segunda-feira, julho 28, 2008

JUSTIÇA, DIZEM ELES... ( 08 JULHO 2008 )

1- O que mais vontade de rir me dá, naquela palhaçada protagonizada pelo Conselho de Justiça da FPF, é ver como aqueles que passaram meses a tentar desacreditar o dito Conselho, antevendo decisões favoráveis ao FC Porto e Boavista, agora, confrontados com o resultado inverso, descobrem nos «seus» conselheiros homens de «coragem», que «viraram uma página no futebol português». Sinceramente, só me dá vontade de rir.

Meses a fio, explicaram-nos que o CJ estava em contra-corrente com os «novos tempos» de «moralização» e que, por isso, só devíamos confiar no Conselho de Disciplina, onde pontifica um justiceiro inquebrável, embora com um pequeno defeito visual que só o deixa enxergar a norte. Repetiram-nos até à exaustão, por exemplo, que o presidente do CJ era mais do que suspeito para decidir qualquer processo relativo ao Boavista, visto que é vereador na Câmara de Gondomar (só «esquecendo» de acrescentar que ele é vereador sim, mas… da oposição a Valentim Loureiro). Ainda a semana passada, no recurso interposto perante o Tribunal Arbitral Desportivo da UEFA, o Benfica escrevia que não valia a pena esperar pela decisão de recurso do nosso CJ porque se tratava de um órgão «sem credibilidade». Afinal, ainda as facas estavam a ser afiadas na reunião do CJ, e já o Benfica estava a salivar por uma certidão da douta «decisão» de tão insigne órgão, que lhe permitisse esgrimir mais argumentos na UEFA a favor da sua tese de que o 4º classificado no campeonato, a 23 pontos do 1º, é que merece representar o país na Champions.

2- O que se terá passado, então, para justificar tamanha cambalhota? Pois, os meandros eu não sei. Sei é que, e tal como ficou cristalinamente claro, tirando um dos conselheiros do dito CJ, que passa por pessoa isenta, todos os outros tinham votos agenciados, ou a favor da facção FC Porto/Boavista ou a favor da facção Benfica/V. Guimarães. Sabia-se que a votação final seria sempre 4-3 e sempre se partiu de princípio de que ganharia a facção portista: daí a campanha de descredibilização e intimidação do CJ. Mas aconteceu que, à boca das urnas, se descobriu que um ou dois conselheiros tinham, entretanto, «deslizado» de posição - certamente convencidos por argumentos muito fortes. Vendo-se em minoria, a facção portista tentou um golpe, que perdeu, e a facção benfiquista ripostou então com um contra-golpe. Ambos jurídica e moralmente indigentes.

A verdade é que não há conselheiros bons e maus, nesta palhaçada. Nem há argumentos de direito de vencedores ou vencidos (e a prova é que, até hoje, não conhecemos os argumentos pelos quais a maioria do CJ «deliberou» despromover de divisão um clube e contribuir para afastar outro da Liga dos Campeões: como se isso fosse um pormenor irrelevante). O que há apenas são advogados ao serviço de interesses ou paixões clubísticas, travestidos de juízes e a brincar aos heróis moralizadores e justiceiros. Razão tive para, durante anos, à revelia de toda a imprensa desportiva mas em sintonia com o Conselho Superior da Magistratura, defender que os juízes fossem afastados do futebol, pelo desprestígio que isso trazia à magistratura e à ideia de Justiça. Hoje não há juízes, há advogados dos clubes e tudo é mais claro: quem ganha as eleições nos órgãos da Liga e da Federação dita as leis e faz «justiça». Resta afastar também os magistrados do Ministério Público desta selva.

3- Se os queridos conselheiros do CJ se movessem nem que fosse por um mínimo de razões de direito, não poderiam, obviamente, ignorar o despacho de arquivamento do processo-crime contra Pinto da Costa, proferido pelo Tribunal de Instrução Criminal do Porto, no processo da «fruta» e do FC Porto-Beira-Mar — um dos dois processos que justificaram a condenação decretada pelo CD da Liga. E não poderiam ignorá-lo, porque ele se ocupa justamente dos fundamentos usados pelo CD para condenar o clube e para manter a Dr.ª Maria José Morgado na sua cruzada. E o que faz é desfazê-los, sem dó nem piedade, reduzindo-os a resíduos de lama.

Pior para os justiceiros é que, tendo sido a primeira vez que um magistrado, fora destas guerras todas, observou de perto o resultado do trabalho da Dr.ª Morgado, a coisa foi logo calhar às mãos de um juiz que é simpatizante do Sporting e da Académica e, pior ainda, é o mais respeitado juiz dos Tribunais de Instrução Criminal do Porto. (E, já agora, esclareço um argumento que ouvi a um benfiquista: o facto de um juiz estar colocado num tribunal do Porto, não significa, antes pelo contrário, que ele seja portuense e, menos ainda portista. Como toda a gente sabe, os juízes rodam por diversas comarcas ao longo da sua carreira e, quem está hoje no Porto, pode estar em Outubro em Évora ou em Lisboa. Seria como dizer que o Embaixador de Portugal em Luanda é angolano).

4- E o que disse o juiz do TIC? Disse isto:.............

a) que a utilização de escutas telefónicas no próprio processo-crime foi ilegal, por se tratar de crime a que não corresponde pena superior a três anos. Por maioria de razão, é ainda mais ilegal a sua utilização para fins disciplinares desportivos (ao contrário do que alguns justiceiros acham, isto de escutar as conversas privadas das pessoas não é um exercício leviano…);

b) que, mesmo assim, o facto é que sete meses de escutas telefónicas infligidas a Pinto da Costa tiveram como resultado útil apenas UMA conversa que o MP considerou suspeita;

c) que, nessa conversa, o MP nunca conseguiu fazer prova que o «JP», referido na conversa, fosse o árbitro Jacinto Paixão, como sustenta o MP, e não o ex-dirigente portista Joaquim Pinheiro, como explicou Pinto da Costa - e daí o processo ter sido anteriormente arquivado, até que a Dr.ª Maria José Morgado o mandou reabrir;

d) que, ainda que se concluísse que a conversa versava sobre o árbitro Jacinto Paixão e visava garantir os seus favores na arbitragem do jogo FC Porto-Beira-Mar, faltava um elemento essencial para se concluir pela corrupção: o nexo de causalidade, ou seja, o resultado prático dessa suposta corrupção. Acontece que nenhum dos peritos consultados concluiu que o árbitro tivesse favorecido o FC Porto. (Qualquer aprendiz de direito sabe isto e por isso é que o Dr. Ricardo Costa inventou a tese milagreira da «tentativa de corrupção», para fugir à dificuldade. Só que cometeu um erro: se houve tentativa apenas, os árbitros não poderiam também ter sido condenados. Se o foram, é porque, afinal, ele acha que houve corrupção. E, se houve, cadê o nexozinho de causalidade?).

e) enfim, sobre a «prova» acrescida trazida pelas declarações de Carolina Salgado ao MP — e jamais contraditadas livremente pela defesa — o juiz do TIC foi demolidor: a senhora, pura e simplesmente, mentiu. E daí que ele tenha mandado instaurar-lhe processo-crime por falsas declarações agravadas.

