Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
segunda-feira, junho 16, 2008
CONTAS FINAIS: OS PARTAGONISTAS (13 MAIO 2008)
Ah, onde estão, onde estão agora, major, os amigos de ontem? Os que diziam que era mais importante estar associado a si do que ter uma boa equipa de futebol?
Comecemos pelo fim a ronda pelos principais protagonistas desta Liga.
Rui Costa
Só não saiu em grande, como merecia, porque saiu a carregar aos ombros a tristeza do futebol do seu Benfica. Mas todos, correlegionários e adversários, só podem prestar-lhe uma homenagem muito sincera pelo grande jogador que foi e pelo grande senhor que sempre soube ser no futebol. Numa época em que há tanto mercenarismo e tão pouco amor à camisola, em que qualquer miúdo acabado de chegar e recém-tatuado, que faz dois bons jogos, desata logo a suspirar por um «grande da Europa», o exemplo de dedicação de Rui Costa ao seu clube do coração cala fundo em todos, mesmo nos que não são benfiquistas. Que diferença para o suposto amor de Figo ao Sporting! Ao Rui Costa nunca lhe ocorreu acabar num Al Qualquer Coisa, a jogar petro-futebol. Preferiu acabar de bem consigo, mais rico por dentro e menos rico no banco. Chapeau!
Jesualdo Ferreira
Foi o grande vencedor do campeonato. Depois de uma dúzia de contratações quase todas falhadas (e cuja responsabilidade permanece incerta), meteu mãos à obra com o mesmíssimo onze do ano passado, mas desfalcado de Pepe e Anderson. Tratou da condição fisica da equipa, devolveu-os ao espírito de vitória e conquista que se tornou imagem de marca dos dragões, fez de Bruno Alves um inimaginável central de luxo, reinventou Lucho González e inventou Lisandro como ponta-de-lança devastador. E os resultados foram incomparavelmente melhores. Ganhou, nesta Liga, tudo o que havia para ganhar: o equivalente em pontos a sete vitórias de avanço sobre o segundo classificado, melhor registo em casa e fora, melhor resultado em casa e fora, maior número de vitórias, maior número de golos marcados e menor número de sofridos, melhor marcador, melhor jogador, Copa Bes, equipa mais disciplinada. Com absoluta limpeza e autoridade dentro do campo e com elegância e desportivismo como ninguém mais.
Manuel Cajuda
Não faço parte do clube dos seus fãs, mas factos são factos: trouxe o Guimarães da segunda divisão e entregou-o no terceiro lugar da Liga. Melhor era impossível.
Carlos Carvalhal
Tacticamente, julgo que foi, a par de Jesualdo, o melhor treinador deste campeonato. Com o orçamento mais baixo da Liga e o plantel menos numeroso, pegou num clube à deriva e condenado a descer e deixou-o no 5º lugar, a somar à vitória na Taça da Liga e às meias-finais da Taça de Portugal. E isto, mesmo depois de lhe terem levado dois dos únicos três avançados que tinha, a meio do campeonato.
Lucho González, Lisandro López e Ricardo Quaresma
Para mim, constituíram o trio dos melhores jogadores deste campeonato. Como sou portista, dá para desconfiar, mas 20 pontos de avanço (vinte, sim, conquistados em campo e não nos caberets!) justificam a escolha. Lucho (que diferença para a época anterior!) foi puro perfume destilado em doses industriais nos relvados: com ele o futebol flui, em perpétuo movimento ascendente e cadenciado, feito de linhas de passe tão lógicas quanto inimagináveis. Lisandro foi o seu perfeito escudeiro e matador, aparecendo onde o pensamento de Lucho estava e sempre com uma fome de bola que só merece uma qualificação: que grande profissional! Enfim, o por vezes mal-amado Quaresma, digam o que disserem, contem mais ou menos golos e assistências, é o único que eu vejo hoje, a par de Cristiano Ronaldo, capaz de inventar com uma bola nos pés coisas que desafiam todas as leis da física e da geometria. Pode, até, muitas vezes, não servir para nada: mas eu pago bilhete para ver. Sempre.
Luís Filipe Viera
Foi o grande derrotado do campeonato. Anunciou a melhor equipa dos últimos dez anos (18 contratações!), e acabou em 4.º lugar, atrás de um clube vindo da segunda divisão. Escolheu e despediu treinadores, culpou os árbitros, o «sistema», o governo e Pinto da Costa por todos os erros próprios, declarou solenemente que os «resultados estão viciados» e apresentou supostas «provas», que, como de costume, nenhum jornalista teve coragem de lhe perguntar em que consistiam. Acabou desacreditado por todos, incluindo os próprios adeptos. Rui Costa pode ser a sua única aposta certa — se tiver a humildade suficiente para abandonar a frente do palco.
Valentim Loureiro
O outrora sócio e camarada de armas de Luís Filipe Vieira na direcção da Liga, o verdadeiro rosto do «sistema» viveu um ano de amargura. Julgado por causa dos seus empenhos telefónicos a favor… do Gondomar (coisas de um regente autárquico à moda caciqueira antiga), vê agora o seu Boavista arrastado pela lama: público ausente do estádio, equipa de recurso, ordenados em atraso, sentença preliminar de descida de divisão por «coacção sobre os árbitros», jogadores em debandada, direcção em fuga. Talvez mesmo, o fim de tudo. Ele, que até cumpriu a sua parte do acordo com Vieira, que ajudou a que o Benfica fosse campeão em 2004 sem jogar nada, ele que — como o revelou aquela escuta interceptada com o presidente do Benfica em que tanto se esforçava para arranjar um árbitro à medida dos desejos do parceiro (mandada arquivar pelo Ministério Público por não ter importância), ele, afinal, deve estar a pensar a esta hora de que serviu a parceria. Ah, onde estão, onde estão agora, major, os amigos de ontem? Os que diziam que era mais importante estar associado a si do que ter uma boa equipa de futebol?
Sporting
Acaba no segundo lugar, garante a Champions sem pré-eliminatória e até está na final do Jamor. Nada mau para quem tão pouco jogou. O paradigma da época do Sporting pode ser dado pelo jogo de Alvalade contra o FC Porto: foi massacrado desde o primeiro até ao último minuto, mas marcou um golo no primeiro remate à baliza graças a uma oferta imensa do Helton e um segundo, logo a seguir, em off-side. E ganhou o jogo sem saber como. O facto de, mais uma vez, ter sido, e de longe, a equipa que mais penalties teve assinalados a seu favor, é também apenas um dos lados de um fenómeno que aqui venho reportando paulatinamente: no meio desta tempestade dos Apitos Dourados e Finais, das eternas guerras contra o «sistema» e as arbitragens, o Sporting é o cavalheiro que passa entre os pingos da chuva sem se molhar. Mas, ano após ano, são eles os mais beneficiados pelas arbitragens. Não é o Porto nem o Benfica: é o Sporting. Isso não lhe tira nenhum dos seus méritos próprios, incluindo o de se bater contra os outros dois com armas desiguais. Mas é assim.
Ricardo Costa
Quase a terminar a contenda, o presidente da Comissão Disciplinar da Liga cumpriu a sua promessa de dar o veredicto sobre o «Apito Final». Sobre esse e o outro apito, pronunciar-me-ei em breve, com a atenção que toda essa fantochada justifica. Por ora, limito-me a registar a declaração do Dr. Ricardo Costa de que, já em Dezembro, o CD da Liga estava em condições de dar a sua sentença, faltando apenas elaborar a «fundamentação jurídica». Acontece, porém, que a nota de culpa foi enviada aos arguidos em Abril; eles contestaram, e a sentença saiu em 8 de Maio. Quer isto dizer que, confessado pelo próprio acusador e juiz, a sentença já estava estabelecida antes mesmo de haver acusação e defesa. Que tudo o que os arguidos apresentassem como contra-prova- documentos, testemunhos, etc — de nada serviria. Eu deixei de ser advogado no dia em que cheguei a um julgamento e o juiz, furioso por não haver acordo entre as partes e ambos os advogados insistirem que queriam fazer o julgamento, ter dito: «Querem o julgamento? Vamos a isso, mas olhem que a sentença já está dada!». Lembrei-me disso agora.
Comecemos pelo fim a ronda pelos principais protagonistas desta Liga.
Rui Costa
Só não saiu em grande, como merecia, porque saiu a carregar aos ombros a tristeza do futebol do seu Benfica. Mas todos, correlegionários e adversários, só podem prestar-lhe uma homenagem muito sincera pelo grande jogador que foi e pelo grande senhor que sempre soube ser no futebol. Numa época em que há tanto mercenarismo e tão pouco amor à camisola, em que qualquer miúdo acabado de chegar e recém-tatuado, que faz dois bons jogos, desata logo a suspirar por um «grande da Europa», o exemplo de dedicação de Rui Costa ao seu clube do coração cala fundo em todos, mesmo nos que não são benfiquistas. Que diferença para o suposto amor de Figo ao Sporting! Ao Rui Costa nunca lhe ocorreu acabar num Al Qualquer Coisa, a jogar petro-futebol. Preferiu acabar de bem consigo, mais rico por dentro e menos rico no banco. Chapeau!
Jesualdo Ferreira
Foi o grande vencedor do campeonato. Depois de uma dúzia de contratações quase todas falhadas (e cuja responsabilidade permanece incerta), meteu mãos à obra com o mesmíssimo onze do ano passado, mas desfalcado de Pepe e Anderson. Tratou da condição fisica da equipa, devolveu-os ao espírito de vitória e conquista que se tornou imagem de marca dos dragões, fez de Bruno Alves um inimaginável central de luxo, reinventou Lucho González e inventou Lisandro como ponta-de-lança devastador. E os resultados foram incomparavelmente melhores. Ganhou, nesta Liga, tudo o que havia para ganhar: o equivalente em pontos a sete vitórias de avanço sobre o segundo classificado, melhor registo em casa e fora, melhor resultado em casa e fora, maior número de vitórias, maior número de golos marcados e menor número de sofridos, melhor marcador, melhor jogador, Copa Bes, equipa mais disciplinada. Com absoluta limpeza e autoridade dentro do campo e com elegância e desportivismo como ninguém mais.
Manuel Cajuda
Não faço parte do clube dos seus fãs, mas factos são factos: trouxe o Guimarães da segunda divisão e entregou-o no terceiro lugar da Liga. Melhor era impossível.
Carlos Carvalhal
Tacticamente, julgo que foi, a par de Jesualdo, o melhor treinador deste campeonato. Com o orçamento mais baixo da Liga e o plantel menos numeroso, pegou num clube à deriva e condenado a descer e deixou-o no 5º lugar, a somar à vitória na Taça da Liga e às meias-finais da Taça de Portugal. E isto, mesmo depois de lhe terem levado dois dos únicos três avançados que tinha, a meio do campeonato.
Lucho González, Lisandro López e Ricardo Quaresma
Para mim, constituíram o trio dos melhores jogadores deste campeonato. Como sou portista, dá para desconfiar, mas 20 pontos de avanço (vinte, sim, conquistados em campo e não nos caberets!) justificam a escolha. Lucho (que diferença para a época anterior!) foi puro perfume destilado em doses industriais nos relvados: com ele o futebol flui, em perpétuo movimento ascendente e cadenciado, feito de linhas de passe tão lógicas quanto inimagináveis. Lisandro foi o seu perfeito escudeiro e matador, aparecendo onde o pensamento de Lucho estava e sempre com uma fome de bola que só merece uma qualificação: que grande profissional! Enfim, o por vezes mal-amado Quaresma, digam o que disserem, contem mais ou menos golos e assistências, é o único que eu vejo hoje, a par de Cristiano Ronaldo, capaz de inventar com uma bola nos pés coisas que desafiam todas as leis da física e da geometria. Pode, até, muitas vezes, não servir para nada: mas eu pago bilhete para ver. Sempre.
