quinta-feira, dezembro 20, 2007

NÃO ERA PRECISO TANTO! (04 DEZEMBRO 2007)

1- E à 12.ª jornada, Sporting e Benfica resolveram entregar de vez o campeonato ao FC Porto e ficarem a discutir entre si o segundo lugar. Agora, tudo está nas mãos dos azuis e, por isso, o único mal que lhes pode suceder é convencerem-se que, daqui até final, é apenas um passeio. O FC Porto não pode baixar a guarda, mas apenas por razões próprias e não pelo perigo alheio. Porque, como já aqui o disse várias vezes e como ainda na semana decorrida se viu em Liverpool e na Luz, a equipa não tem segunda linha.

As razões pelas quais de há já muitos anos para cá se vem repetindo esta situação de o FC Porto descolar precocemente dos seus dois rivais não são conjunturais e justificariam uma análise profunda. As «crises» de Benfica e Sporting vêm de trás e têm razões fundas e o motivo para a sua persistência, em minha opinião, tem que ver justamente com o facto de nunca serem assumidas como tal e, portanto, nunca se procurarem as causas verdadeiras. Ambos cometeram tremendos erros de gestão e de «cultura» e ambos os procuraram esconder atrás de «apitos dourados», sistemáticas queixas das arbitragens, pseudo-combates a uma coisa que baptizaram de «sistema», e por aí fora. E assim foram lançando fumo para os olhos dos crédulos e dos fanáticos, evitando que o juízo comum extraísse as conclusões lógicas de factos tão evidentes como o de o FC Porto ser sistematicamente o único dos três grandes que se bate na Europa muitas vezes de igual para igual com os tubarões financeiros do «Velho Continente». Se ele é o único dos grandes capaz de competir ao mais alto nível europeu com vontade, determinação e classe, por que estranha razão não seria igualmente o campeão habitual de Portugal?

Mas, enfim, cada um sabe de si, mesmo que se prefira o caminho da vaidade e da ilusão ao de enfrentar a realidade.

2- Não me lembro de um Benfica-FC Porto tão consensual e tão pacífico de controvérsias. A demonstração de poder e de superioridade que o FC Porto deu na Luz foi uma espécie de duche escocês que se abateu sobre os benfiquistas de todos os meios, de todas as idades, de todos os lados. Não encontrei ainda um único benfiquista capaz de contestar a justiça da vitória azul e branca. Encontrei, sim, foi uma profunda depressão instalada entre benfiquistas e sportinguistas, na justa medida em que se viram resignados a reconhecer a grande distância que ainda existe entre o seu futebol e as suas pretensões e a realidade chamada FC Porto.

Corrigidos alguns erros de «casting» evidentes em Liverpool, o FC Porto desceu à Luz com uma determinação e uma autoridade tais que parecia estar a executar um plano cientifico, estudado ao pormenor, de como vencer o jogo sem espinhas. Não houve desequilíbrio evidente em posse de bola, iniciativas de ataque ou oportunidades de golo. Mas houve uma diferença abissal entre a qualidade do futebol jogado, a atitude de conquista e os valores individuais. Numa palavra, aquilo que Pedroto imortalizou como «o estofo de campeão». O FC Porto mostrou que o tinha e o Benfica que não.

Quaresma foi genial no golo da vitória e não só, mostrando uma vez mais porque é que aos génios tem de ser reconhecido, de vez em quando, o direito à desinspiração; Lisandro foi o melhor em campo, um gigante atrás, à frente, aos lados; Lucho, jogador de grandes jogos, esteve imperial; Paulo Assunção foi a formiga que trabalha para as cigarras, sem descanso nem exibicionismo; Pedro Emanuel foi estóico e firme, num dia em que estranhamente quem oscilou foi Bruno Alves; Helton ofereceu um golo, com mais uma saída em falso, mas depois teve duas boas defesas a guardar a vitória; Fucile e Bosingwa chegaram tranquilamente para as encomendas, Meireles foi regular e Tarik, enquanto pôde, ajudou a lançar o pânico na defesa do Benfica. No todo, foram uma equipa a sério, «competente», como gostam de dizer os treinadores, determinada até chegar ao golo, inabalável a defendê-lo. Deixaram atrás de si, no relvado da Luz e perante 60 mil pessoas, um rasto de temor e respeito que tão cedo não se desvanecerá.

3- Há coisas cujo entendimento me escapa e uma delas é as razões pelas quais Miguel Veloso será tão desejado — pelas «passerelles» e supostamente pelo Manchester United e outros grandes dessa Europa. Mas, enfim, gostos não se discutem.

Já me parece que Carlos Queirós não disse nada de tão extraordinário e que pudesse motivar tanta indignação ao presidente do Sporting. Disse que o Manchester seguia Miguel Veloso, como segue outros jogadores portugueses, entre os quais Bosingwa e Bruno Alves. Toda a gente sabe que os grandes clubes seguem todos os potenciais bons jogadores e todos os presidentes dos clubes portugueses, que estão habituados a receber os seus «olheiros» nos estádios e que nunca se furtam a ouvir propostas, sabem-no melhor do que ninguém. Só o Liverpool tem um banco de dados de jogadores sob observação que abrange 6 mil nomes!

Claro que eu também sei que notícias destas complicam as relações entre um clube e os seus profissionais e servem para dar a volta a cabeças mais frágeis. Também sei que muitas vezes estas notícias são «plantadas» pelos agentes dos jogadores para tentarem melhorar os contratos, às vezes ainda mal acabados de assinar. Há para aí meninos que acham que lhes basta fazer meia dúzia de bons jogos cá dentro para logo baterem à porta da direcção a gritar que o mundo inteiro os cobiça e que é altura de os seus contratos serem melhorados, se não querem ir-se embora — basta ler as declarações de Miguel Veloso, anteontem, para o perceber. Mas Filipe Soares Franco também sabe que o facto de o Manchester cobiçar jogadores do Sporting e seduzi-los a meio dos seus contratos tem sido o balão de oxigénio financeiro que tem permitido a sobrevivência das direcções sportinguistas. Pelo que deveria ter tido mais pudor ao indignar-se com a revelação do suposto ou real interesse do Manchester em Veloso.