A forma como o juiz do TIC chegou a esta última conclusão é fatal para a Dr.ª Morgado e para o Dr. Costa. Confrontado com a transcrição das suas declarações ao MP, onde Carolina Salgado jurava ter assistido à conversa entre o empresário António Araújo e Pinto da Costa, supostamente acerca do árbitro Jacinto Paixão, o juiz limitou-se a pedir a transcrição de todas as chamadas do telemóvel de Pinto da Costa, nesse dia. E por elas descobriu que, à hora a que senhora jurava ter estado com o presidente do FC Porto, ela estava sim no cabeleireiro ou a caminho de casa do pai — conforme os seus próprios telefonemas para o telemóvel de Pinto da Costa atestavam. Tão simples como isto. E tão simples, que é impossível não perguntar porque é que a Dr.ª Maria José Morgado e o seu «dream team», a quem cabia a investigação, não se deram ao trabalho de fazer o mesmo? Bem pode agora a ilustre magistrada do MP anunciar que vai recorrer da sentença de arquivamento do TIC (não paga custas, não está sob suspeição, não lhe custa nada prolongar a coisa). Mas o que era preciso é que ela respondesse antes a esta pergunta…

5- Como se sabe, foi com base nos elementos fornecidos pela Dr.ª Maria José Morgado, que o CD entendeu condenar o FC Porto. Com base nas escutas e no depoimento de Carolina Salgado ao MP. Agora, que um juiz de direito de um tribunal comum decreta que as escutas são ilegais e não fazem prova alguma e a testemunha é uma mentirosa, apanhada com a boca na botija, o que vale a condenação do CD? Não, não me venham dizer que a justiça desportiva deve ser independente da justiça comum. Tivessem-no dito quando ficaram tão entusiasmados com a chegada da Dr.ª Morgado ao Apito Dourado e quando tanto insistiram para que ela passasse ao CD as «provas» que lhe permitiu condenar o FC Porto. Mas, aparte essa outra cambalhota, resta o essencial. E o essencial é o quê: saber a verdade dos factos e garantir aos acusados um processo limpo e com garantias de defesa, ou afastar o FC Porto para que o Sr. Luís Filipe Viera consiga apagar uma década de falhanços consecutivos no Alverca e no Benfica, e para assim não ter de sair protegido pela polícia das reuniões com os próprios sócios do clube?

segunda-feira, julho 07, 2008

VAMOS, ENTÃO AO DEFESO ( 01 JULHO 2008 )

1- A história recente dos emigrantes de luxo do futebol português não se resume aos casos de sucesso, como Cristiano Ronaldo. A maioria, até, são casos de insucesso: Tiago, Hugo Viana, Manuel Fernandes, Miguel. Mesmo jogadores aqui considerados verdadeiras estrelas, como Simão ou Deco, estão longe de terem visto esse estatuto reconhecido além-fronteiras. Parece que agora chegou mesmo a vez de Ricardo Quaresma se ir também embora, satisfazendo o ardente desejo dos jornalistas anti-portistas.

Já aqui escrevi por diversas vezes o quanto acho que a partida de Quaresma deixará um imenso vazio que ninguém preencherá tão cedo no FC Porto. Não só porque, ao longo das últimas épocas, ele tem sido o principal municiador de golos da equipa - marcando-os ou dando-os a marcar - mas também porque para encontrar paralelo com o seu futebol, em termos de imaginação e espectáculo, é preciso recuar vinte anos atrás, a Rabah Madjer. E também já escrevi que, compreendendo que ele possa desejar legitimamente saltar para um campeonato de outro nível, pode muito bem acontecer que se veja confrontado com a desilusão: em Milão, vai fatalmente encontrar um ambiente de equipa muito mais exigente e menos amigável, adeptos e imprensa bem mais intolerantes e, se as coisas não correrem bem a Mourinho, ele será dos primeiros a pagar por arrasto.

A sair, também parece certo que não sairá pelos 40 milhões prometidos solenemente por Pinto da Costa: sairá por menos, eventualmente disfarçando com alguém que o Inter não quer metido no pacote e cujo salário fará certamente dessa moeda de troca um presente envenenado.

2- Na temporada passada, o FC Porto foi o clube do mundo que mais facturou com a venda de jogadores. Desde 2004 para cá, aliás, todos os anos o FC Porto realiza receitas absolutamente extraordinárias a vender os seus melhores - de tal maneira que, ao pé delas, as receitas da chamada Liga dos Milhões parecem trocos. A gestão dos activos assim feita até não tem sido má, o problema é que todos esses jogadores que proporcionaram receitas milionárias ao clube são ou eram agenciados por Jorge Mendes e, ao que consta, o clube e ele estarão agora de relações congeladas. E, enquanto os talentos por ele descobertos vão saindo aos poucos, entram levas de sul-americanos, tipo Lucas Marenque ou Renteria, ou sub-produtos nacionais cuja compra me deixa estupefacto. Por cada venda fabulosa proporcionada por Jorge Mendes, lá vai o Dr. Caldeira para as Américas comprar de atacado jogadores cujo talento ninguém descortina. Assim como ninguém descortina que fim levam esses rios de dinheiro, que já deviam ter proporcionado à SAD uma situação financeira desafogada.

3- Mas há, como venho denunciando há anos, outras coisas preocupantes que resultam destes «defesos» da SAD do FC Porto. Ainda por aí uma quantidade de jogadores emprestados a outros clubes, com os salários ou parte deles, a serem pagos pelo FC Porto, e que raramente são recuperados, mesmo quando provaram bem nos clubes de empréstimo: é dinheiro deitado à rua, pura e simplesmente. Não há, há anos que não há, um só jogador vindo da formação no plantel principal. Para que servirá a formação e os escalões jovens, o projecto «Dragon-2012»? Com as saídas de Bosingwa, Postiga, Vierinha, Castro, Quaresma, Helder Barbosa (e Bruno Alves?!), também já não há praticamente portugueses na equipa. Não houve um só titular entre o onze de Portugal no Europeu e, dos quatro que foram suplentes, um já não é portista e o outro está em vias de deixar de o ser. Para quem, como Pinto da Costa, diz preocupar-se tanto com a Selecção e é presidente de um dos maiores clubes nacionais, não deixa de ser quase humilhante esta situação. Será que a ganância das aquisições sul-americanas ainda vai fazer do FC Porto, o mais antigo clube português, uma espécie de F.C. Soy Loco Por ti América?

4- Enfim, concedo que o Bosingwa foi muito bem vendido, pelo preço e porque já se andava a achar demasiado bom para a equipa. O Postiga foi ainda mais bem vendido, embora não o suficiente para fazer esquecer o tremendo erro que foi a sua recompra ao Tottenham. Mas, com esses 23 milhões, o orçamento do ano que vem já estaria coberto, não fosse a irresistível tentação dos negócios sul-americanos.

Concedo que o Cristian Rodriguez é uma compra interessante, mas demasiado cara (embora, claro, só três milhões tenham sido para pagar o gozo de imaginarmos a expressão de Luís Filipe Vieira, quando lhe deram a notícia). Tudo visto, não há nenhuma justificação financeira, e menos ainda desportiva, para vender o Quaresma. E vender o Bruno Alves, isso então, seria mesmo inexplicável.

Se houvesse juízo naquela casa, o que haveria a fazer agora era simples: nem mais compras, nem mais vendas. Mas é preciso não os conhecer…

5- E se nós, portistas, vivemos todos os «defesos» com o credo na boca, no terror de abrirmos o jornal de manhã e verificar que lá venderam mais uma das jóias da Coroa, a compensação que temos é a de seguir a época de aquisições do Benfica.

