Se Maria José Morgado estiver realmente interessada em apurar o que se passa nesse mundo submerso das transacções com jogadores, não deve haver clube ou presidente algum que não mereça ser investigado. E devia fazê-lo, porque, de outro modo, fica a suspeita de que este é apenas um processo «ad hominem», a caça a um homem só.
1- Aquele a que chamam o «processo-mãe» do «Apito Dourado» chegou finalmente a julgamento. É coisa pouca para tanto estardalhaço feito: trata-se de tentar provar que o Gondomar, com a colaboração de Pinto de Sousa, ex-presidente da Comissão de Arbitragem, e o alto patrocínio de Valentim Loureiro, ex-presidente da Liga, passou uma época inteira a escolher os árbitros que queria para os seus jogos e a presenteá-los depois com «recordações» em ouro. Uma história de pilha-galinhas. Como toda gente percebeu desde o princípio, não era aqui que se queria chegar com o «Apito Dourado»: queria-se chegar a Pinto da Costa e ao FC Porto e fazer prova «científica» de que foi a corrupção de árbitros que transformou o FC Porto na potência futebolística que hoje é.
Milhares de diligências processuais, de interrogatórios a testemunhas e de perícias feitas, milhares e milhares de euros depois, parece bem que ao desígnio traçado para o «Apito Dourado» nada mais resta do que as acusações de Carolina Salgado. Mais uma vez, é pouco, muito pouco, quando tudo assenta na credibilidade de uma testemunha cujo curriculum só regista dois factos notáveis: ter trabalhado numa casa de alterne e ter gasto os últimos anos a vingar-se do homem que de lá a tirou, a levou ao Papa e a entronizou no inadmissível estatuto de «Primeira Dama» do FCP, e que depois a deixou. Como já aqui o escrevi, qualquer advogado estagiário tem obrigação de estilhaçar as acusações em tribunal.
Não admira pois, que, conforme relatava ontem o «Público», o «dream team» de Maria José Morgado tenha, de há vários meses para cá, reorientado as suas investigações, com base em novas denúncias de Carolina Salgado. Trata-se agora de passar à lupa todas as operações financeiras que envolveram a compra e venda de jogadores do FC Porto nos últimos anos e que tiveram a intervenção de Pinto da Costa. Parece-me campo bem mais promissor: eu próprio já frequentemente manifestei a minha estranheza perante tantas e tantas aquisições de jogadores e uma situação financeira que não se percebe que não seja desafogada, de 2004 para cá. Mas isso, como também toda a gente sabe, está longe, muito longe, de levantar dúvidas apenas em relação a Pinto da Costa e ao FC Porto. Se Maria José Morgado estiver realmente interessada em apurar o que se passa nesse mundo submerso das transacções com jogadores, não deve haver clube ou presidente algum que não mereça ser investigado. E devia fazê-lo, porque, de outro modo, fica a suspeita de que este é apenas um processo «ad hominem», a caça a um homem só: se não o apanham por um lado, tentam por outro. E todos os outros passam impunes.
2- Entretanto, das célebres «revelações» do «livro» de Carolina Salgado, uma havia que parecia a mais fácil e mais urgente de investigar: a de que fora ela própria, por inspiração de Pinto da Costa, quem organizara e comandara o pelotão de linchamento que agrediu violentamente o vereador de Gondomar, Ricardo Bexiga. Era fácil de investigar porque, inadvertidamente, a testemunha fatal se incriminara a si própria, na ânsia de incriminar Pinto da Costa; e urgente, porque se tratava do mais grave dos crimes arrolados em todo o processo. É verdade que, ao entrar nos detalhes da operação, a história dela começava logo a não bater certa: disse que, por precaução, haviam destruído previamente as câmaras de vigilância do parque de estacionamento onde a agressão teve lugar, mas não teve o cuidado de confirmar se o parque tinha câmaras de vigilância — não tinha. Mas, mesmo que desta mentira circunstancial resultasse a crença na mentira de toda a história, não se compreende como é que o Ministério Público não a acusou por crime de falsas declarações e denúncia caluniosa.
Pelo contrário, o Ministério Público, escudando-se na falta de provas, acaba de determinar o arquivamento do processo. Ou seja: a testemunha-chave do Ministério Público merece credibilidade quando acusa Pinto da Costa, mas já não a merece quando se acusa a si própria. E assim se resolve o problema de poder manter como testemunha-chave alguém que deveria figurar como arguida num outro processo e por crime mais grave.
3- Lá se jogaram os oitavos-de-final da Taça e sem tomba-gigantes. Também não é fácil quando, com uma regularidade impressionante, os clubes maiores têm a sorte de receber os mais pequenos numa eliminatória a um só jogo. O Benfica, então, é um caso à parte: não me lembro da última vez e em que época é que o Benfica teve de jogar fora da Luz para a Taça. Nas últimas doze eliminatórias disputadas, tal não deve ter acontecido mais do que uma ou duas vezes.
Não acho justo que o caminho para o Jamor possa depender apenas ou principalmente da sorte, seja quem for o contemplado. Há anos que defendo que até aos quartos-de-final as eliminatórias deveriam jogar-se apenas a uma mão mas sempre no campo do clube de divisão inferior ou do de pior classificação actual na mesma divisão; e a duas mãos os quartos e meias. Agora, o presidente da Liga pretende, pelo menos, meia coisa: os quartos e as meias a duas mãos. Acho excelente ideia, de justiça e interesse desportivo acrescido. Já vi um treinador queixar-se de que isso, mais a Taça da Liga, são jogos a mais. Jogos a mais? Então a Taça da Liga não foi inventada exactamente porque havia jogos a menos?
4- O Benfica é um clube profundamente sebastiânico. Os seus adeptos vivem na eterna esperança de ver chegar um D. Sebastião (de preferência, chamado Eusébio), que, por si só e em golpes de magia, seja capaz de acordar a grande nação vermelha há longo tempo adormecida. Sucedem-se os anunciados salvadores mas a neblina não se deixa romper. Só nos últimos tempos, foram sucessivamente o Mantorras (que valeria 100 milhões de euros, segundo Vieira), o Freddy Adu, potencial novo Pélé (comprado por um ou dois milhões de euros ?!), e agora é o Makukula, que faz lembrar o Eusébio a rematar.
Há três coisas elementares que, pelos vistos, custam muito a interiorizar. A primeira é que um Eusébio aparece de vinte em vinte anos e nada garante que venha para o futebol português, quando os grandes clubes mundiais já fazem prospecção directa nas fontes (veja-se o Manucho no Manchester United); segunda, que se um novo Eusébio aparecer por cá, não dura muito (veja-se o Ronaldo no Manchester United); e terceiro que, nos tempos de hoje, se bem que os génios continuem, como sempre, a resolver jogos, nenhum clube se consegue manter duradoramente no topo se tudo o resto — a organização interna, as estruturas de apoio, as escolas do clube, os treinadores, a equipa e o espírito de vitória e de sacrifício — não acompanharem.
Ainda na passada sexta-feira, aqui na «BOLA», o ex-benfiquista e ex-portista Iuran explicava as diferenças fundamentais que encontrou num clube e no outro e que, em sua opinião, fazem do FC Porto o crónico campeão português. É certo que o Iuran não foi um jogador por aí além nem um exemplo de virtudes fora do campo. Mas o que interessa notar é que ele é apenas mais um dos inúmeros jogadores e treinadores que, tendo passado por ambos os clubes, disseram o mesmo que ele. E nunca ouvi ninguém a dizer o contrário…
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
RICARDO SHOW QUARESMA (05 FEVEREIRO 2008)
1 - O futebol é um jogo relativamente simples, do ponto de vista táctico. Em cada equipa há um grupo de jogadores mais numeroso cuja função é evitar o golo do adversário e um grupo, de entre dois a quatro elementos, cuja função é tentar marcar golos ao adversário; entre um e outro grupo funciona o meio-campo, que faz a ligação entre ambos os sectores e que tem de fazer um pouco de ambas as coisas: defender quando a equipa não tem a bola e atacar quando a tem. Basicamente, durante o jogo, o que o treinador tem de fazer é decidir com quantos ataca e com quantos defende e colocar os jogadores certos nas posições certas. O resto, o resto que faz a diferença, é o talento dos jogadores lá dentro.
Há jogadores que podem ser muito úteis a uma equipa mas que jamais marcarão a diferença, a não ser pela negativa: podem tornar-se responsáveis pela derrota, num lance feliz, mas jamais serão capazes de se transformar em responsáveis pela vitória. São os chamdos «carregadores de piano» e, não desfazendo na sua utilidade, eles não passarão à história e nunca justificarão por si sós uma ida ao estádio para os ver jogar. Depois, há uma outra categoria de jogadores, largamente maioritária, que umas vezes jogam bem, outras jogam mal, umas vezes constroem jogo, outras destroem-no, e ocasionalmente são os heróis de um jogo. E há, enfim, os desequilibradores, aqueles que sozinhos são capazes de resolver jogos, de marcar golos ou dá-los a marcar e de fazer com uma bola nos pés o que ninguém mais consegue. Estes são os jogadores que ficam para a história, os que enchem estádios, os que se transformam em lenda, que passa de pais para filhos e atrai sucessivas gerações para a paixão por este jogo planetário. Sábado à tarde, no Dragão, Ricardo Quaresma voltou a mostrar, pela enésima vez, a razão pela qual todos os que gostam de futebol jamais esquecerão o seu nome e ainda hão-de falar com saudade muito depois de Quaresma ter arrumado as botas num canto nostálgico do armário lá de casa.
Há quinze dias atrás, no mesmo estádio do Dragão, um grupo de adeptos portistas lembrou-se de assobiar Quaresma. Por razões de simples gratidão e memória, bem podiam ter estado calados. Por razões de elementar justiça, bem podiam ter escolhido outro alvo. Mas, sobretudo e por razões de simples vergonha, deviam ter ficado respeitosamente calados se, numa tarde como as outras, as coisas não sairam a Quaresma tão bem como de costume e tão bem como ele sempre quer. Porque esses que então assobiaram Quaresma não percebem nada de futebol. Repito: não percebem nada, rigorosamente nada, de futebol. Ó desgraçado grupo de adeptos do meu clube: vocês hão-de chorar amargamente a ausência de Ricardo Quaresma!
