dirigente portista Joaquim Pinheiro, como explicou Pinto da Costa - e daí o processo ter sido anteriormente arquivado, até que a Dr.ª Maria José Morgado o mandou reabrir;
d) que, ainda que se concluísse que a conversa versava sobre o árbitro Jacinto Paixão e visava garantir os seus favores na arbitragem do jogo FC Porto-Beira-Mar, faltava um elemento essencial para se concluir pela corrupção: o nexo de causalidade, ou seja, o resultado prático dessa suposta corrupção. Acontece que nenhum dos peritos consultados concluiu que o árbitro tivesse favorecido o FC Porto. (Qualquer aprendiz de direito sabe isto e por isso é que o Dr. Ricardo Costa inventou a tese milagreira da «tentativa de corrupção», para fugir à dificuldade. Só que cometeu um erro: se houve tentativa apenas, os árbitros não poderiam também ter sido condenados. Se o foram, é porque, afinal, ele acha que houve corrupção. E, se houve, cadê o nexozinho de causalidade?).
e) enfim, sobre a «prova» acrescida trazida pelas declarações de Carolina Salgado ao MP — e jamais contraditadas livremente pela defesa — o juiz do TIC foi demolidor: a senhora, pura e simplesmente, mentiu. E daí que ele tenha mandado instaurar-lhe processo-crime por falsas declarações agravadas.
A forma como o juiz do TIC chegou a esta última conclusão é fatal para a Dr.ª Morgado e para o Dr. Costa. Confrontado com a transcrição das suas declarações ao MP, onde Carolina Salgado jurava ter assistido à conversa entre o empresário António Araújo e Pinto da Costa, supostamente acerca do árbitro Jacinto Paixão, o juiz limitou-se a pedir a transcrição de todas as chamadas do telemóvel de Pinto da Costa, nesse dia. E por elas descobriu que, à hora a que senhora jurava ter estado com o presidente do FC Porto, ela estava sim no cabeleireiro ou a caminho de casa do pai — conforme os seus próprios telefonemas para o telemóvel de Pinto da Costa atestavam. Tão simples como isto. E tão simples, que é impossível não perguntar porque é que a Dr.ª Maria José Morgado e o seu «dream team», a quem cabia a investigação, não se deram ao trabalho de fazer o mesmo? Bem pode agora a ilustre magistrada do MP anunciar que vai recorrer da sentença de arquivamento do TIC (não paga custas, não está sob suspeição, não lhe custa nada prolongar a coisa). Mas o que era preciso é que ela respondesse antes a esta pergunta…
5- Como se sabe, foi com base nos elementos fornecidos pela Dr.ª Maria José Morgado, que o CD entendeu condenar o FC Porto. Com base nas escutas e no depoimento de Carolina Salgado ao MP. Agora, que um juiz de direito de um tribunal comum decreta que as escutas são ilegais e não fazem prova alguma e a testemunha é uma mentirosa, apanhada com a boca na botija, o que vale a condenação do CD? Não, não me venham dizer que a justiça desportiva deve ser independente da justiça comum. Tivessem-no dito quando ficaram tão entusiasmados com a chegada da Dr.ª Morgado ao Apito Dourado e quando tanto insistiram para que ela passasse ao CD as «provas» que lhe permitiu condenar o FC Porto. Mas, aparte essa outra cambalhota, resta o essencial. E o essencial é o quê: saber a verdade dos factos e garantir aos acusados um processo limpo e com garantias de defesa, ou afastar o FC Porto para que o Sr. Luís Filipe Viera consiga apagar uma década de falhanços consecutivos no Alverca e no Benfica, e para assim não ter de sair protegido pela polícia das reuniões com os próprios sócios do clube?
segunda-feira, julho 07, 2008
VAMOS, ENTÃO AO DEFESO ( 01 JULHO 2008 )
1- A história recente dos emigrantes de luxo do futebol português não se resume aos casos de sucesso, como Cristiano Ronaldo. A maioria, até, são casos de insucesso: Tiago, Hugo Viana, Manuel Fernandes, Miguel. Mesmo jogadores aqui considerados verdadeiras estrelas, como Simão ou Deco, estão longe de terem visto esse estatuto reconhecido além-fronteiras. Parece que agora chegou mesmo a vez de Ricardo Quaresma se ir também embora, satisfazendo o ardente desejo dos jornalistas anti-portistas.
Já aqui escrevi por diversas vezes o quanto acho que a partida de Quaresma deixará um imenso vazio que ninguém preencherá tão cedo no FC Porto. Não só porque, ao longo das últimas épocas, ele tem sido o principal municiador de golos da equipa - marcando-os ou dando-os a marcar - mas também porque para encontrar paralelo com o seu futebol, em termos de imaginação e espectáculo, é preciso recuar vinte anos atrás, a Rabah Madjer. E também já escrevi que, compreendendo que ele possa desejar legitimamente saltar para um campeonato de outro nível, pode muito bem acontecer que se veja confrontado com a desilusão: em Milão, vai fatalmente encontrar um ambiente de equipa muito mais exigente e menos amigável, adeptos e imprensa bem mais intolerantes e, se as coisas não correrem bem a Mourinho, ele será dos primeiros a pagar por arrasto.