Nunca um pobre fez tão tristes figuras de novo-rico como o Benfica faz todos os anos. E este ano, apesar de Rui Costa ser de outra categoria e outros hábitos, aquele estilo grandiloquente já está de tal maneira entranhado nos procedimentos da casa, que tudo tem seguido o roteiro habitual:

- primeiro e em grandes parangonas, anuncia-se que o Benfica está interessado em algum grande jogador da categoria B (a categoria B é a dos que têm nome internacional mas não jogam nos respectivos clubes);

- passados uns dias, aparece o jogador em causa, o empresário, o pai, o vizinho de infância ou o canário, a jurarem que ele está entusiasmado com a hipótese de ir para o Benfica;

- passados mais uns dias, dá-se conta de que o Benfica já apresentou uma proposta pelo jogador e que só falta «limar algumas arestas com o clube»;

- mais uns dias, e os adeptos benfiquistas são informados de que «já há acordo pleno com o jogador»;

- no dia seguinte, inesperadamente, descobre-se que há um terceiro clube que também está interessado no jogador, mas que o Benfica já tem uma alternativa preparada para o caso de as negociações falharem;

- oh…o homem fugiu mesmo para o tal terceiro clube e, aparentemente, não foi triste. Avança, então, o nome da alternativa: um jogador de categoria C (a categoria C corresponde a um jogador que ninguém sabe quem é, mas que Pelé garantiu que era um novo Maradona ou Maradona garantiu que era um novo Pélé);

- anuncia-se que o Benfica, «agindo rapidamente e adiantando-se à concorrência», garantiu a aquisição do novo Pélé;

- o novo Pelé desembarca em Lisboa e, de voz própria ou através do seu empresário, trata lugar de jurar que o FC Porto também tinha tentado contratá-lo, mas que ele preferiu o Benfica.

Não tardará a perceber-se porquê.

6- Há uma espécie de unanimidade nacional em roda do nome de Carlos Queiroz para seleccionador nacional. Pode ser que seja uma boa escolha, pode ser que não, ninguém o pode dizer. Mas não percebo a evidência nem a unanimidade. Queiroz já foi selecionador e falhou em toda a linha. Como falhou no Sporting, no Real Madrid, na Selecção da África do Sul. Triunfou apenas no longínquo Mundial de Juniores em Riade, à frente da tal «geração de ouro», irrepetível. E, de cada vez que falhou, nunca foi capaz de reconhecer erros próprios: a culpa foi sempre de outros, da organização, da falta de meios ou de qualquer outra coisa. Repito: pode ser que se revelasse uma boa escolha, mas seria à segunda tentativa e não é, de todo, uma coisa evidente.

7- Perante o silêncio da SAD do FC Porto, o Sr. Platini continua alegremente a caluniar o clube. Já agora, que alguém ao menos lhe explicasse (e aos advogados do Benfica…) que o Comité de Apelo da UEFA não anulou a decisão da 1ª instância de excluir o FCP da Champions apenas porque o processo ainda não está acabado em Portugal. Está lá escrito que, mesmo que o FCP seja condenado definitivamente, o Comité de Disciplina da UEFA não pode esquecer-se de uma coisa chamada não-retroactividade da lei disciplinar punitiva. Não são «meras complicações jurídicas», como diz o Sr. Platini na sua ignorância arrogante.

UM BANHO DE HUMILDADE ( 24 JUNHO 2008 )

Uma imprensa desportiva eufórica antes de tempo, um país acometido de delírio patriótico e um insuportável blitz de publicidade dos patrocinadores da Selecção, criaram a certeza de que esta equipa de Portugal só poderia chegar ao céu - ao título de Campeão da Europa de 2008. Tal como sempre aconteceu na era Scolari, caímos no mais fácil dos grupos da fase final - onde, como disse Mourinho, era impensável não passarmos aos «quartos».

Veio primeiro uma Turquia borrada de medo, que vencemos com uma exibição segura, mas não sublime, como logo apregoaram; e, depois, uma República Checa, contra quem, mais uma vez, só obtivemos o golo da tranquilidade nos descontos e após enfrentar alguns calafrios finais, imprevistos e desnecessários. Mas passámos, que era o importante.

A seguir, veio o jogo das reservas contra a Suíça, perdido sem nenhum brio nem desculpa (e todos os outros apurados à 2.ª jornada - Espanha, Croácia e Holanda - puseram também as reservas no terceiro jogo e ganharam-no). Aqui, deveríamos ter tido um primeiro sobressalto de humildade, antes de enfrentarmos uma Alemanha que já se sabe que é sempre competitiva e tem espírito de equipa.

Aliás, nessa 1.ª fase, pese às nossas milionárias vedetas e ao delírio da imprensa, eu vi jogar melhor futebol à Croácia, à Holanda, à Espanha e à Rússia - sem esquecer a Itália e a Alemanha, que, mesmo quando não têm grandes equipas, têm uma cultura de vitória entranhada. Esperava-se que fizéssemos a diferença pelas nossas individualidades, mas afinal o que mostrámos de melhor foi a condição física e o jogo colectivo.

Contra a Alemanha, no primeiro verdadeiro jogo a doer, nós partíamos com uma vantagem imensa: oito dias de descanso contra três, numa competição em que, tal como no Mundial, os grandes jogadores já chegam estafados por uma época sem tréguas. Para nos ganhar, a Alemanha sabia que tinha de construir o resultado de início e defendê-lo depois. Foi isso que fizeram e conseguiram-no - curiosamente, não como equipa, mas porque, na hora da verdade, os seus valores individuais suplantaram os nossos. E assim saímos deste Europeu, onde, tirando o próprio Scolari, que afirmou sair «de consciência supertranquila», todos nós achamos que poderíamos e deveríamos ter ido mais longe.

A seu tempo, talvez faça aqui o balanço destes seis anos de Scolari à frente da Selecção. Agora, faço apenas uma apreciação individual daqueles que ele lançou na batalha perdida.

RICARDO - De todos os 40 ou 50 jogadores chamados por Scolari nestes seis anos, nenhum lhe deve mais do que Ricardo. Ele começou por ser o instrumento da querela particular de Scolari contra Baía. E, logo aí, como ao longo daquelas patéticas conferências de imprensa dos jogadores da Selecção em que participou, Ricardo mostrou a falta de humildade e de elegância que sempre o caracterizou. Mesmo quando suplente no Sporting ou no Bétis, Ricardo contou sempre com a fidelidade de Scolari. E, entre os postes, que era o que mais interessava, mostrou tudo o que já se sabia: que é óptimo a defender penalties, bom a defender remates frontais e a jogar com os pés, e um zero no jogo aéreo. Contra a Alemanha (e tal como já sucedera no Mundial de 2006, com o mesmíssimo resultado), não teve de fazer uma única defesa e encaixou três golos: no primeiro, não teve culpas; no segundo, teve algumas; e, no terceiro e decisivo, teve bastantes. Lothar Mathaus tinha avisado.

BOSINGWA - Foi dos melhores, ao longo dos três jogos e tudo ponderado. Não deslumbrou, mas cumpriu.

MIGUEL - Segundo parece, acha que o Valência já é pouco para ele. Só teve uma oportunidade - contra a Suíça - para mostrar a razão porque pensa isso, mas não o conseguiu: foi o pior em campo.

PAULO FERREIRA - Temia-se a sua adaptação à esquerda e os temores saíram confirmados. Jogou os quatro jogos e em todos esteve mal.

JORGE RIBEIRO - Contratado pelo Benfica para a próxima época (na véspera do jogo contra o «seu» Boavista), não justificou, contra a Suíça, as razões da contratação.

