segunda-feira, junho 16, 2008

O MELHOR FUTEBOL DA EUROPA (29 ABRIL 2008)

Este FC Porto, de Abril de 2008, joga incomparavelmente melhor do que qualquer uma daquelas quatro equipas das meias-finais da Champions, supostamente as quatro melhores da época no futebol europeu e mundial.

1- Eu avisei aqui, na semana passada: se alguém esperava que o FC Porto fosse facilitar a Guimarães, podia tirar o cavalinho da chuva — aquela equipa e aquele clube são demasiado profissionais e têm demasiado brio para se prestarem a fretes desses. E o sr. Fernando Chalana, que tanto admirei como futebolista, se fez eco dessa insinuação que por aí andou no ar a semana toda, vindo dizer que esperava que houvesse flair play nos restantes jogos que ao Benfica interessavam, podia agora fazer eco das suas próprias palavras e louvar publicamente a atitude do FC Porto em Guimarães, contribuindo decisivamente para a verdade no campeonato que se disputa do 2.º ao 16.º lugar. Só lhe ficava bem, ele que se recusou a reconhecer o mérito do título portista.

Em Guimarães, o FC Porto deu mais uma exemplar lição daquilo que é o futebol que vale a pena ver — «sério», como gosta de dizer Jesualdo Ferreira. Com 0-0 ainda, eu comentei com um camarada portista que comigo via o jogo que, ou o Vitória resolvia correr riscos, atirar-se para cima do FC Porto e estar à altura do seu encontro com a história e com a Champions, ou arriscava-se a sofrer um golo e, a seguir, a ser destroçado. Porque, quando se apanha a ganhar e quando os adversários são obrigados a abrir espaços, o FC Porto transforma-se num perigo público. Mesmo sem Lucho em campo, a velocidade e o aproveitamento de espaços na viragem para o contra-golpe deixam qualquer defesa à beira de um ataque de pânico. Isso, mais uma outra coisa, que, para mim, representa a grande diferença para melhor deste FC Porto em relação ao da época passada: uma condição física notável. Em 2006/07, vimos o FC Porto fazer grandes primeiras partes e rebentar, literalmente, nas segundas partes. E foi assim a época inteira, acabando por ser campeão no limite, desperdiçando aos poucos o folgadíssimo avanço que tinha conquistado em Dezembro. Este ano, tudo mudou nesse aspecto e o primeiro rosto da mudança foi Lucho González, que passou de uma época em que chegou várias vezes a arrastar-se em campo, para outra em que se tornou um jogador luminoso, parecendo fazer tudo sem esforço, como um regente de orquestra dirigindo de cor os seus músicos. Contra o Schalke, jogando mais de uma hora com dez, o FC Porto não deu descanso aos alemães, mais parecia que eram eles que estavam com um a menos; contra o Benfica, a ganhar por 1-0 ao intervalo e a jogar apenas pelo prestígio, encostou-o atrás toda a segunda parte, como se fosse o Benfica que não tinha nada a ganhar com o jogo; contra o Vitória, manteve-se a primeira parte a ver em que paravam as modas e, após o intervalo, como viu que os de Guimarães não se afoitavam, acabou por soltar os dragões e foi o que se viu. Pena que não haja mais nada para ganhar senão a final da Taça! Pena que a época esteja prestes a chegar ao fim com um futebol destes tão fresco ainda na retina!

Esta semana vi três jogos anunciados como do mais alto nível europeu. Vi as meias-finais da Champions entre o Liverpool e o Chelsea e o Barcelona-Manchester United e, no fim-de-semana, o jogo do título em Inglaterra, entre Chelsea e Manchester United. Concedo: são equipes saturadas já de jogos, desgastadas da constante pressão de dois campeonatos justamente tidos como os mais competitivos do planeta. Mas também são quatro equipas carregadas de vedetas, capazes de deixar no banco jogadores como Shevchenko, Thierry Henry, Ronaldinho, Kuyt, Joe Cole e até Cristiano Ronaldo. Quatro equipas do tipo daquelas que ganham porque são melhores ou ganham porque os adversários só de olhar para eles se borram de medo. E o que vi?

Vi três jogos chatérrimos (em especial, o intragável Barcelona- Manchester), com treinadores sempre à defesa, a jogar para o 0-0 ou para o 1-0, uma equipa carregada de foras-de-série, como o Barcelona, incapaz de congeminar uma simples jogada de ruptura no ataque, um futebol inglês dos velhos e patéticos tempos com a bola batida do guarda-redes directamente para o desamparado ponta-de-lança, jogadores de categoria mundial sem capacidade de passe e até parecendo tecnicamente incipientes (ó Deco, por onde andas tu?), enfim, um futebol lento, sem risco, sem alma, chato até ao bocejo. Este FC Porto, de Abril de 2008, joga incomparavelmente melhor do que qualquer uma daquelas quatro equipas das meias-finais da Champions, supostamente as quatro melhores da época no futebol europeu e mundial.

Que pena que aquele rapaz Neuer — que, no Arena e no Dragão, defendeu a baliza do Schalke como nunca antes fizera, nunca voltou a fazer e jamais voltará — tenha impedido esta grande equipa do FC Porto de seguir em frente, até ao lugar que merecia na Europa. Porque, não tenho uma dúvida de que, em condições normais, teria tombado a seguir o Barcelona (além do mais, então desfalcado de Henry, Deco e Messi), e hoje estaríamos a medir forças com o arrogante sir Alex Ferguson, e não sei, não sei…

2- O fair play que Chalana reclamou para a parte final do campeonato não passa só por esperar seriedade competitiva de terceiros cujos jogos possam influir em disputas alheias ou exigir arbitragens isentas de erros voluntários (porque, involuntários haverá sempre, enquanto o olho humano não for uma máquina infalível). Passa também, por exemplo e por razões óbvias, por não aliciar ou contratar jogadores na véspera de jogarem contra nós. Aliás, suponho que existirão regulamentos que expressamente o proíbem e, se não existem, deviam existir. Acham natural que, na semana em que vai defrontar o Boavista, se fique a saber que o Benfica — que passa a santa vida a dizer que conduz uma cruzada pela virtude desportiva — vai contratar o Jorge Ribeiro? E que, na semana em que vai defrontar o Belenenses, se fique a saber que contratou o Ruben Amorim? E que se fique a saber que, no auge da luta com o Guimarães por um lugar na Champions, está interessado em contratar o Geromel? Disseram fair quê?

3- Analisando a arbitragem de Lucílio Baptista em Alvalade, o anedótico penalty que deu o empate ao Sporting e a leitura da imprensa, também não se pode achar natural que a CA nomeie Lucílio Baptista para um jogo do Sporting nesta fase aguda (e, já agora, também para a final da Taça, como imagino que se esteja a congeminar). Ou que nomeie Bruno Paixão para o FC Porto-Benfica. Ou Lucílio para o Boavista-Benfica. São coincidências a mais ou uma falta de cuidado absoluta. E agora, que o suspeito habitual está longe, longíssimo (a 23 pontos…) destas guerras subterrâneas, teria graça desenterrar um «apito prateado» para entender o que se passa. Vítor Pereira deve uma explicação.