Quando há dois anos atrás, essa inteligência superior que era Co Adriaanse resolver prescindir do Quaresma e toda a crítica o apoiou porque, diziam, o Quaresma não defendia, só atacava, eu fiquei entre a vontade de rir e a vontade de chorar. E lembrei até o exemplo do Jardel, cuja especialidade era outra, mas os resultados idênticos. O Jardel passava o jogo inteiro instalado entre os centrais, não recuando nunca para apoiar o meio-campo em situações defensivas. Num jogo inteiro, não tocava na bola mais do que umas dez vezes, mas, quando tocava, ou era golo ou um susto para o adversário. Para quê pedir ao Jardel que se desgastasse a defender e depois não tivesse forças para a impulsão para o cabeceamento que marcava golo decisivo? Para quê pedir ao Quaresma que defenda, se o seu génio é atacar e se o que interessa é que ele mantenha as forças para partir os rins aos adversários e cruzar como não se via desde os tempos do Drulovic?
Sábado, contra o Leiria, Ricardo Quaresma não se limitou a tirar três cruzamentos perfeitos para outros tantos golos (um deles anulado por offside): rematou, passou, desmarcou, atacou por ambas as alas e pelo centro, e desbobinou um impressionante e entusiasmante reportório de golpes de classe de que alguns deles não há ninguém mais capaz de fazer neste momento, em todo o planeta futobolístico. Desde o Madjer que eu não via tanta classe pura num jogador de azul e branco! A exibição do FC Porto atingiu momentos de autêntico luxo — como já sucedera oito dias antes em Alvalade, onde só um azar dificilmente repetível evitou goleada semelhante. Mas, dentro dessa exbição colectiva, houve também o espectáculo extra de Ricardo Quaresma. Dizem que agora é o Liverpool que o quer por 25 milhões: eu acho que ele vale 4O, pelo menos. Vinte, por aquilo que ele representa nas vitórias do FC Porto; dez, pelas receitas que vamos perder depois de não haver Quaresma para ir ver jogar no Dragão nem camisolas dele para vender; e outros dez pelos danos morais que a nação portista vai sofrer depois de ver partir o seu menino de ouro.
2 - Depois da derrota em Alvalade, na semana passada, escrevi aqui que o FC Porto iria ganhar o campeonato tranquilamente. Bastou uma semana para o confirmar, mas também não foi uma previsão difícil: todos os que percebem alguma coisa de futebol pensaram o mesmo, apesar de o FC Porto ter acabado de ver os dois rivais mais directos encurtarem a distãncia em três pontos. Mas até podiam estar em igualdade pontual e a previsão mantinha-se: bastava ver jogar o Porto e comparar com Benfica e Sporting. Quem viu jogar os três «grandes» este fim-de semana ficou seguramente sem qualquer dúvida que ainda lhe pudesse restar. A diferença entre o futebol dos dragões e o futebolzinho de águias e leões é tamanha que eles nem parecem jogar na mesma Liga. O Benfica ainda conseguiu distrair as atenções com a vitória muito feliz em Guimarães, o suficiente para Luis Filipe Vieira anunciar que uma nova vida, uma nova atitude e uma nova possibilidade de conquista começavam aí. Enganou-se, provando mais uma vez que de futebol percebe pouco: o Benfica que se viu contra o Nacional só pode ter um objectivo que é o de segurar o segundo lugar, dê lá por onde der. Também as gentes sportinguistas quiseram acreditar que a crise estava ultrapassada porque se haviam ganho quatro jogos sucessivos. Pois ganharam: todos em Alvalade, dois deles contra equipas da segunda divisão, um contra uma equipa da quinta divisão e o outro o tal bambúrrio de sorte que foi o jogo com o Porto. Assim que se viram fora de Alvalade, contra uma equipa da mesma Liga e sem os favores da sorte, baquearam, sem mostrar qualquer capacidade e engenho para outra coisa.
O campeonato ficou mais chato, outra vez: concordo que sim. Mas a culpa não é do FC Porto com toda a certeza. A equipa está outra vez a subir de forma e na melhor altura, quando se aproxima a passos largos a eliminatória contra o Schalke, o momento decisivo da época, em que o FC Porto se pode ver entre os oito melhores da Europa, a disputar os quartos-finais da Champions. Jesualdo Ferreira parece ter começado já uma gestão cautelosa do esforço dos principais jogadores, que se sabe são determinantes para compensar algum desequilibrio da equipa, sobretudo na zona central da defesa e no meio-campo. Toda a gente sabe quem são esses jogadores: são os que os tubarões estrangeiros cobiçam — Bosingwa, Bruno Alves, Fucile, Lucho, Quaresma e Lisandro. É meia equipa e, até agora, Jesualdo Ferreira tem tido a sorte de não ver nenhum deles lesionado. Mas é avisado ir poupando-os sempre que possível. O lançamento de Castro, este fim-de-semana, com uma estreia bem positiva, já foi um bom sinal. Assim como a inesperada recuperação de Farías, que, de facto, ninguém previa e nada fazia prever. Ou o regresso ao lar de Helder Barbosa e a chegada antecipada de Rabiola. Pena que o Leandro Lima esteja embrulhado naquela confusão de registo civil e desaparecido em parte incerta. Mas estão agora reunidas todas as condições para que Jesualdo estenda o plantel de 13 ou 14 jogadores de estimação para 17 ou 18.
Há jogadores que podem ser muito úteis a uma equipa mas que jamais marcarão a diferença, a não ser pela negativa: podem tornar-se responsáveis pela derrota, num lance feliz, mas jamais serão capazes de se transformar em responsáveis pela vitória. São os chamdos «carregadores de piano» e, não desfazendo na sua utilidade, eles não passarão à história e nunca justificarão por si sós uma ida ao estádio para os ver jogar. Depois, há uma outra categoria de jogadores, largamente maioritária, que umas vezes jogam bem, outras jogam mal, umas vezes constroem jogo, outras destroem-no, e ocasionalmente são os heróis de um jogo. E há, enfim, os desequilibradores, aqueles que sozinhos são capazes de resolver jogos, de marcar golos ou dá-los a marcar e de fazer com uma bola nos pés o que ninguém mais consegue. Estes são os jogadores que ficam para a história, os que enchem estádios, os que se transformam em lenda, que passa de pais para filhos e atrai sucessivas gerações para a paixão por este jogo planetário. Sábado à tarde, no Dragão, Ricardo Quaresma voltou a mostrar, pela enésima vez, a razão pela qual todos os que gostam de futebol jamais esquecerão o seu nome e ainda hão-de falar com saudade muito depois de Quaresma ter arrumado as botas num canto nostálgico do armário lá de casa.
Há quinze dias atrás, no mesmo estádio do Dragão, um grupo de adeptos portistas lembrou-se de assobiar Quaresma. Por razões de simples gratidão e memória, bem podiam ter estado calados. Por razões de elementar justiça, bem podiam ter escolhido outro alvo. Mas, sobretudo e por razões de simples vergonha, deviam ter ficado respeitosamente calados se, numa tarde como as outras, as coisas não sairam a Quaresma tão bem como de costume e tão bem como ele sempre quer. Porque esses que então assobiaram Quaresma não percebem nada de futebol. Repito: não percebem nada, rigorosamente nada, de futebol. Ó desgraçado grupo de adeptos do meu clube: vocês hão-de chorar amargamente a ausência de Ricardo Quaresma!
Quando há dois anos atrás, essa inteligência superior que era Co Adriaanse resolver prescindir do Quaresma e toda a crítica o apoiou porque, diziam, o Quaresma não defendia, só atacava, eu fiquei entre a vontade de rir e a vontade de chorar. E lembrei até o exemplo do Jardel, cuja especialidade era outra, mas os resultados idênticos. O Jardel passava o jogo inteiro instalado entre os centrais, não recuando nunca para apoiar o meio-campo em situações defensivas. Num jogo inteiro, não tocava na bola mais do que umas dez vezes, mas, quando tocava, ou era golo ou um susto para o adversário. Para quê pedir ao Jardel que se desgastasse a defender e depois não tivesse forças para a impulsão para o cabeceamento que marcava golo decisivo? Para quê pedir ao Quaresma que defenda, se o seu génio é atacar e se o que interessa é que ele mantenha as forças para partir os rins aos adversários e cruzar como não se via desde os tempos do Drulovic?
Sábado, contra o Leiria, Ricardo Quaresma não se limitou a tirar três cruzamentos perfeitos para outros tantos golos (um deles anulado por offside): rematou, passou, desmarcou, atacou por ambas as alas e pelo centro, e desbobinou um impressionante e entusiasmante reportório de golpes de classe de que alguns deles não há ninguém mais capaz de fazer neste momento, em todo o planeta futobolístico. Desde o Madjer que eu não via tanta classe pura num jogador de azul e branco! A exibição do FC Porto atingiu momentos de autêntico luxo — como já sucedera oito dias antes em Alvalade, onde só um azar dificilmente repetível evitou goleada semelhante. Mas, dentro dessa exbição colectiva, houve também o espectáculo extra de Ricardo Quaresma. Dizem que agora é o Liverpool que o quer por 25 milhões: eu acho que ele vale 4O, pelo menos. Vinte, por aquilo que ele representa nas vitórias do FC Porto; dez, pelas receitas que vamos perder depois de não haver Quaresma para ir ver jogar no Dragão nem camisolas dele para vender; e outros dez pelos danos morais que a nação portista vai sofrer depois de ver partir o seu menino de ouro.