Luís Filipe Viera
Foi o grande derrotado do campeonato. Anunciou a melhor equipa dos últimos dez anos (18 contratações!), e acabou em 4.º lugar, atrás de um clube vindo da segunda divisão. Escolheu e despediu treinadores, culpou os árbitros, o «sistema», o governo e Pinto da Costa por todos os erros próprios, declarou solenemente que os «resultados estão viciados» e apresentou supostas «provas», que, como de costume, nenhum jornalista teve coragem de lhe perguntar em que consistiam. Acabou desacreditado por todos, incluindo os próprios adeptos. Rui Costa pode ser a sua única aposta certa — se tiver a humildade suficiente para abandonar a frente do palco.
Valentim Loureiro
O outrora sócio e camarada de armas de Luís Filipe Vieira na direcção da Liga, o verdadeiro rosto do «sistema» viveu um ano de amargura. Julgado por causa dos seus empenhos telefónicos a favor… do Gondomar (coisas de um regente autárquico à moda caciqueira antiga), vê agora o seu Boavista arrastado pela lama: público ausente do estádio, equipa de recurso, ordenados em atraso, sentença preliminar de descida de divisão por «coacção sobre os árbitros», jogadores em debandada, direcção em fuga. Talvez mesmo, o fim de tudo. Ele, que até cumpriu a sua parte do acordo com Vieira, que ajudou a que o Benfica fosse campeão em 2004 sem jogar nada, ele que — como o revelou aquela escuta interceptada com o presidente do Benfica em que tanto se esforçava para arranjar um árbitro à medida dos desejos do parceiro (mandada arquivar pelo Ministério Público por não ter importância), ele, afinal, deve estar a pensar a esta hora de que serviu a parceria. Ah, onde estão, onde estão agora, major, os amigos de ontem? Os que diziam que era mais importante estar associado a si do que ter uma boa equipa de futebol?
Sporting
Acaba no segundo lugar, garante a Champions sem pré-eliminatória e até está na final do Jamor. Nada mau para quem tão pouco jogou. O paradigma da época do Sporting pode ser dado pelo jogo de Alvalade contra o FC Porto: foi massacrado desde o primeiro até ao último minuto, mas marcou um golo no primeiro remate à baliza graças a uma oferta imensa do Helton e um segundo, logo a seguir, em off-side. E ganhou o jogo sem saber como. O facto de, mais uma vez, ter sido, e de longe, a equipa que mais penalties teve assinalados a seu favor, é também apenas um dos lados de um fenómeno que aqui venho reportando paulatinamente: no meio desta tempestade dos Apitos Dourados e Finais, das eternas guerras contra o «sistema» e as arbitragens, o Sporting é o cavalheiro que passa entre os pingos da chuva sem se molhar. Mas, ano após ano, são eles os mais beneficiados pelas arbitragens. Não é o Porto nem o Benfica: é o Sporting. Isso não lhe tira nenhum dos seus méritos próprios, incluindo o de se bater contra os outros dois com armas desiguais. Mas é assim.
Ricardo Costa
Quase a terminar a contenda, o presidente da Comissão Disciplinar da Liga cumpriu a sua promessa de dar o veredicto sobre o «Apito Final». Sobre esse e o outro apito, pronunciar-me-ei em breve, com a atenção que toda essa fantochada justifica. Por ora, limito-me a registar a declaração do Dr. Ricardo Costa de que, já em Dezembro, o CD da Liga estava em condições de dar a sua sentença, faltando apenas elaborar a «fundamentação jurídica». Acontece, porém, que a nota de culpa foi enviada aos arguidos em Abril; eles contestaram, e a sentença saiu em 8 de Maio. Quer isto dizer que, confessado pelo próprio acusador e juiz, a sentença já estava estabelecida antes mesmo de haver acusação e defesa. Que tudo o que os arguidos apresentassem como contra-prova- documentos, testemunhos, etc — de nada serviria. Eu deixei de ser advogado no dia em que cheguei a um julgamento e o juiz, furioso por não haver acordo entre as partes e ambos os advogados insistirem que queriam fazer o julgamento, ter dito: «Querem o julgamento? Vamos a isso, mas olhem que a sentença já está dada!». Lembrei-me disso agora.
COM MEDO DA CHAMPIONS (06 MAIO 2008)
Na Amadora, o Benfica terá sepultado, com toda a naturalidade e conformismo, o que lhe restava de hipóteses de um acesso directo à Champions. Vale-lhe que é tudo menos certo que o Vitória consiga estar à altura da responsabilidade de ter de vencer o último jogo.
1- Sporting, Vitória de Guimarães e Benfica vêm mantendo, de há longas jornadas para cá, uma luta ao sprint pelos dois lugares que podem dar acesso à Champions (um directo, o outro através da pré-eliminatória), e que só na derradeira jornada ficará resolvida. Entre os três têm sido múltiplas as ocasiões em que, de cada vez que um deles aparece em condições de dar um passo decisivo em frente e destacar-se dos outros dois, tropeça e por ali fica. O Sporting, que terá sido quem mais oportunidades dessas desperdiçou, veio a beneficiar, na arrancada final, da inestimável colaboração do FC Porto, vencedor em duas jornadas sucessivas de Benfica e Vitória. E, anteontem, na Mata Real, o Sporting viu-se, finalmente e pela primeira vez, em situação de depender apenas de si próprio para chegar ao segundo lugar e aos cerca de cinco milhões de euros garantidos pela participação na fase de grupos da Champions. O jogo era difícil, pois que o Paços de Ferreira lutava também pela manutenção e é equipa habituada a salvar-se in extremis. Sem Liedson, o Sporting conseguiu chegar ao golo sem nada ter então feito para tal e lá aguentou a preciosa vantagem até final. Venceu sem convencer e sem mostrar a dose necessária de ambição para quem quer figurar entre os 32 grandes da Europa, para o ano que vem. Mas, enfim, a verdade é que agora basta-lhe apenas empatar em casa com o Boavista e tem garantida a Champions. Isso, mais a vitória na Supertaça e a presença na final da Taça de Portugal, que poderá juntar como mais um título, farão desta uma época razoável. É claro que bom, como diz Paulo Bento, seria ter sido campeão, mas isso esta equipa do Sporting nunca demonstrou capacidade face à do FC Porto e, aliás, até é normal que assim seja olhando a desproporção dos respectivos orçamentos para o futebol.
O Vitória de Guimarães confirmou no Restelo que atingiu o seu patamar de Peter e que, se o campeonato durasse mais umas quatro jornadas, era provável que começasse a desabar na classificação. A equipa atingiu a notável posição que ocupa espremida até aos limites e graças a uma série de vitórias quase sempre tangenciais — e a prova disso é que apresenta um goal average totalmente incomum para um terceiro classificado: tantos golos sofridos como marcados. No Restelo, como já se vira na jornada anterior contra o FC Porto, o Vitória mostrou que não tem capacidade que justifique maior ambição do que o terceiro lugar — o que, aliás, continua a ser notável para quem veio da segunda divisão. Contra o Belenenses foi nítido que a equipa, os jogadores e o treinador se davam por satisfeitos com o empate, independentemente do que estivesse a suceder nos outros jogos dos seus rivais nesta luta. Mas, partindo do princípio que o Benfica vencerá o Vitória de Setúbal na Luz, está obrigado também a vencer o Estrela em Guimarães, para fechar as contas com o apuramento para a pré-eliminatória da Champions — onde é de prever que a sua falta de experiência, mais do que a sorte no sorteio, venha a ser decisiva e fatal.
Já o Benfica era, à partida para esta jornada, o que tinha tarefa mais fácil, pois que lhe cabia uma curtíssima deslocação no IC 19 a um campo onde os seus adeptos estariam em maioria e face a um Estrela que garantira na jornada anterior poder disputar este jogo sem necessidade de pontos. Ora, tirando as habituais e particularíssimas análises de Chalana (que vê sempre grandes exibições do Benfica e um sem-número de oportunidades de golo onde todos os outros só vêem banalidades), os encarnados mostraram mais uma vez uma falta de talento e de ambição que explicam bem o porquê de, dos três, serem os que se encontram em pior situação à entrada para a última jornada, arriscando-se a terminar a prova num impensável quarto lugar.
Na Amadora, o Benfica terá sepultado, com toda a naturalidade e conformismo, o que lhe restava de hipóteses de um acesso directo à Champions. Vale-lhe que é tudo menos certo que o Vitória consiga estar à altura da responsabilidade de ter de vencer o último jogo e que a experiência dos últimos anos conta que, terminando em terceiro lugar, o Benfica é sempre feliz no sorteio da pré-eliminatória da Champions. E, se há coisa que por ali abunda, é fé.
2- O campeão teve um apagão de todo inesperado e lá se foi o que teria sido um imbatível recorde: terminar a época com um golo apenas sofrido nos quinze jogos disputados em casa. Afinal, no último jogo sofreram o triplo dos golos sofridos em todos os outros catorze. E, não só sofreram três, como não conseguiram marcar nenhum, numa partida em que todos, absolutamente todos, estiveram como que narcotizados e ausentes do jogo. Foi um frustrante fim de festa para um título que tanto merecia ser festejado em grande. Mesmo assim, acho que os portistas devem ter estabelecido um outro recorde: o da equipa com menos faltas cometidas num jogo — seis!
3- Mesmo que as razões que os levam a reclamar estejam à vista de todos, o União de Leiria e o Paços de Ferreira não deixam de ter toda a razão quando reclamam contra a concorrência desleal dos clubes que têm ordenados de jogadores, impostos e contribuições à Segurança Social em atraso e continuam na primeira Liga, como se nada fosse e ao arrepio dos regulamentos. A coragem de Hermínio Loureiro é aqui que tem de se ver e não no gesto de seguir as instruções que lhe mandam de fora sobre o Apito Dourado. O presidente do Estrela da Amadora, por exemplo, que tanto se insurge contra a posição dos reclamantes, esteve semanas sem aparecer aos jogadores, a quem devia não um mas três meses de salários. E onde é que ele reapareceu, depois de desaparecido em parte incerta? No camarote do Dragão, ao lado de Pinto da Costa e quando sabia que iria ser filmado pelas câmaras de televisão. É essa a razão principal porque muita gente quer ser presidente de um clube. Mas ao menos que paguem: não há promoções grátis.
4- Por falar em camarote do Dragão, constato que, cada vez mais, a recente re-esposa do presidente do FC Porto vem assumindo o papel de primeira dama do clube — até já é escolhida para madrinha de sedes do FC Porto. Não é primeira vez que falo deste desagradável tema: no passado falei dele quando a primeira dama era então Carolina Salgado. Parece que não me enganei e isso dá-me legitimidade para insistir. Há aqui uma questão do foro pessoal e uma questão que tem que ver com o clube. Sobre a primeira não me pronuncio: cada um conduz a sua vida privada como entende, expõe-na ou não a expõe. Tenho, obviamente, a minha opinião sobre isso, mas guardo-a para mim e não tenho que a dar a propósito da vida alheia. Mas, acontece que não existe no FC Porto, estatutariamente, a figura de primeira dama, seja formal, seja informalmente. Não existe e não deve existir, sobretudo quando a experiência recente nos mostra que, se as coisas dão para o torto, quem paga é a imagem e o nome do clube e quem sofre em silêncio são os seus sócios e adeptos. O mínimo que Pinto da Costa deve aos sócios do clube é mostrar que aprendeu com a lição passada. E que, esteja inocente ou não, quando alguém que ele fez primeira dama do clube o senta no banco dos réus, acusado de todas as patifarias do mundo ou quase, não é apenas ele que lá está sentado: é o FC Porto e todos os portistas.