A sair, também parece certo que não sairá pelos 40 milhões prometidos solenemente por Pinto da Costa: sairá por menos, eventualmente disfarçando com alguém que o Inter não quer metido no pacote e cujo salário fará certamente dessa moeda de troca um presente envenenado.
2- Na temporada passada, o FC Porto foi o clube do mundo que mais facturou com a venda de jogadores. Desde 2004 para cá, aliás, todos os anos o FC Porto realiza receitas absolutamente extraordinárias a vender os seus melhores - de tal maneira que, ao pé delas, as receitas da chamada Liga dos Milhões parecem trocos. A gestão dos activos assim feita até não tem sido má, o problema é que todos esses jogadores que proporcionaram receitas milionárias ao clube são ou eram agenciados por Jorge Mendes e, ao que consta, o clube e ele estarão agora de relações congeladas. E, enquanto os talentos por ele descobertos vão saindo aos poucos, entram levas de sul-americanos, tipo Lucas Marenque ou Renteria, ou sub-produtos nacionais cuja compra me deixa estupefacto. Por cada venda fabulosa proporcionada por Jorge Mendes, lá vai o Dr. Caldeira para as Américas comprar de atacado jogadores cujo talento ninguém descortina. Assim como ninguém descortina que fim levam esses rios de dinheiro, que já deviam ter proporcionado à SAD uma situação financeira desafogada.
3- Mas há, como venho denunciando há anos, outras coisas preocupantes que resultam destes «defesos» da SAD do FC Porto. Ainda por aí uma quantidade de jogadores emprestados a outros clubes, com os salários ou parte deles, a serem pagos pelo FC Porto, e que raramente são recuperados, mesmo quando provaram bem nos clubes de empréstimo: é dinheiro deitado à rua, pura e simplesmente. Não há, há anos que não há, um só jogador vindo da formação no plantel principal. Para que servirá a formação e os escalões jovens, o projecto «Dragon-2012»? Com as saídas de Bosingwa, Postiga, Vierinha, Castro, Quaresma, Helder Barbosa (e Bruno Alves?!), também já não há praticamente portugueses na equipa. Não houve um só titular entre o onze de Portugal no Europeu e, dos quatro que foram suplentes, um já não é portista e o outro está em vias de deixar de o ser. Para quem, como Pinto da Costa, diz preocupar-se tanto com a Selecção e é presidente de um dos maiores clubes nacionais, não deixa de ser quase humilhante esta situação. Será que a ganância das aquisições sul-americanas ainda vai fazer do FC Porto, o mais antigo clube português, uma espécie de F.C. Soy Loco Por ti América?
4- Enfim, concedo que o Bosingwa foi muito bem vendido, pelo preço e porque já se andava a achar demasiado bom para a equipa. O Postiga foi ainda mais bem vendido, embora não o suficiente para fazer esquecer o tremendo erro que foi a sua recompra ao Tottenham. Mas, com esses 23 milhões, o orçamento do ano que vem já estaria coberto, não fosse a irresistível tentação dos negócios sul-americanos.
Concedo que o Cristian Rodriguez é uma compra interessante, mas demasiado cara (embora, claro, só três milhões tenham sido para pagar o gozo de imaginarmos a expressão de Luís Filipe Vieira, quando lhe deram a notícia). Tudo visto, não há nenhuma justificação financeira, e menos ainda desportiva, para vender o Quaresma. E vender o Bruno Alves, isso então, seria mesmo inexplicável.
Se houvesse juízo naquela casa, o que haveria a fazer agora era simples: nem mais compras, nem mais vendas. Mas é preciso não os conhecer…
5- E se nós, portistas, vivemos todos os «defesos» com o credo na boca, no terror de abrirmos o jornal de manhã e verificar que lá venderam mais uma das jóias da Coroa, a compensação que temos é a de seguir a época de aquisições do Benfica.
