1- Durante muitos anos pensei que havia dois países no mundo para os quais, por mais voltas que eu desse à imaginação, não conseguia antever futuro algum: a Índia e a África do Sul. Pois bem, enganei-me: a vida está cheia de surpresas, tanto as boas como as más. A Índia é hoje muito mais do que uma nação emergente: é já uma potência económica imprescindível, crescendo a um ritmo de 10% ao ano e — o que é mais notável para quem conheceu o estado de subdesenvolvimento do país há uns anos — com um crescimento baseado na investigação, na qualificação cientifica e no domínio das novas tecnologias. E a África do Sul, pese os problemas graves que se mantêm, está infinitamente melhor do que todo o continente africano e, sobretudo, conseguiu essa proeza impensável de sair do regime intolerável do apartheid por via pacífica e democrática, evitando a guerra civil e a desforra dos negros contra os brancos, como sucedeu no vizinho Zimbabwe. No Zimbabwe, o racismo negro determinou a expulsão e o confisco de todas as terras dos brancos, conduzindo à ruína alimentar, à fome e à miséria o que fora o mais próspero território agrícola de África. Sob o comando desse criminoso corrupto e sanguinário que é Mugabe (que Sócrates insiste à viva força em deixar vir à cimeira Euro-África de Lisboa), o Zimbabwe transformou-se num quadro de terror e de devastação humana que, mesmo em África, ultrapassa tudo o que é tolerável. A África do Sul, pelo contrário, teve a sorte de encontrar em Nelson Mandela um líder que, em lugar do ressentimento e do ódio, que até seriam compreensíveis, demonstrou, desde o primeiro dia no poder, que buscava antes o perdão, a reconciliação e a prosperidade para o seu país.
O que vimos neste Mundial de râguebi, com o triunfo de uma selecção sul-africana composta essencialmente por brancos e mulatos, não seria, obviamente, possível de acontecer no Zimbabwe. E, infelizmente para o seu povo, que não tem culpa dos dirigentes que tem, o Zimbabwe nunca será conhecido por estas ou outras boas razões e nunca beneficiará, à escala planetária, de uma tão boa promoção como a que a África do Sul ficou agora a dever à sua selecção de râguebi.
O triunfo da África do Sul ensina-nos uma lição que só os ditadores, os racistas e os particularmente estúpidos se recusam a ver: que África não é dos negros, nem dos brancos, como se proclamava até aos anos sessenta, nem dos árabes, como se garantia antes disso. África é dos africanos, independentemente da cor da pele: dos que lá nasceram, lá criaram raízes e lá pretendem morrer. Não há nada mais redutor e idiota do que querer julgar a História à luz dos critérios políticos e de justiça social contemporâneos. Até meados do século XX, a história das nações não foi mais do que a história das conquistas e das derrotas e das sucessivas migrações dos povos a elas associadas. Querer negar que os europeus fizeram e fazem parte de África é o mesmo que negar que os mouros fizeram parte da história da Península ou que os negros de África fizeram, forçadamente, parte da história do Brasil. O que aconteceu, aconteceu porque foi inevitável e até natural, pelos padrões da época. Ser anticolonialista é perceber justamente que o que era natural e tido como legítimo dantes, deixou de o ser depois. Não é pretender ajustar contas com a História, perseguir os que ficaram para trás por amor à terra onde nasceram (e muitas vezes sem outra a que pudessem chamar sua) e transformar a independência conquistada a ferros numa oportunidade espúria para uma vingança fora de prazo, de que os povos autóctones acabam, a maior parte das vezes, por ser as maiores vítimas. Angola, por exemplo, onde estivemos 500 anos, é hoje muito mais abusada e explorada por franceses, americanos ou chineses e com a colaboração do regime local, do que o foi pelos portugueses durante esses cinco séculos. São anticolonialistas e ciosos da sua «independência» para tratarem e mal e de cima (de cima do petróleo) os portugueses; mas já não o são na hora de constituírem as célebres sociedades mistas com as mais gananciosas multinacionais do mundo, fazendo viver a «Grande Família» no mais indecoroso luxo e ostentação, enquanto o povo é tratado como sub-gente. Por aqui se vê como a História tem as costas largas e as verdades adquiridas se transformam tantas vezes em embustes sem pudor.
E há ocasiões assim, em que o desporto subitamente nos mostra que há povos que conseguem viver em paz na diversidade multiracial e em que cada comunidade se sente filha do mesmo país e orgulhosa por o honrar.
2- Hermínio Loureiro completou um ano à frente da Liga de Clubes e foi um ano positivo, em que ele confirmou que vinha para mudar as coisas e trazer ar fresco e um ambiente mais saudável ao ar putrefacto em que se vivia. Não deixa de ser uma ironia reveladora pensar que o presidente do Benfica — auto-nomeado regenerador moral do futebol português — conseguiu a proeza de estar com a Liga e intimamente aliado com ela, quando lá estava Valentim Loureiro, em representação do que de pior o mundo do futebol tinha; e conseguiu estar contra a Liga assim que se ensaiou a sério a sua efectiva regeneração. Não sei se é o desejo de dar sempre nas vistas ou se é fruto de uma grande confusão, ingénua ou deliberada, sobre os fins que verdadeiramente pretende.
Entretanto, uma das inovações que Hermínio Loureiro trouxe foi a Taça da Liga, em moldes de disputa originais e semelhantes ao que várias vezes aqui defendi para a disputa da Taça de Portugal: essencialmente, as primeiras eliminatórias discutidas a uma mão no campo dos mais fracos, e as eliminatórias finais a duas mãos. Para além disso, a Taça da Liga visava preencher um défice de visibilidade e de rendimento financeiro para os clubes pequenos e um défice de competição para os grandes, a braços com plantéis de trinta jogadores, dos quais uma dúzia a fazer vida ociosa, sem aproveitamento algum. Todavia, o que se está a passar com os grandes entre os grandes, ameaça matar à nascença a nova competição. Os profissionais de «segunda linha» de FC Porto, Sporting e Benfica têm demonstrado uma falta de vontade e de sentido de responsabilidade — uma falta de profissionalismo — que é preocupante e ameaça tornar inútil e desprovida de sentido a competição. Julgo que no final desta primeira edição, o presidente da Liga vai ter que se reunir com todos e perguntar-lhes o que verdadeiramente querem: manter todos os seus profissionais em competição durante a época ou desistir de fazer ocupar os excedentários, deixando-os livres para essa vida ociosa de treino pela manhã, salão de tatuagens ou cabeleireiro da parte da tarde.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
terça-feira, outubro 23, 2007
terça-feira, outubro 16, 2007
AZERBAIJÃO, CAZAQUISTÃO E ABSURDISTÃO ( 16 Outubro 2007)
O núcleo duro da União Europeia discute apaixonadamente há dois anos se a Turquia é ou não uma nação europeia e se, consequentemente, tem ou não direito a integrar o selecto clube dos, por ora, 27 membros. E enquanto a Europa política discute se a Turquia é europeia ou asiática, a Europa desportiva não tem dúvidas em estender o seu conceito de nação europeia vários milhares de quilómetros mais para leste, até ao Azerbaijão e Cazaquistão. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, nem tão pouco para leste nem tanto para o fim do mundo: a Turquia é, como a história demonstra, tanto europeia quanto asiática; o Azerbaijão e o Cazaquistão não é por terem nascido do desmembramento do ex-império soviético, que ia de Riga, na Letónia, a Vladivostock, na costa do Pacífico, que passaram a ser nações europeias. A capital cazaque fica apenas a 260 quilómetros da fronteira chinesa — menos do que a distância do Porto a Lisboa e em plena Ásia Central. Não se percebe bem como é que a UEFA conseguiu descobrir estas nações «europeias» no coração do antigo império de Gengis Khan. E menos ainda se percebe quando se olha para os calendários do futebol europeu e facilmente se constata que eles estão saturados — de jogos e de viagens. Obrigar, como no caso da Selecção Portuguesa, à realização de 14 jogos de apuramento para o Europeu e com deslocações aos confins do mundo para jogar em relvados sem condições, é uma violência cujos efeitos se fazem depois sentir necessariamente na qualidade do futebol que interessa. Ao menos que fizessem, como na Champions, um pré-grupo de classificação, com todas as nações asiáticas, mais os casos exóticos, como S. Marino ou as Ilhas Faroe.
Também não consigo alcançar bem o interesse e a urgência das reformas propostas pelo presidente da UEFA, Michel Platini, para a Champions League. Por princípio, não consigo entender a necessidade de mexer no que está provadamente bem, e a Champions, depois de tactear uns tempos à procura do modelo certo, é hoje a mais competitiva, a mais prestigiante e a mais cobiçada de todas as competições futebolísticas. O seu êxito assenta exactamente no sistema de quotas — que, se privilegia os clubes dos países mais poderosos futebolisticamente, assegura, correspondentemente, os êxitos e audiências televisivas que fazem o seu sucesso. Sem o terceiro classificado de Inglaterra, Espanha ou Itália (e estamos a falar de equipas como um Arsenal, um Valência ou um Milan), em benefício do campeão da Eslovénia ou da Irlanda, a Champions deixará de ser a montra privilegiada do melhor futebol europeu de clubes. E as audiências e patrocinadores não podem senão recuar. É evidente que os pobres serão beneficiados e os ricos prejudicados com a reforma proposta por Platini. Sem dúvida. Mas aí, há que escolher claramente o que se quer: uma competição mais igualitária formalmente (e apenas formalmente) ou uma competição fundada essencialmente na qualidade. Um país, um voto; ou uma grande equipa, um voto. Acresce que se os ricos serão prejudicados e os pobres beneficiados, já os do meio não terão nada a ganhar com a reforma. A curto/médio prazo, se isto for por diante, Portugal perderá o direito à candidatura do terceiro classificado do campeonato e, logo depois, do segundo. Esperemos que os nossos homens na UEFA saibam justificar porque lá estão e não se distraiam na defesa dos interesses dos clubes portugueses (o Benfica, em especial, o mais beneficiado historicamente com os terceiros lugares, agradece o empenho).
Finalmente, a última parte da reforma proposta por Platini, a meu ver desfigura por completo a natureza e o historial único desta competição. Tanto a Champions como a sua antecessora, a Taça dos Campeões Europeus, têm como código genético desde sempre inscrito o facto de se tratar de uma competição reservada a clubes campeões ou que ficaram próximos. Premeia os melhores no campeonato, e não os vencedores de Taças, como agora se propõe. Incluir os vencedores de taças em detrimento de segundos ou terceiros classificados em campeonatos competitivos, significaria, bastantes vezes, apostar também numa diminuição da qualidade dos participantes. Mais uma vez, não entendo a necessidade de mudar o actual sistema, que assegura aos vencedores de taças o ingresso na Taça UEFA.
Esta teimosia de Platini (que, diga-se, já vem da sua campanha eleitoral), parece-me uma manifestação absurda de politicamente correcto que, seguramente, não vai defender o melhor futebol nem promover mais interesse e audiências.
Já que estamos no domínio dos absurdos, gostaria que alguém explicasse a necessidade de um jogador lesionado ao serviço de um clube e convocado para os trabalhos da Selecção, ter de se apresentar nesta apenas para ser dispensado logo depois. É claro que eu acredito que haja lesões «oportunas» e que dessas os responsáveis da Selecção tenham o direito de duvidar e de querer avaliar por si mesmos. Mas há outras que são públicas e notórias e que por vezes acontecem à vista de todos, no estádio ou na televisão. E há também, ou devia haver, um princípio de boa fé entre o corpo clínico de um clube e o da Selecção, que me parece que deveria ser corrente até prova em contrário. Por exemplo: que sentido faz obrigar um jogador que se lesionou à vista de todos — o Bosingwa — a ter de comparecer em Lisboa, no dia seguinte, apenas para receber a ordem, mais do que previsível, de regressar ao Porto por não estar em condições?