2 - Depois da derrota em Alvalade, na semana passada, escrevi aqui que o FC Porto iria ganhar o campeonato tranquilamente. Bastou uma semana para o confirmar, mas também não foi uma previsão difícil: todos os que percebem alguma coisa de futebol pensaram o mesmo, apesar de o FC Porto ter acabado de ver os dois rivais mais directos encurtarem a distãncia em três pontos. Mas até podiam estar em igualdade pontual e a previsão mantinha-se: bastava ver jogar o Porto e comparar com Benfica e Sporting. Quem viu jogar os três «grandes» este fim-de semana ficou seguramente sem qualquer dúvida que ainda lhe pudesse restar. A diferença entre o futebol dos dragões e o futebolzinho de águias e leões é tamanha que eles nem parecem jogar na mesma Liga. O Benfica ainda conseguiu distrair as atenções com a vitória muito feliz em Guimarães, o suficiente para Luis Filipe Vieira anunciar que uma nova vida, uma nova atitude e uma nova possibilidade de conquista começavam aí. Enganou-se, provando mais uma vez que de futebol percebe pouco: o Benfica que se viu contra o Nacional só pode ter um objectivo que é o de segurar o segundo lugar, dê lá por onde der. Também as gentes sportinguistas quiseram acreditar que a crise estava ultrapassada porque se haviam ganho quatro jogos sucessivos. Pois ganharam: todos em Alvalade, dois deles contra equipas da segunda divisão, um contra uma equipa da quinta divisão e o outro o tal bambúrrio de sorte que foi o jogo com o Porto. Assim que se viram fora de Alvalade, contra uma equipa da mesma Liga e sem os favores da sorte, baquearam, sem mostrar qualquer capacidade e engenho para outra coisa.
O campeonato ficou mais chato, outra vez: concordo que sim. Mas a culpa não é do FC Porto com toda a certeza. A equipa está outra vez a subir de forma e na melhor altura, quando se aproxima a passos largos a eliminatória contra o Schalke, o momento decisivo da época, em que o FC Porto se pode ver entre os oito melhores da Europa, a disputar os quartos-finais da Champions. Jesualdo Ferreira parece ter começado já uma gestão cautelosa do esforço dos principais jogadores, que se sabe são determinantes para compensar algum desequilibrio da equipa, sobretudo na zona central da defesa e no meio-campo. Toda a gente sabe quem são esses jogadores: são os que os tubarões estrangeiros cobiçam — Bosingwa, Bruno Alves, Fucile, Lucho, Quaresma e Lisandro. É meia equipa e, até agora, Jesualdo Ferreira tem tido a sorte de não ver nenhum deles lesionado. Mas é avisado ir poupando-os sempre que possível. O lançamento de Castro, este fim-de-semana, com uma estreia bem positiva, já foi um bom sinal. Assim como a inesperada recuperação de Farías, que, de facto, ninguém previa e nada fazia prever. Ou o regresso ao lar de Helder Barbosa e a chegada antecipada de Rabiola. Pena que o Leandro Lima esteja embrulhado naquela confusão de registo civil e desaparecido em parte incerta. Mas estão agora reunidas todas as condições para que Jesualdo estenda o plantel de 13 ou 14 jogadores de estimação para 17 ou 18.
SEMANA EM CHEIO PARA O SPORTING (29 JANEIRO 2008)
Semana de ouro para o Sporting: uma pífia vitória caseira sobre o Beira-Mar que valeu uma final; um acordo com a CML que valeu uma oferta de 25,5 milhões; e uma valente tareia às mãos do F.C.Porto que valeu uma vitória, sem saber como nem porquê.
Há marés de sorte e esta semana o Sporting viveu uma delas. Terça-feira recebeu em Alvalade o modesto Beira-Mar, do meio da tabela da 2.ª Divisão e, após 70 minutos de desinspirado esforço, viu o guarda-redes de Aveiro escancarar-lhe as portas da sua baliza até ao 3-0 final. E, com essa simples vitória, e apesar da anterior derrota com o Vitória de Setúbal (e também em casa contra o Fátima, da 3.ª Divisão!), tem presença já garantida na final dessa confusa competição baptizada de Taça da Liga.
Quarta-feira foi a grande notícia, há muito esperada com ansiedade: graças aos votos do PS e do PP, recebeu da Câmara Municipal de Lisboa 39 mil metros quadrados de terrenos que eram do Metro, com direito a 80 mil metros quadrados de construção – direito já vendido a um promotor imobiliário por 27,5 milhões de euros. Uma bela prenda de Carnaval da mais arruinada autarquia do país. Para quem conhece os terrenos e o processo e sabe que o Metro viu ser ressarcido da «oferta» a que foi obrigado pela CML com outros terrenos no Cais do Sodré, não podem restar dúvidas de que se está perante uma decisão escandalosa, do ponto de vista político e urbanístico. E ainda falta decidir se a CML não irá atribuir mais outros 39 mil metros quadrados ao Sporting, fundando-se em «direitos adquiridos» por promessas políticas do passado. Concorrência desleal? Não, «saneamento financeiro» e «boa gestão».
Domingo, enfim, o Sporting recebeu em Alvalade o bicampeão nacional – ou melhor, o quase tricampeão. Casa cheia, como sempre acontece quando o F.C.Porto desce à capital, e garantia de que dos 2500 adeptos portistas não viriam nem cadeiras partidas, nem tochas incendiárias atiradas para o relvado em pleno jogo, nem adeptos leoninos esfaqueados, como por vezes acontece por outras paragens e com adeptos de outros clubes de «ética superior».
Ainda não havia um minuto de jogo e já Lucho González, todavia autor de uma exibição brilhante, falhava a primeira das quatro oportunidades de golo de baliza aberta de que dispôs. Aos oito, Lizandro – um portento à solta em todo o jogo, reduzindo a zona central da defesa leonina a uma casa de loucos – marcava um belíssimo golo, muito injustamente anulado por justo off-side. E dois minutos depois, Lizandro e Lucho entraram por ali adentro em tabelinhas, num tango de partir os rins àquela defesa, culminado com mais um remate de Lucho desviado do golo pelos deuses da fortuna. Aos dez minutos, o F.C.Porto podia estar a ganhar por 3-0…
Foi então que, como frequentemente acontece nos jogos tidos como mais importantes, o místico Helton resolveu entrar no jogo e ajudar os mais desfavorecidos. Primeiro, deixando passar um inofensivo remate entre as pernas – naquilo a que, segundo o próprio, só quem não percebe nada de futebol, como eu, é que pode classificar de frango. Tem razão, não foi frango: foi peru. Frango veio logo a seguir, sacudindo com uma diligente palmadinha para a cabeça do Ismailov uma bola que sobrevoou a pequena área – essa zona nevrálgica onde ele costuma viver entre a paralisia e a asneira. Tenho a melhor impressão do Helton, como pessoa e como profissional, o problema é que ele é também guarda-redes e logo do meu clube. E acontece, como desde há muito venho tentando explicar, que um guarda-redes que não domina o jogo aéreo, que treme de cada vez que tem que jogar com os pés e que revela uma estranha tendência para abrir buracos do tamanho de crateras nos jogos mais importantes, até pode fazer grandes defesas volta e meia, mas a mim dá-me tanta confiança como os administradores do BCP – os actuais e os antigos.
Como se não bastasse a colaboração generosa do Helton, também o juiz de linha do ataque do Sporting, ao contrário do seu colega do outro lado, estava três passos atrasado em relação à jogada e não viu o fora-de-jogo no segundo golo. E assim, em apenas dois minutos, sem ter ainda chutado à baliza e sem ter tido sequer necessidade de criar oportunidades de golo, o Sporting viu-se a ganhar por 2-0, sem saber ler nem escrever. Depois…enfim, Jesualdo Ferreira corrigiu alguns erros próprios e insistiu noutros (o Mariano, o Helton, até a pé coxinho!), e o F.C.Porto sujeitou o Sporting, daí até final, a uma das maiores tareias futebolísticas a que me lembro de ter assistido em Alvalade. Lucho perdeu mais outros dois golos feitos, Farias acertou uma em Polga no risco de golo e outra na trave e Quaresma e Lisandro levantaram tinta ao poste esquerdo da baliza de Rui Patrício, a ver as bolas passar. Houve largos períodos da segunda parte em que o Sporting só tinha um jogador para lá da linha de meio campo e, com toda a franqueza, houve jogadores de verde que eu nem me lembro de ter visto em campo, como o Moutinho, o Romagnoli ou o Liedson. Li por aí, e tal como esperado, que o «leão foi de raça», que a equipa ressuscitou e que a «organização» foi responsável pela vitória. Uma dedicada alma sportingusita mandou-me um SMS a seguir ao jogo: «assim se vê a força do leão!» Assim se vê? A força? Pois eu o que vi foi um jogo para 4-1 ou 5-1 que acabou em 0-2. Às vezes, acontece. Mas, tal como Jesualdo Ferreira, também acho que se viu e bem o porquê de o Porto ter o avanço que tem e porquê que vai ganhar este campeonato tranquilamente.
Na véspera, em Guimarães, o Benfica após muito e muito sofrimento, lá «saliu ganhando», como diz Camacho. Foi um jogo também de resultado injusto, porque a maioria das oportunidades e os períodos de melhor futebol pertenceram claramente ao Vitória. O jogo serviu-me para acentuar duas dúvidas que venho mantendo e confirmar uma certeza. A primeira dúvida é saber por que razão há benfiquistas que embirram com Cardozo – será que esperavam que ele sozinho resolvesse tudo? A segunda dúvida, de que já tenho falado, é saber qual terá sido a razão para Jesualdo Ferreira prescindir de um jogador como Alan, que é fundamental neste Vitória de Guimarães? Logo no princípio da época, ao ver formar-se o plantel, perguntei aqui como é que um treinador adepto fiel do 4X3X3 (e eu também sou), dispensa de uma assentada seis extremos – Alan, Pitbull, Vierinha, Ivanildo, Helder Barbosa, Diogo Valente – ficando apenas com três para toda a época e sabendo-se de antemão que um deles iria estar um mês fora, na CAN? Mas, prescindido do Alan, ele não prescindiu apenas de um extremo, prescindiu também de um jogador que, em minha opinião, qualquer treinador tem obrigação de perceber que, bem orientado, se pode vir a tornar um caso sério de bom futebol. Enfim, a certeza com que fiquei do jogo de Guimarães é esta (e à atenção do FC Porto): aquele rapaz chamado Geromel é a grande revelação deste campeonato e um central fabuloso: rápido, eficaz, elegante, de jogo limpo e capaz de sair a jogar e entregar a bola à distância e com visão de jogo. Faz-me lembrar o Aloísio, o que é o melhor elogio que posso fazer a qualquer central.