Nunca um pobre fez tão tristes figuras de novo-rico como o Benfica faz todos os anos. E este ano, apesar de Rui Costa ser de outra categoria e outros hábitos, aquele estilo grandiloquente já está de tal maneira entranhado nos procedimentos da casa, que tudo tem seguido o roteiro habitual:
- primeiro e em grandes parangonas, anuncia-se que o Benfica está interessado em algum grande jogador da categoria B (a categoria B é a dos que têm nome internacional mas não jogam nos respectivos clubes);
- passados uns dias, aparece o jogador em causa, o empresário, o pai, o vizinho de infância ou o canário, a jurarem que ele está entusiasmado com a hipótese de ir para o Benfica;
- passados mais uns dias, dá-se conta de que o Benfica já apresentou uma proposta pelo jogador e que só falta «limar algumas arestas com o clube»;
- mais uns dias, e os adeptos benfiquistas são informados de que «já há acordo pleno com o jogador»;
- no dia seguinte, inesperadamente, descobre-se que há um terceiro clube que também está interessado no jogador, mas que o Benfica já tem uma alternativa preparada para o caso de as negociações falharem;
- oh…o homem fugiu mesmo para o tal terceiro clube e, aparentemente, não foi triste. Avança, então, o nome da alternativa: um jogador de categoria C (a categoria C corresponde a um jogador que ninguém sabe quem é, mas que Pelé garantiu que era um novo Maradona ou Maradona garantiu que era um novo Pélé);
- anuncia-se que o Benfica, «agindo rapidamente e adiantando-se à concorrência», garantiu a aquisição do novo Pélé;
- o novo Pelé desembarca em Lisboa e, de voz própria ou através do seu empresário, trata lugar de jurar que o FC Porto também tinha tentado contratá-lo, mas que ele preferiu o Benfica.
Não tardará a perceber-se porquê.
6- Há uma espécie de unanimidade nacional em roda do nome de Carlos Queiroz para seleccionador nacional. Pode ser que seja uma boa escolha, pode ser que não, ninguém o pode dizer. Mas não percebo a evidência nem a unanimidade. Queiroz já foi selecionador e falhou em toda a linha. Como falhou no Sporting, no Real Madrid, na Selecção da África do Sul. Triunfou apenas no longínquo Mundial de Juniores em Riade, à frente da tal «geração de ouro», irrepetível. E, de cada vez que falhou, nunca foi capaz de reconhecer erros próprios: a culpa foi sempre de outros, da organização, da falta de meios ou de qualquer outra coisa. Repito: pode ser que se revelasse uma boa escolha, mas seria à segunda tentativa e não é, de todo, uma coisa evidente.
7- Perante o silêncio da SAD do FC Porto, o Sr. Platini continua alegremente a caluniar o clube. Já agora, que alguém ao menos lhe explicasse (e aos advogados do Benfica…) que o Comité de Apelo da UEFA não anulou a decisão da 1ª instância de excluir o FCP da Champions apenas porque o processo ainda não está acabado em Portugal. Está lá escrito que, mesmo que o FCP seja condenado definitivamente, o Comité de Disciplina da UEFA não pode esquecer-se de uma coisa chamada não-retroactividade da lei disciplinar punitiva. Não são «meras complicações jurídicas», como diz o Sr. Platini na sua ignorância arrogante.
Já aqui escrevi por diversas vezes o quanto acho que a partida de Quaresma deixará um imenso vazio que ninguém preencherá tão cedo no FC Porto. Não só porque, ao longo das últimas épocas, ele tem sido o principal municiador de golos da equipa - marcando-os ou dando-os a marcar - mas também porque para encontrar paralelo com o seu futebol, em termos de imaginação e espectáculo, é preciso recuar vinte anos atrás, a Rabah Madjer. E também já escrevi que, compreendendo que ele possa desejar legitimamente saltar para um campeonato de outro nível, pode muito bem acontecer que se veja confrontado com a desilusão: em Milão, vai fatalmente encontrar um ambiente de equipa muito mais exigente e menos amigável, adeptos e imprensa bem mais intolerantes e, se as coisas não correrem bem a Mourinho, ele será dos primeiros a pagar por arrasto.
A sair, também parece certo que não sairá pelos 40 milhões prometidos solenemente por Pinto da Costa: sairá por menos, eventualmente disfarçando com alguém que o Inter não quer metido no pacote e cujo salário fará certamente dessa moeda de troca um presente envenenado.
2- Na temporada passada, o FC Porto foi o clube do mundo que mais facturou com a venda de jogadores. Desde 2004 para cá, aliás, todos os anos o FC Porto realiza receitas absolutamente extraordinárias a vender os seus melhores - de tal maneira que, ao pé delas, as receitas da chamada Liga dos Milhões parecem trocos. A gestão dos activos assim feita até não tem sido má, o problema é que todos esses jogadores que proporcionaram receitas milionárias ao clube são ou eram agenciados por Jorge Mendes e, ao que consta, o clube e ele estarão agora de relações congeladas. E, enquanto os talentos por ele descobertos vão saindo aos poucos, entram levas de sul-americanos, tipo Lucas Marenque ou Renteria, ou sub-produtos nacionais cuja compra me deixa estupefacto. Por cada venda fabulosa proporcionada por Jorge Mendes, lá vai o Dr. Caldeira para as Américas comprar de atacado jogadores cujo talento ninguém descortina. Assim como ninguém descortina que fim levam esses rios de dinheiro, que já deviam ter proporcionado à SAD uma situação financeira desafogada.
