segunda-feira, abril 14, 2008

DIGA 23 ( 08 ABRIL 2008)

1- E aí vão vinte e três campeonatos! Já só estamos a oito do Benfica e com cinco de avanço sobre o Sporting: para perceber o impensável que isto era no passado, é preciso ter vivido a infância de portista em Lisboa que eu vivi, sistematicamente a ver o FC Porto ser sovado em Alvalade ou na Luz (e, quando não era, quando aos 20 minutos ainda não estávamos a perder, lá aparecia o inevitável penalty para restabelecer a ordem natural das coisas…). Mas não hei-de morrer sem ver o FC Porto ultrapassar o Benfica em número de campeonatos nacionais — porque, no que respeita a títulos internacionais, há muito que os ultrapassámos, com seis contra dois.

Sábado à noite, no Dragão, viveu-se um daqueles momentos em que vale a pena ser portista, arrostar com a inveja dos medíocres, com a maledicência dos impotentes, com as calúnias dos incapazes. Estádio cheio, o mais bonito estádio do mundo, o equipamento mais bonito de todos, a alegria de um público habituado a reagir como uma grande família quando está debaixo de fogo, futebol, golos e espectáculo como só nós e, no fim, contra as contas dos pífios apitos dos invejosos, a festa, a nossa festa — digna, bonita, sentida como nenhuma outra.

Querem-nos tirar seis pontos? Tomem lá seis — seis golos — tomem lá a resposta, em campo, no terreno de todas as verdades. Não chega, querem mais? Venham mais — temos dezoito de avanço! Dezoito, ó tristes gentes que nem perder sabem e cujo treinador até assim se recusa a reconhecer o mérito dos vencedores!

Foi festejar até fartar e depois um jantar especial: vieiras recheadas com arroz Carolino de pinhões e morgados do Algarve à sobremesa. Repeti seis vezes!

2- Deixem-me falar do Benfica. Como, julgo, a grande maioria dos portistas da minha geração, eu cresci a temer e respeitar o Benfica. Temer, porque eles eram tremendamente melhores que nós e, apesar dos Porfírios Alves e Carlos Valentes (o Calabote já não é do meu tempo), eles ganhavam-nos quase sempre porque eram melhores. Respeito, porque o Benfica das décadas 60 e 70 era a casa do Eusébio e o orgulho dos portugueses. O meu pai, que era sportinguista, levou-me duas vezes à Luz, naquelas longínquas «noites europeias do inferno da Luz», e ambos torcemos e gritámos pelo Benfica. É verdade, e até levava o meu cachecol do FC Porto!

Agora, quando oiço Sílvio Cervan dizer que o Benfica é o maior clube do Porto e a maior referência internacional do nosso futebol, sinto um misto de pena deles e, simultaneamente, um reconforto: enquanto os adversários continuarem a guiar-se por ilusões ou propaganda para papalvos, nós continuaremos seguramente a ganhar. Há muitos locais do Porto onde eu encontro facilmente bandeiras do FC Porto penduradas nas janelas ou nas portadas das casas. Mas não me lembro de ver alguma do Benfica e, por favor, não me venham com a necessidade da clandestinidade: se são o maior clube, porque temeriam mostrá-lo? Também ando por aí no mundo e sou capaz de informar o Sílvio Cervan que, da Turquia a Angola e todos os Palop's, e do Brasil à Tailândia, o que vejo são camisolas do FC Porto e o que oiço falar, quando se fala do futebol português e o interlocutor não tem mais de 50 anos, é do FC Porto e não do Benfica.

De um lado ao outro do mundo, a gente do futebol sabe quem são o Bosingwa, o Lucho, o Quaresma, o Lisandro, e sabem quem foram o Deco, o Ricardo Carvalho, o Vítor Baía e o calcanhar do Madjer. Mas lamento informar que ninguém sabe quem sejam o Petit, o Di María, o Katsouranis ou o Maxi Pereira.

O que aconteceu ao meu antigo respeito pelo Sport Lisboa e Benfica — e julgo que aconteceu também com todos os outros adeptos portistas e sportinguistas — é que o fui perdendo aos poucos. O Benfica das últimas décadas — o Benfica de Jorge de Brito, Vale e Azevedo, Filipe Vieira, de gente como João Malheiro, José Veiga ou Carolina Salgado — é um Benfica que eu não vejo razões para admirar. Não porque percam, mas porque não sabem perder. São arrogantes por natureza, como se, por determinação divina, tivessem direito a ganhar sempre ou quase sempre; nunca, jamais, reconhecem o mérito de uma vitória alheia; vivem em busca do conflito, da calúnia, da suspeita não provada jogada aos quatro ventos. Gritam pela justiça do Apito Dourado mas foram eles que se aliaram ao major Valentim para controlar a Liga, no seu pior momento, porque, como explicou Vieira, isso era mais importante do que ter bons jogadores ou jogar bem; clamam que são as virgens virtuosas do futebol, mas esquecem-se de coisas como o caso Paulo Madeira, o jogo comprado ao Estoril para o Algarve ou a forma como foram campeões pela última vez, com todos os golos dos últimos jogos a resultarem de penalties ou livres à entrada da área.

Não sei se o Sílvio Cervan conseguirá acreditar na sinceridade do que vou dizer: o que o Benfica mais perdeu nas últimas décadas não foram campeonatos. Foi o respeito dos adversários, uma coisa que levara gerações a construir e que representava um imenso capital de prestígio e grandeza. Hoje, o Benfica é um clube que só os seus estimam. Dir-me-ão que o mesmo sucede com o FC Porto e eu respondo que acho que não é bem assim, mas, mesmo que o seja, ao contrário da história do Benfica, nós nunca gozámos de outro estatuto e estamos bem habituados a viver com isso.

3- No Bessa, o Benfica fez um belo jogo e o suficiente para ganhar folgadamente. Mas teve um grande guarda-redes pela frente, teve falhanços vários e azar muito. Mas também teve sorte, quando Jorge Ribeiro (já anunciado como reforço benfiquista para o ano que vem) não conseguiu acertar um passe lateral fácil para qualquer um de três colegas isolados frente a Quim e cobrou um penalty com a displicência de quem sacode uma mosca. Com toda a falta de sorte que desta vez teve, o Benfica até podia ter acabado a perder o jogo. Já se sabe e foi dito oficialmente, que só não o ganhou por culpa do árbitro. Eu, que sou suspeito, não vi qualquer um dos dois penalties tão reclamados, mas não deixo de sorrir quando vejo Vieira a acusar Lucílio Baptista de «viciar o resultado». É que este é o mesmo Lucílio Baptista a quem todos os portistas desejam ardentemente a reforma, depois de anos a fio a prejudicar sistematicamente o FC Porto, a benefício do Sporting e também do Benfica, que lhe deve uma valiosa colaboração na final da Taça de 2004. Sabendo-se que o homem sempre teve horror ao azul-e-branco e que o FCP, aliás, é parte agora desinteressada da batalha atrás de si, as suspeitas de Vieira, desta vez, só podem apontar para o vizinho do lado — o Sporting, pois claro!