4- Continuando no domínio das coisas que não são naturais: perguntava-me há dias um amigo benfiquista se eu achava natural que Pinto da Costa fosse sócio numa imobiliária de Jorge Mendes — o agente que coloca quase todos os jogadores no FC Porto e que vende depois os melhores. Não, não acho natural. E, menos ainda, numa imobiliária.

quinta-feira, maio 01, 2008

NÃO HÁ MILAGRES (22 ABRIL 2008)

Eu, se mandasse ali, mandava-os calar a todos e só o Rui Costa é que falava em nome do Benfica. Podem crer que muito do respeito e crédito perdido começava logo a ser recuperado.

«É possível enganar muitos durante algum tempo; é possível enganar alguns durante muito tempo; mas não é possível enganar todos durante todo o tempo»
John F. Kennedy

1- Se ontem à tarde (quando escrevi este texto) ainda era presidente do Benfica, e se o sentido do rídiculo não o levou a rever a agenda marcada, Luis Filipe Vieira terá estado na sede da Liga de Clubes a apresentar «provas» dos resultados «viciados» que, em sua opinião, são a única coisa que impede o Benfica de estar agora no segundo lugar ou mesmo no primeiro, de estar na final da Taça, de ser campeão europeu ou de escalar o Evereste a pé coxinho. Porque a equipa é «a melhor da década», ele é um gestor de primeira água, o clube é o «maior do mundo», atestado pelo Guiness, a «Instituição» é um modelo de excelência e de virtudes. A concorrência é que é feia e batoteira e disfarça a sua incompetência com «resultados viciados» — conforme a Dr.ª Maria José Morgado se encarregará de provar a seu tempo.

Vieira tem azar: de cada vez que solta a sua ladaínha em defesa da «verdade no futebol», a equipa do clube encarrega-se de espelhar a verdade em campo. Em dez dias, foi a derrota caseira com a Académica por números escandalosos, os cinco golos sofridos do Sporting em vinte minutos e uma banalíssima derrota no Dragão, que só não se transformou em humilhação porque os jogadores do FC Porto tiveram uma atitude generosa de piedade para com os colegas de ofício.

Há duas semanas atrás, inchado da quase única boa exibição do Benfica em toda a época, no Bessa, mas incapaz de perceber que a sorte e o azar também fazem parte do futebol, Viera gritou «chamem a polícia!» — para investigar dois pretensos «penalties» que só os benfiquistas estão certos de terem visto e o árbitro não. E, mais uma vez, os acontecimentos deram-lhe razão, mas sob a forma de tragicomédia: a polícia foi chamada ao Estádio da Luz para investigar o arrombamento e saque das instalações de uma das claques benfiquistas, levada a cabo… por outra claque benfiquista; foi chamada ao centro de treinos do Seixal para pôr termo ao apedrejamento do autocarro do clube, com a equipa lá dentro, levada a cabo…por adeptos do Benfica; e foi chamada a guardar o «vermelhão» nas suas instalações de Gaia para que os adeptos do Benfica no Porto (como se sabe, os mais numerosos da cidade…) não tivessem a ideia de completar a obra dos seus congéneres de Lisboa. No meio disso, o próprio presidente do clube é alvo de sondagens televisivas a mandá-lo para casa e tem que se esconder dos adeptos para apanhar o «vermelhão» a meio do percurso.

«Os adeptos são ingratos», pensará Luis Filipe Vieira a esta hora. Talvez, mas também é verdade que Deus não dorme: de cada vez que um presidente do Benfica faz ponto central da sua gestão o incitamento ao ódio anti-Porto e se desculpa dos maus resultados desportivos com as maquinações ocultas, o FC Porto avança mais ainda e o Benfica recua. Os benfiquistas poderiam já ter aprendido a dolorosa lição com Vale e Azevedo, mas, pelos vistos, não. Custa-lhes a acreditar que o sucesso exija esforço, trabalho, humildade, planeamento e tempo.

Tomem o exemplo do Chalana. Salvo erro, pegou na equipa há oito jogos e ganhou um. Começou por perder a UEFA com um jogo miserável em Getafe, que ele considerou excelente; perdeu a Taça, cilindrado pelo Sporting, na única vez em que o Benfica teve de sair da Luz para disputar uma eliminatória; foi o desastre que foi com a Académica e a tristeza pungente com o FC Porto (em todo o jogo, teve uma única ocasião de golo, graças à anatomia do Luisão, cujo 1,98 metros lhe permitiu naturalmente chegar mais alto a um canto do Rui Costa do que toda a defesa do FC Porto). Mas, enfim, compreende-se que não houvesse mais ninguém para pegar na equipa neste penoso final de época. O que já não se compreende é que deixem o Chalana falar depois dos jogos e afirmar coisas tão patéticas como «não ganhámos no Bessa por outras razões e tem sido assim todo o campeonato» ou «o Benfica entrou atrevido no Dragão, jogámos para ganhar e podíamos ter empatado, mas não tivémos sorte». Fernando Chalana representa bem o «espírito Vieira», das «razões ocultas» e das eternas desculpas de mau pagador. Já ninguém lhes dá crédito, nem sequer os adeptos. Só eles é que não perceberam ou fingem não perceber.

Nesta vertiginosa descida do Benfica aos infernos, há alguém de quem tenho pena e que acho que o não merece de forma alguma: Rui Costa. Não apenas porque é o melhor jogador da equipa, um dos melhores em acção neste campeonato, o melhor dos benfiquistas dentro e fora de campo, mas também porque não paga tributo à estupidez, à cegueira ou à hipocrisia. Eu sei que isto, dito por um portista, até pode pôr os mais fanáticos benfiquistas a desconfiar do Rui Costa. Mas eu, se mandasse ali, mandava-os calar a todos e só o Rui Costa é que falava em nome do Benfica. Podem crer que muito do respeito e crédito perdido começava logo a ser recuperado.

2- Entretanto, o mundo pula e avança. Ou melhor, o FC Porto pula e o Vitória de Guimarães avança. O Vitória avança, com passos medidos e cautelosos, em direcção a um inimaginável segundo lugar e presença na Champions — enquanto o seu voleibol conquistou para o clube o primeiro título de campeão nacional absoluto da sua história, e o andebol conquistou a Taça de Portugal. Mas desiludam-se: o FC Porto não vai facilitar em Guimarães. Se não ganhar, terá sido por mérito do Vitória.