PEPE - O novo «português» aprendeu o hino e mostrou raça e vontade de honrar a chamada. Jogou sempre no risco e acertou umas vezes, falhou outras. Mas foi à luta, sempre.

RICARDO CARVALHO - O oposto de Pepe: atravessou todo o Euro dando sinais de esgotamento e de precisar urgentemente de férias. Defendeu-se, nunca correndo riscos e tudo fazendo para não se dar por ele. O jogo contra a Alemanha é o paradigma disto: não esteve directamente ligado a nenhum dos golos, mas alguém é capaz de dizer onde parava ele nos três golos, todos facturados no centro da pequena área - a zona coutada dos centrais?

BRUNO ALVES - Apenas o jogo contra a Suíça, reeditando a dupla de centrais do FCP de 2007, ao lado de Pepe. Não comprometeu nem deslumbrou. Mas, não fossem os lugares cativos na Selecção de Scolari, e talvez tivesse justificado mais a titularidade do que Ricardo Carvalho.

PETIT - A mais inexplicável escolha de Scolari, depois de toda uma época falhada. Esteve no Euro como esteve no Benfica: só se dava por ele quando cometia aquelas faltas maldosas, com ar de inocente. Não haveria mesmo ninguém mais útil para a posição?

MIGUEL VELOSO - Consta que vale largos milhões e que a Itália inteira suspira por ele. Não vejo porquê, e o jogo contra a Suíça não ajudou em nada a perceber.

JOÃO MOUTINHO - Dizem, também, que vale trinta milhões e que andará meio mundo atrás dele. E também nunca percebi porquê. Vejo-o como um jogador sempre regular e um grande profissional, mas jamais como um n.º 10 com rasgo e clarividência, como um Deco, um Lucho González ou um Rui Costa. Fez um primeiro jogo razoável contra a Turquia, que serviu para o porem nos píncaros, e um segundo jogo absolutamente medíocre contra os checos. Contra a Alemanha, saíu à meia-hora, magoado, e, não fosse ter falhado um golo na cara do guarda-redes, teria passado invisível pelo jogo. Mais Alcochete não lhe fará mal algum.

RAUL MEIRELES - Entrou e marcou um golo, contra a Turquia. Jogou muito pouco contra a Suíça e aproveitou razoavelmente uma hora de jogo contra a Alemanha. Não desiludiu, mas foi igual ao costume: fez três remates à baliza e saíram todos para fora.

DECO - Este, sim, foi o homem da Selecção. Três jogos e em todos foi o melhor da equipa. Foi o Deco dos grandes tempos do FC Porto de 2004 (o tal ano da «tentativa de corrupção» e que deu cinco jogadores a esta Selecção), muito melhor do que o Deco dos últimos tempos no Barcelona.

FERNANDO MEIRA - Foi mais importante como «falador» do que em campo. Sem lugar entre os centrais, fez um jogo e parte de outro no meio-campo, onde não acrescentou nada.

SIMÃO - Três jogos sem história. Deve o lugar cativo ao facto de ainda ser, emocionalmente, jogador do Benfica.

NUNO GOMES - Na véspera do jogo com a Alemanha, declarou ter um «pressentimento» de que iria marcar. E marcou mesmo. Mas um ponta-de-lança que marca golos só quando tem «pressentimentos», parece-me pouco. Tal como outros, deve o lugar à regra da antiguidade - a mais sagrada da era Scolari - e ao facto de, como nenhum outro, ser o jogador com melhor imprensa.

HÉLDER POSTIGA - Facto extraordinário, também marcou um golo. E foi contratado pelo Sporting.

HUGO ALMEIDA - Era o sucessor mais aconselhável para preencher o deserto deixado por Pauleta. Mas estava em 3.º lugar na lista da antiguidade e Scolari só lhe deu um quarto de hora, contra a Suíça.

CRISTIANO RONALDO - Não se pode ser herói todos os dias e toda a época, mas o facto é que, se contava com o Euro para o título de melhor do mundo, Cristiano passou ao lado. Vontade, é indiscutível que tinha, assim como talento e génio. Mas, não chegou: foi dos piores contra a Alemanha e desiludiu em todos os jogos. Não sei se foi o Real Madrid que lhe deu volta à cabeça ou a grande época que fez que o rebentou, mas umas férias nas Caraíbas e uns mergulhos nos vídeos do Arshavin só lhe farão bem.

RICARDO QUARESMA - Idem, idem, aspas. Se está à espera que alguém banque os 40 milhões por ele, das duas uma: ou fica sentado à espera, ou confia em que Pinto da Costa não cumpra a sua promessa de não fazer desconto. É verdade que Scolari só lhe deu uma oportunidade e nunca soube dar-lhe a confiança de que precisa e aproveitá-lo para a Selecção. Mas, quando se ganha 150.000 euros por mês e se quer ganhar 300.000, não basta fazer um cruzamento «de letra» em 90 minutos de jogo.

NANI - Foi dos menos maus contra a Suíça e contra a Alemanha. Tentou, mas raramente foi consequente até ao fim. Fica de reserva para o futuro e para o próximo selecionador.

O QUEIXINHAS ( 17 JUNHO 2008 )

1- Todos nós conhecemos a figura do queixinhas, dos tempos de escola, na adolescência. O queixinhas, também conhecido por o Manteigueiro, era aquele fulano que, quando o professor perguntava «quem foi que falou?», respondia «foi o Jorge Nuno». Com isso, o queixinhas tentava insinuar-se nas boas graças do poder e, simultaneamente, dificultar a vida aos colegas. Porque o queixinhas era, invariavelmente, um puto medíocre, nos estudos ou no desporto, que morria de inveja dos que se destacavam pelos seus méritos. Enquanto o queixinhas era uma figura odiosa para a generalidade da turma, desprezado e ostracizado, ele próprio parecia viver bem com isso, porque o seu objectivo principal era passar de ano, não por mérito, mas por influência junto dos professores. Uma influência conquistada com a delação sobre os que se sentavam a seu lado.

De há um mês para cá, o «Glorioso» Sport Lisboa e Benfica, pátria de José Augusto, Eusébio, Torres, Coluna e Simões, dos dez inesquecíveis Magriços de 66, transformou-se no queixinhas oficial do futebol português. Com a agravante de conduzir uma desatinada campanha de delação no estrangeiro contra aquele que é o seu maior rival interno e que ele, não conseguindo derrubar em campo, cara a cara, tenta derrubar na secretaria, impedindo-o de competir. As más notícias para a SAD benfiquista ontem chegadas da UEFA já não apagam a sua vil atitude, apenas a tornam ainda inútil: perderam no campo e perderam na secretaria. Para esta época, o melhor que têm a fazer é apostar mais no talento em campo do que nos talentos jurídicos do dr. João Correia.

Penso que, mesmo para muitos benfiquistas, ficará como uma das páginas mais negras da história do SLB este zelo persecutório, este assanhamento contra o FC Porto, este oportunismo despudorado de tentar tirar partido de uma imensa estupidez da SAD do FC Porto (não ter recorrido da condenação da Liga para salvar 6 pontos na próxima época), esta absoluta sem vergonha de tentar chegar à Liga dos Campeões à custa de um justíssimo campeão e após uma época em que o 4.º lugar final mostrou exuberantemente que o Benfica não mereceu de forma alguma representar o futebol português na mais importante competição europeia de clubes.