PS: Induzido em erro e de boa-fé por uma falsa notícia da TVI, e que levaram cinco dias a desmentir, escrevi aqui na semana passada que Jorge Mendes era sócio de Pinto da Costa na imobiliária deste em Cedofeita. Tal é falso e eu lamento ter, involuntariamente, veiculado essa falsa notícia. Peço desculpa por isso a Jorge Mendes, com quem, aliás, ainda fui injusto, escrevendo que é ele quem coloca quase todos os jogadores no FC Porto. Também não é assim: tem colocado quase todos os bons; a maioria daqueles que não se percebe como lá foram parar não são da sua responsabilidade, mas sim contas de outro rosário.
1- Sporting, Vitória de Guimarães e Benfica vêm mantendo, de há longas jornadas para cá, uma luta ao sprint pelos dois lugares que podem dar acesso à Champions (um directo, o outro através da pré-eliminatória), e que só na derradeira jornada ficará resolvida. Entre os três têm sido múltiplas as ocasiões em que, de cada vez que um deles aparece em condições de dar um passo decisivo em frente e destacar-se dos outros dois, tropeça e por ali fica. O Sporting, que terá sido quem mais oportunidades dessas desperdiçou, veio a beneficiar, na arrancada final, da inestimável colaboração do FC Porto, vencedor em duas jornadas sucessivas de Benfica e Vitória. E, anteontem, na Mata Real, o Sporting viu-se, finalmente e pela primeira vez, em situação de depender apenas de si próprio para chegar ao segundo lugar e aos cerca de cinco milhões de euros garantidos pela participação na fase de grupos da Champions. O jogo era difícil, pois que o Paços de Ferreira lutava também pela manutenção e é equipa habituada a salvar-se in extremis. Sem Liedson, o Sporting conseguiu chegar ao golo sem nada ter então feito para tal e lá aguentou a preciosa vantagem até final. Venceu sem convencer e sem mostrar a dose necessária de ambição para quem quer figurar entre os 32 grandes da Europa, para o ano que vem. Mas, enfim, a verdade é que agora basta-lhe apenas empatar em casa com o Boavista e tem garantida a Champions. Isso, mais a vitória na Supertaça e a presença na final da Taça de Portugal, que poderá juntar como mais um título, farão desta uma época razoável. É claro que bom, como diz Paulo Bento, seria ter sido campeão, mas isso esta equipa do Sporting nunca demonstrou capacidade face à do FC Porto e, aliás, até é normal que assim seja olhando a desproporção dos respectivos orçamentos para o futebol.
O Vitória de Guimarães confirmou no Restelo que atingiu o seu patamar de Peter e que, se o campeonato durasse mais umas quatro jornadas, era provável que começasse a desabar na classificação. A equipa atingiu a notável posição que ocupa espremida até aos limites e graças a uma série de vitórias quase sempre tangenciais — e a prova disso é que apresenta um goal average totalmente incomum para um terceiro classificado: tantos golos sofridos como marcados. No Restelo, como já se vira na jornada anterior contra o FC Porto, o Vitória mostrou que não tem capacidade que justifique maior ambição do que o terceiro lugar — o que, aliás, continua a ser notável para quem veio da segunda divisão. Contra o Belenenses foi nítido que a equipa, os jogadores e o treinador se davam por satisfeitos com o empate, independentemente do que estivesse a suceder nos outros jogos dos seus rivais nesta luta. Mas, partindo do princípio que o Benfica vencerá o Vitória de Setúbal na Luz, está obrigado também a vencer o Estrela em Guimarães, para fechar as contas com o apuramento para a pré-eliminatória da Champions — onde é de prever que a sua falta de experiência, mais do que a sorte no sorteio, venha a ser decisiva e fatal.
Já o Benfica era, à partida para esta jornada, o que tinha tarefa mais fácil, pois que lhe cabia uma curtíssima deslocação no IC 19 a um campo onde os seus adeptos estariam em maioria e face a um Estrela que garantira na jornada anterior poder disputar este jogo sem necessidade de pontos. Ora, tirando as habituais e particularíssimas análises de Chalana (que vê sempre grandes exibições do Benfica e um sem-número de oportunidades de golo onde todos os outros só vêem banalidades), os encarnados mostraram mais uma vez uma falta de talento e de ambição que explicam bem o porquê de, dos três, serem os que se encontram em pior situação à entrada para a última jornada, arriscando-se a terminar a prova num impensável quarto lugar.
Na Amadora, o Benfica terá sepultado, com toda a naturalidade e conformismo, o que lhe restava de hipóteses de um acesso directo à Champions. Vale-lhe que é tudo menos certo que o Vitória consiga estar à altura da responsabilidade de ter de vencer o último jogo e que a experiência dos últimos anos conta que, terminando em terceiro lugar, o Benfica é sempre feliz no sorteio da pré-eliminatória da Champions. E, se há coisa que por ali abunda, é fé.
2- O campeão teve um apagão de todo inesperado e lá se foi o que teria sido um imbatível recorde: terminar a época com um golo apenas sofrido nos quinze jogos disputados em casa. Afinal, no último jogo sofreram o triplo dos golos sofridos em todos os outros catorze. E, não só sofreram três, como não conseguiram marcar nenhum, numa partida em que todos, absolutamente todos, estiveram como que narcotizados e ausentes do jogo. Foi um frustrante fim de festa para um título que tanto merecia ser festejado em grande. Mesmo assim, acho que os portistas devem ter estabelecido um outro recorde: o da equipa com menos faltas cometidas num jogo — seis!
3- Mesmo que as razões que os levam a reclamar estejam à vista de todos, o União de Leiria e o Paços de Ferreira não deixam de ter toda a razão quando reclamam contra a concorrência desleal dos clubes que têm ordenados de jogadores, impostos e contribuições à Segurança Social em atraso e continuam na primeira Liga, como se nada fosse e ao arrepio dos regulamentos. A coragem de Hermínio Loureiro é aqui que tem de se ver e não no gesto de seguir as instruções que lhe mandam de fora sobre o Apito Dourado. O presidente do Estrela da Amadora, por exemplo, que tanto se insurge contra a posição dos reclamantes, esteve semanas sem aparecer aos jogadores, a quem devia não um mas três meses de salários. E onde é que ele reapareceu, depois de desaparecido em parte incerta? No camarote do Dragão, ao lado de Pinto da Costa e quando sabia que iria ser filmado pelas câmaras de televisão. É essa a razão principal porque muita gente quer ser presidente de um clube. Mas ao menos que paguem: não há promoções grátis.
4- Por falar em camarote do Dragão, constato que, cada vez mais, a recente re-esposa do presidente do FC Porto vem assumindo o papel de primeira dama do clube — até já é escolhida para madrinha de sedes do FC Porto. Não é primeira vez que falo deste desagradável tema: no passado falei dele quando a primeira dama era então Carolina Salgado. Parece que não me enganei e isso dá-me legitimidade para insistir. Há aqui uma questão do foro pessoal e uma questão que tem que ver com o clube. Sobre a primeira não me pronuncio: cada um conduz a sua vida privada como entende, expõe-na ou não a expõe. Tenho, obviamente, a minha opinião sobre isso, mas guardo-a para mim e não tenho que a dar a propósito da vida alheia. Mas, acontece que não existe no FC Porto, estatutariamente, a figura de primeira dama, seja formal, seja informalmente. Não existe e não deve existir, sobretudo quando a experiência recente nos mostra que, se as coisas dão para o torto, quem paga é a imagem e o nome do clube e quem sofre em silêncio são os seus sócios e adeptos. O mínimo que Pinto da Costa deve aos sócios do clube é mostrar que aprendeu com a lição passada. E que, esteja inocente ou não, quando alguém que ele fez primeira dama do clube o senta no banco dos réus, acusado de todas as patifarias do mundo ou quase, não é apenas ele que lá está sentado: é o FC Porto e todos os portistas.
PS: Induzido em erro e de boa-fé por uma falsa notícia da TVI, e que levaram cinco dias a desmentir, escrevi aqui na semana passada que Jorge Mendes era sócio de Pinto da Costa na imobiliária deste em Cedofeita. Tal é falso e eu lamento ter, involuntariamente, veiculado essa falsa notícia. Peço desculpa por isso a Jorge Mendes, com quem, aliás, ainda fui injusto, escrevendo que é ele quem coloca quase todos os jogadores no FC Porto. Também não é assim: tem colocado quase todos os bons; a maioria daqueles que não se percebe como lá foram parar não são da sua responsabilidade, mas sim contas de outro rosário.
O MELHOR FUTEBOL DA EUROPA (29 ABRIL 2008)
Este FC Porto, de Abril de 2008, joga incomparavelmente melhor do que qualquer uma daquelas quatro equipas das meias-finais da Champions, supostamente as quatro melhores da época no futebol europeu e mundial.
1- Eu avisei aqui, na semana passada: se alguém esperava que o FC Porto fosse facilitar a Guimarães, podia tirar o cavalinho da chuva — aquela equipa e aquele clube são demasiado profissionais e têm demasiado brio para se prestarem a fretes desses. E o sr. Fernando Chalana, que tanto admirei como futebolista, se fez eco dessa insinuação que por aí andou no ar a semana toda, vindo dizer que esperava que houvesse flair play nos restantes jogos que ao Benfica interessavam, podia agora fazer eco das suas próprias palavras e louvar publicamente a atitude do FC Porto em Guimarães, contribuindo decisivamente para a verdade no campeonato que se disputa do 2.º ao 16.º lugar. Só lhe ficava bem, ele que se recusou a reconhecer o mérito do título portista.
Em Guimarães, o FC Porto deu mais uma exemplar lição daquilo que é o futebol que vale a pena ver — «sério», como gosta de dizer Jesualdo Ferreira. Com 0-0 ainda, eu comentei com um camarada portista que comigo via o jogo que, ou o Vitória resolvia correr riscos, atirar-se para cima do FC Porto e estar à altura do seu encontro com a história e com a Champions, ou arriscava-se a sofrer um golo e, a seguir, a ser destroçado. Porque, quando se apanha a ganhar e quando os adversários são obrigados a abrir espaços, o FC Porto transforma-se num perigo público. Mesmo sem Lucho em campo, a velocidade e o aproveitamento de espaços na viragem para o contra-golpe deixam qualquer defesa à beira de um ataque de pânico. Isso, mais uma outra coisa, que, para mim, representa a grande diferença para melhor deste FC Porto em relação ao da época passada: uma condição física notável. Em 2006/07, vimos o FC Porto fazer grandes primeiras partes e rebentar, literalmente, nas segundas partes. E foi assim a época inteira, acabando por ser campeão no limite, desperdiçando aos poucos o folgadíssimo avanço que tinha conquistado em Dezembro. Este ano, tudo mudou nesse aspecto e o primeiro rosto da mudança foi Lucho González, que passou de uma época em que chegou várias vezes a arrastar-se em campo, para outra em que se tornou um jogador luminoso, parecendo fazer tudo sem esforço, como um regente de orquestra dirigindo de cor os seus músicos. Contra o Schalke, jogando mais de uma hora com dez, o FC Porto não deu descanso aos alemães, mais parecia que eram eles que estavam com um a menos; contra o Benfica, a ganhar por 1-0 ao intervalo e a jogar apenas pelo prestígio, encostou-o atrás toda a segunda parte, como se fosse o Benfica que não tinha nada a ganhar com o jogo; contra o Vitória, manteve-se a primeira parte a ver em que paravam as modas e, após o intervalo, como viu que os de Guimarães não se afoitavam, acabou por soltar os dragões e foi o que se viu. Pena que não haja mais nada para ganhar senão a final da Taça! Pena que a época esteja prestes a chegar ao fim com um futebol destes tão fresco ainda na retina!