3- Mas há, como venho denunciando há anos, outras coisas preocupantes que resultam destes «defesos» da SAD do FC Porto. Ainda por aí uma quantidade de jogadores emprestados a outros clubes, com os salários ou parte deles, a serem pagos pelo FC Porto, e que raramente são recuperados, mesmo quando provaram bem nos clubes de empréstimo: é dinheiro deitado à rua, pura e simplesmente. Não há, há anos que não há, um só jogador vindo da formação no plantel principal. Para que servirá a formação e os escalões jovens, o projecto «Dragon-2012»? Com as saídas de Bosingwa, Postiga, Vierinha, Castro, Quaresma, Helder Barbosa (e Bruno Alves?!), também já não há praticamente portugueses na equipa. Não houve um só titular entre o onze de Portugal no Europeu e, dos quatro que foram suplentes, um já não é portista e o outro está em vias de deixar de o ser. Para quem, como Pinto da Costa, diz preocupar-se tanto com a Selecção e é presidente de um dos maiores clubes nacionais, não deixa de ser quase humilhante esta situação. Será que a ganância das aquisições sul-americanas ainda vai fazer do FC Porto, o mais antigo clube português, uma espécie de F.C. Soy Loco Por ti América?
4- Enfim, concedo que o Bosingwa foi muito bem vendido, pelo preço e porque já se andava a achar demasiado bom para a equipa. O Postiga foi ainda mais bem vendido, embora não o suficiente para fazer esquecer o tremendo erro que foi a sua recompra ao Tottenham. Mas, com esses 23 milhões, o orçamento do ano que vem já estaria coberto, não fosse a irresistível tentação dos negócios sul-americanos.
Concedo que o Cristian Rodriguez é uma compra interessante, mas demasiado cara (embora, claro, só três milhões tenham sido para pagar o gozo de imaginarmos a expressão de Luís Filipe Vieira, quando lhe deram a notícia). Tudo visto, não há nenhuma justificação financeira, e menos ainda desportiva, para vender o Quaresma. E vender o Bruno Alves, isso então, seria mesmo inexplicável.
Se houvesse juízo naquela casa, o que haveria a fazer agora era simples: nem mais compras, nem mais vendas. Mas é preciso não os conhecer…
5- E se nós, portistas, vivemos todos os «defesos» com o credo na boca, no terror de abrirmos o jornal de manhã e verificar que lá venderam mais uma das jóias da Coroa, a compensação que temos é a de seguir a época de aquisições do Benfica.
Nunca um pobre fez tão tristes figuras de novo-rico como o Benfica faz todos os anos. E este ano, apesar de Rui Costa ser de outra categoria e outros hábitos, aquele estilo grandiloquente já está de tal maneira entranhado nos procedimentos da casa, que tudo tem seguido o roteiro habitual:
- primeiro e em grandes parangonas, anuncia-se que o Benfica está interessado em algum grande jogador da categoria B (a categoria B é a dos que têm nome internacional mas não jogam nos respectivos clubes);
- passados uns dias, aparece o jogador em causa, o empresário, o pai, o vizinho de infância ou o canário, a jurarem que ele está entusiasmado com a hipótese de ir para o Benfica;
- passados mais uns dias, dá-se conta de que o Benfica já apresentou uma proposta pelo jogador e que só falta «limar algumas arestas com o clube»;
- mais uns dias, e os adeptos benfiquistas são informados de que «já há acordo pleno com o jogador»;
- no dia seguinte, inesperadamente, descobre-se que há um terceiro clube que também está interessado no jogador, mas que o Benfica já tem uma alternativa preparada para o caso de as negociações falharem;
- oh…o homem fugiu mesmo para o tal terceiro clube e, aparentemente, não foi triste. Avança, então, o nome da alternativa: um jogador de categoria C (a categoria C corresponde a um jogador que ninguém sabe quem é, mas que Pelé garantiu que era um novo Maradona ou Maradona garantiu que era um novo Pélé);
- anuncia-se que o Benfica, «agindo rapidamente e adiantando-se à concorrência», garantiu a aquisição do novo Pélé;
- o novo Pelé desembarca em Lisboa e, de voz própria ou através do seu empresário, trata lugar de jurar que o FC Porto também tinha tentado contratá-lo, mas que ele preferiu o Benfica.
Não tardará a perceber-se porquê.
6- Há uma espécie de unanimidade nacional em roda do nome de Carlos Queiroz para seleccionador nacional. Pode ser que seja uma boa escolha, pode ser que não, ninguém o pode dizer. Mas não percebo a evidência nem a unanimidade. Queiroz já foi selecionador e falhou em toda a linha. Como falhou no Sporting, no Real Madrid, na Selecção da África do Sul. Triunfou apenas no longínquo Mundial de Juniores em Riade, à frente da tal «geração de ouro», irrepetível. E, de cada vez que falhou, nunca foi capaz de reconhecer erros próprios: a culpa foi sempre de outros, da organização, da falta de meios ou de qualquer outra coisa. Repito: pode ser que se revelasse uma boa escolha, mas seria à segunda tentativa e não é, de todo, uma coisa evidente.