Mesmo em tempo de defeso originado pelos trabalhos da Selecção, os dirigentes sportinguistas não deram descanso ao seu disco rachado das lamúrias com as arbitragens. Muito gostaria eu, para pôr a coisa em pratos limpos, de os ver bombardeados com estatísticas reveladoras e comparativas com os dois outros rivais. Por exemplo, quantos jogadores adversários do Sporting foram expulsos nos últimos anos, em comparação com Benfica e FC Porto? E quantas expulsões houve de jogadores do Sporting? De quantos golos irregulares beneficiou o Sporting e os seus rivais, etc, ect.? Mas, felizmente, uma parte dessa lacuna foi preenchida recentemente com um trabalho de João Querido Manha, no Correio da Manhã. E logo acerca do mais importante — os penalties, sempre, sempre, tão reclamados pelos sportinguistas. Desse trabalho, fiquei a saber que, desde que o Século XXI é século, ou seja, nos últimos sete anos —, o Sporting beneficiou de 71 penalties para o campeonato, o Benfica de 48, e o FC Porto de 44. Ou seja, face ao FC Porto, o Sporting ultrapassou 60% de penalties a mais. Imagine-se como não seriam as contas se, além destes, tivessem sido assinalados todos aqueles que eles reclamam, semana após semana!
Pois é. A estatística é uma chatice: as melhores opiniões e as mais sólidas «verdades» morrem miseravelmente às mãos de uma vulgar estatística! Neste caso, ainda por cima, a estatística choca com outra realidade: é que é sabido e natural que, quem mais ataca, mais beneficia de penalties, por força da dinâmica do seu jogo ofensivo. E quem mais ataca é quem mais golos marca. Neste século, quem mais tem atacado e mais golos tem marcado é o FC Porto (à excepção daquele ano em que o Jardel, com a camisola do Sporting, só à sua conta beneficiou de 18 penalties).
É claro, porém, que nada disto serve para coisa alguma: o País inteiro viu e disse que o Katsouranis não meteu a mão à bola e eles lá continuam, impávidos, a debitarem a sua verdade de que o árbitro lhes roubou um penalty na Luz. E para a semana lá estarão a reclamar mais outro…
Também não consigo alcançar bem o interesse e a urgência das reformas propostas pelo presidente da UEFA, Michel Platini, para a Champions League. Por princípio, não consigo entender a necessidade de mexer no que está provadamente bem, e a Champions, depois de tactear uns tempos à procura do modelo certo, é hoje a mais competitiva, a mais prestigiante e a mais cobiçada de todas as competições futebolísticas. O seu êxito assenta exactamente no sistema de quotas — que, se privilegia os clubes dos países mais poderosos futebolisticamente, assegura, correspondentemente, os êxitos e audiências televisivas que fazem o seu sucesso. Sem o terceiro classificado de Inglaterra, Espanha ou Itália (e estamos a falar de equipas como um Arsenal, um Valência ou um Milan), em benefício do campeão da Eslovénia ou da Irlanda, a Champions deixará de ser a montra privilegiada do melhor futebol europeu de clubes. E as audiências e patrocinadores não podem senão recuar. É evidente que os pobres serão beneficiados e os ricos prejudicados com a reforma proposta por Platini. Sem dúvida. Mas aí, há que escolher claramente o que se quer: uma competição mais igualitária formalmente (e apenas formalmente) ou uma competição fundada essencialmente na qualidade. Um país, um voto; ou uma grande equipa, um voto. Acresce que se os ricos serão prejudicados e os pobres beneficiados, já os do meio não terão nada a ganhar com a reforma. A curto/médio prazo, se isto for por diante, Portugal perderá o direito à candidatura do terceiro classificado do campeonato e, logo depois, do segundo. Esperemos que os nossos homens na UEFA saibam justificar porque lá estão e não se distraiam na defesa dos interesses dos clubes portugueses (o Benfica, em especial, o mais beneficiado historicamente com os terceiros lugares, agradece o empenho).
Finalmente, a última parte da reforma proposta por Platini, a meu ver desfigura por completo a natureza e o historial único desta competição. Tanto a Champions como a sua antecessora, a Taça dos Campeões Europeus, têm como código genético desde sempre inscrito o facto de se tratar de uma competição reservada a clubes campeões ou que ficaram próximos. Premeia os melhores no campeonato, e não os vencedores de Taças, como agora se propõe. Incluir os vencedores de taças em detrimento de segundos ou terceiros classificados em campeonatos competitivos, significaria, bastantes vezes, apostar também numa diminuição da qualidade dos participantes. Mais uma vez, não entendo a necessidade de mudar o actual sistema, que assegura aos vencedores de taças o ingresso na Taça UEFA.
Esta teimosia de Platini (que, diga-se, já vem da sua campanha eleitoral), parece-me uma manifestação absurda de politicamente correcto que, seguramente, não vai defender o melhor futebol nem promover mais interesse e audiências.
Já que estamos no domínio dos absurdos, gostaria que alguém explicasse a necessidade de um jogador lesionado ao serviço de um clube e convocado para os trabalhos da Selecção, ter de se apresentar nesta apenas para ser dispensado logo depois. É claro que eu acredito que haja lesões «oportunas» e que dessas os responsáveis da Selecção tenham o direito de duvidar e de querer avaliar por si mesmos. Mas há outras que são públicas e notórias e que por vezes acontecem à vista de todos, no estádio ou na televisão. E há também, ou devia haver, um princípio de boa fé entre o corpo clínico de um clube e o da Selecção, que me parece que deveria ser corrente até prova em contrário. Por exemplo: que sentido faz obrigar um jogador que se lesionou à vista de todos — o Bosingwa — a ter de comparecer em Lisboa, no dia seguinte, apenas para receber a ordem, mais do que previsível, de regressar ao Porto por não estar em condições?
Mesmo em tempo de defeso originado pelos trabalhos da Selecção, os dirigentes sportinguistas não deram descanso ao seu disco rachado das lamúrias com as arbitragens. Muito gostaria eu, para pôr a coisa em pratos limpos, de os ver bombardeados com estatísticas reveladoras e comparativas com os dois outros rivais. Por exemplo, quantos jogadores adversários do Sporting foram expulsos nos últimos anos, em comparação com Benfica e FC Porto? E quantas expulsões houve de jogadores do Sporting? De quantos golos irregulares beneficiou o Sporting e os seus rivais, etc, ect.? Mas, felizmente, uma parte dessa lacuna foi preenchida recentemente com um trabalho de João Querido Manha, no Correio da Manhã. E logo acerca do mais importante — os penalties, sempre, sempre, tão reclamados pelos sportinguistas. Desse trabalho, fiquei a saber que, desde que o Século XXI é século, ou seja, nos últimos sete anos —, o Sporting beneficiou de 71 penalties para o campeonato, o Benfica de 48, e o FC Porto de 44. Ou seja, face ao FC Porto, o Sporting ultrapassou 60% de penalties a mais. Imagine-se como não seriam as contas se, além destes, tivessem sido assinalados todos aqueles que eles reclamam, semana após semana!
Pois é. A estatística é uma chatice: as melhores opiniões e as mais sólidas «verdades» morrem miseravelmente às mãos de uma vulgar estatística! Neste caso, ainda por cima, a estatística choca com outra realidade: é que é sabido e natural que, quem mais ataca, mais beneficia de penalties, por força da dinâmica do seu jogo ofensivo. E quem mais ataca é quem mais golos marca. Neste século, quem mais tem atacado e mais golos tem marcado é o FC Porto (à excepção daquele ano em que o Jardel, com a camisola do Sporting, só à sua conta beneficiou de 18 penalties).
É claro, porém, que nada disto serve para coisa alguma: o País inteiro viu e disse que o Katsouranis não meteu a mão à bola e eles lá continuam, impávidos, a debitarem a sua verdade de que o árbitro lhes roubou um penalty na Luz. E para a semana lá estarão a reclamar mais outro…
domingo, outubro 14, 2007
UM POUCO MAIS DE AZUL...( 09 Outubro 2007)
O FC Porto vai com mais cinco pontos do que ia no ano passado por esta altura e já ganhou três jogos que perdeu em 2006. Isso é um facto incontornável e louvável. Mas também é facto que joga muito pior futebol, muito menos seguro, muito menos denominador, do que jogava na última época.
Que dizer deste surpreendente FC Porto, que joga um futebol incapaz de entusiasmar o adepto mais fácil e, todavia, segue, imperial, com sete vitórias em sete jogos do campeonato e bem lançado na Liga dos Campeões? Alguns jornalistas, daquela escola dos que estão sempre prontos para fazer rapapés aos treinadores e dirigentes, andam para aí a lançar piadas contra os «adeptos críticos» a quem os factos e as vitórias desmentirão todos os dias, e o próprio presidente Pinto da Costa lança indirectas, supostamente irónicas e sábias, aos «críticos», na revista do clube. E, todavia…
Todavia eu mantenho a substância das minhas críticas: a onda de aquisições (doze!) para a nova temporada foi um desastre. À excepção de Leandro Lima e Stepanov, que, com trabalho e oportunidades, ainda podem justificar o investimento, todos os outros não têm, à vista desarmada, qualquer valor que chegue para jogar no FC Porto e justificar os cerca de 15 milhões de euros gastos em compras, durante o mês de Julho. Pelo que, estes surpreendentes resultados vêm sendo obtidos com a mesma equipa que no ano passado foi campeã com um ponto de avanço sobre o Sporting — só que desfalcada «apenas» do Pepe, do Anderson e de outros, como o Ibson, o Alan ou o Vierinha. Só um milagre fará com que esta curta manta dê para as necessidades da época que, como se sabe, são as mesmas de sempre: ser campeão e chegar, pelo menos, à primeira eliminatória da Liga dos Campeões.
Contrariando a minha oposição de princípio à política de compras por atacado que é uma imagem de marca desta direcção, penso que o FC Porto, se quiser lutar a sério pelos seus objectivos habituais, tem de ir às compras em Janeiro. Mas, depois de ter visto o Sporting-Guimarães deste sábado, o que eu faria, para já, até teria custo zero: ir buscar dois jogadores que já são nossos. Um, é o Alan, que nunca deveria ter saído, porque é francamente melhor que, por exemplo, o Tarik ou o Mariano González; o outro é o jovem Rabiola, comprado ao Vitória de Guimarães e lá deixado por empréstimo, com o FC Porto a pagar a totalidade dos seus salários (porque não propusemos ao Manchester uma operação destas, mas ao contrário, em relação ao Anderson?). Jesualdo é que sabe porque escolheu quem escolheu e porque desprezou quem desprezou. Mas, face à fraqueza pungente dos reforços adquiridos, faz impressão ver tantos jogadores do FC Porto, francamente melhores, a brilhar noutros clubes, como o Vitória de Guimarães, o Setúbal, o Leixões ou a Académica. E nós a pagar os ordenados para os ver jogar pelos outros e a pagar os ordenados dos «reforços» para os ver jogar na bancada…
Por isso, quando os tais jornalistas de que acima falei, escrevem, muito diligentes, que Jesualdo calou os críticos que o acusavam de jogar sempre com a mesma equipa e nunca apostar nos reforços, eles «esquecem-se» do resto da história: é que os críticos não sabiam, ao contrário de Jesualdo, que os reforços eram tão fraquinhos. Faltava vê-los jogar. E, agora que os vimos, é óbvio que a única pergunta pertinente é esta: porque razão Jesualdo os quis ou deixou que lhos impingissem?
Essa é uma questão. A outra questão é a qualidade do futebol praticado e à vista de todos. O FC Porto vai com mais cinco pontos do que ia no ano passado por esta altura e já ganhou três jogos que perdeu em 2006. Isso é um facto incontornável e louvável. Mas também é facto que joga muito pior futebol, muito menos seguro, muito menos denominador, do que jogava na última época. No ano passado, por esta altura, estava eu aqui a elogiar, sem reticências, o futebol azul-e-branco; este ano, tirando o jogo de Braga, logo na primeira jornada, não vi motivos para qualquer entusiasmo. Eu sei que os campeões se fazem também ganhando jogos mal jogados; mas, independentemente dessas sete vitórias que aí estão, não acredito que se possa ser campeão sem nunca jogar francamente bem — apenas com atitude competitiva e cultura de vitória, que essas, felizmente, continuam a ser a imagem de marca das sucessivas equipes do FC Porto.