Dito isto, resta acrescentar que nada justifica a profunda falta de educação de Carlos Queirós a responder a Soares Franco. Tantos anos a viver em Inglaterra e a conviver de perto com Sir Alex Ferguson, pelos vistos não lhe ensinaram ainda a ter maneiras. Aliás, também compreendo mal de onde vem esta arrogância com que Queirós fala habitualmente dos outros e de si próprio. Tenho para mim, desde há muito, que Queirós é um dos bluffs mais bem cultivados do futebol português. É verdade que foi campeão do mundo de juniores em Riad, mas teve ao seu dispor uma geração de oiro — a melhor de sempre do futebol português — e ainda com idades e num tempo em que os meninos talentosos não se imaginavam vedetas mundiais aos 17 e 18 anos. Mas, depois disso, o que fez Queirós que justifique tanto inchaço? Falhou no Sporting, falhou na Selecção Nacional, falhou na África do Sul e falhou no Real Madrid — e em todos os lados saiu sempre a acusar outros da responsabilidade do falhanço. Desde aí que vive na posição cómoda de n.º 2 de Ferguson, compartilhando os seus triunfos e sendo irresponsável pelos seus desaires. Daí é fácil cantar de galo, sobretudo quando se tem 50 milhões de euros para ir às compras todos os Verões. O «professor» faria melhor em guardar as suas lições para reflexão interna.

4- Os sorteios da qualificação para o Mundial e para a fase final do Europeu vieram confirmar o que já aqui escrevi: nunca vi ninguém com tanta sorte como Scolari.

PS: Teria sido interessante e eloquente que os repórteres televisivos, em vez de fugirem da notícia e do acontecimento quando lhes cheira a esturro, como habitualmente fazem, nos tivessem deixado ver o incidente entre Nuno Gomes e Jesualdo Ferreira. Nunca hei-de perceber este jornalismo que consiste em virar a câmara para o lado e fingir que nada se está a passar!

O GLORIOSO «PONTINHO» (27 NOVEMBRO 2007)

É altura de os treinadores das equipas chamadas «pequenas» fazerem uma reflexão sobre os caminhos para os quais estão a conduzir o futebol português. Jogar para o zero-zero e para o «pontinho», ir a casa dos «grandes» e jogar apenas para o milagre, instalando uma muralha da China em frente à baliza, é contribuir directamente para a morte do futebol como espectáculo de massas.


1- Leiria recebeu um dos dez novos estádios que os contribuintes portugueses construíram ou remodelaram para o Euro 2004 (a meias, a Suíça e a Áustria, países bem mais ricos que o nosso e que irão receber o Euro 2008, construíram ou remodelaram apenas oito — como já antes o haviam feito, em conjunto, a Bélgica e a Holanda). Mas já se sabe que em Portugal, onde os dinheiros do Estado parecem não vir de lado algum e são muito poucos os que pagam todos os impostos devidos, quando se faz obra pública tem de ser à grande e à portuguesa. Leiria ficou assim com um estádio novo com capacidade para 25.000 espectadores — que apenas encheu duas vezes em quatro anos e para ver jogar a Selecção — e cuja manutenção e amortização, na parte que cabe à autarquia, representam um garrote orçamental que impede que outras coisas bem mais necessárias possam ser feitas. Esta semana, para receber o Leiria-Braga, com bom tempo e excelentes condições, estiveram no estádio de Leiria 400 pessoas. Parece óbvio que a cidade não faz questão de ter futebol de 1ª. Sobretudo se é para ver duas equipas jogar para o zero-zero.

2- Subscrevo por inteiro a pertinente crónica de Vítor Queirós sobre o FC Porto-V. Setúbal. O Vitória de Setúbal entrou em campo com o estatuto de única equipa na Europa, além do Arsenal, que ainda não tinha sido derrotada esta época em jogos oficiais; ocupava o quarto lugar do campeonato, com tantos golos marcados como o seu anfitrião; e, ao contrário deste, que entrou em campo com seis jogadores que vinham de dois jogos em sete dias pelas respectivas Selecções, a equipa setubalense estava fresca, repousada e tinha tido dez dias para preparar o embate no Dragão.

Abóbora! O que se viu foi um Vitória que, mesmo a perder a partir dos seis minutos, nunca teve o mais pequeno arrebate de brio para tentar passar o meio-campo e chegar ao golo. Até ao fim, limitou-se a defender sempre no seu meio-campo, com dez homens atrás da linha da bola, e tudo o que conseguiu em 90 minutos foi dois remates inofensivos à baliza de Helton. A «táctica», se é que disso se pode falar, consistiu apenas em tentar, como sorte e vista grossa do árbitro a um penalty, manter o 0-1 até próximo do final e esperar que, tal como o Estrela conseguiu na jornada anterior, um bambúrrio de sorte ou uma oferta dos portistas, lhe permitisse sair do Dragão com um empate caído do céu.

Felizmente, isso não aconteceu, porque este ano consta que os milagres estão todos reservados para o Benfica. E ainda bem que não aconteceu. Não pelo FC Porto, que merecia ter ganho por quatro ou cinco. Mas pelo futebol.

3- No Restelo, para ver o Belenenses-Estrela da Amadora, estava um pouco mais de gente: perto de 2.000 pessoas. O Belenenses jogava em casa, tem melhor equipa, era favorito. Mas, interrogado segundos antes de começar o jogo sobre se o Belenenses iria jogar para ganhar, Jorge Jesus respondeu esta coisa extraordinária. «O empate é tão importante como a vitória». Do outro lado, Dauto Faquirá pensou o mesmo e o resultado, como não podia deixar de ser, foi mais um empate a zero, num jogo em que, segundo a crónica deste jornal, nenhum dos dois guarda-redes teve de se incomodar a fazer qualquer defesa. No final, consta que ambos os treinadores estavam satisfeitos. Parece também que alguns adeptos do Belenenses assobiaram o espectáculo no final, mas Jorge Jesus não se incomodou: «isso é normal».

Não, não é normal. É altura dos treinadores das equipas chamadas «pequenas» — e que são sempre tão apoiadas por uma crítica que as exime de qualquer responsabilidades nos espectáculos que proporcionam — fazerem uma reflexão sobre os caminhos para os quais estão a conduzir o futebol português. Jogar para o zero-zero e para o «pontinho», ir a casa dos «grandes» e jogar apenas para o milagre, instalando uma muralha da China em frente à baliza — e isto quando a maioria dos jogos é televisionada e os bilhetes são absurdamente caros — é contribuir directamente para a morte do futebol como espectáculo de massas. Não os incomoda entrar num estádio onde apenas 400 almas penadas, verdadeiros heróis, se deram ao trabalho de ir ver o pouco que eles estão dispostos a mostrar?