É verdade, porém, que o V. Guimarães, segundo rezam as crónicas, foi beneficiado com a arbitragem em Paços de Ferreira, e que o Sporting, numa altura em que bem oscilava, viu o árbitro anular misteriosamente um golo ao Sp. Braga, em Alvalade. Mas isso ainda me dá mais vontade de sorrir. É que o arbitro — que é testemunha de acusação no Apito Dourado — é nem mais nem menos do que o célebre Bruno Paixão, do inesquecível Campomaiorense-FC Porto, a mais escandalosa arbitragem a que alguma vez assisti, em que até era preciso o Jorge Costa colar-se às costas do Jardel nos cantos para que ele não fosse sistematicamente agarrado nas barbas do árbitro por um rapaz que o Benfica tinha emprestado ao Campomaiorense (e, por acaso, o jogo viria a valer um campeonato perdido pelo FC Porto). Pelo que, se agora o mesmo árbitro — que, aliás, nunca mostrou categoria para a primeira Liga — descobriu em Alvalade uma falta que nem o Além conseguiria descortinar, e se com isso passou a ser suspeito de prejudicar o Benfica ao ponto de Luís Filipe Vieira pedir à PJ que entre em campo, a mim só me dá vontade de sorrir e pensar que belas testemunhas juntou o Ministério Público para o Apito Dourado!

Mas, para a semana, tão certo como dois e dois serem quatro, vai haver um erro de arbitragem a favor do Benfica e o Sporting vai achar-se com razões de queixa do árbitro e invertem-se os papéis: um grita e o outro fica muito bem caladinho. São tão previsíveis os nossos rivais!

FUTEBOL NO TRIBUNAL ( 01 ABRIL 2008)

Este campeonato já está decidido e é do FC Porto, como sempre foi fácil de prever. O próximo, ou o de 2009/10, começa a jogar-se brevemente no Tribunal de Aveiro — onde o presidente do FC Porto vai ser julgado por crime de corrupção activa e o árbitro Augusto Duarte por crime de corrupção passiva. A este campeonato não há Apito Dourado que lhe possa valer: se alguém se atrevesse sequer a insinuar que os 16 pontos de avanço do FC Porto se devem a favores de arbitragem ou outras manobras de bastidores, morria instantaneamente de rídiculo na praça pública. Mas para o próximo, as almas pequeninas estão esperançadas em que o tribunal consiga dar como provado o crime de corrupção, o que logo habilitará a Liga de Clubes a decidir em cascata:

— a irradiação de Pinto da Costa e de Augusto Duarte;

— a descida compulsiva do FC Porto à Liga Vitalis;

— a retirada retroactiva do título de 2003/2004 ao FC Forto e sua atribuição ao Benfica (que, se a memória me não falha, ficou para aí a uns 11 pontos de atraso).Daqui, por sua vez, retirar-se-ão outros corolários de «moral» e «verdade desportiva», a saber:

— que, se o árbitro do Beira-Mar-FC Porto de 2003/2004 — um jogo que já nada interessava a qualquer dos contendores — foi comprado, é de presumir, por maioria de razão, que foram comprados ou abordados em vão todos os outros árbitros dos jogos do FC Porto que, esses sim, contaram para o título dos portistas;

— que, se isto foi assim nessa época e por iniciativa de Pinto da Costa, é de presumir que assim tenha sido ao longo dos 25 anos que ele leva de presidência. Fica assim esclarecida a razão para os êxitos recorrentes do FC Porto, nas últimas duas décadas;

— o Tribunal de Aveiro e a Liga irão certamente notificar a UEFA e a FIFA para que elas investiguem as condições, a partir de agora suspeitas, em que o FC Porto conseguiu ser duas vezes campeão da Europa e do mundo, sob a presidência de Pinto da Costa;

- de caminho, cai por terra um outro mito, o da excelência de José Mourinho. Se se conseguir provar que Pinto da Costa pagou 2.500 euros ao árbitro de um jogo que já não contava para nada, como jura Carolina Salgado, quem pode atribuir a José Mourinho, aos jogadores ou à equipa qualquer espécie de mérito em terem conquistado nesse ano Portugal e a Europa? Afinal, era o presidente quem tratava de resolver a coisa, antes de o desfecho se decidir no relvado…

Aqui há umas semanas, na festa do Benfica, no Casino Estoril, Luís Filipe Vieira indignou-se porque ainda «não tinha acontecido nada» no processo Apito Dourado. Por acaso, já tinha, mas não o que ele queria: Valentim Loureiro, Pinto de Sousa e o presidente do Gondomar já tinham começado a ser julgados no Tribunal de Gondomar. Mas o que interessava a Vieira que o seu ex-sócio na direcção da Liga, o presidente dos árbitros por ele votado e o Gondomar FC estivessem a ser julgados? Vieira, como três quartos do país dito desportivo, entendia e entende que só se fará justiça se Pinto da Costa for condenado e irradiado e o FC Porto afastado por uns tempos da concorrência.

Pois, aí tem a vontade satisfeita. Enfim, um primeiro desejo. Um ano de esforços, de investigações, de muito dinheiro gasto aos contribuintes, permitiu a Maria José Morgado e à sua equipa convencer uma juíza a desarquivar um processo arquivado por uma outra colega e levar a julgamento quem se pretendia. Para tal, contaram apenas com um único facto novo: a radiosa testemunha Carolina Salgado, essa Joana d'Arc do futebol português, como lhe passaram a chamar os benfiquistas, depois de no passado lhe terem chamado coisas mais alternativas e menos grandiosas. A juíza aceitou a acusação, mas agora o Ministério Público não vai ter tarefa fácil em tribunal. Como coisas menores, vai ter de provar, por exemplo, que Pinto da Costa mente quando diz que não esperava e ficou incomodado com a visita a sua casa de Augusto Duarte. Mas isso é o menos. O essencial vai ser conseguir fazer prova:

— de que o FC Porto tinha um interesse justificado no resultado daquele jogo, ao ponto de subornar o árbitro;

— de que, de facto, o suborno aconteceu e o árbitro o aceitou;

— de que, tendo o corruptor pago para obter um resultado, o corruptor fez também a sua parte.

Ou seja, em tribunal, o Ministério Público vai ter de fazer prova de factos que integrem os três elementos essenciais do crime de corrupção: o móbil, a consumação e o nexo de causalidade (por favor, não confundir com casualidade).

O segundo elemento, a consumação do crime, assenta exclusivamente no testemunho de Carolina Salgado, o que faz antever grossas dificuldades e desilusões para o Ministério Público. Primeiro que tudo, porque, e se a defesa de Pinto da Costa fizer o que se espera, o mais provável é que a testemunha seja contraditada antes mesmo de depor e que a contradita seja aceite: entra pelos olhos adentro de qualquer pessoa de boa-fé que a testemunha se move por vingança pessoal e que a sua credibilidade merece zero de tolerância (não se trata aqui de um filme, feito por benfiquistas e em que se produz acusação e sentença, com base apenas no testemunho da senhora e sem lugar à defesa).