Há dias, por acaso, passei pela RTP-Memória e revi um célebre Milan-FC Porto, para a Liga dos Campeões, em 1987, onde Jardel fez a sua aparição retumbante na primeira linha da equipa, marcando dois golos que fizeram o FC Porto sair de San Siro com a vitória por 3-2. Era treinador António Oliveira (um dia explicarei porque entendo que ele foi um dos melhores treinadores que passaram pelo clube), e, só para se ter uma ideia da diferença de talentos entre essa equipa de então e a de hoje, atente-se no quadro de jogadores que Oliveira tinha à sua disposição, apenas no meio-campo e no ataque. No meio-campo, ele jogou com Sérgio Conceição, Barroso, Paulinho Santos e Zahovic; no ataque fez alinhar Edmilson e Artur. Depois, com aquela fantástica capacidade que ele tinha para fazer as substituições certas no momento certo, fez entrar Jardel, Rui Barros e Drulovic. E ainda deixou de fora, por lesão, Domingos! E o Milan, onde pontificavam jogadores como Maldini, Pannuci, Ambrozini, Marco Simone, Raizinger, Davids, George Weah, Desailly, Albertini, Boban e Roberto Baggio, levou uma lição de bola do Porto! Mas, a verdade é que, da actual equipa do Porto, apenas Ricardo Quaresma teria lugar naquele onze de Oliveira. E vale a pena recordar o comentário final de António Oliveira: «Como viram, ao contrário do que gosta de dizer a imprensa portuguesa, não foi preciso a ajuda do árbitro para ganharmos ao Milan, em San Siro». Já lá vão vinte anos desta lengalenga…
É por causa da memória destas coisas que o público do FC Porto é o mais exigente e o melhor público de futebol em Portugal — uma coisa tem que ver com a outra. Quem não está habituado ou se desabituou das grandes jornadas europeias, das grandes equipas e do grande talento, quer é ganhar de qualquer maneira — como sucede em Alvalade frequentemente, e na Luz, bastantes vezes. No Dragão é diferente: no Dragão queremos as vitórias, mas queremos também o grande futebol. Por isso, é que a ganhar por 1-0 a um inofensivo Boavista e mesmo na véspera de um jogo europeu decisivo na Turquia, o público do Dragão é capaz de assobiar a equipa, porque não está satisfeito com o espectáculo. No FC Porto é fácil ser treinador, por um lado, mas é difícil, por outro. É fácil, porque naquele clube tudo está pensado e organizado para triunfar e a cabina tresanda a ambição de vitória. Mas é difícil, porque ali não é possível pedir tempo aos adeptos nem viver com a desculpa de que são os árbitros que não nos deixam ganhar. E, para além das vitórias, nós queremos espectáculo, golos, futebol.
É por isso, podem crer, senhores jornalistas compreensivos e senhor presidente avesso a críticas, que eu tenho a certeza de que, apesar das sete vitórias e do alívio de Istambul, ninguém se sente ainda tranquilo nem satisfeito e a maior parte de nós continua a pensar, por exemplo, que não ter forçado a vitória contra o Liverpool foi uma oportunidade perdida (até porque o segundo lugar no grupo significa quase sempre a eliminação nos dezasseis avos-finais, às mãos de um «tubarão»).
E é por isso que o FC Porto tem de ir ou banco dos emprestados ou às compras, em Dezembro. Porque os golpes de génio do Quaresma ou os ocasionais flashes europeus do Lucho não vão chegar para as encomendas todas. Precisamos de mais um central de categoria, de dois médios criativos de ataque, de um extremo-direito e de um verdadeiro ponta-de-lança. É muita coisa. Pois é: foi uma pena ter desprezado o que nos dava jeito e ter ido buscar o que não precisávamos.
Que dizer deste surpreendente FC Porto, que joga um futebol incapaz de entusiasmar o adepto mais fácil e, todavia, segue, imperial, com sete vitórias em sete jogos do campeonato e bem lançado na Liga dos Campeões? Alguns jornalistas, daquela escola dos que estão sempre prontos para fazer rapapés aos treinadores e dirigentes, andam para aí a lançar piadas contra os «adeptos críticos» a quem os factos e as vitórias desmentirão todos os dias, e o próprio presidente Pinto da Costa lança indirectas, supostamente irónicas e sábias, aos «críticos», na revista do clube. E, todavia…
Todavia eu mantenho a substância das minhas críticas: a onda de aquisições (doze!) para a nova temporada foi um desastre. À excepção de Leandro Lima e Stepanov, que, com trabalho e oportunidades, ainda podem justificar o investimento, todos os outros não têm, à vista desarmada, qualquer valor que chegue para jogar no FC Porto e justificar os cerca de 15 milhões de euros gastos em compras, durante o mês de Julho. Pelo que, estes surpreendentes resultados vêm sendo obtidos com a mesma equipa que no ano passado foi campeã com um ponto de avanço sobre o Sporting — só que desfalcada «apenas» do Pepe, do Anderson e de outros, como o Ibson, o Alan ou o Vierinha. Só um milagre fará com que esta curta manta dê para as necessidades da época que, como se sabe, são as mesmas de sempre: ser campeão e chegar, pelo menos, à primeira eliminatória da Liga dos Campeões.
Contrariando a minha oposição de princípio à política de compras por atacado que é uma imagem de marca desta direcção, penso que o FC Porto, se quiser lutar a sério pelos seus objectivos habituais, tem de ir às compras em Janeiro. Mas, depois de ter visto o Sporting-Guimarães deste sábado, o que eu faria, para já, até teria custo zero: ir buscar dois jogadores que já são nossos. Um, é o Alan, que nunca deveria ter saído, porque é francamente melhor que, por exemplo, o Tarik ou o Mariano González; o outro é o jovem Rabiola, comprado ao Vitória de Guimarães e lá deixado por empréstimo, com o FC Porto a pagar a totalidade dos seus salários (porque não propusemos ao Manchester uma operação destas, mas ao contrário, em relação ao Anderson?). Jesualdo é que sabe porque escolheu quem escolheu e porque desprezou quem desprezou. Mas, face à fraqueza pungente dos reforços adquiridos, faz impressão ver tantos jogadores do FC Porto, francamente melhores, a brilhar noutros clubes, como o Vitória de Guimarães, o Setúbal, o Leixões ou a Académica. E nós a pagar os ordenados para os ver jogar pelos outros e a pagar os ordenados dos «reforços» para os ver jogar na bancada…
Por isso, quando os tais jornalistas de que acima falei, escrevem, muito diligentes, que Jesualdo calou os críticos que o acusavam de jogar sempre com a mesma equipa e nunca apostar nos reforços, eles «esquecem-se» do resto da história: é que os críticos não sabiam, ao contrário de Jesualdo, que os reforços eram tão fraquinhos. Faltava vê-los jogar. E, agora que os vimos, é óbvio que a única pergunta pertinente é esta: porque razão Jesualdo os quis ou deixou que lhos impingissem?
Essa é uma questão. A outra questão é a qualidade do futebol praticado e à vista de todos. O FC Porto vai com mais cinco pontos do que ia no ano passado por esta altura e já ganhou três jogos que perdeu em 2006. Isso é um facto incontornável e louvável. Mas também é facto que joga muito pior futebol, muito menos seguro, muito menos denominador, do que jogava na última época. No ano passado, por esta altura, estava eu aqui a elogiar, sem reticências, o futebol azul-e-branco; este ano, tirando o jogo de Braga, logo na primeira jornada, não vi motivos para qualquer entusiasmo. Eu sei que os campeões se fazem também ganhando jogos mal jogados; mas, independentemente dessas sete vitórias que aí estão, não acredito que se possa ser campeão sem nunca jogar francamente bem — apenas com atitude competitiva e cultura de vitória, que essas, felizmente, continuam a ser a imagem de marca das sucessivas equipes do FC Porto.
Há dias, por acaso, passei pela RTP-Memória e revi um célebre Milan-FC Porto, para a Liga dos Campeões, em 1987, onde Jardel fez a sua aparição retumbante na primeira linha da equipa, marcando dois golos que fizeram o FC Porto sair de San Siro com a vitória por 3-2. Era treinador António Oliveira (um dia explicarei porque entendo que ele foi um dos melhores treinadores que passaram pelo clube), e, só para se ter uma ideia da diferença de talentos entre essa equipa de então e a de hoje, atente-se no quadro de jogadores que Oliveira tinha à sua disposição, apenas no meio-campo e no ataque. No meio-campo, ele jogou com Sérgio Conceição, Barroso, Paulinho Santos e Zahovic; no ataque fez alinhar Edmilson e Artur. Depois, com aquela fantástica capacidade que ele tinha para fazer as substituições certas no momento certo, fez entrar Jardel, Rui Barros e Drulovic. E ainda deixou de fora, por lesão, Domingos! E o Milan, onde pontificavam jogadores como Maldini, Pannuci, Ambrozini, Marco Simone, Raizinger, Davids, George Weah, Desailly, Albertini, Boban e Roberto Baggio, levou uma lição de bola do Porto! Mas, a verdade é que, da actual equipa do Porto, apenas Ricardo Quaresma teria lugar naquele onze de Oliveira. E vale a pena recordar o comentário final de António Oliveira: «Como viram, ao contrário do que gosta de dizer a imprensa portuguesa, não foi preciso a ajuda do árbitro para ganharmos ao Milan, em San Siro». Já lá vão vinte anos desta lengalenga…
É por causa da memória destas coisas que o público do FC Porto é o mais exigente e o melhor público de futebol em Portugal — uma coisa tem que ver com a outra. Quem não está habituado ou se desabituou das grandes jornadas europeias, das grandes equipas e do grande talento, quer é ganhar de qualquer maneira — como sucede em Alvalade frequentemente, e na Luz, bastantes vezes. No Dragão é diferente: no Dragão queremos as vitórias, mas queremos também o grande futebol. Por isso, é que a ganhar por 1-0 a um inofensivo Boavista e mesmo na véspera de um jogo europeu decisivo na Turquia, o público do Dragão é capaz de assobiar a equipa, porque não está satisfeito com o espectáculo. No FC Porto é fácil ser treinador, por um lado, mas é difícil, por outro. É fácil, porque naquele clube tudo está pensado e organizado para triunfar e a cabina tresanda a ambição de vitória. Mas é difícil, porque ali não é possível pedir tempo aos adeptos nem viver com a desculpa de que são os árbitros que não nos deixam ganhar. E, para além das vitórias, nós queremos espectáculo, golos, futebol.
É por isso, podem crer, senhores jornalistas compreensivos e senhor presidente avesso a críticas, que eu tenho a certeza de que, apesar das sete vitórias e do alívio de Istambul, ninguém se sente ainda tranquilo nem satisfeito e a maior parte de nós continua a pensar, por exemplo, que não ter forçado a vitória contra o Liverpool foi uma oportunidade perdida (até porque o segundo lugar no grupo significa quase sempre a eliminação nos dezasseis avos-finais, às mãos de um «tubarão»).
E é por isso que o FC Porto tem de ir ou banco dos emprestados ou às compras, em Dezembro. Porque os golpes de génio do Quaresma ou os ocasionais flashes europeus do Lucho não vão chegar para as encomendas todas. Precisamos de mais um central de categoria, de dois médios criativos de ataque, de um extremo-direito e de um verdadeiro ponta-de-lança. É muita coisa. Pois é: foi uma pena ter desprezado o que nos dava jeito e ter ido buscar o que não precisávamos.
A CIGARRA, A FORMIGA E O KALIMERO ( 02 Outubro 2007)
O Sporting não sabe perder e, por isso, adoptou a atitude do Kalimero, sempre a queixar-se dos «meninos maus» que lhe roubam a bola no recreio. É já uma cultura entranhada entre os sportinguistas, tão entranhada como o é a cultura de vitória entre os portistas ou a cultura de superioridade entre os benfiquistas.
Como se sabe, há três clubes chamados grandes no futebol português: a Cigarra, a Formiga e o Kalimero.
A Cigarra é o Benfica: faz-se tratar por «A Instituição» e auto-intitula-se de «maior clube do mundo» — com direito a diploma e tudo; diz que vai a caminho dos trezentos mil sócios e que terá uns trinta milhões de adeptos da «marca Benfica» espalhados pelo mundo inteiro; a sua grandeza é tão desmesurada, tão avalassadora, que nem é preciso ter, como este ano, uma equipa de futebol «que qualquer treinador do mundo gostaria de treinar», para que os títulos lhe caiam, naturalmente e por vassalagem alheia, aos pés. Porque acha que de há muito adquiriu por usucapião o direito natural aos títulos, «A Instituição» não acredita que estes exijam trabalho, talento e paciência. Resultado: não é campeão nacional em modalidade alguma, excepto em futebol de salão (que teve de começar a praticar exactamente para poder ser campeão em alguma coisa, tirando partido do facto de A Formiga não praticar a modalidade).