4- Acho que nunca, em tantos anos a ver futebol e a seguir campeonatos, vi uma equipa com tanta sorte como este Benfica de 2007/8. Domingo, em Coimbra, lá veio mais uma vitória arrancada nos últimos cinco minutos, num jogo em que o Benfica jogou muito pouco e bem menos que o adversário. Foi quase patético ver o esforço que o guarda-redes da Académica fez para facilitar o segundo e o terceiro golos do Benfica. Neste último, aliás, até vi uma coisa inédita: a bola, depois de passar por entre os braços do guarda-redes, seguiu devagarinho para o poste, daí ressaltou para o terreno e depois, subitamente, inverteu a marcha e desandou para dentro da baliza. Tal qual uma bola de bilhar «puxada» por baixo!

Para sábado, dou a Jesulado Ferreira um conselho de amigo: faça tudo para ganhar o jogo até aos 85 minutos e, se chegar aí em posição de vencedor ou com um empate julgado útil, mande recuar todos, todos os dez para dentro da área; proíba-os terminantemente de cometer qualquer falta, nem que seja com um sopro de ar; nos lançamentos laterais do Benfica (a jogada mais perigosa deles), ponha dois jogadores a saltar sobre a linha, em frente ao lançador. E depois reze, reze muito para que a taluda não saia pela sétima vez ao mesmo.

5- Como era de prever, Pepe teve uma entrada em grande na Selecção Nacional. A ele, à sua eficácia e à segurança que transmite, ficámos a dever parte importante do empate contra a Finlândia, que significou o apuramento para o Europeu. Com Pepe e Deco, sobe para dois o número de naturalizados na Selecção — e se não contarmos com Makukula e Bosingwa, nascidos no Congo. Todos eles são casos especiais, e mesmo Pepe e Deco, ambos brasileiros, vieram para Portugal muito jovens, jogaram aqui cinco ou seis anos, mantêm aqui laços de residência e familiares e sempre mostraram vontade de jogar por Portugal e não pelo Brasil.

Mas isso não impede que as reflexões de Joseph Blatter, presidente da FIFA, tenham toda a razão de ser. A profusão de brasileiros naturalizados que hoje jogam por várias Selecções está a atingir proporções de alarme. Como ele diz e com razão, há 60 milhões de potenciais jogadores de futebol no Brasil, mas só onze é que podem jogar pela sua Selecção. Isso, mais a insistência dos zelotas da União Europeia em não quererem ver que a especificidade do desporto não se compadece com a absoluta liberdade de circulação e trabalho no espaço europeu que vigora para as outras profissões, está a descaracterizar rapidamente, primeiro os clubes e depois as Selecções. Que sentido faz, por exemplo, celebrar uma vitória do Arsenal na Champions como uma vitória do futebol inglês, quando bastas vezes não há um só inglês na equipa titular do Arsenal? E que sentido fará amanhã celebrar um título mundial de um país cuja Selecção seja maioritariamente composta por estrangeiros naturalizados?

quinta-feira, novembro 22, 2007

O DIREITO AO ASSOBIO (21 NOVEMBRO 2007)

Qual é a explicação para o facto de a equipa de Scolari não aparentar ter qualquer estratégia ou plano de jogo, nada ensaiado ou treinado, como se bastasse mandar lá para dentro onze grandes jogadores e esperar pelos resultados consequentes?

1- Há umas semanas atrás, Ricardo Quaresma foi assobiado no Dragão, depois de insistir em várias jogadas individuais inconsequentes. A mim, aquilo pareceu-me injusto: não só porque o FC Porto deve muito, muitíssimo a Ricardo Quaresma (incluindo a sua recusa em ser vendido ao desbarato ao Atlético de Madrid, vai fazer um ano), mas também porque o individualismo, muitas vezes inconsequente, de Quaresma é o preço a pagar por tantas outras jogadas individuais que saem dos seus pés e que resolvem jogos em golpes de génio. Não se pode exigir a um desequilibrador nato que se abstenha disso e se remeta a um papel banal de «jogador de equipa». Faz-me lembrar quando há uns anos atrás, também no FC Porto, se criticava o Jardel porque ele não defendia. É claro que, por vezes há exageros e que podem ser evitados, mas o génio também é um exagero…Veja-se a jogada do Sektioui contra o Marselha: se tem sido desarmado durante aquele incrível slalom em que deixou para trás seis adversários, também se teria dito que fora um individualista. Mas, como a coisa resultou, escreveu-se antes que tinha sido uma jogada de génio.

O ponto importante, todavia, é que, assobiado, o Ricardo Quaresma reagiu com toda a naturalidade: considerou legítimos os assobios e confessou até que estava a jogar menos do que o habitual, mas que iria melhorar. Diferente é a atitude de alguns jogadores da Selecção Nacional, depois de escutarem assobios durante a sua paupérrima prestação contra a Arménia. Para estes, assobiar a Selecção é quase uma atitude antipatriótica. Eu compreendo-os: foi esta mentalidade que Scolari conseguiu introduzir nos espíritos de todos. Quando joga a Selecção de Scolari, os portugueses têm que se abstrair de que estão perante um espectáculo e um jogo de futebol: trata-se, sim, de um momento de veneração patriótica, que não admite críticas nem objecções. O mesmo pode valer para outras coisas: quem não gostar dos livros do Saramago ou da arquitectura do Siza Vieira é um português indigno de o ser.

E, à conta desta chantagem patriótica, vamos assistindo, conformados, a sucessivas exibições miseráveis da Selecção de Scolari. Há, pelo menos, meia dúzia de equipas na Liga portuguesa que jogam melhor futebol do que esta equipa de supervedetas e há meia dúzia de treinadores portugueses que seriam capazes de demonstrar muito melhor serviço do que o intocável seleccionador. É difícil, de facto, entender como é que tantos e tão talentosos jogadores são capazes de jogar tão mal durante tanto tempo. Por que é que o Ronaldo e o Nani rendem muito mais no Manchester United do que na Selecção de Scolari? Por que é que o Quaresma rende muito mais no FC Porto? E o Deco no Barcelona? E o Simão rendia muito mais no Benfica? Etc, etc. Haverá alguma espécie de epidemia colectiva que lhes tolhe o talento quando envergam a camisola da Selecção? Ou, como escreveu o Paulo Sousa e eu subscrevo, qual é a explicação para o facto de a equipa de Scolari não aparentar ter qualquer estratégia ou plano de jogo, nada ensaiado ou treinado, como se bastasse mandar lá para dentro onze grandes jogadores e esperar pelos resultados consequentes?

Enfim, esperemos que amanhã, contra a Finlândia, este grupo triste de grandes jogadores, possa ao menos sacar o empate que lhe garante uma qualificação que seria um escândalo não se conseguir.