Em segundo lugar, a senhora Carolina Salgado é talvez adequada para impressionar fotógrafos de revista do jet-seis, mas, como já se viu com a sua prestação no Tribunal de Gondomar, é propensa a atrapalhar-se fora de cenas pré-montadas e a cair em contradições, esquecimentos e declarações inverosímeis. Pior ainda vai ser fazer prova do móbil do crime: com o campeonato resolvido e todas as atenções na final da Liga dos Campeões, que interessava ao FC Porto gastar 2.5000 euros a subornar o árbitro do jogo com o Beira-Mar?

E, quanto ao tal nexo de causalidade, que tanto parece aborrecer alguns «facilitistas», como provar que a corrupção se consumou se não houve afinal casos de arbitragem, conforme unanimemente reconhecido pela crítica da época, e se, no final, o FC Porto nem sequer ganhou o jogo?

Ou será que o digníssimo representante do Ministério Público vai sustentar em tribunal que o FC Porto pagou 2.500 euros para garantir um empate com o Beira-Mar, num jogo a feijões?

Ou vai sustentar a tese peregrina, inventada em estado de necessidade e que para aí circula, de que o FC Porto tinha o hábito de manter cautelarmente os árbitros comprados em todos os jogos, com base no princípio «se hoje não interessa, amanhã pode interessar»?

A coisa promete. É verdade que o estádio de Aveiro é mais um elefante branco construído para o Euro-2004 em que já nem o relvado se aproveita. Mas, se o estádio não tem préstimo, o tribunal pode ter. E Aveiro volta assim ao mapa futebolístico português.

EM TEMPO: Já depois de escrito este texto, fui surpreendido com a notícia de que a Liga de Clubes, com base nos mesmos factos e na decisão instrutória do Tribunal de Gondomar, decidiu instaurar um processo disciplinar ao FC Porto e ao seu presidente, com fundamento em corrupção desportiva. E digo surpreendido, porque não vejo com que meios investigatórios é que a Liga vai conseguir fazer prova daquilo que o M.º Público não conseguiu e que só o tribunal poderá apurar. Imagine-se que a Liga, tão espicaçada pelo Benfica, condena o FC Porto a descer de divisão e depois o tribunal o absolve: como é, pedem desculpas retroactivas e pagam os milhões de contos de prejuízos causados?

Não seria mais curial, por exemplo, investigar para já o caso (arquivado pelo Ministério Público) da escuta telefónica em que Valentim Loureiro e Luís Filipe Vieira combinam o árbitro que o Benfica queria para um jogo da meia-final da Taça de Portugal, contra o Belenenses?

O «Senador» benfiquista Silvio Cervan, cujas crónicas não serão propriamente um modelo de isenção clubística (como pode, aliás, um dirigente de clube ser isento?), afirmou aqui, no sábado, que é injusto atribuir apenas a favores de arbitragem o segundo lugar ocupado pelo Vitória de Guimarães, e que tanto preocupa e humilha o S. L. Benfica. De facto, é injusto. Mas quem, senão ele é que se lembrou de afirmar tal coisa? Estaria a falar com a própria consciência?

FICA, QUARESMA! ( 25 MARÇO 2008)

Como era de esperar, a imprensa lisboeta já se atirou às canelas e ao destino do Ricardo Quaresma, como pittbull à garganta de uma criança. Querem por força que ele se vá embora esta época. Querem, acima de tudo, vê-lo longe do FC Porto. Eu compreendo-os: é o sonho de qualquer benfiquista ou sportinguista, jornalista ou não. É assim ciclicamente com todos os grandes jogadores do FC Porto, os que desequilibram campeonatos a favor do norte: Anderson, Pepe, Deco, McCarthy, Ricardo Carvalho, etc, etc. Em Novembro e por esta altura do ano, é fatal que se relance uma campanha muito pouco subtil, cujo mote é sempre o mesmo: «O FC Porto não vai poder segurar o jogador». Se o jogador em causa não sai no «mercado de Inverno», como eles tanto desejavam, tratam logo de reforçar a campanha para se certificarem de que sai no Verão. A insistência no mote da campanha leva as três partes envolvidas — jogador, direcção do clube (leia-se Pinto da Costa) e sócios — a tomarem como inevitável a saída. E, quando o inevitável se transforma, enfim, em certeza, os instigadores suspiram de alívio. Esta é a primeira coisa que eu queria dizer agora ao Quaresma: a sua saída «inevitável», já, já, no próximo Verão, faz parte de uma campanha montada pelos adversários do FC Porto. Isso, por si só, não pode determinar a sua decisão — que será sempre legítima — mas é bom que tenha consciência disso.

Conheci o Ricardo Quaresma há cerca de três anos, no Porto. Eu estava a cear com o meu grupo de «amigos das scooters», depois de regressarmos de um jogo no Estádio do Dragão, onde, mais uma vez, o Co Adriaanse tinha deixado o Quaresma no «banco», com o aplauso de grande parte da crítica — a mesma que agora só quer é vê-lo pelas costas. Ao contrário, eu já tinha escrito aqui algumas vezes que entendia que deixar um génio como ele no «banco» era uma decisão prepotente e idiota. Sempre me afligiram os treinadores que têm medo dos jogadores talentosos e lhes preferem os tacticamente disciplinados. Por coincidência, a discussão na mesa, entre uma dúzia de portistas ali reunidos, era exactamente acerca disso e eu estava em minoria: a maioria concordava com Adriaanse — que o Quaresma não defendia, que era vaidoso, indisciplinado, individualista, sem sentido de jogo colectivo e por aí fora. E eu, que sempre insisti em ter uma noção talvez demasiado romântica do futebol, respondia que o génio não tem de prestar tributo nem ao colectivo nem à disciplina, ou não seria génio. E eis que se chega à mesa um outro portista que eu conhecia de outras andanças e me vem dizer ao ouvido que, na sala ao lado, estava o Ricardo Quaresma, que me queria falar. E lá fui, sem dizer nada à mesa. Encontrei-o em pé, virado contra uma parede, como se tivesse vergonha do mundo. Começou por me agradecer o que tinha escrito sobre ele, dizendo que era quase a única pessoa a defendê-lo, mas que o seu desespero e desmotivação por estar afastado do campo era tanto que só pensava em ir-se embora. Obviamente, respondi-lhe que tivesse paciência, que não tinha uma dúvida que a sua hora iria chegar e que, nesse momento, ele deveria estar preparado para dar a resposta em campo, porque ele era o melhor jogador do FC Porto e a verdade vem sempre ao de cima. Mas impressionou-me tanto a sua humildade, o seu ar de criança a quem tinham roubado a bola para jogar, que não resisti a pedir-lhe que viesse comigo até à mesa, para lhe apresentar uns amigos. Ele foi e demorou-se uns minutos, os suficientes para que a sua timidez tivesse impressionado todos, e para que, quando se foi embora, eu pudesse perguntar, triunfante:

— Então, continuam a achar que um dos defeitos dele é ser vaidoso?