Face às consequências europeias da condenação na Liga, que a SAD do FC Porto não previu, o Benfica se quisesse também ter uma postura que honrasse o seu nome, só poderia ter feito uma de duas coisas: ou renunciar ao lugar assim caído do céu na edição da Champions do ano que vem (conforme alguns benfiquistas, não muito sinceros, sugeriram), ou esperar tranquilamente para ver em que acabava tudo. Mas, não: a SAD do Benfica escolheu uma terceira via, a do oportunismo sem remorsos. Escolheu ser parte activa em todo o processo, ser o maior denunciante e o mais desonesto nos seus métodos, enfim, tudo fazer para tentar conquistar na UEFA o que perdeu em campo à vista do país inteiro.

A hipocrisia da argumentação levada pelo Benfica à UEFA, jogando tudo em tentar demonstrar que a condenação do FC Porto transitou em julgado (o que eu também acho…), faz por ignorar, todavia, o essencial. E o essencial é isto:

- que foi igualmente por razões de oportunismo circunstancial, embora bem mais compreensíveis e justificáveis, que a SAD do FC Porto resolveu não recorrer da condenação da Liga, deixando a defesa da honra do clube para o recurso interposto pelo seu presidente;

- que, ao tomar esta decisão, a SAD do FC Porto não previu as consequências que daí poderiam vir. Se, como lhe competia, tivesse feito o trabalho de casa e tivesse realizado que, não recorrendo, ficaria fora da Champions, a SAD do FCP teria obviamente recorrido, mesmo com o risco de entrar a perder 6 pontos no campeonato que aí vem;

- que a condenação da UEFA só poderá ser levada a cabo através de uma grosseira violação de um princípio geral de direito punitivo, que é o da não retroactividade da lei, e consumará uma politica efectiva de dois pesos e duas medidas, conforma a vítima seja um colosso europeu ou um modesto colosso português;

- que, ao longo de todo o processo Apito Dourado (onde, quer na esfera penal, que na disciplinar, sempre houve simpatizantes benfiquistas em posição de acusar ou condenar o FC Porto, desde o topo até à base), nunca foi dada, até à data, uma possibilidade efectiva de o FC Porto se defender das acusações, nomeadamente confrontando, na justiça penal ou na disciplinar, a testemunha-chave, engendrada pelo Benfica, apaparicada pelo Ministério Público e tomada como a voz da verdade pela comissão disciplinar da Liga;

- que a única condenação existente até agora — a do CD da Liga — foi protagonizada por um órgão que reúne essa extraordinária faculdade de ser simultaneamente acusador e julgador (e daí que a outra frente de batalha benfiquista seja a despudorada manobra de desqualificar, intimidar e ameaçar o órgão de recurso — o CJ da federação — tendo tornado já claro que, no entender do Benfica, só haverá «justiça» se o CJ confirmar as condenações do CD; se o não fizer, haverá «branqueamento»).

- e, enfim, fingindo ignorar que o FC Porto de 2004, de José Mourinho, Deco, Maniche, Ricardo Carvalho, Derlei, McCarthy, Carlos Alberto, etc., folgadíssimo campeão nacional e justíssimo campeão europeu, certamente que não andou a comprar árbitros para empatar um jogo e vencer outro, contra equipas despromovidas e em encontros a feijões. Assim como finge ignorar que Portugal inteiro assistiu, nos últimos 20 anos, a uma clara demonstração da superioridade em campo do FC Porto, quase ano após ano. O que o País ainda não percebeu é como é que o Benfica ganhou o campeonato de 2005…


2- E parece que ao Benfica se juntou agora, nesta edificante cruzada, o Vitória de Guimarães. Quem, o Vitória de Guimarães — que vive a mendigar favores e empréstimos de jogadores ao FC Porto, que não entrou directo para a Champions porque levou 5-0 do FC Porto em casa —, também quer agora ver se rouba o lugar aos portistas e entra directo sem esse calafrio da pré-eliminatória? Bem esperamos que a SAD do FC Porto não se esqueça, mais uma vez, do que tem de fazer para responder ao Vit. Guimarães…

3- A cabeça ferve-lhes de ambição e entusiasmo: já se imaginam no Milan, no Inter, no Valência, no Arsenal, no Barcelona. E uns até já lá estão. As grandes vedetas do banco de suplentes de Portugal deram uma triste imagem do talento que apregoam. Sim, o árbitro, inqualificavelmente mau, fez tudo para que a Suíça não perdesse. Mas, por mais que um árbitro prejudique, há uma coisa contra a qual ele nada pode e que os grandes jogadores e as grandes equipas têm: atitude. Foi o que não tivemos. Aquela triste equipe da Basileia pareceu apenas um grupo de meninos vaidosos a deitarem contas à vida para depois do Europeu. Também não admira quando o exemplo vem de cima. Quando o primeiro a tratar da vidinha é o próprio selecionador, em plena concentração.

4- Mas não serei hipócrita: vejo com imenso alívio a ida de Scolari para Inglaterra. Acho que vai ser bom para nós e para ele também: só lhe vai fazer bem viver numa democracia a sério e num futebol onde não poderá agredir jogadores adversários, ofender jornalistas senhoras, insultar os críticos, apostar na saloice patrioteira e debitar banalidades para uma plateia de jornalistas ao seu serviço. Para começar, logo esta pequena diferença: o Chelsea contratou-o e logo revelou quanto é que lhe ia pagar, ao contrário de nós, que até hoje não sabemos quanto lhe paga a federação — apesar de esta ter estatuto de utilidade pública e viver, em parte, com o nosso dinheiro.

segunda-feira, junho 16, 2008

OS INSULTOS DE PLATINI (10 JUNHO 2008)

1- Com aquela má educação e sobranceria que caracteriza a raça francesa, Michel Platini, presidente da UEFA, resolveu insultar o FC Porto perante uma plateia de jornalistas do mundo inteiro. Nas suas palavras, (logo entusiasticamente aplaudidas pelo presidente do Benfica, sem se dar conta de que foi todo o futebol português que foi ofendido e que, mais tarde ou mais cedo, pagará a factura…), o FC Porto é «batoteiro» e não tem lugar numa competição onde se quer «jogo limpo».

Platini que, enquanto jogador abrilhantou os quadros da equipa europeia historicamente mais ligada a jogadas de batota — a Juventus — extravasou claramente as suas funções e perdeu uma excelente ocasião de estar calado. Pois que:

- primeiro, a decisão do Comité de Disciplina da UEFA está pendente de recurso apresentado pelo FC Porto e não pode o presidente da UEFA antecipar-se ao órgão de justiça próprio, para proclamar a sua sentença pessoal aos quatro ventos;

- segundo, porque a própria decisão do órgão de disciplina da Liga portuguesa — que está na origem da decisão da UEFA — corre recurso quanto à matéria de facto: a culpabilidade do presidente do FC Porto, e, por arrasto, a do clube;

- terceiro, porque o FC Porto não foi internamente (e provisoriamente) condenado por «corrupção», como ele disse, mas sim por «tentativa de corrupção», o que faz a sua diferença;

- quarto, porque batoteira foi a UEFA, que, na sua ânsia de encontrar um bode expiatório acessível para testar a sua nova legislação, não teve pudor em fazer dela uma aplicação sancionatória retroactiva contra o FC Porto e descriminatória contra um clube português, que não tem a força política de um AC Milan ou uma Juventus — que, esses, escaparam incólumes à sanção em causa, com expressa referência do Comité de Disciplina da UEFA de que não havia, à data dos factos praticados, lei que os punisse. A lei é de 2007; os factos cometidos pelo Milan e Juventus no âmbito do «Totocalcio» são de 2006, e a suposta tentativa de corrupção do FC Porto foi cometida em 2004…

Com isto está tudo dito sobre os critérios de justiça da UEFA e, se conseguisse ver para além do ódio que lhe tolhe o raciocínio, o presidente do Benfica, em lugar de se indignar porque o presidente da Federação Portuguesa de Futebol cumpriu a sua obrigação ao tentar defender um clube português alvo de um critério descriminatório, deveria é ficar preocupado por constatar que, no futebol, também há regras para os ricos da Europa e regras para os outros.