Porque este FC Porto está insaciável. Quer curar, e à custa de vitórias, a ferida ainda aberta da injustíssima eliminação contra o Schalke, nos oitavos-de-final da Champions. Com uma perna às costas, ganhou o seu lugar no Jamor, dia 18 de Maio, e, com a frieza e eficácia de um «serial killer», prossegue no campeonato pulverizando todas as marcas e recordes, seus e alheios. E, para os detractores que diziam que os portistas ganhavam sem jogar bem, vale a pena pensar quem mais, em Portugal, consegue jogar àquele ritmo, com aquela fantástica geometria em movimento que destroça e paralisa de terror os adversários. Se aquilo não é jogar bem, ah, mostrem-me o vosso caixote do lixo! E expliquem- -me porque andam já tantos jornalistas tão agitados a tentarem livrar-nos do Bosingwa, do Bruno Alves, do Quaresma, do Lucho e do Lisandro para a próxima época!

3- O episódio da passagem do cometa Silva pelo Bessa mostra a que ponto o Boavista bateu no fundo. Bastava olhar para senhor! Mas o desespero já é tanto que se acredita que um clube sem público e sem horizontes pode sobreviver com «investidores» da banha-da-cobra em busca de cinco minutos de telejornal. O tema merece uma reflexão muito séria, para outras núpcias.

FORA DE ESTRADA, DE CABEÇA LIMPA (15 ABRIL 2008)

Tal como a caça, as touradas ou a matança do porco, também o TT está hoje debaixo de fogo dos urbanos-depressivos bem- pensantes. É gente que acha que a natureza é o Oceanário da Parque-Expo, a Quinta Pedagógica da CML ou os aldeamentos turísticos «amigos do ambiente»

Campeonato já metido ao bolso, este fim-de-semana pude gozar por completo um dos meus prazeres ou vícios favoritos: o todo-o-terreno. Sexta, sábado e domingo, entre a lama e o pó, o frio, alguma chuva e horas de sol pelo meio, pelas Serras da Gardunha e da Estrela e ao longo do Tejo, do Zêzere e seus afluentes, corpo, cabeça e alma estiveram quase que por inteiro concentrados apenas em gozar ao máximo o 25º Raid Transportugal Accenture/Oracle. Vinte e cinco edições, das quais, se a memória me não falha, eu já fiz vinte, com esta. Em 1987, acompanhei o Clube Aventura numa Expedição Transariana — cinco semanas inesquecíveis no hoje interdito deserto argelino do Sahara, o deserto dos desertos, e então sem telemóvel, nem GPS nem rádios transmissores: bússola, cartas militares dos tempos coloniais franceses e muita fé e capacidade de resistência. Nunca antes eu tinha feito um metro que fosse fora de alcatrão. Não fazia ideia o que era guiar um monstrozinho de duas toneladas, não sabia para que servia a tracção às quatro rodas e ignorava por completo o que fossem redutoras. Mas confiaram-me um UMM, com a responsabilidade de ir até lá e trazê-lo de volta para Lisboa, e, embora o que eu tenha trazido de volta tenha sido apenas a recordação do brioso, feio e fidelíssimo carro que recebera mais de um mês antes, a verdade é que o trouxe de volta e, juntamente com ele, a paixão, jamais curada, do todo-o-terreno. E, logo nesse ano, com outro UMM emprestado, inscrevi-me no Transportugal — na época gloriosa em que a prova durava nove dias, atravessava Portugal inteiro fora de estrada, tinha ainda uma grande componente desportiva (infelizmente perdida por causa das burocracias) e nos obrigava, no final de cada dia e depois de umas dez horas ao volante, a fazer ainda de mecânicos pela noite fora. Luxos de juventude…

Eu e muitos outros — todos aqueles que acreditamos que um jeep não serve para ser exibido na cidade e estacionado ao fim-de-semana nos centros comerciais para ir às compras — devemos assim ao Cube Aventura e aos seus fundadores, José Megre e Pedro Vilas Boas, o supremo privilégio de termos podido sair fora dos caminhos batidos e descobrir um outro país deslumbrante, que é este pequeno Portugal. Não sei quantos haverá que tenham feito vinte edições do Transportugal, incluindo três das antigas, de nove dias. Talvez sejamos uns cem, talvez menos, mas o que sei é que nos podemos gabar de conhecer Portugal de lés-a-lés como ninguém mais: cruzámos todos os montes e serras, atravessámos todas as aldeias esquecidas no fim do tempo, acelerámos em todos os planaltos e planícies do sul, passámos a vau todos os rios, ribeiras e riachos do mapa, redescobrimos caminhos perdidos desde os romanos e chegámos aos cumes mais altos, de meter medo, e a paisagens e pistas de que nenhum livro fala. E tudo isso, aos saltos e solavancos, num desconforto e cansaço por vezes injustificável, mas de que retiramos sempre um prazer de crianças deslumbradas. E mais: tudo isso fez de nós condutores exímios, habituados a guiar metro a metro, a esperar sempre um buraco à saída de uma curva fechada, uma pedra escondida na trajectória do carro e de que é preciso desviar-se numa fracção de segundo, um lamaçal onde o carro não pode ficar preso, um corta-fogo a subir a pique vendo apenas o céu no horizonte, um rio a atravessar com água por cima do capot e uma correnteza que nos vai arrastar, se escolhermos mal o ponto de travessia ou se deixarmos o motor ir abaixo no meio do aperto. São doses industriais de adrenalina, de medo, muitas vezes (como no ponto mais alto da Gardunha, no meio do espectáculo surreal dos moinhos de energia eólica, com mil metros de abismo de cada lado da pista e um nevoeiro de catástrofe envolvendo tudo), mas também, e como suprema recompensa, paisagens de uma beleza de cortar a respiração, lugares inimagináveis onde o mundo parece ter começado a ser criado e reina uma harmonia absolutamente perfeita.

Obviamente, o Transportugal deve muito, muitíssimo, a quem faz o reconhecimento dos trajectos a percorrer — e hoje isso é obra de uma pequena equipa comandada pelo Orlando Romana, um alentejano tranquilo e discreto, que soube fazer de uma paixão a sua profissão. E, claro, desse «gentlemen traveller» que é o José Megre — o pioneiro da participação portuguesa no Paris-Dakar e seguramente o maior viajante de Portugal inteiro (o mundo tem 194 países registados e José Megre tem o carimbo de 192 deles. Gasta todos os dias de férias do ano a viajar sozinho, na insane tarefa de conhecer todos os países do mundo: faltam-lhe o Haiti e o Iraque, e eu troco mais uma viagem minha a Veneza ou a Marraquexe por uma viagem do Megre aos dois países que lhe faltam, porque ele bem o merece).