7- Perante o silêncio da SAD do FC Porto, o Sr. Platini continua alegremente a caluniar o clube. Já agora, que alguém ao menos lhe explicasse (e aos advogados do Benfica…) que o Comité de Apelo da UEFA não anulou a decisão da 1ª instância de excluir o FCP da Champions apenas porque o processo ainda não está acabado em Portugal. Está lá escrito que, mesmo que o FCP seja condenado definitivamente, o Comité de Disciplina da UEFA não pode esquecer-se de uma coisa chamada não-retroactividade da lei disciplinar punitiva. Não são «meras complicações jurídicas», como diz o Sr. Platini na sua ignorância arrogante.
UM BANHO DE HUMILDADE ( 24 JUNHO 2008 )
Uma imprensa desportiva eufórica antes de tempo, um país acometido de delírio patriótico e um insuportável blitz de publicidade dos patrocinadores da Selecção, criaram a certeza de que esta equipa de Portugal só poderia chegar ao céu - ao título de Campeão da Europa de 2008. Tal como sempre aconteceu na era Scolari, caímos no mais fácil dos grupos da fase final - onde, como disse Mourinho, era impensável não passarmos aos «quartos».
Veio primeiro uma Turquia borrada de medo, que vencemos com uma exibição segura, mas não sublime, como logo apregoaram; e, depois, uma República Checa, contra quem, mais uma vez, só obtivemos o golo da tranquilidade nos descontos e após enfrentar alguns calafrios finais, imprevistos e desnecessários. Mas passámos, que era o importante.
A seguir, veio o jogo das reservas contra a Suíça, perdido sem nenhum brio nem desculpa (e todos os outros apurados à 2.ª jornada - Espanha, Croácia e Holanda - puseram também as reservas no terceiro jogo e ganharam-no). Aqui, deveríamos ter tido um primeiro sobressalto de humildade, antes de enfrentarmos uma Alemanha que já se sabe que é sempre competitiva e tem espírito de equipa.
Aliás, nessa 1.ª fase, pese às nossas milionárias vedetas e ao delírio da imprensa, eu vi jogar melhor futebol à Croácia, à Holanda, à Espanha e à Rússia - sem esquecer a Itália e a Alemanha, que, mesmo quando não têm grandes equipas, têm uma cultura de vitória entranhada. Esperava-se que fizéssemos a diferença pelas nossas individualidades, mas afinal o que mostrámos de melhor foi a condição física e o jogo colectivo.
Contra a Alemanha, no primeiro verdadeiro jogo a doer, nós partíamos com uma vantagem imensa: oito dias de descanso contra três, numa competição em que, tal como no Mundial, os grandes jogadores já chegam estafados por uma época sem tréguas. Para nos ganhar, a Alemanha sabia que tinha de construir o resultado de início e defendê-lo depois. Foi isso que fizeram e conseguiram-no - curiosamente, não como equipa, mas porque, na hora da verdade, os seus valores individuais suplantaram os nossos. E assim saímos deste Europeu, onde, tirando o próprio Scolari, que afirmou sair «de consciência supertranquila», todos nós achamos que poderíamos e deveríamos ter ido mais longe.
A seu tempo, talvez faça aqui o balanço destes seis anos de Scolari à frente da Selecção. Agora, faço apenas uma apreciação individual daqueles que ele lançou na batalha perdida.
RICARDO - De todos os 40 ou 50 jogadores chamados por Scolari nestes seis anos, nenhum lhe deve mais do que Ricardo. Ele começou por ser o instrumento da querela particular de Scolari contra Baía. E, logo aí, como ao longo daquelas patéticas conferências de imprensa dos jogadores da Selecção em que participou, Ricardo mostrou a falta de humildade e de elegância que sempre o caracterizou. Mesmo quando suplente no Sporting ou no Bétis, Ricardo contou sempre com a fidelidade de Scolari. E, entre os postes, que era o que mais interessava, mostrou tudo o que já se sabia: que é óptimo a defender penalties, bom a defender remates frontais e a jogar com os pés, e um zero no jogo aéreo. Contra a Alemanha (e tal como já sucedera no Mundial de 2006, com o mesmíssimo resultado), não teve de fazer uma única defesa e encaixou três golos: no primeiro, não teve culpas; no segundo, teve algumas; e, no terceiro e decisivo, teve bastantes. Lothar Mathaus tinha avisado.
BOSINGWA - Foi dos melhores, ao longo dos três jogos e tudo ponderado. Não deslumbrou, mas cumpriu.