Dois meses depois, e em estado de necessidade, Co Adriaanse decidiu-se a meter o Quaresma em jogo por três vezes consecutivas, embora nunca a mais de vinte minutos do fim: e, das três vezes, o Quaresma resolveu-lhe três jogos que estavam emperrados. Daí até aqui, foi o que se sabe, embora, pelo caminho, ainda tenha tido de enfrentar a pesporrência do selecionador Scolari, que o deixou de fora do Mundial da Alemanha, no ano em que foi considerado pela crítica o melhor jogador do campeonato português, e a perseguição da Comissão Disciplinar da Liga, que insistia em ver nele um troglodita (como agora querem fazer do Bruno Alves). Daí até aqui, o Quaresma melhorou ainda muito mais o seu futebol e aprimorou o seu talento natural — porque, ao contrário do que os medíocres imaginam, o talento dá muito trabalho. As trivelas, os cruzamentos «de letra», a cobrança de livres, as fintas sobre dois adversários simultaneamente, tudo isso foi aprimorado por ele, inevitavelmente em horas extras de treino. E não é por acaso que é dos últimos a rebentar em campo, apesar de ser o mais massacrado jogador do campeonato português e da Liga dos Campeões. Juntou ao génio a seriedade profissional e só os ingratos ou ignorantes é que são capazes de achar que um génio tem de estar sempre inspirado e, por isso, são capazes de assobiar o Quaresma se as coisas não lhe saem brilhantes, mas acham natural que um jogador banal falhe habitualmente coisas banais. E por isso é que ele vale 40 milhões menos um euro, como disse Pinto da Costa e como eu escrevi aqui há tempos: dez milhões pelo seu futebol, outros dez pelo seu profissionalismo, mais dez pelo espectáculo à parte que proporciona e mais dez pelas receitas que o FC Porto perderá depois de o perder.

Compreendo que lhe assalte a tentação de experimentar o topo do Everest, onde o futebol são sempre estádios cheios, espectáculo garantido e ordenados de sonho. Mas comecemos por aqui: não sei quanto é que Ricardo Quaresma ganha no FC Porto, mas, se ganha menos de 125.000 euros por mês, dou-lhe já razão: comece por exigir isso, porque o merece. Se ganha isso ou próximo, então, pense bem: a vida em Espanha é duas vezes mais cara, em Itália três vezes, e em Inglaterra quatro — e, por aí, os impostos são a sério. E, depois, pense no seguinte: já não tem 18 anos, como tinha o Cristiano Ronaldo quando foi para o Manchester United, e só lá é que existe um Sir Alex Ferguson, que tem a ciência, a paciência e os meios para transformar meninos em grandes jogadores. Se sair agora para um dos tubarões europeus, o Quaresma vai enfrentar um grau de exigência imediata a que não está habituado — e ele deve saber o que isso é, porque já viveu a experiência no Barcelona e com resultados frustrantes que o levaram ao FC Porto. Por aqui, costuma dizer-se, e com razão, que o Sporting é o grande descobridor de talentos — (e um eles, não se cansam de lembrar os sportinguistas, é o próprio Ricardo Quaresma). É verdade, sim senhor. Mas, se o Sporting descobre talentos em idade juvenil, quem os transforma em grandes jogadores é o FC Porto. Se o Sporting descobriu o Quaresma, quem o «fez» foi o FC Porto. Como fez o Deco, o Maniche, o Ricardo Carvalho, o Pepe e tantos outros. No FC Porto (eu sei porquê, mas não o digo), até um jogador banal se transforma num bom jogador. O Ricardo Quaresma deve meditar se vale mais ser conde no exílio ou Príncipe na Pátria. Até, porque — último argumento — a Pátria tem coisas que lá fora não vai encontrar. Tais como cervejarias onde, depois dos jogos, os admiradores de bancada não lhe vão cobrar o golo falhado contra o Schalke, mas sim agradecer todos os instantes de puro prazer que lhes deu. Fica-lhe tão bem o azul-e-branco, Ricardo! Pense nisso, antes de escutar o canto das sereias.

quinta-feira, março 27, 2008

IMPORTAM-SE DE DEIXAR JOGAR FUTEBOL? (18 MARÇO 2008)

Reconheço que ultimamente tenho andado um bocado repetitivo com este tema, mas a verdade é que são os factos e a sua repetição constante que a isso me obrigam. Refiro-me aos foras-de-jogo mal assinalados pelos nossos bandeirinhas que, de tendência, já passaram a praga. Tenho-os visto às dúzias em vários jogos, mas, em especial, nos jogos do FC Porto. Não por acaso e sim por razões concretas: porque o FC Porto é a equipa que mais ataca e mais golos marca no campeonato; porque tem um tipo de futebol que vive do passe em profundidade para as alas ou do passe de ruptura pelo centro da defesa; e porque, hoje, decidir contra o FC Porto parece ser condição de subida na carreira para árbitros e assistentes.

Nos últimos três jogos internos do FC Porto — contra Paços de Ferreira, Académica e Leixões — a tendência acentuou-se até chegar a um ponto que causa indignação. É verdade que, felizmente para a verdade desportiva, nenhum dos foras-de-jogo mal assinalados ao ataque portista nesses jogos colocou em causa o triunfo final. E é verdade também que, contra o Paços, o segundo golo do Porto nasceu de um off-side não assinalado e, contra o Leixões, talvez o segundo golo também tenha sido em fora-de-jogo. Mas, em contrapartida, em ambos os jogos o ataque portista foi travado inúmeras vezes por erros dos fiscais-de-linha, às vezes grosseiros.

Contra o Leixões, nos primeiros doze minutos de jogo, o fiscal-de-linha que acompanhava o ataque do Porto conseguiu assinalar três foras-de-jogo todos mal marcados e dois deles inacreditáveis. Não por acaso, todos três travaram jogadas de golo iminente, com um avançado a ficar sozinho só com o guarda-redes pela frente, porque todos nasceram de passes a rasgar a defesa leixonense pelo centro. Ao ver a tranquilidade com que aquele fiscal-de-linha conseguiu em apenas doze minutos anular indevidamente três jogadas de golo portista, pus-me a pensar que só havia três razões possíveis para tal:

a) o homem tinha uma clara embirração pelo azul e branco;

b) o homem sofre de necessidade de afirmação, gostando de dar nas vistas, ser focado pelas câmaras de televisão ou tornar-se objecto de embirração para milhares ou milhões de portistas no estádio ou em frente à televisão; ou

c) o homem é totalmente incapaz para a função (hipótese mais provável). Seja, pois, por parcialidade, por exibicionismo ou por incompetência, a mim parece-me que este fiscal-de-linha não pode e não deve voltar a pisar um relvado da primeira Liga. Com a sua leviandade de julgamento, ele poderia ter determinado o resultado do jogo e, com isso, interferido, por exemplo, na questão da permanência do Leixões na 1.ª divisão. E amanhã pode (o que agora não era, felizmente, o caso), interferir na atribuição do título ou da Taça de Portugal.

Nos últimos jogos do FC Porto, há sempre golos anulados por off-side, jogadas mal anuladas por pretenso off-side, e uma preciosa ajuda dos árbitros ao sistema castrador da defesa em linha. A questão só não se tornou ainda objecto de problemas sérios porque é o FC Porto e porque este traz de há muito o campeonato assegurado. Mas podia ter muitos mais golos marcados, que não tem (em especial, Lisandro López, a grande vítima dos off-sides inventados), e podia dar muito mais espectáculo, se o deixassem.