Esta semana vi três jogos anunciados como do mais alto nível europeu. Vi as meias-finais da Champions entre o Liverpool e o Chelsea e o Barcelona-Manchester United e, no fim-de-semana, o jogo do título em Inglaterra, entre Chelsea e Manchester United. Concedo: são equipes saturadas já de jogos, desgastadas da constante pressão de dois campeonatos justamente tidos como os mais competitivos do planeta. Mas também são quatro equipas carregadas de vedetas, capazes de deixar no banco jogadores como Shevchenko, Thierry Henry, Ronaldinho, Kuyt, Joe Cole e até Cristiano Ronaldo. Quatro equipas do tipo daquelas que ganham porque são melhores ou ganham porque os adversários só de olhar para eles se borram de medo. E o que vi?
Vi três jogos chatérrimos (em especial, o intragável Barcelona- Manchester), com treinadores sempre à defesa, a jogar para o 0-0 ou para o 1-0, uma equipa carregada de foras-de-série, como o Barcelona, incapaz de congeminar uma simples jogada de ruptura no ataque, um futebol inglês dos velhos e patéticos tempos com a bola batida do guarda-redes directamente para o desamparado ponta-de-lança, jogadores de categoria mundial sem capacidade de passe e até parecendo tecnicamente incipientes (ó Deco, por onde andas tu?), enfim, um futebol lento, sem risco, sem alma, chato até ao bocejo. Este FC Porto, de Abril de 2008, joga incomparavelmente melhor do que qualquer uma daquelas quatro equipas das meias-finais da Champions, supostamente as quatro melhores da época no futebol europeu e mundial.
Que pena que aquele rapaz Neuer — que, no Arena e no Dragão, defendeu a baliza do Schalke como nunca antes fizera, nunca voltou a fazer e jamais voltará — tenha impedido esta grande equipa do FC Porto de seguir em frente, até ao lugar que merecia na Europa. Porque, não tenho uma dúvida de que, em condições normais, teria tombado a seguir o Barcelona (além do mais, então desfalcado de Henry, Deco e Messi), e hoje estaríamos a medir forças com o arrogante sir Alex Ferguson, e não sei, não sei…
2- O fair play que Chalana reclamou para a parte final do campeonato não passa só por esperar seriedade competitiva de terceiros cujos jogos possam influir em disputas alheias ou exigir arbitragens isentas de erros voluntários (porque, involuntários haverá sempre, enquanto o olho humano não for uma máquina infalível). Passa também, por exemplo e por razões óbvias, por não aliciar ou contratar jogadores na véspera de jogarem contra nós. Aliás, suponho que existirão regulamentos que expressamente o proíbem e, se não existem, deviam existir. Acham natural que, na semana em que vai defrontar o Boavista, se fique a saber que o Benfica — que passa a santa vida a dizer que conduz uma cruzada pela virtude desportiva — vai contratar o Jorge Ribeiro? E que, na semana em que vai defrontar o Belenenses, se fique a saber que contratou o Ruben Amorim? E que se fique a saber que, no auge da luta com o Guimarães por um lugar na Champions, está interessado em contratar o Geromel? Disseram fair quê?
3- Analisando a arbitragem de Lucílio Baptista em Alvalade, o anedótico penalty que deu o empate ao Sporting e a leitura da imprensa, também não se pode achar natural que a CA nomeie Lucílio Baptista para um jogo do Sporting nesta fase aguda (e, já agora, também para a final da Taça, como imagino que se esteja a congeminar). Ou que nomeie Bruno Paixão para o FC Porto-Benfica. Ou Lucílio para o Boavista-Benfica. São coincidências a mais ou uma falta de cuidado absoluta. E agora, que o suspeito habitual está longe, longíssimo (a 23 pontos…) destas guerras subterrâneas, teria graça desenterrar um «apito prateado» para entender o que se passa. Vítor Pereira deve uma explicação.
4- Continuando no domínio das coisas que não são naturais: perguntava-me há dias um amigo benfiquista se eu achava natural que Pinto da Costa fosse sócio numa imobiliária de Jorge Mendes — o agente que coloca quase todos os jogadores no FC Porto e que vende depois os melhores. Não, não acho natural. E, menos ainda, numa imobiliária.
1- Eu avisei aqui, na semana passada: se alguém esperava que o FC Porto fosse facilitar a Guimarães, podia tirar o cavalinho da chuva — aquela equipa e aquele clube são demasiado profissionais e têm demasiado brio para se prestarem a fretes desses. E o sr. Fernando Chalana, que tanto admirei como futebolista, se fez eco dessa insinuação que por aí andou no ar a semana toda, vindo dizer que esperava que houvesse flair play nos restantes jogos que ao Benfica interessavam, podia agora fazer eco das suas próprias palavras e louvar publicamente a atitude do FC Porto em Guimarães, contribuindo decisivamente para a verdade no campeonato que se disputa do 2.º ao 16.º lugar. Só lhe ficava bem, ele que se recusou a reconhecer o mérito do título portista.
Em Guimarães, o FC Porto deu mais uma exemplar lição daquilo que é o futebol que vale a pena ver — «sério», como gosta de dizer Jesualdo Ferreira. Com 0-0 ainda, eu comentei com um camarada portista que comigo via o jogo que, ou o Vitória resolvia correr riscos, atirar-se para cima do FC Porto e estar à altura do seu encontro com a história e com a Champions, ou arriscava-se a sofrer um golo e, a seguir, a ser destroçado. Porque, quando se apanha a ganhar e quando os adversários são obrigados a abrir espaços, o FC Porto transforma-se num perigo público. Mesmo sem Lucho em campo, a velocidade e o aproveitamento de espaços na viragem para o contra-golpe deixam qualquer defesa à beira de um ataque de pânico. Isso, mais uma outra coisa, que, para mim, representa a grande diferença para melhor deste FC Porto em relação ao da época passada: uma condição física notável. Em 2006/07, vimos o FC Porto fazer grandes primeiras partes e rebentar, literalmente, nas segundas partes. E foi assim a época inteira, acabando por ser campeão no limite, desperdiçando aos poucos o folgadíssimo avanço que tinha conquistado em Dezembro. Este ano, tudo mudou nesse aspecto e o primeiro rosto da mudança foi Lucho González, que passou de uma época em que chegou várias vezes a arrastar-se em campo, para outra em que se tornou um jogador luminoso, parecendo fazer tudo sem esforço, como um regente de orquestra dirigindo de cor os seus músicos. Contra o Schalke, jogando mais de uma hora com dez, o FC Porto não deu descanso aos alemães, mais parecia que eram eles que estavam com um a menos; contra o Benfica, a ganhar por 1-0 ao intervalo e a jogar apenas pelo prestígio, encostou-o atrás toda a segunda parte, como se fosse o Benfica que não tinha nada a ganhar com o jogo; contra o Vitória, manteve-se a primeira parte a ver em que paravam as modas e, após o intervalo, como viu que os de Guimarães não se afoitavam, acabou por soltar os dragões e foi o que se viu. Pena que não haja mais nada para ganhar senão a final da Taça! Pena que a época esteja prestes a chegar ao fim com um futebol destes tão fresco ainda na retina!
Esta semana vi três jogos anunciados como do mais alto nível europeu. Vi as meias-finais da Champions entre o Liverpool e o Chelsea e o Barcelona-Manchester United e, no fim-de-semana, o jogo do título em Inglaterra, entre Chelsea e Manchester United. Concedo: são equipes saturadas já de jogos, desgastadas da constante pressão de dois campeonatos justamente tidos como os mais competitivos do planeta. Mas também são quatro equipas carregadas de vedetas, capazes de deixar no banco jogadores como Shevchenko, Thierry Henry, Ronaldinho, Kuyt, Joe Cole e até Cristiano Ronaldo. Quatro equipas do tipo daquelas que ganham porque são melhores ou ganham porque os adversários só de olhar para eles se borram de medo. E o que vi?
Vi três jogos chatérrimos (em especial, o intragável Barcelona- Manchester), com treinadores sempre à defesa, a jogar para o 0-0 ou para o 1-0, uma equipa carregada de foras-de-série, como o Barcelona, incapaz de congeminar uma simples jogada de ruptura no ataque, um futebol inglês dos velhos e patéticos tempos com a bola batida do guarda-redes directamente para o desamparado ponta-de-lança, jogadores de categoria mundial sem capacidade de passe e até parecendo tecnicamente incipientes (ó Deco, por onde andas tu?), enfim, um futebol lento, sem risco, sem alma, chato até ao bocejo. Este FC Porto, de Abril de 2008, joga incomparavelmente melhor do que qualquer uma daquelas quatro equipas das meias-finais da Champions, supostamente as quatro melhores da época no futebol europeu e mundial.
Que pena que aquele rapaz Neuer — que, no Arena e no Dragão, defendeu a baliza do Schalke como nunca antes fizera, nunca voltou a fazer e jamais voltará — tenha impedido esta grande equipa do FC Porto de seguir em frente, até ao lugar que merecia na Europa. Porque, não tenho uma dúvida de que, em condições normais, teria tombado a seguir o Barcelona (além do mais, então desfalcado de Henry, Deco e Messi), e hoje estaríamos a medir forças com o arrogante sir Alex Ferguson, e não sei, não sei…
2- O fair play que Chalana reclamou para a parte final do campeonato não passa só por esperar seriedade competitiva de terceiros cujos jogos possam influir em disputas alheias ou exigir arbitragens isentas de erros voluntários (porque, involuntários haverá sempre, enquanto o olho humano não for uma máquina infalível). Passa também, por exemplo e por razões óbvias, por não aliciar ou contratar jogadores na véspera de jogarem contra nós. Aliás, suponho que existirão regulamentos que expressamente o proíbem e, se não existem, deviam existir. Acham natural que, na semana em que vai defrontar o Boavista, se fique a saber que o Benfica — que passa a santa vida a dizer que conduz uma cruzada pela virtude desportiva — vai contratar o Jorge Ribeiro? E que, na semana em que vai defrontar o Belenenses, se fique a saber que contratou o Ruben Amorim? E que se fique a saber que, no auge da luta com o Guimarães por um lugar na Champions, está interessado em contratar o Geromel? Disseram fair quê?
3- Analisando a arbitragem de Lucílio Baptista em Alvalade, o anedótico penalty que deu o empate ao Sporting e a leitura da imprensa, também não se pode achar natural que a CA nomeie Lucílio Baptista para um jogo do Sporting nesta fase aguda (e, já agora, também para a final da Taça, como imagino que se esteja a congeminar). Ou que nomeie Bruno Paixão para o FC Porto-Benfica. Ou Lucílio para o Boavista-Benfica. São coincidências a mais ou uma falta de cuidado absoluta. E agora, que o suspeito habitual está longe, longíssimo (a 23 pontos…) destas guerras subterrâneas, teria graça desenterrar um «apito prateado» para entender o que se passa. Vítor Pereira deve uma explicação.