Tal como a caça, as touradas ou a matança do porco, também o TT está hoje debaixo de fogo dos urbanos-depressivos bem-pensantes. É gente que acha que a natureza é o Oceanário da Parque-Expo, a Quinta Pedagógica da CML ou os aldeamentos turísticos «amigos do ambiente». Acham que os jeeps destroem as plantas e os caçadores dizimam os animaizinhos. É inútil tentar explicar-lhes que, tanto o TT como a caça organizada, mantêm o equilíbrio da natureza, ensinam as pessoas a respeitá-la para poder desfrutá-la e mantêm viva a ligação do homem com o campo e o mato, sem a qual tudo se descontrolaria. Enfim, eu que já não alimento grandes esperanças na capacidade regenerativa da inteligência do ser humano, vou desfrutando enquanto posso. Talvez tenha a sorte de morrer a atravessar de jeep a ribeira de Odeleite ou a caçar uma perdiz brava na serra de Mértola, de acordo com a única religião em que acredito e que é a da natureza.

De há uns anos para cá tenho tido também a sorte de partilhar o Transportugal com um parceiro à medida do espírito da coisa. O Pedro P. é, curiosamente, um benfiquista, mas de uma espécie rara, nos tempos que correm: acima de tudo, ele gosta, e joga, futebol. Não vai, pois, em cantigas de embalar ou de enganar: olha o que vê e muitas vezes deixa deserto o seu lugar cativo no Estádio da Luz. Sexta à noite, quando estávamos a jantar em Tomar, foi ele que me comunicou que o Benfica acabara de ser humilhado pela Académica, em pleno Estádio da Luz. Disse-o com um ar tão conformado e natural, que eu nem tive coragem para comentar «deve ter sido mais um resultado viciado, como diz o brilhante gestor das frustrações benfiquistas». Até isso eu devo ao TT: a capacidade de retirar importância às pequenas misérias da vida, de, durante três dias, ser capaz de nos ajudar a pôr as coisas em perspectiva, esquecer rivalidades idiotas e querelas inúteis e devolver-nos ao essencial da vida. Dois amigos, esquecidos do mundo e partilhando um jeep, um ao volante, outro na navegação, engolindo os quilómetros de terra e a paisagem como se engole a vida — quando a vida é só deslumbramento e alegria.

segunda-feira, abril 14, 2008

DIGA 23 ( 08 ABRIL 2008)

1- E aí vão vinte e três campeonatos! Já só estamos a oito do Benfica e com cinco de avanço sobre o Sporting: para perceber o impensável que isto era no passado, é preciso ter vivido a infância de portista em Lisboa que eu vivi, sistematicamente a ver o FC Porto ser sovado em Alvalade ou na Luz (e, quando não era, quando aos 20 minutos ainda não estávamos a perder, lá aparecia o inevitável penalty para restabelecer a ordem natural das coisas…). Mas não hei-de morrer sem ver o FC Porto ultrapassar o Benfica em número de campeonatos nacionais — porque, no que respeita a títulos internacionais, há muito que os ultrapassámos, com seis contra dois.

Sábado à noite, no Dragão, viveu-se um daqueles momentos em que vale a pena ser portista, arrostar com a inveja dos medíocres, com a maledicência dos impotentes, com as calúnias dos incapazes. Estádio cheio, o mais bonito estádio do mundo, o equipamento mais bonito de todos, a alegria de um público habituado a reagir como uma grande família quando está debaixo de fogo, futebol, golos e espectáculo como só nós e, no fim, contra as contas dos pífios apitos dos invejosos, a festa, a nossa festa — digna, bonita, sentida como nenhuma outra.

Querem-nos tirar seis pontos? Tomem lá seis — seis golos — tomem lá a resposta, em campo, no terreno de todas as verdades. Não chega, querem mais? Venham mais — temos dezoito de avanço! Dezoito, ó tristes gentes que nem perder sabem e cujo treinador até assim se recusa a reconhecer o mérito dos vencedores!

Foi festejar até fartar e depois um jantar especial: vieiras recheadas com arroz Carolino de pinhões e morgados do Algarve à sobremesa. Repeti seis vezes!

2- Deixem-me falar do Benfica. Como, julgo, a grande maioria dos portistas da minha geração, eu cresci a temer e respeitar o Benfica. Temer, porque eles eram tremendamente melhores que nós e, apesar dos Porfírios Alves e Carlos Valentes (o Calabote já não é do meu tempo), eles ganhavam-nos quase sempre porque eram melhores. Respeito, porque o Benfica das décadas 60 e 70 era a casa do Eusébio e o orgulho dos portugueses. O meu pai, que era sportinguista, levou-me duas vezes à Luz, naquelas longínquas «noites europeias do inferno da Luz», e ambos torcemos e gritámos pelo Benfica. É verdade, e até levava o meu cachecol do FC Porto!

Agora, quando oiço Sílvio Cervan dizer que o Benfica é o maior clube do Porto e a maior referência internacional do nosso futebol, sinto um misto de pena deles e, simultaneamente, um reconforto: enquanto os adversários continuarem a guiar-se por ilusões ou propaganda para papalvos, nós continuaremos seguramente a ganhar. Há muitos locais do Porto onde eu encontro facilmente bandeiras do FC Porto penduradas nas janelas ou nas portadas das casas. Mas não me lembro de ver alguma do Benfica e, por favor, não me venham com a necessidade da clandestinidade: se são o maior clube, porque temeriam mostrá-lo? Também ando por aí no mundo e sou capaz de informar o Sílvio Cervan que, da Turquia a Angola e todos os Palop's, e do Brasil à Tailândia, o que vejo são camisolas do FC Porto e o que oiço falar, quando se fala do futebol português e o interlocutor não tem mais de 50 anos, é do FC Porto e não do Benfica.

De um lado ao outro do mundo, a gente do futebol sabe quem são o Bosingwa, o Lucho, o Quaresma, o Lisandro, e sabem quem foram o Deco, o Ricardo Carvalho, o Vítor Baía e o calcanhar do Madjer. Mas lamento informar que ninguém sabe quem sejam o Petit, o Di María, o Katsouranis ou o Maxi Pereira.

O que aconteceu ao meu antigo respeito pelo Sport Lisboa e Benfica — e julgo que aconteceu também com todos os outros adeptos portistas e sportinguistas — é que o fui perdendo aos poucos. O Benfica das últimas décadas — o Benfica de Jorge de Brito, Vale e Azevedo, Filipe Vieira, de gente como João Malheiro, José Veiga ou Carolina Salgado — é um Benfica que eu não vejo razões para admirar. Não porque percam, mas porque não sabem perder. São arrogantes por natureza, como se, por determinação divina, tivessem direito a ganhar sempre ou quase sempre; nunca, jamais, reconhecem o mérito de uma vitória alheia; vivem em busca do conflito, da calúnia, da suspeita não provada jogada aos quatro ventos. Gritam pela justiça do Apito Dourado mas foram eles que se aliaram ao major Valentim para controlar a Liga, no seu pior momento, porque, como explicou Vieira, isso era mais importante do que ter bons jogadores ou jogar bem; clamam que são as virgens virtuosas do futebol, mas esquecem-se de coisas como o caso Paulo Madeira, o jogo comprado ao Estoril para o Algarve ou a forma como foram campeões pela última vez, com todos os golos dos últimos jogos a resultarem de penalties ou livres à entrada da área.