2- Jesualdo Ferreira tem um problema entre mãos, após as tonitruantes declarações de Bosingwa. Um problema clássico: fingir que não ouviu e abrir uma possível brecha em termos de disciplina interna, ou mostrar-se inflexível, castigando o jogador e com isso prejudicando a equipa. A questão é ainda mais delicada porque qualquer dos dois intervenientes teve razão a um tempo, mas não a teve noutro.

Jesualdo teve razão ao não querer individualizar culpas pelo modo como o FC Porto desperdiçou, nos cinco minutos finais, uma vitória mais do que tranquila na Amadora. Evitando destacar os dois culpados óbvios, ele quis preservar o espírito de união na equipa, tal como é seu dever. Mas, podia ter ficado por aí, podia ter dito que houvera falta de sorte ou de concentração nos minutos finais, erros que não se podem repetir, etc, essa linguagem cifrada que não atinge ninguém e todos entendem. Porém, ao responsabilizar toda a equipa pelo que aconteceu, ao remeter a responsabilidade para uma meia hora colectiva de relaxe (que não existiu, a equipa nunca se relaxou ao ponto de fazer perigar a vitória), ele foi atingir inocentes para poupar os culpados. E Bosingwa, um jogador com personalidade, acusou o toque e, legitimamente, não gostou. A verdade é que, como todos viram, aconteceu apenas que o Helton resolveu oferecer um golo repetindo um erro em que é recorrente, e o Stepanov resolveu oferecer um penalty, fazendo a equipa perder pontos pela quarta vez em cinco jogos seguidos. Mas José Bosingwa, quando confrontado com as declarações de Jesualdo, devia ter-se limitado a dizer «é a opinião do treinador», sem acrescentar «a minha não é essa». Ao fazê-lo, quebrou a tal solidariedade entre todos que é essencial numa equipa. Mas também chamou a atenção para uma questão a cuja responsabilida Jesualdo Ferreira não pode fugir: no futuro, o esforço de todos vai continuar a poder ser comprometido por erros habituais dos suspeitos do costume?

3- Qualquer dia o Sporting não arranja um árbitro que lhe queira apitar os jogos. A menos que eles se disponibilizem para assinalar os dois ou três penalties que os sportinguistas reclamam em todos os jogos — para além de todos os que já assinalam e que, apesar dos protestos, fazem do Sporting o campeão destacado dos penalties a favor, no século XXI.

Se agora, todos os jogos em que o Sporting reclama dos árbitros vão ter como consequência a penalização a posteriori dos árbitros — e sem que os outros clubes façam o mesmo e nomeadamente, quando é o Sporting o beneficiado —, vai ser difícil querer arbitrar um jogo do Sporting. Pela simples razão de que não há nenhum árbitro que não cometa pelo menos dois ou três erros durante um jogo. Mas, se só são escrutinados e passados à lupa os erros cometidos em desfavor do Sporting, e não também todos os outros erros e em todos os outros jogos, isso significa que se criou um regime de excepção, que prejudica uns e deixa passar os outros.

4- Há um jovem jogador em Braga, chamado Bruno Silva, que estava apalavrado e ajuramentado para o Sporting e que parece que acabou desviado pelo Benfica «à má fila» e inscrito, contra sua vontade e a do pai — representante legal —, na Associação de Futebol de Lisboa. Inacreditável nesta história é que o miúdo tem oito anos (!) de idade e estava assente entre o Sporting e o pai do jogador que, aos onze anos, ele daria entrada na Academia de Alcochete. Mas agora, inscrito pelo Benfica e vivendo em Braga, ele, pura e simplesmente, já não pode competir como até aqui por uma equipa de Braga e também não pode competir pelo Benfica, porque mora a 350 quilómetros de distância!

Eu confesso a minha estupefacção e a minha ignorância: não sabia que se podia inscrever jogadores com oito anos de idade; não sabia que a ganância chegava a tal ponto que se podia assentar com os pais levar-lhes o miúdo aos onze anos e pô-lo a viver a 370 quilómetros da família e dos amigos, traçando-lhe desde logo o destino e a profissão; e não sabia que os dois grandes «moralizadores» do futebol português se podiam envolver em disputas pouco dignas pelo futuro «passe» de um miúdo de oito anos, que, por agora, quer apenas que o deixem jogar futebol.

sexta-feira, novembro 16, 2007

OS TRABALHOS DE JESUALDO (13 NOVEMBRO 2007)

1- Com toda a sinceridade, digo que tenho a melhor impressão sobre o trabalho de Jesualdo Ferreira à frente do FC Porto. Sei que há muitos, portistas e não portistas, que não partilham desta opinião e que vêem no treinador do FC Porto alguém incapaz do «golpe de asa» que é susceptível de levar equipas medianas a mais altos voos. Talvez o seja, talvez não. Mas a verdade é que, com as condições que tem tido à disposição, acho difícil alguém ter feito melhor do que ele, tanto na época passada, como este ano.

Este ano, Jesualdo Ferreira perdeu, sem sorte, a final da Supertaça para o Sporting; perdeu, sem glória e por culpa exclusiva dos jogadores, a Taça da Liga; mas marcha à frente do campeonato, com uma diferença confortável para o Sporting e uma diferença para o Benfica que não reflecte o abismo de categoria existente entre ambas as equipes; e tem o FC Porto praticamente qualificado para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, com boas hipóteses de terminar o grupo em primeiro lugar. Acho que era difícil fazer melhor com um plantel completamente desequilibrado, como já o era no ano passado e este ano ainda mais, com as saídas de Pepe e Anderson e a contratação de uma legião de jogadores de segunda categoria.

Tudo bem esmiuçado, o FC Porto tem apenas seis jogadores de indiscutível valor, num plantel de 27 elementos. São eles os laterais Bosingwa e Fucile, o central Bruno Alves (incrível recuperação de Jesualdo Ferreira), o trinco Paulo Assunção e os avançados Lisandro e Ricardo Quaresma. Depois, há Lucho Gonzalez, um jogador de indiscutível categoria, mas que só produz um jogo em cada quatro e com destaque para os jogos europeus, onde é elemento preponderante. E tem mais uns fogachos do também incrivelmente recuperado Tarik Sektioui e as suspeitas de génio ocasionalmente deixadas em campo por Leandro Lima — em quem Jesualdo, todavia, parece fazer pouca fé. O resto, tudo o resto, são jogadores banais ou menos do que isso.