4- Continuando no domínio das coisas que não são naturais: perguntava-me há dias um amigo benfiquista se eu achava natural que Pinto da Costa fosse sócio numa imobiliária de Jorge Mendes — o agente que coloca quase todos os jogadores no FC Porto e que vende depois os melhores. Não, não acho natural. E, menos ainda, numa imobiliária.
quinta-feira, maio 01, 2008
NÃO HÁ MILAGRES (22 ABRIL 2008)
Eu, se mandasse ali, mandava-os calar a todos e só o Rui Costa é que falava em nome do Benfica. Podem crer que muito do respeito e crédito perdido começava logo a ser recuperado.
«É possível enganar muitos durante algum tempo; é possível enganar alguns durante muito tempo; mas não é possível enganar todos durante todo o tempo»
John F. Kennedy
1- Se ontem à tarde (quando escrevi este texto) ainda era presidente do Benfica, e se o sentido do rídiculo não o levou a rever a agenda marcada, Luis Filipe Vieira terá estado na sede da Liga de Clubes a apresentar «provas» dos resultados «viciados» que, em sua opinião, são a única coisa que impede o Benfica de estar agora no segundo lugar ou mesmo no primeiro, de estar na final da Taça, de ser campeão europeu ou de escalar o Evereste a pé coxinho. Porque a equipa é «a melhor da década», ele é um gestor de primeira água, o clube é o «maior do mundo», atestado pelo Guiness, a «Instituição» é um modelo de excelência e de virtudes. A concorrência é que é feia e batoteira e disfarça a sua incompetência com «resultados viciados» — conforme a Dr.ª Maria José Morgado se encarregará de provar a seu tempo.
Vieira tem azar: de cada vez que solta a sua ladaínha em defesa da «verdade no futebol», a equipa do clube encarrega-se de espelhar a verdade em campo. Em dez dias, foi a derrota caseira com a Académica por números escandalosos, os cinco golos sofridos do Sporting em vinte minutos e uma banalíssima derrota no Dragão, que só não se transformou em humilhação porque os jogadores do FC Porto tiveram uma atitude generosa de piedade para com os colegas de ofício.
Há duas semanas atrás, inchado da quase única boa exibição do Benfica em toda a época, no Bessa, mas incapaz de perceber que a sorte e o azar também fazem parte do futebol, Viera gritou «chamem a polícia!» — para investigar dois pretensos «penalties» que só os benfiquistas estão certos de terem visto e o árbitro não. E, mais uma vez, os acontecimentos deram-lhe razão, mas sob a forma de tragicomédia: a polícia foi chamada ao Estádio da Luz para investigar o arrombamento e saque das instalações de uma das claques benfiquistas, levada a cabo… por outra claque benfiquista; foi chamada ao centro de treinos do Seixal para pôr termo ao apedrejamento do autocarro do clube, com a equipa lá dentro, levada a cabo…por adeptos do Benfica; e foi chamada a guardar o «vermelhão» nas suas instalações de Gaia para que os adeptos do Benfica no Porto (como se sabe, os mais numerosos da cidade…) não tivessem a ideia de completar a obra dos seus congéneres de Lisboa. No meio disso, o próprio presidente do clube é alvo de sondagens televisivas a mandá-lo para casa e tem que se esconder dos adeptos para apanhar o «vermelhão» a meio do percurso.
«Os adeptos são ingratos», pensará Luis Filipe Vieira a esta hora. Talvez, mas também é verdade que Deus não dorme: de cada vez que um presidente do Benfica faz ponto central da sua gestão o incitamento ao ódio anti-Porto e se desculpa dos maus resultados desportivos com as maquinações ocultas, o FC Porto avança mais ainda e o Benfica recua. Os benfiquistas poderiam já ter aprendido a dolorosa lição com Vale e Azevedo, mas, pelos vistos, não. Custa-lhes a acreditar que o sucesso exija esforço, trabalho, humildade, planeamento e tempo.
Tomem o exemplo do Chalana. Salvo erro, pegou na equipa há oito jogos e ganhou um. Começou por perder a UEFA com um jogo miserável em Getafe, que ele considerou excelente; perdeu a Taça, cilindrado pelo Sporting, na única vez em que o Benfica teve de sair da Luz para disputar uma eliminatória; foi o desastre que foi com a Académica e a tristeza pungente com o FC Porto (em todo o jogo, teve uma única ocasião de golo, graças à anatomia do Luisão, cujo 1,98 metros lhe permitiu naturalmente chegar mais alto a um canto do Rui Costa do que toda a defesa do FC Porto). Mas, enfim, compreende-se que não houvesse mais ninguém para pegar na equipa neste penoso final de época. O que já não se compreende é que deixem o Chalana falar depois dos jogos e afirmar coisas tão patéticas como «não ganhámos no Bessa por outras razões e tem sido assim todo o campeonato» ou «o Benfica entrou atrevido no Dragão, jogámos para ganhar e podíamos ter empatado, mas não tivémos sorte». Fernando Chalana representa bem o «espírito Vieira», das «razões ocultas» e das eternas desculpas de mau pagador. Já ninguém lhes dá crédito, nem sequer os adeptos. Só eles é que não perceberam ou fingem não perceber.
Nesta vertiginosa descida do Benfica aos infernos, há alguém de quem tenho pena e que acho que o não merece de forma alguma: Rui Costa. Não apenas porque é o melhor jogador da equipa, um dos melhores em acção neste campeonato, o melhor dos benfiquistas dentro e fora de campo, mas também porque não paga tributo à estupidez, à cegueira ou à hipocrisia. Eu sei que isto, dito por um portista, até pode pôr os mais fanáticos benfiquistas a desconfiar do Rui Costa. Mas eu, se mandasse ali, mandava-os calar a todos e só o Rui Costa é que falava em nome do Benfica. Podem crer que muito do respeito e crédito perdido começava logo a ser recuperado.
2- Entretanto, o mundo pula e avança. Ou melhor, o FC Porto pula e o Vitória de Guimarães avança. O Vitória avança, com passos medidos e cautelosos, em direcção a um inimaginável segundo lugar e presença na Champions — enquanto o seu voleibol conquistou para o clube o primeiro título de campeão nacional absoluto da sua história, e o andebol conquistou a Taça de Portugal. Mas desiludam-se: o FC Porto não vai facilitar em Guimarães. Se não ganhar, terá sido por mérito do Vitória.
Porque este FC Porto está insaciável. Quer curar, e à custa de vitórias, a ferida ainda aberta da injustíssima eliminação contra o Schalke, nos oitavos-de-final da Champions. Com uma perna às costas, ganhou o seu lugar no Jamor, dia 18 de Maio, e, com a frieza e eficácia de um «serial killer», prossegue no campeonato pulverizando todas as marcas e recordes, seus e alheios. E, para os detractores que diziam que os portistas ganhavam sem jogar bem, vale a pena pensar quem mais, em Portugal, consegue jogar àquele ritmo, com aquela fantástica geometria em movimento que destroça e paralisa de terror os adversários. Se aquilo não é jogar bem, ah, mostrem-me o vosso caixote do lixo! E expliquem- -me porque andam já tantos jornalistas tão agitados a tentarem livrar-nos do Bosingwa, do Bruno Alves, do Quaresma, do Lucho e do Lisandro para a próxima época!
3- O episódio da passagem do cometa Silva pelo Bessa mostra a que ponto o Boavista bateu no fundo. Bastava olhar para senhor! Mas o desespero já é tanto que se acredita que um clube sem público e sem horizontes pode sobreviver com «investidores» da banha-da-cobra em busca de cinco minutos de telejornal. O tema merece uma reflexão muito séria, para outras núpcias.
«É possível enganar muitos durante algum tempo; é possível enganar alguns durante muito tempo; mas não é possível enganar todos durante todo o tempo»
John F. Kennedy
1- Se ontem à tarde (quando escrevi este texto) ainda era presidente do Benfica, e se o sentido do rídiculo não o levou a rever a agenda marcada, Luis Filipe Vieira terá estado na sede da Liga de Clubes a apresentar «provas» dos resultados «viciados» que, em sua opinião, são a única coisa que impede o Benfica de estar agora no segundo lugar ou mesmo no primeiro, de estar na final da Taça, de ser campeão europeu ou de escalar o Evereste a pé coxinho. Porque a equipa é «a melhor da década», ele é um gestor de primeira água, o clube é o «maior do mundo», atestado pelo Guiness, a «Instituição» é um modelo de excelência e de virtudes. A concorrência é que é feia e batoteira e disfarça a sua incompetência com «resultados viciados» — conforme a Dr.ª Maria José Morgado se encarregará de provar a seu tempo.
Vieira tem azar: de cada vez que solta a sua ladaínha em defesa da «verdade no futebol», a equipa do clube encarrega-se de espelhar a verdade em campo. Em dez dias, foi a derrota caseira com a Académica por números escandalosos, os cinco golos sofridos do Sporting em vinte minutos e uma banalíssima derrota no Dragão, que só não se transformou em humilhação porque os jogadores do FC Porto tiveram uma atitude generosa de piedade para com os colegas de ofício.
Há duas semanas atrás, inchado da quase única boa exibição do Benfica em toda a época, no Bessa, mas incapaz de perceber que a sorte e o azar também fazem parte do futebol, Viera gritou «chamem a polícia!» — para investigar dois pretensos «penalties» que só os benfiquistas estão certos de terem visto e o árbitro não. E, mais uma vez, os acontecimentos deram-lhe razão, mas sob a forma de tragicomédia: a polícia foi chamada ao Estádio da Luz para investigar o arrombamento e saque das instalações de uma das claques benfiquistas, levada a cabo… por outra claque benfiquista; foi chamada ao centro de treinos do Seixal para pôr termo ao apedrejamento do autocarro do clube, com a equipa lá dentro, levada a cabo…por adeptos do Benfica; e foi chamada a guardar o «vermelhão» nas suas instalações de Gaia para que os adeptos do Benfica no Porto (como se sabe, os mais numerosos da cidade…) não tivessem a ideia de completar a obra dos seus congéneres de Lisboa. No meio disso, o próprio presidente do clube é alvo de sondagens televisivas a mandá-lo para casa e tem que se esconder dos adeptos para apanhar o «vermelhão» a meio do percurso.
«Os adeptos são ingratos», pensará Luis Filipe Vieira a esta hora. Talvez, mas também é verdade que Deus não dorme: de cada vez que um presidente do Benfica faz ponto central da sua gestão o incitamento ao ódio anti-Porto e se desculpa dos maus resultados desportivos com as maquinações ocultas, o FC Porto avança mais ainda e o Benfica recua. Os benfiquistas poderiam já ter aprendido a dolorosa lição com Vale e Azevedo, mas, pelos vistos, não. Custa-lhes a acreditar que o sucesso exija esforço, trabalho, humildade, planeamento e tempo.