Há marés de sorte e esta semana o Sporting viveu uma delas. Terça-feira recebeu em Alvalade o modesto Beira-Mar, do meio da tabela da 2.ª Divisão e, após 70 minutos de desinspirado esforço, viu o guarda-redes de Aveiro escancarar-lhe as portas da sua baliza até ao 3-0 final. E, com essa simples vitória, e apesar da anterior derrota com o Vitória de Setúbal (e também em casa contra o Fátima, da 3.ª Divisão!), tem presença já garantida na final dessa confusa competição baptizada de Taça da Liga.
Quarta-feira foi a grande notícia, há muito esperada com ansiedade: graças aos votos do PS e do PP, recebeu da Câmara Municipal de Lisboa 39 mil metros quadrados de terrenos que eram do Metro, com direito a 80 mil metros quadrados de construção – direito já vendido a um promotor imobiliário por 27,5 milhões de euros. Uma bela prenda de Carnaval da mais arruinada autarquia do país. Para quem conhece os terrenos e o processo e sabe que o Metro viu ser ressarcido da «oferta» a que foi obrigado pela CML com outros terrenos no Cais do Sodré, não podem restar dúvidas de que se está perante uma decisão escandalosa, do ponto de vista político e urbanístico. E ainda falta decidir se a CML não irá atribuir mais outros 39 mil metros quadrados ao Sporting, fundando-se em «direitos adquiridos» por promessas políticas do passado. Concorrência desleal? Não, «saneamento financeiro» e «boa gestão».
Domingo, enfim, o Sporting recebeu em Alvalade o bicampeão nacional – ou melhor, o quase tricampeão. Casa cheia, como sempre acontece quando o F.C.Porto desce à capital, e garantia de que dos 2500 adeptos portistas não viriam nem cadeiras partidas, nem tochas incendiárias atiradas para o relvado em pleno jogo, nem adeptos leoninos esfaqueados, como por vezes acontece por outras paragens e com adeptos de outros clubes de «ética superior».
Ainda não havia um minuto de jogo e já Lucho González, todavia autor de uma exibição brilhante, falhava a primeira das quatro oportunidades de golo de baliza aberta de que dispôs. Aos oito, Lizandro – um portento à solta em todo o jogo, reduzindo a zona central da defesa leonina a uma casa de loucos – marcava um belíssimo golo, muito injustamente anulado por justo off-side. E dois minutos depois, Lizandro e Lucho entraram por ali adentro em tabelinhas, num tango de partir os rins àquela defesa, culminado com mais um remate de Lucho desviado do golo pelos deuses da fortuna. Aos dez minutos, o F.C.Porto podia estar a ganhar por 3-0…
Foi então que, como frequentemente acontece nos jogos tidos como mais importantes, o místico Helton resolveu entrar no jogo e ajudar os mais desfavorecidos. Primeiro, deixando passar um inofensivo remate entre as pernas – naquilo a que, segundo o próprio, só quem não percebe nada de futebol, como eu, é que pode classificar de frango. Tem razão, não foi frango: foi peru. Frango veio logo a seguir, sacudindo com uma diligente palmadinha para a cabeça do Ismailov uma bola que sobrevoou a pequena área – essa zona nevrálgica onde ele costuma viver entre a paralisia e a asneira. Tenho a melhor impressão do Helton, como pessoa e como profissional, o problema é que ele é também guarda-redes e logo do meu clube. E acontece, como desde há muito venho tentando explicar, que um guarda-redes que não domina o jogo aéreo, que treme de cada vez que tem que jogar com os pés e que revela uma estranha tendência para abrir buracos do tamanho de crateras nos jogos mais importantes, até pode fazer grandes defesas volta e meia, mas a mim dá-me tanta confiança como os administradores do BCP – os actuais e os antigos.
Como se não bastasse a colaboração generosa do Helton, também o juiz de linha do ataque do Sporting, ao contrário do seu colega do outro lado, estava três passos atrasado em relação à jogada e não viu o fora-de-jogo no segundo golo. E assim, em apenas dois minutos, sem ter ainda chutado à baliza e sem ter tido sequer necessidade de criar oportunidades de golo, o Sporting viu-se a ganhar por 2-0, sem saber ler nem escrever. Depois…enfim, Jesualdo Ferreira corrigiu alguns erros próprios e insistiu noutros (o Mariano, o Helton, até a pé coxinho!), e o F.C.Porto sujeitou o Sporting, daí até final, a uma das maiores tareias futebolísticas a que me lembro de ter assistido em Alvalade. Lucho perdeu mais outros dois golos feitos, Farias acertou uma em Polga no risco de golo e outra na trave e Quaresma e Lisandro levantaram tinta ao poste esquerdo da baliza de Rui Patrício, a ver as bolas passar. Houve largos períodos da segunda parte em que o Sporting só tinha um jogador para lá da linha de meio campo e, com toda a franqueza, houve jogadores de verde que eu nem me lembro de ter visto em campo, como o Moutinho, o Romagnoli ou o Liedson. Li por aí, e tal como esperado, que o «leão foi de raça», que a equipa ressuscitou e que a «organização» foi responsável pela vitória. Uma dedicada alma sportingusita mandou-me um SMS a seguir ao jogo: «assim se vê a força do leão!» Assim se vê? A força? Pois eu o que vi foi um jogo para 4-1 ou 5-1 que acabou em 0-2. Às vezes, acontece. Mas, tal como Jesualdo Ferreira, também acho que se viu e bem o porquê de o Porto ter o avanço que tem e porquê que vai ganhar este campeonato tranquilamente.
Na véspera, em Guimarães, o Benfica após muito e muito sofrimento, lá «saliu ganhando», como diz Camacho. Foi um jogo também de resultado injusto, porque a maioria das oportunidades e os períodos de melhor futebol pertenceram claramente ao Vitória. O jogo serviu-me para acentuar duas dúvidas que venho mantendo e confirmar uma certeza. A primeira dúvida é saber por que razão há benfiquistas que embirram com Cardozo – será que esperavam que ele sozinho resolvesse tudo? A segunda dúvida, de que já tenho falado, é saber qual terá sido a razão para Jesualdo Ferreira prescindir de um jogador como Alan, que é fundamental neste Vitória de Guimarães? Logo no princípio da época, ao ver formar-se o plantel, perguntei aqui como é que um treinador adepto fiel do 4X3X3 (e eu também sou), dispensa de uma assentada seis extremos – Alan, Pitbull, Vierinha, Ivanildo, Helder Barbosa, Diogo Valente – ficando apenas com três para toda a época e sabendo-se de antemão que um deles iria estar um mês fora, na CAN? Mas, prescindido do Alan, ele não prescindiu apenas de um extremo, prescindiu também de um jogador que, em minha opinião, qualquer treinador tem obrigação de perceber que, bem orientado, se pode vir a tornar um caso sério de bom futebol. Enfim, a certeza com que fiquei do jogo de Guimarães é esta (e à atenção do FC Porto): aquele rapaz chamado Geromel é a grande revelação deste campeonato e um central fabuloso: rápido, eficaz, elegante, de jogo limpo e capaz de sair a jogar e entregar a bola à distância e com visão de jogo. Faz-me lembrar o Aloísio, o que é o melhor elogio que posso fazer a qualquer central.
sábado, janeiro 26, 2008
A CULPA DO FISCAL DE LINHA (22 JANEIRO 2008)
1 - O meu correligionário e amigo Rui Moreira já aqui escreveu sobre este assunto, na sua coluna de sexta-feira passada: parece que uns benfiquistas perseverantes e esclarecidos descobriram a causa profunda do desaire caseiro do SLB contra o Leixões, na última jornada do campeonato. E essa causa foi o facto de o juiz-de-linha do jogo, que anulou um golo ao Benfica, ser sócio do FC Porto.
Ao certo, ninguém sabe se tal facto é verdade ou não, mas há razões para desconfiar da acusação. Não só porque dificilmente vejo como é que essa gente terá acesso à lista de sócios de um clube, como, sobretudo, porque, nos tempos que correm, só um árbitro sem interesse nenhum na carreira é que se atrevia a ser sócio ou simpatizante declarado do FC Porto. Ser árbitro e ser conotado com os portistas, hoje em dia, é meio caminho andado para o extermínio público às mãos de diligentes «jornalistas» ao serviço do Benfica.
Mas, adiante. Verdade ou não, o que interessa reter é que a citada acusação não se limita a dizer que o juiz-de-linha que efectivamente anulou um golo ao Benfica sem razão alguma, porque não havia off-side, só o fez para deliberadamente prejudicar o Benfica e beneficiar o «seu» FC Porto. Ou seja, a acusação é completa: dolo, má-fé, batota deliberada.
O meu primeiro comentário é este: se assim foi, não havia necessidade. Com nove pontos de avanço, o FC Porto já se podia passear no campeonato; com onze, passeia-se apenas um pouco mais. E, para o caso de ninguém ter ainda reparado, aquela equipa do Benfica que vamos vendo jogar, semana após semana, não tem qualquer possibilidade, qualquer veleidade, qualquer capacidade, para morder os calcanhares ao FC Porto. Nem é preciso ir recuperar a memória da imagem de total impotência que deu no jogo entre ambos na Luz, para o provar. Basta reter as prestações mais recentes daquele triste grupo de jogadores, como a deste sábado contra o Feirense. Como aqui escrevi na semana passada, o golo contra o Leixões foi, de facto, mal anulado, mas uma equipe capaz (sobretudo num jogo que tem obrigação de ser acessível) tem de jogar o suficiente para se colocar ao abrigo de um erro de arbitragem. No dia seguinte, contra o Braga, também o FC Porto teve uma jogada de golo iminente mal anulado por inexistente deslocação: mas isso não impediu a cavalgada subsequente dos portistas até ao 4-0. Ao invés, o que se viu no Benfica-Leixões foi que os encarnados ainda podem agradecer à sorte não terem saído da Luz com uma derrota.