2- Com razão ou sem ela, porém, o facto é que o presidente da UEFA — numa conferência de imprensa de abertura do Euro, onde estavam jornalistas do mundo inteiro — arrastou pela lama o nome do FC Porto. E o que fica é o facto último: os jornalistas presentes divulgaram para o mundo inteiro que o FC Porto, vencedor da Champions há quatro anos atrás, foi expulso da competição por ser «batoteiro». Foi a maior ofensa jamais feita ao clube — a todos os seus atletas, sócios, adeptos. Uma direcção que tivesse sabido desde o princípio defender o bom-nome do clube em toda esta trampa, em lugar de meter a cabeça na areia a ver se a tempestade passava por si, já teria, a esta hora, respondido à letra ao Sr. Platini e tê-lo-ia processado por ofensa grave.

Mas, como se viu na tristíssima entrevista na SIC, Pinto da Costa está à deriva e não sabe o que fazer. Desde o princípio do «Apito Dourado» que ele acumulou os erros de avaliação. Antes de mais, e como várias vezes o tenho escrito, misturou a sua vida pessoal com a vida do clube, sem tratar de ver com quem se metia e acautelar os interesses do clube que lhe cabia defender, acima de tudo; depois, continuou a confundir a sua defesa pessoal com a defesa do clube e imaginou que o grupo de amigos que o rodeia chegava para a encomenda, confiando a defesa do clube a esse vice-presidente que só tem causado danos ao FC Porto, chamado Adelino Caldeira, que tem o desplante de ainda se manter em funções; juntos, tomaram depois a «sábia» decisão de não recorrer do castigo do CD da Liga, por estritas razões de oportunismo competitivo, não alcançando que estava em causa, sobretudo, a honra do clube, que não é negociável, e não antecipando, por absoluta incompetência, as consequências jurídicas e desportivas que essa decisão poderia acarretar.

Basta ter ouvido Platini para perceber que, a menos que aconteça um milagre, a decisão definitiva já está tomada e é política, conforme seria de temer. Bem pode Pinto da Costa agitar, desesperado, os quatro pareceres dos «mestres» de direito a defender que as escutas em processo disciplinar são inconstitucionais. É claro que são, mas é notável que ele não tenha percebido que isso não interessa nem ao Menino Jesus. Que não tenha percebido desde logo que o desfecho, tanto interno como externo, do «Apito Dourado» iria ser político e, por isso, a defesa, para além dos aspectos jurídicos, deveria ter sido política desde o princípio. Com revolta, com combatividade, com contra-ataques dirigidos ao Benfica — o mentor de todo o processo — e não com silêncios, piadinhas deslocadas, e espertezas saloias.

Longe de mim a ingratidão. Sei tudo o que o FC Porto deve a Pinto da Costa e sei que é por isso mesmo que ele é, de há muito, um alvo a abater pelos que não conseguem ganhar em campo nem sabem perder fora a dele. Mas, no momento mais importante da vida do clube, Pinto da Costa falhou em toda a linha e expôs o FC Porto a danos desportivos, financeiros e de prestígio devastadores. Deve tirar daí as consequências que se impõem: a vida não é a feijões e o cargo de presidente do FC Porto não é uma prateleira dourada de irresponsabilidade. Primeiro, deve demitir os incompetentes e “yesmen” que o rodeiam e procurar quem possa servir o clube sem ter de lhe prestar vassalagem pessoal; e, a seguir, deve pensar seriamente, se a sua própria continuidade à frente do clube e da SAD se tornou, a partir de agora, boa para ambas as partes ou apenas para si mesmo.

3- Dito isto, também quero acrescentar o seguinte: enquanto eu tiver memória, a atitude do Benfica não será esquecida nem perdoada. A sua participação em todo este processo, a sua meticulosa maquinação (de que ainda só conhecemos alguns detalhes), representam uma das mais eloquentes manifestações de mesquinhez, antidesportivismo, inveja e mediocridade que o futebol português jamais viu. Só mesmo por anedota é que alguém se disporá a acreditar que eles são uns anjinhos, que só estão interessados na «verdade» e na «moralização». Olha quem!

Cinco minutos depois de a rádio ter divulgado a decisão da UEFA, eu já tinha três mensagens exuberantes de benfiquistas no meu telemóvel. Nem lhes respondi: limitei-me a constatar como o seu gáudio os denunciava. Agora, oiço e leio por aí alguns benfiquistas, armados em cavalheiros, que defendem que o Benfica nem sequer deveria aproveitar a oferta da UEFA e deveria renunciar à pré-eliminatória da Champions. Pois, pois, grandes princípios, fraca convicção: se o pensam, porque não o fazem? Organizem um abaixo-assinado a propô-lo à direcção do clube…

PS- Só me restam umas linhas para dizer que também eu gostei francamente da estreia de Portugal no Euro. Não foi uma vitória histórica nem uma exibição sublime, como cheguei a ver escrito, mas foi, indiscutivelmente, uma exibição de equipa, que abre muitas esperanças para o que se vai seguir.

A CONSPIRAÇÃO CONTRA O CAMPEÃO (II) (04 JUNHO 2008)

6- A mais extraordinária acusação a Pinto da Costa constante do «livro» de Carolina Salgado era a de que ele lhe teria comanditado a execução do dr. Ricardo Bexiga, vereador da oposição na Câmara de Gondomar, a qual ela teria tentado levar a cabo em colaboração com alguns marginais das suas relações. Extraordinária, porque primeiro era preciso acreditar que Pinto da Costa seria capaz de encomendar a morte de alguém; depois, que se preocupasse em fazê-lo por solidariedade política ou pessoal para com Valentim Loureiro, a quem Ricardo Bexiga fazia frente em Gondomar — e logo na altura em que os dois dirigentes desportivos estavam de relações frias; e, enfim, porque quem lhe escreveu o texto não reparou que, com essa «revelação», ela se incriminava a si própria numa tentativa de homicídio. O Ministério Público resolveu não acreditar na história e arquivou sumariamente o assunto, até porque as contradições em que ela caíra (como a de contar que destruíra previamente as câmaras de vigilância do parque de estacionamento onde a agressão teve lugar e que, afinal, nunca existiram), revelaram que a senhora estava, pura e simplesmente, a inventar. O problema é a dualidade de critério: quando se incrimina a si própria, a testemunha Carolina Salgado não merece credibilidade alguma ao MP; quando incrimina Pinto da Costa, já merece toda.