Tomem o exemplo do Chalana. Salvo erro, pegou na equipa há oito jogos e ganhou um. Começou por perder a UEFA com um jogo miserável em Getafe, que ele considerou excelente; perdeu a Taça, cilindrado pelo Sporting, na única vez em que o Benfica teve de sair da Luz para disputar uma eliminatória; foi o desastre que foi com a Académica e a tristeza pungente com o FC Porto (em todo o jogo, teve uma única ocasião de golo, graças à anatomia do Luisão, cujo 1,98 metros lhe permitiu naturalmente chegar mais alto a um canto do Rui Costa do que toda a defesa do FC Porto). Mas, enfim, compreende-se que não houvesse mais ninguém para pegar na equipa neste penoso final de época. O que já não se compreende é que deixem o Chalana falar depois dos jogos e afirmar coisas tão patéticas como «não ganhámos no Bessa por outras razões e tem sido assim todo o campeonato» ou «o Benfica entrou atrevido no Dragão, jogámos para ganhar e podíamos ter empatado, mas não tivémos sorte». Fernando Chalana representa bem o «espírito Vieira», das «razões ocultas» e das eternas desculpas de mau pagador. Já ninguém lhes dá crédito, nem sequer os adeptos. Só eles é que não perceberam ou fingem não perceber.
Nesta vertiginosa descida do Benfica aos infernos, há alguém de quem tenho pena e que acho que o não merece de forma alguma: Rui Costa. Não apenas porque é o melhor jogador da equipa, um dos melhores em acção neste campeonato, o melhor dos benfiquistas dentro e fora de campo, mas também porque não paga tributo à estupidez, à cegueira ou à hipocrisia. Eu sei que isto, dito por um portista, até pode pôr os mais fanáticos benfiquistas a desconfiar do Rui Costa. Mas eu, se mandasse ali, mandava-os calar a todos e só o Rui Costa é que falava em nome do Benfica. Podem crer que muito do respeito e crédito perdido começava logo a ser recuperado.
2- Entretanto, o mundo pula e avança. Ou melhor, o FC Porto pula e o Vitória de Guimarães avança. O Vitória avança, com passos medidos e cautelosos, em direcção a um inimaginável segundo lugar e presença na Champions — enquanto o seu voleibol conquistou para o clube o primeiro título de campeão nacional absoluto da sua história, e o andebol conquistou a Taça de Portugal. Mas desiludam-se: o FC Porto não vai facilitar em Guimarães. Se não ganhar, terá sido por mérito do Vitória.
Porque este FC Porto está insaciável. Quer curar, e à custa de vitórias, a ferida ainda aberta da injustíssima eliminação contra o Schalke, nos oitavos-de-final da Champions. Com uma perna às costas, ganhou o seu lugar no Jamor, dia 18 de Maio, e, com a frieza e eficácia de um «serial killer», prossegue no campeonato pulverizando todas as marcas e recordes, seus e alheios. E, para os detractores que diziam que os portistas ganhavam sem jogar bem, vale a pena pensar quem mais, em Portugal, consegue jogar àquele ritmo, com aquela fantástica geometria em movimento que destroça e paralisa de terror os adversários. Se aquilo não é jogar bem, ah, mostrem-me o vosso caixote do lixo! E expliquem- -me porque andam já tantos jornalistas tão agitados a tentarem livrar-nos do Bosingwa, do Bruno Alves, do Quaresma, do Lucho e do Lisandro para a próxima época!
3- O episódio da passagem do cometa Silva pelo Bessa mostra a que ponto o Boavista bateu no fundo. Bastava olhar para senhor! Mas o desespero já é tanto que se acredita que um clube sem público e sem horizontes pode sobreviver com «investidores» da banha-da-cobra em busca de cinco minutos de telejornal. O tema merece uma reflexão muito séria, para outras núpcias.
FORA DE ESTRADA, DE CABEÇA LIMPA (15 ABRIL 2008)
Tal como a caça, as touradas ou a matança do porco, também o TT está hoje debaixo de fogo dos urbanos-depressivos bem- pensantes. É gente que acha que a natureza é o Oceanário da Parque-Expo, a Quinta Pedagógica da CML ou os aldeamentos turísticos «amigos do ambiente»
Campeonato já metido ao bolso, este fim-de-semana pude gozar por completo um dos meus prazeres ou vícios favoritos: o todo-o-terreno. Sexta, sábado e domingo, entre a lama e o pó, o frio, alguma chuva e horas de sol pelo meio, pelas Serras da Gardunha e da Estrela e ao longo do Tejo, do Zêzere e seus afluentes, corpo, cabeça e alma estiveram quase que por inteiro concentrados apenas em gozar ao máximo o 25º Raid Transportugal Accenture/Oracle. Vinte e cinco edições, das quais, se a memória me não falha, eu já fiz vinte, com esta. Em 1987, acompanhei o Clube Aventura numa Expedição Transariana — cinco semanas inesquecíveis no hoje interdito deserto argelino do Sahara, o deserto dos desertos, e então sem telemóvel, nem GPS nem rádios transmissores: bússola, cartas militares dos tempos coloniais franceses e muita fé e capacidade de resistência. Nunca antes eu tinha feito um metro que fosse fora de alcatrão. Não fazia ideia o que era guiar um monstrozinho de duas toneladas, não sabia para que servia a tracção às quatro rodas e ignorava por completo o que fossem redutoras. Mas confiaram-me um UMM, com a responsabilidade de ir até lá e trazê-lo de volta para Lisboa, e, embora o que eu tenha trazido de volta tenha sido apenas a recordação do brioso, feio e fidelíssimo carro que recebera mais de um mês antes, a verdade é que o trouxe de volta e, juntamente com ele, a paixão, jamais curada, do todo-o-terreno. E, logo nesse ano, com outro UMM emprestado, inscrevi-me no Transportugal — na época gloriosa em que a prova durava nove dias, atravessava Portugal inteiro fora de estrada, tinha ainda uma grande componente desportiva (infelizmente perdida por causa das burocracias) e nos obrigava, no final de cada dia e depois de umas dez horas ao volante, a fazer ainda de mecânicos pela noite fora. Luxos de juventude…
Eu e muitos outros — todos aqueles que acreditamos que um jeep não serve para ser exibido na cidade e estacionado ao fim-de-semana nos centros comerciais para ir às compras — devemos assim ao Cube Aventura e aos seus fundadores, José Megre e Pedro Vilas Boas, o supremo privilégio de termos podido sair fora dos caminhos batidos e descobrir um outro país deslumbrante, que é este pequeno Portugal. Não sei quantos haverá que tenham feito vinte edições do Transportugal, incluindo três das antigas, de nove dias. Talvez sejamos uns cem, talvez menos, mas o que sei é que nos podemos gabar de conhecer Portugal de lés-a-lés como ninguém mais: cruzámos todos os montes e serras, atravessámos todas as aldeias esquecidas no fim do tempo, acelerámos em todos os planaltos e planícies do sul, passámos a vau todos os rios, ribeiras e riachos do mapa, redescobrimos caminhos perdidos desde os romanos e chegámos aos cumes mais altos, de meter medo, e a paisagens e pistas de que nenhum livro fala. E tudo isso, aos saltos e solavancos, num desconforto e cansaço por vezes injustificável, mas de que retiramos sempre um prazer de crianças deslumbradas. E mais: tudo isso fez de nós condutores exímios, habituados a guiar metro a metro, a esperar sempre um buraco à saída de uma curva fechada, uma pedra escondida na trajectória do carro e de que é preciso desviar-se numa fracção de segundo, um lamaçal onde o carro não pode ficar preso, um corta-fogo a subir a pique vendo apenas o céu no horizonte, um rio a atravessar com água por cima do capot e uma correnteza que nos vai arrastar, se escolhermos mal o ponto de travessia ou se deixarmos o motor ir abaixo no meio do aperto. São doses industriais de adrenalina, de medo, muitas vezes (como no ponto mais alto da Gardunha, no meio do espectáculo surreal dos moinhos de energia eólica, com mil metros de abismo de cada lado da pista e um nevoeiro de catástrofe envolvendo tudo), mas também, e como suprema recompensa, paisagens de uma beleza de cortar a respiração, lugares inimagináveis onde o mundo parece ter começado a ser criado e reina uma harmonia absolutamente perfeita.
Obviamente, o Transportugal deve muito, muitíssimo, a quem faz o reconhecimento dos trajectos a percorrer — e hoje isso é obra de uma pequena equipa comandada pelo Orlando Romana, um alentejano tranquilo e discreto, que soube fazer de uma paixão a sua profissão. E, claro, desse «gentlemen traveller» que é o José Megre — o pioneiro da participação portuguesa no Paris-Dakar e seguramente o maior viajante de Portugal inteiro (o mundo tem 194 países registados e José Megre tem o carimbo de 192 deles. Gasta todos os dias de férias do ano a viajar sozinho, na insane tarefa de conhecer todos os países do mundo: faltam-lhe o Haiti e o Iraque, e eu troco mais uma viagem minha a Veneza ou a Marraquexe por uma viagem do Megre aos dois países que lhe faltam, porque ele bem o merece).
Tal como a caça, as touradas ou a matança do porco, também o TT está hoje debaixo de fogo dos urbanos-depressivos bem-pensantes. É gente que acha que a natureza é o Oceanário da Parque-Expo, a Quinta Pedagógica da CML ou os aldeamentos turísticos «amigos do ambiente». Acham que os jeeps destroem as plantas e os caçadores dizimam os animaizinhos. É inútil tentar explicar-lhes que, tanto o TT como a caça organizada, mantêm o equilíbrio da natureza, ensinam as pessoas a respeitá-la para poder desfrutá-la e mantêm viva a ligação do homem com o campo e o mato, sem a qual tudo se descontrolaria. Enfim, eu que já não alimento grandes esperanças na capacidade regenerativa da inteligência do ser humano, vou desfrutando enquanto posso. Talvez tenha a sorte de morrer a atravessar de jeep a ribeira de Odeleite ou a caçar uma perdiz brava na serra de Mértola, de acordo com a única religião em que acredito e que é a da natureza.
De há uns anos para cá tenho tido também a sorte de partilhar o Transportugal com um parceiro à medida do espírito da coisa. O Pedro P. é, curiosamente, um benfiquista, mas de uma espécie rara, nos tempos que correm: acima de tudo, ele gosta, e joga, futebol. Não vai, pois, em cantigas de embalar ou de enganar: olha o que vê e muitas vezes deixa deserto o seu lugar cativo no Estádio da Luz. Sexta à noite, quando estávamos a jantar em Tomar, foi ele que me comunicou que o Benfica acabara de ser humilhado pela Académica, em pleno Estádio da Luz. Disse-o com um ar tão conformado e natural, que eu nem tive coragem para comentar «deve ter sido mais um resultado viciado, como diz o brilhante gestor das frustrações benfiquistas». Até isso eu devo ao TT: a capacidade de retirar importância às pequenas misérias da vida, de, durante três dias, ser capaz de nos ajudar a pôr as coisas em perspectiva, esquecer rivalidades idiotas e querelas inúteis e devolver-nos ao essencial da vida. Dois amigos, esquecidos do mundo e partilhando um jeep, um ao volante, outro na navegação, engolindo os quilómetros de terra e a paisagem como se engole a vida — quando a vida é só deslumbramento e alegria.