Tal como escreveu o Rui Moreira (e eu próprio, já várias vezes), esta tentação irresistível que os principais adversários internos dos portistas têm de justificarem todos os desaires com pretensas culpas dos árbitros, dá-nos a nós, portistas, um sentimento de profundo alívio: é que, enquanto assim pensarem, enquanto quiserem acreditar que a culpa dos erros próprios é sempre alheia, jamais descobrirão as causas do malogro em que vivem instalados e reencontrarão o caminho dos êxitos. Pois que se conservem assim, nessa doce desresponsabilização!
Não obstante, a jogada do golo anulado ao Benfica deve dar que pensar, porque, infelizmente, é uma jogada muito habitual entre nós. Raro, raríssimo, é o jogo em que não se vê um ou dois foras-de-jogo mal sacados. E como o mais comum é os foras-de-jogo envolverem uma jogada em que um atacante vai ficar isolado, o que daqui decorre é que algumas das melhores hipóteses de golo morrem na bandeirinha do liner. Eu sei que isto sucede em todo o lado, que é mesmo uma das contingências inevitáveis do futebol – pelo menos enquanto não se inventarem máquinas que substituam o olhar humano. Mas repito que me parece que em Portugal a frequência dos erros é bem maior. Entre nós, os juízes-de-linha jogam sistematicamente à defesa, e a defesa, nesta caso, resulta em prejuízo do ataque, ao contrário da regra de conduta da FIFA de que, na dúvida, deve-se beneficiar quem ataca.
Mas há jogadas e jogadas. A do golo anulado a Nuno Gomes é do tipo das que são mais difíceis de avaliar, porque há um movimento simultâneo e contrário entre o avançado que corre para a baliza e os defesas que correm no sentido oposto, exactamente para o colocarem em fora-de-jogo. Ora, acontece que o auxiliar tem de observar, no espaço de um ou dois segundos, dois tempos sucessivos da jogada: o tempo em que a bola é passada e o tempo em que o jogador a quem ela é destinada se desmarca. Tem de olhar primeiro para um lado e depois para mais à frente e, nesse curtíssimo intervalo de tempo, os defesas avançam, de modo que, quando o olhar do auxiliar chega ao avançado, este está em off-side nesse momento, mas não estava antes. É forçoso concordar que é uma jogada de muito difícil avaliação. Mesmo nós, sentados calmamente em casa em frente à televisão, necessitamos por vezes de várias repetições e em slow-motion para chegar a uma conclusão. E isto para já não falar dos comentadores em directo dos jogos, que se enganam com muito mais frequência do que os árbitros e com a vantagem de o fazerem sem consequências algumas.
Todavia, a consciência de que este tipo de jogadas, por ser frequente, rápidas e de difícil avaliação, levam muitas vezes a erros de arbitragem, talvez justificasse que se teorizasse sobre o seu julgamento noutros moldes. Ou seja, que se estabelecesse a regra de que, quando o juiz-de-linha tem a consciência de que o off-side é arrancado «à faca», deve abster-se de o assinalar. Só que isso envolveria um compromisso de todos, a começar pela crítica: o de que, quando surgisse o erro inverso (isto é, um off-side não assinalado que resultasse em golo), não caíssem todos em cima do auxiliar, pelas razões opostas. Se bem conheço os hábitos locais, esta seria uma missão impossível.
2 - Lá temos mais um caso de jogador mal inscrito – o «caso Meyong». Mais uma situação lamentável em que a verdade dos resultados obtidos no campo é desvirtuada na secretaria. É uma sina.
Obviamente, eu defendo que seja penalizada desportivamente a inscrição irregular de jogadores, sob pena de os que cumprem as regras e os que fazem batota ou simplesmente não se preocupam com o assunto não serem tratados da mesma maneira. Mas este caso Meyong tem a particularidade de envolver vários responsáveis e a todos os níveis do processo, embora, no final, só o Belenenses vá sofrer as consequências.
Em primeiro lugar, o próprio clube espanhol que emprestou o jogador ao Belenenses – o Albacete – tem responsabilidade moral em não ter avisado os portugueses de que o jogador já tinha jogado por duas equipas diferentes esta época e, consequentemente, não poderia jogar por uma terceira. Fica a suspeita de que não o fez porque se queria ver livre do jogador e encaixar algum dinheiro com o empréstimo.
Depois, como é óbvio, há responsabilidade do próprio jogador e do seu agente, que tinham obrigação de conhecer as regras e ficaram calados: ou por ignorância ou por má-fé.
A seguir, há responsabilidade do Belenenses que, pela mão do seu presidente, do seu director desportivo ou de ambos, deu mostras de grande amadorismo e impreparação.
Depois, e ao contrário do lavar de mãos displicente de Gilberto Madail, também há responsabilidade da Federação. Dizer que aceitar a inscrição de um jogador não é o mesmo que autorizá-lo a competir, é uma falácia sem grande imaginação. Para que julgaria a Federação que o Belenenses queria inscrever o Meyong – para jogar andebol ou para trabalhar na secretaria?
E, enfim, sobra uma culpa, confessada espontaneamente pelo próprio e que não deveria passar sem consequências: a do presidente da Naval, que veio dizer que já sabia antes do jogo que o Meyong não podia jogar, mas calou-se muito bem caladinho. E, como o resultado foi desfavorável, só a seguir ao jogo é que levantou o problema. Por aqui se avalia o nível ético e de desportivismo com que o senhor está no futebol.
Ao certo, ninguém sabe se tal facto é verdade ou não, mas há razões para desconfiar da acusação. Não só porque dificilmente vejo como é que essa gente terá acesso à lista de sócios de um clube, como, sobretudo, porque, nos tempos que correm, só um árbitro sem interesse nenhum na carreira é que se atrevia a ser sócio ou simpatizante declarado do FC Porto. Ser árbitro e ser conotado com os portistas, hoje em dia, é meio caminho andado para o extermínio público às mãos de diligentes «jornalistas» ao serviço do Benfica.
Mas, adiante. Verdade ou não, o que interessa reter é que a citada acusação não se limita a dizer que o juiz-de-linha que efectivamente anulou um golo ao Benfica sem razão alguma, porque não havia off-side, só o fez para deliberadamente prejudicar o Benfica e beneficiar o «seu» FC Porto. Ou seja, a acusação é completa: dolo, má-fé, batota deliberada.
O meu primeiro comentário é este: se assim foi, não havia necessidade. Com nove pontos de avanço, o FC Porto já se podia passear no campeonato; com onze, passeia-se apenas um pouco mais. E, para o caso de ninguém ter ainda reparado, aquela equipa do Benfica que vamos vendo jogar, semana após semana, não tem qualquer possibilidade, qualquer veleidade, qualquer capacidade, para morder os calcanhares ao FC Porto. Nem é preciso ir recuperar a memória da imagem de total impotência que deu no jogo entre ambos na Luz, para o provar. Basta reter as prestações mais recentes daquele triste grupo de jogadores, como a deste sábado contra o Feirense. Como aqui escrevi na semana passada, o golo contra o Leixões foi, de facto, mal anulado, mas uma equipe capaz (sobretudo num jogo que tem obrigação de ser acessível) tem de jogar o suficiente para se colocar ao abrigo de um erro de arbitragem. No dia seguinte, contra o Braga, também o FC Porto teve uma jogada de golo iminente mal anulado por inexistente deslocação: mas isso não impediu a cavalgada subsequente dos portistas até ao 4-0. Ao invés, o que se viu no Benfica-Leixões foi que os encarnados ainda podem agradecer à sorte não terem saído da Luz com uma derrota.
Tal como escreveu o Rui Moreira (e eu próprio, já várias vezes), esta tentação irresistível que os principais adversários internos dos portistas têm de justificarem todos os desaires com pretensas culpas dos árbitros, dá-nos a nós, portistas, um sentimento de profundo alívio: é que, enquanto assim pensarem, enquanto quiserem acreditar que a culpa dos erros próprios é sempre alheia, jamais descobrirão as causas do malogro em que vivem instalados e reencontrarão o caminho dos êxitos. Pois que se conservem assim, nessa doce desresponsabilização!
Não obstante, a jogada do golo anulado ao Benfica deve dar que pensar, porque, infelizmente, é uma jogada muito habitual entre nós. Raro, raríssimo, é o jogo em que não se vê um ou dois foras-de-jogo mal sacados. E como o mais comum é os foras-de-jogo envolverem uma jogada em que um atacante vai ficar isolado, o que daqui decorre é que algumas das melhores hipóteses de golo morrem na bandeirinha do liner. Eu sei que isto sucede em todo o lado, que é mesmo uma das contingências inevitáveis do futebol – pelo menos enquanto não se inventarem máquinas que substituam o olhar humano. Mas repito que me parece que em Portugal a frequência dos erros é bem maior. Entre nós, os juízes-de-linha jogam sistematicamente à defesa, e a defesa, nesta caso, resulta em prejuízo do ataque, ao contrário da regra de conduta da FIFA de que, na dúvida, deve-se beneficiar quem ataca.
Mas há jogadas e jogadas. A do golo anulado a Nuno Gomes é do tipo das que são mais difíceis de avaliar, porque há um movimento simultâneo e contrário entre o avançado que corre para a baliza e os defesas que correm no sentido oposto, exactamente para o colocarem em fora-de-jogo. Ora, acontece que o auxiliar tem de observar, no espaço de um ou dois segundos, dois tempos sucessivos da jogada: o tempo em que a bola é passada e o tempo em que o jogador a quem ela é destinada se desmarca. Tem de olhar primeiro para um lado e depois para mais à frente e, nesse curtíssimo intervalo de tempo, os defesas avançam, de modo que, quando o olhar do auxiliar chega ao avançado, este está em off-side nesse momento, mas não estava antes. É forçoso concordar que é uma jogada de muito difícil avaliação. Mesmo nós, sentados calmamente em casa em frente à televisão, necessitamos por vezes de várias repetições e em slow-motion para chegar a uma conclusão. E isto para já não falar dos comentadores em directo dos jogos, que se enganam com muito mais frequência do que os árbitros e com a vantagem de o fazerem sem consequências algumas.