A Formiga é o FC Porto: passou décadas a prestar vassalagem aos Grandes de Lisboa, aceitando pacificamente o papel de animador inútil dos campeonatos. Até ao dia em que soltou o Grito de Ipiranga e nunca mais parou: ultrapassou confortavelmente o número de títulos nacionais do Kalimero e aproxima-se vertiginosamente dos da Cigarra e, em matéria de títulos internacionais, arrasou: face aos dois longínquos títulos de campeão europeu (numa época em que só três ou quatro boas equipas disputavam a Taça dos Campeões e em que, com estrelinha no sorteio, podia-se ir por ali fora), e face ao mítico título de uma obscura e já defunta Taça das Taças conquistada pelo Kalimero na noite dos tempos, a Formiga tem para apresentar, nos últimos 20 anos, uma Taça UEFA, uma Supertaça Europeia, dois títulos de campeão europeu e outros dois de campeão mundial. Este ano defende os títulos de campeão nacional de futebol, hóquei, andebol e já nem sei que mais. Épocas houve, nestes últimos anos, em que juntou simultâneamente todos os títulos de campeão das modalidades profissionais ou os títulos de campeão nacional de futebol em todos os escalões, dos infantis aos seniores. Tal qual como na fábula, tanto a Cigarra como o Kalimero gritam que os sucessos da Formiga são falsos e resultado apenas de batota — (nacional e internacional, presume-se). Repetem isto há vinte anos na esperança de que, como dizia Goebbells, repetir uma mentira até à exaustão a transforme numa verdade… por exaustão. A Formiga ri-se e segue em frente. Ela sabe que, para ganhar mais vezes do que os outros é preciso muito trabalho, muito talento, muita organização, muita humildade e uma cultura de vitória que não se consegue com simples proclamações de superioridade natural.
O Kalimero é Sporting e é o caso mais problemático. Os tempos mudam e os tempos mudaram em desfavor do Kalimero: no futebol nacional, tal como na vida política ou demográfica do país, os tempos evoluiram para a bipolarização e o Kalimero é o parceiro sobejante. Em vão, vive a proclamar que foram eles que trouxeram o futebol para Portugal, que são eles os gentlemen e guardiões do templo com a profusão de condes e barões que deram ao nosso futebol. A verdade é esta: o Kalimero tem hoje menos títulos, no futebol e no resto, menos adeptos, menos assistências e incomparavelmente menos projecção e conhecimento internacional do que a Formiga. Pior do que isso, eles — que se reivindicam de donos do fair-play e do bom gosto — sofrem de cada vez que comparam o seu novo estádio, com nome de Visconde, a essa coisa linear e deslumbrante que é o Estádio do Dragão, e desesperadamente sentem que, em cada nova geração de adeptos que chega ao futebol, são muito mais os dragões do que os leões.
O Kalimero não tem culpa disto e, ao contrário da Cigarra, tem feito tudo o que pode e deve para contrariar o inevitável. O Sporting — repito o que já aqui disse — é hoje o clube melhor administrado e o que mais faz para evitar a bancarrota em cuja iminência vivem todos os clubes portugueses (e mesmo que isso passe por sacar à Câmara Municipal de Lisboa negócios e benesses que deveriam fazer corar de vergonha os inspectores do IGAT que conseguiram descobrir graves irregularidades na construção do Estádio do Dragão, porque teria havido uns terrenos do clube permutados com a CMP e sobrevaliados, e assistiram depois, em respeitoso silêncio, a todos os negócios de favor celebrados pela CML com Benfica e Sporting para a construção dos seus novos estádios).
Dos três, o Kalimero é o que tem menos dinheiro e menos orçamento para o futebol, o que, em contrapartida, mais talentos cria e exporta, e o que mais faz das tripas coração para se manter na discussão ao nível do topo. Merece por isso um rol de elogios e só não merece todos porque lhe falta uma característica fundamental que distingue os verdadeiros desportistas e o verdadeiro fair-play das falsas nobrezas apregoadas: saber perder. O Sporting não sabe perder e, por isso, adoptou a atitude do Kalimero, sempre a queixar-se dos «meninos maus» que lhe roubam a bola no recreio. É já uma cultura entranhada entre os sportinguistas, tão entranhada como o é a cultura de vitória entre os portistas ou a cultura de superioridade entre os benfiquistas.
Como se tal não bastasse, o Kalimero usa, sem pudor algum, uma bitola com dois pesos e duas medidas, convencido de que ninguém nota a hipocresia. Quando acha que tem razões para se queixar do árbitro — o que sucede sempre que não ganha — arma um escabeche de todo o tamanho, com declarações inflamadas, comunicados patéticos ou rídiculas «procissões de luto»; quando são benficiados — o que acontece muito mais vezes e quase sempre quando jogam em Alvalade — calam-se muito caladinhos e assobiam para o ar. Dizem que só não foram campeões no ano passado porque sofreram um golo marcado com a mão, mas fingem não ter visto o golo que entrou dentro da sua baliza e não valeu ou os erros que lhes permitiram sair do Dragão com uma vitória. Este ano, passaram uma semana revoltados porque o árbitro não lhes marcou um penalty na Amadora, que não teria qualquer influência no resultado, mas calaram-se quando, em Alvalade e contra o Setúbal, o árbitro esqueceu um penalty a favor do Vitória, que teria modificado o resultado.
O «escândalo» desta semana é porque, dizem eles, lhe roubaram dois penalties na Luz ( o mesmo árbitro que os fez ganhar no Porto, em Abril passado…). Ora, penso que, se há alguém insuspeito a analisar um Sporting-Benfica, é um portista. E o que eu vi é que, dos três lances contestados no jogo, o único que oferece dúvidas acabou a beneficiar o Sporting: um penalty que João Moutinho terá cometido mesmo a terminar o jogo. O primeiro penalty reclamado pelo Sporting faz parte daquela categoria de penalties de que os sportinguistas reclamam aos dois ou três por jogo, já por hábito instalado. E o segundo, é preciso ter muito má-fé e uma total falta de vergonha para o reclamar. O país inteiro viu que não houve penalty algum, que o Katsouranis, a menos que fosse decepado, não podia evitar que a bola lhe batesse no braço. O juiz de linha viu mal e marcou penalty, o árbitro viu bem e não o marcou. Sustentar que deveria ter prevalecido a opinião do juiz de linha, mesmo que ela implicasse uma vitória falsa como Judas e com o argumento de que foi assim que o Benfica ganhou na Amadora, deita por terra, sem honra alguma, quaisquer veleidades de se armarem em donos do desportivismo.
Aliás, eu fartei-me de rir, ao ler no sábado e ontem o relato da «histórica reunião» promovida pela Bola entre os presidentes do Benfica e do Sporting. Almoçando antes do jogo, não tiveram dificuldades em entenderem-se na conclusão de que são ambos vítimas das arbitragens, em benefício do «Outro», e irmãos na luta contra o suposto «Sistema» (de que eles controlam tudo: Federação, direcção da Liga, Comissão de Arbitragem e Comissão Disciplinar). Mas — pensei eu com os meus botões — bastaria que houvesse um casosinho ou inventado como tal no jogo do dia seguinte, e lá se ia a harmonia, a irmandade e a luta comum contra as arbitragens e o «Sistema». Dito e feito.
PS: Paulo Bento transformou-se agora no farol dos treinadores sem luz à vista. O problema, Jorge Costa, é que o golo do Guimarães foi mesmo golo e não hoube falta alguma sobre o Madrid. E o problema é que os seus jogadores vêm mostrando, jogo após jogo, que a culpa não é dos árbitros. Você, que tão bem conhece e tão bem interpretou a cultura de vitória do FC Porto, é novo de mais como treinador para se refugiar na cultura do Kalimero.
Como se sabe, há três clubes chamados grandes no futebol português: a Cigarra, a Formiga e o Kalimero.
A Cigarra é o Benfica: faz-se tratar por «A Instituição» e auto-intitula-se de «maior clube do mundo» — com direito a diploma e tudo; diz que vai a caminho dos trezentos mil sócios e que terá uns trinta milhões de adeptos da «marca Benfica» espalhados pelo mundo inteiro; a sua grandeza é tão desmesurada, tão avalassadora, que nem é preciso ter, como este ano, uma equipa de futebol «que qualquer treinador do mundo gostaria de treinar», para que os títulos lhe caiam, naturalmente e por vassalagem alheia, aos pés. Porque acha que de há muito adquiriu por usucapião o direito natural aos títulos, «A Instituição» não acredita que estes exijam trabalho, talento e paciência. Resultado: não é campeão nacional em modalidade alguma, excepto em futebol de salão (que teve de começar a praticar exactamente para poder ser campeão em alguma coisa, tirando partido do facto de A Formiga não praticar a modalidade).
A Formiga é o FC Porto: passou décadas a prestar vassalagem aos Grandes de Lisboa, aceitando pacificamente o papel de animador inútil dos campeonatos. Até ao dia em que soltou o Grito de Ipiranga e nunca mais parou: ultrapassou confortavelmente o número de títulos nacionais do Kalimero e aproxima-se vertiginosamente dos da Cigarra e, em matéria de títulos internacionais, arrasou: face aos dois longínquos títulos de campeão europeu (numa época em que só três ou quatro boas equipas disputavam a Taça dos Campeões e em que, com estrelinha no sorteio, podia-se ir por ali fora), e face ao mítico título de uma obscura e já defunta Taça das Taças conquistada pelo Kalimero na noite dos tempos, a Formiga tem para apresentar, nos últimos 20 anos, uma Taça UEFA, uma Supertaça Europeia, dois títulos de campeão europeu e outros dois de campeão mundial. Este ano defende os títulos de campeão nacional de futebol, hóquei, andebol e já nem sei que mais. Épocas houve, nestes últimos anos, em que juntou simultâneamente todos os títulos de campeão das modalidades profissionais ou os títulos de campeão nacional de futebol em todos os escalões, dos infantis aos seniores. Tal qual como na fábula, tanto a Cigarra como o Kalimero gritam que os sucessos da Formiga são falsos e resultado apenas de batota — (nacional e internacional, presume-se). Repetem isto há vinte anos na esperança de que, como dizia Goebbells, repetir uma mentira até à exaustão a transforme numa verdade… por exaustão. A Formiga ri-se e segue em frente. Ela sabe que, para ganhar mais vezes do que os outros é preciso muito trabalho, muito talento, muita organização, muita humildade e uma cultura de vitória que não se consegue com simples proclamações de superioridade natural.
O Kalimero é Sporting e é o caso mais problemático. Os tempos mudam e os tempos mudaram em desfavor do Kalimero: no futebol nacional, tal como na vida política ou demográfica do país, os tempos evoluiram para a bipolarização e o Kalimero é o parceiro sobejante. Em vão, vive a proclamar que foram eles que trouxeram o futebol para Portugal, que são eles os gentlemen e guardiões do templo com a profusão de condes e barões que deram ao nosso futebol. A verdade é esta: o Kalimero tem hoje menos títulos, no futebol e no resto, menos adeptos, menos assistências e incomparavelmente menos projecção e conhecimento internacional do que a Formiga. Pior do que isso, eles — que se reivindicam de donos do fair-play e do bom gosto — sofrem de cada vez que comparam o seu novo estádio, com nome de Visconde, a essa coisa linear e deslumbrante que é o Estádio do Dragão, e desesperadamente sentem que, em cada nova geração de adeptos que chega ao futebol, são muito mais os dragões do que os leões.
O Kalimero não tem culpa disto e, ao contrário da Cigarra, tem feito tudo o que pode e deve para contrariar o inevitável. O Sporting — repito o que já aqui disse — é hoje o clube melhor administrado e o que mais faz para evitar a bancarrota em cuja iminência vivem todos os clubes portugueses (e mesmo que isso passe por sacar à Câmara Municipal de Lisboa negócios e benesses que deveriam fazer corar de vergonha os inspectores do IGAT que conseguiram descobrir graves irregularidades na construção do Estádio do Dragão, porque teria havido uns terrenos do clube permutados com a CMP e sobrevaliados, e assistiram depois, em respeitoso silêncio, a todos os negócios de favor celebrados pela CML com Benfica e Sporting para a construção dos seus novos estádios).
Dos três, o Kalimero é o que tem menos dinheiro e menos orçamento para o futebol, o que, em contrapartida, mais talentos cria e exporta, e o que mais faz das tripas coração para se manter na discussão ao nível do topo. Merece por isso um rol de elogios e só não merece todos porque lhe falta uma característica fundamental que distingue os verdadeiros desportistas e o verdadeiro fair-play das falsas nobrezas apregoadas: saber perder. O Sporting não sabe perder e, por isso, adoptou a atitude do Kalimero, sempre a queixar-se dos «meninos maus» que lhe roubam a bola no recreio. É já uma cultura entranhada entre os sportinguistas, tão entranhada como o é a cultura de vitória entre os portistas ou a cultura de superioridade entre os benfiquistas.