7- O outro «testemunho» relevante de Carolina Salgado, e que, por si só, justificou a reabertura dos processos criminais arquivados e a punição da CD da Liga, foi a de que durante a cena do «cafezinho», Pinto da Costa teria passado um envelope com 500 contos ao árbitro Augusto Duarte — e este teria aceite. Aqui, é preciso acreditar em duas coisas: que o presidente do FC Porto acharia necessário comprar um árbitro para um jogo que já nada interessava (dirão que foi por serviços passados, mas acontece que, nessa época, Augusto Duarte não apitara ainda nenhum jogo do FC Porto: azar, outra vez…); depois, é preciso acreditar que Pinto da Costa, apesar da irresponsabilidade com que misturou a sua vida pessoal com a vida do clube, seria suficientemente estúpido para corromper árbitros diante da namorada conhecida no «Calor da Noite». Mas a dr.ª Maria José Morgado acreditou e o dr. Ricardo Costa também. Resta uma perplexidade jurídica: já vimos que faltava o nexo de causalidade para dar como provada a corrupção; mas resolver o problema através da esperteza da «tentativa de corrupção» é que não se percebe: se ele deu 500 contos ao árbitro e este os aceitou, porquê apenas a tentativa?

8- Agora, perguntar-me-ão: e as «meninas» para a equipa de Jacinto Paixão — não acredito também que Pinto da Costa tenha dado ordem para aceder ao pedido? Acredito, sim senhor: acredito nisso, não acredito na explicação que ele deu para a etimologia da palavra «fruta». Então se acredito, não acho que seja um caso de corrupção? Não, não acho. Primeiro, porque não havia necessidade alguma; segundo, porque era prática instalada e corrente.

Se para alguma coisa tem servido o julgamento de Gondomar é para demonstrar que, mesmo ao nível de uma terceira divisão, está instalada a tradição de o clube da casa presentear os árbitros com «lembranças». E as «lembranças», que começam por ser peças simples de ouro e refeições de borla nos restaurantes locais, vão subindo de importância à medida que sobe a importância e riqueza dos clubes anfitriões. Nos processos disciplinares instaurados a árbitros pela FPF e decorrentes das investigações do Apito Dourado, os acusados, segundo relatava o JN de 19.03.08, têm-se defendido com o que o ex-árbitro Jorge Coroado (um dos «peritos» usados pela justiça) revela a propósito no seu livro O último cartão: está lá tudo contado, incluindo os presentes que lhe davam e as «meninas» que lhe ofereceram num jogo internacional. E os jornalistas desportivos de Lisboa sabem muito bem quais são os cabarets da cidade onde era possível encontrar árbitros em companhia de «assessores» dos clubes da capital (normalmente, ex-árbitros), e o que lá estavam eles a fazer. Deixem-se, pois, de hipocrisias: se aquilo foi uma tentativa de corrupção, só não são todos arguidos porque o Apito Dourado resolveu escolher apenas dois alvos para investigação.

9- Acontece que, à excepção de uma breve aparição no julgamento de Gondomar — onde foi facilmente trucidada pelos advogados dos réus — Carolina Salgado nunca foi contraditada com a defesa do FC Porto. Protegida e, supõe-se, exaustivamente «trabalhada» pelo MP, nunca teve de se confrontar com perguntas incómodas num tribunal. E, embora as suas declarações ao MP tenham sido consideradas decisivas, nem sequer foi ouvida, menos ainda contraditada, pela CD da Liga, antes de condenar o FC Porto.

Apesar de, em minha opinião, o FC Porto ter sido sempre mal defendido em todo este processo — jurídica e mediaticamente — não é preciso ser adivinho para prever que uma investigação criminal que basicamente repousa só no testemunho de Carolina Salgado, está condenada ao absoluto fracasso no dia que chegar a julgamento. O Benfica não anda a dormir e também o percebeu. Daí que, ao longo de toda esta época, a sua estratégia se tenha desviado das imensas expectativas alimentadas com a nomeação do «dream team» da dr.ª Maria José Morgado para as expectativas da justiça desportiva. Passou a exigir que o CD da Liga se antecipasse aos tribunais e se encarregasse do julgamento, condenação e pena.

10- E o CD fez-lhe a vontade. Aliás, segundo o seu presidente, já em Janeiro eles estavam prontos a decidir o que decidiram em Maio — antes mesmo de deduzirem acusação e estudarem a defesa. Só que havia prazos a cumprir e os prazos baralharam tudo: quando o CD decidiu tirar seis pontos ao FC Porto, já o Benfica estava a vinte de distância e de nada lhe servia a «justiça».

11- Criou-se então a expectativa — devidamente alimentada pelos jornalistas engajados — de que o FC Porto não resistisse à tentação de recorrer da condenação do CD. Isso, mais a conjugação dos prazos do recurso, permitiria que eventual confirmação da pena remetesse o seu cumprimento para a época que vem e, assim, o FC Porto iniciaria a época com menos seis pontos que o «Glorioso». Sempre era alguma coisa…

Creio que eu e Rui Moreira fomos os únicos portistas a defender que, mesmo assim, o FC Porto deveria ter recorrido. Porque, mesmo quando o combate é desigual e o jogo está viciado, há alturas em que se deve ir a jogo, justamente para mostrar a diferença de carácter. Assim não o entendeu a direcção do FC Porto e logo lhe saltaram em cima os benfiquistas do jornalismo a concluir hipocritamente que, se o clube não tinha recorrido, era porque reconhecia a culpa. Olha que chicos-espertos!

12- Todavia, o Benfica mostrou que tinha a jogada muito bem arquitectada e pronta a ser executada. Assim que se soube que o FC Porto não recorrera, o Benfica passou ao plano B: queixinhas à FPF, para que as reencaminhasse à UEFA, a fim de excluir os portistas da Liga dos Campeões, em benefício do «glorioso» 4.º lugar dos encarnados. E também a FPF lhe fez a vontade: a forma como notifica a UEFA de que «ficou provado que o FC Porto cometeu infracção disciplinar muito grave — corrupção da equipa de arbitragem» (só muito mais à frente esclarecendo que foi «sob forma tentada» e nunca esclarecendo que, sobre os mesmo factos, existe um recurso pendente) — é absolutamente esclarecedora do fim pretendido.

13- Mas a verdade é que, aparentemente, este cenário não foi previsto pela, mais uma vez passiva, defesa do FC Porto. Juridicamente, uma hipotética decisão da UEFA, hoje, que venha de encontro à escabrosa pretensão benfiquista seria uma aberração e um abuso. Qualquer ignorante de Direito sabe que não há retroactividade da lei penal e que a tentativa de chamar a isto, não uma sanção, mas uma condição de inscrição ou coisa que o valha, não passa de um exercício de desonestidade intelectual.

Se a lei da UEFA de 2007 se pudesse aplicar a factos passados, o Milan não teria podido disputar a edição deste ano da Liga dos Campeões e a Juventus não poderia disputar a do ano que vem. O problema está em que todos sabem que as decisões da UEFA são jurídicas nuns casos e politicas noutros — e foi nisso que o Benfica apostou. O FC Porto reúne as condições ideais para uma decisão politica e servida como «exemplo»: é um grande clube em termos desportivos, um histórico da Liga dos Campeões, vencedor da prova há apenas quatro anos — mas é também representante de um país pequeno e de direitos comerciais de menor importância face aos tubarões da Europa. O alvo ideal.

14- Seja qual for a decisão da UEFA, o Apito Dourado está condenado à morte. Fez-se tudo o que se pôde, com um objectivo predeterminado e um alvo prefixado. E o resultado envergonha os seus promotores. Quando toda a poeira assentar, ficará para a história apenas como mais um momento em que a inveja dos medíocres ditou a sua lei. É, em grande parte, a história de Portugal.