Mas há, mesmo assim, outras implicações a que a Comissão de Arbitragem não pode continuar indiferente. Jesualdo Ferreira explicava, no final do jogo com o Leixões, que a equipa passa a semana a treinar os passes em profundidade para as alas e os passes de ruptura pelo centro: é por isso que o FC Porto joga com dois extremos de raiz (uma raridade nos tempos que correm), e é para isso que mantém ao seu serviço, e a fazer uma época espectacular, o melhor «passador» e mestre das assistências para golo: Lucho González. Ora, como disse Jesualdo e com razão, o facto de o futebol ensaiado e desenvolvido pela equipa ser sistematicamente travado nos jogos pelos erros dos auxiliares, desmoraliza os jogadores e, em última análise, torna-os até descrentes do sistema de jogo adoptado. A questão é clara: o FC Porto joga o melhor e o mais bonito futebol do campeonato; a equipa trabalha todas as semanas para isso e não é aceitável que o trabalho feito e a qualidade do futebol exibido sejam altamente prejudicados pela incompetência de quem não pode tornar-se figura decisiva dos jogos e pelas más razões. É óbvio que há margens de erros inevitáveis e admissíveis e não é disso que falo. Mas ver o fiscal-de-linha levantar automaticamente a bandeirola logo que se apercebe do Lucho a rasgar um passe de morte pelo centro da defesa adversária e o Lisandro a antecipá-lo e a correr entre os defesas para o ir recolher à frente e ficar isolado, isso não é admissível. E, de tão frequente, de tão automático que parece o gesto, começa a nascer a suspeita de que há uma pré-determinação dos fiscais-de-linha (ao arrepio do que manda a FIFA), de, na dúvida — ou antes mesmo de qualquer dúvida — assinalar off-side ao ataque portista.

Duvido que estes fiscais de linha se lembrem de um alemão chamado Günter Netzer, que jogou no Nuremberg e depois no Real Madrid, aí pelo final da década de setenta, princípio da de oitenta. Ou, menos ainda, de um senhor chamado Hernâni, que jogou como número dez do FC Porto na década de sessenta. Qualquer dos dois ficou a dever o melhor da sua fama à extraordinária capacidade de passe à distância que revelavam. Eram capazes de colocar uma bola a trinta ou quarenta metros de distância à frente do avançado, deixando-o cara a cara com o guarda-redes, depois de o passe ter aberto a defesa de alto a baixo. E uma das coisas mais bonitas do futebol é o passe que opera a ruptura, que, por si só, é capaz de mudar num instante o sentido do jogo, desbaratando as defesas e as melhores tácticas defensivas. Porque sempre fui um apaixonado por esse tipo de futebol — em oposição ao futebol de progressão lenta em passe curto e lateralizado — sou também um defensor acérrimo de que todos os campos da primeira Liga deveriam ter as dimensões máximas. Creio mesmo que essa é uma das razões pelas quais o futebol que vemos das ligas espanhola, italiana ou inglesa, nos parece sempre mais espectacular que o nosso: porque usa o máximo de espaço permitido e não o mínimo, e o grande futebol é feito de espaço e movimento. Ao invés, sustento que é impossível ver-se bom futebol em campos como o do Nacional, do Paços ou do Estrela da Amadora. E se, às dimensões reduzidas de alguns campos, se junta ainda a defesa em linha da equipa mais fraca e se a estes factores vem também somar-se os off-sides mal assinalados à equipa que mais ataca, então é virtualmente impossível termos um bom jogo de futebol. Também por isso sustento há muito esta heresia: num Nacional-F.C.Porto ou num Estrela da Amadora-FC Porto, o favorito, à partida, não é o FC Porto, mas sim os anfitriões. Porque ali o bom futebol não é solução; a solução é a melhor equipa adaptar-se a jogar pior. Como portista, estes são os jogos do campeonato que eu mais temo.

Agora, já basta o que basta: os campos pequenos, os relvados mal tratados, as tácticas ultradefensivas, o público fanatizado, que tanto lhe faz que se jogue bem como mal, desde que a sua equipa não perca. Dispensava-se também a colaboração de fiscais-de-linha incompetentes para ajudar à degradação do futebol que temos.

A GRANDE DEPRESSÃO (11 MARÇO 2008)

1- A eliminatória perdida contra o Schalke e a forma como foi perdida, deixou-nos, a nós portistas, psicologicamente de rastos. Por várias razões, a saber:

— Porque desde cedo se percebeu que a Champions League ia ser o único verdadeiro desafio da época. O campeonato seria fácil demais para chegar a constituir desafio, a Taça da Liga era apenas um estorvo e a Taça de Portugal um prémio de consolação para vencidos de tudo o resto – o que não seria e não é o nosso caso. Passar a fase de grupos era o primeiro e essencial desafio e foi ultrapassado de forma categórica. Aí chegados, também, é preciso sermos realistas: o FC Porto tem uma boa equipa, seguramente uma das melhores da Europa. Mas não tem equipa para ser campeão europeu. Os quartos-de-final seriam o culminar de uma época de êxitos, as meias-finais um marco quase inimaginável. Logo, muito dependeria do sorteio dos oitavos-de-final.

— E, em parte por sorte, em parte por mérito próprio (ter terminado em primeiro lugar no grupo faz bastante diferença), o FC Porto teve sorte no sorteio: o Schalke 04 era uma equipa perfeitamente ao alcance do FC Porto – com muito menos experiência, infinitamente menos futebol, muito menos categoria.

— Com o avanço conquistado no campeonato e a sorte de uma época praticamente sem lesões, o FC Porto pôde planear esta eliminatória com tempo e com capacidade de gestão do plantel, ao passo que o Schalke chegou à eliminatória sem poupanças, sem crença e em crise.

— E, enfim, porque, para o ano que vem, não sabemos se lá teremos o Bosingwa, o Bruno, o Lucho, o Quaresma ou o Lisandro. Conhecendo o que a casa gasta e olhando para as pouco subtis pressões da imprensa lisboeta ligada aos rivais, não é de prever que tal milagre aconteça.

Custa muito ser afastado da Europa por uma equipa que mostrou exuberantemente ser inferior e ter jogado sempre no factor sorte. Custa muito ver o melhor futebol derrotado apenas pela sorte e por um factor individual: um guarda-redes concedeu um golo perfeitamente evitável aos 3 minutos do primeiro jogo e que viria a revelar-se decisivo; o outro defendeu tudo o que era imaginável mais o que não era, até aos penalties do segundo jogo. Essa é a primeira razão deste tão triste desfecho: o FC Porto não teve sorte alguma nos dois jogos com o Schalke. No primeiro, merecia, pelo menos, ter empatado; no segundo, justificou a vitória por 3 ou 4-0, e acabou derrotado no penalties. Como já tínhamos visto no jogo com o Sporting, também é preciso que a sorte não esteja sempre do mesmo lado.