Como se tal não bastasse, o Kalimero usa, sem pudor algum, uma bitola com dois pesos e duas medidas, convencido de que ninguém nota a hipocresia. Quando acha que tem razões para se queixar do árbitro — o que sucede sempre que não ganha — arma um escabeche de todo o tamanho, com declarações inflamadas, comunicados patéticos ou rídiculas «procissões de luto»; quando são benficiados — o que acontece muito mais vezes e quase sempre quando jogam em Alvalade — calam-se muito caladinhos e assobiam para o ar. Dizem que só não foram campeões no ano passado porque sofreram um golo marcado com a mão, mas fingem não ter visto o golo que entrou dentro da sua baliza e não valeu ou os erros que lhes permitiram sair do Dragão com uma vitória. Este ano, passaram uma semana revoltados porque o árbitro não lhes marcou um penalty na Amadora, que não teria qualquer influência no resultado, mas calaram-se quando, em Alvalade e contra o Setúbal, o árbitro esqueceu um penalty a favor do Vitória, que teria modificado o resultado.
O «escândalo» desta semana é porque, dizem eles, lhe roubaram dois penalties na Luz ( o mesmo árbitro que os fez ganhar no Porto, em Abril passado…). Ora, penso que, se há alguém insuspeito a analisar um Sporting-Benfica, é um portista. E o que eu vi é que, dos três lances contestados no jogo, o único que oferece dúvidas acabou a beneficiar o Sporting: um penalty que João Moutinho terá cometido mesmo a terminar o jogo. O primeiro penalty reclamado pelo Sporting faz parte daquela categoria de penalties de que os sportinguistas reclamam aos dois ou três por jogo, já por hábito instalado. E o segundo, é preciso ter muito má-fé e uma total falta de vergonha para o reclamar. O país inteiro viu que não houve penalty algum, que o Katsouranis, a menos que fosse decepado, não podia evitar que a bola lhe batesse no braço. O juiz de linha viu mal e marcou penalty, o árbitro viu bem e não o marcou. Sustentar que deveria ter prevalecido a opinião do juiz de linha, mesmo que ela implicasse uma vitória falsa como Judas e com o argumento de que foi assim que o Benfica ganhou na Amadora, deita por terra, sem honra alguma, quaisquer veleidades de se armarem em donos do desportivismo.
Aliás, eu fartei-me de rir, ao ler no sábado e ontem o relato da «histórica reunião» promovida pela Bola entre os presidentes do Benfica e do Sporting. Almoçando antes do jogo, não tiveram dificuldades em entenderem-se na conclusão de que são ambos vítimas das arbitragens, em benefício do «Outro», e irmãos na luta contra o suposto «Sistema» (de que eles controlam tudo: Federação, direcção da Liga, Comissão de Arbitragem e Comissão Disciplinar). Mas — pensei eu com os meus botões — bastaria que houvesse um casosinho ou inventado como tal no jogo do dia seguinte, e lá se ia a harmonia, a irmandade e a luta comum contra as arbitragens e o «Sistema». Dito e feito.
PS: Paulo Bento transformou-se agora no farol dos treinadores sem luz à vista. O problema, Jorge Costa, é que o golo do Guimarães foi mesmo golo e não hoube falta alguma sobre o Madrid. E o problema é que os seus jogadores vêm mostrando, jogo após jogo, que a culpa não é dos árbitros. Você, que tão bem conhece e tão bem interpretou a cultura de vitória do FC Porto, é novo de mais como treinador para se refugiar na cultura do Kalimero.
quarta-feira, setembro 26, 2007
OBRIGADO, CARLOS CARVALHAL!!! ( 26 Setembro 2007)
Não fosse a atitude, a estratégia e a coragem do Vitória de Setúbal em Alvalade, e a incrível maratona futobolístico-televisiva do final do dia de domingo - a ter de ver, por dever de ofício, os três grandes sucessivamente - teria sido uma verdadeira penitência. Mas, graças, antes de mais, à prestação do Vitória, do princípio ao fim do jogo, o Sporting-Setúbal acabou por ser um jogo vivo, emocionante e mutuamente bem jogado em grande parte do tempo. Dou os parabéns a Carlos Carvalhal, porque:
- É a segunda vez consecutiva que vejo jogar o Vitória: primeiro, deu uma lição de bola ao Braga, agora pôs o Sporting em respeito e em Alvalade;
- Vê-se que está ali muito treino, muito trabalho e uma aposta prévia na coragem: como todas as equipas, o Vitória joga para o resultado, mas a forma de lá chegar é tentando jogar bom futebol e não o oposto, o anti-futebol;
- Empatado ou a ganhar em Alvalade, o Vitória nunca abdicou dos últimos cinquenta metros do campo, nunca desistiu do contra-ataque, com dois, três ou quatro jogadores. De cada vez que o Sporting chegou à igualdade, imaginou-se que o Vitória se iria recolher de vez atrás e deixar-se de veleidades. Mas, não: manteve o Sporting em alerta até mesmo aos descontos.
- Quando teve de defender, o Vitória defendeu com cabeça e organização, não chutando a bola para a frente de qualquer maneira, não recorrendo às faltas sucessivas, nem às lesões simuladas nem às perdas de tempo. Até ao fim, acreditou que, para defender bem, tinha de manter a cabeça fria e a capacidade de continuar a assustar o adversário.
- Longe de se limitar a preocupações defensivas, Carlos Carvalhal estudou uma estratégia para chegar ao golo, mesmo no terreno da equipe que tem, provavelmente, a melhor defesa do campeonato. E chegou lá duas vezes, com muita inteligência e premeditação — embora o segundo golo do Vitória tenha sido metade da autoria do Mick Jagger, graças ao estado lastimável em que o concerto dos Stones deixou a relva de Alvalade.
- Enfim, o Vitória e o seu treinador tiveram ainda o grande mérito de obrigar o Sporting a jogar o seu melhor futebol para evitar a derrota e conseguiram ainda que, por uma vez, sem ter ganho, os responsáveis sportinguistas não se tenham desculpado com a arbitragem (também era o que faltava depois de terem beneficiado das duas decisões mais controversas do jogo!).
Manda pois a sinceridade que se diga igualmente que foi muito boa a segunda parte do Sporting, a velocidade que conseguiu pôr no jogo e a vontade de vencer, expressa até ao último sopro do desafio. Por aquilo que fez e que lutou, o Sporting também não merecia ter perdido e deu uma importante demonstração da sua vontade de forçar o destino.
A qual, por exemplo e em contraste, esteve notavelmente ausente da exibição do Benfica em Braga. Aliás, e com a responsabilidade distribuída por ambas as equipas, diga-se que o Sp. Braga-Benfica foi um jogo quase indecente, de total falta de respeito pelos espectadores e pelo espectáculo. E, todavia, estavam ali reunidas todas as condições para um bom jogo: um estádio maravilhoso e cheio, uma relva impecável, um fim de tarde de temperatura ideal e duas equipas com anunciadas aspirações de serem uma o campeão e outra o mais perigoso outsider do campeonato. Em vez disso assistiu-se a um jogo deplorável de falta de classe e de ambição, sem oportunidades de golo e praticamente sem uma única boa jogada, de princípio a fim. Sem desculpa.
O mesmo mau futebol viu-se também no Paços de Ferreira-FC Porto, mas aqui com uma desculpa pertinente: é quase impossível jogar-se bom futebol naquele terreno. Há três ou quatro campos na Primeira Liga, com dimensões reduzidas, sem espaço nas laterais e com relvados que, assim que começa a chover, transformam o jogo numa lotaria, que estão claramente a mais numa competição onde os preços dos bilhetes fazem supor que se vai assistir a futebol de primeira. A verdade é que vemos pela televisão inúmeros jogos em estádios de clubes menores da Espanha, Inglaterra, Itália ou Alemanha, e em nenhum deles vemos campos destes. Como já aqui tenho escrito várias vezes, a tradicional tendência dos nossos jornalistas desportivos para tomarem partido pelos Davids contra os Golias (e no caso, defrontavam-se o mais pobre e o mais rico orçamentos da Primeira Liga), leva a adulterar a leitura da relação de forças em presença: em campos como o da Mata Real, os grandes não gozam de favoritismo algum. Pelo contrário, o seu futebol, que precisa de espaço como todo o futebol bem jogado, é manietado à partida e tem de se adaptar a um futebol de combate, de ressaltos, de pontapé para o ar, a que os anfitriões estão muito melhor adaptados e habituados. Foi o que fez o FC Porto, que soube ainda aproveitar duas das quatro oportunidades de golo de que dispôs. O Paços não teve nenhuma e, por isso mesmo, perdeu. Ao contrário do que disse José Mota, as coisas não estiveram equilibradas no relvado supostamente porque o Paços se teria equiparado ao FC Porto. O FC Porto é que teve de se equiparar ao futebol que o campo consente. Jogou forte e feio: tão feio como o Paços, mas mais forte.
E Jesualdo Ferreira lá segue, com o notável registo de cinco vitórias nos cinco primeiros jogos do campeonato. Numa altura em que, apesar do brevíssimo tempo de demonstração que lhes tem sido concedido, mais se acentua a ideia de que, excepção feita a Leandro Lima (com dez minutos em jogo fez mais que Raul Meireles numa hora), os doze reforços da época foram um tremendo flop. Escrevi na época passada, que o FC Porto era uma equipa desequilibrada: tinha três jogadores excepcionais, quatro bons e o resto era mediano ou medíocre. Esta época, penso que tem um excepcional, quatro ou cinco bons e os outros perfeitamente banais. Viu-se, na terça-feira passada, contra o Liverpool, que a manta é curta e que a falta de ambição aí demonstrada é o reflexo da falta de crença da equipa em si mesma. Uma equipa que confiasse no seu valor, não se teria deixado tolher pelo medo, sobretudo quando percebeu que o adversário estava em noite não e, mais ainda, quando o viu ficar reduzido a dez unidades.
Aliás, toda a jornada europeia, saldada pela incrível mas previsível hecatombe de um empate e seis derrotas, foi eloquente de como o nosso futebol de clubes está cada vez mais longe do top europeu. Não é em vão que os melhores jogadores do campeonato, aqueles que verdadeiramente fazem a diferença, vão saindo, ano após ano. Em minha opinião, este ano e para além do caso especial de Rui Costa, restam dois grandes jogadores e não mais do que isso: o Liedson e o Ricardo Quaresma.
Nada de novo no reino da Dinamarca. Como seria de esperar, a Federação Portuguesa de Futebol apoia e presta-se a ajudar o seleccionador na sua demanda com a justiça da UEFA. Como vem sendo hábito, também, Gilberto Madail não aceita responder a perguntas e, apenas por pró-forma, a Federação anuncia que mantém em curso um «auto de averiguações» (como se ainda houvesse alguma coisa para averiguar…) e para depois dizer também da sua justiça.
Há quem pense que Scolari devia sair já e há quem pense que isso seria um gesto de tremenda ingratidão e injustiça. Eu penso que a decisão certa foi esta: mantê-lo, pelo menos, até ao final da fase de qualificação e responder então pelo resultado. Não ignoro que, para isso, Madail teve de dar algumas cambalhotas jurídico-éticas (e daí o seu silêncio), teve de fingir que as desculpas de Scolari não foram um amontoado de mentiras e contradições, que o seu gesto sobre o jogador sérvio não era previsível face a comportamentos seus passados (quando, por exemplo e perante o silêncio cúmplice dos restantes jornalistas presentes, insultou ordinariamente uma jornalista culpada de lhe ter feito uma pergunta de que não gostou), e teve de deixar sem explicação a contradição insanável entre a justiça «exemplar» aplicada ao miúdo Zequinha e a justiça compreensiva aplicada ao seleccionador. Mas, mesmo ponderando tudo isso, continuo a achar que a melhor saída é fazer de conta que só a UEFA é que tem que ver com o assunto, deixando que, na prática, seja Scolari o responsável pelo êxito ou fracasso da qualificação europeia. Só de imaginar o que se diria se ele fosse agora substituído e depois não nos qualificássemos!... Mas é evidente que Scolari sabe que está com pena suspensa internamente: se falhar a qualificação, não há quem lhe valha. A bola está do lado dos jogadores que tanto o apoiam.