Não sei se o Sílvio Cervan conseguirá acreditar na sinceridade do que vou dizer: o que o Benfica mais perdeu nas últimas décadas não foram campeonatos. Foi o respeito dos adversários, uma coisa que levara gerações a construir e que representava um imenso capital de prestígio e grandeza. Hoje, o Benfica é um clube que só os seus estimam. Dir-me-ão que o mesmo sucede com o FC Porto e eu respondo que acho que não é bem assim, mas, mesmo que o seja, ao contrário da história do Benfica, nós nunca gozámos de outro estatuto e estamos bem habituados a viver com isso.

3- No Bessa, o Benfica fez um belo jogo e o suficiente para ganhar folgadamente. Mas teve um grande guarda-redes pela frente, teve falhanços vários e azar muito. Mas também teve sorte, quando Jorge Ribeiro (já anunciado como reforço benfiquista para o ano que vem) não conseguiu acertar um passe lateral fácil para qualquer um de três colegas isolados frente a Quim e cobrou um penalty com a displicência de quem sacode uma mosca. Com toda a falta de sorte que desta vez teve, o Benfica até podia ter acabado a perder o jogo. Já se sabe e foi dito oficialmente, que só não o ganhou por culpa do árbitro. Eu, que sou suspeito, não vi qualquer um dos dois penalties tão reclamados, mas não deixo de sorrir quando vejo Vieira a acusar Lucílio Baptista de «viciar o resultado». É que este é o mesmo Lucílio Baptista a quem todos os portistas desejam ardentemente a reforma, depois de anos a fio a prejudicar sistematicamente o FC Porto, a benefício do Sporting e também do Benfica, que lhe deve uma valiosa colaboração na final da Taça de 2004. Sabendo-se que o homem sempre teve horror ao azul-e-branco e que o FCP, aliás, é parte agora desinteressada da batalha atrás de si, as suspeitas de Vieira, desta vez, só podem apontar para o vizinho do lado — o Sporting, pois claro!

É verdade, porém, que o V. Guimarães, segundo rezam as crónicas, foi beneficiado com a arbitragem em Paços de Ferreira, e que o Sporting, numa altura em que bem oscilava, viu o árbitro anular misteriosamente um golo ao Sp. Braga, em Alvalade. Mas isso ainda me dá mais vontade de sorrir. É que o arbitro — que é testemunha de acusação no Apito Dourado — é nem mais nem menos do que o célebre Bruno Paixão, do inesquecível Campomaiorense-FC Porto, a mais escandalosa arbitragem a que alguma vez assisti, em que até era preciso o Jorge Costa colar-se às costas do Jardel nos cantos para que ele não fosse sistematicamente agarrado nas barbas do árbitro por um rapaz que o Benfica tinha emprestado ao Campomaiorense (e, por acaso, o jogo viria a valer um campeonato perdido pelo FC Porto). Pelo que, se agora o mesmo árbitro — que, aliás, nunca mostrou categoria para a primeira Liga — descobriu em Alvalade uma falta que nem o Além conseguiria descortinar, e se com isso passou a ser suspeito de prejudicar o Benfica ao ponto de Luís Filipe Vieira pedir à PJ que entre em campo, a mim só me dá vontade de sorrir e pensar que belas testemunhas juntou o Ministério Público para o Apito Dourado!

Mas, para a semana, tão certo como dois e dois serem quatro, vai haver um erro de arbitragem a favor do Benfica e o Sporting vai achar-se com razões de queixa do árbitro e invertem-se os papéis: um grita e o outro fica muito bem caladinho. São tão previsíveis os nossos rivais!

FUTEBOL NO TRIBUNAL ( 01 ABRIL 2008)

Este campeonato já está decidido e é do FC Porto, como sempre foi fácil de prever. O próximo, ou o de 2009/10, começa a jogar-se brevemente no Tribunal de Aveiro — onde o presidente do FC Porto vai ser julgado por crime de corrupção activa e o árbitro Augusto Duarte por crime de corrupção passiva. A este campeonato não há Apito Dourado que lhe possa valer: se alguém se atrevesse sequer a insinuar que os 16 pontos de avanço do FC Porto se devem a favores de arbitragem ou outras manobras de bastidores, morria instantaneamente de rídiculo na praça pública. Mas para o próximo, as almas pequeninas estão esperançadas em que o tribunal consiga dar como provado o crime de corrupção, o que logo habilitará a Liga de Clubes a decidir em cascata:

— a irradiação de Pinto da Costa e de Augusto Duarte;

— a descida compulsiva do FC Porto à Liga Vitalis;

— a retirada retroactiva do título de 2003/2004 ao FC Forto e sua atribuição ao Benfica (que, se a memória me não falha, ficou para aí a uns 11 pontos de atraso).Daqui, por sua vez, retirar-se-ão outros corolários de «moral» e «verdade desportiva», a saber:

— que, se o árbitro do Beira-Mar-FC Porto de 2003/2004 — um jogo que já nada interessava a qualquer dos contendores — foi comprado, é de presumir, por maioria de razão, que foram comprados ou abordados em vão todos os outros árbitros dos jogos do FC Porto que, esses sim, contaram para o título dos portistas;

— que, se isto foi assim nessa época e por iniciativa de Pinto da Costa, é de presumir que assim tenha sido ao longo dos 25 anos que ele leva de presidência. Fica assim esclarecida a razão para os êxitos recorrentes do FC Porto, nas últimas duas décadas;

— o Tribunal de Aveiro e a Liga irão certamente notificar a UEFA e a FIFA para que elas investiguem as condições, a partir de agora suspeitas, em que o FC Porto conseguiu ser duas vezes campeão da Europa e do mundo, sob a presidência de Pinto da Costa;

- de caminho, cai por terra um outro mito, o da excelência de José Mourinho. Se se conseguir provar que Pinto da Costa pagou 2.500 euros ao árbitro de um jogo que já não contava para nada, como jura Carolina Salgado, quem pode atribuir a José Mourinho, aos jogadores ou à equipa qualquer espécie de mérito em terem conquistado nesse ano Portugal e a Europa? Afinal, era o presidente quem tratava de resolver a coisa, antes de o desfecho se decidir no relvado…

Aqui há umas semanas, na festa do Benfica, no Casino Estoril, Luís Filipe Vieira indignou-se porque ainda «não tinha acontecido nada» no processo Apito Dourado. Por acaso, já tinha, mas não o que ele queria: Valentim Loureiro, Pinto de Sousa e o presidente do Gondomar já tinham começado a ser julgados no Tribunal de Gondomar. Mas o que interessava a Vieira que o seu ex-sócio na direcção da Liga, o presidente dos árbitros por ele votado e o Gondomar FC estivessem a ser julgados? Vieira, como três quartos do país dito desportivo, entendia e entende que só se fará justiça se Pinto da Costa for condenado e irradiado e o FC Porto afastado por uns tempos da concorrência.