Todavia, a consciência de que este tipo de jogadas, por ser frequente, rápidas e de difícil avaliação, levam muitas vezes a erros de arbitragem, talvez justificasse que se teorizasse sobre o seu julgamento noutros moldes. Ou seja, que se estabelecesse a regra de que, quando o juiz-de-linha tem a consciência de que o off-side é arrancado «à faca», deve abster-se de o assinalar. Só que isso envolveria um compromisso de todos, a começar pela crítica: o de que, quando surgisse o erro inverso (isto é, um off-side não assinalado que resultasse em golo), não caíssem todos em cima do auxiliar, pelas razões opostas. Se bem conheço os hábitos locais, esta seria uma missão impossível.
2 - Lá temos mais um caso de jogador mal inscrito – o «caso Meyong». Mais uma situação lamentável em que a verdade dos resultados obtidos no campo é desvirtuada na secretaria. É uma sina.
Obviamente, eu defendo que seja penalizada desportivamente a inscrição irregular de jogadores, sob pena de os que cumprem as regras e os que fazem batota ou simplesmente não se preocupam com o assunto não serem tratados da mesma maneira. Mas este caso Meyong tem a particularidade de envolver vários responsáveis e a todos os níveis do processo, embora, no final, só o Belenenses vá sofrer as consequências.
Em primeiro lugar, o próprio clube espanhol que emprestou o jogador ao Belenenses – o Albacete – tem responsabilidade moral em não ter avisado os portugueses de que o jogador já tinha jogado por duas equipas diferentes esta época e, consequentemente, não poderia jogar por uma terceira. Fica a suspeita de que não o fez porque se queria ver livre do jogador e encaixar algum dinheiro com o empréstimo.
Depois, como é óbvio, há responsabilidade do próprio jogador e do seu agente, que tinham obrigação de conhecer as regras e ficaram calados: ou por ignorância ou por má-fé.
A seguir, há responsabilidade do Belenenses que, pela mão do seu presidente, do seu director desportivo ou de ambos, deu mostras de grande amadorismo e impreparação.
Depois, e ao contrário do lavar de mãos displicente de Gilberto Madail, também há responsabilidade da Federação. Dizer que aceitar a inscrição de um jogador não é o mesmo que autorizá-lo a competir, é uma falácia sem grande imaginação. Para que julgaria a Federação que o Belenenses queria inscrever o Meyong – para jogar andebol ou para trabalhar na secretaria?
E, enfim, sobra uma culpa, confessada espontaneamente pelo próprio e que não deveria passar sem consequências: a do presidente da Naval, que veio dizer que já sabia antes do jogo que o Meyong não podia jogar, mas calou-se muito bem caladinho. E, como o resultado foi desfavorável, só a seguir ao jogo é que levantou o problema. Por aqui se avalia o nível ético e de desportivismo com que o senhor está no futebol.
SHOW DE BOLA (15 JANEIRO 2008)
1- Cristiano Ronaldo à solta, sem posição específica e como vagabundo de luxo no ataque do Manchester United é verdadeiramente um show de bola. Não deve ter havido um único jogador do mundo que algum dia não tenha sonhado integrar aquele ataque de vedetas, ocupar aquelas funções de absoluta liberdade e gozar desse estatuto de excepção que o português conquistou no campeão inglês e mais rico clube do mundo. Hoje, Cristiano Ronaldo não tem preço. Um jogador que, não sendo ponta-de-lança de função, marca 15 golos em 18 jogos da Premiership, que joga bem de cabeça, remata fabulosamente com os pés, cobra livres com mestria, dribla em velocidade ou parado, é terrível no um para um e arranca a uma velocidade que faz dinamitar em segundos as linhas defensivas adversárias, é um jogador que está para além de qualquer cotação do mercado. Ao seu lado, jogam expoentes como Giggs, Tevez, Rooney ou Nani e Anderson (em funções de trinco!), mas, quando a bola lhe chega aos pés, parece que todos os outros se eclipsam e pelas bancadas do estádio perpassa aquela sensação de imponderabilidade e magia reservada apenas àqueles que os deuses destinaram à imortalidade no relvado. Com Ronaldo, sabemos que estamos a ver história, que estamos convocados para todo o esplendor de que o futebol é capaz. Mas, se a magia não bastasse, se o talento em movimento, como uma onda de surf a caminho da praia, que acompanha a sua movimentação em campo, não fosse por si só suficiente, sobra ainda essa impressionante disponibilidade fisica e mental para o jogo de que ele dá mostras. Com Ronaldo, parece que os 90 minutos lhe sabem sempre a pouco: quem sabe, se o deixassem, não ficaria ali duas ou três horas de seguida a desbaratar todas as leis de ciência certa que se aplicam ao futebol! Assim como na infância, quando parecia que todas as horas livres de uma tarde não chegavam para consumir essa paixão inexplicável de correr atrás de uma bola de futebol.
2- Estas coisas pagam-se. Sem Ronaldo, sem Nani, sem Simão, sem Deco, sem Pepe e tantos outros, o nosso futebol só pode ir minguando e perdendo qualidade. Transformámo-nos numa plataforma logistica de embrulhar talentos para exportação — e cada vez menos apenas portugueses. É uma fonte de receita para os clubes e uma fonte de tristeza para os espectadores. No final desta época, anunciado já por várias aves de rapina, parte substancial do que resta de talentos por aí — todos no FC Porto — irá emigrar para outras paragens e para o ano teremos enfim um campeonato nivelado, disputado por uma legião de jogadores com nomes terminados em «ez» ou «ic», mais uma fornada de miúdos saídos das academias e a quem basta uma só exibição conseguida para se porem logo a sonhar com Reais Madrids e Manchesteres Uniteds. É a vida.
3- Enquanto isso não sucede, o FC Porto vai passeando a sua supremacia interna em termos que já são de humilhação dos rivais. Este fim-de-semana, terminou com as veleidades de grandeza do Sporting de Braga, através de uma demonstração de força que só mesmo Manuel Machado é que conseguiu ver como «um jogo nivelado nos seus aspectos gerais».
Antes disso, na Luz, o Benfica somara mais uma exibição à toa e mais dois pontos perdidos com inteira justiça. É certo que se pode queixar, pelo menos, de um golo mal anulado, mas isso não justifica tudo o que não jogou. Também contra o Nacional, na sua única derrota sofrida, o FC Porto foi vítima de uma má decisão do árbitro com influência directa no resultado e eu, pelo menos, não me queixei disso, porque vi bem que os culpados da derrota foram outros: Postiga (que seja muito feliz na Grécia!), Mariano González (que volte rapidamente para Itália!) e Jesualdo Ferreira, que montou uma equipa destinada à derrota. Como sempre disse e repito, quando uma equipa não joga o suficiente para justificar a vitória nem se colocar ao abrigo de um eventual erro de arbitragem, não tem legitimidade para culpar esse erro dos males que lhe sucedem.
Como já é hábito, o Benfica continua a pensar em grande e a executar em pequeno. Nesta nova época de transferências, lá vêm as inevitáveis notícias dos jogadores que o Benfica «segue» e que «tem em observação» e dos craques que só sonham em vestir a camisola do Benfica e que depois se percebe que estão a uns largos milhões de euros dessa «oportunidade». Tudo se faz com um imenso alarido que não é apenas fruto de amadorismo negocial, mas uma política propagandística pensada de atirar fumo para os olhos dos adeptos. Para já, no rescaldo do empate com o Leixões, surge o anúncio da primeira compra da estação: um desconhecidíssimo defesa-esquerdo com nome de refrigerante, oriundo de uma desconhecidíssima equipa romena, para o lugar do Léo, que ninguém compreende porque não serve.
No Sporting, desta vez com bastante pouca sorte, novo semi-desaire, em Coimbra, veio agravar o estado de desânimo que parece ter-se instalado em todos: técnico, jogadores, direcção, adeptos. Só uma vitória sobre o FC Porto, dia 26, poderá levantar um bocado o orgulho ferido e animar a descrença das hostes leoninas, mas já nem isso poderá devolver quaisquer esperanças que não as de se manter na luta pelo segundo lugar.
No FC Porto, Jesualdo tem pela frente uma dupla tarefa, que não é tão fácil quanto isso, embora infinitamente mais agradável que as de Paulo Bento ou Camacho. Por um lado, tem de manter a equipa motivada para não acontecerem mais percalços e negligências como o do Nacional; por outro lado, tem de dar algum descanso aos jogadores mais influentes, de modo a tê-los frescos para a retoma da luta europeia, em finais de Fevereiro. E, para isso, deve começar a estender a manta, para que não conte apenas com onze ou doze jogadores fiáveis. Nessa perspectiva, parece-me errada a dispensa de Leandro Lima, a quem practicamente não concedeu quaisquer oportunidades, em contraste com Mariano ou Stepanov, em quem tem insistido até à naúsea. Parece-me acertada (se verídica) a notícia de que chegará já um central para reforçar a defesa — se o Bruno Alves tem o azar de se magoar, tudo aquilo se desmorona num instante. E parece-me acertadíssima a decisão de fazer ingressar já no plantel Helder Barbosa e Rabiola. Como escrevi há tempos, seria injustificável ver o FC Porto a lançar-se outra vez em compras a torto e a direito, quando tem tantos jogadores emprestados em destaque noutras equipas: Alan, Ibson, Diogo Valente, Vieirinha e até o inesperado Pittbull. Jesualdo está numa posição privilegiadíssima, com o campeonato no bolso e a qualificação na Champions garantida, para dispor de um tempo de passagem de luxo até ao jogo com o Schalke, de modo a retocar a equipa e fazer integrar uma, duas ou três alternativas reais ao onze de todos os dias. E é nestas alturas, também que se vê a capacidade dos treinadores.