- É a segunda vez consecutiva que vejo jogar o Vitória: primeiro, deu uma lição de bola ao Braga, agora pôs o Sporting em respeito e em Alvalade;
- Vê-se que está ali muito treino, muito trabalho e uma aposta prévia na coragem: como todas as equipas, o Vitória joga para o resultado, mas a forma de lá chegar é tentando jogar bom futebol e não o oposto, o anti-futebol;
- Empatado ou a ganhar em Alvalade, o Vitória nunca abdicou dos últimos cinquenta metros do campo, nunca desistiu do contra-ataque, com dois, três ou quatro jogadores. De cada vez que o Sporting chegou à igualdade, imaginou-se que o Vitória se iria recolher de vez atrás e deixar-se de veleidades. Mas, não: manteve o Sporting em alerta até mesmo aos descontos.
- Quando teve de defender, o Vitória defendeu com cabeça e organização, não chutando a bola para a frente de qualquer maneira, não recorrendo às faltas sucessivas, nem às lesões simuladas nem às perdas de tempo. Até ao fim, acreditou que, para defender bem, tinha de manter a cabeça fria e a capacidade de continuar a assustar o adversário.
- Longe de se limitar a preocupações defensivas, Carlos Carvalhal estudou uma estratégia para chegar ao golo, mesmo no terreno da equipe que tem, provavelmente, a melhor defesa do campeonato. E chegou lá duas vezes, com muita inteligência e premeditação — embora o segundo golo do Vitória tenha sido metade da autoria do Mick Jagger, graças ao estado lastimável em que o concerto dos Stones deixou a relva de Alvalade.
- Enfim, o Vitória e o seu treinador tiveram ainda o grande mérito de obrigar o Sporting a jogar o seu melhor futebol para evitar a derrota e conseguiram ainda que, por uma vez, sem ter ganho, os responsáveis sportinguistas não se tenham desculpado com a arbitragem (também era o que faltava depois de terem beneficiado das duas decisões mais controversas do jogo!).
Manda pois a sinceridade que se diga igualmente que foi muito boa a segunda parte do Sporting, a velocidade que conseguiu pôr no jogo e a vontade de vencer, expressa até ao último sopro do desafio. Por aquilo que fez e que lutou, o Sporting também não merecia ter perdido e deu uma importante demonstração da sua vontade de forçar o destino.
A qual, por exemplo e em contraste, esteve notavelmente ausente da exibição do Benfica em Braga. Aliás, e com a responsabilidade distribuída por ambas as equipas, diga-se que o Sp. Braga-Benfica foi um jogo quase indecente, de total falta de respeito pelos espectadores e pelo espectáculo. E, todavia, estavam ali reunidas todas as condições para um bom jogo: um estádio maravilhoso e cheio, uma relva impecável, um fim de tarde de temperatura ideal e duas equipas com anunciadas aspirações de serem uma o campeão e outra o mais perigoso outsider do campeonato. Em vez disso assistiu-se a um jogo deplorável de falta de classe e de ambição, sem oportunidades de golo e praticamente sem uma única boa jogada, de princípio a fim. Sem desculpa.
O mesmo mau futebol viu-se também no Paços de Ferreira-FC Porto, mas aqui com uma desculpa pertinente: é quase impossível jogar-se bom futebol naquele terreno. Há três ou quatro campos na Primeira Liga, com dimensões reduzidas, sem espaço nas laterais e com relvados que, assim que começa a chover, transformam o jogo numa lotaria, que estão claramente a mais numa competição onde os preços dos bilhetes fazem supor que se vai assistir a futebol de primeira. A verdade é que vemos pela televisão inúmeros jogos em estádios de clubes menores da Espanha, Inglaterra, Itália ou Alemanha, e em nenhum deles vemos campos destes. Como já aqui tenho escrito várias vezes, a tradicional tendência dos nossos jornalistas desportivos para tomarem partido pelos Davids contra os Golias (e no caso, defrontavam-se o mais pobre e o mais rico orçamentos da Primeira Liga), leva a adulterar a leitura da relação de forças em presença: em campos como o da Mata Real, os grandes não gozam de favoritismo algum. Pelo contrário, o seu futebol, que precisa de espaço como todo o futebol bem jogado, é manietado à partida e tem de se adaptar a um futebol de combate, de ressaltos, de pontapé para o ar, a que os anfitriões estão muito melhor adaptados e habituados. Foi o que fez o FC Porto, que soube ainda aproveitar duas das quatro oportunidades de golo de que dispôs. O Paços não teve nenhuma e, por isso mesmo, perdeu. Ao contrário do que disse José Mota, as coisas não estiveram equilibradas no relvado supostamente porque o Paços se teria equiparado ao FC Porto. O FC Porto é que teve de se equiparar ao futebol que o campo consente. Jogou forte e feio: tão feio como o Paços, mas mais forte.
E Jesualdo Ferreira lá segue, com o notável registo de cinco vitórias nos cinco primeiros jogos do campeonato. Numa altura em que, apesar do brevíssimo tempo de demonstração que lhes tem sido concedido, mais se acentua a ideia de que, excepção feita a Leandro Lima (com dez minutos em jogo fez mais que Raul Meireles numa hora), os doze reforços da época foram um tremendo flop. Escrevi na época passada, que o FC Porto era uma equipa desequilibrada: tinha três jogadores excepcionais, quatro bons e o resto era mediano ou medíocre. Esta época, penso que tem um excepcional, quatro ou cinco bons e os outros perfeitamente banais. Viu-se, na terça-feira passada, contra o Liverpool, que a manta é curta e que a falta de ambição aí demonstrada é o reflexo da falta de crença da equipa em si mesma. Uma equipa que confiasse no seu valor, não se teria deixado tolher pelo medo, sobretudo quando percebeu que o adversário estava em noite não e, mais ainda, quando o viu ficar reduzido a dez unidades.
Aliás, toda a jornada europeia, saldada pela incrível mas previsível hecatombe de um empate e seis derrotas, foi eloquente de como o nosso futebol de clubes está cada vez mais longe do top europeu. Não é em vão que os melhores jogadores do campeonato, aqueles que verdadeiramente fazem a diferença, vão saindo, ano após ano. Em minha opinião, este ano e para além do caso especial de Rui Costa, restam dois grandes jogadores e não mais do que isso: o Liedson e o Ricardo Quaresma.
Nada de novo no reino da Dinamarca. Como seria de esperar, a Federação Portuguesa de Futebol apoia e presta-se a ajudar o seleccionador na sua demanda com a justiça da UEFA. Como vem sendo hábito, também, Gilberto Madail não aceita responder a perguntas e, apenas por pró-forma, a Federação anuncia que mantém em curso um «auto de averiguações» (como se ainda houvesse alguma coisa para averiguar…) e para depois dizer também da sua justiça.
Há quem pense que Scolari devia sair já e há quem pense que isso seria um gesto de tremenda ingratidão e injustiça. Eu penso que a decisão certa foi esta: mantê-lo, pelo menos, até ao final da fase de qualificação e responder então pelo resultado. Não ignoro que, para isso, Madail teve de dar algumas cambalhotas jurídico-éticas (e daí o seu silêncio), teve de fingir que as desculpas de Scolari não foram um amontoado de mentiras e contradições, que o seu gesto sobre o jogador sérvio não era previsível face a comportamentos seus passados (quando, por exemplo e perante o silêncio cúmplice dos restantes jornalistas presentes, insultou ordinariamente uma jornalista culpada de lhe ter feito uma pergunta de que não gostou), e teve de deixar sem explicação a contradição insanável entre a justiça «exemplar» aplicada ao miúdo Zequinha e a justiça compreensiva aplicada ao seleccionador. Mas, mesmo ponderando tudo isso, continuo a achar que a melhor saída é fazer de conta que só a UEFA é que tem que ver com o assunto, deixando que, na prática, seja Scolari o responsável pelo êxito ou fracasso da qualificação europeia. Só de imaginar o que se diria se ele fosse agora substituído e depois não nos qualificássemos!... Mas é evidente que Scolari sabe que está com pena suspensa internamente: se falhar a qualificação, não há quem lhe valha. A bola está do lado dos jogadores que tanto o apoiam.
A HUMILHAÇÃO DE BERARDO ( 18 Setembro 2007)
1- O golo de Rui Costa à Naval é uma obra de arte de inteligência e simplicidade. É daqueles golos que podem ser repetidos dez, vinte vezes, e nunca cansam de ver. Ao vê-lo revê-lo e voltar a vê-lo, cada vez me convenço mais de uma ideia que há muito tenho: no futebol moderno, só os jogadores inteligentes a jogar podem ser bons jogadores. Aliás, basta observar todo o jogo de Rui Costa: ele pode já não correr como outrora, mas faz a bola correr por ele. Num só passe, é capaz de virar o sentido do jogo de pernas para o ar, de poupar à equipa uma progressão em passes e mais passes laterais ou recuados, de rasgar uma defesa de alto a baixo. O seu futebol é clássico, clarividente, tremendamente simples no seu objectivo final: chegar ao golo. E, agora que a sua carreira se aproxima inexoravelmente do fim, Rui Costa parece ter aprimorado as qualidades que sempre se lhe viram, como se não quisesse despedir-se sem deixar a todos a lembrança de um futebol cristalino.
Já há largos meses tinha feito aqui o seu elogio, escrevendo que, em minha opinião, ele era o melhor jogador, o jogador essencial do Benfica. Ele aceitou o desafio de risco de continuar por mais uma época, porque se sentiu à altura das exigências e, sobretudo, sem dúvida, porque jogar continua a dar-lhe prazer. Luís Filipe Vieira diz agora que Rui Costa está dar uma bofetada de luva branca nos que duvidaram dele — «entre os quais, muitos de vocês», disse ele, apontando para os jornalistas. Como sabemos, não é verdade: quem duvidou de Rui Costa, em termos até insultuosos, foi esse grande benfiquista Joe Berardo, com lugar cativo ao lado de Vieira, no camarote presidencial da Luz. Quem é esbofeteado de luva branca, jogo após jogo, é Berardo. No campo e fora dele, Rui Costa mostra todos os atributos que fazem a inveja de muita gente que acha que o dinheiro compra tudo: categoria, estilo, classe.
Agora, cavalgando a oportunidade e qual monarca iluminado, Vieira diz que vai «preparar» Rui Costa durante três anos para lhe suceder como presidente. Aos olhos do presidente do Benfica, uma coisa decorre naturalmente da outra: só um grande jogador, como Rui Costa, pode dar um grande presidente, como Vieira. A história, porém, ensina-nos outra coisa: nenhum presidente, por maior que seja, consegue fabricar grandes jogadores; mas grandes jogadores, muitas vezes, sustentam presidentes.
2- Vi muito mau futebol, este fim-de-semana. Futebol de faltas sucessivas, interrupções constantes, equipas sem imaginação, sem vontade nem capacidade de jogar para o golo, treinadores mais preocupados em dizer mal dos árbitros do que em pôr as suas equipas a respeitar os espectadores que vão aos estádios. Por junto, para além do fabuloso golo de Rui Costa, a única coisa decente que vi foram, surpreendentemente, os primeiros vinte e os últimos vinte minutos da Naval no Estádio da Luz. No final, fiquei a saber, surpreendentemente também, que o imenso presidente Aprigío Santos, da Naval, achou porém que aquilo foi pouco, que as bolas na barra e a derrota foram culpa do treinador. E, aí vamos: quatro jornadas, três treinadores despedidos. Presidentes despedidos: zero.
Comecei por ver o Setúbal-Braga e confirmei a impressão que o Braga me havia deixado do primeiro jogo contra o FC Porto: está ali uma equipa constituída por ex-vedetas e ex-futuras vedetas, que se portam como tal. Jogadores que, em campo, são o exemplo oposto do que foi o seu treinador, Jorge Costa. Jogam como se estivessem a fazer um frete, como se, de cada vez que tocam na bola, o adversário devesse parar para os aplaudir. Em 90 minutos de jogo, o Braga só acertou com uma bola na baliza do Vitória, e essa foi de penalty, caído do céu. É demasiado pouco para quem tem ambições a ser o «quarto grande».