A CONSPIRAÇÃO CONTRA O CAMPEÃO(I) (03 JUNHO 2008)

1- Com a entrada do século XXI, a direcção do Benfica tomou a decisão estratégica de lançar mão de todos os meios para impedir que a hegemonia do FC Porto, que se tinha afirmado com clareza nas duas décadas anteriores, se continuasse a prolongar. Por razões várias, mas essencialmente por falta de capacidade de gestão desportiva e falta de paciência para aguardar os resultados de uma mudança paulatina de atitude, o Benfica percebeu que tão cedo não conseguiria derrotar em campo o FC Porto e havia então que tentá-lo por outros meios.

A primeira medida estratégica foi a tomada de poder na Liga de Clubes, que Luis Filipe Vieira afirmou ser mais importante do que a formação de uma boa equipa de futebol. Para tal, Viera aliou-se a Valentim Loureiro, o verdadeiro dono do tão criticado «sistema» e então de más relações com Pinto da Costa. Juntos passaram a dominar a Direcção da Liga, a Comissão Disciplinar e a Comissão de Arbitragem. Muito embora o FC Porto tenha logo começado a sentir as consequências dessa aliança (foi a época em que só os jogadores do FC Porto é que tinham cotovelos e só a eles se aplicavam os célebres «sumaríssimos»), a verdade é que ela, por si só, não chegou para fazer ajoelhar os portistas. De positivo, para o Benfica, ficou a conquista do campeonato de 2004/05 - aquele que, nos últimos trinta anos, mais se deveu a favores de arbitragem.

A seguir veio a associação do Benfica com o poder político. Primeiro, descobrindo-se que o clube vivia à margem do cumprimento das obrigações fiscais que outros cumpriam e beneciando da complacência da comissão governamental encarregada de fiscalizar as contas dos clubes e que se «esqueceu» de fiscalizar o Benfica. A seguir veio a tremenda ajuda financeira dada pelo então presidente da Câmara de Lisboa, Santana Lopes, para a construção do novo Estádio da Luz. Enquanto a comunicação social se distraía a noticiar ninharias denunciadas por Rui Rio no Dragão, milhões e milhões eram dados ao Benfica de mão beijada, sem escândalo algum. E, para que não restassem dúvidas da dívida de gratidão contraída, viu-se a Direcção do Benfica, levada por Santana Lopes, a comparecer a um jantar de propaganda eleitoral do PSD durante a campanha legislativa de 2004, na mais descarada manifestação da tão falada promiscuidade entre o futebol e a politica alguma vez vista.

Mesmo assim, não chegou. Havia que fazer mais e foi então que surgiu o «Apito Dourado».

2- Diz o povo que o que nasce torto nunca se endireita e o «Apito Dourado» nasceu torto desde o princípio. Ao escolher colocar sob escuta apenas os telefones de Valentim Loureiro e Pinto da Costa, os investigadores mostraram desde logo ao que vinham e o que visavam com o seu método de «pesca de arrasto». Cabe perguntar, de facto, quem determinou e com que razões que uma investigação ao futebol português apenas se deveria concentar no FC Porto e no Boavista?

O mais eloquente telefonema de todas as escutas talvez seja aquele em que o presidente do Benfica tem o azar de ser gravado quando telefona para Valentim Loureiro. Aí se torna evidente o grau de cumplicidade entre ambos e a forma tranquila como discutem que árbitro convém ao Benfica para um jogo com o Belenenses. Mas esse processo foi devidamente arquivado, por se entender que não tinha interesse- mesmo em relação à enigmática frase de Luís Filipe Vieira para o major: «Como sabe, tenho outras maneiras de resolver o assunto.»

3- As escutas a Valentim concluíram que ele pressionava os árbitros dos jogos com o Gondomar- peixe mais do que míúdo- e que tentou pressionar árbitros em três jogos do Boavista, nos quais, para azar dos investigadores, o Boavista perdeu dois e empatou um.

Pior sorte tiveram ainda as escutas a Pinto da Costa. Dois anos de telefonemas interceptados concluíram que a equipa de arbitragem de um FC Porto-Estrela da Amadora, chefiada por Jacinto Paixão, pediu umas «meninas» a um intermediário que fez chegar o pedido ao presidente do FC Porto e terá obtido a anuência deste. E que o árbitro Augusto Duarte, na véspera de apitar um Beira-Mar-FC Porto, apareceu, na companhia de um empresário ligado aos portistas, em casa de Pinto da Costa, para tomar um «cafézinho». Mas, azar dos investigadores: os factos reportam-se à época de 2003/04, aquela em que o FC Porto treinado por Mourinho passeou uma tão ampla superioridade, que foi campeão nacional com doze pontos de avanço e campeão europeu; ambos os jogos foram já na parte final do campeonato e nenhum deles influia na classificação de qualquer das equipas envolvidas; e, finalmente, os «experts» consultados não conseguiram ver qualquer influência da arbitragem nos dois jogos, um ganho, outro empatado pelo FC Porto. Faltava assim um elemento jurídico essencial no direito punitivo e que tanto irritou alguns comentadores justiçeiros: o tal nexo de causalidade. Para haver corrupção tem de haver um resultado obtido com essa corrupção. Não havendo resultado, o que fazer? A Comissão Disciplinar da Liga, no seu recente e tão auto-elogiado acórdão, resolveria a questão pelo mal menor: tentativa de corrupção. Uma original tentativa de corrupção, em que é o corrompido que toma a iniciativa de abordar o corruptor…

4- Estava, pois, o apito encravado, para grande desespero da nação, quando entra em cena Carolina Salgado. Três anos antes, ela tinha estado na Luz, entre os Super-Dragões, com um cartaz mal-criado e provocatório que dizia «Ó Orelhas, estou aqui!». Fora de si, Luís Filipe Vieira protagonizaria no final uma insólita conferência de imprensa sobre a vida privada de Pinto da Costa, acusando-o de viver com uma usurpadora no lugar da mulher «legítima». Mas a vida é, sem dúvida, um espectáculo imprevisto e por vezes irónico: a «legítima»de Pinto da Costa, que Vieira protegia, passou a divorciada e voltou a ser «legítima», e a «usurpadora» passou da benção papal a proscrita e desaguou… nos braços do homem a quem chamara«Orelhas».

O presidente do Benfica chegou a participar em reuniões em hotéis com Carolina Salgado e os investigadores da PJ. Arranjaram-lhe quem lhe escrevesse um livro, quem do livro fizesse filme, e asseguraram-lhe meios de rendimento para que ela contasse «tudo o que sabia» ou que dizia saber. Mais tarde, com Maria José Morgado, passou a ser tratada como o tesouro mais precioso, acompanhada, dia e noite, por seguranças a soldo dos contribuintes, para assim se dar também a ideia de que é uma testemunha incómoda e ameaçada. E, graças a ela, o Apito Dourado ganhou um novo fôlego que já parecia perdido. Os processos arquivados por falta de provas ou de consistência foram reabertos, gastaram-se mais uns milhares ou milhões de euros em investigação e animaram-se as hostes justiçeiras.

5- Mas, de novo, verdadeiramente novo, não se apurou mais nada. Era exactamente o mesmo, os mesmo jogos, as mesmas meninas, o mesmo cafézinho. Apenas Carolina Salgado acrescentou dois dados novos: que Pinto da Costa terá recorrido aos seus serviços (!?) para tentar matar (!?) Ricardo Bexiga, vereador da oposição na Cãmara de Gondomar, e que, durante a tal cena do cafézinho, terá passado um envelope com 500 contos em moeda antiga ao árbitro Augusto Duarte. Tudo está pois, dependente, da credibilidade da testemunha Carolina Salgado. A qual, salvo melhor opinião, vale zero: pelo seu curriculum, pelas suas evidentes motivações e pelas suas contradições.