Pois, aí tem a vontade satisfeita. Enfim, um primeiro desejo. Um ano de esforços, de investigações, de muito dinheiro gasto aos contribuintes, permitiu a Maria José Morgado e à sua equipa convencer uma juíza a desarquivar um processo arquivado por uma outra colega e levar a julgamento quem se pretendia. Para tal, contaram apenas com um único facto novo: a radiosa testemunha Carolina Salgado, essa Joana d'Arc do futebol português, como lhe passaram a chamar os benfiquistas, depois de no passado lhe terem chamado coisas mais alternativas e menos grandiosas. A juíza aceitou a acusação, mas agora o Ministério Público não vai ter tarefa fácil em tribunal. Como coisas menores, vai ter de provar, por exemplo, que Pinto da Costa mente quando diz que não esperava e ficou incomodado com a visita a sua casa de Augusto Duarte. Mas isso é o menos. O essencial vai ser conseguir fazer prova:

— de que o FC Porto tinha um interesse justificado no resultado daquele jogo, ao ponto de subornar o árbitro;

— de que, de facto, o suborno aconteceu e o árbitro o aceitou;

— de que, tendo o corruptor pago para obter um resultado, o corruptor fez também a sua parte.

Ou seja, em tribunal, o Ministério Público vai ter de fazer prova de factos que integrem os três elementos essenciais do crime de corrupção: o móbil, a consumação e o nexo de causalidade (por favor, não confundir com casualidade).

O segundo elemento, a consumação do crime, assenta exclusivamente no testemunho de Carolina Salgado, o que faz antever grossas dificuldades e desilusões para o Ministério Público. Primeiro que tudo, porque, e se a defesa de Pinto da Costa fizer o que se espera, o mais provável é que a testemunha seja contraditada antes mesmo de depor e que a contradita seja aceite: entra pelos olhos adentro de qualquer pessoa de boa-fé que a testemunha se move por vingança pessoal e que a sua credibilidade merece zero de tolerância (não se trata aqui de um filme, feito por benfiquistas e em que se produz acusação e sentença, com base apenas no testemunho da senhora e sem lugar à defesa).

Em segundo lugar, a senhora Carolina Salgado é talvez adequada para impressionar fotógrafos de revista do jet-seis, mas, como já se viu com a sua prestação no Tribunal de Gondomar, é propensa a atrapalhar-se fora de cenas pré-montadas e a cair em contradições, esquecimentos e declarações inverosímeis. Pior ainda vai ser fazer prova do móbil do crime: com o campeonato resolvido e todas as atenções na final da Liga dos Campeões, que interessava ao FC Porto gastar 2.5000 euros a subornar o árbitro do jogo com o Beira-Mar?

E, quanto ao tal nexo de causalidade, que tanto parece aborrecer alguns «facilitistas», como provar que a corrupção se consumou se não houve afinal casos de arbitragem, conforme unanimemente reconhecido pela crítica da época, e se, no final, o FC Porto nem sequer ganhou o jogo?

Ou será que o digníssimo representante do Ministério Público vai sustentar em tribunal que o FC Porto pagou 2.500 euros para garantir um empate com o Beira-Mar, num jogo a feijões?

Ou vai sustentar a tese peregrina, inventada em estado de necessidade e que para aí circula, de que o FC Porto tinha o hábito de manter cautelarmente os árbitros comprados em todos os jogos, com base no princípio «se hoje não interessa, amanhã pode interessar»?

A coisa promete. É verdade que o estádio de Aveiro é mais um elefante branco construído para o Euro-2004 em que já nem o relvado se aproveita. Mas, se o estádio não tem préstimo, o tribunal pode ter. E Aveiro volta assim ao mapa futebolístico português.

EM TEMPO: Já depois de escrito este texto, fui surpreendido com a notícia de que a Liga de Clubes, com base nos mesmos factos e na decisão instrutória do Tribunal de Gondomar, decidiu instaurar um processo disciplinar ao FC Porto e ao seu presidente, com fundamento em corrupção desportiva. E digo surpreendido, porque não vejo com que meios investigatórios é que a Liga vai conseguir fazer prova daquilo que o M.º Público não conseguiu e que só o tribunal poderá apurar. Imagine-se que a Liga, tão espicaçada pelo Benfica, condena o FC Porto a descer de divisão e depois o tribunal o absolve: como é, pedem desculpas retroactivas e pagam os milhões de contos de prejuízos causados?

Não seria mais curial, por exemplo, investigar para já o caso (arquivado pelo Ministério Público) da escuta telefónica em que Valentim Loureiro e Luís Filipe Vieira combinam o árbitro que o Benfica queria para um jogo da meia-final da Taça de Portugal, contra o Belenenses?

O «Senador» benfiquista Silvio Cervan, cujas crónicas não serão propriamente um modelo de isenção clubística (como pode, aliás, um dirigente de clube ser isento?), afirmou aqui, no sábado, que é injusto atribuir apenas a favores de arbitragem o segundo lugar ocupado pelo Vitória de Guimarães, e que tanto preocupa e humilha o S. L. Benfica. De facto, é injusto. Mas quem, senão ele é que se lembrou de afirmar tal coisa? Estaria a falar com a própria consciência?

FICA, QUARESMA! ( 25 MARÇO 2008)

Como era de esperar, a imprensa lisboeta já se atirou às canelas e ao destino do Ricardo Quaresma, como pittbull à garganta de uma criança. Querem por força que ele se vá embora esta época. Querem, acima de tudo, vê-lo longe do FC Porto. Eu compreendo-os: é o sonho de qualquer benfiquista ou sportinguista, jornalista ou não. É assim ciclicamente com todos os grandes jogadores do FC Porto, os que desequilibram campeonatos a favor do norte: Anderson, Pepe, Deco, McCarthy, Ricardo Carvalho, etc, etc. Em Novembro e por esta altura do ano, é fatal que se relance uma campanha muito pouco subtil, cujo mote é sempre o mesmo: «O FC Porto não vai poder segurar o jogador». Se o jogador em causa não sai no «mercado de Inverno», como eles tanto desejavam, tratam logo de reforçar a campanha para se certificarem de que sai no Verão. A insistência no mote da campanha leva as três partes envolvidas — jogador, direcção do clube (leia-se Pinto da Costa) e sócios — a tomarem como inevitável a saída. E, quando o inevitável se transforma, enfim, em certeza, os instigadores suspiram de alívio. Esta é a primeira coisa que eu queria dizer agora ao Quaresma: a sua saída «inevitável», já, já, no próximo Verão, faz parte de uma campanha montada pelos adversários do FC Porto. Isso, por si só, não pode determinar a sua decisão — que será sempre legítima — mas é bom que tenha consciência disso.