2- Estas coisas pagam-se. Sem Ronaldo, sem Nani, sem Simão, sem Deco, sem Pepe e tantos outros, o nosso futebol só pode ir minguando e perdendo qualidade. Transformámo-nos numa plataforma logistica de embrulhar talentos para exportação — e cada vez menos apenas portugueses. É uma fonte de receita para os clubes e uma fonte de tristeza para os espectadores. No final desta época, anunciado já por várias aves de rapina, parte substancial do que resta de talentos por aí — todos no FC Porto — irá emigrar para outras paragens e para o ano teremos enfim um campeonato nivelado, disputado por uma legião de jogadores com nomes terminados em «ez» ou «ic», mais uma fornada de miúdos saídos das academias e a quem basta uma só exibição conseguida para se porem logo a sonhar com Reais Madrids e Manchesteres Uniteds. É a vida.
3- Enquanto isso não sucede, o FC Porto vai passeando a sua supremacia interna em termos que já são de humilhação dos rivais. Este fim-de-semana, terminou com as veleidades de grandeza do Sporting de Braga, através de uma demonstração de força que só mesmo Manuel Machado é que conseguiu ver como «um jogo nivelado nos seus aspectos gerais».
Antes disso, na Luz, o Benfica somara mais uma exibição à toa e mais dois pontos perdidos com inteira justiça. É certo que se pode queixar, pelo menos, de um golo mal anulado, mas isso não justifica tudo o que não jogou. Também contra o Nacional, na sua única derrota sofrida, o FC Porto foi vítima de uma má decisão do árbitro com influência directa no resultado e eu, pelo menos, não me queixei disso, porque vi bem que os culpados da derrota foram outros: Postiga (que seja muito feliz na Grécia!), Mariano González (que volte rapidamente para Itália!) e Jesualdo Ferreira, que montou uma equipa destinada à derrota. Como sempre disse e repito, quando uma equipa não joga o suficiente para justificar a vitória nem se colocar ao abrigo de um eventual erro de arbitragem, não tem legitimidade para culpar esse erro dos males que lhe sucedem.
Como já é hábito, o Benfica continua a pensar em grande e a executar em pequeno. Nesta nova época de transferências, lá vêm as inevitáveis notícias dos jogadores que o Benfica «segue» e que «tem em observação» e dos craques que só sonham em vestir a camisola do Benfica e que depois se percebe que estão a uns largos milhões de euros dessa «oportunidade». Tudo se faz com um imenso alarido que não é apenas fruto de amadorismo negocial, mas uma política propagandística pensada de atirar fumo para os olhos dos adeptos. Para já, no rescaldo do empate com o Leixões, surge o anúncio da primeira compra da estação: um desconhecidíssimo defesa-esquerdo com nome de refrigerante, oriundo de uma desconhecidíssima equipa romena, para o lugar do Léo, que ninguém compreende porque não serve.
No Sporting, desta vez com bastante pouca sorte, novo semi-desaire, em Coimbra, veio agravar o estado de desânimo que parece ter-se instalado em todos: técnico, jogadores, direcção, adeptos. Só uma vitória sobre o FC Porto, dia 26, poderá levantar um bocado o orgulho ferido e animar a descrença das hostes leoninas, mas já nem isso poderá devolver quaisquer esperanças que não as de se manter na luta pelo segundo lugar.
No FC Porto, Jesualdo tem pela frente uma dupla tarefa, que não é tão fácil quanto isso, embora infinitamente mais agradável que as de Paulo Bento ou Camacho. Por um lado, tem de manter a equipa motivada para não acontecerem mais percalços e negligências como o do Nacional; por outro lado, tem de dar algum descanso aos jogadores mais influentes, de modo a tê-los frescos para a retoma da luta europeia, em finais de Fevereiro. E, para isso, deve começar a estender a manta, para que não conte apenas com onze ou doze jogadores fiáveis. Nessa perspectiva, parece-me errada a dispensa de Leandro Lima, a quem practicamente não concedeu quaisquer oportunidades, em contraste com Mariano ou Stepanov, em quem tem insistido até à naúsea. Parece-me acertada (se verídica) a notícia de que chegará já um central para reforçar a defesa — se o Bruno Alves tem o azar de se magoar, tudo aquilo se desmorona num instante. E parece-me acertadíssima a decisão de fazer ingressar já no plantel Helder Barbosa e Rabiola. Como escrevi há tempos, seria injustificável ver o FC Porto a lançar-se outra vez em compras a torto e a direito, quando tem tantos jogadores emprestados em destaque noutras equipas: Alan, Ibson, Diogo Valente, Vieirinha e até o inesperado Pittbull. Jesualdo está numa posição privilegiadíssima, com o campeonato no bolso e a qualificação na Champions garantida, para dispor de um tempo de passagem de luxo até ao jogo com o Schalke, de modo a retocar a equipa e fazer integrar uma, duas ou três alternativas reais ao onze de todos os dias. E é nestas alturas, também que se vê a capacidade dos treinadores.
O NATAL FAZ-LHES MAL? (08 JANEIRO 2008)
Pessoalmente, nunca fui adepto do estilo de jogo a que se costuma chamar «futebol inglês» — uma coisa desenchabida e sem virtuosidade, onde o pontapé de baliza do guarda-redes parece, por vezes, ser a jogada-chave de toda a estratégia. Mas a verdade é que, quando olhamos para o futebol inglês de clubes, e quando pensamos em equipas como o Liverpool ou o Arsenal, já há muito pouco de inglês nesse futebol. Quando a Liga inglesa estava orgulhosamente fechada a estrangeiros, o futebol inglês começou a decair, a perder força e espectadores. As coisas começaram a mudar quando, há vinte anos atrás, Villa e Ardilles, dois internacionais argentinos, chegaram a Inglaterra para jogar no Tottenham. Fronteiras abertas, o público inglês começou a ver chegar verdadeiros artistas da bola, deixando de ficar limitado ao tipo de jogador estereotipado, como o tão badalado David Beckham — um jogador absolutamente banal em qualquer lugar do mundo, inclusive Los Angeles. Chegaram os artistas estrangeiros, chegaram os investidores, regressou o público.
Hoje, a Liga inglesa é, a par da espanhola, o campeonato mais bem disputado, com mais espectáculo assegurado e com mais espectadores nos estádios. Uma parte fundamental da receita dos clubes ingleses (e que lhes permite, depois, comprar os tais artistas mundiais) está na exportação semanal desse espectáculo para os quatro cantos do mundo, via televisão. Não há hoje jogador de talento que não tenha acrescentado a Inglaterra aos seus destinos de sonho. Mas, atenção: o espectáculo é intenso, a fama corre mundo, os ordenados são fabulosos, mas ali trabalha-se a sério. O campeonato tem 38 jornadas, a Taça da Liga e a Taça de Inglaterra são disputadas em eliminatórias a duas mãos e todos os clubes de topo estão cronicamente envolvidos em jogos europeus e em digressões asiáticas ou americanas. Em Inglaterra, um profissional da primeira Liga de uma equipa da metade de cima da tabela joga, em média, mais do dobro dos jogos disputados anualmente por um profissional da primeira Liga portuguesa. É sempre com um sorriso irónico que eu vejo os treinadores dos nossos clubes de «dimensão Taça UEFA» queixarem-se que a «equipa está cansada», depois de disputar um jogo europeu a meio da semana. Sem dúvida que, mesmo aqui, a vida de futobolista profissional exige sacrifícios, sobretudo na parte pessoal. Mas não deixa de ser um emprego em part-time: o ciclo normal de um jogador da primeira Liga, entre nós, consta de um dia de jogo por semana, outro de folga, um e meio de estágio e três ou quatro de treino umas duas horas da parte da manhã — à hora de almoço já estão livres. Comparado com o que se passa em Inglaterra, são uns privilegiados.
Uma das diferenças tradicionais do futebol em Inglaterra é aquilo a que se convencionou chamar o «boxing day». De facto, não é um dia, mas sim vários. Enquanto parte da Europa goza férias de Natal (e, em Portugal, toda a imensa legião sul-americana parte para casa), em Inglaterra, em vez de parar, o campeonato acelera: joga-se no dia de Natal, no dia 28 de Dezembro e no dia de Ano Novo. E os estádios continuam cheios e não passa pela cabeça de ninguém que os jogadores se apresentem a jogar cansados, contrariados ou em regime de poupança de energias.
Eu, enquanto adepto, devo confessar que até aprecio e agradeço esta paragem natalícia, porque tudo na vida precisa de tréguas, sobretudo as emoções. Mas acho que a contrapartida dessas férias natalícias de que gozam os jogadores em Portugal é que, no regresso, eles não se apresentem cansados das férias ou das viagens, em ritmo de passeio, como se estivessem a regressar ao activo depois do «defeso». Este ano, mesmo depois de prudentemente reduzido o generosíssimo período de férias concedido no ano anterior, parece que os resultados não foram diferentes. A avaliar pelo desempenho daqueles que maiores responsabilidades têm — os chamados «grandes» — parece que o Natal lhes faz muito mal.
O Benfica em Setúbal, o Sporting no Bessa e o FC Porto no Dragão, todos entraram o ano com pernas que pareciam pesar chumbo, a inspiração a zero e um interesse e vontade que pareciam longe, muito longe, dos jogos que disputavam. Os adeptos ficaram com razões sobejas para lamentarem os espectáculos que os seus clubes lhes proporcionaram. Benfica e Sporting entregaram de vez o campeonato ao FC Porto, de nada lhes tendo servido a suposta moralização que o tropeção dos azuis no Funchal, mesmo antes das férias, lhes teria proporcionado. E o FC Porto, jogando já depois dos desaires dos dois principais rivais e sabendo que uma vitória significaria praticamente o fim das dúvidas por esta época, só lá chegou quase por acaso.