Jesualdo tem vários problemas urgentes a resolver e, na minha modesta opinião de treinador de bancada, as soluções passam por:

— obter da SAD a contratação, já no mercado de Inverno, de três jogadores, que sejam verdadeiros reforços e não mais umas quantas oportunidades de negócios escusos: um central de categoria para jogar ao lado de Bruno Alves e livrar-nos desse susto do Stepanov, responsável directo por quatro golos sofridos nos últimos quatro jogos — contra o Marselha, duas vezes, contra o Belenenses e contra o Estrela da Amadora. Talvez um dia o Stepanov venha a ser um jogador aceitável, mas para já é apenas um central à deriva em todos os lances importantes, sistematicamente batido no jogo aéreo, sem noção do tempo de entrada às jogadas e com uma tendência suicida para atrasos ao guarda-redes demasiado curtos; um médio de ataque (ou dois, no caso de continuar a não apostar no Leandrinho); e um ponta-de-lança de raiz e de cultura, que, não desfazendo no Lisandro, não é o caso dele;

— forçar o Helton a horas extraordinárias (se possível sobre orientação do Vítor Baía), até ele perceber que um guarda-redes com 1,90 de altura não pode ser um cata-vento no jogo aéreo, ficando preso aos postes quando devia sair e saindo, e em falso, quando não deve. Viu-se uma vez mais, contra o Estrela da Amadora, que ele não faz a mais pequena noção do que seja dominar o espaço aéreo da sua área. E um guarda-redes que não domina o jogo aéreo e que se enerva a jogar com os pés, pode fazer defesas extraordinárias, mas nunca será um grande guarda-redes.

— forçar também o Raul Meireles a horas extraordinárias, de modo a conseguir acertar na baliza mais do que uma vez em cada dez remates, e já que gosta de gozar da fama, a meu ver absolutamente injustificada, de «rematador de meia distância»;

— estar muito atento aos jogadores que o FC Porto tem emprestados pelos quatro cantos, a quem paga ordenados para os ver brilhar pelos adversários e de que, seguramente, alguns deles valem bem mais do que as pretensas vedetas contratadas no último «defeso».

Jesualdo pode dizer, e não deixa de ter razão, que a forma incrível como o FC Porto deixou fugir uma vitória tranquila sobre o Estrela, nos cinco minutos finais, se deveu ao facto de a equipa ter adormecido sobre a vantagem de dois golos, a meio da segunda parte. Mas a verdade, verdadinha, é que a impossível recuperação do Estrela não encontra justificação no agigantar do adversário nem no adormecimento dos portistas, mas apenas se tornou possível por dois erros crassos individuais da autoria de «suspeitos habituais». E, contra isso, de nada vale o génio do Quaresma ou o esforço do Lisandro e a jogada sumptuosa que ambos contruíram e que se concluiu com um remate ao poste que podia e merecia ter dado o 3-0 e pôr a equipa definitivamente ao abrigo das traições da retaguarda.

2- Muito se escreveu sobre o lance do Binya contra o Celtic e que lhe mereceu o vermelho directo. A entrada do camaronês foi uma autêntica bestialidade e, a meu ver, não colhem as desculpas de que se trata de um jogador ainda imaturo — aliás, já tem 24 anos de idade e alguns seis ou sete de profissional. Acontece que quem vê jogar o Binya na Liga portuguesa, sabe que esse lance de Glasgow não aconteceu por acaso, mas antes reflecte a sua forma de interpretar o futebol. Aqui, ele vem usando e abusando do mesmo estilo, só que com a impunidade que faz com que os jogadores da nossa Liga imaginem que, lá fora, os árbitros são igualmente condescendentes. Não são: nem sequer os árbitros portugueses, que por cá consentem o que na Europa não se atrevem a consentir.

Anteontem na Luz, o Benfica viu sair lesionado o Cardozo, depois de uma entrada violenta de Ricardo Silva — outro jogador useiro e vezeiro nesse tipo de jogo. E, na Amadora, o árbitro deixou em campo, sem sequer lhe mostrar um amarelo, o Anselmo, depois de ele ter entrado a pontapé ao corpo do Helton, quando já não tinha hipótese alguma de disputar a bola. Parece que o exemplo do katsouranis, no ano passado, arrumando o Anderson por quatro meses, perante a complacência de Lucílio Baptista, não serviu de motivo de reflexão para ninguém.

É claro que esta cultura da cacetada impune tem solução: basta querê-la. Basta que a Comissão Disciplinar passe a punir seriamente os caceteiros, que a Comissão de Arbitragem passe a punir os árbitros condescendentes e que os treinadores passem a ensinar aos seus comandados que futebol é uma coisa, cacetada é outra. Foi isso que se esqueceram de explicar ao Binya.

3- O golo de Tarik Sektioui contra o Marselha, a bem da promoção do futebol, deveria passar a integrar todos os genéricos dos programas sobre futebol, a ser passado nas escolas todas do país e em todos os centros de formação onde há miúdos que sonham vir um dia a ser grandes jogadores deste maravilhoso jogo.

O HOMEM RESOLVE (06 NOVEMBRO 2007)

1- Fabuloso Liedson: entre Fátima e Alvalade, entre quarta-feira e domingo, ele sozinho fez esquecer a anunciada crise do Sporting. Em ambos os jogos, o Sporting foi inferior, enquanto equipa, ao seu adversário e podia muito bem ter perdido ambos, não fosse essa serpente venenosa à solta, que tanto saca golos monumentais em remates inesperados, como se introduz na mais pacífica das jogadas alheias para semear o pânico e acabar por sacar um penalty ou um golo de onde, aparentemente, não haveria perigo algum. Já o disse antes e repito-o: Liedson e Quaresma são os únicos grandes jogadores que restam na Liga portuguesa, para além do caso especial de Rui Costa.

Para ser também um dos grandes pontas-de-lança de referência do futebol europeu, só falta a Liedson impor-se exactamente nos jogos europeus, o que até aqui não tem conseguido. Amanhã à noite, contra a Roma, o Sporting bem precisa que o seu talento à solta esteja em campo contra os italianos, porque apenas uma vitória manterá os verdes na luta pela qualificação e poderá significar o fim da tal crise.

2- O FC Porto, recebendo o Marselha, está em melhor posição: um empate, até mesmo uma derrota, não significa logo o fim de todas as esperanças. Mas uma vitória projectará a equipa para o primeiro lugar do grupo e com a qualificação praticamente garantida. Lucho Gonzalez vai fazer muita falta, pois que com ele sucede o contrário de Liedson: muitas vezes apagado nos despiques internos, às vezes mesmo totalmente ausente do jogo, ele emerge, como se tivesse estado a hibernar, nos grandes jogos europeus. Em Marselha, dos 28 jogadores que passaram pelo jogo, foi ele quem mais correu: quatorze quilómetros. E não correu à toa, correu sim ao seu melhor nível, com aqueles passes que rasgam uma defesa inteira e subitamente abrem clareiras junto à área adversária.