As grandes equipas conseguem contornar os erros de arbitragem e a sorte do jogo. Nem sempre, mas conseguem. O FC Porto não o conseguiu, o que quer dizer que também houve erros próprios. E, praticamente de todos. Jesualdo Ferreira esteve a um passo de uma época de êxito pleno, teve muito pouca sorte em não ter lá chegado, mas também cometeu alguns erros, a meu ver: o primeiro foi o do Helton – não vou voltar ao assunto, mas já dei a minha opinião de que não é jogador para grandes jogos. Não é, ao contrário de Neuer, do Schalke, um guarda-redes que garanta vitórias e milhões. Depois, Jesualdo teve o erro crónico do Mariano González. Quando o Fucile foi (injustamente) expulso no Dragão e ele fizera entrar o Mariano, o FC Porto não ficou a jogar com dez, ficou sim a jogar praticamente com nove e meio. No ano passado era o Renteria, este ano é o Mariano: pergunto-me que estranha fixação terá Jesualdo Ferreira neste Mariano González, o qual, basta olhar para a maneira como conduz a bola sem levantar a cabeça, as dificuldades que tem em dominá-la, a absoluta falta de ideias e capacidade de que dá mostras, para compreender que não cabe na equipa. Também Farias foi um erro de casting: será útil para jogos caseiros de pouco grau de exigência, mas jamais será jogador de grandes jogos. E, enfim, para quem havia anunciado que ensaiara os penalties durante a semana, prevendo um desempate nesses termos, Jesualdo mostrou que ensaiou pouco ou mal, ao contrário dos alemães. Pessoalmente, nunca aceitei a frase feita da «lotaria dos penalties». Quem alguma vez marcou penalties ou tentou defendê-los, sabe que há técnicas para tal que se apuram e há regras de ciência que aos treinadores cabe explicar. E, tirando Lucho, nenhum dos outros intervenientes do FC Porto nos penalties – Helton, Bruno Alves ou Lisandro – mostrou fazer a mínima ideia de como se marca e se tenta defender um penalty. Os alemães sabiam-no e, por isso mesmo, nem mesmo em superioridadde numérica durante quase uma hora, se preocuparam em tantar evitar a suposta «lotaria dos penalties».
Para além do erros que acho que Jesualdo cometeu, outros contribuiram também para a derrota: Lisandro falhou três golos no conjunto dos dois jogos; Tarik falhou dois no Dragão, um deles indesculpável; Quaresma esteve «ausente» do primeiro jogo e falhou um golo imperdível no segundo; Farias falhou outros dois no Dragão, de forma que tornou claras as suas limitações de vária ordem; e Lucho, que fez duas grandes exibições, continuou cativo de uma estranho temor de arriscar o remate para golo, quando tinha condições para o fazer.

E, todos juntos, mais um gigante chamado Neuer e um monstro chamado azar, escreveram a história de uma eliminatória ingloriamente perdida. Para o ano há mais? Pois, o problema é mesmo esse. Não sabemos se para o ano há outra hipótese como esta.

2- Camacho antecipou a sua morte anunciada e poupou ao «amigo» Luis Filipe Vieira a chatice de ter que despedir um amigo e o contratempo de ter que indemnizar o treinador que foi a sua aposta pessoal. E aí vão já dois, na mesma época: escolhidos por ele, descartados por ele. Até quando é que o discurso do Apito continuará a conseguir desviar as atenções?

3- Para consolo interno, costuma-se dizer que o «Sporting está em todas as frentes». Na verdade, não está em nenhuma por mérito próprio: está na taça UEFA porque falhou a continuidade na Liga dos Campeões e o sorteio tem sido misericordioso; está na Taça de Portugal, porque também lhe calhou jogar sempre em casa e contra equipas fracas; está na final da Taça da Liga, porque foi a única equipa das grandes que ligou alguma coisa ao assunto e, mesmo assim, porque, contra o Fátima, era uma eliminatória a duas mãos e contra o Setúbal lhe bastou ficar em segundo lugar num grupo onde atrás de si só havia equipas da segunda divisão; e, na Liga está a 20 pontos (!) do primeiro lugar, a seis da entrada directa na Liga do Campeões e a lutar presentemente por um lugar na UEFA. Contra o Benfica, pese à desajuda de Paraty, nunca mostrou argumentos suficientes par levar de vencida uma equipa que nem ao Leiria mete medo. E, noutro jogo da verdade, em Guimarães (com o seu querido Lucílio Baptista, por uma vez imparcial), mostrou-se inferior em tudo a quem lhe disputa o terceiro lugar. A falta de Liedson e a falta de orçamento não explicam tudo: há ali também muita falta de classe, muito menino que se acha vedeta internacional, mas que não imagina o trabalho que isso dá.

E, agora, que faz um adepto portista reduzido à tristeza deste campeonato? Torce pelo Guimarães e pelo Setúbal, para que sejam eles a disputar a Champions. E torce pela Académica e pelo Leixões, para que não desçam.

ESTE PORTO MERECE OS QUARTOS (04 MARÇO 2008)

O «derby» foi mal jogado, enfadonho e acabou empatado, com incidentes nas bancadas e fora do estádio — tudo como se vem tornando hábito, de há uns anos para cá.

1- Este FC Porto de Jesualdo Ferreira, reconstruído paulatinamente durante dois anos e após a devastação deixada pela passagem do furacão Adriaanse, merece acordar na quinta-feira e saber que está nos quartos-de-final da Champions — o que quer dizer que figura no lote das oito melhores equipas da Europa. Merecem-no, por exemplo, Bosingwa que se vem impondo como um dos grandes laterais direitos do futebol europeu, ele que até começou a «trinco»; merece-o Bruno Alves, que em tão pouco tempo soube emergir de jogador trapalhão para um central cinco estrelas, tendo sabido tirar partido dos dois anos de convivência e aprendizagem ao lado de Pepe; merece-o o Fucile, que, se não fosse tão sacrificado com as deslocações ao Uruguai, poderia jogar a época inteira ao seu melhor nível; merece-o Paulo Assunção, o homem que juntamente com Pepe segurou aquela retaguarda nos tempos de loucura experimentalista do holandês e que vem fazendo outra época em cheio; merece-o Lucho González, este ano sim, a mostrar toda a sua classe e influência no jogo, depois de ter tido uma época decepcionante no ano passado (embora, curiosamente, este ano não marque golos, tendo deixado inexplicavelmente de arriscar o remate de meia-distância, que tantos golos importantes deu nos dois anos anteriores); merece-o Tarik, que, não sendo, de facto, nenhum Maradona nem próximo, tem sabido encontrar o seu espaço e a sua utilidade, apesar de não aguentar um jogo inteiro; merece-o, claro, Lisandro López, cuja colocação a ponta-de-lança foi a mais conseguida descoberta de Jesualdo Ferreira, e que, além dos golos que marca, tem um verdadeiro «espírito de dragão», incansável na generosidade que põe no jogo e na sede de vitórias que nunca sacia; e merece-o esse géniozinho do Ricardo Quaresma, um jogador que vale uma fortuna, não só pelo que joga, mas também pelo espectáculo que dá. É para ver jogadores como o Quaresma que vale a pena pagar bilhete. Ainda este sábado, no Bessa, quando ele entrou ao intervalo para as funções inéditas de nº 10, em substituição de Lucho, os comentadores televisivos apressaram-se a profetizar que não servia para a função — não tinha espaço no meio-campo e iria perder bolas, ocasionando contra-ataques perigosos do Boavista. De facto, começou por falhar um passe longo e perder uma bola no centro do campo, mas, logo a seguir, arrancou para meia-hora de show de bola, mostrando que os génios cabem em qualquer lugar. Em meia-hora, fez dois passes de ruptura para o ponta-de-lança, arrancou dois remates a rasar o poste e um estoiro na barra e cruzou com conta, peso e medida, para o golo de Stepanov, de que o juiz-de-linha não gostou.