MIGUEL - Segundo parece, acha que o Valência já é pouco para ele. Só teve uma oportunidade - contra a Suíça - para mostrar a razão porque pensa isso, mas não o conseguiu: foi o pior em campo.
PAULO FERREIRA - Temia-se a sua adaptação à esquerda e os temores saíram confirmados. Jogou os quatro jogos e em todos esteve mal.
JORGE RIBEIRO - Contratado pelo Benfica para a próxima época (na véspera do jogo contra o «seu» Boavista), não justificou, contra a Suíça, as razões da contratação.
PEPE - O novo «português» aprendeu o hino e mostrou raça e vontade de honrar a chamada. Jogou sempre no risco e acertou umas vezes, falhou outras. Mas foi à luta, sempre.
RICARDO CARVALHO - O oposto de Pepe: atravessou todo o Euro dando sinais de esgotamento e de precisar urgentemente de férias. Defendeu-se, nunca correndo riscos e tudo fazendo para não se dar por ele. O jogo contra a Alemanha é o paradigma disto: não esteve directamente ligado a nenhum dos golos, mas alguém é capaz de dizer onde parava ele nos três golos, todos facturados no centro da pequena área - a zona coutada dos centrais?
BRUNO ALVES - Apenas o jogo contra a Suíça, reeditando a dupla de centrais do FCP de 2007, ao lado de Pepe. Não comprometeu nem deslumbrou. Mas, não fossem os lugares cativos na Selecção de Scolari, e talvez tivesse justificado mais a titularidade do que Ricardo Carvalho.
PETIT - A mais inexplicável escolha de Scolari, depois de toda uma época falhada. Esteve no Euro como esteve no Benfica: só se dava por ele quando cometia aquelas faltas maldosas, com ar de inocente. Não haveria mesmo ninguém mais útil para a posição?
MIGUEL VELOSO - Consta que vale largos milhões e que a Itália inteira suspira por ele. Não vejo porquê, e o jogo contra a Suíça não ajudou em nada a perceber.
JOÃO MOUTINHO - Dizem, também, que vale trinta milhões e que andará meio mundo atrás dele. E também nunca percebi porquê. Vejo-o como um jogador sempre regular e um grande profissional, mas jamais como um n.º 10 com rasgo e clarividência, como um Deco, um Lucho González ou um Rui Costa. Fez um primeiro jogo razoável contra a Turquia, que serviu para o porem nos píncaros, e um segundo jogo absolutamente medíocre contra os checos. Contra a Alemanha, saíu à meia-hora, magoado, e, não fosse ter falhado um golo na cara do guarda-redes, teria passado invisível pelo jogo. Mais Alcochete não lhe fará mal algum.
RAUL MEIRELES - Entrou e marcou um golo, contra a Turquia. Jogou muito pouco contra a Suíça e aproveitou razoavelmente uma hora de jogo contra a Alemanha. Não desiludiu, mas foi igual ao costume: fez três remates à baliza e saíram todos para fora.
DECO - Este, sim, foi o homem da Selecção. Três jogos e em todos foi o melhor da equipa. Foi o Deco dos grandes tempos do FC Porto de 2004 (o tal ano da «tentativa de corrupção» e que deu cinco jogadores a esta Selecção), muito melhor do que o Deco dos últimos tempos no Barcelona.
FERNANDO MEIRA - Foi mais importante como «falador» do que em campo. Sem lugar entre os centrais, fez um jogo e parte de outro no meio-campo, onde não acrescentou nada.
SIMÃO - Três jogos sem história. Deve o lugar cativo ao facto de ainda ser, emocionalmente, jogador do Benfica.
NUNO GOMES - Na véspera do jogo com a Alemanha, declarou ter um «pressentimento» de que iria marcar. E marcou mesmo. Mas um ponta-de-lança que marca golos só quando tem «pressentimentos», parece-me pouco. Tal como outros, deve o lugar à regra da antiguidade - a mais sagrada da era Scolari - e ao facto de, como nenhum outro, ser o jogador com melhor imprensa.
HÉLDER POSTIGA - Facto extraordinário, também marcou um golo. E foi contratado pelo Sporting.
HUGO ALMEIDA - Era o sucessor mais aconselhável para preencher o deserto deixado por Pauleta. Mas estava em 3.º lugar na lista da antiguidade e Scolari só lhe deu um quarto de hora, contra a Suíça.
CRISTIANO RONALDO - Não se pode ser herói todos os dias e toda a época, mas o facto é que, se contava com o Euro para o título de melhor do mundo, Cristiano passou ao lado. Vontade, é indiscutível que tinha, assim como talento e génio. Mas, não chegou: foi dos piores contra a Alemanha e desiludiu em todos os jogos. Não sei se foi o Real Madrid que lhe deu volta à cabeça ou a grande época que fez que o rebentou, mas umas férias nas Caraíbas e uns mergulhos nos vídeos do Arshavin só lhe farão bem.