Em, Setúbal viu-se um Benfica completamente à toa, sem futebol nem ideias e uma vez mais à espera de uma vitória caída do céu sem esforço nem mérito. Por uma vez, os planos sairam-lhe furados à beira do fim e a única coisa coerente que se lhe viu foi o gesto de Camacho a mandar para os balneários duas vedetas mal-dispostas. Agora, anunciam aos benfiquistas, à laia de compensação, que «Vieira vai dar um murro na mesa». Mais valia dar um na cabeça, tantos e tão gritantes têm sido os erros por ele acumulados na gestão do futebol benfiquista - de que, não sei se se lembram, se proclamou ufanamente o único responsável, há mais de um ano. Depois do jogo de Setúbal, ouvi pela primeira vez adeptos benfiquistas a defenderem abertamente o fim da era-Vieira. Agora, que já não há Veigas, nem Fernando Santos, nem Apitos Dourados que possa usar como bodes expiatórios, Luís Filipe Viera vai inevitavelmente fazer o que melhor sabe: lançar-se numa campanha de promoção pessoal, a par de uma cruzada de ameaças e insinuações dirigida a inimigos ocultos e a moinhos de vento que a sua espada tarda em vergar. Um filme já visto e gasto.
Do lado do Sporting, o silêncio das tragédias sem remédio abateu-se sobre a paupérrima prestação do Bessa. Ninguém sabe a resposta à pergunta «o que fazer e com que meios?». A equipa tem alguns bons jogadores e alguns bons momentos. Mas daí não passa nem mostra capacidade ou categoria para passar e o choradinho habitual com as arbitragens já não convence ninguém, nem os próprios adeptos. O problema do Sporting é mais dramático, porque, ao contrário do do Benfica, não se resolve simplesmente com uma boa gestão do futebol. O problema é de fundo e parece inexorável: lentamente, o Sporting foi decaindo, decaindo, enquanto o FC Porto ia subindo, subindo. E hoje, sob qualquer prisma que se compare — resultados, assistências, receitas, adeptos, notoriedade e prestígio interno e externo — o Sporting instalou-se solidamente na posição de terceiro clube português. O que significa que, para ser campeão, precisa de, além de fazer uma grande época, que os outros dois falhem simultâneamente nessa mesma época. Pelo que a grande questão não é esta época nem sequer a próxima. É esta: conseguirá o Sporting voltar a ser campeão nos próximos dez anos?
Quanto ao FC Porto, como se sabe, as coisas vão bem e recomendam-se. Pelo menos, internamente e, até ver, na Europa. Mas é muito difícil ir mais além, pois como se viu no Funchal e mesmo agora contra a Naval, o problema da equipa está mais do que diagnosticado: tem seis bons jogadores e mais dois razoáveis. E nada mais — o que é pouco para acorrer às várias frentes. Se o Quaresma, o Bosingwa, o Bruno Alves, o Lisandro ou o Lucho se magoam, se são castigados ou se estão cansados ou em dia de desinspiração (o que é mais do que legítimo), não há ali ninguém que os possa subsituir com um mínimo de qualidade. Sem eles, e com os maravilhosos reforços desta época, o FC Porto estaria a lutar para não descer de divisão.
Hoje, a Liga inglesa é, a par da espanhola, o campeonato mais bem disputado, com mais espectáculo assegurado e com mais espectadores nos estádios. Uma parte fundamental da receita dos clubes ingleses (e que lhes permite, depois, comprar os tais artistas mundiais) está na exportação semanal desse espectáculo para os quatro cantos do mundo, via televisão. Não há hoje jogador de talento que não tenha acrescentado a Inglaterra aos seus destinos de sonho. Mas, atenção: o espectáculo é intenso, a fama corre mundo, os ordenados são fabulosos, mas ali trabalha-se a sério. O campeonato tem 38 jornadas, a Taça da Liga e a Taça de Inglaterra são disputadas em eliminatórias a duas mãos e todos os clubes de topo estão cronicamente envolvidos em jogos europeus e em digressões asiáticas ou americanas. Em Inglaterra, um profissional da primeira Liga de uma equipa da metade de cima da tabela joga, em média, mais do dobro dos jogos disputados anualmente por um profissional da primeira Liga portuguesa. É sempre com um sorriso irónico que eu vejo os treinadores dos nossos clubes de «dimensão Taça UEFA» queixarem-se que a «equipa está cansada», depois de disputar um jogo europeu a meio da semana. Sem dúvida que, mesmo aqui, a vida de futobolista profissional exige sacrifícios, sobretudo na parte pessoal. Mas não deixa de ser um emprego em part-time: o ciclo normal de um jogador da primeira Liga, entre nós, consta de um dia de jogo por semana, outro de folga, um e meio de estágio e três ou quatro de treino umas duas horas da parte da manhã — à hora de almoço já estão livres. Comparado com o que se passa em Inglaterra, são uns privilegiados.
Uma das diferenças tradicionais do futebol em Inglaterra é aquilo a que se convencionou chamar o «boxing day». De facto, não é um dia, mas sim vários. Enquanto parte da Europa goza férias de Natal (e, em Portugal, toda a imensa legião sul-americana parte para casa), em Inglaterra, em vez de parar, o campeonato acelera: joga-se no dia de Natal, no dia 28 de Dezembro e no dia de Ano Novo. E os estádios continuam cheios e não passa pela cabeça de ninguém que os jogadores se apresentem a jogar cansados, contrariados ou em regime de poupança de energias.
Eu, enquanto adepto, devo confessar que até aprecio e agradeço esta paragem natalícia, porque tudo na vida precisa de tréguas, sobretudo as emoções. Mas acho que a contrapartida dessas férias natalícias de que gozam os jogadores em Portugal é que, no regresso, eles não se apresentem cansados das férias ou das viagens, em ritmo de passeio, como se estivessem a regressar ao activo depois do «defeso». Este ano, mesmo depois de prudentemente reduzido o generosíssimo período de férias concedido no ano anterior, parece que os resultados não foram diferentes. A avaliar pelo desempenho daqueles que maiores responsabilidades têm — os chamados «grandes» — parece que o Natal lhes faz muito mal.
O Benfica em Setúbal, o Sporting no Bessa e o FC Porto no Dragão, todos entraram o ano com pernas que pareciam pesar chumbo, a inspiração a zero e um interesse e vontade que pareciam longe, muito longe, dos jogos que disputavam. Os adeptos ficaram com razões sobejas para lamentarem os espectáculos que os seus clubes lhes proporcionaram. Benfica e Sporting entregaram de vez o campeonato ao FC Porto, de nada lhes tendo servido a suposta moralização que o tropeção dos azuis no Funchal, mesmo antes das férias, lhes teria proporcionado. E o FC Porto, jogando já depois dos desaires dos dois principais rivais e sabendo que uma vitória significaria praticamente o fim das dúvidas por esta época, só lá chegou quase por acaso.
Em, Setúbal viu-se um Benfica completamente à toa, sem futebol nem ideias e uma vez mais à espera de uma vitória caída do céu sem esforço nem mérito. Por uma vez, os planos sairam-lhe furados à beira do fim e a única coisa coerente que se lhe viu foi o gesto de Camacho a mandar para os balneários duas vedetas mal-dispostas. Agora, anunciam aos benfiquistas, à laia de compensação, que «Vieira vai dar um murro na mesa». Mais valia dar um na cabeça, tantos e tão gritantes têm sido os erros por ele acumulados na gestão do futebol benfiquista - de que, não sei se se lembram, se proclamou ufanamente o único responsável, há mais de um ano. Depois do jogo de Setúbal, ouvi pela primeira vez adeptos benfiquistas a defenderem abertamente o fim da era-Vieira. Agora, que já não há Veigas, nem Fernando Santos, nem Apitos Dourados que possa usar como bodes expiatórios, Luís Filipe Viera vai inevitavelmente fazer o que melhor sabe: lançar-se numa campanha de promoção pessoal, a par de uma cruzada de ameaças e insinuações dirigida a inimigos ocultos e a moinhos de vento que a sua espada tarda em vergar. Um filme já visto e gasto.
Do lado do Sporting, o silêncio das tragédias sem remédio abateu-se sobre a paupérrima prestação do Bessa. Ninguém sabe a resposta à pergunta «o que fazer e com que meios?». A equipa tem alguns bons jogadores e alguns bons momentos. Mas daí não passa nem mostra capacidade ou categoria para passar e o choradinho habitual com as arbitragens já não convence ninguém, nem os próprios adeptos. O problema do Sporting é mais dramático, porque, ao contrário do do Benfica, não se resolve simplesmente com uma boa gestão do futebol. O problema é de fundo e parece inexorável: lentamente, o Sporting foi decaindo, decaindo, enquanto o FC Porto ia subindo, subindo. E hoje, sob qualquer prisma que se compare — resultados, assistências, receitas, adeptos, notoriedade e prestígio interno e externo — o Sporting instalou-se solidamente na posição de terceiro clube português. O que significa que, para ser campeão, precisa de, além de fazer uma grande época, que os outros dois falhem simultâneamente nessa mesma época. Pelo que a grande questão não é esta época nem sequer a próxima. É esta: conseguirá o Sporting voltar a ser campeão nos próximos dez anos?
Quanto ao FC Porto, como se sabe, as coisas vão bem e recomendam-se. Pelo menos, internamente e, até ver, na Europa. Mas é muito difícil ir mais além, pois como se viu no Funchal e mesmo agora contra a Naval, o problema da equipa está mais do que diagnosticado: tem seis bons jogadores e mais dois razoáveis. E nada mais — o que é pouco para acorrer às várias frentes. Se o Quaresma, o Bosingwa, o Bruno Alves, o Lisandro ou o Lucho se magoam, se são castigados ou se estão cansados ou em dia de desinspiração (o que é mais do que legítimo), não há ali ninguém que os possa subsituir com um mínimo de qualidade. Sem eles, e com os maravilhosos reforços desta época, o FC Porto estaria a lutar para não descer de divisão.