Campeonato já metido ao bolso, este fim-de-semana pude gozar por completo um dos meus prazeres ou vícios favoritos: o todo-o-terreno. Sexta, sábado e domingo, entre a lama e o pó, o frio, alguma chuva e horas de sol pelo meio, pelas Serras da Gardunha e da Estrela e ao longo do Tejo, do Zêzere e seus afluentes, corpo, cabeça e alma estiveram quase que por inteiro concentrados apenas em gozar ao máximo o 25º Raid Transportugal Accenture/Oracle. Vinte e cinco edições, das quais, se a memória me não falha, eu já fiz vinte, com esta. Em 1987, acompanhei o Clube Aventura numa Expedição Transariana — cinco semanas inesquecíveis no hoje interdito deserto argelino do Sahara, o deserto dos desertos, e então sem telemóvel, nem GPS nem rádios transmissores: bússola, cartas militares dos tempos coloniais franceses e muita fé e capacidade de resistência. Nunca antes eu tinha feito um metro que fosse fora de alcatrão. Não fazia ideia o que era guiar um monstrozinho de duas toneladas, não sabia para que servia a tracção às quatro rodas e ignorava por completo o que fossem redutoras. Mas confiaram-me um UMM, com a responsabilidade de ir até lá e trazê-lo de volta para Lisboa, e, embora o que eu tenha trazido de volta tenha sido apenas a recordação do brioso, feio e fidelíssimo carro que recebera mais de um mês antes, a verdade é que o trouxe de volta e, juntamente com ele, a paixão, jamais curada, do todo-o-terreno. E, logo nesse ano, com outro UMM emprestado, inscrevi-me no Transportugal — na época gloriosa em que a prova durava nove dias, atravessava Portugal inteiro fora de estrada, tinha ainda uma grande componente desportiva (infelizmente perdida por causa das burocracias) e nos obrigava, no final de cada dia e depois de umas dez horas ao volante, a fazer ainda de mecânicos pela noite fora. Luxos de juventude…
Eu e muitos outros — todos aqueles que acreditamos que um jeep não serve para ser exibido na cidade e estacionado ao fim-de-semana nos centros comerciais para ir às compras — devemos assim ao Cube Aventura e aos seus fundadores, José Megre e Pedro Vilas Boas, o supremo privilégio de termos podido sair fora dos caminhos batidos e descobrir um outro país deslumbrante, que é este pequeno Portugal. Não sei quantos haverá que tenham feito vinte edições do Transportugal, incluindo três das antigas, de nove dias. Talvez sejamos uns cem, talvez menos, mas o que sei é que nos podemos gabar de conhecer Portugal de lés-a-lés como ninguém mais: cruzámos todos os montes e serras, atravessámos todas as aldeias esquecidas no fim do tempo, acelerámos em todos os planaltos e planícies do sul, passámos a vau todos os rios, ribeiras e riachos do mapa, redescobrimos caminhos perdidos desde os romanos e chegámos aos cumes mais altos, de meter medo, e a paisagens e pistas de que nenhum livro fala. E tudo isso, aos saltos e solavancos, num desconforto e cansaço por vezes injustificável, mas de que retiramos sempre um prazer de crianças deslumbradas. E mais: tudo isso fez de nós condutores exímios, habituados a guiar metro a metro, a esperar sempre um buraco à saída de uma curva fechada, uma pedra escondida na trajectória do carro e de que é preciso desviar-se numa fracção de segundo, um lamaçal onde o carro não pode ficar preso, um corta-fogo a subir a pique vendo apenas o céu no horizonte, um rio a atravessar com água por cima do capot e uma correnteza que nos vai arrastar, se escolhermos mal o ponto de travessia ou se deixarmos o motor ir abaixo no meio do aperto. São doses industriais de adrenalina, de medo, muitas vezes (como no ponto mais alto da Gardunha, no meio do espectáculo surreal dos moinhos de energia eólica, com mil metros de abismo de cada lado da pista e um nevoeiro de catástrofe envolvendo tudo), mas também, e como suprema recompensa, paisagens de uma beleza de cortar a respiração, lugares inimagináveis onde o mundo parece ter começado a ser criado e reina uma harmonia absolutamente perfeita.
Obviamente, o Transportugal deve muito, muitíssimo, a quem faz o reconhecimento dos trajectos a percorrer — e hoje isso é obra de uma pequena equipa comandada pelo Orlando Romana, um alentejano tranquilo e discreto, que soube fazer de uma paixão a sua profissão. E, claro, desse «gentlemen traveller» que é o José Megre — o pioneiro da participação portuguesa no Paris-Dakar e seguramente o maior viajante de Portugal inteiro (o mundo tem 194 países registados e José Megre tem o carimbo de 192 deles. Gasta todos os dias de férias do ano a viajar sozinho, na insane tarefa de conhecer todos os países do mundo: faltam-lhe o Haiti e o Iraque, e eu troco mais uma viagem minha a Veneza ou a Marraquexe por uma viagem do Megre aos dois países que lhe faltam, porque ele bem o merece).
Tal como a caça, as touradas ou a matança do porco, também o TT está hoje debaixo de fogo dos urbanos-depressivos bem-pensantes. É gente que acha que a natureza é o Oceanário da Parque-Expo, a Quinta Pedagógica da CML ou os aldeamentos turísticos «amigos do ambiente». Acham que os jeeps destroem as plantas e os caçadores dizimam os animaizinhos. É inútil tentar explicar-lhes que, tanto o TT como a caça organizada, mantêm o equilíbrio da natureza, ensinam as pessoas a respeitá-la para poder desfrutá-la e mantêm viva a ligação do homem com o campo e o mato, sem a qual tudo se descontrolaria. Enfim, eu que já não alimento grandes esperanças na capacidade regenerativa da inteligência do ser humano, vou desfrutando enquanto posso. Talvez tenha a sorte de morrer a atravessar de jeep a ribeira de Odeleite ou a caçar uma perdiz brava na serra de Mértola, de acordo com a única religião em que acredito e que é a da natureza.
De há uns anos para cá tenho tido também a sorte de partilhar o Transportugal com um parceiro à medida do espírito da coisa. O Pedro P. é, curiosamente, um benfiquista, mas de uma espécie rara, nos tempos que correm: acima de tudo, ele gosta, e joga, futebol. Não vai, pois, em cantigas de embalar ou de enganar: olha o que vê e muitas vezes deixa deserto o seu lugar cativo no Estádio da Luz. Sexta à noite, quando estávamos a jantar em Tomar, foi ele que me comunicou que o Benfica acabara de ser humilhado pela Académica, em pleno Estádio da Luz. Disse-o com um ar tão conformado e natural, que eu nem tive coragem para comentar «deve ter sido mais um resultado viciado, como diz o brilhante gestor das frustrações benfiquistas». Até isso eu devo ao TT: a capacidade de retirar importância às pequenas misérias da vida, de, durante três dias, ser capaz de nos ajudar a pôr as coisas em perspectiva, esquecer rivalidades idiotas e querelas inúteis e devolver-nos ao essencial da vida. Dois amigos, esquecidos do mundo e partilhando um jeep, um ao volante, outro na navegação, engolindo os quilómetros de terra e a paisagem como se engole a vida — quando a vida é só deslumbramento e alegria.
segunda-feira, abril 14, 2008
DIGA 23 ( 08 ABRIL 2008)
1- E aí vão vinte e três campeonatos! Já só estamos a oito do Benfica e com cinco de avanço sobre o Sporting: para perceber o impensável que isto era no passado, é preciso ter vivido a infância de portista em Lisboa que eu vivi, sistematicamente a ver o FC Porto ser sovado em Alvalade ou na Luz (e, quando não era, quando aos 20 minutos ainda não estávamos a perder, lá aparecia o inevitável penalty para restabelecer a ordem natural das coisas…). Mas não hei-de morrer sem ver o FC Porto ultrapassar o Benfica em número de campeonatos nacionais — porque, no que respeita a títulos internacionais, há muito que os ultrapassámos, com seis contra dois.
Sábado à noite, no Dragão, viveu-se um daqueles momentos em que vale a pena ser portista, arrostar com a inveja dos medíocres, com a maledicência dos impotentes, com as calúnias dos incapazes. Estádio cheio, o mais bonito estádio do mundo, o equipamento mais bonito de todos, a alegria de um público habituado a reagir como uma grande família quando está debaixo de fogo, futebol, golos e espectáculo como só nós e, no fim, contra as contas dos pífios apitos dos invejosos, a festa, a nossa festa — digna, bonita, sentida como nenhuma outra.
Querem-nos tirar seis pontos? Tomem lá seis — seis golos — tomem lá a resposta, em campo, no terreno de todas as verdades. Não chega, querem mais? Venham mais — temos dezoito de avanço! Dezoito, ó tristes gentes que nem perder sabem e cujo treinador até assim se recusa a reconhecer o mérito dos vencedores!
Foi festejar até fartar e depois um jantar especial: vieiras recheadas com arroz Carolino de pinhões e morgados do Algarve à sobremesa. Repeti seis vezes!
2- Deixem-me falar do Benfica. Como, julgo, a grande maioria dos portistas da minha geração, eu cresci a temer e respeitar o Benfica. Temer, porque eles eram tremendamente melhores que nós e, apesar dos Porfírios Alves e Carlos Valentes (o Calabote já não é do meu tempo), eles ganhavam-nos quase sempre porque eram melhores. Respeito, porque o Benfica das décadas 60 e 70 era a casa do Eusébio e o orgulho dos portugueses. O meu pai, que era sportinguista, levou-me duas vezes à Luz, naquelas longínquas «noites europeias do inferno da Luz», e ambos torcemos e gritámos pelo Benfica. É verdade, e até levava o meu cachecol do FC Porto!
Agora, quando oiço Sílvio Cervan dizer que o Benfica é o maior clube do Porto e a maior referência internacional do nosso futebol, sinto um misto de pena deles e, simultaneamente, um reconforto: enquanto os adversários continuarem a guiar-se por ilusões ou propaganda para papalvos, nós continuaremos seguramente a ganhar. Há muitos locais do Porto onde eu encontro facilmente bandeiras do FC Porto penduradas nas janelas ou nas portadas das casas. Mas não me lembro de ver alguma do Benfica e, por favor, não me venham com a necessidade da clandestinidade: se são o maior clube, porque temeriam mostrá-lo? Também ando por aí no mundo e sou capaz de informar o Sílvio Cervan que, da Turquia a Angola e todos os Palop's, e do Brasil à Tailândia, o que vejo são camisolas do FC Porto e o que oiço falar, quando se fala do futebol português e o interlocutor não tem mais de 50 anos, é do FC Porto e não do Benfica.
De um lado ao outro do mundo, a gente do futebol sabe quem são o Bosingwa, o Lucho, o Quaresma, o Lisandro, e sabem quem foram o Deco, o Ricardo Carvalho, o Vítor Baía e o calcanhar do Madjer. Mas lamento informar que ninguém sabe quem sejam o Petit, o Di María, o Katsouranis ou o Maxi Pereira.
O que aconteceu ao meu antigo respeito pelo Sport Lisboa e Benfica — e julgo que aconteceu também com todos os outros adeptos portistas e sportinguistas — é que o fui perdendo aos poucos. O Benfica das últimas décadas — o Benfica de Jorge de Brito, Vale e Azevedo, Filipe Vieira, de gente como João Malheiro, José Veiga ou Carolina Salgado — é um Benfica que eu não vejo razões para admirar. Não porque percam, mas porque não sabem perder. São arrogantes por natureza, como se, por determinação divina, tivessem direito a ganhar sempre ou quase sempre; nunca, jamais, reconhecem o mérito de uma vitória alheia; vivem em busca do conflito, da calúnia, da suspeita não provada jogada aos quatro ventos. Gritam pela justiça do Apito Dourado mas foram eles que se aliaram ao major Valentim para controlar a Liga, no seu pior momento, porque, como explicou Vieira, isso era mais importante do que ter bons jogadores ou jogar bem; clamam que são as virgens virtuosas do futebol, mas esquecem-se de coisas como o caso Paulo Madeira, o jogo comprado ao Estoril para o Algarve ou a forma como foram campeões pela última vez, com todos os golos dos últimos jogos a resultarem de penalties ou livres à entrada da área.