RICARDO QUARESMA - Idem, idem, aspas. Se está à espera que alguém banque os 40 milhões por ele, das duas uma: ou fica sentado à espera, ou confia em que Pinto da Costa não cumpra a sua promessa de não fazer desconto. É verdade que Scolari só lhe deu uma oportunidade e nunca soube dar-lhe a confiança de que precisa e aproveitá-lo para a Selecção. Mas, quando se ganha 150.000 euros por mês e se quer ganhar 300.000, não basta fazer um cruzamento «de letra» em 90 minutos de jogo.
NANI - Foi dos menos maus contra a Suíça e contra a Alemanha. Tentou, mas raramente foi consequente até ao fim. Fica de reserva para o futuro e para o próximo selecionador.
Veio primeiro uma Turquia borrada de medo, que vencemos com uma exibição segura, mas não sublime, como logo apregoaram; e, depois, uma República Checa, contra quem, mais uma vez, só obtivemos o golo da tranquilidade nos descontos e após enfrentar alguns calafrios finais, imprevistos e desnecessários. Mas passámos, que era o importante.
A seguir, veio o jogo das reservas contra a Suíça, perdido sem nenhum brio nem desculpa (e todos os outros apurados à 2.ª jornada - Espanha, Croácia e Holanda - puseram também as reservas no terceiro jogo e ganharam-no). Aqui, deveríamos ter tido um primeiro sobressalto de humildade, antes de enfrentarmos uma Alemanha que já se sabe que é sempre competitiva e tem espírito de equipa.
Aliás, nessa 1.ª fase, pese às nossas milionárias vedetas e ao delírio da imprensa, eu vi jogar melhor futebol à Croácia, à Holanda, à Espanha e à Rússia - sem esquecer a Itália e a Alemanha, que, mesmo quando não têm grandes equipas, têm uma cultura de vitória entranhada. Esperava-se que fizéssemos a diferença pelas nossas individualidades, mas afinal o que mostrámos de melhor foi a condição física e o jogo colectivo.
Contra a Alemanha, no primeiro verdadeiro jogo a doer, nós partíamos com uma vantagem imensa: oito dias de descanso contra três, numa competição em que, tal como no Mundial, os grandes jogadores já chegam estafados por uma época sem tréguas. Para nos ganhar, a Alemanha sabia que tinha de construir o resultado de início e defendê-lo depois. Foi isso que fizeram e conseguiram-no - curiosamente, não como equipa, mas porque, na hora da verdade, os seus valores individuais suplantaram os nossos. E assim saímos deste Europeu, onde, tirando o próprio Scolari, que afirmou sair «de consciência supertranquila», todos nós achamos que poderíamos e deveríamos ter ido mais longe.
A seu tempo, talvez faça aqui o balanço destes seis anos de Scolari à frente da Selecção. Agora, faço apenas uma apreciação individual daqueles que ele lançou na batalha perdida.
RICARDO - De todos os 40 ou 50 jogadores chamados por Scolari nestes seis anos, nenhum lhe deve mais do que Ricardo. Ele começou por ser o instrumento da querela particular de Scolari contra Baía. E, logo aí, como ao longo daquelas patéticas conferências de imprensa dos jogadores da Selecção em que participou, Ricardo mostrou a falta de humildade e de elegância que sempre o caracterizou. Mesmo quando suplente no Sporting ou no Bétis, Ricardo contou sempre com a fidelidade de Scolari. E, entre os postes, que era o que mais interessava, mostrou tudo o que já se sabia: que é óptimo a defender penalties, bom a defender remates frontais e a jogar com os pés, e um zero no jogo aéreo. Contra a Alemanha (e tal como já sucedera no Mundial de 2006, com o mesmíssimo resultado), não teve de fazer uma única defesa e encaixou três golos: no primeiro, não teve culpas; no segundo, teve algumas; e, no terceiro e decisivo, teve bastantes. Lothar Mathaus tinha avisado.
BOSINGWA - Foi dos melhores, ao longo dos três jogos e tudo ponderado. Não deslumbrou, mas cumpriu.
MIGUEL - Segundo parece, acha que o Valência já é pouco para ele. Só teve uma oportunidade - contra a Suíça - para mostrar a razão porque pensa isso, mas não o conseguiu: foi o pior em campo.
PAULO FERREIRA - Temia-se a sua adaptação à esquerda e os temores saíram confirmados. Jogou os quatro jogos e em todos esteve mal.
JORGE RIBEIRO - Contratado pelo Benfica para a próxima época (na véspera do jogo contra o «seu» Boavista), não justificou, contra a Suíça, as razões da contratação.
PEPE - O novo «português» aprendeu o hino e mostrou raça e vontade de honrar a chamada. Jogou sempre no risco e acertou umas vezes, falhou outras. Mas foi à luta, sempre.