Depois, vi o FC Porto-Marítimo. Um Marítimo inofensivo, só sabendo defender, e um FC Porto arrastado, previsível, deprimente. Já cheguei ao ponto de não saber se Jesualdo Ferreira terá ou não razão em não pôr a jogar nenhum dos doze reforços que comprou. Não sei se é ele que não lhes dá oportunidades suficientes para se integrarem e mostrarem o que valem, ou se, de facto, são eles que não valem e o melhor é deixá-los de fora. Não sei se o Stepanov é melhor ou pior que o Pedro Emanuel ou o João Paulo, se o Bolatti é melhor ou não que o Paulo Assunção (que confrangedora forma em que ele está!), se o Mariano González é ou não melhor que o Lisandro, se o Farías seria mais útil que o Adriano ou o Lisandro. De facto, só tenho a certeza de uma coisa: o Leandro Lima é bem melhor do que o Raul Meireles — é a diferença entre alguém que tem uma ideia e um objectivo de jogo e alguém que nunca se percebe muito bem o que por ali anda a fazer.
Vi o Benfica entrar em campo, contra a Naval, com cinco aquisições desta época — e não foram seis porque, inesperadamente, Camacho deixou Cardozo no banco. Ao contrário, o FC Porto entrou sem nenhum reforço e foi preciso meio jogo inócuo para aparecer Farias. Mas a fé, ou a teimosia, de Jesualdo Ferreira crescem com estas primeiras vitórias. Enquanto vai ganhando, mais aumenta a impressão de que ele acha possível dar conta de uma época vencedora com a mesma equipa do ano passado… sem o Pepe e o Anderson. Tremo só de olhar para a constituição da equipa que vai entrar em campo, logo à noite, contra o Liverpool.
Também fui espreitando, a bocejar de tédio, o Estrela da Amadora-Sporting. Foi mais uma daquelas vitórias à Sporting, que antes de ser já o era. Antes que pudesse haver dúvidas, o adversário entregou o jogo e, daí até final, arrastaram-se ambos em campo, com o entusiasmo de amanuenses de uma qualquer repartição pública. Ó meus senhores, jogar futebol é assim uma profissão tão chata?
3- Previsível e conservador até ao limite, Jesualdo Ferreira integra, porém, um extenso lote de treinadores que obedecem intransigentemente à conhecida máxima de que «em equipa que ganha não se mexe». Para mim, é das verdades mais idiotas do futebol, mas ao menos compreendo que tem a sua lógica. O que eu nunca tinha visto é um treinador defensor da máxima «em equipa que não ganha não se mexe». Luiz Felipe Scolari é o primeiro defensor do género. Ele é capaz de repetir sucessivamente — Arménia, Polónia e Sérvia — os mesmíssimos jogadores que já toda a gente, menos ele, viu que não estão a jogar nada. Mas, tal como aqui escrevi há tempos, a Selecção de Scolari não é, nunca foi ou será, a Selecção dos melhores em cada momento, mas sim a Selecção dos amigos de Scolari. O que nos vale é que eu nunca conheci, em tantos anos a ver futebol, alguém com tanta sorte como o nosso seleccionador nacional. Com metade dos erros que já cometeu, qualquer treinador teria sucumbido a resultados e nenhum treinador português se teria aguentado em funções.
Quanto ao resto, ao que se passou após o Portugal-Sérvia, quarta-feira passada, já lá vai demasiado tempo e demasiados e reveladores comentários para justificar também o meu. A seu tempo…
4- Bonito de ver foi os jogadores da Selecção de râguebi a abrir alas para a saída dos All Blacks e estes a devolver o gesto. Impensável de ver num jogo de futebol.
Já há largos meses tinha feito aqui o seu elogio, escrevendo que, em minha opinião, ele era o melhor jogador, o jogador essencial do Benfica. Ele aceitou o desafio de risco de continuar por mais uma época, porque se sentiu à altura das exigências e, sobretudo, sem dúvida, porque jogar continua a dar-lhe prazer. Luís Filipe Vieira diz agora que Rui Costa está dar uma bofetada de luva branca nos que duvidaram dele — «entre os quais, muitos de vocês», disse ele, apontando para os jornalistas. Como sabemos, não é verdade: quem duvidou de Rui Costa, em termos até insultuosos, foi esse grande benfiquista Joe Berardo, com lugar cativo ao lado de Vieira, no camarote presidencial da Luz. Quem é esbofeteado de luva branca, jogo após jogo, é Berardo. No campo e fora dele, Rui Costa mostra todos os atributos que fazem a inveja de muita gente que acha que o dinheiro compra tudo: categoria, estilo, classe.
Agora, cavalgando a oportunidade e qual monarca iluminado, Vieira diz que vai «preparar» Rui Costa durante três anos para lhe suceder como presidente. Aos olhos do presidente do Benfica, uma coisa decorre naturalmente da outra: só um grande jogador, como Rui Costa, pode dar um grande presidente, como Vieira. A história, porém, ensina-nos outra coisa: nenhum presidente, por maior que seja, consegue fabricar grandes jogadores; mas grandes jogadores, muitas vezes, sustentam presidentes.
2- Vi muito mau futebol, este fim-de-semana. Futebol de faltas sucessivas, interrupções constantes, equipas sem imaginação, sem vontade nem capacidade de jogar para o golo, treinadores mais preocupados em dizer mal dos árbitros do que em pôr as suas equipas a respeitar os espectadores que vão aos estádios. Por junto, para além do fabuloso golo de Rui Costa, a única coisa decente que vi foram, surpreendentemente, os primeiros vinte e os últimos vinte minutos da Naval no Estádio da Luz. No final, fiquei a saber, surpreendentemente também, que o imenso presidente Aprigío Santos, da Naval, achou porém que aquilo foi pouco, que as bolas na barra e a derrota foram culpa do treinador. E, aí vamos: quatro jornadas, três treinadores despedidos. Presidentes despedidos: zero.
Comecei por ver o Setúbal-Braga e confirmei a impressão que o Braga me havia deixado do primeiro jogo contra o FC Porto: está ali uma equipa constituída por ex-vedetas e ex-futuras vedetas, que se portam como tal. Jogadores que, em campo, são o exemplo oposto do que foi o seu treinador, Jorge Costa. Jogam como se estivessem a fazer um frete, como se, de cada vez que tocam na bola, o adversário devesse parar para os aplaudir. Em 90 minutos de jogo, o Braga só acertou com uma bola na baliza do Vitória, e essa foi de penalty, caído do céu. É demasiado pouco para quem tem ambições a ser o «quarto grande».
Depois, vi o FC Porto-Marítimo. Um Marítimo inofensivo, só sabendo defender, e um FC Porto arrastado, previsível, deprimente. Já cheguei ao ponto de não saber se Jesualdo Ferreira terá ou não razão em não pôr a jogar nenhum dos doze reforços que comprou. Não sei se é ele que não lhes dá oportunidades suficientes para se integrarem e mostrarem o que valem, ou se, de facto, são eles que não valem e o melhor é deixá-los de fora. Não sei se o Stepanov é melhor ou pior que o Pedro Emanuel ou o João Paulo, se o Bolatti é melhor ou não que o Paulo Assunção (que confrangedora forma em que ele está!), se o Mariano González é ou não melhor que o Lisandro, se o Farías seria mais útil que o Adriano ou o Lisandro. De facto, só tenho a certeza de uma coisa: o Leandro Lima é bem melhor do que o Raul Meireles — é a diferença entre alguém que tem uma ideia e um objectivo de jogo e alguém que nunca se percebe muito bem o que por ali anda a fazer.
Vi o Benfica entrar em campo, contra a Naval, com cinco aquisições desta época — e não foram seis porque, inesperadamente, Camacho deixou Cardozo no banco. Ao contrário, o FC Porto entrou sem nenhum reforço e foi preciso meio jogo inócuo para aparecer Farias. Mas a fé, ou a teimosia, de Jesualdo Ferreira crescem com estas primeiras vitórias. Enquanto vai ganhando, mais aumenta a impressão de que ele acha possível dar conta de uma época vencedora com a mesma equipa do ano passado… sem o Pepe e o Anderson. Tremo só de olhar para a constituição da equipa que vai entrar em campo, logo à noite, contra o Liverpool.
Também fui espreitando, a bocejar de tédio, o Estrela da Amadora-Sporting. Foi mais uma daquelas vitórias à Sporting, que antes de ser já o era. Antes que pudesse haver dúvidas, o adversário entregou o jogo e, daí até final, arrastaram-se ambos em campo, com o entusiasmo de amanuenses de uma qualquer repartição pública. Ó meus senhores, jogar futebol é assim uma profissão tão chata?
3- Previsível e conservador até ao limite, Jesualdo Ferreira integra, porém, um extenso lote de treinadores que obedecem intransigentemente à conhecida máxima de que «em equipa que ganha não se mexe». Para mim, é das verdades mais idiotas do futebol, mas ao menos compreendo que tem a sua lógica. O que eu nunca tinha visto é um treinador defensor da máxima «em equipa que não ganha não se mexe». Luiz Felipe Scolari é o primeiro defensor do género. Ele é capaz de repetir sucessivamente — Arménia, Polónia e Sérvia — os mesmíssimos jogadores que já toda a gente, menos ele, viu que não estão a jogar nada. Mas, tal como aqui escrevi há tempos, a Selecção de Scolari não é, nunca foi ou será, a Selecção dos melhores em cada momento, mas sim a Selecção dos amigos de Scolari. O que nos vale é que eu nunca conheci, em tantos anos a ver futebol, alguém com tanta sorte como o nosso seleccionador nacional. Com metade dos erros que já cometeu, qualquer treinador teria sucumbido a resultados e nenhum treinador português se teria aguentado em funções.
Quanto ao resto, ao que se passou após o Portugal-Sérvia, quarta-feira passada, já lá vai demasiado tempo e demasiados e reveladores comentários para justificar também o meu. A seu tempo…
4- Bonito de ver foi os jogadores da Selecção de râguebi a abrir alas para a saída dos All Blacks e estes a devolver o gesto. Impensável de ver num jogo de futebol.
AMADORES E SUBPROFISSIONAIS ( 11 Setembro 2007)
O país que por "imperativo nacional" construiu dez estádios novos para o Euro-2004, dos quais sete estão permanentemente às moscas e constituem um encargo ruinoso para as autarquias, não têm dinheiro para construir uma pista coberta onde os nossos atletas olímpicos se possam treinar no Inverno...
1 - A Selecção Nacional de râguebi, oficialmente «amadora», protagonizava ontem, que eu tenha reparado, nada menos do que três anúncios publicitários a marcas diferentes, na televisão e em duas páginas inteiras de jornais: ao BES, à Caixa-Geral de Depósitos e à Volkswagen. Esclareço desde já que nada tenho contra a participação em campanhas publicitárias, embora eu próprio sempre tenha recusado fazê-las, cumprindo o que está escrito no Código Deontológico dos Jornalistas. Mas nada tenho contra essa forma de ganhar dinheiro, desde que não se caia no abuso extremo do seleccionador nacional de futebol, Scolari, que é capaz de anunciar tudo, até comida para piriquitos, se lhe pagarem o seu cachet.
A questão, a meu ver, só tem importância, se se reflectir até que ponto é que o amadorismo da Selecção de râguebi — tão propagandeado, numa campanha de promoção que tem sido um sucesso notável — resulta de vontade própria ou das circunstâncias, e até que ponto esse estatuto oficial é ou não desejável para a evolução da modalidade. Primeiro que tudo, convém lembrar um facto que nunca é referido: nem todos os elementos da Selecção são amadores. Há dois profissionais a jogar em França e outros, argentinos naturalizados, a jogar em Portugal. É sintomático que este facto seja sempre esquecido ou minimizado, embora ele em nada afecte o valor que tem uma equipa de jovens que, para jogarem, roubam tempo aos estudos, ao trabalho, à vida familiar e pessoal, e que conseguiram, com brilhantismo, a qualificação para França e um jogo de muita garra contra a Escócia.
E era aqui que eu queria chegar. Se, por um lado, é de facto, notável o esforço de competitividade de uma equipa basicamente amadora entre os tubarões deste desporto, por outro lado, creio que o amadorismo do râguebi entre nós (e que é amador apenas porque não tem condições de popularidade para ser profissional), é um factor de marasmo da modalidade. O râguebi é, em Portugal, uma das modalidades desportivas mais elitistas que existem, a par da vela, da equitação ou do golfe. Uma reportagem há dias publicada numa revista, mostrava como a modalidade sempre esteve tradicionalmente nas mãos de quatro ou cinco «boas famílias» de Cascais ou do Restelo, que se sucedem, de geração em geração, nas poucas equipas de clubes existentes e na Selecção Nacional. E não custa perceber porquê: se a modalidade não tem condições de profissionalização, só quem disponha de outras fontes de rendimento, ou porque é estudante sem necessidades de dinheiro ou porque já está instalado noutra profissão — pode fazer do râguebi o seu «hobby».