Não sei se o Sílvio Cervan conseguirá acreditar na sinceridade do que vou dizer: o que o Benfica mais perdeu nas últimas décadas não foram campeonatos. Foi o respeito dos adversários, uma coisa que levara gerações a construir e que representava um imenso capital de prestígio e grandeza. Hoje, o Benfica é um clube que só os seus estimam. Dir-me-ão que o mesmo sucede com o FC Porto e eu respondo que acho que não é bem assim, mas, mesmo que o seja, ao contrário da história do Benfica, nós nunca gozámos de outro estatuto e estamos bem habituados a viver com isso.
3- No Bessa, o Benfica fez um belo jogo e o suficiente para ganhar folgadamente. Mas teve um grande guarda-redes pela frente, teve falhanços vários e azar muito. Mas também teve sorte, quando Jorge Ribeiro (já anunciado como reforço benfiquista para o ano que vem) não conseguiu acertar um passe lateral fácil para qualquer um de três colegas isolados frente a Quim e cobrou um penalty com a displicência de quem sacode uma mosca. Com toda a falta de sorte que desta vez teve, o Benfica até podia ter acabado a perder o jogo. Já se sabe e foi dito oficialmente, que só não o ganhou por culpa do árbitro. Eu, que sou suspeito, não vi qualquer um dos dois penalties tão reclamados, mas não deixo de sorrir quando vejo Vieira a acusar Lucílio Baptista de «viciar o resultado». É que este é o mesmo Lucílio Baptista a quem todos os portistas desejam ardentemente a reforma, depois de anos a fio a prejudicar sistematicamente o FC Porto, a benefício do Sporting e também do Benfica, que lhe deve uma valiosa colaboração na final da Taça de 2004. Sabendo-se que o homem sempre teve horror ao azul-e-branco e que o FCP, aliás, é parte agora desinteressada da batalha atrás de si, as suspeitas de Vieira, desta vez, só podem apontar para o vizinho do lado — o Sporting, pois claro!
É verdade, porém, que o V. Guimarães, segundo rezam as crónicas, foi beneficiado com a arbitragem em Paços de Ferreira, e que o Sporting, numa altura em que bem oscilava, viu o árbitro anular misteriosamente um golo ao Sp. Braga, em Alvalade. Mas isso ainda me dá mais vontade de sorrir. É que o arbitro — que é testemunha de acusação no Apito Dourado — é nem mais nem menos do que o célebre Bruno Paixão, do inesquecível Campomaiorense-FC Porto, a mais escandalosa arbitragem a que alguma vez assisti, em que até era preciso o Jorge Costa colar-se às costas do Jardel nos cantos para que ele não fosse sistematicamente agarrado nas barbas do árbitro por um rapaz que o Benfica tinha emprestado ao Campomaiorense (e, por acaso, o jogo viria a valer um campeonato perdido pelo FC Porto). Pelo que, se agora o mesmo árbitro — que, aliás, nunca mostrou categoria para a primeira Liga — descobriu em Alvalade uma falta que nem o Além conseguiria descortinar, e se com isso passou a ser suspeito de prejudicar o Benfica ao ponto de Luís Filipe Vieira pedir à PJ que entre em campo, a mim só me dá vontade de sorrir e pensar que belas testemunhas juntou o Ministério Público para o Apito Dourado!
Mas, para a semana, tão certo como dois e dois serem quatro, vai haver um erro de arbitragem a favor do Benfica e o Sporting vai achar-se com razões de queixa do árbitro e invertem-se os papéis: um grita e o outro fica muito bem caladinho. São tão previsíveis os nossos rivais!
Sábado à noite, no Dragão, viveu-se um daqueles momentos em que vale a pena ser portista, arrostar com a inveja dos medíocres, com a maledicência dos impotentes, com as calúnias dos incapazes. Estádio cheio, o mais bonito estádio do mundo, o equipamento mais bonito de todos, a alegria de um público habituado a reagir como uma grande família quando está debaixo de fogo, futebol, golos e espectáculo como só nós e, no fim, contra as contas dos pífios apitos dos invejosos, a festa, a nossa festa — digna, bonita, sentida como nenhuma outra.
Querem-nos tirar seis pontos? Tomem lá seis — seis golos — tomem lá a resposta, em campo, no terreno de todas as verdades. Não chega, querem mais? Venham mais — temos dezoito de avanço! Dezoito, ó tristes gentes que nem perder sabem e cujo treinador até assim se recusa a reconhecer o mérito dos vencedores!
Foi festejar até fartar e depois um jantar especial: vieiras recheadas com arroz Carolino de pinhões e morgados do Algarve à sobremesa. Repeti seis vezes!
2- Deixem-me falar do Benfica. Como, julgo, a grande maioria dos portistas da minha geração, eu cresci a temer e respeitar o Benfica. Temer, porque eles eram tremendamente melhores que nós e, apesar dos Porfírios Alves e Carlos Valentes (o Calabote já não é do meu tempo), eles ganhavam-nos quase sempre porque eram melhores. Respeito, porque o Benfica das décadas 60 e 70 era a casa do Eusébio e o orgulho dos portugueses. O meu pai, que era sportinguista, levou-me duas vezes à Luz, naquelas longínquas «noites europeias do inferno da Luz», e ambos torcemos e gritámos pelo Benfica. É verdade, e até levava o meu cachecol do FC Porto!
Agora, quando oiço Sílvio Cervan dizer que o Benfica é o maior clube do Porto e a maior referência internacional do nosso futebol, sinto um misto de pena deles e, simultaneamente, um reconforto: enquanto os adversários continuarem a guiar-se por ilusões ou propaganda para papalvos, nós continuaremos seguramente a ganhar. Há muitos locais do Porto onde eu encontro facilmente bandeiras do FC Porto penduradas nas janelas ou nas portadas das casas. Mas não me lembro de ver alguma do Benfica e, por favor, não me venham com a necessidade da clandestinidade: se são o maior clube, porque temeriam mostrá-lo? Também ando por aí no mundo e sou capaz de informar o Sílvio Cervan que, da Turquia a Angola e todos os Palop's, e do Brasil à Tailândia, o que vejo são camisolas do FC Porto e o que oiço falar, quando se fala do futebol português e o interlocutor não tem mais de 50 anos, é do FC Porto e não do Benfica.
De um lado ao outro do mundo, a gente do futebol sabe quem são o Bosingwa, o Lucho, o Quaresma, o Lisandro, e sabem quem foram o Deco, o Ricardo Carvalho, o Vítor Baía e o calcanhar do Madjer. Mas lamento informar que ninguém sabe quem sejam o Petit, o Di María, o Katsouranis ou o Maxi Pereira.
O que aconteceu ao meu antigo respeito pelo Sport Lisboa e Benfica — e julgo que aconteceu também com todos os outros adeptos portistas e sportinguistas — é que o fui perdendo aos poucos. O Benfica das últimas décadas — o Benfica de Jorge de Brito, Vale e Azevedo, Filipe Vieira, de gente como João Malheiro, José Veiga ou Carolina Salgado — é um Benfica que eu não vejo razões para admirar. Não porque percam, mas porque não sabem perder. São arrogantes por natureza, como se, por determinação divina, tivessem direito a ganhar sempre ou quase sempre; nunca, jamais, reconhecem o mérito de uma vitória alheia; vivem em busca do conflito, da calúnia, da suspeita não provada jogada aos quatro ventos. Gritam pela justiça do Apito Dourado mas foram eles que se aliaram ao major Valentim para controlar a Liga, no seu pior momento, porque, como explicou Vieira, isso era mais importante do que ter bons jogadores ou jogar bem; clamam que são as virgens virtuosas do futebol, mas esquecem-se de coisas como o caso Paulo Madeira, o jogo comprado ao Estoril para o Algarve ou a forma como foram campeões pela última vez, com todos os golos dos últimos jogos a resultarem de penalties ou livres à entrada da área.
Não sei se o Sílvio Cervan conseguirá acreditar na sinceridade do que vou dizer: o que o Benfica mais perdeu nas últimas décadas não foram campeonatos. Foi o respeito dos adversários, uma coisa que levara gerações a construir e que representava um imenso capital de prestígio e grandeza. Hoje, o Benfica é um clube que só os seus estimam. Dir-me-ão que o mesmo sucede com o FC Porto e eu respondo que acho que não é bem assim, mas, mesmo que o seja, ao contrário da história do Benfica, nós nunca gozámos de outro estatuto e estamos bem habituados a viver com isso.
3- No Bessa, o Benfica fez um belo jogo e o suficiente para ganhar folgadamente. Mas teve um grande guarda-redes pela frente, teve falhanços vários e azar muito. Mas também teve sorte, quando Jorge Ribeiro (já anunciado como reforço benfiquista para o ano que vem) não conseguiu acertar um passe lateral fácil para qualquer um de três colegas isolados frente a Quim e cobrou um penalty com a displicência de quem sacode uma mosca. Com toda a falta de sorte que desta vez teve, o Benfica até podia ter acabado a perder o jogo. Já se sabe e foi dito oficialmente, que só não o ganhou por culpa do árbitro. Eu, que sou suspeito, não vi qualquer um dos dois penalties tão reclamados, mas não deixo de sorrir quando vejo Vieira a acusar Lucílio Baptista de «viciar o resultado». É que este é o mesmo Lucílio Baptista a quem todos os portistas desejam ardentemente a reforma, depois de anos a fio a prejudicar sistematicamente o FC Porto, a benefício do Sporting e também do Benfica, que lhe deve uma valiosa colaboração na final da Taça de 2004. Sabendo-se que o homem sempre teve horror ao azul-e-branco e que o FCP, aliás, é parte agora desinteressada da batalha atrás de si, as suspeitas de Vieira, desta vez, só podem apontar para o vizinho do lado — o Sporting, pois claro!
É verdade, porém, que o V. Guimarães, segundo rezam as crónicas, foi beneficiado com a arbitragem em Paços de Ferreira, e que o Sporting, numa altura em que bem oscilava, viu o árbitro anular misteriosamente um golo ao Sp. Braga, em Alvalade. Mas isso ainda me dá mais vontade de sorrir. É que o arbitro — que é testemunha de acusação no Apito Dourado — é nem mais nem menos do que o célebre Bruno Paixão, do inesquecível Campomaiorense-FC Porto, a mais escandalosa arbitragem a que alguma vez assisti, em que até era preciso o Jorge Costa colar-se às costas do Jardel nos cantos para que ele não fosse sistematicamente agarrado nas barbas do árbitro por um rapaz que o Benfica tinha emprestado ao Campomaiorense (e, por acaso, o jogo viria a valer um campeonato perdido pelo FC Porto). Pelo que, se agora o mesmo árbitro — que, aliás, nunca mostrou categoria para a primeira Liga — descobriu em Alvalade uma falta que nem o Além conseguiria descortinar, e se com isso passou a ser suspeito de prejudicar o Benfica ao ponto de Luís Filipe Vieira pedir à PJ que entre em campo, a mim só me dá vontade de sorrir e pensar que belas testemunhas juntou o Ministério Público para o Apito Dourado!
Mas, para a semana, tão certo como dois e dois serem quatro, vai haver um erro de arbitragem a favor do Benfica e o Sporting vai achar-se com razões de queixa do árbitro e invertem-se os papéis: um grita e o outro fica muito bem caladinho. São tão previsíveis os nossos rivais!