Ao FC Porto falta o que o Sporting tem em grande estilo: um ponta-de-lança a sério. Pese à sensacional época do «goleador» Lisandro, e por mais que o próprio se reinvindique como tal, ele não é um ponta-de-lança de criação natural. Está nessas funções porque nenhum dos muitos outros — Adriano, Postiga, Farias, Édgar, Rui Pedro, Bruno Morais, mais uma série deles emprestados — conseguiu até à data destacar-se de uma mediania não aceitável num campeão nacional. O campeonato está, aliás, cheio de pontas-de-lança bem melhores do que qualquer um da colecção ao dispor do campeão nacional. Enfim, o eterno mistério das compras de Verão…

Entretanto, esta surpreendente equipa-fixa de Jesualdo Ferreira, que tantas vezes tem ganho esta época sem jogar bem, voltou agora a ceder um empate jogando bem — como já havia sucedido em Marselha. No deslize caseiro contra o Belenenses, que interrompeu aquela impressionante série de vitórias no campeonato, não encontrei razão alguma para criticar a exibição da equipa. Do princípio ao fim do jogo, o FC Porto lutou infatigavelmente pela vitória, face a um Belenenses que se fechou e defendeu muito bem, mas que pouco atacou com perigo, sobretudo na segunda parte. Houve também «casos do jogo», mas não foi por aí que o FC Porto viu fugir-lhe a vitória. O primeiro golo dos portistas, e único que valeu, é claramente offside; mas nem o segundo nem o terceiro, ambos anulados, o são. Mas todos resultam de jogadas muito rápidas e com decisões às vezes ao centímetro e que não são humanamente cobráveis à arbitragem. Entendo que, nestes casos, não é legítimo queixas da arbitragem, mas, quanto muito, apenas da pouca sorte. E o resumo do jogo, tal como o vi, é esse: o Belenenses teve mérito no empate que sacou, mas, com um pouco de sorte, o FC Porto teria ganho e também com justiça. Não há crise. Até porque…

3- …Porque o Benfica, por exemplo, que segue no segundo lugar, demonstra, jogo após jogo, que só por acaso ou por sorte ocupa tal posição: há várias equipas classificadas abaixo bem melhores do que o Benfica. Não têm é a sorte de vencer todos os jogos à tangente e nos últimos instantes ou não têm também o seu Bruno Paixão para, citando o relato de A BOLA, «empurrar os pacenses para a sua área de forma habilidosa e digna de compêndio», terminando por transformar um empate em vitória e assegurar aos encarnados a tão desejada recuperação de dois pontos para o FC Porto. Este Bruno Paixão, aliás, é sempre mais do mesmo, já não surpreende ninguém. A bem dizer, só surpreendeu mesmo quando, logo no início da sua carreira no topo, assinou aquela inesquecível arbitragem no Campomaiorense-FC Porto. Logo aí, quem manda na arbitragem, percebeu que só tinha uma de duas soluções: ou acabar com a carreira dele imediatamente ou fazer à portuguesa, deixando-o tranquilamente em paz para ir progredindo por antiguidade, independentemente do mérito e da credibilidade. Escolhido o segundo caminho, muito «Apito Dourado» e muita «Corrupção» depois, ele aí está, impune a tudo, caminhando tranquilamente até à reforma. Que se há-de fazer, se vivemos a época da «transparência» e da «regeneração»?

4- Tal como havia previsto, os jogadores do Braga, depois de muito se esforçarem, acabaram por mandar o seu treinador para o desemprego. Tanta displicência em campo, tanta falta de humildade e de atitude, só podiam conduzir a maus resultados. E já se sabe que, quando os resultados são maus, paga o treinador, quer tenha culpa, quer não — porque o presidente é irresponsável por natureza e os jogadores estão defendidos por contratos de trabalho que não os obrigam a correr nem a esforçar-se. Completamente à toa, o presidente António Salvador despede treinadores como quem muda de camisa, põe espiões a vigiar os hábitos nocturnos dos jogadores, muda os horários dos treinos e os dias de folga. Enfim, trata os jogadores como meninos mal comportados, ao mesmo tempo que, contraditoriamente, responsabiliza o treinador. E, no fim, ainda tem talento para se dedicar àquela estafada rábula do «segurem-me senão eu saio!», tão típica dos presidentes que se acham insubstituíveis.

Que um tipo queira ser jogador de futebol, eu percebo muito bem. Também percebo que queira ser treinador — todos quereríamos sê-lo de vez em quando. Mas um dia ainda me explicarão esse fascínio por ser dirigente do futebol — e logo do futebol português. Porque há-de alguém, excepto pontualmente e com espírito de missão e de sacrifício ditados por paixão clubística, querer dirigir clubes arruinados, aturar os caprichos de jogadores que se acham vedetas aos 18 anos, de «empresários»que não dão tréguas e adeptos que passam as horas de trabalho da semana plantados à porta dos centros de treino ou dos estádios a insultar tudo e todos, quando as coisas correm mal? A única explicação que vejo para esta estranha atracção pelo poder é o desejo de dar nas vistas e se transformarem em «figuras públicas» de audiência nacional. Deve ser isso que explica também a quantidade de novos-ricos emergentes que, mal chegam a presidentes de clube e vêem os holofotes e os microfones estendidos para eles, se tomam por gente importante e invejável. Mas que vocação!

COMO PERDER UM JOGO CIENTIFICAMENTE (30 OUTUBRO 2007)

Quando chega a hora da verdade, nos grandes palcos europeus, sem «Apitos Dourados» nem bocas por fora, o FC Porto dá cartas e o resto é paisagem

1- Se eu mandasse, os jogos do Benfica só duravam 80 minutos, porque é só a partir dessa altura que o Benfica os resolve, depois de habitualmente ter gasto o tempo até aí a mostrar-se incapaz de os resolver. Já vão três jogos consecutivos e seis esta época, resolvidos pelas águias nos últimos minutos dos desafios. Camacho não se pode queixar da sorte que tem tido e que falhou a Fernando Santos, mas tanta repetição também não pode ser atribuída só à sorte. De certeza que há mérito da equipa em acreditar e lutar até ao fim, e de certeza que há muito demérito dos adversários e respectivos treinadores, que, nesta altura dos acontecimentos, já deveriam estar mais do que avisados, preparados e concentrados para as terríveis pontas finais do Benfica. Na Luz, domingo passado, o Marítimo mostrou, todavia, que não trazia a lição estudada. Aliás, mostrou como é que se consegue tudo fazer para perder um jogo que se poderia ter ganho.