O que daqui resulta é um círculo vicioso, que não é tão virtuoso quanto por estes dias se tem abundantemente escrito. Se o râguebi fosse uma modalidade popular, jogada nas escolas e clubes de bairro, atrairia mais público e, com ele, transmissões televisivas e patrocinadores. Isso faria nascer jogadores profissionais, fora da elite tradicional e, fatalmente, com um campo de recrutamento alargado, faria nascer melhores jogadores (porque não há nenhuma lei genética que diga que os ricos têm mais jeito para o râguebi do que os pobres…). Ou seja: para evoluir entre nós, o râguebi precisa de uma base de recrutamento que vá muito para além do tradicional e que traga à modalidade jogadores que vivam dela, como profissionais. Mas estes não aparecem porque, tal como está, o râguebi não tem condições para os sustentar. E a diferença seria tão simples quanto isto: com uma Selecção composta essencialmente por amadores, ninguém se pode espantar nem exigir que eles não «rebentem» fisicamente nos últimos 15/20 minutos dos jogos; com uma Selecção de profissionais, esse facto já não seria aceitável, porque esses teriam tido todas as condições de treino e preparação que os outros não têm.
Uma última advertência: já sei, por experiência própria, que, nestas coisas de unanimismos patrióticos, quem destoa do coro acrítico de elogios, passa logo à categoria de mau português. Para que fique claro, então: não destoo dos elogios ao esforço e generosidade dos homens da nossa Selecção de râguebi. Digo apenas que o tão louvado estatuto de amadores é, todavia, o reflexo e a causa da não evolução da modalidade.
2 - Nélson Évora, esse, não teve direito a nenhum contrato publicitário, nem a nenhuma campanha de promoção pessoal comparável. E, todavia, o seu feito foi absolutamente incomparável: ele tornou-se o primeiro saltador português campeão do mundo, desmentindo a crença de que, como país subdesenvolvido em matéria de atletismo, apenas poderíamos produzir campeões no fundo e meio-fundo, onde a força de vontade conta mais do que o talento e a capacidade técnica. E fê-lo, não como amador, mas como profissional expatriado à força: treinando em Espanha, tal como Obikwelu ou Naide Gomes — porque o país que, por «imperativo nacional», construiu dez estádios novos para o Euro-2004, dos quais sete estão permanentemente às moscas e constituem um encargo ruinoso para as autarquias, não tem dinheiro para construir uma pista coberta onde os nossos atletas olímpicos se possam treinar durante o Inverno…
Cruzei-me com Nélson Évora na TVI, a semana passada, e fiquei impressionado com a humildade, o antivedetismo absoluto e o visível amor que tem àquilo que faz. Não é todos os dias que nos cruzamos com um português campeão do mundo e não é todos os dias que o ouvimos dizer apenas que gostaria de ter condições para se treinar em Portugal. A propósito: não ouvi foi nenhum daqueles que contestam o Deco e o Pepe na Selecção de Futebol, contestarem também o estatuto de portugueses da Naide Gomes, nascida em S. Tomé e Príncipe, do Francis Obikwelu, nascido na Nigéria, ou do Nélson Évora, cabo-verdiano nascido na Costa do Marfim e treinado em Espanha…
3 - Há pouco mais de quatro meses, vi nascer nos courts do Estádio Nacional durante o Estoril Open, uma jovem esperança do ténis sérvio, fã do Benfica, chamado Novák Djokovic. Pareceu-me, logo ali, que ele iria longe, mas nunca imaginei que tão rápido. Anteontem à noite, na TV, vi-o bater-se como um leão contra o quase imbatível Roger Federer, na final do US Open. A jogar a sua primeira final de um Grand Slam aos 20 anos de idade (!), Djokovic só caiu vítima dos nervos e da inexperiência, depois de ter desperdiçado cinco set-points na primeira partida e dois na segunda (6-7, 6-7, 4-6). E porque Federer é, provavelmente, o jogador mais completo de sempre.
4 - Na sua coluna de «senador» de A BOLA, Rui Moreira chamou a atenção para o facciosismo daqueles que gritaram aos quatro ventos que o segundo golo do FC Porto em Leiria tinha sido irregular (e foi), «esquecendo-se» de dizer que, logo aos 3 minutos de jogo, um golo completamente regular tinha sido anulado ao FC Porto. O Record até destacava o «golo irregular» para título de 1.ª página e houve até quem escrevesse que coisas destas «duram há décadas». Em certos espíritos, o facciosimo benfiquista foi de há muito ultrapassado por um vírus bem mais demencial: o ódio fanático ao FC Porto. Se eles mandassem, o FC Porto seria, pura e simplesmente, varrido dos estádios e pavilhões do país. Como, aliás, sempre se tentou fazer em Portugal com aqueles que, pelos seus méritos, incomodam a mediocridade e o privilégio instalados.
1 - A Selecção Nacional de râguebi, oficialmente «amadora», protagonizava ontem, que eu tenha reparado, nada menos do que três anúncios publicitários a marcas diferentes, na televisão e em duas páginas inteiras de jornais: ao BES, à Caixa-Geral de Depósitos e à Volkswagen. Esclareço desde já que nada tenho contra a participação em campanhas publicitárias, embora eu próprio sempre tenha recusado fazê-las, cumprindo o que está escrito no Código Deontológico dos Jornalistas. Mas nada tenho contra essa forma de ganhar dinheiro, desde que não se caia no abuso extremo do seleccionador nacional de futebol, Scolari, que é capaz de anunciar tudo, até comida para piriquitos, se lhe pagarem o seu cachet.
A questão, a meu ver, só tem importância, se se reflectir até que ponto é que o amadorismo da Selecção de râguebi — tão propagandeado, numa campanha de promoção que tem sido um sucesso notável — resulta de vontade própria ou das circunstâncias, e até que ponto esse estatuto oficial é ou não desejável para a evolução da modalidade. Primeiro que tudo, convém lembrar um facto que nunca é referido: nem todos os elementos da Selecção são amadores. Há dois profissionais a jogar em França e outros, argentinos naturalizados, a jogar em Portugal. É sintomático que este facto seja sempre esquecido ou minimizado, embora ele em nada afecte o valor que tem uma equipa de jovens que, para jogarem, roubam tempo aos estudos, ao trabalho, à vida familiar e pessoal, e que conseguiram, com brilhantismo, a qualificação para França e um jogo de muita garra contra a Escócia.
E era aqui que eu queria chegar. Se, por um lado, é de facto, notável o esforço de competitividade de uma equipa basicamente amadora entre os tubarões deste desporto, por outro lado, creio que o amadorismo do râguebi entre nós (e que é amador apenas porque não tem condições de popularidade para ser profissional), é um factor de marasmo da modalidade. O râguebi é, em Portugal, uma das modalidades desportivas mais elitistas que existem, a par da vela, da equitação ou do golfe. Uma reportagem há dias publicada numa revista, mostrava como a modalidade sempre esteve tradicionalmente nas mãos de quatro ou cinco «boas famílias» de Cascais ou do Restelo, que se sucedem, de geração em geração, nas poucas equipas de clubes existentes e na Selecção Nacional. E não custa perceber porquê: se a modalidade não tem condições de profissionalização, só quem disponha de outras fontes de rendimento, ou porque é estudante sem necessidades de dinheiro ou porque já está instalado noutra profissão — pode fazer do râguebi o seu «hobby».
O que daqui resulta é um círculo vicioso, que não é tão virtuoso quanto por estes dias se tem abundantemente escrito. Se o râguebi fosse uma modalidade popular, jogada nas escolas e clubes de bairro, atrairia mais público e, com ele, transmissões televisivas e patrocinadores. Isso faria nascer jogadores profissionais, fora da elite tradicional e, fatalmente, com um campo de recrutamento alargado, faria nascer melhores jogadores (porque não há nenhuma lei genética que diga que os ricos têm mais jeito para o râguebi do que os pobres…). Ou seja: para evoluir entre nós, o râguebi precisa de uma base de recrutamento que vá muito para além do tradicional e que traga à modalidade jogadores que vivam dela, como profissionais. Mas estes não aparecem porque, tal como está, o râguebi não tem condições para os sustentar. E a diferença seria tão simples quanto isto: com uma Selecção composta essencialmente por amadores, ninguém se pode espantar nem exigir que eles não «rebentem» fisicamente nos últimos 15/20 minutos dos jogos; com uma Selecção de profissionais, esse facto já não seria aceitável, porque esses teriam tido todas as condições de treino e preparação que os outros não têm.
Uma última advertência: já sei, por experiência própria, que, nestas coisas de unanimismos patrióticos, quem destoa do coro acrítico de elogios, passa logo à categoria de mau português. Para que fique claro, então: não destoo dos elogios ao esforço e generosidade dos homens da nossa Selecção de râguebi. Digo apenas que o tão louvado estatuto de amadores é, todavia, o reflexo e a causa da não evolução da modalidade.
2 - Nélson Évora, esse, não teve direito a nenhum contrato publicitário, nem a nenhuma campanha de promoção pessoal comparável. E, todavia, o seu feito foi absolutamente incomparável: ele tornou-se o primeiro saltador português campeão do mundo, desmentindo a crença de que, como país subdesenvolvido em matéria de atletismo, apenas poderíamos produzir campeões no fundo e meio-fundo, onde a força de vontade conta mais do que o talento e a capacidade técnica. E fê-lo, não como amador, mas como profissional expatriado à força: treinando em Espanha, tal como Obikwelu ou Naide Gomes — porque o país que, por «imperativo nacional», construiu dez estádios novos para o Euro-2004, dos quais sete estão permanentemente às moscas e constituem um encargo ruinoso para as autarquias, não tem dinheiro para construir uma pista coberta onde os nossos atletas olímpicos se possam treinar durante o Inverno…
Cruzei-me com Nélson Évora na TVI, a semana passada, e fiquei impressionado com a humildade, o antivedetismo absoluto e o visível amor que tem àquilo que faz. Não é todos os dias que nos cruzamos com um português campeão do mundo e não é todos os dias que o ouvimos dizer apenas que gostaria de ter condições para se treinar em Portugal. A propósito: não ouvi foi nenhum daqueles que contestam o Deco e o Pepe na Selecção de Futebol, contestarem também o estatuto de portugueses da Naide Gomes, nascida em S. Tomé e Príncipe, do Francis Obikwelu, nascido na Nigéria, ou do Nélson Évora, cabo-verdiano nascido na Costa do Marfim e treinado em Espanha…
3 - Há pouco mais de quatro meses, vi nascer nos courts do Estádio Nacional durante o Estoril Open, uma jovem esperança do ténis sérvio, fã do Benfica, chamado Novák Djokovic. Pareceu-me, logo ali, que ele iria longe, mas nunca imaginei que tão rápido. Anteontem à noite, na TV, vi-o bater-se como um leão contra o quase imbatível Roger Federer, na final do US Open. A jogar a sua primeira final de um Grand Slam aos 20 anos de idade (!), Djokovic só caiu vítima dos nervos e da inexperiência, depois de ter desperdiçado cinco set-points na primeira partida e dois na segunda (6-7, 6-7, 4-6). E porque Federer é, provavelmente, o jogador mais completo de sempre.
4 - Na sua coluna de «senador» de A BOLA, Rui Moreira chamou a atenção para o facciosismo daqueles que gritaram aos quatro ventos que o segundo golo do FC Porto em Leiria tinha sido irregular (e foi), «esquecendo-se» de dizer que, logo aos 3 minutos de jogo, um golo completamente regular tinha sido anulado ao FC Porto. O Record até destacava o «golo irregular» para título de 1.ª página e houve até quem escrevesse que coisas destas «duram há décadas». Em certos espíritos, o facciosimo benfiquista foi de há muito ultrapassado por um vírus bem mais demencial: o ódio fanático ao FC Porto. Se eles mandassem, o FC Porto seria, pura e simplesmente, varrido dos estádios e pavilhões do país. Como, aliás, sempre se tentou fazer em Portugal com aqueles que, pelos seus méritos, incomodam a mediocridade e o privilégio instalados.