RICARDO CARVALHO - O oposto de Pepe: atravessou todo o Euro dando sinais de esgotamento e de precisar urgentemente de férias. Defendeu-se, nunca correndo riscos e tudo fazendo para não se dar por ele. O jogo contra a Alemanha é o paradigma disto: não esteve directamente ligado a nenhum dos golos, mas alguém é capaz de dizer onde parava ele nos três golos, todos facturados no centro da pequena área - a zona coutada dos centrais?
BRUNO ALVES - Apenas o jogo contra a Suíça, reeditando a dupla de centrais do FCP de 2007, ao lado de Pepe. Não comprometeu nem deslumbrou. Mas, não fossem os lugares cativos na Selecção de Scolari, e talvez tivesse justificado mais a titularidade do que Ricardo Carvalho.
PETIT - A mais inexplicável escolha de Scolari, depois de toda uma época falhada. Esteve no Euro como esteve no Benfica: só se dava por ele quando cometia aquelas faltas maldosas, com ar de inocente. Não haveria mesmo ninguém mais útil para a posição?
MIGUEL VELOSO - Consta que vale largos milhões e que a Itália inteira suspira por ele. Não vejo porquê, e o jogo contra a Suíça não ajudou em nada a perceber.
JOÃO MOUTINHO - Dizem, também, que vale trinta milhões e que andará meio mundo atrás dele. E também nunca percebi porquê. Vejo-o como um jogador sempre regular e um grande profissional, mas jamais como um n.º 10 com rasgo e clarividência, como um Deco, um Lucho González ou um Rui Costa. Fez um primeiro jogo razoável contra a Turquia, que serviu para o porem nos píncaros, e um segundo jogo absolutamente medíocre contra os checos. Contra a Alemanha, saíu à meia-hora, magoado, e, não fosse ter falhado um golo na cara do guarda-redes, teria passado invisível pelo jogo. Mais Alcochete não lhe fará mal algum.
RAUL MEIRELES - Entrou e marcou um golo, contra a Turquia. Jogou muito pouco contra a Suíça e aproveitou razoavelmente uma hora de jogo contra a Alemanha. Não desiludiu, mas foi igual ao costume: fez três remates à baliza e saíram todos para fora.
DECO - Este, sim, foi o homem da Selecção. Três jogos e em todos foi o melhor da equipa. Foi o Deco dos grandes tempos do FC Porto de 2004 (o tal ano da «tentativa de corrupção» e que deu cinco jogadores a esta Selecção), muito melhor do que o Deco dos últimos tempos no Barcelona.
FERNANDO MEIRA - Foi mais importante como «falador» do que em campo. Sem lugar entre os centrais, fez um jogo e parte de outro no meio-campo, onde não acrescentou nada.
SIMÃO - Três jogos sem história. Deve o lugar cativo ao facto de ainda ser, emocionalmente, jogador do Benfica.
NUNO GOMES - Na véspera do jogo com a Alemanha, declarou ter um «pressentimento» de que iria marcar. E marcou mesmo. Mas um ponta-de-lança que marca golos só quando tem «pressentimentos», parece-me pouco. Tal como outros, deve o lugar à regra da antiguidade - a mais sagrada da era Scolari - e ao facto de, como nenhum outro, ser o jogador com melhor imprensa.
HÉLDER POSTIGA - Facto extraordinário, também marcou um golo. E foi contratado pelo Sporting.
HUGO ALMEIDA - Era o sucessor mais aconselhável para preencher o deserto deixado por Pauleta. Mas estava em 3.º lugar na lista da antiguidade e Scolari só lhe deu um quarto de hora, contra a Suíça.
CRISTIANO RONALDO - Não se pode ser herói todos os dias e toda a época, mas o facto é que, se contava com o Euro para o título de melhor do mundo, Cristiano passou ao lado. Vontade, é indiscutível que tinha, assim como talento e génio. Mas, não chegou: foi dos piores contra a Alemanha e desiludiu em todos os jogos. Não sei se foi o Real Madrid que lhe deu volta à cabeça ou a grande época que fez que o rebentou, mas umas férias nas Caraíbas e uns mergulhos nos vídeos do Arshavin só lhe farão bem.
RICARDO QUARESMA - Idem, idem, aspas. Se está à espera que alguém banque os 40 milhões por ele, das duas uma: ou fica sentado à espera, ou confia em que Pinto da Costa não cumpra a sua promessa de não fazer desconto. É verdade que Scolari só lhe deu uma oportunidade e nunca soube dar-lhe a confiança de que precisa e aproveitá-lo para a Selecção. Mas, quando se ganha 150.000 euros por mês e se quer ganhar 300.000, não basta fazer um cruzamento «de letra» em 90 minutos de jogo.
NANI - Foi dos menos maus contra a Suíça e contra a Alemanha. Tentou, mas raramente foi consequente até ao fim. Fica de reserva para o futuro e para o próximo selecionador.