Até aos quinze minutos de jogo, o Marítimo tornou claro que, se ali havia alguma equipa que sabia jogar à bola, eram eles e não o Benfica. Uma, duas, três oportunidades e golo, perante um estádio gelado com a facilidade com que a sua «melhor equipa dos últimos dez anos» era passada a ferro pelo futebol envolvente dos brasileiros do Marítimo. Depois, Ricardo Fernandes teve um assomo de má consciência perante tanta falta de respeito e resolveu oferecer o empate ao Benfica. Nada que tenha abalado os seus colegas: continuaram a entrar pela defesa do Benfica adentro como quem entra em casa sua, e veio o penalty e a expulsão de Quim, que poderiam soar como a sentença de morte do Benfica — para o jogo e para o campeonato. Parece que Makukula resolveu cobrar o penalty à revelia de Lazaroni e, para quem o estava a ver na televisão, percebeu-se logo, pela sua expressão, que muito provavelmente iria falhar, como falhou. A partir daí, o Marítimo apostou que não iria ganhar o jogo: displicência no ataque, total incompetência na defesa, falta de ambição para ir decididamente em busca da vitória, face a um adversário cansado por um jogo europeu quarta-feira e pela inferioridade numérica. E depois de mais uma oportunidade negligentemente desperdiçada pelo ataque insular, o Benfica chegou à vitória no contra-golpe. Ficou demonstrado que os «grandes» são «grandes» porque dispõem de mais dinheiro e mais adeptos, mas não só: também porque os «pequenos» não se atrevem a tentar deixar de o ser.

Quanto ao Benfica, diz-se que está assente que vai às compras em Dezembro. Parece-me que tarde de mais para a Liga dos Campeões e, pelo que se tem visto, provavelmente tarde de mais também para o campeonato. A menos que o objectivo oculto de Camacho seja a disputa do segundo lugar com o rival do Campo Grande.

2- O rival do Campo Grande atravessa uma série negra e deprimente, pela falta de estrutura competitiva que vem mostrando. A primeira linha é curta e vive de três ou quatro jogadores cujo rendimento determina o da equipa. Há «consagrados» (talvez depressa de mais), como João Moutinho, cujo futebol é previsível, repetitivo e sem rasgo; a segunda linha não existe e, tal como sucedeu com o FC Porto, os reforços da época foram um sonoro e indisfarçável fiasco. A diferença para o Benfica é que o Sporting não tem dinheiro para ir às compras em Dezembro e comprar por comprar está visto que não resolve problema algum, só acrescenta outro. Paulo Bento, que nunca viveu nada que se parecesse com abundância e facilidades, tem agora porventura o mais difícil desafio da sua jovem carreira de treinador, num momento em que já se escutam os primeiros sinais de impaciência e desagrado dos adeptos. Os que ainda acreditam que os milagres existem e não acontecem só em Fátima.

3- Pois, se o jogo do Benfica contra o Marítimo só deveria ter demorado 85 minutos, o do FC Porto contra o Leixões deveria ter demorado apenas oito — que foi quanto os portistas se dispuseram a jogar, depois de se verem a ganhar por 2-0 na infância do jogo. Chamam a isso «gestão», coisa de que as equipes usam e abusam, entre nós, e sem grande respeito pelo público que ajuda a pagar os ordenados dos jogadores. O FC Porto-Leixões, que assinalava o regresso deste confronto Porto-Matosinhos ao nível maior, foi um interminável bocejo, como se jogar futebol fosse assim uma coisa tão aborrecida. Valeu a oitava vitória em oito jornadas e, se sexta-feira o FC Porto conseguir vencer no Restelo, fica bem encaminhado para as dez vitórias em outros tantos jogos, o que seria notável.

Se já muitas vezes se tem falado desta impressionante série de vitórias sem exibições correspondentes, é justo também reconhecer que, faz amanhã oito dias, o FC Porto saiu de Marselha com um empate que merecia ter sido vitória e até folgada. Em Marselha, o FC Porto fez a melhor exibição da época, com uma entrada autoritária e categórica no jogo, teve bolas nos postes, viu os franceses adiantarem-se contra a corrente de jogo, mas os jogadores não desanimaram, foram em busca do empate e terminaram ainda em cima do Marselha e à procura dos três pontos. É nestes confrontos europeus ao mais alto nível que se vê bem como, de há largos anos para cá, o FC Porto cava uma diferença em relação ao Sporting e ao Benfica apenas comparável à que o Benfica dos anos sessenta do século passado tinha sobre os seus rivais domésticos. Quando chega a hora da verdade, nos grandes palcos europeus, sem «Apitos Dourados» nem bocas por fora, o FC Porto dá cartas e o resto é paisagem. Eu sei que dói, mas que querem?

4- Se tudo correr conforme o previsto, estreia-se depois de amanhã, numa sala perto de si, o muito previamente divulgado filme «Corrupção», com o qual alguns benfiquistas do mundo das artes quiseram mostrar a sua imparcialíssima versão do «Apito Dourado». Não entrando em cena a providência cautelar que seria de esperar, este filme inaugura uma nova forma de justiça popular, servindo, com base num único testemunho, a acusação, a «prova» e a sentença de condenação previamente estabelecida, relativamente a um processo que, na justiça real, ainda se encontra em fase de instrução. As intenções prosseguidas pelo filme são eloquentes da exigência ética dos seus autores e um exemplo do que seria a justiça se os juízes fossem escolhidos pelas suas cores clubísticas.