Uma equipa que tem três ou quatro foras-de-série e sete ou oito grandes jogadores no total, tem de ter lugar entre as oito melhores da Europa. O Schalke não tem nada disso. Tem pior equipa e muito menos futebol que o FC Porto. É preciso não dar hipóteses ao azar, à descrença ou às circunstâncias imprevistas.

2- Como já disse, o juiz-de-linha que acompanhava o ataque do FC Porto na segunda parte do jogo do Bessa não gostou do golo de Stepanov, quase ao cair do pano, e resolveu anulá-lo por off-side inexistente e que nem era assim tão complicado de julgar bem. Com isso, tirou a vitória e dois pontos ao FC Porto — coisa de menos importância, para quem já leva doze de avanço. E se por acaso os pontos fizessem falta?

Já aqui tenho escrito sobre a fatal tentação dos nossos árbitros assistentes marcarem off-side a tudo o que mexe. Mas nos últimos três jogos do FC Porto, eles exageraram. No Bessa, custou dois pontos. Contra o Gil Vicente, para a Taça, segundo rezam as crónicas, só o árbitro assistente impediu até final que o FC Porto pudesse descansar sobre a magra vantagem de um golo. E, na jornada anterior, contra o Paços de Ferreira, se é verdade que um dos assistentes terá validado o segundo golo do Porto, em off-side de um ou dois palmos, tanto ele como o colega do lado oposto cortaram nada menos do que quatro jogadas de avançado isolado frente ao guarda-redes, com fundamento em foras-de-jogo perfeitamente imaginados, além de um outro golo anulado também por off-side (e o treinador-adjunto do Paços ainda teve o topete de se queixar do segundo golo!).

Esta tendência é preocupante. Sobretudo quando se joga contra uma defesa em linha, em que, para quem ataca, a melhor forma de evitar o fora-de-jogo sistemático, são os passes de ruptura pelo centro da defesa, com o avançado a desmarcar-se entre a linha, nas costas dos centrais. Contra o Paços, Lucho González deu um verdadeiro recital de passes desses, mas o seu esforço foi inglóriamente destroçado, quase na totalidade, por juízes-de-linha precipitados e sem capacidade de leitura do jogo. Sucede que a defesa em linha — (que pode parecer um sistema pouco defensivo, se a linha jogar adiantada) — é, de facto, um sistema altamente defensivo, porque visa evitar o confronto directo com a linha atacante adversária, limitando-se a roubar-lhe os espaços de que os atacantes e o futebol de ataque precisam. E sucede também que o futebol precisa de quem ataque, precisa de golos e do espectáculo que os golos são. Não precisa de juízes-de-linha que parecem sofrer de tiques de personalidade, estando sempre a dar nas vistas marcando off-sides que não existem e, com isso, roubando golos e espectáculo ao futebol. Já vai sendo de mais e o que é de mais basta.

3- «Felizmente, está quase a acabar para ti e para mim», disse Paulo Bento, referindo-se ao iminente final de carreira de Paulo Paraty. Disse-o bem. Eis mais um árbitro que não vai deixar saudades. Para final de festa, deram-lhe o Sporting-Benfica — o sempre tão propagandeado derby, que alguns ainda pretendem ver como «o» derby. E ele tratou de mostrar que não estava à altura de um jogo onde, entre outras coisas, estavam pelo menos seis milhões de euros em jogo. Infelizmente, falhou sempre para o mesmo lado, mas não prevejo que isso possa levantar suspeitas ao nível daqueles que se esforçam desesperadamente para encontrar provas de corrupção num FC Porto-Estrela da Amadora, já com o Porto campeão e o Estrela condenado à despromoção. Também o apito apita sempre para o mesmo lado…(mas isso é assunto a que espero voltar em breve e em força).

Em trinta minutos, Paraty não viu a cotovelada de Cardozo em Tonel (será que se vai aplicar a «doutrina Quaresma», de três jogos de suspensão?); perdoou o vermelho directo a Katsouranis por uma verdadeira agressão a pontapé e sem bola sobre João Moutinho; não viu o penalty de Katsouranis sobre Purovic — bem disfarçado, mas penalty; e, vá-se lá saber porquê, ali, a cinco metros de distância, conseguiu não enxergar um dos penalties mais evidentes do campeonato, do Léo sobre o Vukcevic.
No resto, «o derby» foi mal jogado, enfadonho e acabou empatado, com incidentes nas bancadas e fora do estádio — tudo como se vem tornando hábito, de há uns anos para cá. No saldo das ausências, Paulo Bento saiu a perder. Não só porque dez Makukulas não valem um Liedson, mas também porque o seu substituto, um jogador com nome de pássaro amazónico, ainda daqui a uns anos se deve estar a interrogar porque carga d'água é que lhe aconteceu estar no derby e logo no relvado e não na bancada. O Benfica conseguiu o empate apenas porque Cardozo tem 1,93 metros e o Sporting, não fossem os erros de Paraty, nem sequer podia reclamar injustiça no resultado. Enfim, não foi uma jornada brilhante para ninguém.

4- Notícia da última página de A BOLA de sábado passado: a PJ esteve no Estádio da Luz a apreender documentos relativos às contrapartidas que a CML deu ao Benfica para a construção do novo estádio. Isto, três dias depois de Luís Filipe Vieira, na sua eterna campanha de provocação a Pinto da Costa, se ter gabado de que problemas desportivos podia ter, mas judiciais não. Querem ver que…?

sexta-feira, março 07, 2008

PROVAVELMENTE, O PIOR BENFICA DE SEMPRE (26 FEVEREIRO 2008)

Se eu pudesse escolher, chamava o Baía de volta para o que restar da Liga dos Campeões.

1- O Benfica que empatou na Luz com o decepcionante Sporting de Braga é, apesar disso, a versão menos má deste Benfica de Camacho. É a versão que lhe permite dizer, com toda a naturalidade e conformismo, que «se a bola entra, ganhamos; se não entra, não ganhamos». Para depois rematar, com aquele encolher de ombros que caracteriza toda a sua atitude ao longo da época: «És lo que hay!».