Conheci o Ricardo Quaresma há cerca de três anos, no Porto. Eu estava a cear com o meu grupo de «amigos das scooters», depois de regressarmos de um jogo no Estádio do Dragão, onde, mais uma vez, o Co Adriaanse tinha deixado o Quaresma no «banco», com o aplauso de grande parte da crítica — a mesma que agora só quer é vê-lo pelas costas. Ao contrário, eu já tinha escrito aqui algumas vezes que entendia que deixar um génio como ele no «banco» era uma decisão prepotente e idiota. Sempre me afligiram os treinadores que têm medo dos jogadores talentosos e lhes preferem os tacticamente disciplinados. Por coincidência, a discussão na mesa, entre uma dúzia de portistas ali reunidos, era exactamente acerca disso e eu estava em minoria: a maioria concordava com Adriaanse — que o Quaresma não defendia, que era vaidoso, indisciplinado, individualista, sem sentido de jogo colectivo e por aí fora. E eu, que sempre insisti em ter uma noção talvez demasiado romântica do futebol, respondia que o génio não tem de prestar tributo nem ao colectivo nem à disciplina, ou não seria génio. E eis que se chega à mesa um outro portista que eu conhecia de outras andanças e me vem dizer ao ouvido que, na sala ao lado, estava o Ricardo Quaresma, que me queria falar. E lá fui, sem dizer nada à mesa. Encontrei-o em pé, virado contra uma parede, como se tivesse vergonha do mundo. Começou por me agradecer o que tinha escrito sobre ele, dizendo que era quase a única pessoa a defendê-lo, mas que o seu desespero e desmotivação por estar afastado do campo era tanto que só pensava em ir-se embora. Obviamente, respondi-lhe que tivesse paciência, que não tinha uma dúvida que a sua hora iria chegar e que, nesse momento, ele deveria estar preparado para dar a resposta em campo, porque ele era o melhor jogador do FC Porto e a verdade vem sempre ao de cima. Mas impressionou-me tanto a sua humildade, o seu ar de criança a quem tinham roubado a bola para jogar, que não resisti a pedir-lhe que viesse comigo até à mesa, para lhe apresentar uns amigos. Ele foi e demorou-se uns minutos, os suficientes para que a sua timidez tivesse impressionado todos, e para que, quando se foi embora, eu pudesse perguntar, triunfante:

— Então, continuam a achar que um dos defeitos dele é ser vaidoso?

Dois meses depois, e em estado de necessidade, Co Adriaanse decidiu-se a meter o Quaresma em jogo por três vezes consecutivas, embora nunca a mais de vinte minutos do fim: e, das três vezes, o Quaresma resolveu-lhe três jogos que estavam emperrados. Daí até aqui, foi o que se sabe, embora, pelo caminho, ainda tenha tido de enfrentar a pesporrência do selecionador Scolari, que o deixou de fora do Mundial da Alemanha, no ano em que foi considerado pela crítica o melhor jogador do campeonato português, e a perseguição da Comissão Disciplinar da Liga, que insistia em ver nele um troglodita (como agora querem fazer do Bruno Alves). Daí até aqui, o Quaresma melhorou ainda muito mais o seu futebol e aprimorou o seu talento natural — porque, ao contrário do que os medíocres imaginam, o talento dá muito trabalho. As trivelas, os cruzamentos «de letra», a cobrança de livres, as fintas sobre dois adversários simultaneamente, tudo isso foi aprimorado por ele, inevitavelmente em horas extras de treino. E não é por acaso que é dos últimos a rebentar em campo, apesar de ser o mais massacrado jogador do campeonato português e da Liga dos Campeões. Juntou ao génio a seriedade profissional e só os ingratos ou ignorantes é que são capazes de achar que um génio tem de estar sempre inspirado e, por isso, são capazes de assobiar o Quaresma se as coisas não lhe saem brilhantes, mas acham natural que um jogador banal falhe habitualmente coisas banais. E por isso é que ele vale 40 milhões menos um euro, como disse Pinto da Costa e como eu escrevi aqui há tempos: dez milhões pelo seu futebol, outros dez pelo seu profissionalismo, mais dez pelo espectáculo à parte que proporciona e mais dez pelas receitas que o FC Porto perderá depois de o perder.

Compreendo que lhe assalte a tentação de experimentar o topo do Everest, onde o futebol são sempre estádios cheios, espectáculo garantido e ordenados de sonho. Mas comecemos por aqui: não sei quanto é que Ricardo Quaresma ganha no FC Porto, mas, se ganha menos de 125.000 euros por mês, dou-lhe já razão: comece por exigir isso, porque o merece. Se ganha isso ou próximo, então, pense bem: a vida em Espanha é duas vezes mais cara, em Itália três vezes, e em Inglaterra quatro — e, por aí, os impostos são a sério. E, depois, pense no seguinte: já não tem 18 anos, como tinha o Cristiano Ronaldo quando foi para o Manchester United, e só lá é que existe um Sir Alex Ferguson, que tem a ciência, a paciência e os meios para transformar meninos em grandes jogadores. Se sair agora para um dos tubarões europeus, o Quaresma vai enfrentar um grau de exigência imediata a que não está habituado — e ele deve saber o que isso é, porque já viveu a experiência no Barcelona e com resultados frustrantes que o levaram ao FC Porto. Por aqui, costuma dizer-se, e com razão, que o Sporting é o grande descobridor de talentos — (e um eles, não se cansam de lembrar os sportinguistas, é o próprio Ricardo Quaresma). É verdade, sim senhor. Mas, se o Sporting descobre talentos em idade juvenil, quem os transforma em grandes jogadores é o FC Porto. Se o Sporting descobriu o Quaresma, quem o «fez» foi o FC Porto. Como fez o Deco, o Maniche, o Ricardo Carvalho, o Pepe e tantos outros. No FC Porto (eu sei porquê, mas não o digo), até um jogador banal se transforma num bom jogador. O Ricardo Quaresma deve meditar se vale mais ser conde no exílio ou Príncipe na Pátria. Até, porque — último argumento — a Pátria tem coisas que lá fora não vai encontrar. Tais como cervejarias onde, depois dos jogos, os admiradores de bancada não lhe vão cobrar o golo falhado contra o Schalke, mas sim agradecer todos os instantes de puro prazer que lhes deu. Fica-lhe tão bem o azul-e-branco, Ricardo! Pense nisso, antes de escutar o canto das sereias.

quinta-feira, março 27, 2008

IMPORTAM-SE DE DEIXAR JOGAR FUTEBOL? (18 MARÇO 2008)

Reconheço que ultimamente tenho andado um bocado repetitivo com este tema, mas a verdade é que são os factos e a sua repetição constante que a isso me obrigam. Refiro-me aos foras-de-jogo mal assinalados pelos nossos bandeirinhas que, de tendência, já passaram a praga. Tenho-os visto às dúzias em vários jogos, mas, em especial, nos jogos do FC Porto. Não por acaso e sim por razões concretas: porque o FC Porto é a equipa que mais ataca e mais golos marca no campeonato; porque tem um tipo de futebol que vive do passe em profundidade para as alas ou do passe de ruptura pelo centro da defesa; e porque, hoje, decidir contra o FC Porto parece ser condição de subida na carreira para árbitros e assistentes.