Não admira que o pessoal desta nobre empreitada se tenha desavindo entre si na mesa de montagem, com realizador e actriz principal para um lado, produtor e restantes actores para outro: eloquente, outra vez. Quanto à «testemunha» e musa do enredo, tão apaparicada antes pela realização e script, mudou de visual, fez extensões no cabelo e uma operação à barriga chamada qualquer coisa «aspiração», e optou por ficar do lado do produtor. Cheira-me que estará a alimentar aspirações a um novo passo na sua carreira artística multifacetada. Consta também que, além da versão do produtor, servida nos cinemas, haverá uma outra versão do realizador, servida em casa, para os amigos. E parece que, em vez de «Corrupção», se chamará «Uma amarga lição».

terça-feira, outubro 23, 2007

A LIÇÃO DA ÁFRICA DO SUL ( 23 OUTUBRO 2007)

1- Durante muitos anos pensei que havia dois países no mundo para os quais, por mais voltas que eu desse à imaginação, não conseguia antever futuro algum: a Índia e a África do Sul. Pois bem, enganei-me: a vida está cheia de surpresas, tanto as boas como as más. A Índia é hoje muito mais do que uma nação emergente: é já uma potência económica imprescindível, crescendo a um ritmo de 10% ao ano e — o que é mais notável para quem conheceu o estado de subdesenvolvimento do país há uns anos — com um crescimento baseado na investigação, na qualificação cientifica e no domínio das novas tecnologias. E a África do Sul, pese os problemas graves que se mantêm, está infinitamente melhor do que todo o continente africano e, sobretudo, conseguiu essa proeza impensável de sair do regime intolerável do apartheid por via pacífica e democrática, evitando a guerra civil e a desforra dos negros contra os brancos, como sucedeu no vizinho Zimbabwe. No Zimbabwe, o racismo negro determinou a expulsão e o confisco de todas as terras dos brancos, conduzindo à ruína alimentar, à fome e à miséria o que fora o mais próspero território agrícola de África. Sob o comando desse criminoso corrupto e sanguinário que é Mugabe (que Sócrates insiste à viva força em deixar vir à cimeira Euro-África de Lisboa), o Zimbabwe transformou-se num quadro de terror e de devastação humana que, mesmo em África, ultrapassa tudo o que é tolerável. A África do Sul, pelo contrário, teve a sorte de encontrar em Nelson Mandela um líder que, em lugar do ressentimento e do ódio, que até seriam compreensíveis, demonstrou, desde o primeiro dia no poder, que buscava antes o perdão, a reconciliação e a prosperidade para o seu país.

O que vimos neste Mundial de râguebi, com o triunfo de uma selecção sul-africana composta essencialmente por brancos e mulatos, não seria, obviamente, possível de acontecer no Zimbabwe. E, infelizmente para o seu povo, que não tem culpa dos dirigentes que tem, o Zimbabwe nunca será conhecido por estas ou outras boas razões e nunca beneficiará, à escala planetária, de uma tão boa promoção como a que a África do Sul ficou agora a dever à sua selecção de râguebi.

O triunfo da África do Sul ensina-nos uma lição que só os ditadores, os racistas e os particularmente estúpidos se recusam a ver: que África não é dos negros, nem dos brancos, como se proclamava até aos anos sessenta, nem dos árabes, como se garantia antes disso. África é dos africanos, independentemente da cor da pele: dos que lá nasceram, lá criaram raízes e lá pretendem morrer. Não há nada mais redutor e idiota do que querer julgar a História à luz dos critérios políticos e de justiça social contemporâneos. Até meados do século XX, a história das nações não foi mais do que a história das conquistas e das derrotas e das sucessivas migrações dos povos a elas associadas. Querer negar que os europeus fizeram e fazem parte de África é o mesmo que negar que os mouros fizeram parte da história da Península ou que os negros de África fizeram, forçadamente, parte da história do Brasil. O que aconteceu, aconteceu porque foi inevitável e até natural, pelos padrões da época. Ser anticolonialista é perceber justamente que o que era natural e tido como legítimo dantes, deixou de o ser depois. Não é pretender ajustar contas com a História, perseguir os que ficaram para trás por amor à terra onde nasceram (e muitas vezes sem outra a que pudessem chamar sua) e transformar a independência conquistada a ferros numa oportunidade espúria para uma vingança fora de prazo, de que os povos autóctones acabam, a maior parte das vezes, por ser as maiores vítimas. Angola, por exemplo, onde estivemos 500 anos, é hoje muito mais abusada e explorada por franceses, americanos ou chineses e com a colaboração do regime local, do que o foi pelos portugueses durante esses cinco séculos. São anticolonialistas e ciosos da sua «independência» para tratarem e mal e de cima (de cima do petróleo) os portugueses; mas já não o são na hora de constituírem as célebres sociedades mistas com as mais gananciosas multinacionais do mundo, fazendo viver a «Grande Família» no mais indecoroso luxo e ostentação, enquanto o povo é tratado como sub-gente. Por aqui se vê como a História tem as costas largas e as verdades adquiridas se transformam tantas vezes em embustes sem pudor.

E há ocasiões assim, em que o desporto subitamente nos mostra que há povos que conseguem viver em paz na diversidade multiracial e em que cada comunidade se sente filha do mesmo país e orgulhosa por o honrar.

2- Hermínio Loureiro completou um ano à frente da Liga de Clubes e foi um ano positivo, em que ele confirmou que vinha para mudar as coisas e trazer ar fresco e um ambiente mais saudável ao ar putrefacto em que se vivia. Não deixa de ser uma ironia reveladora pensar que o presidente do Benfica — auto-nomeado regenerador moral do futebol português — conseguiu a proeza de estar com a Liga e intimamente aliado com ela, quando lá estava Valentim Loureiro, em representação do que de pior o mundo do futebol tinha; e conseguiu estar contra a Liga assim que se ensaiou a sério a sua efectiva regeneração. Não sei se é o desejo de dar sempre nas vistas ou se é fruto de uma grande confusão, ingénua ou deliberada, sobre os fins que verdadeiramente pretende.

Entretanto, uma das inovações que Hermínio Loureiro trouxe foi a Taça da Liga, em moldes de disputa originais e semelhantes ao que várias vezes aqui defendi para a disputa da Taça de Portugal: essencialmente, as primeiras eliminatórias discutidas a uma mão no campo dos mais fracos, e as eliminatórias finais a duas mãos. Para além disso, a Taça da Liga visava preencher um défice de visibilidade e de rendimento financeiro para os clubes pequenos e um défice de competição para os grandes, a braços com plantéis de trinta jogadores, dos quais uma dúzia a fazer vida ociosa, sem aproveitamento algum. Todavia, o que se está a passar com os grandes entre os grandes, ameaça matar à nascença a nova competição. Os profissionais de «segunda linha» de FC Porto, Sporting e Benfica têm demonstrado uma falta de vontade e de sentido de responsabilidade — uma falta de profissionalismo — que é preocupante e ameaça tornar inútil e desprovida de sentido a competição. Julgo que no final desta primeira edição, o presidente da Liga vai ter que se reunir com todos e perguntar-lhes o que verdadeiramente querem: manter todos os seus profissionais em competição durante a época ou desistir de fazer ocupar os excedentários, deixando-os livres para essa vida ociosa de treino pela manhã, salão de tatuagens ou cabeleireiro da parte da tarde.