O que tem permitido ao Benfica aguentar-se no 2º lugar da Liga e estar nos quartos-de-final da Taça e dezaseis-avos-de-final da Taça UEFA é apenas sorte. Uma sorte tão impressionante, que não é de esperar que se possa repetir em anos próximos. Sorte na forma quase escandalosa como consegue resolver um sem número de jogos nos minutos finais, sem que antes tenha feito alguma coisa por isso. Em Nuremberga, houve quem escrevesse que «dois minutos à Benfica resolveram a eliminatória». Pois, resta saber se os dois minutos à Benfica foram o minuto 89 e o 91, que lhe permitiram transformar uma derrota mais do que justificada num inacreditável empate, ou antes os 88 minutos restantes, e mais os 95 da primeira mão, em que a águia mais parecia uma alma penada e depenada, arrastando-se em campo sem futebol, sem ideias, sem atitude, contra a pior equipa da Bundesliga. Sorte e imensa tem tido ainda o Benfica em tudo o que meta sorteios: seja na Taça, onde joga sempre em casa e contra equipas menores, seja na Europa, onde começa por apanhar equipas acessíveis na pré-eliminatória da Liga dos Campeões, depois um grupo «brando», e, quando transita para a Taça UEFA, é o que se vê: um incipiente Nuremberga e a seguir o Getafe, uma espécie de Estrela da Amadora de Espanha, estreante nas competições europeias (e, mesmo assim, já classificado por Camacho como adversário «muito forte»).

Em tantos anos a ver futebol, não me lembro de ver um Benfica tão mau. A saída, tantas vezes adiada, de Simão Sabrosa destapou definitivamente a falta de qualidade da equipa, e hoje só os dias luminosos de Rui Costa conseguem dar àquele futebol, de vez em quando, a ilusão de uma equipa que sabe o que faz e o que quer. Os meus amigos benfiquistas, com esse optimismo que é, de facto, um traço de carácter da nação vermelha, ainda alegam que a equipa não é má, Camacho é que não sabe o que fazer com ela. Permito-me discordar: em todo aquele plantel que Luís Filipe Vieira classificou como o melhor dos últimos dez anos, só vejo, Rui Costa à parte, três jogadores que se podem considerar regularmente bons: Quim, Léo e Cardozo. O sintoma mais gritante desta falta de qualidade e de ideias de jogo é, para mim, o frémito de entusiasmo que passa pelas hoje semi-despovoadas bancadas da Luz quando o Binya se prepara para executar um lançamento lateral para dentro da área. Que o público, tradicionalmente conhecedor e exigente da Luz, já tenha também chegado ao ponto de descrença e conformismo de pôr as suas esperanças e emoções num lançamento lateral, diz quase tudo sobre os tempos que se vivem por ali.

Claro que com o mal dos outros, e para mais adversários, vivemos nós muitíssimo bem. Mas nem nós, portistas, vivemos bem com um campeonato tão desinteressante como este. E o que mais me impressiona é verificar que à 20.ª jornada do campeonato, este frustrante Benfica consegue, mesmo assim, ter mais um ponto do que tinha há quatro épocas, quando jogava um futebol igualmente feio… e conseguiu conquistar o seu último título de campeão! Ou seja, de há quatro anos para cá, a única coisa que mudou é que o FC Porto voltou à normalidade interrompida durante uma época.

2- Por mais que não seja politicamente correcto dizê-lo, há um «caso Helton» no FC Porto. Eu estou à vontade no assunto, porque nunca escondi que o Helton não me convencia, e ainda na semana passada, antecipando o jogo de Gelsenkirchen, escrevi que a única coisa que temia era a intranquilidade do Helton na baliza.

Infelizmente, o jogo com o Schalke veio dar razão ao que aqui tinha dito várias vezes: que o Helton tem uma tendência fatal para falhar nos jogos mais importantes — Chelsea, Sporting, Liverpool, Schalke. Quando se teria o direito de esperar que fosse o guarda-redes, como é da praxe, o primeiro a parar o ímpeto incial dos donos da casa e dar tranquilidade à equipa para o resto do jogo, ele demorou apenas três minutos a facilitar o golo alemão: primeiro, sacudindo para a entrada da área — local proibido! — uma bola chutada à figura, e depois demorando uma eternidade a recolocar-se para a recarga. É certo que ele não foi o único responsável pela derrota: o Fucile fez o pior jogo que já lhe vi, o Quaresma perdeu-se numa querela particular com Rafinha, o Farías também voltou a mostrar-se inútil nos grandes jogos e o Lisandro falhou um daqueles golos que nunca falha. Mas, por tudo isso, o que ficou a ditar o resultado foi, mais uma vez, o golo mal consentido por Helton.

Talvez, para ser justo, deva dizer que não tenho a certeza de que o facto de o Helton não ter evoluído nada desde que chegou ao FC Porto seja culpa dele e não de quem tem por missão prepará-lo. Há uma diferença abissal entre ser guarda-redes de um clube pequeno ou médio e ser guarda-redes do FC Porto. O Helton que chegou ao F.C.Porto era um excelentíssimo guarda-redes no União de Leiria. Dois anos e meio depois, o que constato é que essa qualidades em nada têm aproveitado ao FC Porto e, pelo contrário, os defeitos não corrigidos, como o do jogo aéreo, têm sido determinantes. No campeonato, na baliza de uma equipa como o Leiria, em todos ou quase todos os jogos, sobram ocasiões para brilhar e para salvar golos com defesas fantásticas, ao ponto de um ou outro erro se diluirem na maré de grandes defesas feitas. Mas, no FC Porto, se existirem dois jogos desses por época, já é muito. Na baliza do FC Porto o que se lhe exige não é defesas do outro mundo, que raras vezes será chamado a executar: o que se lhe exige é que não deixe entrar nenhum golo defensável, o que passa por ser rei e senhor no jogo aéreo pelo menos na pequena área, saber jogar com os pés tranquilamente, saber sair da área como um defesa para obstar ao jogo de contra-ataque e, em qualquer circunstância, transmitir segurança e confiança para dentro e fora do campo. Se, além disso, também fizer defesas excepcionais, melhor ainda; mas, se for necessário escolher entre o espectáculo e a eficácia, entre duas defesas impossíveis ou todas as defesas possíveis, a última escolha é a que interessa. Depois, como se isto não fosse já suficientemente difícil, a um guarda-redes do FC Porto é também exigível que, nos jogos europeus, consiga estar ao nível de um desempenho constante e muito mais exigente e a que não está habituado pelos jogos do campeonato.

É por isso que eu acho que, mais do que qualquer outro jogador, a escolha de um guarda-redes vindo de um clube pequeno para um clube grande do campeonato português, como o FC Porto, é muito mais arriscada e aleatória. Não é por acaso que o FC Porto viveu anos a fio nas paz que lhe dava um guarda-redes chamado Vitor Baía: porque ele foi formado nas escolas do clube, subiu todos os escalões a aprender as funções de um guarda-redes de um clube que vive todos os jogos quase sempre ao ataque e, quando chegou ao topo, tinha a cultura de jogo e o instinto formatados para essa função específica.

E o problema concreto agora, é que, contra o Shalke não sabemos se vão ser precisos dois ou três golos para eliminar os alemães. Se eu pudesse escolher, chamava o Baía de volta para o que restar da Liga dos Campeões.

3- Martin Taylor, do Birmingham, partiu a tíbia e o peróneo a Euardo Silva, do Arsenal, com uma entrada de lado, descrita como «arrepiante» — a tal ponto que as imagens não foram repetidas. Katsouranis também partiu a tíbia e o peróneo a Anderson, mas entrou por trás e ainda lhe causou rotura de ligamentos. Descubra mais diferenças...