Nos últimos três jogos internos do FC Porto — contra Paços de Ferreira, Académica e Leixões — a tendência acentuou-se até chegar a um ponto que causa indignação. É verdade que, felizmente para a verdade desportiva, nenhum dos foras-de-jogo mal assinalados ao ataque portista nesses jogos colocou em causa o triunfo final. E é verdade também que, contra o Paços, o segundo golo do Porto nasceu de um off-side não assinalado e, contra o Leixões, talvez o segundo golo também tenha sido em fora-de-jogo. Mas, em contrapartida, em ambos os jogos o ataque portista foi travado inúmeras vezes por erros dos fiscais-de-linha, às vezes grosseiros.

Contra o Leixões, nos primeiros doze minutos de jogo, o fiscal-de-linha que acompanhava o ataque do Porto conseguiu assinalar três foras-de-jogo todos mal marcados e dois deles inacreditáveis. Não por acaso, todos três travaram jogadas de golo iminente, com um avançado a ficar sozinho só com o guarda-redes pela frente, porque todos nasceram de passes a rasgar a defesa leixonense pelo centro. Ao ver a tranquilidade com que aquele fiscal-de-linha conseguiu em apenas doze minutos anular indevidamente três jogadas de golo portista, pus-me a pensar que só havia três razões possíveis para tal:

a) o homem tinha uma clara embirração pelo azul e branco;

b) o homem sofre de necessidade de afirmação, gostando de dar nas vistas, ser focado pelas câmaras de televisão ou tornar-se objecto de embirração para milhares ou milhões de portistas no estádio ou em frente à televisão; ou

c) o homem é totalmente incapaz para a função (hipótese mais provável). Seja, pois, por parcialidade, por exibicionismo ou por incompetência, a mim parece-me que este fiscal-de-linha não pode e não deve voltar a pisar um relvado da primeira Liga. Com a sua leviandade de julgamento, ele poderia ter determinado o resultado do jogo e, com isso, interferido, por exemplo, na questão da permanência do Leixões na 1.ª divisão. E amanhã pode (o que agora não era, felizmente, o caso), interferir na atribuição do título ou da Taça de Portugal.

Nos últimos jogos do FC Porto, há sempre golos anulados por off-side, jogadas mal anuladas por pretenso off-side, e uma preciosa ajuda dos árbitros ao sistema castrador da defesa em linha. A questão só não se tornou ainda objecto de problemas sérios porque é o FC Porto e porque este traz de há muito o campeonato assegurado. Mas podia ter muitos mais golos marcados, que não tem (em especial, Lisandro López, a grande vítima dos off-sides inventados), e podia dar muito mais espectáculo, se o deixassem.

Mas há, mesmo assim, outras implicações a que a Comissão de Arbitragem não pode continuar indiferente. Jesualdo Ferreira explicava, no final do jogo com o Leixões, que a equipa passa a semana a treinar os passes em profundidade para as alas e os passes de ruptura pelo centro: é por isso que o FC Porto joga com dois extremos de raiz (uma raridade nos tempos que correm), e é para isso que mantém ao seu serviço, e a fazer uma época espectacular, o melhor «passador» e mestre das assistências para golo: Lucho González. Ora, como disse Jesualdo e com razão, o facto de o futebol ensaiado e desenvolvido pela equipa ser sistematicamente travado nos jogos pelos erros dos auxiliares, desmoraliza os jogadores e, em última análise, torna-os até descrentes do sistema de jogo adoptado. A questão é clara: o FC Porto joga o melhor e o mais bonito futebol do campeonato; a equipa trabalha todas as semanas para isso e não é aceitável que o trabalho feito e a qualidade do futebol exibido sejam altamente prejudicados pela incompetência de quem não pode tornar-se figura decisiva dos jogos e pelas más razões. É óbvio que há margens de erros inevitáveis e admissíveis e não é disso que falo. Mas ver o fiscal-de-linha levantar automaticamente a bandeirola logo que se apercebe do Lucho a rasgar um passe de morte pelo centro da defesa adversária e o Lisandro a antecipá-lo e a correr entre os defesas para o ir recolher à frente e ficar isolado, isso não é admissível. E, de tão frequente, de tão automático que parece o gesto, começa a nascer a suspeita de que há uma pré-determinação dos fiscais-de-linha (ao arrepio do que manda a FIFA), de, na dúvida — ou antes mesmo de qualquer dúvida — assinalar off-side ao ataque portista.

Duvido que estes fiscais de linha se lembrem de um alemão chamado Günter Netzer, que jogou no Nuremberg e depois no Real Madrid, aí pelo final da década de setenta, princípio da de oitenta. Ou, menos ainda, de um senhor chamado Hernâni, que jogou como número dez do FC Porto na década de sessenta. Qualquer dos dois ficou a dever o melhor da sua fama à extraordinária capacidade de passe à distância que revelavam. Eram capazes de colocar uma bola a trinta ou quarenta metros de distância à frente do avançado, deixando-o cara a cara com o guarda-redes, depois de o passe ter aberto a defesa de alto a baixo. E uma das coisas mais bonitas do futebol é o passe que opera a ruptura, que, por si só, é capaz de mudar num instante o sentido do jogo, desbaratando as defesas e as melhores tácticas defensivas. Porque sempre fui um apaixonado por esse tipo de futebol — em oposição ao futebol de progressão lenta em passe curto e lateralizado — sou também um defensor acérrimo de que todos os campos da primeira Liga deveriam ter as dimensões máximas. Creio mesmo que essa é uma das razões pelas quais o futebol que vemos das ligas espanhola, italiana ou inglesa, nos parece sempre mais espectacular que o nosso: porque usa o máximo de espaço permitido e não o mínimo, e o grande futebol é feito de espaço e movimento. Ao invés, sustento que é impossível ver-se bom futebol em campos como o do Nacional, do Paços ou do Estrela da Amadora. E se, às dimensões reduzidas de alguns campos, se junta ainda a defesa em linha da equipa mais fraca e se a estes factores vem também somar-se os off-sides mal assinalados à equipa que mais ataca, então é virtualmente impossível termos um bom jogo de futebol. Também por isso sustento há muito esta heresia: num Nacional-F.C.Porto ou num Estrela da Amadora-FC Porto, o favorito, à partida, não é o FC Porto, mas sim os anfitriões. Porque ali o bom futebol não é solução; a solução é a melhor equipa adaptar-se a jogar pior. Como portista, estes são os jogos do campeonato que eu mais temo.

Agora, já basta o que basta: os campos pequenos, os relvados mal tratados, as tácticas ultradefensivas, o público fanatizado, que tanto lhe faz que se jogue bem como mal, desde que a sua equipa não perca. Dispensava-se também a colaboração de fiscais-de-linha incompetentes para ajudar à degradação do futebol que temos.